Intelectuais de Angola protestam contra a escolha de Fernando Pessoa para patrono de CPLP

PorEXPRESSO DAS ILHAS,11 fev 2019 13:04

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A escolha do poeta Fernando Pessoa como patrono de um programa de intercâmbio académico a nível da CPLP está a ser duramente criticada por algumas personalidade angolanas que apontam o racismo e a defesa da escravatura manifestada pelo autor português como motivo da rejeição.

O nome de Fernando Pessoa foi escolhido pela Comunidade os Países de Língua Portuguesa (CPLP), actualmente presidida por Cabo Verde, para patrono de um programa similar ao Erasmus, que visa a educação, formação e mobilidade de jovens do espaço de língua portuguesa, oferecendo-lhes oportunidades de estudo, aquisição de experiência e voluntariado por um período curto num dos países da CPLP à sua escolha.

Este fim de semana começaram a surgir reacções de desagrado, vinda por agora de algumas personalidades angolanas. É o caso de Luzia Moniz, presidente da PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana que num artigo de opinião publicado no Jornal de Angola expôs as ideias racistas e a apologia à escravatura em textos de Fernando Pessoa.

“Aos 28 anos escreveu: “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude”. Em 1917, aos 29 anos continua: “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.”, escreveu a intelectual no artigo intitulado “CPLP escolhe escravocrata racista para projecto juvenil”.

E com a obra “Fernando Pessoa: Uma (quase) autobiografia” do investigador brasileiro José Carlos Cavalcanti Filho como referência Luzia Moniz prossegue com as citações de Pessoa para fundamentar que, aquele que é tido como um dos maiores poetas da língua portuguesa, era defensor de uma ideologia racista e pró-escravatura: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?””.

Segundo a Angop, para a intelectual angolana a indicação de Pessoa por parte de Portugal faz parte de uma tentativa de “branquear” a imagem do poeta, tentativa essa que não a surpreende ao contrário da pronta aceitação por parte dos outros países membros, particularmente os países africanos “vítimas da escravatura”.

Luzia Moniz terá manifestado isto mesmo na Assembleia da República de Portugal, durante a cerimónia de abertura do ano da CPLP para a Juventude, na quarta-feira passada, perante deputados portugueses, governantes dos Estados da CPLP, jovens, activistas, intelectuais e académicos afro-descendentes, brasileiros, portugueses e africanos.

“Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a Humanidade: a escravatura”.

Também o médico angolano Miguel Kiassekoka considerou a escolha do nome de Fernando Pessoa como “uma pretensão de Portugal continuar como guia do novo império, sob a capa de uma comunidade que conservou o seu centro de decisão em Lisboa”. E acrescenta que o Secretariado Executivo da CPLP deveria consultar os países membros, antes de impor unilateralmente um “nome português indigno da história comum africana”.

Outro a manifestar-se foi o sociólogo angolano Manuel Luís Dias dos Santos para quem a atribuição do nome de Fernando Pessoa para o projecto/programa de mobilidade e intercâmbio académico na CPLP “faz parte da estratégia de Portugal, como Estado membro desta comunidade, de procurar liderar e nomear os processos comuns da mesma”.

Ainda segundo o portal Angop, o investigador angolano Eugénio Costa Almeida tem posição mais moderada sobre o assunto, já que consideraria “aceitável” a atribuição, pela CPLP, do nome de Fernando Pessoa, “se tivesse sido por vontade de todos os membros da comunidade”.

“Reconheço que umas das razões que leva algumas pessoas a manifestar a sua indignação se prendem pelo facto de Fernando Pessoa ter escrito em texto algo que pode ser indicador de alguma nódoa rácica contra a população negra africana”, disse Eugénio Costa Almeida àquela agência noticiosa angolana

Nomes como Eça de Queiroz – que era abertamente contra a escravatura –, Jorge Amado, Corsino Fortes, Alda Lara, Alda Espírito Santo, José Saramago e do académico angolano Mário Pinto de Andrade foram apontados por estes intelectuais como alternativa.

“Espera-se dos países africanos membros que revertam essa situação, opondo-se ao nome de Fernando Pessoa, mesmo que com esse digno gesto se crie um novo irritante. Os irmãos de Cabo verde, que neste momento presidem a CPLP, têm uma responsabilidade acrescida nesta questão. Se Portugal olha para a CPLP como um instrumento de dominação dos outros, cabe-nos a nós, africanos, impedir que isso aconteça”, exorta Luzia Moniz.

De intelectuais cabo-verdianos no país ou na diáspora ainda não se conhecem reacções.

 

Fonte:https://expressodasilhas.cv/cultura/2019/02/11/intelectuais-angolanos-contra-a-escolha-de-fernando-pessoa-para-patrono-de-projecto-da-cplp/62305

16 regras dos falsificadores ocidentais

conference_p_obenga116 REGRAS DOS FALSIFICADORES OCIDENTAIS

Na sua obra ” Discours Afrocentriste Sur L’aliénation Culturelle”, Jean-Philippe Omotunde, nascido em Guadalupe, revela-nos 16 regras aplicadas pelos historiadores ocidentais com a finalidade de justificar a mão da Europa sobre às riquezas do planeta e particularmente d’África:
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REGRA n° 1: Não perder de vista o objectivo supremo: negar toda inteligência civilizacional aos povos “d’África negra”. Qualquer demonstração deve levar explicitamente ou implicitamente a essa conclusão. Convém manter no espírito do público a visão de uma África selvagem, não civilizada que serve de justificação hipócrita para o Ocidente.
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REGRA n° 2: Evitar mencionar os escritos valorizadores dos povos estrangeiros tendo entrado em África, não importa o período. Negar por todos os meios os seus atestados quanto à origem negra dos factos civilizacionais descritos (realizações arquitectónicas, organização social, descobertas, etc…).
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REGRA n° 3: Fazer tudo para negar a origem negra africana dos antigos egípcios (documentários, artigos de imprensa, obras históricas, Sites…). Negar ou burilar os escritos dos gregos antigos, dos árabes antigos e dos judeus antigos, testemunhas visuais da origem africana dessa civilização. Nunca citar as passagens em causa. Tratar com escárnio qualquer autor retomando as citações em causa.Omotunde
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REGRA n° 4: Mexer a documentação histórica africana: falsificar os textos, as datações, os murais de parede, multiplicar os erros de tradução. Evitar qualquer documento africano revelando a origem negra dos egípcios antigos.
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REGRA n° 5: Evitar divulgar os verdadeiros resultados das escavações arqueológicas e das datações de carbono 14, com a finalidade de colocar continuamente a Mesopotâmia diante de África para as descobertas cruciais (invenções da escrita, matemática, astronomia, etc… ). Para a Mesopotâmia, manter o representação artística: quem descobriu? Quem tem datado? Quando? Onde? Como? Eis as perguntas a que nunca se deve responder.
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REGRA n° 6: Nunca citar os resultados dos colóquios internacionais de confronto de teses históricas e científicas entre pesquisadores panafricanistas e ocidentais. Manter em silêncio a existência dos relatórios, pois estes estão todos em desvantagem das teses históricas ocidentais.
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REGRA n° 7: Nunca convidar um pesquisador não-Ocidental para um debate público sobre a história da humanidade, pois correria o risco de revelar os seus subterfúgios.
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REGRAS n° 8: Apresentar as análises históricas actuais como exatas mesmo que estejam em perfeita contradição com a confissão dos historiadores antigos. Passar em silêncio a existência de documentos contraditórios às suas teses.
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REGRA n° 9: Defender explicitamente ou implicitamente, através de toda a análise histórica, a superioridade intelectual dos povos Nórdicos sobre a África negra. Negar a herança africana (Ciências, cultura, espiritualidade, etc…) por todos os meios desonestos.
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Regra n° 10: Nunca revelar a íntegra da documentação histórica universal, pois esta diligência arrisca-se a prejudicar as teses ocidentais. Nunca citar os trabalhos de qualquer pesquisador ou especialista africano. Preservar por todos os meios a tutela intelectual ocidental.
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Regra n° 11: Injectar artificialmente nas consciências dos africanos, a lembrança de uma África selvagem, perpetuamente escravizada, à deriva, civilizada pelo ocidente e sem futuro. Tirar proveito da ignorância dos negros sobre a sua própria história para mantê-los eternamente em servidão.
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Regra n° 12: Colocar em quarentena qualquer pesquisador ocidental recusado a colaborar. Rescindir as encomendas de suas obras, evitar convidá-los para debates e excluí-los das listas bibliográficas nas Universidades.
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Regra n° 13: Nunca promova uma obra emanada de um autor panafricano que apresente a África de forma positiva e pragmática. Pelo contrário, chamar qualquer autor africano, depreciativo ao continente.
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Regra n° 14: Fazer com que os africanos se convencem da sua responsabilidade no declínio de África e esperarem a sua salvação de fora.
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Regra n° 15: Negar a herança espiritual de África e manter a imagem de uma África maldita, tendo recurso a textos religiosos subversivos e sem fundamento histórico (ex. Maldição de Cam).
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Regra n° 16: Através das obras históricas destinadas às crianças, induzir explicitamente ou implicitamente a visão da hierarquização das raças. Apresentar os personagens negros exclusivamente em posição servil mesmo que se trate de civilizações implantadas em África. Preferir, cenários precários (Cabanas de palha) aos grandes impérios negros como local de desenrolar das ações. Passar em silêncio as aulas reais dos grandes impérios, e o prestígio internacional das civilizações africanas.

