15 coisas que pessoas de religiões de matriz afro gostariam de te dizer

“Não invadimos seu espaço, então não invada nosso terreiro”.

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A liberdade de expressão e de culto são asseguradas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Federal do Brasil.

Porém, o Brasil teve 697 denúncias de intolerância religiosa entre 2011 e 2015, sendo as religiões afro-brasileiras o maior alvo das queixas.

Este post foi feito com a ajuda dos seguintes praticantes de religiões de matriz afro: Júlia Pereira (redatora do blog Umbanda EAD), Juarez Xavier (pesquisador do tema e professor no Departamento de Comunicação Social da Unesp), Carolina Pinho (doutora em Educação pela Unicamp), Larissa Pelucio (professora de antropologia no Departamento de Ciências Humanas da Unesp), Roger Cipó (fotógrafo) e Guillermo Santos (videomaker do BuzzFeed Brasil).

1. Existem muitas religiões de matriz afro no Brasil além do candomblé e da umbanda.

Instagram: @olhardeumcipo

Em sua pesquisa de doutorado, o professor Juarez Xavier as dividiu em três categorias:

Afro-brasileiras, que são aquelas de matriz africana que passaram por algumas mudanças quando chegaram ao Brasil. Como exemplo temos o candomblé de caboclo, praticado no Recôncavo Baiano.

Brasileiras, que foram criadas no Brasil, mas que possuem influência afro. Entre elas está a umbanda, síntese de diversas matrizes (africana, indígena e kardecista).

Afrodescendentes, que reivindicam suas raízes afro, pois mantiveram os mesmos processos de organização das religiões da África. Podemos citar a tradição iorubá (ketu e nagô), tradição bantu (bate folha) e jejê (terreiro do Bogum).

Porém Xavier deixa claro que é difícil dizer exatamente quantas são. “Essa divisão é didática e reducionista, pois a diversidade é muito maior do que possa imaginar ‘minha pequena’ pesquisa”, explica.

2. Nem tudo é “macumba”.

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Macumba, diferentemente do que muitos acreditam, não é o mesmo que “magia negra”. Existem duas explicações para a origem da palavra. A mais conhecida e popular é de que se trata do nome dado a uma árvore da cultura banto aproveitada para a confecção de um instrumento utilizado nos rituais dessas religiões.

A outra explicação é dada por Pereira: “A origem do termo se dá no contexto religioso anterior à fundação da Umbanda e em paralelo ao seu primeiro período, quando as manifestações religiosas periféricas e de influência africana aconteciam nos chamados grandes terreiros de Macumba Carioca, no Rio de Janeiro.

Os rituais se aproximam da Umbanda pela maleabilidade litúrgica e pelo perfil inclusivo, somando novos valores de diferentes culturas num sincretismo “bricolado”. Com o tempo, as “Macumbas Cariocas”, ou simplesmente cultos afro-brasileiros cariocas, também passaram a aderir às práticas e ao modelo ritual-litúrgico umbandista. Outras vezes, assumiram apenas a denominação sem sentirem necessidade de alteração ritualística”.

3. E, geralmente, chamar de “macumbeiro” é uma ofensa.

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Pinho explica que há “um esforço em desqualificar as religiões de matriz africana e reduzi-las a algo depreciativo. Então, o termo tem sido utilizado genericamente para denominar essas religiões”. Para Xavier, “por ser genérica, ele reproduz uma visão negativa dessas tradições e, por essa razão, é ofensiva”.

Mas Pereira lembra que algumas pessoas utilizam o termo “macumba” ou “macumbeiro” para se nomearem numa forma de reafirmar as origens de sua religião e responderem a quem utiliza a expressão para ofender.

4. Oferenda é um gesto de gratidão aos deuses.

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Talvez você já tenha ouvido falar da oferenda por outros nomes como “macumba” e “trabalho”. Pelucio explica que as oferendas são trabalhos, “mas de transformação e mobilização de energias”.

As oferendas também podem ser consideradas como um gesto de gratidão e um presente aos orixás (deuses) e entidades espirituais. “Geralmente são feitas para consagrar desejos ou o atendimento deles, que podem ser relacionados a saúde ou relacionamentos, mas focados no amor e não no aprisionamento de outra pessoa”, esclarece.

