Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora nigeriana

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”chimamanda-novo-livro

Com novo lançamento no Brasil, escritora nigeriana comenta sobre ser uma das principais vozes a falar sobre mulheres negras fortes na literatura mundial.

Considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, 39 anos, autora do best-seller Americanah (2013),teve seu sexto livro lançado no Brasil no final de julho pela editora Companhia das Letras. Publicado originalmente em 2009, No Seu Pescoço era a única publicação de Chimamanda que faltava  chegar ao Brasil.

O livro reúne 12 contos que têm, em comum, mulheres e homens nigerianos como protagonistas. Nessas narrativas, assim como em todo o seu trabalho, Chimamanda denuncia e questiona o racismo, o machismo e outras opressões que seguem fortes tanto na Nigéria quanto em toda a nossa sociedade.

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CLAUDIA aproveitou a ocasião do lançamento para conversar com Chimamanda.

CLAUDIA: No Seu Pescoço está sendo publicado no Brasil quase dez anos após ter sido escrito. Como você se sente ao ver esses contos ganhando relevância outra vez, agora com um novo público?

Chimamanda Ngozi Adichie: É sempre encantador ver seu trabalho ganhando atenção. Ficção é, em conjunto, uma trabalho de artesanato e emoção. Logo, existe alguma coisa no fato de continuar sendo lida que traz um certo tipo de validação.

CLAUDIA: O best-seller Americanah (2013), muito apreciado no Brasil, foi escrito após No Seu Pescoço (2009). A personagem principal do conto que dá título ao livro, assim como Ifemelu protagonista do romance, deixa a Nigéria para viver nos EUA. Existe mais alguma semelhança entre elas? 

Chimamanda: Elas provavelmente têm preocupações parecidas, mas eu não penso no meu trabalho de forma temática. Eu sigo a história que me chamar. No Seu Pescoço é uma coleção de histórias que foram escritas em momentos diferentes e realmente não são semelhantes entre si.

CLAUDIA: A maioria de seus personagens são mulheres negras fortes. Infelizmente – mesmo que esse cenário esteja mudando –, mulheres fortes e, principalmente, mulheres negras fortes continuam sendo minoria nas principais narrativas literárias ao redor do mundo. Você se sente pressionado por ser uma das poucas escritores em destaque a escrever sobre essas mulheres?

Chimamanda: Não. Mulheres negras fortes são normais para mim. Escrever sobre mulheres negras fortes também. Eu cresci rodeada por essas mulheres, o mundo é repleto de mulheres negras fortes. E como elas são normais para mim, eu não sinto nenhuma pressão ou responsabilidade. Eu simplesmente escrevo a verdade sobre o que eu conheço.

CLAUDIA: Para você, qual a importância de narrativas como essas estarem ganhando destaque? Além disso, você enxerga a literatura como um reflexo de uma sociedade em mudança ou como um agente transformador da sociedade? 

Chimamanda: Acredito que literatura pode ser os dois. Algumas vezes, escrevendo sobre o mundo como ele é, nos podemos criar narrativas que se transformam em catalisadores para mudança. Eu realmente acredito que seja importante se ouvir histórias sobre lugares e pessoas que são marginalizados. É importante porque, se temos histórias diversas, nos tornamos melhores para compreender o mundo e nosso próprio lugar nele.

CLAUDIA: Após quatro livros de ficção, seus dois lançamentos mais recentes foram manifestos feministas. Qual a importância de publicações didáticas como Sejamos Todos Feministas (2014) e Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto (2017) para a luta das mulheres em nossa sociedade? Quem você acha que eles atingem mais?

Chimamanda: Eu espero que eles atinjam tanto homens quanto mulheres. Não acredito estar dizendo às mulheres o que elas não sabem ainda. Elas sabem porque elas vivem isso. Mas eu acredito que os livros dão palavras ao que as mulheres experienciammotivo de elas se conectarem a eles. Eu ouvi de alguns leitores homens que eles começaram a pensar diferente sobre gênero após lerem as obras.