Falar de racismo em Portugal é um tabu

mamadouOPINIÃO

Desafiámos Mamadou Ba a pronunciar-se sobre o episódio ocorrido este fim-de-semana na Feira do Livro durante um debate sobre activismo no qual era um dos participantes.

No dia 2 de Junho, a convite de Joana Gorjão Henriques [jornalista do PÚBLICO e autora de Racismo no país dos brancos costumes], fui à Feira do Livro de Lisboa discutir ativismos em torno deste seu último livro, editado pela Tinta da China, na companhia de Ana Tica, Beatriz Gomes Dias e Raquel Rodrigues.

Com vivacidade, intensidade e acutilância, as magistrais intervenções das minhas companheiras de ativismo puseram o dedo na ferida, vincando o caracter estrutural do racismo na sociedade portuguesa, mostrando como o ativismo pode – e está cada vez mais a consegui-lo –  quebrar o tabu sobre a sua existência e desconstruir o mito de uma certa excecionalidade do legado colonial português que seria uma espécie de maleita virtuosa que preveniria o racismo.

Enquanto decorria o debate, uma funcionária da APEL, visivelmente incomodada, manifestava a sua discordância com o teor da conversa, tecendo comentários e referindo-se a nós como “esta gente”. Ainda estávamos a meio do debate quando ela começou a pedir para apressarmos o seu fim, uma vez que se iria seguir um outro evento no mesmo local. Continuou a insistir para acabarmos o debate de imediato, estava a Raquel Rodrigues no uso da palavra. Quando chegou a minha vez, após ter agradecido à Joana pelo seu contributo na visibilidade do ativismo, de me orgulhar de ter ali três mulheres negras a usar da palavra, a falar por e sobre si próprias e sobre nós todo/as, o que achava mais um passo na conquista de lugar no espaço público, eis que sou diretamente interpelado pela funcionária nos seguintes termos: “Vê lá se te despachas!”

Aconteceu-me um momentâneo bloqueio mental. Não é que não esteja habituado a ser interrompido ou até, por vezes, apupado durante uma intervenção. Consoante as circunstâncias e os contextos, costumo lidar com frieza ou ira. Mas naquele momento, nem uma nem outra coisa aconteceram. Por instantes, tive um nó na garganta. Porque ficou claro para mim que, não fosse o debate sobre ativismo anti-racista e as e os seus protagonistas serem sujeitos racializados negros, obviamente que esta cena não teria nunca acontecido nos moldes em que aconteceu. Senti-me terrivelmente violentado, desrespeitado e humilhado e senti uma profunda desilusão tendo em conta o contexto e o ambiente.

Ainda assim, a indignação da editora Tinta da China, pela voz de Bárbara Bulhosa, da quase totalidade da assistência, das minhas companheiras de mesa foi um bálsamo para mim, bem como a avalancha de reclamações no livro de reclamações [da Feira do Livro] foi motivo de orgulho e esperança.

O que aconteceu connosco na Feira do Livro, e a inaceitavelmente tardia reação da própria APEL, levantam a questão sobre qual o nosso lugar na sociedade portuguesa. Pois a questão do lugar é das mais centrais no debate sobre o racismo nas sociedades como a nossa, onde a colonialidade, âncora da banalização do racismo, assume relevância cultural. A invisibilidade do corpo negro no espaço público prende-se, em larga medida, com o lugar de fala que lhe é reconhecido e/ou atribuído. Porque falar é poder. Poder de luta, de confronto com a realidade, de capacidade de propostas e de potencial transformador das relações de força. A partir do momento em que negras e negros querem e podem falar por si, sobre si próprios e a sua condição, mas também com e sobre a sociedade, com autonomia política, estala o verniz. O que aconteceu na Feira do Livro inscreve-se basicamente na lógica do que tem acontecido ultimamente no país, em que vozes negras que ousam falar do racismo e da sua ligação com o legado colonial sofrem uma injunção ao silêncio.

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Sabemos que dói quando se toca na ferida, mas se não a tratarmos enquanto é tempo será muito mais difícil extirpar a gangrena e evitar episódios como aquele que aconteceu no sábado. A sociedade e as instituições têm de se habituar que o debate sobre racismo jamais será quando e como quiserem. O episódio de sábado revela o quão importante é não deixar o espaço do debate aos arautos da verdade única que querem silenciar o ativismo para continuar a legitimar o racismo.

Os sujeitos racializados negros vão continuar a afirmar com autonomia e determinação a escolha do momento de fala. E a força e as circunstâncias do seu aparecimento no espaço público são, efetivamente, uma posição política clara de luta pelo reconhecimento do seu direito à palavra, o seu direito ao lugar na sociedade portuguesa. Mais do que objetos de uma condição histórica determinada apenas por outrem, assumem-se como sujeitos políticos que lutam pela sua afirmação.

No sábado ficou claro que falar de racismo na sociedade portuguesa ainda incomoda e é por isso que importa manter o debate aceso no espaço público. O nosso ativismo nunca foi para mendigar lugar, mas sim para conquistar lugar, direito e legitimidade política para ocupar todos os espaços de cidadania em liberdade.

Mamadou Ba escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Fonte: https://www.publico.pt/2018/06/04/sociedade/opiniao/falar-de-racismo-em-portugal-incomoda-e-e-por-isso-tambem-que-importa-1833148?utm_source=notifications&utm_medium=web&utm_campaign=1833148#

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Boubakar Keita: “Não há intercâmbios entre os cientistas africanos”


Professor Boubakar Namory Keita
Professor Boubakar Namory Keita

Boubakar Keita diz que isso prejudica o continente

A falta de contactos entre cientistas e investigadores africanos é ”um grande desafio” para o desenvolvimento de África, disse Boubakar Namory Keita professor de história e e antropologia na Universidade Agostinho Neto.