5. Por isso, dizer “chuta que é macumba” é extremamente desrespeitoso.

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Oferenda é um símbolo muito importante para estas religiões, tal como a cruz é para o cristianismo. Pelucio lembra que da mesma forma que não se chuta a cruz por ser importante para inúmeras pessoas, não se deve fazer o mesmo com as oferendas, que são gestos de amor.

6. Orixá não é signo.

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Não há relação entre orixás (deuses das religiões de matriz afro) e os signos astrológicos, por mais que ambos trabalhem a partir dos arquétipos. Apesar das similaridades, religiões de matriz afro não são astrologia.

Pereira enfatiza que “revelar o seu orixá não é simples e que também é uma questão ancestral”. Por isso, de nada adianta pedir para qualquer pessoa que frequenta essas religiões dizer qual é o seu orixá.

Além disso, ela explica que descobrir qual orixá “rege sua cabeça” é uma questão de merecimento e a revelação disso é feita por pessoas escolhidas para tal nos rituais religiosos. Lembrando que a revelação do orixá tem uma necessidade de desenvolvimento do médium ou de quem busca a consulta. E isso se dá tanto pela busca da cura ou do encontro com a sua missão.

7. Exú não é demônio.

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Muitas pessoas relacionam Exú ao demônio de modo equivocado. Esse processo de degradação da imagem dele se deu por missionários cristãos quando chegaram à Nigéria, Togo e Daomé. Na visão de Xavier, essa foi uma estratégia de dominação. Ele explica por quê:

“Pelo fato de sua representação ser o falo (símbolo da fertilidade cósmica e da criação), ele foi identificado como o diabo, da tradição judaico/cristã/islâmica. Mas ele não tem nada que o identifique como o demônio das tradições ocidentais”.

8. Exú é, sim, uma figura de extrema importância na relação entre deuses e humanos.

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“No Candomblé Exú é Orixá, um Deus africano é responsável pela comunicação dos seres, entre outros atributos que vão se distribuir em suas qualidades. Já para a Umbanda, ele é um espírito humano à esquerda da religião que, mesmo estando nas ‘trevas’, trabalha em favor do bem”, esclarece Pereira.

Para Xavier, Exú não tem equivalência ao diabo cristão, pois é mais sofisticado, humanizado, sagrado e, acima de tudo, mais reverenciado. Santos explica que Exú é uma das figuras que mais se assemelham aos homens por estarem entre nós. “Daí vem o gosto dele por bebidas e piadas. Ele é mais humano, tem características positivas e negativas como todos nós”.

9. Não fazemos pacto com o demônio.

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“Até porque não acreditamos na existência dele, ou seja, é impossível fazer um pacto com o que não acreditamos”, revela Santos. É importante ressaltar que não há um correspondente ao diabo nas religiões de matriz afro, pois acredita-se que que cada pessoa é de uma vez só o bem e o mal.

10. Muitas destas religiões de matriz afro seguem os mesmos princípios de outras religiões, que todos conhecem.

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Candomblé e Umbanda são religiões monoteístas, mas há algumas diferenças.

“A Umbanda é monoteísta e acredita-se em um Deus, que pode ser chamado de diversos nomes. O mais comum é Olorum, Tupã, Zambi ou só Deus mesmo.

Na Umbanda também presta-se o culto aos Orixás, que de uma maneira muito simplificada são as qualidades de Deus individualizadas e manifestadas por meio dessas divindades”, explica Pereira.

“Já o Candomblé, eu diria que é uma religião que se organiza de forma diferente das demais religiões. Juarez tem uma definição muito boa para isso. Ele fala que o Candomblé está pra além do sentido de “religare”, pois, nunca existiu uma ruptura entre os povos africanos e suas divindades”, comenta Roger Cipó.

No Candomblé também há a figura do Olorun que quer dizer “Senhor do Céu”. E os Orixás são divindades ancestrais da natureza.

Nesta estrutura há uma semelhança com o catolicismo, que é monoteísta, porém cultua santos. Na Umbanda, Jesus também é cultuado e reverenciado. Para o Candomblé, ele é apenas uma figura histórica.

11. Não acreditamos na Bíblia.

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“A gente não acredita na Bíblia, pois nosso sagrado está na natureza, nossos ensinamentos estão no exercício da vida mediúnica saudável e no relacionamento com os orixás e guias”, revela Pereira.