CLAUDIA: Você pretende seguir esse caminho ou tem alguma ficção a caminho?

Chimamanda: Fico feliz em escrever sobre coisas com as quais eu me importo e me interesso muito por política e história. Mas a única coisa que realmente me dá felicidade é a ficção. Ficção é minha vocação. Ficção é meu único e verdadeiro chamado.

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”

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Chinua Achebe, o autor nigeriano fundamental para a literatura

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Chinua Achebe colocou a Nigéria na geografia literária ao contar num tom sério, a partir de dentro e sem direito a desfile etnográfico, a identidade africana em subtil mudança.

Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana

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Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana MANUEL ROBERTO

Ler os romances do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013) é viajar para a realidade africana das histórias contadas oralmente na sombra da grande árvore do centro da aldeia. Ele é como o velho sábio que assim vai passando a tradição aos que o ouvem, levando-os pelas palavras ditas ao mundo dos mitos africanos, inscrevendo nos ouvintes (ou mostrando, no caso dos leitores) uma identidade cultural apenas entendida na sua essência se vista e descrita a partir de dentro. Contar uma história tem na sua natureza um elemento de magia, de poder viajar a uma outra realidade. Esse efeito mágico cumpre, sobretudo nas comunidades e nas sociedades mais tradicionais, a função de organizar um suposto passado (tantas vezes mítico e também arquetípico) de maneira a estruturar o presente. É fazendo uso desse “poder de feiticeiro que narra” que Chinua Achebe — considerado pelos críticos anglo-saxónicos o fundador da literatura africana — começa a recriar de maneira singular universos até então ausentes dos romances sobre África.

Em 1958 publicou aquele que é considerado o livro seminal da literatura africana pós-colonial, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Ele escreve a partir de dentro, levando o leitor para uma nova realidade cultural e histórica, em oposição aos romances em que o olhar está do lado de fora, em que esse olhar é “estrangeiro”. Por várias vezes (e escreveu mesmo um ensaio para o demonstrar) apelidou de racista o famoso livro de Joseph Conrad, Heart of Darknesse (O Coração das Trevas), exactamente por causa dessa maneira de olhar etnocêntrica, ignorante da cultura africana, arrogante e exterior ao continente.Chinua-Achebe-speakn-abt-thingsfallapart1.jpg

Achebe retoma as regras canónicas da forma do romance, as convenções clássicas do género, e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana. Não subverte a linguagem nem cai no facilitismo de lhe inventar efeitos “folclóricos” (escreve num inglês perfeito; conta histórias na língua dos colonos para que os seus livros possam ser lidos em todo o continente, é assim que se justifica quando é disso acusado). Nascido num país, a Nigéria, com 200 etnias e 500 línguas faladas, Chinua Achebe consegue unificar numa língua escrita (extraindo do todo o essencial) essas múltiplas tradições da oralidade, retratando uma identidade em constante e subtil mudança.

O olhar desapiedado

Deste autor nigeriano foram publicados em Portugal três dos cinco romances que escreveu: A Flecha de Deus (Edições 70, 1978), Um Homem Popular (Caminho, 1987) e aquele que é considerado a sua obra-prima, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Chinua Achebe foi uma voz incómoda para alguns intelectuais africanos que a qualquer pretexto desfraldam a bandeira da “vitimização” do continente, demitindo-se assim de responsabilidades; e foi-o também para um certo Ocidente trendy que não se consegue ver livre de um exacerbado complexo de culpa histórica, e que com essa disfarçada atitude paternalista mais não faz do que legitimar a hipocrisia e a desgraça.