“Não há um grande intercambio entre as universidades angolanas, entre a intelectualidade angolana os centros de estudos angolanos e os seus congéneres de outros pais africanos mesmo os mais próximos como Namíbia África do Sul congo e outros”, disse Keita.

“Infelizmente isto é um grande deficit e faz parte dos actuais desafios que se colocam ao continente africano”, acrescentou o professor para quem esta situação “faz parte dos inúmeros problemas que o continente vive na ciência e na investigação cientifica”.

“So se observam focos isolados e infelizmente não há grande troca de experiencias não há um intercambio efectivo permanente entre as regiões”, disse.

“Existem mais intercâmbios entre Angola e Portugal, entre Angola e o Brasil do que entre Angola e o Senegal ou o Mali Burkina Faso”, afirmou Keita acrescentando que isso “é uma herança colonial “.

Keita falava por ocasião da publicação pela Mayamba Editoria e a a faculdade de ciências sociais a obra “Contribuição endógena para a escrita da história da África Negra – Ensaio sobre a obra de Cheikh Anta Diop.

O acto visou saudar o Dia de África – 25 de Maio e os 40 Anos da Independência de Angola, sob o lema “Angola 40 Anos – Independência, Paz, Unidade Nacional e Desenvolvimento”.

Keita disse que Diop “desconstruiu toda uma mitologia em volta do passado da África, em volta daquilo que África era capaz e irá ser”.

Para Keita Diop “teve que desmantelar e desconstruir um conjunto de mitos em volta do passado e da capacidade dos negros africano para construir novos paradigmas novos modelos”.

“Faltava essa pequena luz que possibilitava uma outra contribuição do passado da África Negra para podermos fazer uma historia objectiva mas não uma historia partidária ou subjectiva” disse o professor da Universidade Agostinho Neto.

https://www.voaportugues.com/a/no-h-contactos-entre-investigadores-africanos-professor-da-universidade-agostinho-neto/2802014.html

Boubacar Keita: “Eu sou de opinião que a democracia não pode ser universal.”

Boubacar Keita1O historiador Boubacar Keita, um eminente professor universitário, assume, em entrevista ao Jornal de Angola, desilusões de gerações anteriores e exorta a juventude a mostrar capacidade de se levantar, apesar dos problemas com que se debate.

Dia do continente instituído há 55 anos
Fotografia: Domiano Fernandes | Edições Novembro

Ainda faz sentido comemorar, efusivamente, o 25 de Maio como Dia de África?
Sim. Ainda é relevante comemorar o dia do Continente. Será sempre um aniversário, imbuído no nascimento da Organização da Unidade Africana (OUA). Apesar das dificuldades e desilusões, não podemos esquecer que se trata da única grande organização que o continente tem. Não podemos deixar de comemorar o aniversário de um filho, porque deixou de nos agradar. É, até, mais indispensável, nas condições actuais, frente às dificuldades e questionamentos de gerações um tanto perdidas (objectiva e subjectivamente) nos meandros de projectos fracassados.

Mas esse “filho” nunca atingiu a maturidade que se estendesse até às gerações actuais?
Será preciso revitalizar, consolidar, construir. A OUA tinha projectos de toda a ordem, que visavam dar um novo ponto de partida a toda África, depois do colapso colonial. Deveria abarcar todas as áreas, da política à cultura. Mas os anos foram passando, o mundo foi evoluindo e encontrámos várias fases, sendo a última a globalização, com a sua estrutura e particularidades, que acabaram, mais uma vez, por tocar toda a esfera da vida do continente. Portanto, a evolução após Adis-Abeba fez-se nestas condições. Estão aí as fontes das razões das desilusões, dos fracassos e dos progressos.

Houve algum progresso?
Houve progressos. Por isso, é preciso comemorar. A União Africana ainda é a única organização que temos e pode oferecer ainda muita coisa, porque tem projectos que podem ser levados a bom porto. A actual geração não tem o direito de parar pelo caminho. Estou convencido de que os nossos filhos devem questionar sempre, e cada vez mais, dispondo, para além da educação, de informações que sirvam de ferramentas.

A África foi prejudicada pela globalização?
Antes de tudo, a globalização é um quadro mundial, com um novo posicionamento para todas as partes integrantes. Dentro desse conjunto, encontramos países diversamente posicionados, que realmente construíram relações bilaterais e multilaterais individualmente, em função dos seus interesses. Tudo isso perfaz a complexidade deste quadro, no qual não é fácil mover-se. África começou bem, para fazer frente aos desafios deste novo quadro. Mas, grosso modo, não foi capaz de segurar as rédeas perante determinadas evoluções, de modo que, em alguns domínios, fica bastante prejudicada. Mas, sendo pragmáticos, entendemos que este quadro é indispensável. É resultante da evolução do mundo, com as suas relações complexas.

Ou seja, vive-se a lei do mais forte?
Nem sempre essas relações são compreensíveis, porque cada Estado evolui mais ou menos em função dos seus interesses. E é extremamente difícil, se não mesmo quase impossível, conciliar esses interesses. E neste jogo vencem os mais poderosos, os melhor preparados, as chamadas potências actuais: China, Estados Unidos e o conjunto da União Europeia, com a Rússia em destaque. Neste contexto, a África aparece como o anel mais fraco e, consequentemente, sofre ainda mais nesta concorrência, que é o único jogo dentro deste quadro. Todos os concorrentes têm de ter algo a propor e algo a exigir. Os que não tiverem nada a propor dificilmente poderão receber ou então se contentam com o que lhe será imposto, mesmo que não corresponda às suas necessidades reais. Francamente, acho que África está a viver isso, por várias razões.

Pode exemplificar?
Do ponto de vista económico, porque ainda não conseguiu ultrapassar a fase da acumulação primitiva. Continua a ser mero fornecedor de matéria prima. Sabemos que no mundo actual um fornecedor de matéria prima não tem grande capacidade de desenvolvimento. No plano político, é quase a mesma coisa. África parou de inventar, de criar novas instituições políticas e jurídicas para enriquecer esta democracia universal. Mais uma vez, posiciona-se como uma ingénua consumidora da ideia de democracia que vem de outros pontos.

Podemos ter outra perspectiva da dita “democracia”?
Sim. Eu sou de opinião que a democracia não pode ser universal. A democracia, como ferramenta, instituição ou factor de desenvolvimento, é universal. Agora, os critérios da democracia é que não podem ser universais. Devem depender da história e da cultura de cada povo. Sem levarmos em consideração o património identitário, não pode haver uma democracia actuante. Não podemos aplicar a democracia americana, russa, chinesa ou polaca para o nosso desenvolvimento. Isso é um “bluff”. A democracia é quadro e factor de desenvolvimento. Porque se deve respeitar o que cada um quer, para assim todos levarem subsídios para a construção dessa democracia que quer ser chamada de universal. Sem isto, não há democracia universal.

Esta “ingenuidade” sustenta a ideia de que “a razão é helénica e a emoção africana”?
Não é verdade que a razão seja helénica e a emoção negra e que o homem negro se caracterize tão somente pela sua emotividade, este sentimento classificado como o mais baixo possível, em relação à razão. Nesta breve referência, acho que isso levanta muitos problemas, desde o pré-colonial aos dias actuais. Tudo isto pode ser verdade. Mas não menos verdade é que, quan-do saímos do período pré-colonial para o colonial, muita coisa mudou. Eu costumo dizer que, objectivamente, as sociedades africanas colonizadas foram desestruturadas, embora alguns acreditem que tenham sido reestruturadas.