12. Não ficamos possuídos em nossas cerimônias religiosas.

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“O ato de incorporar uma entidade consiste em fazer a conexão entre os chakras do médium e os do guia (espíritos humanos desencarnados). Desta forma, no momento da incorporação nosso espírito continua habitando o corpo físico sem que haja a necessidade de se ceder esse lugar para que entidade possa trabalhar (sem possessões). Você ainda estará ali. Consequentemente, sua consciência também. Quanto mais concentrado estiver, maior será o aproveitando dessa experiência.

Já no Candomblé (mais ortodoxo), espírito humano não pode se manifestar e a manifestação dos orixás acontece no Ori (cabeça da pessoa). O transe espiritual no Candomblé então se dá (com seu Orixá pessoal) de dentro para fora. Sendo assim, de uma maneira geral, os candomblecistas não praticam a incorporação, ou seja, a mediunidade não é um precedente. Entretanto, também não é uma possessão, é como se o Deus que mora em cada um viesse, por meio do transe, dançar com seus filhos”, esclarece Pereira.

13. Nem todos os terreiros são adeptos do sacrifício de animais.

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A Umbanda, de maneira geral, não tem como precedente o sacrifício de animais. Já para o candomblecista, o abate religioso é um rito próprio da religião e, como via de entendimento, se assemelha à santa ceia.

14. E quando são, os animais mortos são servidos para alimentação nas cerimônias.

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“Os animais são abatidos para consumo dos filhos de fé e demais frequentadores. Este é um momento especial, onde, segundo a crença, os orixás e humanos partilham da comida abençoada.

O sangue e as partes impróprias para consumo geralmente são utilizadas nos assentamentos (locais do terreiro onde ficam objetos e símbolos do orixá, mantendo a energia dele ali). Mas o abate religioso de animais é humanitário e não maltrata o animal.

O animal que servirá a ceia é tratado durante um longo período. Ele recebe banhos de ervas maceradas e são entoados cantos a ele.

Esse abate não é indiscriminado e ocorre em ocasiões especiais de festividades do terreiro. Qualquer outra coisa que podemos ver nas ruas, como oferendas, não fazem parte da ritualística do candomblé”, esclarece Pereira.

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“Mocímboa” em Moçambique põe na agenda política a intolerância religiosa

“Precisamos de uma resposta enérgica ao caso Mocímboa”

Mocímboa da Praia. Há alguns meses, o nome de um dos municípios de Cabo Delgado até poderia passar despercebido aos leitores, sem despertar grande interesse. No entanto, depois dos ataques à mão armada que causaram uma preocupação generalizada, as coisas já não são mesmas.

Mocímboa tornou-se um distrito mais vasto e sonante do que algum dia foi. E o que lá aconteceu na primeira semana do mês, até hoje, retira o sossego a muitos, inclusive a Mia Couto, que trabalhou em Palma, distrito vizinho de Mocímboa da Praia.

Na percepção da maior referência literária viva do país, traduzida um pouco por todo o mundo, o fenómeno de Mocímboa da Praia deve ser estudado com muita seriedade, não pelo acto em si, mas porque não constitui um evento surpreendente para quem conhece o distrito. Longe disso. Mia considera que já era de esperar que um dia viessem ao de cima acções que demonstram a deformação do Islão naquele ponto do país.

“O que aconteceu em Mocímboa da Praia deve ser estudado com cuidado, porque não é uma coisa nova. Quando trabalhei em Palma, há algum tempo, fui vendo um certo radicalismo que se foi instalando, e penso que acordámos tarde nesse sentido, porque havia já sinais que demonstravam haver ali gente nova com uma atitude mais intolerante. Mais dias menos dias, aqueles ataques iriam acontecer”, afirmou o escritor, dois dias antes de lançar seu novo título “O bebedor de horizontes”.

Não obstante ter-se referido às suas percepções em relação à radicalização do Islão em Mocímboa da Praia, Mia Couto considerou, na tarde desta segunda-feira, em Maputo, que é preciso agir rápido, com uma resposta enérgica de quem não pode tolerar a intolerância dos radicais. Mas isso não é tudo. Mais do que resolver o problema, é necessário que se dê um outro passo igualmente importante: “Tentar compreender o que está por detrás dos ataques ocorridos naquele distrito. Não se deve apenas agir como se tudo se tratasse de uma resposta militar, é preciso também uma resposta que crie focos de entendimento e de diálogo, algo que isole o fenómeno”, o que deve acontecer agora, porque, caso contrário, entende o autor, pode se repetir em Moçambique o que está a acontecer noutros países africanos.

