Congresso Nacional Africano, maior partido da África do Sul, está dividido

zumaO presidente sul-africano, Jacob Zuma, fez hoje um apelo à unidade do Congresso Nacional Africano (ANC, no poder), agitado por divisões que o podem fazer perder em 2019 o poder, que detém desde o fim do ‘apartheid’.

Falando no final da Conferência Política Nacional do partido, que esteve reunida desde sexta-feira, Zuma defendeu ser necessário “acabar com as divergências”.

“Estamos confrontados com uma situação em que duas organizações diferentes coexistem no nosso seio. Não o podemos tolerar. Queremos um ANC destabilizado permanentemente, destruído por guerras internas?”, questionou o presidente do ANC.

À frente do país desde a queda do regime de segregação social do ‘apartheid’ e das primeiras eleições livres em 1994, o ANC está muito enfraquecido depois de uma série de casos político financeiros de que o seu líder é acusado.

Os escândalos, a que se juntam o abrandamento da economia, o desemprego em massa e a indignação social, ameaçam a posição do partido de Nelson Mandela nas eleições gerais de 2019.

O ANC deve eleger em dezembro um novo presidente para suceder a Zuma, que se tornará chefe de Estado em caso de vitória do partido nas eleições de 2019.

Os dois principais candidatos são o atual vice-presidente Cyril Ramaphosa, considerado moderado e próximo do mundo empresarial, e a ex-líder da União Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma, que tem o apoio do seu ex-marido Jacob Zuma.Nkosazana Dlamini-Zuma

O analista Peter Fabricius, do Instituto para os Estudos de Segurança de Pretória, considera existir um “risco de rutura, mas mais tarde”.

“Zuma faz tudo para impedir Ramaphosa de chegar ao poder. Até ao mês de dezembro, a corrida à sucessão pode tornar-se verdadeiramente violenta ou mesmo sangrenta se Zuma se aperceber de que a pode perder”, declarou Fabricius à agência France Presse.

O chefe de Estado sugeriu hoje que a direção do partido seja alargada, integrando um segundo vice-presidente, para melhor representar todas as sensibilidades.

O ANC sofreu um revés eleitoral nas autárquicas de agosto de 2016, onde perdeu para uma coligação da oposição o controlo de alguns municípios emblemáticos, como Joanesburgo e Pretória.

A oposição, que não esconde a sua ambição de fazer cair o ANC em 2019, apresentou uma nova moção de censura contra Zuma, que será discutida no dia 8 de agosto no parlamento.

 

Fonte:http://www.dn.pt/lusa/interior/zuma-defende-fim-das-divergencias-no-anc-no-poder-na-africa-do-sul-8615382.html

Advertisements

Vaias a Zuma cancelam ato do Dia do Trabalho na África do Sul

O mandato do presidente Jacob Zuma, seu segundo e último, termina em 2019

Johanesburgo – Centenas de integrantes do sindicato COSATU vaiaram nesta segunda-feira o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, durante a comemoração do Dia do Trabalho em Bloemfontein, que acabou sendo cancelada sem o pronunciamento do chefe de Estado depois que este não conseguiu o silêncio dos organizadores, que pediam sua renúncia.

Um grupo de sindicalistas recebeu o presidente com gritos de “Zuma deve sair”. Outros integrantes da COSATU tentaram silenciá-los, sem sucesso, com palavras de ordem em favor do presidente.

 

Zuma assistiu aos gritos e canções contra ele sentado sob a tenda que protegia do sol os dirigentes que compareceram ao evento.

Aliado histórico do partido Congresso Nacional Africano (CNA), que é presidido por Zuma, a COSATU pediu no mês passado a saída de chefe de Estado por causa da destituição em 31 de maio do respeitado ministro de Finanças, Pravin Gordhan.

O Partido Comunista – o outro aliado do CNA desde os tempos da luta contra o apartheid – também pediu a saída de Zuma pela destituição de Gordhan, que tinha manifestado sua oposição aos planos de gastos mais ambicioso do presidente e se converteu em um símbolo de integridade moral na África do Sul.