Pode explicar?
Para as potências colonizadoras, convinha proceder assim, em defesa dos seus interesses efectivos, nos territórios colonizados. Para elas, objectivamente estava tudo certo, do ponto de vista da política colonial. A independência das ex-colónias veio com este legado. Não houve praticamente o menor esforço de reestruturar aquilo que tinha sido desestruturado. Passamos para a nova época com este legado, totalmente viciado.
Em 1958, na Conferência dos Povos de África, organizada por Kwame Nkrumah, em Accra,  uma das recomendações foi reorganizar as economias, para poder consolidar a independência dos países. A ideia deve ter passado despercebida ou os líderes não deram a devida importância. Repetiu-se em 1963, já em Addis-Abeba.

Como entender o contínuo marasmo, se já estamos livres e temos capital humano?
O resultado é que os quadros, numa primeira fase, foram formados fora de África. Depois, começaram a estabelecer-se internamente as instituições de ensino superior. Repare que aqui também, na concepção dos currículos, baseamo-nos, em muito, nos currículos das antigas potências colonizadoras. Até hoje, debatemos pormenores e estruturas curriculares em função dos países colonizadores. Cada um defende o tipo de currículo no qual estudou. E isso é um grande problema. Não houve e não há nenhum esforço de criatividade. Não inventamos nada.

Ainda somos o resultado “anormal” de consequências coloniais?
Fica-se com essa ideia. Actualmente, a democracia que elegemos para desenvolver os nossos países nem é da nossa invenção. Adoptámos e sequer nos conseguimos adaptar a ela. Eleições periódicas e multipartidárias, legitimidade a partir do povo, isso tudo é muito bonito. Mas analisemos: qual é o nível de educação dos nossos povos? Uma das exigências da democracia e, simultaneamente, um dos momentos importantes da consulta popular para se chegar à legitimidade, é propor o projecto de sociedade. Paradoxalmente, muito poucos africanos sabem sequer fazer o cálculo para se atingir o salário mínimo.

Como encontrar o caminho?
Para inventarmos ou criarmos, podemos encontrar critérios na África pré-colonial. Eu tenho a impressão de que ainda há líderes africanos que tentam conciliar os dois critérios. Há uma tendência nítida em revisitar as Constituições antigas, no sentido de mudar o número de mandatos. Geralmente, a maior parte das constituições em África proclamam dois mandatos consecutivos. Tem sido recorrente a tendência de serem ilimitados. Isso é um critério pré-colonial. Mas, para que isso seja legal, tem de ser acompanhado por outras instituições e o povo deve estar presente. Porque antes eram monarquias. Os monarcas de então tinham preocupação efectiva com aquilo que o povo  pensava e este estava representado no conselho dos anciãos, que não tinha nenhuma espécie de compromisso com quem quer que fosse.

Será isto o que falta à actual classe política africana?
Todos os líderes actuais falam de anseios e preocupação do povo. Mas como se explicam as constantes manifestações populares contra as suas políticas? Acho que não deveria haver. Naquelas épocas, o soberano que deixava de trabalhar em benefício do povo era compulsivamente destituído pelo conselho dos anciãos. Os bons podiam ficar no cargo até morrer. É isso que alguns líderes querem conciliar: o moderno com o antigo. Querem tirar do antigo o que lhes convém, neste caso, o carácter ilimitado do número de  mandatos, sem, no entanto, se preocuparem realmente com o povo, desviando dinheiro. Antigamente, nenhum soberano poderia ter bens fora do território.

A quem culpar, pela pilhagem de países riquíssimos? O Congo Democrático é um exemplo …  
O Congo Democrático é escandalosamente rico. Mas, depois de Patrice Lumumba, todos os líderes que passaram por lá foram do piorio. Não encontro outro termo adequado, até porque o decoro não servirá para nada neste caso. Foram quase todos grandes bandidos. A RDC tem muito potencial. É um dos países africanos com maior capital em recursos humanos, além da incalculável riqueza em recursos naturais. Mesmo assim, podemos constatar que tudo isso não é suficiente, porque bastou chegarem ao poder indivíduos obscuros, iletrados, que não tiveram (na sua maioria) conhecimento profundo daquilo que o Congo é de facto. Se tivessem, a atitude seria outra.

Há quem alegue que o problema está nas ingerências. Corrobora?
Se há ingerência é porque os donos a permitem. Os donos é que abrem as portas de casa para os forasteiros entrarem. Ninguém, que eu saiba, forçou as portas do Congo. O Congo não foi vítima de invasão externa americana, francesa ou belga. Não foi. Os próprios líderes, de uma ou de outra forma, é que abrem as portas. E a dívida externa é o resultado da má gestão. Se alguém gere mal o seu dinheiro, acaba empobrecido. Depois, se quiser viver, tem de pedir ajuda. Caricaturando mais uma vez o escândalo das lideranças africanas, quan-do a dívida externa é X, a riqueza individual de cada líder é X+1.

Mas tivemos o caso Kadafi …
Tinha grandes sonhos.

Morreu por isso?
Como sempre, todos os africanos que tentaram efectivar este tipo de sonho foram directa ou indirectamente eliminados. Começou com Kwame Nkrumah. Naquela altura, ainda não havia a petulância de atacar, via armada, um país africano abertamente. E isso foi sempre orquestrado para enfraquecer o alcance de políticas sérias e desacreditar sonhos. Deste modo, ficamos alinhados à lógica de que “o povo quando tem fome não tem ouvidos, perde a razão”. Basta agir à volta disso, torná-lo esfomeado a ponto de perder a razão.
Isso levou, no caso de Nkrumah, a não realização de projectos de unidade sub-regionais que desenhara. Naquela altura, o Ghana, apesar de possuir poucos quadros, ainda assim ajudava países como Mali e a Guiné. Muitos africanos desconhecem isso. Na década de 60, esses países tinham cooperantes ghanenses, para superar determinadas urgências, principalmente, na medicina. Isso nunca agradou à Bélgica, França, Estados Unidos ou Grã-Bretanha.

Foi, também, o caso de Tomás Sankara?
A época 70-80 é tida como a década dos golpes de estado militares, perpetrados por jovens elites dos exércitos, apoiadas por pessoas que não se viam agradadas por esses dirigentes. Foi o caso de Thomas Sankara. E todo o mundo sabe, não só os burquinabes, mas toda a África consciente sabe disso. O grande mal de Thomas Sankara foi ter dito que iríamos produzir aquilo que vestimos, comemos e ter relações internacionais em função dos nossos interes-ses. Kadafi tinha os mesmos sonhos e projectos. Ajudava a pagar quotas de países com má gestão, a ponto de não ter interesse em pagar às organizações internacionais. E tinha uma ideia lúcida sobre determinadas organizações internacionais. Isso saturou a paciência dos grandes do mundo.

 “África ainda não conseguiu negar o desenvolvimento”

No fundo, África continua ou não a ser uma espécie de “escrava económica”?
Sim. A economia africana produz-se da ilusão. Eu simplesmente tenho de reconhecer que hoje há uma ilusão de que temos economias saudáveis, cientificamente construídas e geridas. Tudo isto é uma ilusão, um engano terrível. Os modelos e paradigmas da nossa gestão económica foram construídos a partir do outro. Essa é a realidade. E a globalização impõe-nos colaborar obrigatoriamente com o FMI e outras instituições. Digo que “nos obrigam”, porque as regras e as estruturas da economia mundial estão de tal forma, que dificilmente poderíamos gerir as nossas matérias-primas, sem passar por eles. A tecnologia usada para a produção não é nossa. São várias as fases para tornar os nossos recursos alavancas reais do desenvolvimento. É por isso que digo que podemos fazer discussões fervorosas nos parlamentos mas, acima de tudo, sem querer exagerar, depende da “boa vontade de fora”.