Os ataques armados em Mocímboa da Praia tiveram como alvo esquadras e postos da Polícia. Os confrontos estenderam-se por alguns dias e fizeram uma dezena de mortos, incluindo agentes da Polícia.

Numa outra perspectiva, deixando ainda a ficção em surdina por alguns instantes, olhando mais para a vida real do país, o escritor não deixou de se referir a um outro acontecimento: o “chupa sangue”. “Esse fenômeno lembra-me a minha infância. Eu sou da Beira e, de vez em quando, tínhamos esses surtos desse fantasma do ‘chupa sangue’. A dimensão que isso toma tem a ver com o facto de as pessoas não terem respostas para coisas muito concretas da sua vida”. Logo, de acordo com Mia, não é o assunto em si que deve preocupar os moçambicanos, mas as razões que fazem com que o evento ganhe a dimensão que tem, para que não se repita o que aconteceu no Malawi, onde, de repente, tomou conta de uma sociedade inteira. Em parte, é necessário que se conheça a estória do ‘chupa sangue’ e recuperar a memória que dá origem a esse ‘fantasma’, porque o assunto também é sensível para o escritor.

http://opais.sapo.mz/precisamos-de-uma-resposta-energica-ao-caso-mocimboa

Imãs da Guiné-Bissau alertam para radicalismo religioso no país

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O presidente da União Nacional dos Imãs da Guiné-Bissau, Bubacar Djaló, alertou hoje, em entrevista à agência Lusa, para a existência de radicalismo religioso no país trazido por estrangeiros.

“De facto há aqueles que vêm de fora e que estão a incutir o radicalismo na cabeça dos filhos da Guiné-Bissau, aproveitando-se da pobreza e da falta de formação”, disse Bubacar Djaló, quando questionado pela Lusa sobre a existência de radicalismo islâmico.

Segundo o imã, algumas daquelas pessoas “não sabem três palavas (do islão) mas já se assumem como conhecedores”.

“Nem sabem peneirar qual a visão de um lado e do outro, não sabem respeitar as opiniões dos outros, apenas admitem as suas próprias opiniões, aquilo que aprenderam, mas não é isso a visão do islão”, salientou.

Bubacar Djaló explicou que aqueles estrangeiros chegam ao país e como não conseguem apresentar-se publicamente à comunidade “usam os filhos da Guiné-Bissau, por serem pouco instruídos na religião, para os dividir”.

“Recorrem às pessoas agressivas nas comunidades, pessoas facilmente `aliciáveis`, usam-nas para os seus fins. Estamos a tentar estancar tudo isso para ver se vamos conseguir fazer reinar aquele espírito de patriotismo da nossa terra”, afirmou, salientando que, se existe islão moderado, não há motivo para haver um islão radical.

Bubacar Djaló sublinhou também que pretende que a Guiné-Bissau seja um interlocutor no mundo para mostrar que o islão no país é uma “coisa filtrada, não uma coisa suja que ninguém sabe a origem e a finalidade”.

Sobre informações que dão conta da entrada de salafistas (radicais islâmicos) do Mali, Guiné-Conacri e Mauritânia, o líder dos imames da Guiné-Bissau disse “não ter dúvidas sobre isso”.

“Apenas não têm campo de manobra para se mostrarem, mas uma coisa é certa: nunca uma sementeira é posta na terra, no solo, para dar resultado no mesmo dia”, alertou.

O imã disse que aquelas pessoas já se encontram na Guiné-Bissau e que estão a dar ensinamentos e que só não sabe “quando é que os ensinamentos vão dar resultados”.

“Não podemos acabar com isso, porque existe em toda parte do mundo, mas podemos fazer com que não tenha progresso na sociedade, tudo isso depende da colaboração entre o Estado e os religiosos”, salientou.

O líder dos imãs guineenses também disse estar preocupado com a proliferação de mesquitas no país.

“Hoje constatamos que há mesquitas a serem construídas em locais onde não há necessidade para tal. Há casos em que novas mesquitas são construídas ao lado das nossas velhas mesquitas, o que acaba por dividir a comunidade, com uns a irem à mesquita nova e outros à mesquita antiga”, disse.