Zuma foi acusado de tirar Gordhan para aplainar o terreno ao caríssimo projeto de construir novos reatores nucleares na África do Sul, que, segundo alguns comentaristas, proporcionaria concessões milionárias à família dos magnatas Gupta e a um dos filhos do presidente.

Os Gupta e Duduzane Zuma são proprietários de uma mina de urânio que seria utilizada para abastecer os novos reatores.

De origem indiana e com interesses em vários setores estratégicos, os Gupta fizeram fortuna com concessões públicas na África do Sul, e são acusados de ter manipulado licitações para obter contratos do Estado e de terem oferecido cargos de ministro em nome do próprio presidente.

Mais de 100 mil pessoas pediram em abril a renúncia de Zuma, e duas agências de qualificação de risco rebaixaram a nota da África do Sul ao nível do bônus lixo alegando temores com gastos descontrolados após a saída de Gordhan do governo.

A oposição sul-africana prepara uma moção de censura contra o presidente e espera que os deputados descontentes da base governista se juntem a ela.

O mandato de Zuma, seu segundo e último, termina em 2019 e o político deixará de ser presidente do CNA em dezembro deste ano.

Além dos protestos contra Zuma, os trabalhadores da COSATU se manifestaram hoje em frente à Bolsa de Valores de Johanesburgo para pedir a “transformação” racial da economia e denunciar o “monopólio capitalista branco” que, segundo eles, controla a África do Sul.

Fonte:http://exame.abril.com.br/mundo/vaias-a-zuma-cancelam-ato-do-dia-do-trabalho-na-africa-do-sul/

Protestos contra o presidente da Africa do Sul

image_content_655778_20170412131109
Dezenas de milhares de pessoas manifestam-se hoje nas ruas de Pretoria para exigir a demissão do presidente sul-africano, Jacob Zuma, numa nova ação de protesto da oposição, antes da votação de uma moção de censura no parlamento.

Menos de uma semana após uma primeira vaga de manifestações em várias cidades da África do Sul, a capital é palco de uma marcha que deve terminar junto à sede do governo, com os participantes aos gritos de “Zuma deve cair”.

A manifestação conta sobretudo com militantes da Aliança Democrática (DA) e dos Combatentes pela Liberdade Económica (EFF), os dois principais partidos contra o Congresso Nacional Africano (ANC) no poder.

Atolado há meses numa série de casos de corrupção, o chefe de Estado enfrenta uma nova tempestade política desde a remodelação do governo feita a 30 de março.

A demissão do ministro das Finanças Pravin Gordhan, que se opunha a Zuma em nome da transparência da gestão dos fundos públicos, provocou a cólera da oposição e a deterioração da classificação financeira da África do Sul.

A remodelação provocou também uma crise aberta no seio do ANC.

Na sexta-feira, foram também dezenas de milhares as pessoas que desfilaram em várias cidades sul-africanas para pedir a saída de Zuma e a DA e os EFF apresentaram no parlamento uma nova moção de censura contra o chefe de Estado.

Zuma qualificou os protestos de “racistas”, embora neles estivessem representadas todas as etnias, religiões e culturas do país.

O Parlamento da África do Sul anunciou na quarta-feira o adiamento da votação da moção de censura ao presidente Jacob Zuma, até que o tribunal decida se a mesma deve ser feita por voto secreto.

Os partidos da oposição defendem a moção de censura poderá vencer, se a votação for feita por voto secreto. No entanto o partido do Congresso Nacional Africano, que tem a maioria no parlamento, já adiantou que votará contra a moção.

Partido de Mandela sofre recuo inédito na África do Sul. Por que isso aconteceu?

