Negro londrino que conseguiu entrar em corporações financeiras

O estudante que transformou sua vida batendo em portas de casas ricas de Londres

Reggie Nelson decidiu fazer uma pergunta aos moradores: quais são as habilidades e competências necessárias para se chegar a viver em um bairro como esse?


Por BBC

 

Reggie Nelson, morador de um bairro de classe operária em Londres (Foto: Cebo Luthuli/BBC)Reggie Nelson, morador de um bairro de classe operária em Londres (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

Reggie Nelson, morador de um bairro de classe operária em Londres (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

Em algumas ocasiões, era uma campainha convencional. Em outras, um interfone. Mas ele não tinha dúvida de que as portas se abririam.

Reggie Nelson, morador de um bairro de classe operária em Londres, decidiu ir até a região mais nobre da cidade para fazer uma pergunta a seus residentes.

Para conseguir a resposta que procurava, o jovem de 17 anos optou por bater diretamente na porta das residências de luxo, em vez de abordar as pessoas na rua.

“O que eu dizia às pessoas quando tocava a campainha era: ‘Meu nome é Reggie e sou do leste de Londres. Vim até Kensington e Chelsea porque descobri que essa é a região mais rica do Reino Unido. E só queria saber quais são as habilidades e competências necessárias para chegar a viver em um bairro como esse. Para que eu possa extrapolá-las e usá-las a meu favor”, contou o jovem, que hoje tem 23 anos, à BBC.

“Naquela época, eu ainda estava cursando o ensino médio e perguntei a mim mesmo: ‘Como posso fazer algo diferente? O que posso fazer que seja realmente diferente para ver resultados, algo que ninguém mais pensou em fazer?”, completou.

A ideia que ele teve logo surtiu efeito:

“Eu entrei em uma rua particular e, na segunda porta que bati, uma senhora falou comigo pelo interfone, abriu a porta e me convidou para entrar”, recorda-se.

O encontro

A mulher, chamada Elizabeth, levou Reggie até uma sala de estar.

'Na segunda porta que bati, uma senhora falou comigo pelo interfone, abriu a porta e me convidou para entrar', lembra o jovem (Foto: Cebo Luthuli/BBC)'Na segunda porta que bati, uma senhora falou comigo pelo interfone, abriu a porta e me convidou para entrar', lembra o jovem (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

‘Na segunda porta que bati, uma senhora falou comigo pelo interfone, abriu a porta e me convidou para entrar’, lembra o jovem (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

“Quando estávamos conversando, um homem entrou. Era Quintin Price. Na época, ele era diretor da Alpha Strategies, (uma unidade) na BlackRock.”

A BlackRock é uma empresa de gestão de investimentos global, com sede em Nova York.

Price é especialista na área de finanças e investimentos, formado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, com passagem por bancos internacionais, como o Deutsche Bank.

Após conversar com Reggie e a esposa, o executivo se ofereceu para ser mentor do adolescente.

“A primeira coisa que pensei foi em como fazer para isso funcionar, enquanto estava indo para o trabalho. Então pensei em proporcionar a ele um pouco de experiência profissional”, disse Price à BBC.

Duas semanas depois, o especialista em finanças ofereceu a Reggie um estágio em sua empresa.

No mercado de trabalho

“Cheguei muito cedo. Fui o primeiro. Cheguei uma hora mais cedo porque queria causar uma boa impressão. Foi maravilhoso ver tantas pessoas jovens e brilhantes.”

“Aliás, antes de ir para lá, eu não tinha a menor ideia que você podia tirar A+ (nota máxima) nos exames de admissão da faculdade. Eu achava que A era a nota mais alta que você podia tirar, mas esses caras diziam: ‘Tirei três A+, quatro A+’.”

E a pergunta inevitável surgiu: como foram suas notas quando você terminou o ensino médio?

“Ainda estou estudando, não terminei”, respondi.

“Foi quando percebi que, na verdade, eu era a pessoa mais jovem ali e que todos aqueles caras já tinham terminado suas carreiras universitárias.”

“A partir desse dia, meu modo de pensar mudou, assim como minhas perspectivas, em todos os aspectos.”

“Me dei conta de que algo definitivamente sairia disso e assim foi”, lembra Reggie.

Reggie sente que é minoria no setor corporativo (Foto: Cebo Luthuli/BBC)Reggie sente que é minoria no setor corporativo (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

Reggie sente que é minoria no setor corporativo (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

Rumo à universidade

O jovem conversou com a mãe sobre a experiência e resolveu seguir a recomendação de Price: “Entrar na universidade, porque isso me daria a oportunidade de trabalhar na área de serviços financeiros.”

O jovem se formou com louvor na Universidade de Kingston e, desde então, começou a ajudar outras pessoas a atuar no mercado financeiro – e, particularmente, jovens negros a ingressar em espaços corporativos.

“Tem algo que ouvi e que ainda ecoa dentro de mim: se você quiser ver resultados diferentes, tem que sair da sua zona de conforto.”

Na sequência, ele conseguiu outra vaga de estágio, para a qual havia 9 mil candidatos.

“115 pessoas conseguiram, apenas 3 eram negras”, diz ele.

Ele passou a trabalhar recentemente para uma nova empresa e continua a progredir na carreira.

‘O único negro do andar’

“No andar (do prédio), onde trabalho, sou o único negro”, relata que Reggie, que nasceu no Reino Unido, mas é filho de pais ganeses.

“Na área corporativa, eu sou uma minoria e é algo que não vou esconder. Onde eu trabalho, existe diversidade, mas como em todos os ambientes de negócio em que já estive, poderia ser muito melhor.”

“Acho que a questão para mim é simplesmente me adaptar ao que está ao meu redor. Não diria que é conformismo, apenas adaptação, para causar o maior impacto possível, fazer a maior diferença que puder.”

Price é veterano no mundo das finanças e conhece muito bem esse setor.

“Acho que em qualquer ambiente hipercompetitivo, em que se é minoria, você precisa jogar o jogo num nível mais alto para se sobressair, porque você está educando as pessoas a superarem sua ignorância e preconceito. E esses preconceitos existem. Gostaríamos que não fosse assim, mas eles estão lá”, diz o especialista.