Isso, segundo Bubacar Djaló, cria desobediência, porque uns dão ouvidos a um líder e outros dão ouvidos a um outro líder da mesma comunidade.

“Por exemplo quem obedecia a um imã passa a ser ele mesmo imã. Começa a dizer que tem a sua autonomia para decretar coisas. A pior situação que existe hoje em dia na nossa comunidade é a proliferação de mesquitas na Guiné-Bissau. É uma coisa que nos deixa chateados. Estamos a ver mesquitas por todo lado sem saber de onde vem o financiamento, quem é que é o autor desses financiamentos”, alertou.

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/uniao-nacional-dos-imas-da-guine-bissau-alerta-para-radicalismo-religioso-no-pais_n1035523

Sudão do Sul: “Nossos pacientes estão nos contando histórias horríveis”

15/07/2016
Ruben Pottier, coordenador de MSF em Juba, fala sobre os relatos de sofrimento e perda dos pacientes de uma clínica móvel no sul da cidade sul-sudanesa
Sudão do Sul: “Nossos pacientes estão nos contando histórias horríveis”

“Depois de cinco dias de confrontos, este é o segundo dia calmo – não ouvimos um tiro sequer. O cessar-fogo foi respeitado no sentido de que os grupos militarizados não estão lutando entre si, mas ainda há muitos tiroteios e roubos acontecendo. De acordo com muitos pacientes que atendemos hoje e também da nossa equipe sul-sudanesa, uma área da cidade em particular ainda está muito insegura.

Esses pacientes tiveram de fugir de seus lares e ainda estão amedrontados demais para voltar. Suas casas foram saqueadas e eles perderam todos os seus pertences. Algumas pessoas que decidiram voltar para casa descobriram que tudo havia sido roubado, então precisaram retornar à igreja de Santa Theresa, no sul da cidade de Juba, onde funciona a nossa clínica móvel. As principais necessidades humanitárias dessas pessoas são alimentos, abrigo, água, saneamento e cuidados básicos de saúde.

Foto: MSFOntem realizamos 150 consultas e hoje 377. Também examinamos crianças com suspeita de desnutrição e oferecemos alimento terapêutico para aquelas que estavam grave ou agudamente desnutridas. Nossos pacientes estão nos contando histórias horríveis – como quando homens armados entraram em suas casas e atiraram nas pessoas que estavam ali. Ao tentar fugir da violência, muitos perderam membros da família. Hoje eu conheci um menino de oito anos que perdeu a mãe e o pai, assassinados a tiros, e agora não tem ninguém para cuidar dele. Vi uma menina de doze anos levando a sua irmã de três anos no colo para uma consulta e dizendo que seu pai e sua mãe tinham sido assassinados.

Muitas pessoas foram apanhadas no meio do fogo cruzado e acabaram com ferimentos a bala. Muitos outros foram feridos enquanto corriam no meio do caos tentando fugir dos confrontos. Alguns agarraram cercas de arame quando tentavam escalar muros e acabaram com cortes nos dedos; outros têm ferimentos e hematomas na cabeça, nos braços e nas pernas.

Dois pacientes nos contaram que homens armados e sem uniforme chegaram às suas casas, levaram suas crianças e todos os seus bens, incluindo as roupas. Eles contaram que fugiram de casa nus. Pessoas da vizinhança lhes deram algumas roupas, que agora são tudo que eles têm.

As histórias que temos ouvido são terríveis – inclusive sobre as coisas que estão acontecendo agora, desde que os confrontos cessaram. Ouvir esses casos é muito traumático, especialmente quando você ouviu os sons dos tiros e das bombas e o barulho das pessoas correndo nas ruas. É muito estressante para nós, mas obviamente é muito mais estressante e traumático para as pessoas que vivem nessas áreas, incluindo muitos dos integrantes da nossa equipe sul-sudanesa.

 

http://www.msf.org.br/noticias/sudao-do-sul-nossos-pacientes-estao-nos-contando-historias-horriveis

Brasil x Brexit. Bola pra frente (Folha de S. Paulo, 27/06/2016)


O mundo assistiu apreensivo à decisão do povo britânico, em plebiscito, pela saída da União Europeia. O Brasil respeita, mas não comemora a notícia. O projeto da União Europeia é o mais avançado processo de integração econômica e política existente. Construído sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial, a integração econômica que levou à formação da União Europeia trouxe paz e prosperidade à Europa Ocidental por 60 anos e tornou menos traumática a transição dos países da antiga Europa Oriental para o mundo que sucedeu à Guerra Fria.