  • Rafael Iandoli

Após 22 anos de hegemonia na cena política nacional, o ANC recebeu nas urnas um alerta de que precisa promover reformulações estruturais

FOTO: JAMES OATWAY/REUTERS

Partido da situação, ANC sofreu derrotas importantes

ELEITORA DEPOSITA SEU VOTO EM ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA ÁFRICA DO SUL

Os eleitores sul-africanos foram às urnas na quarta-feira (03) para escolher seus governantes municipais, que ficarão no cargo pelos próximos cinco anos. Os resultados apontam para a maior retração do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) desde o estabelecimento da democracia multirracial, em 1994, solidificada com a eleição do candidato do partido, Nelson Mandela, à presidência do país.

Apesar de ainda obter a maioria dos votos no somatório nacional, pela primeira vez o ANC não chegou à marca dos 60% de votos, estacionando nos 53,9%. O resultado confirma um cenário de cansaço e desilusão com o partido, que desde o fim do Apartheid exerce o papel de situação.

Ainda mais doloroso para Jacob Zuma, atual presidente sul-africano e um dos líderes do ANC, é perder o controle de dois dos principais municípios do país: a capital, Pretoria, e Nelson Mandela Bay, famoso por ser a origem de diversos combatentes do Apartheid. Joanesburgo, principal centro econômico do país, ficou sob controle do ANC por pouco, com uma diferença de 6% para o maior partido de oposição – Aliança Democrática (DA, na sigla em inglês) – e sem garantir maioria absoluta.

TRÊS PARTIDOS COM MAIS VOTOS

Apoiado no histórico de libertação do racismo institucionalizado que persistiu de 1948 a 1994 em nível nacional, e mais especificamente na imagem de Mandela, o ANC se manteve hegemônico sem precisar fazer grandes esforços nas últimas duas décadas. Acomodou-se com uma confiança tão grande que seu secretário-geral, Gwede Mantashe, chegou a dizer que o partido era “escolhido por deus” para liderar o país.

Apesar do avanço da oposição, sobretudo nas áreas urbanas da África do Sul, onde as populações utilizam menos serviços públicos garantidos pelo governo federal, o principal motivo da fragilização do ANC, escancarado na última semana, é a desmobilização de suas bases.

Algumas cidades que são redutos do partido apresentaram números baixíssimos de comparecimento às urnas – o voto não é obrigatório por lá, como é no Brasil. Em alguns casos, menos de 5% dos eleitores registrados votaram, mesmo em locais que confirmaram a vitória do ANC. O recado foi dado: a insatisfação está posta, e o partido terá de mudar sua postura.

Para especialistas, apesar de perder força, o ANC tampouco pode ter sua força questionada, uma vez que contou por muitos anos não apenas com o apoio, mas também com o carinho de seus eleitores. Os laços afetivos que a população negra possui com o partido não são fáceis de serem quebrados. Os negros representam aproximadamente 80% dos sul-africanos.

“Muitas pessoas que estão desapontadas com o ANC tampouco conseguem votar em um partido que reconhecem como sendo dominado por brancos”

Shireen Hassim

Professor de política na Universidade de Witwatersrand, em entrevista ao jornal britânico “The Guardian

Origens da decepção

A África do Sul nunca se recuperou totalmente da crise econômica global que teve início em 2008. O ANC é visto como um partido que não teve a capacidade de retomar o crescimento e nem mesmo de contornar os problemas sociais derivados da crise. Somado a isso, acusações de corrupção e favorecimentos pessoais envolvendo a imagem do atual presidente Jacob Zuma contribuíram para aumentar o desgaste do partido de Mandela.

Dois principais fatores

ESTAGNAÇÃO ECONÔMICA E DESEMPREGO

Com uma economia dependente da exportação decommodities, e em plena fase de desindustrialização, a crise econômica mundial fez com que os principais compradores dos produtos sul-africanos – China, União Europeia e Estados Unidos – diminuíssem os gastos, afetando a entrada de dinheiro no país. Tal cenário contribuiu para o aumento do desemprego, que hoje atinge 25% da mão de obra. Sem demonstrar sinais de melhora, a capacidade do governo de retomar o crescimento passou a ser questionada.