E o que dizer da abertura da moralização da justiça, estando a África do Sul na proa?
É um bom modelo. Mas gostaria de ver até onde vai. Não que estruturalmente não tenha confiança na capacidade do negro africano em fazer algo de grande. O problema não é este. Há muitos e diversos condicionalismos. Por enquanto, a África do Sul é de fato o grande exemplo.

Somos, de facto, de um continente “maldito”?
Depende! Maldição do ponto de vista da nossa incapacidade de compreender que herdámos histórica e logicamente um fardo? Mas, como ser humanos inteligentes, deveríamos tentar adaptar este quadro às nossas realidades, a fim de eliminar o seu peso e consequências nefastas. Ora, deste ponto de vista, até agora parece uma maldição. Há mais de quarenta anos que África é independente, mas ainda não conseguimos chegar ao desenvolvimento. A maioria dos países do continente não tem sequer água potável. Com a energia passa-se a mesma coisa.

  “A juventude ficou abafada”

O problema tem a ver também com o quadros?
Paradoxalmente. África quer-se  desenvolver com países normais. Os países importam coisas de um país normal. Quero com isto dizer que estas coisas todas funcionam com energia. E isso é anti-desenvolvimento.
Temos quadros muito bem formados, que até são chamados como consultores internacionais.
Mas quando se trata dos seus respectivos países, curiosamente, fazem o contrário. Deste ponto de vista, parece sim uma maldição. Embora, objectivamente falando, não é uma maldição,mas apenas um momento com quadros desta natureza.

E à juventude, o que o professor tem a dizer?
Sem demagogia, embora a juventude também não seja culpada, mas parece que ficou tão abafada pelos problemas, realidades negativas dessa África, que deixou também de ter criatividade. Na minha opinião, a força da juventude deve estar nisso e não no poder que detém. Deve mostrar capacidade de se levantar, apesar dos problemas que estão em cima de si. Mas parece que a emigração tem sido a única via, mesmo que custe a vida de muitos.

PERFIL

Nome 
Boubacar Namory Keita.

Doutorado 
(Ph. D) em Ciências Históricas pela Universidade de Leninegrado, Rússia, desde 1977.

Profissão
É professor titular de História e Antropologia Africana na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto. Orienta trabalhos de Licenciatura em História e Antropologia, desde 1987 e de Doutoramento, desde 2013.

Publicações
“História da África Negra” (2009); “Cheikh Anta Diop” (2009).

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/africa_deve_criar_modelo__proprio_de_democracia#foto

Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas

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II CONGRESSO INTERNACIONAL, VII SEMINÁRIO INTERNACIONAL ACOLHENDO AS LÍNGUAS AFRICANAS: IV CONGRESSO NACIONAL AFRICANIDADES E BRASILIDADES: DIREITOS HUMANOS E POLÍTICAS PÚBLICAS

Início: 17/09/2018 Fim: 20/09/2018 Data de abertura: 10/05/2018 Data de encerramento: 30/07/2018 Países: Brasil

Estão abertas as inscrições para o II Congresso Internacional, VII Seminário Acolhendo as Línguas Africanas: IV Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas que ocorrerão na Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes, nos dias 17, 18, 19 e 20 de setembro de 2018.

O II CINAB, VII SIALA e IV CNAB: Direitos Humanos e Políticas Públicas são uma realização do Núcleo de Estudos e Pesquisas Africanidades e Brasilidades – NAFRICAB/Ufes em parceria com o Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros em Línguas e Culturas – GEAALC/Uneb.

O objetivo dos Núcleos de Estudos e Pesquisas envolvidos no II Congresso Internacional, VII Seminário Internacional Acolhendo as Línguas Africanas: IV Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas é estabelecer um diálogo transatlântico entre o Brasil e África valorizando aspectos ligados às esferas literária, linguística, artística, histórica, filosófica e educacional.

O II CINAB, VII SIALA e IV CNAB: Direitos Humanos e Políticas Públicas contarão com palestras, mesas-redondas, Grupos de trabalho, oficinas, minicursos, atividades culturais, exposição, lançamento de livros e conversas com escritores.

Grupos de trabalho

  • Africanidades e Brasilidades em Literaturas e Linguística
    Profa Dra. Michele Silva Schiffer (FAPES/Ufes), Profa. Dra. Lise Arruda (Geaalc/Uneb), Prof. Dr. Amarino Queiroz (UFRN/Nafricab)
  • Africanidades e Brasilidades em Educação e Relações Ético-raciais
    Profa. Dra. Kiusam de Oliveira (Ufes), Profa. Dra. Candida Soares Costa (UFMT), Prof. Dr. Gustavo Forde (Ufes)
  • Africanidades e Brasilidades em Direitos Humanos e Políticas Públicas
    Prof. Dr. Ivan Costa Lima, Profa. Dra. Ana Lucia Borges de Carvalho (Geaalc/Uneb), Profa. Dra. Joselina da Silva (UFRRJ)
  • Africanidades e Brasilidades em Teatro Negro e Africano
    Prof. Hamilton Celestino da Paixão (Sedu/Geaalc/Uneb), Prof. Dr. Ivo Ferreira de Jesus (Geaalc/Uneb)

Cada Grupo de Trabalho receberá até 60 trabalhos para apresentação em 15 minutos cada, sendo assim, serão selecionados respeitando a data de envio do resumo: 30 de julho.

Minicursos

  1. Línguas africanas no Brasil
    Profª Drª. Lise Arruda (Geaalc/Uneb) e Profª. Drª. Yeda Pessoa (Geaalc/UFBA)
  2. Bairros negros: corporativismo e autonomia das populações negras
    Dr. Henrique Cunha Junior (UFC)
  3. Diálogos ibero-afro- americanos em literatura e cultura
    Dr. Amarino Queiroz (UFRN/Nafricab)
  4. Teatro negro e africano
    Hamilton Celestino da Paixão (Sedu/Geaalc/Uneb) e Prof. Dr. Ivo Ferreira de Jesus (Geaalc/Uneb)
  5. A Educação em Direitos Humanos e o Enfrentamento às Violências na Escola
    Profª. Heloisa Ivone da Silva de Carvalho (Coordenadora da Comissão de Educação em Direitos Humanos/ GFDE/SEME)

Mais informações e inscrições: http://www.eventos.ufes.br/CNAB/CINAB2018.

 

IV GRIOTS | CONGRESSO INTERNACIONAL DE LITERATURAS E CULTURAS AFRICANAS

Início: 19/11/2018 Fim: 21/11/2018 Data de abertura: 10/05/2018 Data de encerramento: 30/09/2018 Países: Brasil

IV Congresso Griots
Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas
Literaturas e Direitos Humanos
19-21 de novembro, 2018
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Lagoa Nova, Natal – RN

O IV Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas, GRIOTS, a se realizar nos dias 19, 20, 21 de novembro de 2018, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Campus Salgado Filho, Natal, Nordeste do Brasil, afirma lugares de fala, de perspectiva, e de diversidades temáticas que atravessam a reflexão sobre a Literatura, os direitos humanos, a violência contra as mulheres negras e a comunidade afrodescendente mundo afora.

Submissão de propostas dos GTs

Cada GT comportará até 02 (dois) coordenadores de instituições distintas e com título de doutorado. A data limite para o envio de proposta será até 15 de maio de 2018. Em seguida, serão abertas as inscrições de comunicações orais em grupos de trabalho.

As propostas de trabalho serão avaliadas pela comissão organizadora do Griots 2018. Após o encerramento do período para a submissão das propostas de grupos de trabalho, será divulgada no dia 25 de maio de 2018 a relação dos aprovados no site do evento.

​O período de inscrição em propostas dos GTs será de 01/junho/2018 a 30/setembro/2018.