A saída do Reino Unido abala o relativo consenso pró integração que predominou na Europa há décadas e alenta as forças desagregadoras no continente. Amplia a incerteza e terá efeito negativo sobre o crescimento no Reino Unido, na União Europeia e na economia mundial, em momento no qual os países europeus, ainda fragilizados pela crise iniciada em 2008, buscavam retomar o crescimento.

O Tesouro britânico estima que pode haver queda no PIB de longo prazo de cerca de 6% em seu país. Segundo o FMI, o PIB do Reino Unido poderia crescer a menos, até 2019, entre 1,4%, se mantiver o acesso pleno ao mercado europeu, e 5,6%, se tiver que pagar as tarifas de importação sem descontos. Afinal, o comércio exterior corresponde a 59% do PIB britânico, e 45% de suas exportações vão para a Europa. Parte do setor financeiro, tão crucial à economia de Londres e do Reino Unido, poderia migrar para outras praças europeias e, com menos investimentos entrando no país, as taxas de juros poderão elevar-se, pressionando a desvalorização da libra, pois o déficit em conta corrente é de 5% do PIB.

Sucessivos estudos mostraram que a imigração é benéfica para a economia do Reino Unido, mas o temor aos estrangeiros foi uma das principais motivações dos que votaram pela saída. Os britânicos pensam que o percentual de estrangeiros na população é muitas vezes superior aos dados reais. Ou seja, uma das principais razões que teriam motivado a saída da UE não tem fundamento na realidade.

O fato de que percepções equivocadas tenham influenciado o voto majoritário no plebiscito não diminui sua importância. É preciso perguntar de onde nascem e como combatê-las. Na década de 1940, Karl Mannheim, um dos pais do Estado de bem estar social instalado no Reino Unido no pós-guerra, argumentava que uma das razões que havia levado à derrocada da democracia liberal e aos totalitarismos pré-guerra foi o enfraquecimento dos vínculos de solidariedade social. Hoje, é preciso fazer acompanhar o avanço da integração econômica global de mecanismos de inclusão social e redução das desigualdades, assim como recusar inequivocamente as soluções isolacionistas. Confiamos que a União Europeia e o Reino Unido saberão trilhar esse caminho enquanto ajustam com serenidade seu relacionamento. Afinal, as dificuldades que a Europa enfrenta com migrantes e refugiados não se resolverão com a redução de sua presença no mundo. Requerem, na verdade, atuação cada vez mais solidária com as nações e os povos de origem dos fluxos humanos de nossa era.

O efeito econômico na União Europeia tende a ser comparativamente menor, mas o impacto político é preocupante. Visões excessivamente nacionalistas e xenófobas poderiam ganhar força, levando a um maior fechamento europeu ao resto do mundo. Não é provável que aconteça, mas o mundo sairá perdendo se a Europa apostar mais no isolamento do que na cooperação.

O Brasil não será muito afetado diretamente. É pequena a participação (1,52%) do mercado britânico nas nossas exportações. Mantém-se também a expectativa de que os investimentos britânicos continuem a buscar as oportunidades por aqui. A situação externa da economia brasileira, com reservas elevadas e superávit comercial, reduz os riscos para o Brasil. Sofremos um pouco mais com a instabilidade de curto prazo dos mercados financeiro e cambial e com o impacto negativo de médio prazo para o crescimento no Reino Unido e na União Europeia. De nossa parte, redobraremos os esforços para concluir o acordo de associação Mercosul-UE e nos empenharemos em buscar acordos de comercio e investimentos com o Reino Unido.

http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-artigos/14273-brasil-x-brexit-bola-pra-frente-folha-de-s-paulo-27-06-2016

Aside

Mais de 1 milhão de cristãos fugiram do norte da Nigéria

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O Bispo de Kafanchan, Dom Joseph Bagobiri, apresentou na sede das Nações Unidos em Nova Iorque (EUA), um relatório sobre a morte e perseguição aos cristãos na Nigéria. O documento intitulado de “O impacto da violência persistente na Igreja no norte da Nigéria” mostra que entre 2006 e 2014 fora 11.500 cristãos mortos e mais de 1,3 milhão que fugiram daquela região do país.