CRESCE A FALTA DE POSTOS DE TRABALHO

CORRUPÇÃO

Além dos problemas nacionais que acabam rebatendo no partido em forma de críticas, o ANC é alvo também de acusações diretas de corrupção. O presidente Jacob Zuma já foi condenado em 2016 pela Corte Constitucional a devolver meio milhão de dólares aos cofres públicos, sob a alegação de que teria usado a verba para fazer reformas em um imóvel particular. O presidente também é acusado de permitir que uma família de ricos empresários comandasse as decisões de seu gabinete.

Impacto para 2019

FOTO: SIPHIWE SIBEKO/REUTERS

País africano estabeleceu pior desempenho do ANC desde o fim do Apartheid

PRESIDENTE DA ÁFRICA DO SUL, JACOB ZUMA, ANUNCIA RESULTADO DAS ELEIÇÕES

Assim como a maioria das eleições locais ao redor do mundo, o encolhimento do ANC nas municipais é mais importante pelo que ele representa para o panorama nacional do que, de fato, pelas cidades que a oposição conquistou.

O resultado é histórico, e o que se espera do partido de Zuma a partir de agora é repensar sua organização interna e sua estratégia política. A certeza do sucesso evitou que o partido evoluísse e acompanhasse as mudanças no país, conforme membros do partido constataram à imprensa após as eleições.

Nomes importantes do ANC se pronunciaram. Mavuso Msimang, líder histórico da legenda, foi um deles. Ele disse ao jornal americano “Washington Post” que “os eleitores responderam à arrogância da minha organização”.

Para a oposição, as eleições representavam, na prática, um referendo sobre o trabalho de Zuma. A notícia foi boa, tanto para o DA, de direita, quanto para o menor ‘Combatentes pela Liberdade Econômica’ (EFF), de esquerda, criado por dissidentes do ANC. Eles agora veem a possibilidade de uma disputa pelo poder, antes impossível em um país praticamente monopartidário.

“Chamamos essa de ‘eleição da mudança’ porque sentimos que foi um referendo sobre Jacob Zuma enquanto figura nacional, mas também tivemos um referendo sobre o futuro da África do Sul”

Mmusi Maimane

Primeiro líder negro da Aliança Democrática, em entrevista à rádio local “702”

O papel da dinâmica racial nas eleições

FOTO: JAMES OATWAY/REUTERS

Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, faz propaganda eleitoral na África do Sul

CARRO DE CAMPANHA DO PARTIDO DA SITUAÇÃO, ANC, NO NORTE DE JOANESBURGO

Apesar do Apartheid ter terminado oficialmente em 1994, a desigualdade racial ainda tem um papel fundamental na dinâmica social e econômica da África do Sul.

A consolidação dos direitos iguais para negros e brancos não inseriu automaticamente os negros na economia formal, o que hoje se reflete em uma nova divisão populacional: os integrados na economia (tanto brancos quanto negros), e os não-integrados (majoritariamente negros).

Mesmo entre a população negra de classe média, permanece o sentimento de desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Duas populações vivendo em mundos distintos possuem, por consequência, demandas eleitorais também distintas.

Hoje, o ANC tem dificuldades em representar e conversar com ambos os lados, tornando urgente para sua sobrevivência uma reformulação estratégica.

“Temos de olhar para nós mesmos nos olhos e dizer ‘o que aconteceu?’ Não acreditamos que nenhuma outra organização na África do Sul ofereça uma solução melhor do que a do ANC. Se nós temos soluções melhores, o que deu errado?”