“Por isso, acredito que seja necessário para todos, para os que têm a sorte de estar no lado da maioria e para aqueles que são minoria, mas tiveram a oportunidade de provar aos críticos que estão errados e dar exemplo para as próximas gerações construírem uma sociedade mais igualitária.”

“Estamos vendo isso ao nosso redor e vemos que há mais pessoas como Reggie”, acrescenta Price.

Um conselho de ouro

Reggie ministra palestras sobre sua experiência com o objetivo de inspirar mais jovens negros a mudar o rumo de suas histórias.

Aos 23 anos, Reggie trabalha no distrito financeiro de Londres (Foto: Cebo Luthuli/BBC)Aos 23 anos, Reggie trabalha no distrito financeiro de Londres (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

Aos 23 anos, Reggie trabalha no distrito financeiro de Londres (Foto: Cebo Luthuli/BBC)

E dá uma dica:

“Aceite as rejeições, porque eu recebi muitos nãos, inclusive no mundo profissional.”

“Eu digo a eles que não tomem os nãos como um evangelho, mas aproveitem. Usem como combustível para seguir adiante até onde vocês precisam chegar”, afirma.

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Ator e professor brasileiro é assassinado em Luanda – Angola

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goiano Adélcio Cândido, de 41 anos, foi encontrado morto nesta terça-feira (24), em Luanda (Angola). Conhecido como Yaru, o ator e professor de artes cênicas teria ido a uma festa no último domingo (22) e só foi encontrado dias depois. A suspeita é a de que ele teria sido vítima de latrocínio (roubo seguido de morte) e morto por asfixia, segundo a TV Anhanguera, citada pelo G1. Os detalhes do assassinato ainda não foram divulgados pelas autoridades locais.

“Todos descobrimos quando a amiga dele que morava com ele nos ligou para dar a notícias. Sabemos também que acharam o carro com alguns pertences, como celular, que já estão com a polícia, junto com suspeitos”, afirmou a atriz, professora e colega de faculdade, Kelly Morais, de 37 anos. A família agora luta para transladar o corpo para o Brasil.

O Itamaraty disse por meio de nota que “a Embaixada do Brasil em Angola acompanha o caso”, que está prestando assistência aos parentes e que “a Embaixada mantém contato com as autoridades policiais angolanas, que investigam as circunstâncias do ocorrido

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Novas faces da negritude – Jornal Valor Econômico

 

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Desde já, uma advertência: esta reportagem contém pequenos testes.

Mas não se assuste. Eles são de simples solução, ainda que tragam

conclusões complexas. Eis o primeiro. Em um ambiente de caráter mais

elitista, olhe ao redor. Conte quantos negros o espaço acomoda. A

resposta será alguma coisa entre zero e pouquíssimos. Não estranhe,

porém. No Brasil, tal vazio é, por assim dizer, comum. Aliás, os

afrodescendentes, que compõem a maioria da população brasileira e são

55% do total, fazem o mesmo exame. Eles o chamam de “teste do

pescoço”, em referência à parte do corpo que gira para os lados, como

um periscópio, durante esse tipo de inspeção. O resultado, todos sabem,

é invariável e historicamente o mesmo.

Levantamentos de toda sorte confirmam a prevalência de brancos nesses

locais no Brasil. Uma pesquisa do Instituto Ethos, só a título de exemplo, mostra que os negros ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% dos postos de gerência nas 500 maiores empresas do Brasil.

 

No caso das mulheres negras, tal presença é ainda mais rarefeita. Os números

são, respectivamente, 0,4% e 1,6%. Tudo isso é inegável. Mas a chamada “questão racial” apresenta, hoje, nuanças intrigantes. Embora incipientes, elas estão nas ruas, agindo em conjunto. Eis a lista. Está saindo das universidades a primeira grande leva de negros formados dentro do sistema de cotas. Em paralelo, grupos de afrodescendentes apoderaram-se dos espaços digitais, dando novo alcance ao debate e às denúncias sobre o racismo. Políticas de gestão de diversidade, que resultam na inclusão de negros em postos qualificados de trabalho, também ganham tração em companhias instaladas no Brasil. Por fim, empresas, agências de publicidade e institutos de pesquisa começam a se interessar pelos afro-brasileiros sob um aspecto até aqui pouco usual – como consumidores.

 

Considere, agora, uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, em 2017. Ela constatou que o tempo médio de estudo dos negros passou de 5,9 anos, em 2002, para 8,6 anos, em 2015. Foi um salto de 35%. Entre os não negros, houve elevação, mas foi inferior: 22%. Além do mais, o percentual de pretos e pardos – como o IBGE

define o grupo de negros – com diploma de graduação dobrou entre 2007 e 2015. Além do mais, 75% das pessoas que ascenderam à classe média na última década eram afro-brasileiros, ainda que parte dessa escalada tenha sido comprometida nos anos bicudos da recessão. Estima-se, por fim, que os negros movimentaram R$

1,6 trilhão no ano passado.

 

O mercado de trabalho é um aspecto importante nessa transformação, ainda que lenta. O antropólogo Pedro Jaime, autor de “Executivos Negros, Racismo e Diversidade no Mundo Empresarial” (Edusp), identificou uma alteração singular na forma como duas gerações de afrodescendentes alcançaram cargos de direção ou gerência nas empresas nacionais.

 

“Um grupo ascendeu nos anos 70 como resultado de iniciativas individuais”, afirma Jaime. “O outro começa a ocupar postos semelhantes, mas sua trajetória é fruto de uma ação diferente, pois é coletiva.” Para o acadêmico, a guinada do individual para o coletivo foi resultado de dois fatores. Houve, por um lado, uma maior politização dos debates sobre racismo, em grande medida, intensificados pelas discussões sobre cotas. O outro componente foi a adoção por parte de empresas de políticas de diversidade. Esse tipo de técnica de gestão parte do princípio segundo o qual equipes heterogêneas de trabalhadores, e isso vale para etnia, gênero, credo, orientação sexual e idade, trazem benefícios para os negócios: diminuem a rotatividade de funcionários, atraem e retêm talentos e, entre outras vantagens, criam times mais propensos a inovador. De quebra, observa Jaime, a diversidade atenua tensões sociais como a demanda pela presença de “minorias” no ambiente empresarial.