A violência promovida pelo grupo terrorista Boko Haram atingiu principalmente os moradores dos estados de Borno, Kano, Yobe e Adamawa. Com medo, os cristãos se instalaram em estados com maior número de cristãos como Plateau, Nassarawa, Benue e Taraba, no chamado “cinturão do meio” (Middle Belt) do país e também em Kaduna, no Sul do país.

Mas segundo o relatório, essas regiões também se tornaram perigosas por conta dos ataques dos Fulani. “Nessas áreas, os pastores Fulani (muçulmanos) aterrorizam incessantemente diversas comunidades”, disse Bagobiri. O religioso diz também que em algumas cidades o que aconteceu com os cristãos foi um verdadeiro genocídio.

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“Nestas áreas, os pastores Fulani aterrorizam incessantemente diversas comunidades, varrendo do mapa algumas, e em locais como Agaru, no Estado de Benue e Gwantu, e Manchok no Estado de Kaduna, estes ataques assumiram o caráter de genocídio, com 150-300 pessoas mortas em uma única noite”, denuncia.

Diante desses dados, o bispo católico fez um apelo para que a comunidade internacional faça pressão para que o governo da Nigéria garanta liberdade religiosa aos cristãos e outras minorias religiosas que estão sofrendo com os muçulmanos radicais.

Intolerância religiosa: MP denuncia cinco por incêndio em centro espírita

 
intolerancia
 
A motivação do crime, ocorrido em em 29 de janeiro, seria o preconceito contra a religião praticada no local. Se condenados, os acusados terão de pagar cerca de R$ 70 mil em indenização
 
 
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) denunciou cinco pessoas pelos crimes de intolerância religiosa e incêndio qualificado cometidos no Centro Espírita Auta de Souza, em Sobradinho II. A motivação do crime, ocorrido em em 29 de janeiro, seria o preconceito contra a religião praticada no local. Caso sejam condenados, os acusados terão de pagar cerca de R$ 70 mil em indenização referente aos danos materiais e morais coletivos causados.
 
Os envolvidos usaram gasolina e etanol para atear fogo no chão, nos móveis e no telhado do local. Além dos danos materiais avaliados, os acusados colocaram em risco a vida e a saúde de moradores de outros imóveis localizados no terreno, que acordaram com o calor e o barulho do incêndio, e conseguiram sair do local a tempo.
 
Para o promotor de Justiça Thiago Pierobom “a discriminação por intolerância religiosa é um câncer social. Este é o mesmo princípio que tem motivado as barbáries praticadas pelo Estado Islâmico. Independentemente de concordarmos com as práticas religiosas de outras pessoas, temos todos o dever ético de respeitar as suas convicções”.
 
O MPDFT pede, além da condenação, que pode resultar na reclusão dos envolvidos, que eles sejam obrigados a pagar indenização, calculada em laudo técnico, no valor de R$ 30 mil pelos danos materiais. E, também, que seja fixada em R$ 40 mil, no mínimo, indenização por danos morais coletivos sofridos por todas as pessoas praticantes de religiões espíritas ou minoritárias, que foram expostos ao risco da discriminação religiosa praticada pelos acusados.
 
“Coisa do demônio”
O crime aconteceu em 29 de janeiro, quando Valdeci de Lima Silva, Valdeir de Lima Silva, Kennedy Sousa do Rego, Wellington da Silva Costa e Rodrigo Guedes dos Santos, vizinhos do Centro Espírita, em Sobradinho II, invadiram o local e atearam fogo. A motivação dos acusados seria o preconceito religioso, visto que costumavam afirmar que a religião espírita “não era de Deus” e seria “coisa do demônio”, além de participarem de diversos episódios nos quais atrapalhavam as reuniões do grupo e ameaçavam os frequentadores do centro. O Centro Espírita Auta de Souza atua no local desde a década de 1970 e realiza diversas obras assistenciais.
 
Após a conclusão das investigações, o Núcleo de Enfrentamento à Discriminação (NED) do MPDFT verificou a prática do crime de intolerância religiosa, que prevê de 1 a 3 anos de detenção, e de incêndio qualificado, de 4 a 8 anos de reclusão, quando é praticado contra obra de assistência social.
 
Com informações da Assessoria de Comunicação do MPDFT