Em Um Homem Popular é feita uma crítica feroz, por vezes irónica, aos políticos africanos corruptos. E Achebe sabe daquilo que conta. O livro foi publicado originalmente em 1966 e a história acaba com um golpe de Estado, final profético, pois uns meses depois o Governo nigeriano foi derrubado. A trama literária é-nos narrada por um jovem professor de aldeia que um dia se encontra com um seu antigo mestre-escola, entretanto tornado ministro. Um Homem Popular traz-nos o olhar desapiedado de Achebe, não apenas sobre a classe política, mas também sobre os povos africanos: “O próprio povo, como já vimos, tinha-se tornado ainda mais cínico do que os seus líderes, e estava apático frente às negociatas.” Achebe tenta entender (sem desculpabilizar) esse mesmo povo que acaba por ser vítima também de si próprio, ao não conseguir manter o equilíbrio entre o lado material e espiritual da vida, ao aceitar passivamente a hipocrisia de uma duplicidade de valores.

Quando Tudo Se Desmorona tem por epígrafe quatro versos de W. B. Yeats retirados do poema The Second Coming, que se refere ao dia do Juízo Final, ao acordar da Besta, à desintegração da ordem do mundo, a um tempo de desmoronamento. O livro conta-nos a história de Okonkwo, um jovem de uma tribo Igbo, que está determinado a não ser um falhado como o pai, e que pretende seguir a tradição e ascender socialmente na tribo. E as coisas não lhe correm mal. Consegue atingir a prosperidade e o topo da hierarquia. Mas chega o dia em que desrespeita a tradição e as coisas começam a mudar. É o princípio do fim, o início de uma série de catástrofes. Tudo coincide com a chegada do “homem branco”.

A linguagem de Chinua Achebe, elegante e luminosa, é muito telúrica, característica que empresta às narrativas uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos em que nada acontece, como neste exemplo retirado da sua obra-prima: “Recordou-se da história que ela habitualmente contava sobre a antiga desavença entre a Terra e o Céu, e de como o Céu retivera a chuva durante sete anos, até as sementeiras definharem e os mortos não poderem ser enterrados porque as enxadas se quebravam ao tentar abrir sulcos na Terra empedernida. Por fim, o Abutre foi enviado até junto do Céu para tentar amolecer o seu coração com uma canção sobre o sofrimento dos filhos do homem.”

 

https://www.publico.pt/2017/08/15/culturaipsilon/noticia/saber-contar-a-sombra-da-grande-arvore-africana-1782306

Paulina Chiziane: Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem conosco”

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A liberdade é um tema que preocupa Paulina Chiziane. Por isso, o novo livro da autora, O canto dos escravos, investe na libertação individual e colectiva como recurso fundamental. Falando do livro, Chiziane explica por que aposta, desta vez, numa obra em verso ao mesmo tempo que tece um comentário sobre a actualidade do país: “Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco”. E a escritora não fica por aí, neste quesito, avança que a dívida externa pode acabar num neo-colonialismo que prejudique todos os moçambicanos. Para que tal não acontece, a escritora sugere que a luta pela liberdade seja cada vez mais permanente. Além disso, depois de ano passado ter dito que não voltaria a escrever, Paulina Chiziane volta a falar do assunto, com um esclarecimento aos seus leitores.

O canto dos escravos é título do seu novo livro, que aglutina, em 120 páginas, muitos séculos de História. Por quê?

Este livro foi inspirado no nosso hino nacional, que nos diz, a certa altura: “Na memória de África e do mundo”. Então, comecei a caminhar, em busca dessa memória e da nossa História. Primeiro, escrevi um texto muito grande, era massudo. No entanto, com esses anos todos que tenho de escrita, apercebi-me que, algumas vezes, a leitura de um livro volumoso é um privilégio de poucos. Fui comprimindo o texto até que aparecesse, agora, em verso, O canto dos escravos, no qual falo do percurso dos africanos no país e fora do continente. Com este livro celebro a existência do negro, da dor, da alegria e da esperança em seis capítulos, de modo a torna-lo um diálogo entre o passado, o presente e o futuro.