Jackson Mthembu

Membro do ANC, que ocupa um cargo semelhante ao líder de bancada de partido no Brasil

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/08/09/Partido-de-Mandela-sofre-recuo-in%C3%A9dito-na-%C3%81frica-do-Sul.-Por-que-isso-aconteceu

Os Recados das Eleições na África do Sul

 african elections1

Os resultados das eleições municipais na África do Sul realizadas na última quarta-feira introduziram mudanças significativas no xadrez político da pátria de Nelson Político. Pela primeira vez desde que o Congresso Nacional Africano (ANC) ascendeu ao poder, em 1994, o histórico partido mobilizou menos de 60% da preferência dos cidadãos. Por sua vez, ao obter mais 40% dos votos, a oposição alcançou o melhor resultado de sempre, infligindo pela via democrática um golpe suficientemente duro para estremecer as estruturas do ANC. Com os citados resultados o país mais ao sul do continente africano assiste ao redesenhar do mapa político a nível do poder local. Doravante, o ANC passará a ver nos partidos Aliança Democrática (DA) e Economic Freedom Fighters (EFF) dois fortes candidatos a quebrarem a hegemonia que alcançou aquando das primeiras eleições democráticas da era pós-apartheid.

Depreende-se, para já, o fim do ciclo de eleições com vencedores antecipados. O ANC está claramente a enfrentar momentos menos bons. O envolvimento de membros do partido em escândalos de corrupção e o desgaste da imagem pública do Presidente Jacob Zuma terão contribuído para o pior resultado eleitoral obtido pelo lendário partido. É acentuado o índice de insatisfação pelo desempenho de Jacob Zuma que, amparado pela maioria parlamentar, escapou em Abril a uma moção de destituição. Antes porém, foi obrigado pelo Tribunal Constitucional a devolver aos cofres do Estado mais de 15 milhões de dólares gastos com benfeitorias na sua residência privada. O pedido de desculpas endereçado pelo Presidente à nação não bastou para apagar o facto da memória colectiva.

Observadores da cena política sul-africana estimam que apoiantes tradicionais do ANC vêm trocando este por outros partidos. É grande o desencanto face a vários incumprimentos do programa eleitoral do ANC. Vinte e dois anos depois das mudanças democráticas o desemprego mantém-se altos em patamares. A criminalidade e a deficiente segurança pública continuam a figurar entre os problemas de primeira linha. Enquanto isso, a classe média diminuiu o poder aquisitivo. A política do black empowrement (empoderamento) ficou aquém das expectativas, além de ter sido beliscada também por episódios de corrupção. Para parte significativa dos cidadãos a elite política demarcou-se das promessas de redobrar a luta por justiça social, diminuição da pobreza e direitos iguais. A crise económica consubstanciada na desvalorização do rand, a moeda local e a consequente diminuição do poder compra da população contribuíram para o quase descalabro do ANC.

A Aliança Democrática, principal partido da oposição que representava a elite branca na era do apartheid ganha o rótulo de grande vencedora das eleições municipais, embora o ANC tenha ganho no cômputo geral. Actualmente liderado por Mmusi Maimane, primeiro negro a desempenhar tal função, Aliança que já administrava Cape Town, cidade sede do parlamento sul-africano, voltou a conquistar a preferência do eleitorado com margens expressivas. Outra conquista de realce foi testemunhada em Port Elizabeth, baptizada como Nelson Mandela Bay e que é considerada um importante polo económico e político da África do Sul.

As cidades de Pretória, capital política da África do Sul e Joanesburgo, principal centro económico-financeiro do país podem revelar igualmente resultados surpreendentes pela negativa para o ANC que nem na terra natal do presidente Zuma conseguiu assegurar a vitória. O responsável pela derrota com sabor a humilhação foi o partido Inkhata Zulu, bastante influente na região do Kwazulu Natal.

A partir dos resultados das eleições realizadas na quarta-feira o ANC deve aprender a negociar no sentido de fazer alianças políticas com vista a governar com estabilidade. Tanto a dúvida em relação ao futuro quanto a certeza de o panorama político sul-africano jamais será como antes, fazem prever um pleito eleitoral renhido em 2019. Pode ser o princípio do fim da hegemonia do ANC. O eleitorado negro que constituía a principal base de apoio do partido que ascendeu ao poder com Nelson Mandela parece ter reagido positivamente ao piscar de olhos da Aliança Democrática. O passado associado ao apartheid ficou lá atrás. Por seu turno, Julius Molema, o polémico líder do Economic Freedom Fighters e antigo presidente do braço juvenil do ANC, promete fragmentar ainda mais o partido que o projectou.