 

A pesquisa do Instituto Ethos, cuja última edição é de 2016, constatou que somente 3,4% das 500 maiores companhias brasileiras têm metas e ações planejadas para ampliar a presença de negros em cargos executivos. O percentual é pequeno, mas essas firmas são gigantes em seus setores. A lista inclui grandes nomes como

Bayer, Basf, IBM, Google, Microsoft, Avon, Dow.

 

Acrescente-se que, em algumas delas, está em curso uma ruptura cultural, com a formação de núcleos de funcionários encarregados de discutir e encaminhar a questão do racismo dentro das quatro paredes da empresa.

 

Ricardo Gonçalves, executivo-sênior de TI na Bayer; Raphaella Martins, gerente de contas da agência de publicidade J. Walter Thompson; e Leila Luz, da área de comunicação para a América Latina da Basf, integram grupos desse tipo. Gonçalves conta que só tomou consciência do problema racial dentro do ambiente

corporativo.

 

“Como ralei muito durante toda a vida, sempre achei que a ascensão no

mercado de trabalho dependia apenas do esforço pessoal”, afirma. Mas,

à medida que ele participava das discussões sobre diversidade na

empresa, mudou de opinião. “Comecei a fazer o teste do pescoço nos

lugares onde frequentava e a questionar: realmente, onde estão os

negros?”

Raphaella, por sua vez, havia trabalhado 15 anos em agências de publicidade e estava “cheia” de ser a única negra em um cargo executivo nesses locais. Ao entrar na J. Walter Thompson, em 2014, decidiu incluir afrodescendentes em sua equipe. Essa disposição encontrou ressonância na cúpula da companhia. Nessa época, Ricardo John, vicepresidente de criação da agência, tateava o tema diversidade. Não foi difícil que o interesse de ambos convergisse.

 

Como resultado, os negros em postos estratégicos da empresa passaram de 2, em 2014, para 30 (20% dos funcionários) atualmente. “Mas a experiência não se resumiu aos números”, diz Raphaella. “Ela desencadeou um processo de conscientização que atingiu todos na agência.”

 

Em tais debates, porém, muitas vezes emergem rusgas – e não consensos. “Mas algum tipo de desconforto também pode ser útil”, afirma Leila Luz, da Basf. Em uma ocasião, ela contratou um funcionário negro. Uma colega lhe indagou se a cor da pele do candidato havia influenciado na decisão. “Ora, pessoas brancas contratam brancos o tempo todo, e ninguém faz esse tipo de questionamento”, diz Leila.

“Nesse caso, expus o meu ponto de vista e foi bom. Isso ajudou a superar o problema.” Ela observa, contudo, que o resultado líquido da atuação

desses grupos nem sempre é animador. “Fico na expectativa de ouvir um diálogo transformador, mas, na prática, as pessoas tendem a reproduzir o senso comum.”

Por isso, se há uma discussão que os jovens negros consideram totalmente inócua é se existe racismo no Brasil. E o motivo é simples: eles são alvos permanentes de preconceitos. O consultor de comunicação Rodrigo Fernandes, por exemplo, estava em pé na frente de um restaurante de alto padrão nos Jardins, em São Paulo,

onde almoçaria com um amigo. Um homem desceu de uma Mercedes e lhe entregou a chave do carro. “Fui confundido com o manobrista”, afirma Fernandes.

Outro ponto de transformação é a tecnologia, que, como em tudo mais na atualidade, abre espaço para outras mudanças.

“Até agora, as revoluções na mídia, com o rádio, a TV e a primeira fase da internet, foram brancas”, diz Adilson dos Santos Júnior, conhecido como AD Júnior, um expoente entre os influenciadores negros nas redes sociais. “A diferença é que, agora, temos isto”, acrescenta, apontando para um smartphone.

 

“Somos mais de 110 milhões de pretos e pardos no Brasil e ganhamos voz no mundo digital.” É longa a lista de afrodescendentes em alta nas redes sociais.

Nesse caso, chama atenção a presença de mulheres como a arquiteta Stephanie

Ribeiro e Djamila Ribeiro, ex-secretária adjunta de Direitos Humanos em São Paulo. Os coletivos da web, como Blogueiras Negras e Levante Negro, também compõem essa tribuna digital. O Levante, por exemplo, foi criado em 2015. Ele divulga trabalhos de negros em áreas como comunicação, educação ou gastronomia.

 

“A ideia é levar para a audiência uma representatividade concreta, que sirva de inspiração para jovens em início de carreira”, afirma o escritor Oswaldo Faustino, autor de “A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932” (Selo Negro). “Mas, por uma ironia cruel, o grupo tem sido alvo de ataques frequentes. As acusações como de ‘vitimismo’ se tornam rotina na vida de seus integrantes, que trabalham com a curadoria e produção de conteúdo educativo de alta qualidade.”

 

AD Júnior é especialista em marketing digital formado pela Universidade da Califórnia, em Irvine (EUA). Hoje, vive na Alemanha. Em 2012, criou um canal sobre viagens no Facebook. Assustou-se com os comentários

.

“Algumas pessoas perguntavam como um ‘macaco’ podia falar inglês”, afirma. As ofensas amontoaram-se até que AD resolveu transformar o canal em uma plataforma antirracista.

 

Djamila Ribeiro, destaque entre as atuais blogueiras negras, conta em um de seus textos que, na infância, uma amiga lhe convidou para ir a uma festa. Chegando lá, ela e seus irmãos não entraram na casa, pois um tio da garota não gostava de negros. Djamila e os irmãos foram servidos na calçada. Isso até que, indignados,

debandaram dali. É Djamila quem faz a pergunta que compõe o segundo teste desta reportagem: “Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?”.