 

A Paulina Chiziane que temos neste livro parece mensageira da liberdade. Concorda com isso?

Não gosto da palavra mensageira. Os meus livros todos, se for a verificar, têm um denominador comum: a liberdade, da mulher, dos grupos socialmente silenciados, do pobre e de todas as coisas, embora os temas sejam diferentes. Eu canto a liberdade que quero para mim e para os que me rodeiam. Por outro lado, verifiquei que na verdade o planeta terra tem dois continentes africanos: uma África que é esta que temos aqui e outra na América. Mas não há comunicação perfeita entre as duas Áfricas. Por isso, o livro não é tão simples assim porque move sentimentos, emoções, pensamentos e vivências, colocando esperanças nesta vida de ser negro. Este livro é para todos, porque nas escolas falamos da escravatura apenas em duas linhas e mais nada.

 

Os escravos aqui parecem ser a metáfora de um cidadão oprimido. Quis que assim fosse?

É assim, eu não quero falar de metáforas. O que quero é dizer que esta realidade existe. O escravo, ao morrer ontem, de certeza que tinha um sonho, a liberdade que possuímos hoje. Portanto, sou independente hoje porque alguém um dia lutou, sofreu e morreu. Custa-me ver que, algumas vezes, deitamos fora esta independência e liberdade que temos hoje. E não estamos a ensinar o suficiente para que as novas gerações saibam que têm responsabilidades. Ter independência não é estar livre. Somos independente, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco. Então, este livro também é uma chamada de atenção que pretende nos lembrar que a liberdade ganha-se e perde-se. Por exemplo, a dívida externa, não sabemos como foi contraída, mas pode vir a renovar um colonialismo ou mesmo uma escravatura contra o nosso povo.

 

E mesmo a propósito disso, uma voz do livro diz: “os colonos já se foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado”…

As pessoas em Moçambique têm medo, de dizer a verdade, de trabalhar e de dizer aquilo que não foi revelado. Os meus últimos livros provam isto, porque, com a sua publicação, levantaram-se vozes que falaram de proibições no lugar onde não existem. Nós somos prisioneiros dos fantasmas do passado. Por exemplo, quando estava para lançar O 7º juramento, algumas pessoas daqui de Moçambique escreveram artigos para publicar nos jornais de Portugal, de modo a frisar que “o que a Paulina escreveu não é propriamente a nossa cultura e nós não concordamos muito com esse tipo de escrita”. Mas, porque o livro ganhou uma vida própria, os capangas do passado tiveram que refazer os seus discursos.

 

Quem são esses capangas, esses escravos?

Alguns, são bem formados, mas a mente está presa, com medo de um patrão invisível. Não se libertam a si próprio e nem permitem que o seu povo se liberte também. O meu diálogo com o leitor neste livro é para uma autolibertação.

 

Como a Paulina vê a liberdade? É uma possibilidade?

Vejo como uma necessidade que se deve alcançar e preservar.

 

Por quê faz do canto, ao invés das armas, por exemplo, um instrumento propenso à liberdade?

Procuremos perceber como é que os negros que foram para a escravatura sobreviveram, vivendo numa tortura sem fim. O canto, a dança, são artes que preenchem o lado invisível do ser humano, fazendo do Homem muito forte. E quem for a ler atentamente este livro, vai perceber que alguns dos versos são letras de música, dá para ler e cantar.

 

Escreveu o livro chorando?

Não vou mentir. Até agora, há textos que leio e fico deprimida. Por exemplo, o primeiro texto do livro, “O testamento de um escravo”. Quando o leio, ainda divago no espaço. O último, “O canto de esperança”, também mexe comigo. É um texto que me coloca de pé e deixa-me com vontade de enfrentar o mundo.

 

E o que lhe faz pensar que o canto pode triunfar?

O canto não pode, vai triunfar, se cantarmos, resistirmos e estudarmos em colectivo. Se trabalharmos em conjunto, não haverá força que nos derrube. A liberdade é esta possibilidade de fazer com que a minha voz possa ser ouvida.