Eixos temáticos para propostas de Gts

  1. Literatura e filosofia
  2. Literatura, racismo e etnicidade
  3. Literatura e direitos humanos
  4. Literatura, sexualidade e feminismo negro
  5. Literatura, descolonização, guerras e diáspora
  6. Literatura afrobrasileira e latinoamericana
  7. História, ancestralidade, mitos, memória, religiosidade e oralidade
  8. Áfricas, cinema, artes plásticas
  9. Literatura, música e cultura popular
  10. Literaturas e ensino
  11. Literaturas em língua portuguesa
  12. Linguagem, tradução, práticas discursivas
  13. Literaturas indígenas e caribenhas

Mais informações no site do IV Congresso Griots.

Filho adotivo de herói angolano Lucio Lara é professor da Universidade de Howard nos EUA

Jean-Michel Mabeko-TaliEstive a fazer umas investigações sobre a vida de Lucio Lara ex. Secretário Geral do MPLA que faleceu ontem em Luanda, grande companheiro e amigo de Agostinho Neto, sobretudo no período da guerra civil contra a UNITA e a FNLA, no período da conquista da independência.

Depois de ter descoberto que ele tem três filhos vivos, Paulo, Bruno e Wanda Lara, descobri também que adoptou uma criança congolesa. O menino em questão é um rapaz chamado Jean-Michel Mabeko Tali, que tornou-se amigo de Paulo Lara (filho de Lucio Lara) no período em que a família Lara residia no Congo, onde o MPLA mantinha o seu quartel general, no combate às forças coloniais portuguesas.

História política do nacionalista angolano Lúcio Lara.

Luicio Lara com Agostinho Neto em Luanda, em 1978.A história política do nacionalista angolano Lúcio Lara “Tchiweka”, desde os primórdios da luta anticolonial até à independência, em 1975, preenche uma fotobiografia que será lançada em Lisboa no dia 04 de fevereiro.(ACOMPANHA TEXTO) STR/LUSA

Jean-Michel Mabeko Tali hoje em dia é um grande intelectual, professor da Universidade de Howard nos Estados Unidos, onde lecciona sobre Historia Politica.

Navegando na internet encontrei uma sua entrevista, onde fala um pouco sobre tudo da historia angolana, no período da independência. Uma entrevista muito interessante, efectuada em 2003, carente de muitas outras informações recentes.

Eis abaixo a entrevista, que vale a pena ler, porque ele conseguiu manter-se equidistante das actuas forças políticas em Angola, mantendo sempre uma posição neutra.

«Nenhum dos movimentos de libertação (FNLA, MPLA, UNITA) estava disposto a partilhar o poder… Penso, no meu livro, ter dado elementos suficientes para demonstrar isto», afirma o historiador Jean-Michel Tali.Jean-Michel Mabeko-Tali1

Jean-Michel Mabeko Tali, tem vários diplomas de Universidades Francesas, um Mestrado em Estudos Africanos do Instituto de História da Universidade Bordeaux III, uma pós-graduação e um doutoramento em História Política da Universidade de Paris VII.

Além de fazer análises sócio-políticas para várias revistas, Jean-Michel é também romancista. Apresentou em Paris, em Fevereiro de 2002, o livro L’Exil et L’Interdit (O Exílio e o Interdito), dedicado a uma geração na qual se inclui «de jovens revoltados e muito politizados que viveram intensamente a questão dos países africanos dominados por partidos únicos». O seu interesse pela História política terá começado nessa época..

O seu 2º romance publicado também pela Editora L’Harmattan intitula-se “Le Musée de la Honte” (O Museu da Vergonha), fala das crianças soldados, na guerra civil do Congo, é uma homenagem a uma irmã sua que foi recrutada e, será lançado em Paris, em meados deste ano.

A partir de Washington, onde se encontra como professor convidado na Howard University, Jean-Michel Tali teve a gentileza de nos conceder esta entrevista sobre os dois volumes da sua obra “O MPLA Perante si Próprio”, lançada em Angola em Outubro de 2001 e, em Lisboa, em Maio de 2002. Trata-se de uma investigação histórica sobre o percurso deste movimento transformado em partido único.

Foi no Congo que tomou contacto com militantes do MPLA. Nunca foi simpatizante do movimento?

O meu encontro com o MPLA teve lugar em Brazzaville, por intermédio de amigos Angolanos. Sou de uma geração (anos70) politicamente muito engajada, que se sentia solidária com todos os povos em luta e com todas as lutas de libertação do mundo, da África à Ásia e América Latina. Os povos de Angola viviam isso, através dos movimentos. O MPLA, sediado em Brazzaville, era para nós, representante desta luta. Fizémos o que pudémos para manifestar a nossa solidariedade ao povo angolano através do MPLA. Neste sentido, fui de uma geração solidária e, portanto, simpatizante da luta de libertação feita pelo MPLA. Não sendo Angolano, as minhas manifestações de simpatia limitavam-se a esse nível.

Como conheceu e se tornou íntimo da família Lara?

A relação com os Lara fez-se através de uma longa história de amizade entre eu e Paulo, amigo de colégio e, primogénito da Ruth e do Lúcio, em Brazzaville, nos fins dos anos 60. Tornámo-nos como que irmãos.

Como analisa o facto do MPLA ter tomado unilateralmente o poder e se ter mantido nele durante estes quase 30 anos apesar das crises que ocorrem no seu interior, desde a fundação?

Esta questão abarca considerações que vão além da simples política doméstica angolana. Na realidade, nenhum dos movimentos de libertação (FNLA, MPLA, UNITA) estava disposto a partilhar o poder com os dois outros. Não estou a fazer nenhuma revelação e, penso ter dado elementos suficientes no meu livro para demonstrar isto. Aconteceu que neste processo de 1974-75, o MPLA beneficiou de uma série de factores conjunturais, tanto objectivos como subjectivos, para “fintar” (passo a expressão) os seus dois concorrentes.

Por factores objectivos, entendo as alianças políticas tanto internas, a nível da sociedade angolana, como internacionais. Cada um dos três movimentos armados beneficiou destes factores. Mas o que fez virar o barco a favor do MPLA, terá sido a maior capacidade, a nível interno, em capitalizar alianças locais, nomeadamante das forças sociais da capital, muito mais eficientes para a conjuntura de então. Contou muito, ter a capital na mão, no contexto africano da altura, era um trunfo essencial para o que viria. As alianças internacionais: aliar-se a Cuba era, de certo muito menos prejudicial do que aliar-se ao regime de Botha e trazer o exército da África do Sul dos tempos do apartheid, independentemente das razões invocadas: moralmente, isto dificilmente passava tanto em África como na maior parte do mundo. Isto jogou muito contra a FNLA e a UNITA. O resto foi um jogo diplomático dos mais fáceis para o MPLA e os seu apoiantes.

Recordo a imagem de soldados brancos, do exército sul-africano, capturados pelas FAPLA e seus aliados cubanos, isto levado a uma cimeira da OUA…

Pode imaginar o impacto diplomático que teve! Depois disto e, apesar de algumas oposições a nível da OUA, não foi difícil fazer admitir a República Popular proclamada por Agostinho Neto nas instâncias africanas e internacionais. Subjectivamente, vou apenas lembrar que: não foi difícil ao MPLA mobilizar o povo de Luanda (e não se trata apenas uma questão étnica) contra a FNLA: por razões históricas objectivas, muitos dos Angolanos do ELNA (exército da FNLA), não dominavam a língua portuguesa. Às vezes nem sequer a falavam. Muitos eram filhos de emigrados angolanos de longa data no antigo Congo-Belga. A propaganda do MPLA, inventiva e muito dinâmica na altura, apresentou toda esta gente como sendo estrangeiros, “zairenses”, etc.