 

Não raramente, situações dessa intensidade levam à resignação. Em outros casos, produzem um reforço identitário.

Patrícia Santos, especialista em RH, perdeu um emprego por ter feito trancinhas nos cabelos. “Minha chefe disse que eu não estava de acordo com o ‘dress

code’ da empresa”, afirma. Em resposta, e com o tempo, ela fundou a

Empregue Afro, consultoria de RH especializada na colocação de negros

no mercado de trabalho. Fernando Montenegro, por sua vez, não se conformou com o fato de pretos e pardos serem invisíveis para muitos setores do mercado. Ele criou um instituto de pesquisas focado na análise do comportamento de consumo de afro-brasileiros. Trata-se do Think Etnus.

 

Cansada de papéis secundários e estereotipados, a atriz Maria Gal também reagiu. Ela começou a produzir, e vai protagonizar, um filme sobre Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Negra, favelada, semianalfabeta, Carolina registrava seu cotidiano em papéis colhidos no lixo. Transformou-se em escritora, traduzida em vários idiomas,

autora de livros de como “Quarto de Despejo” (1960).

 

“Só 4,4% dos filmes produzidos no Brasil têm atrizes negras no seu elenco principal”, afirma Maria Gal,justificando sua decisão de empreender. “E já desisti de um teste, porque o diretor achava a pele branca mais comercial do que a minha.”

O debate sobre o racismo no Brasil sempre se deu no campo do interdito, patinando entre falsas premissas, ambivalências e tabus.

 

No fim do século XIX, a ciência construiu a ideia de que as raças eram biologicamente determinadas. Por aqui, tal lógica, o racialismo, encontrou guarida no médico Nina Rodrigues (1862-1906), de origem negra. Tal corrente considerava os negros inferiores. Assim, difundiu-se a tese de que era preciso branquear a população no país. Algo que de fato foi tentado por meio, por exemplo, da política de atração de imigrantes europeus.

 

A partir da segunda metade do século XX, essa teoria desmoronou. Com os avanços da ciência, as categorias raciais passaram a ser vistas como socialmente construídas, e não inatas. Mas o desmanche do racialismo não teve grande utilidade prática.

 

Como diz Kwame Appiah, professor de filosofia da Universidade de Nova York

(autor de “Lines of Descent: W.E.B. Du Bois and the Emergence of Identity”), continuamos a nos classificar por raças, apesar do que nos diz a genética.

 

Queiramos ou não, como afirma a antropóloga brasileira Lilia Moritz

Schwarcz, na prática, raça ainda é um conceito poderoso e persiste como marcador social.

 

Já durante boa parte do século XX, os brasileiros viveram sob o doce

mito da democracia racial. Grosso modo, ele propagava ao mundo que o

Brasil escapara do preconceito e da discriminação. À primeira vista, esse

conceito pode parecer um produto genuinamente nacional. Mas não é.

Deborah Yashar, professora de política na Universidade Princeton,

apontou em um artigo publicado na revista “Foreign Affairs” (“Does

Race Matter in Latin America?”) que a mesma fábula seduziu diversos

países latino-americanos. Eles difundiram mitos gêmeos de unidade

nacional e homogeneidade étnica como parte do processo de construção da identidade nacional.

 

Em 1925, por exemplo, o filósofo mexicano José Vasconcelos cunhou o termo “raça cósmica” para glorificar o caráter inter-racial daquele país. Os venezuelanos usavam a expressão “cafe con leche” para celebrar o amálgama entre africanos, europeus e índios. Disse o general equatoriano Guillermo Rodríguez Lara, após

assumir o poder em 1972: “Não há mais um problema indígena. Todos nos tornamos homens brancos quando aceitamos os objetivos da cultura nacional”.

 

No Peru, o general e ex-presidente Juan Velasco Alvarado (1968 a 1975) foi mais longe. Proibiu o termo “índio” nos discursos oficiais. Em 1969, alterou o nome do Dia do Índio para Dia do Camponês.

 

Por aqui, coube a Gilberto Freyre, o autor de “Casa-Grande & Senzala”, interpretar o Brasil como um país mestiço e o brasileiro, como uma metarraça. O paraíso racial erguido por Freyre começou a desabar nos anos 50, com os sociólogos Roger Bastide e Florestan Fernandes (este autor do clássico “A Integração do Negro na

Sociedade de Classes”).

Na mesma toada desmistificadora, seguiram Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni. FHC, aliás, foi o primeiro presidente brasileiro a admitir a existência do racismo no país.

Hoje, por mais que despontem ações individuais, o que se chama de movimento negro é um conjunto de grupos que atuam em áreas diversas. Eles se articulam em situações pontuais e mantêm entre si uma espécie de comunhão de princípios. “Ainda assim, resta o desafio de construção de uma síntese”, diz Douglas Belchior, da Uneafro, entidade que prepara jovens negros para vestibulares e concursos públicos.

 

Nesse sentido, cogita-se da formação da Frente Alternativa Preta, o esboço para a formação de um partido de base étnica. A pauta de boa parte desses grupos inclui reivindicações por avanços tanto nas ações afirmativas como em políticas de reparação histórica. As primeiras são pontuais e transitórias, como as cotas, as outras visam atacar desigualdades estruturais, com iniciativas de longo prazo e investimentos permanentes em áreas específicas.

 

Políticas de ação afirmativa, embora tenham nascido nos Estados Unidos, nos anos 60, são um fenômeno global. Foram largamente usadas na Malásia, por exemplo, no fim do século passado. Hoje, o tema atravessa o mundo, atingindo inclusive a Europa, palco de permanentes fluxos migratórios. Como diz o filósofo indiano Kenan Malik, ali, tal debate é fruto do “fiasco do multiculturalismo”, em que estão atolados os países europeus.

 

 

Para Graham K. Brown, da Universidade da Austrália Ocidental, e Arnim Langer, da Universidade de Leuven, na Bélgica, autores do livro “Building Sustainable Peace”, tais programas de ação afirmativa tiveram sucessos semelhantes e foram vítimas de fracassos similares. A maioria reduziu disparidades econômicas, ainda que com frequência menor do que seus formuladores gostariam. As ações, observa a dupla, tendem a realçar divisões étnicas, embora a inquietação racial possa ceder à medida que a desigualdade diminui.