 

“Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição”. Este seu verso é muito profundo.

É verdade, e qualquer negro no mundo pode-lhe dizer isto. É o discurso do opressor, uma realidade amarga.

 

Não teme que a chamem “escritora racista” pelo compromisso que este livro tem com Homem preto?

Já me chamaram vários nomes e não é isso que me vai preocupar. Pensar no que me vão chamar pode ser uma outra prisão, outra escravatura. Mas repara que não falei de raça, falei de genocídio. Agora, se o genocídio foi para os pretos, de que mais vou falar? Não se trata de promover xenofobia. Falo da humanidade.

 

O FIM DA ESCRITA OU O PRINCÍPIO DE UM RECOMEÇO?

Num dos programas que fizemos juntos, disse que já não voltaria a escrever e que estava farta de tanta incompreensão. Um ano depois, as prateleiras ganham mais um livro seu. Mudou de ideia?

Não, não mudei de ideias. Uma coisa é publicar e outra é escrever. Quando conversamos há um ano, já tinha esse trabalho pronto. Agora é que publico. Aliás, tenho uma série de trabalhos escritos, apenas à espera de ocasião para publicar. Escrever? Já chega.

 

Neste O canto dos escravos as entidades não cedem a qualquer tipo de submissão. Pelo contrário, lutam para ultrapassar dificuldades. Por quê a autora não teria a mesma persistência, nessa árdua tentativa de fintar o que a faz dizer basta à escrita?

Cansaço é um estado físico. A vista, a coluna, às vezes, cansam-se. E a vontade de escrever diminui. Às vezes, essas dificuldades são um motor. Mas quero agradecer a todos aqueles que não confiaram em mim. Sou daquele tipo de pessoas que, quando enfrenta uma dificuldade ou quando não é bem compreendida não desiste, porque acredita que um dia vai ser compreendida. Enfim, olhar para o computador, agora, hiiii…, cansa… Entre as mulheres que escreveram ou escrevem neste país sou das que trouxe mais polémicas e assuntos para reflexão. De Vez em quando é bom sossegar. Quando se fala muito da pessoa, às vezes, a mesma pode não se sentir em paz, por haver demasiada invasão da sua vida íntima. Enfim, acima de tudo, estou cansada e gostaria de convidar àqueles que um dia julgaram que estivesse enganada no meu percurso que mostrassem também a força que têm. O meu percurso foi feito de muita luta, sempre em busca da compreensão.

 

Sente que ainda é alvo dessas “cotoveladas’ que existem na literatura moçambicana?

Ainda sou e agora piorou. Há pessoas que só ficam à espera de ver o nosso trabalho para apedrejar ao invés de nos aproximar para propor melhorias à nossa obra. Esse sentido de ajuda, colaboração, é o que gostaria de ver dos donos da língua.

 

Nos últimos livros seus temos uma escrita muito virada ao real. Deixou para o passado a ficção que calha em A balada ou em O 7º Juramento?

Todos os meus livros têm um denominador comum, o que muda é o crescimento. Apercebi-me que, se quero dialogar, tenho de ser curta, incisiva, breve e, algumas vezes, mesmo cesárea, reajustando-me de acordo com a minha experiência. E eu estou a escrever o que me apetece.

 

É o que é graças aos seus primeiros cinco livros. De tal forma que, por mais que não tivesse escrito mais, a sua marca continuaria bem registada. Se tivesse começado a carreira com os seus cinco últimos livros, acha que também seria essa menina do mundo que hoje merece tanto reconhecimento?

Não fiz nada de novo. Se for a ver a literatura de Noémia de Sousa e Craveirinha, fizeram este tipo de percurso. Noémia de Sousa fez denúncia e foi reconhecida dentro e fora do país. Não me venham dizer que é preciso escrever para agradar o outro, de modo que possamos ter reconhecimento. Sinceramente, acredito que teria reconhecimento da mesma maneira, porque reconhecimento é um produto de luta, não é nenhuma dádiva. Teria sucesso na mesma, pode crer.