Houve participação do exército zairense – e não há maneira de a FNLA negar isto, pois não só foram capturados alguns soldados do exército de Mobutu, mas fontes da própria CIA o reconhecem. Mas os Angolanos do ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola, braço armado da FNLA) acabaram por não entrar muito na contabilidade.

Era como se não existissem! Isto foi um formidável factor que jogou a favor do MPLA e, cujas consequências ainda se podem sentir hoje, como sabe… As invasões estrangeiras, sul-africanas nomeadamente, deram ao MPLA todos os trunfos de legitimação e, de perduração do seu poder. A guerra civil, alimentada por vários factores, deu um fôlego maior a este longo reinado do MPLA. De forma que a própria vida do partido – e do país – ficou suspensa ao fim deste longo conflito: adiou-se a resposta a muitas questões quer internas ao partido, quer sociais, quer políticas, com base na resolução prévia deste conflito.

Quais foram as alianças mais importantes que o MPLA fez antes e depois da independência e actualmente?

Nenhuma luta de libertação levada a cabo no chamado “terceiro mundo” e, mormente em África escapou a um facto objectivo: não podiam contar com o apoio dos países ocidentais em termos daquilo que era essencial: as armas.

Houve, por exemplo, nos casos das lutas nas colónias portuguesas, ajudas humanitárias de países nórdicos, ou pelo menos de organizações humanitárias e de solidariedade destes países. O MPLA beneficiou muito do apoio de organizações norueguesas, holandesas e dinamarquesas. Para as armas, só podiam contar com os países socialistas, do Leste Europeu, da América Latina (Cuba) – e de forma muita complexa e mitigada – da Ásia (China e, de certo modo, muito pouco, da Coreia do Norte).

Portanto, era normal que as maiores alianças internacionais do MPLA movimento de libertação fossem com estes países. Havia os países africanos, cujo papel era absolutamente fundamental, nem que fosse por meras questões geográficas: os Congos e a Zâmbia para os movimentos angolanos, o Senegal e a Guiné Conakry para o PAIGC, a Tanzânia e a Zâmbia e, em certa medida (não muito seguro) o Malawi para a FRELIMO (já que não podiam contar muito com a Rodésia do Sul (actual Zimbabwe), o pequeno reino da Swazilândia, dada a sua difícil situação geográfica. No caso do MPLA, o maior e mais seguro aliado em África foi sem dúvida alguma o Congo-Brazzaville. Depois da independência, essas alianças foram-se diluíndo em certos casos (africanos), nas considerações de questões e “razões de Estados”… As solidariedades já não foram – e nem podiam, como é obvio! – ser as mesmas.

Qual foi o papel da PIDE nos problemas do MPLA?

Na guerra entre os movimentos de libertação dos territórios colonizados, temos sempre dois ou três níveis. O primeiro – que se torna o fundamental, mesmo quando às vezes só intervem depois, o terreno militar, quando a potência ocupante se recusa a dar a independência, como foi o caso de Portugal. O segundo terreno, é o diplomático, também é fundamental, pois dele dependem, não só a sobrevivência do movimento armado (graças à aquisição de armamentos por diversas vias entre as quais ajudas de aliados e amigos), mas também porque é nele que tem que se lutar para fazer passar mensagens, fazer vencer a causa defendida e atrair ajudas político-diplomáticas, humanitárias e materiais. Portanto, o reconhecimento internacional é essencial e constitui para todo movimento armado um terreno de luta vital. Graças a ele, o movimento pode romper as barreiras de silêncio que em geral os media das super potências construíam à volta das lutas de libertação. O silêncio, para qualquer movimento de libertação, pode ser mortal. Veja-se Timor Lorosae e, dá para entender a importância da mediatização de uma luta de libertação, isto dito sem demérito do combate interno, do qual depende o essencial da vitória. Há no entanto um terceiro terreno: a subversão. Era de “boa guerra” diríamos, no sentido de que neste tipo de situações cada um procura destruir o outro de todas as maneiras possíveis. A potência combatida vai, não só procurar destruir militarmente o movimento armado, como procurará miná-lo no interior, provocar disfunções, etc. Quem executou os planos de assassinato de Amílcar Cabral urdidos pela PIDE, foram militantes dissidentes do PAIGC. A PIDE aproveitou problemas internos ao PAIGC para armar uma mão interna. Os movimentos de libertação não tinham, concerteza, meios de responder pela mesma moeda. Quanto muito procuravam obter a solidariedade de organizações políticas portuguesas.

Mas ao mesmo tempo, seria histórico e contraproducente em termos da compreensão deste processo atribuir à PIDE todos os dissabores internos dos movimentos de libertação. No caso do MPLA, procurei mostrar, no meu livro, que as raízes das crises que sacudiram o movimento de libertação na altura, tinham de ser procuradas em factores intrínsecos e, não imputá-las sempre a uma “mão externa”, à PIDE, etc.

A que se ficou a dever o 27 de Maio?

Vou resumir aqui o que explico no livro: o 27 de Maio de 1977 é o culminar de contradições cujas origens devem ser procuradas desde a luta de libertação nacional por um lado e, nos rescaldos das lutas e aspirações sociais herdadas da sociedade colonial angolana. Nito Alves foi um combatente de uma região que pagou caro a sua proximidade com a capital da colónia. O seu contacto com a direcção do MPLA passou-se praticamente no fim da guerra. Ele como outros da Primeira Região, tinham claramente feito entender a sua diferença quanto à visão que tinham não só da forma como a luta foi dirigida (e nisto peço para lerem a mensagem da Primeira Região ao Congresso de Lusaka de Setembro de 1974, anexado no meu livro, volume I), mas e muito rapidamente, de questões como a gestão da questão racial no seio da sociedade (ler as declarações de Nito, nomeadamente em 1976, sobre este assunto e, cujos extractos cito no meu livro) e as questões sociais.

Mormente, a questão da orientação ideológica do partido no poder acabou agudizando as já existentes divergências: Nito queria uma revolução pura e dura, de tipo Bolchevick, o seu discurso pro-soviético não deixa sombra de dúvidas. Mas eu não me quis limitar a isto. O que tento mostrar é que, para se entender as motivações de Nito e, dos seus companheiros, não seria produtivo do ponto de vista da análise contentar-nos em dizer que ele se tornou “de repente” pró-soviético”.

Havia outros que o eram e outros que eram maoístas, etc. O importante na minha opinião, é entender a dinâmica socio-politica que desemboca nesta tragédia. Parece-me importante colocar a questão em termos das lutas sociais que sustentam o discurso político de Nito, e a sua convicção, quase que messiânica (clara em alguns dos seus discursos ou escritos, nomeadamente as suas famosas “Treze teses”) de que a história tinha colocado nos seus ombros um papel fundamental neste processo revolucionário angolano.

Conforme declarações suas, foram os mesmos jovens que ajudaram o MPLA a vencer a guerra de Luanda, que no 27 de Maio foram eliminados, porquê?

O MPLA deve sim, a sua regeneração política de 1974-1975 à juventude urbana, mais particularmente em Luanda.

O movimento acabava de sofrer uma longa fase de sucessivas crises e, quando chega o 25 de Abril, é um movimento exausto, dividido, militarmente sem mais capacidade de iniciativa, enquanto que, entretanto, a FNLA estava a rearmar-se como nunca o tinha sido antes e, a UNITA, que se precipitou em assinar o cessar-fogo com as novas autoridades portuguesas, saía dos confins do Moxico para não só ser reconhecida finalmente pela OUA, mas sobretudo ganhar milhares de adeptos nos centros urbanos, sobretudo no planalto central e, no resto do sul do país (há reportagens fotográficas de comícios monstruosos da UNITA nestas regiões. A entusiástica adesão de milhares de jovens, que foram das cidades para os CIR (Centros de Instrução Revolucionária), cheios de ideias românticas e muita sinceridade para ser formados como soldados, de repente deu a Agostinho Neto o fôlego que permitiu que ele e o que restava do movimento pudessem reconstituir o potencial militar deste. Não fosse isto e, face a uma provável coligação FNLA/UNITA, o MPLA teria vivido uma real descida aos infernos. A história teria sido outra.