 

No Brasil, seis anos depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter confirmado constitucionalidade da lei de cotas, em 2012, os balanços da maior ação afirmativa já adotada no país têm sido positivos. Os dados indicam que, entre 2012 e 2015, o número de estudantes pretos ou pardos passou de 933 mil para 2,1 milhões nas

universidades federais. Foi um salto de 132%. Diversas pesquisas afastaram temores segundo os quais os cotistas teriam um desempenho acadêmico pífio ou engrossariam as estatísticas de evasão.

A maior dificuldade do sistema diz respeito à definição de quem é negro, uma tarefa árdua em um país de “quase pretos”. Para escapar dessa sinuca, as universidades recorrem a entrevistas para avaliar o fenótipo dos estudantes (como nariz, cabelos), uma análise sujeita a imprecisões ou a autodeclaração do candidato, que dá

margem a fraudes. Mas problemas desse tipo, afirmam especialistas, não comprometeram até aqui a tentativa de equalizar, ainda que minimamente, as oportunidades de educação no Brasil.

 

Mas um alerta indigesto sobre a questão racial soou no mês passado, em um artigo do economista Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel, em 2001, com o título “Quando vamos superar o racismo?”. No texto, ele indica que, em 50 anos de combate a discriminações nos Estados Unidos, houve avanços em alguns setores (caso da

política, com a eleição de Barack Obama), em muitas áreas o quadro permaneceu o mesmo (disparidades na educação e no emprego) e, em outras, a situação agravou-se (desigualdade de renda e riqueza).

 

Esse balanço é detalhado no livro “Healing our Divided Society”, organizado Fred Harris, ex-senador e professor da Universidade do Novo México, e Alan Curtis, o CEO da Fundação Eisenhower. Stiglitz, que colaborou com o projeto, define a leitura do texto como “sombria”.

 

Quanto às aspirações dos afrodescendentes, eles parecem ter sido captados recentemente por uma fonte insólita: Hollywood. Considerando o efeito produzido nas plateias, “Pantera Negra” consolida uma espécie de “utopia da negritude”. No filme, um super-herói assume o trono de Wakanda, um pequeno país africano. Ele se faz passar por pobre e rural, mas detém uma tecnologia tão evoluída quanto poderosa. O protagonista vive um dilema. Deve guardar o segredo dessa riqueza, e com isso garantir a prosperidade e a segurança de seu povo, ou precisa compartilhar esse conhecimento com o mundo, notadamente com comunidades negras massacradas planeta afora. Mais do que um delírio de poder pan-africano, a história atrai pela forma como apresenta homens e mulheres negros. Eles surgem na tela como orgulhosos protagonistas de seus destinos. Não parece ser

outro o anseio na vida real._

Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5517555/novas-faces-da-negritude

Winnie Mandela “A Mãe da Nação teria restaurado a dignidade dos Negros”

wi e juO ex-líder da juventude do ANC Malema – um crítico contudente do presidente deposto Jacob Zuma – era próximo  de Winnie Madikizela-Mandela e tem o mesmo apelo direto.

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Ele foi expulso do CNA depois de ter sido condenado por discursos de ódio e criou a EFF em 2013, que cresceu para ser forte o suficiente para ser um ‘fazedor de rei’ nas eleições do governo local em 2016.

 

Um porta-voz do ANC não atendeu seu telefone quando a Reuters ligou para pedir comentários sobre as declarações de Malema.

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Winnie Madikizela-Mandela fez uma campanha incansável pela libertação do marido Nelson Mandela da prisão e emergiu como uma proeminente heroína  da libertação, mas seu legado foi mais tarde manchado por alegações de violência.

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Ela estava entre os candidatos a vice-presidente do ANC em 1997, uma posição que a teria preparado para um papel de liderança nacional, mas desistiu de sua candidatura depois de não conseguir apoio suficiente.

“A Mãe da Nação teria restaurado a dignidade dos negros”, disse Malema, adotando um epíteto amplamente usado na mídia sul-africana para refletir o respeito pela oposição declarada de Winnie Madikizela-Mandela ao regime do apartheid.

 

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Alguns sul-africanos  concentraram-se nos capítulos mais sombrios de seu passado, incluindo a condenação por sequestro e agressão de um ativista encontrado com a garganta cortada perto de sua casa em Soweto.

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“Que ela descanse em paz por todo o grande trabalho que fez”, disse Esther Shabangu, residente em Joanesburgo.

“Eu gostaria que todas nós, como mulheres, assumíssemos o legado que ela deixou para os negros neste país”.

Malema disse que a condenação de Winnie Madikizela-Mandela em 1991 foi uma farsa e prometeu que a FEP lutaria pelos direitos dos sul-africanos negros com a mesma destemida que o forte anti-apartheid.

“A lança caiu”, disse Malema. “Estamos aqui para pegar a lança.”

Vereadora negra de Niterói é ameaçada de morte

Talíria Petrone

Publicado no Brasil de Fato

Única mulher negra e feminista na Câmara Municipal de Niterói (RJ), Talíria Petrone, 32 anos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vem sofrendo ameaças desde o início do mandato.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ela conta como a violência das redes sociais logo se transformou em ameaças reais à sua integridade. No entanto, afirma que embora tenham reforçado a sua segurança, o movimento maior não é de recuo.

A vereadora classifica a execução da também vereador e amiga Marielle Franco, ocorrida há um mês no Rio de Janeiro, como uma tentativa de amedrontamento dos ativistas dos direitos humanos. “Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Marielles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava”, disse.

Na última quarta-feira, 28 de março, a Polícia Civil identificou e interrogou um homem que ameaçava a vereadora Talíria de morte. A parlamentar havia registrado queixa em novembro na 76ª Delegacia de Polícia, em Niterói, depois de receber ligações sistemáticas do suspeito onde ele afirmava que iria explodir a sede do partido com uma bomba.