Nos próximos tempos o partido governante na África do sul vai precisar muitíssimo mais do que promessas eleitorais bem estruturadas para convencer os sul-africanos a voltarem no seu projecto de governo. Políticas públicas à altura dos gigantescos desafios do país a par de competências para implementar boas práticas de governação deverão integrar qualquer pacote que se pretenda aliciante. O eleitorado dá mostras de associar a administração ao exercício do voto. Salta à vista o amadurecimento político que permite votar em partidos com propostas diferenciadas e, desse modo, escapar a suposta lógica do voto seguro na legenda partidária do coração. À vista desarmada os resultados do último pleito eleitoral na África do Sul transmitem inequivocamente a ideia de que não basta ser histórico para vencer eleições.

Os Recados das Eleições na África do Sul

Partido de Mandela perde a capital da África do Sul nas municipais

african elections

Joanesburgo – O Congresso Nacional Africano (CNA), o partido no poder na África do Sul, viveu neste sábado um revés histórico nas eleições municipais ao perder na capital, Pretória, frente ao principal partido da oposição, a Aliança Democrática (DA).

O partido também registrou um recuo histórico no restante do país, perdendo a sua maioria nas cidades mais importantes.

Em todo o país, é a primeira vez que o Congresso Nacional Africano conquista um número tão baixo de votos (53,9%) desde sua chegada no poder, ao final da ditadura racista do apartheid e o advento da democracia em 1994.

Em Tshwane, a metrópole que engloba Pretoria, a DA conseguiu 43,1% de los votos contra el 41,2% obtido pelo CNA, que governava com maioria absoluta a cidade, segundo os resultados publicados depois da apuração das eleições de quarta passada.

O partido opositor de centro-direita também venceu em Port Elizabeth, a sexta cidade mais populosa da África do Sul.

Mais de 26 milhões de eleitores estavam convocados a votar nas eleições municipais que, segundo a Comissão Eleitoral, foram realizados sem incidentes.

Este recuo “aconteceu mais rapidamente e em maior proporção do que imaginávamos. Foi um choque para todos”, considera o analista político independente Ralph Mathekga.

Nos últimos anos, mesmo após a retirada da figura histórica do partido, Nelson Mandela, o CNA estava acostumado a vencer confortavelmente todas as eleições com mais de 60% dos votos. Mas estas municipais mudam a situação.

Tais resultados poderiam colocar em apuros o presidente Jacob Zuma. Neste sábado à noite, durante um discurso por ocasião do anúncio dos resultados pela Comissão Eleitoral, o Chefe de Estado elogiou as “eleições altamente disputadas, tais como deveriam ser em uma democracia”.

Jacob Zuma deve completar o seu mandato em três anos, mas o partido pode ser tentado a encurtar o seu reinado para evitar um declínio ainda mais grave nas urnas nas eleições gerais de 2019.

À frente da África do Sul desde 2009, o reinado de Zuma tem sido marcado por uma série de escândalos.

Como exemplo, este sábado, seu discurso foi interrompido por quatro jovens mulheres que exibiam cartazes em frente ao palanque para recordar um caso de estupro em que Zuma foi inocentado há dez anos.

Os seus problemas legais, no entanto, ainda são atuais, uma vez que foi condenado a pagar 500.000 dólares por utilizar dinheiro público para reformar a sua casa em Nkandla (sul), que, ironicamente, votou por um outro partido diferente do ANC.

Mas, apesar de seus sucessos retumbantes em Port Elizabeth e Pretória, o DA não conseguiu obter a maioria absoluta e terá de se aliar a outros partidos para governar estas cidades.

Na capital, os liberais da AD vão certamente atrair os Combatentes para a Liberdade Econômica (FEP) de Julius Malema, que foi expulso do CNA.

http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2016/7/31/Partido-Mandela-perde-capital-Africa-Sul-nas-municipais,f6f1aad8-cfe6-4198-a9ac-fd270d21d176.html