O problema é que esta juventude entusiasta, voluntarista, estava dividida em várias tendências ideológicas, que reflectiam em grande parte as divisões ideológicas que marcavam o movimento comunista internacional, mas reflectiam igualmente as divisões ideológicas na esquerda portuguesa do pós-25 de Abril.

Estas divisões são um dos mais marcantes aspectos das lutas políticas urbanas daquela época. Para ser breve: houve um choque entre estes jovens, suas visões do mundo, suas ideologias, etc., com as da liderança do MPLA, mormente de Neto. Alguns entraram em choque com Nito Alves; outros viram nele o verdadeiro e único revolucionário, face a uma direcção do MPLA que eles e outros (os CAC por exemplo, seus adversários) qualificavam de “burguesa”. O resto você sabe… Não vou aqui entrar no macabro debate estatístico sobre quantos terão sido mortos a 27 de Maio de 1977… O drama do que aconteceu não se limita a isso….

Acredita que ficou isento na sua pesquisa?

Sou um profissional das Ciências Históricas. Nesta qualidade sei, e, aprendi desde o primeiro ano na Faculdade, que a neutralidade, em Ciências Sociais e, mormente em História, é um exercício difícil de se realizar, porque quem escreve é um ser social, com uma trajectória, com vivências, uma educação, opiniões políticas próprias, etc. Isto quer dizer que estes aspectos todos podem interferir de uma forma ou de outra na obra e, dar uma certa orientação ao conteúdo desta. Em todas as Faculdades por onde passei, os mestres sempre chamaram a nossa atenção para isso. O valor do bom historiador reside então na sua capacidade em poder colocar-se acima da subjectividade, sobretudo quando se trata de questões polémicas.

A minha especialidade é a História Política, com tudo o que isto acarreta em termos de riscos de subjectividade e de parcialidade na análise dos factos.

Tentei fazer o melhor possível para escapar a estas armadilhas que espreitam qualquer historiador e, mais ainda, o politista neste tipo de empreendimentos – descrever e analisar um processo político-histórico. As reacções positivas e de encorajamento que tenho recebido por todo o lado, inclusive de personalidades que me consideravam como demasiado ligado a algumas das velhas figuras do MPLA, seus opositores nas lutas internas no seio do ex-movimento de libertação, deixam entender que atingi o objectivo desejado: manter-me isento, equidistante e, analisar com a maior frieza possível, sem tabus e sem temores, o processo da luta de libertação, bem como os dramas que marcaram a trajectória do MPLA. Mas, deixo aos leitores, a latitude de apreciar. Dito isso, quero ser realista: o historiador que escrever o livro perfeito, sem falhas (quer objectivas, por falta de mais dados, quer subjectivas por alinhar mais numa posição do que noutra), ainda está para nascer. Como Historiadores, escrevemos o que as nossas fontes nos disponibilizam e, as nossas análises não podem ser tidas como alguma palavra de Deus. As análises resultam dos limites dos nossos conhecimentos, da experiência como académicos, das fronteiras que conseguimos atingir em termos de saber científico, de estudo, mas também – e muito! – da experiência humana acumulada. Se tivesse escrito este livro mais tarde, talvez fosse ainda mais completo, mais profundo, etc. Porque teria, entretanto, ganho mais alguma coisa em termos de experiência, tanto humana como académica. Tive como bandeira a honestidade intelectual e a luta contra todo tipo de tabus nesta matéria.

A publicação do livro “O MPLA Perante si Próprio”, não representa o fim do seu interesse pelas questões políticas de Angola. Fará outros estudos nessa área?

O processo angolano é como que um laboratório vivo. Um terreno de pesquisa que tem ainda muitíssimo para dar. Portanto, penso que tenho muito que aprender e pesquisar neste fértil terreno.

Jean-Michel Mabeko Tali, Howard University, Visiting Professor Washington, DC.

 

Fonte:http://www.angola24horas.com/index.php/sociedade/item/5879-entrevista-ao-filho-adoptivo-de-lucio-lara-jean-michel-mabeko-tali

A história oficial de Angola baniu diversos mártires da luta de libertação

mapa angolaA concorrência entre os movimentos nacionalistas angolanos, antes e depois do início da luta armada, tornou a narrativa sobre a gesta nacionalista global um quebra-cabeças para os estudiosos que queiram olhar com objetividade esta história no seu todo.

A frase é do historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali, proferida no decorrer de uma entrevista à agência Lusa, a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras e que constitui, assumiu, um “ensaio de história política”.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo-Brazzaville os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, lembrou que tanto o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) procuraram “puxar o cobertor da narrativa para si”.

Para o académico natural do Congo-Brazzaville e desde 2002 professor na Universidade de Howard, exemplo disso mesmo é a disputa entre MPLA e FNLA sobre a questão das datas mais importantes da luta de libertação do jugo colonial português, “as que até agora estão consagradas com um “selo de santificação política”.

“São as datas que decorrem da narrativa assumida pelo vencedor desta concorrência intra-nacionalista. Ou seja, o MPLA. O mesmo acontece com aquilo que podemos chamar de ‘genealogia dos mártires’ da luta de libertação. Pode procurar em vão nesta genealogia algum nome de um comandante de guerrilha da FNLA. Da UNITA nem se fala, e por motivos que se pode ainda compreender, dado o percurso um tanto controverso”, explicou.

“Pior ainda, no seio do próprio MPLA, antigas querelas internas, e dissidências, acabaram como que banindo para a eternidade nomes de peso na génese deste partido. Não me parece que haja, ainda hoje em dia, um ‘becozinho’ de rua, uma escolinha, mesmo de aldeia, uma ruazinha, com o nome de Viriato Clemente da Cruz, o verdadeiro conceptor, ‘pai fundador’ e primeiro secretário-geral do MPLA”, salientou.

O mesmo se passa, acrescentou Mabeko-Tali, em relação a Mário Pinto de Andrade, primeiro presidente do MPLA, ou Matias Migueis, primeiro vice-presidente.

“Mas temos Rua Ho Chi Minh, Rua Che Guevara, figuras revolucionárias, certo, e de prestígio e de importante referência na teorização da luta anticolonial do antigo ‘Terceiro Mundo’, mas que não terão tido um papel igual a estas três figuras nacionalistas angolanas, cujo pecado mortal foi o de discordar com parte da direção do movimento de libertação de então. Isto torna a reconciliação nacional problemática se o próprio MPLA não consegue sanar as suas próprias feridas internas”, enfatizou.

Sobre o livro, o académico congolês lembrou que, em 2001, publicou uma versão parcial do atual, tendo, depois, recebido inúmeros contributos que viabilizaram, quase 17 anos depois, o reforço do ensaio.

“Tive acesso a novas fontes, quer escritas, quer orais, às quais eu não tinha tido oportunidade de aceder antes, assim como à publicação de memórias de antigos combatentes dos antigos movimentos da luta de libertação. E houve fontes de arquivos quer da antiga potência colonial, quer dos antigos aliados soviéticos. Tudo isto levou a uma necessidade de voltar a debruçar-me novamente sobre o essencial dos problemas que tinha abordado anos antes”, explicou.