De acordo com a assessoria da vereadora, o suspeito teria admitido à polícia que fez as ameaças “por motivos políticos”.

Segundo informações divulgadas na imprensa, o suspeito prestou depoimento, mas não foi detido, pois as ameaças configuram como um crime de menor potencial.

taliria.1abConfira a entrevista com a vereadora.

Brasil de Fato: Primeiro gostaria que falasse um pouquinho como você a violência que leva a mortalidade de candidatas e candidatos sendo uma ferramenta do jogo político, que é o que os dados mostram.

Talíria Petrone: Acho que a gente chegou num patamar no Brasil que tem como culminância o assassinato da Marielle. É o ataque ao resto de democracia que não se completou no Brasil e já vem há um tempo uma polarização que cresce no setor de extrema direita, do ódio que se soma a violência na política. É uma urgência que os olhos internacionais se voltem para o Brasil para interromper esse processo de ataque a essa democracia incompleta porque é a possibilidade hoje de dizer, de denunciar a agir nos mínimos marcos da democracia burguesa.  O que eu espero neste momento é que a gente tenha cada vez mais os olhos no mundo. Entendemos que o Brasil é o país que mais assassina ativistas de direitos humanos e o quanto a liberdade de fazer denúncias têm sido interrompida.taliria.1a

 Sim, perfeito. E Talíria, há relatos inclusive de outros companheiros do PSOL que você mesmo estaria sofrendo ameaças sistemáticas de morte, você confirma?

Desde o início do mandato vimos a violência que se manifesta muito nas redes. Recebi mensagens desde “neguinha nojenta”, “volta pra senzala”, até “merece uma 9mm na nuca”, “se eu encontrar mato na paulada”, até que em novembro culminou em ligações sistemáticas para a sede do PSOL em Niterói, pedindo  telefone da “piranha que o povo elegeu”, e dizendo que iria explodir uma bomba. A gente registrou uma queixa na DP 76, agora com isso tudo nada pode ser desprezado. Estamos mais atentos. Tem uma coisa que é apurar o que aconteceu com a Mari [Marielle] mas do que quem apertou o gatilho, mas quem mandou matar e de que esfera do poder veio a ordem porque sabemos que é um crime político, precisamos saber da onde veio esse recado. Essa tentativa de silenciamento das nossas pautas.

Por último, queria que você falasse um pouco quais são as medidas que seu gabinete e o PSOL tomam para garantir sua segurança, algo mudou? 

A gente está conversando com especialistas, não tem muitos detalhes, mas o mais breve possível estaremos circulando de forma mais segura pela cidade. Já estamos tomando mais cuidado e formalizando medidas para andar mais seguro. Acho que é importante dizer que embora estejamos tomando medidas de maior precaução, a gente não está dando nenhum passo atrás. Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Meirelles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava.

Mortes de políticos

Dados compilados pelo Brasil de Fato a partir de dados públicos do TSE, o Datasus e por meio de notícias veiculadas pela imprensa revelam que cerca de 90 prefeitos e vereadores em exercício foram assassinados no Brasil entre 2008 e 2018.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/merece-uma-9-mm-na-nuca-vereadora-do-psol-amiga-de-marielle-e-ameacada-de-morte/

A depressão de um jovem negro que teve um sucesso fugaz, MC Beijinho

Longe da fama e prestes a ser julgado por roubo, ele compôs música para Caetano

MC Beijinho visitou redação do CORREIO e falou sobre momentos de dificuldade (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Ítalo Gonçalves da Conceição, 20 anos, que ficou famoso como MC Beijinho, chegou à redação do CORREIO agitado. Acompanhado de dois advogados e da mãe, ele andava rápido. Cumprimentou a reportagem olhando pra baixo, com um sorriso de canto de boca. Usava um colete, calça jeans e uma camisa que combinava com o chapéu verde cana. Uma corrente de prata grossa completou o look, escolhido especialmente para a ocasião.

Quando começa a entrevista, ele se cala. Tem dificuldade de responder às perguntas e, por vezes, se levanta da cadeira. O silêncio só é quebrado em dois momentos: o primeiro, quando o telefone tocou, e o segundo, quando o assunto foi música. Aí Ítalo se transformou de fato em MC Beijinho.

“Véi, sou cantor. Até Caetano Veloso já cantou minha música. É linda a letra, você já ouviu?”, questionou.

Os minutos passam e Ítalo só volta a falar quando a mãe, Lindinalva Gonçalves, interferiu na tentativa de bate-papo. “Ele tá assim agora, não quer falar nada. Só falava antes, quando estava na mídia, porque tinha um monte de gente do lado”, tentou explicar.

O silêncio, justificado por Lindinalva, vem desde que o sucesso acabou, logo após o Carnaval de 2017. Desde então, Beijinho entrou em depressão.

“Ficou um ano triste, no quarto. Comia e bebia dentro do quarto. Foi horrível, porque acabou a vida do meu filho”, comentou ela.

Esse ano, por exemplo, Ítalo sequer participou do Carnaval. Ele até tentou se eleger como Rei Momo, mas não deu certo. “Ele queria participar das festas, mas, como não foi chamado pra nada, tentou o concurso”, completou a mãe.

Mesmo estando há meses sem compor uma música, quando perguntado sobre sua atual profissão, fez questão de reforçar: “Sou MC Beijinho. Às vezes eu começo a compor, e não termino, mas fica tudo aqui dentro da minha cabeça”, declarou.

A única coisa que sobrou da música Me Libera Nega, composta por ele e cantada por grandes artistas no ano passado, foi um valor mensal de menos de R$ 500, utilizado nas despesas da casa, onde mora com a mãe e irmãs, no bairro de Itapuã.

Além da saudade de cantar, Beijinho diz que sente saudades da época do sucesso.

“Eu queria voltar à fama. É bom ser reconhecido, porque as pessoas passam a te respeitar e a te chamar pelo nome bonito, que é MC Beijinho”, comentou.

Será que vão liberar o nego?
A fama de Ítalo veio através de um caso de polícia. É que ele ficou conhecido depois de ser acusado de roubar celulares de transeuntes no bairro de Piatã. Durante a abordagem da polícia, após o crime, Ítalo começou a cantar a música que viraria hit – Me Libera Nêga tinha sido composta meses antes.

O caso ganhou repercussão nas redes sociais e depois na imprensa e, com as gravações, nasceu MC Beijinho, que virou sucesso nacional com uma das músicas mais executadas do Carnaval 2017.

Mas a fama passou e, agora, Ítalo vai ser julgado pelo crime. Ele diz que não sente medo e que pretende falar a verdade ao juiz.

“Não me importa o que aconteceu naquele dia [do crime]. Foi uma confusão, na verdade. E eu vou explicar tudo ao juiz para que as pessoas me olhem com outros olhos”, adiantou ele.

Defesa de Ítalo, o advogado Rogério Matos diz que o cliente usou o momento do flagrante para expor a música. “Ele foi muito sagaz, porque utilizou a situação para apresentar a música à imprensa”, analisou.

Matos também nega que o cliente tenha cometido o delito. “A tese da defesa é que os fatos que foram denunciados não correspondem à realidade”, afirmou. A defesa diz ainda que vai pedir absolvição de Ítalo. “É bem claro que não se trata de um criminoso. Ele não tem o menor potencial para cometer um delito daquele tipo. Nossa expectativa para o julgamento é a melhor possível”, completou.

Foto: Betto Jr./CORREIO

Inspiração
MPB, rock e rap. Esses são os estilos preferidos de MC Beijinho. Ele diz que não “curte muito pagode” e que a inspiração vem de si mesmo, apesar de adorar Caetano Veloso.

Por falar no precursor da Tropicália, Beijinho compôs uma canção para ele e adiantou parte da letra ao CORREIO. Tá Faltando Respeito é o nome da canção, que, por enquanto, vem sendo ignorada por Caetano.

Veja abaixo alguns dos versos:

“Tantas pedras no caminho. Venha Deus nos ajudar.
Evita dessas guerras e vem o amor pra me agarrar.
Me abalou, olha como eu estou.
Tá faltando respeito, tá faltando respeito.
Teu jeito de amar…”

http://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/em-depressao-mc-beijinho-recebe-r-500-mensais-por-hit-e-passa-dificuldades/

Ascensão econômica, Crédito e Black Money: a contramão da realidade dos empreendedores negros no Brasil

Segundo o IBGE, brasileiros com origem no topo da pirâmide social têm quase 14 vezes mais chances de continuarem nesse estrato do que pessoas nascidas na base ascenderem para essa posição. É sabido que a base sócioeconômica brasileira pelo seu contexto histórico tem cor e raça. Nesse viés, o mesmo estudo do IBGE observou que a mobilidade social é menor entre pretos ou pardos do que entre brancos . Na análise de mobilidade de longa distância, um indivíduo branco tem o dobro das chances de conseguir migrar dos estratos D, E ou F para o A do que um preto ou pardo.
Os resultados apontam que para a população preta ou parda, é mais difícil ascender ou mesmo permanecer no mesmo estrato do que para a população branca.

“Diversos estudos que analisaram as chances relativas de mobilidade entre brancos e não brancos confirmam a existência de barreiras raciais à mobilidade intergeracional no Brasil”, afirma o instituto.
É mandatório analisarmos as estruturas que causam as barreiras raciais a essa mobilidade. No Brasil temos vários cases de sucesso de empreendedores, mas quantos destes empreendedores são negros? Será que estes são menos capazes que os empreendedores brancos?

Empreender é um grande desafio no Brasil, onde cerca de 60% das empresas fecham antes de completar 3 anos de existência. Entre os motivos: burocracia, carga tributária excessiva, dificuldade de concessão de crédito e falta de conhecimento gerencial, especialmente para os micro e pequenos empreendedores. Contudo, essa saga é ainda mais hercúlea para o empreendedor negro.

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Ser negro no Brasil, além de ter mais chances de ser morto ainda na juventude, ter menor acesso à educação e ganhar proporcionalmente menos que os brancos, também representa ter menores oportunidades no mundo dos negócios.

Hoje, 51% dos empreendedores brasileiros são negros, mas apenas 29% deles empregam ao menos uma pessoa. Segundo especialistas, os afrobrasileiros enfrentam não só barreiras cumulativas devido à História brasileira, mas também devido ao racismo que persiste nas relações sociais. Eugene Cornelius Junior, que é chefe do escritório internacional da SBA nos Estados Unidos (entidade que oferece apoio para as pequenas e médias empresas, equivalente ao Sebrae que temos por aqui) afirma que, no Brasil, o empreendedor negro tem o seu pedido de crédito negado três vezes mais do que o empreendedor branco.

Isso significa que, “se uma pessoa da comunidade negra tem o desejo de empreender, mas não possui capital para isso e nem conhece alguém próximo que possa fazer um empréstimo, possivelmente não vai conseguir tirar a sua ideia do papel , expandir seu negócio ou fazer novas contratações. Porém engana-se aquele que acha que isso é um problema exclusivo dos negros – ao privar o acesso da maioria ao crédito inibimos o crescimento econômico e a criação de empregos no Brasil”, diz Alan Soares Planejador Financeiro /Sócio da Trader Brasil e fundador do Movimento Black Money . “O nosso PIB poderia crescer muito mais se não houvesse essa discriminação tão intensa dentro da economia”, complementa.

Investir em iniciativas que mudem essa realidade é um passo importante a ser dado através do apoio de toda sociedade civil aos negócios sociais, não faltam exemplos de projetos e empresas atuantes do ecossistema do Empreendedorismo Negro em todo o Brasil: o crowndfunding da parceria entre a Ganbatte e o Capital Herdeiro, onde uma formação de Mercado Financeiro será financiada para capacitar uma turma de jovens de baixa renda na intenção de inseri-los no mercado de trabalho (contribua aqui: http://juntos.com.vc/pt/impulsionando-talentos); iniciativas transformadoras como o D´Black Bank, uma fintech brasileira de negros para negros que será lançada em 2018 com o intuito do fomento à comunidade afrodescendente na manutenção do consumo de produtos e serviços para circulação de riqueza dentro de seu grupo étnico racial (http://www.dblackbank.com.br); ainda temos diversas plataformas de serviços para Negros como a Diáspora Black, plataforma digital que conecta viajantes e anfitriões interessados em vivenciar experiências de viagens focadas na história e cultura da comunidade negra em diferentes cidades do mundo, que está sendo incubada pelo Estação Hack, projeto do Facebook; na moda temos os Afrocriadores, coletivo que nasceu entre conversas nos intervalos de oficinas do projeto Sebrae Moda/RJ; e o Vale do Dendê que visa criar uma plataforma de atração de investimentos sociais e econômicos para a revitalização do centro de Salvador, restaurando espaços públicos e privados, formando mão de obra qualificada e criando um novo branding para a cidade.

“A cor da pele não define a capacidade de ninguém. Contudo, o negro enfrenta tantas dificuldades para conquistar o seu espaço desde criança, que acaba desenvolvendo soft skills como resiliência, empatia e persuasão que são características essenciais para qualquer empreendedor”, diz Débora Santos, Gerente de Projetos da IBM, líder do grupo BRGAfro e Advisor do Movimento Black Money.

Segundo Nina Silva, Executiva de TI e fundadora do DBB, “não faltam exemplos de que criatividade, coletivismo e iniciativa são pilares de sobrevivência da população negra, mesmo sem visibilidade e reconhecimento da história pelo sistema educacional e mídias. Durante e no pós período escravocrata a população afrodescendente lutou e tem lutado para garantir sua subsistência, onde o que denominamos “Black Money” tem sido a garantia de que podemos ser o nosso próprio mercado, em combate à marginalização e subalternação dos empreendedores e profissionais negros. Black Money também é resistência ao genocídio histórico da população negra”.

O MBM ( http://www.movimentoblackmoney.com.br ) tem como meta fomentar o empreendedorismo na comunidade negra e prestar suporte àqueles que têm uma nova ideia, uma nova forma de propor uma solução ao mercado, pois praticar o Black Money não tem a ver com ser contra os empreendedores ou profissionais não negros, pelo contrário, é potencializar a economia do país emergindo com todas as classes sociais. Não é justo, muito menos estratégico para nossa sociedade continuar permitindo que o preconceito racial impeça a emancipação da população negra e o crescimento de toda a economia do país.

https://exame.abril.com.br/negocios/dino/ascensao-economica-credito-e-black-money-a-contramao-da-realidade-dos-empreendedores-negros-no-brasil/?utm_source=whatsapp

Metade dos jovens brasileiros têm futuro ameaçado, alerta Banco Mundial

BRASÍLIA – Um em cada dois jovens brasileiros com idade entre 19 e 25 anos corre sério risco de ficar fora do circuito dos bons empregos no País e, com isso, está mais vulnerável à pobreza. É o que aponta o relatório “Competências e Empregos: Uma Agenda para a Juventude”, divulgado pelo Banco Mundial. (https://www.poder360.com.br/wp-content/uploads/2018/03/Banco-Mundial-Competencias-e-Empregos-uma-agenda-para-a-juventude.pdf)

Opção pela escola pública
Relatório aponta que situação dos jovens também coloca em risco o crescimento da economia brasileira Foto: Fabio Motta/Estadão

O documento diz que 52% da população jovem brasileira, quase 25 milhões de pessoas, estão desengajados da produtividade. Nessa conta, estão os 11 milhões dos chamados “nem-nem”, aqueles que nem trabalham, nem estudam. A eles, foram somados aqueles que estão estudando, mas com atraso em sua formação. E os que trabalham, mas estão na informalidade.

“É uma população que vai ser vulnerável, vai ter mais dificuldade de achar emprego, corre maior risco de cair na pobreza”, disse o diretor da instituição para o Brasil, Martin Raiser.

Além da ameaça ao futuro desses jovens, essa situação leva a outra consequência séria: ela coloca em risco o crescimento da economia brasileira. Isso porque o País vai depender do trabalho deles para continuar produzindo. Mais ainda, vai precisar que eles sejam mais produtivos do que seus pais para reverter uma tendência de queda na taxa de crescimento do Brasil.

A urgência na adoção de uma agenda para que o Brasil produza melhor com os recursos que possui foi analisada em outro relatório: “Emprego e Crescimento: a Agenda da Produtividade”, também divulgado hoje pelo Banco Mundial. No entendimento dos economistas do organismo, os dois temas estão profundamente relacionados. A melhora na formação de jovens e sua preparação para o mercado de trabalho é um dos itens da agenda da produtividade.

O relatório traz evidências que a educação no País é falha e não se traduz em aumento de produtividade. Na Malásia, por exemplo, um ano a mais na escola resulta numa elevação de US$ 3.000,00 no salário. Na Turquia, US$ 4.000,00. Na Coreia do Sul, US$ 7.000,00. No Brasil, o ganho é próximo a zero. “Precisamos de uma educação de qualidade que cumpra sua missão de dar competência aos jovens”, disse a economista Rita Almeida.

 

Ela avalia que a reforma do ensino médio de 2017 atacou alguns pontos críticos, mas ainda falta ver como será sua implementação. Além disso, seria necessário dar um foco político mais forte ao problema da evasão escolar. No Brasil, apenas 43% da população acima de 25 anos concluiu o ensino médio. Nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o índice é de 90%.

Mais grave do que constatar que há pouca gente com formação de nível médio é verificar que essa tendência se mantém. Hoje, um de cada três jovens de 19 anos já está fora da escola.

Entre as ideias trazidas pelo relatório, está a criação de programas para redução da gravidez na adolescência. Os programas de transferência de renda poderiam ser direcionados para estimular a conclusão do ensino médio. Além disso, seria necessário informar melhor os jovens sobre os benefícios do estudo.

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,metade-dos-jovens-brasileiros-tem-futuro-ameacado-alerta-banco-mundial,70002217121