 

Já agora, teve dificuldades de publicação ao longo desses anos?

Internamente, sim, mas fora não. E essa é outra parte da estória interessante. Tive muitas mais dificuldades no país do que fora, sempre. E continua assim.

 

Como é que Paulina Chiziane quer ser lembrada pelos seus leitores?

Sei lá. A única coisa que me dá alegria é saber que os meus livros são cada dia mais reconhecidos. E é muita sorte, porque há escritores que são reconhecidos só depois da morte. Eu não. Tive a oportunidade de olhar para traz e dizer que trabalhei e colhi. Para mim isso basta, o que vier virá. Não estou preocupado com o futuro. Se alguém leu o meu trabalho e inspirou-se, que faça melhor do que fiz. Há uma geração muito mais nova, com melhores tecnologias, que deve continuar a luta pela liberdade.

 

Uma luta pela liberdade que inclui perdão pelos que nos escravizaram. Por quê perdoar?

É preciso perdoar para limpar o coração. O ódio é um peso, faz mal à cabeça e destrói o relacionamento com o outro. É preciso perdoar, esquecer é que não.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Que leiam O canto dos escravos, porque, quem quiser compor, até pode conseguir boas cantigas.

 

Perfil

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, já lá vão 62 anos. Estreia-se em livro em 1990, com o lançamento de Balada de amor ao vento. O seu repertório literário inclui Ventos do apocalipse;O 7º juramento; Niketche; As andorinhas; O Alegre canto da perdiz; Na mão de Deus; Por quem vibram os tambores do além? Ngoma Yethu e, agora, O canto dos escravos. É Prémio Literário José Craveirinha e soma várias condecorações e homenagens, como Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo governo português. Em 2015, foi homenageada pela SOICO, pelos 25 anos de carreira e 60 anos de vida. Este ano foi homenageada no FliPoços, no Brasil, e condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo governo brasileiro, em Maputo.

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/45544-somos-prisioneiros-dos-fantasmas-do-nosso-passado.html

 

 

 

Filipe Nyusi, presidente de Moçambique, recebe o Ministro das Relações Exteriores do Brasil

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Acompanhado por delegação de empresários brasileiros, o ministro Aloysio Nunes Ferreira participou ontem de cerimônia de abertura de seminário empresarial por ocasião de sua visita a Maputo. Organizado pelo Itamaraty, em parceria com a Apex-Brasil e a CNI, o evento promoveu a realização de rodadas de negócios sobre o potencial de crescimento dos investimentos brasileiros no setor agrícola em Moçambique e oportunidades na produção local, entre outros, de têxteis, pneus, vidro e madeira processada.

Os compromissos da manhã do primeiro dia da viagem de trabalho a Moçambique incluíram ainda um encontro com o Vice-Ministro de Indústria e Comércio de Moçambique, Ragendra de Sousa, que reafirmou a confiança dos moçambicanos nos exportadores brasileiros e confirmou que o país já começou a retirar as barreiras às importações de frango brasileiro introduzidas na época da Operação Carne Fraca.

34476371852_d2fc4446b9_b encontro com ministri dos negocios de moçambiqueApós sua participação na vertente empresarial da visita, o ministro Aloysio Nunes Ferreira manteve reunião de trabalho com o ministro de Relações Exteriores de Moçambique, Oldemiro Baloi. No encontro, confirmaram o consenso entre os dois países sobre os principais temas da agenda bilateral e multilateral, bem como sobre cooperação, aquecimento global e necessidade de reforma das instituições de governança global. Ao final, os chanceleres assinaram três acordos, entre os quais se destaca o memorando entre os dois governos e o Banco Mundial para promoção de cooperação em meio ambiente, gestão de recursos naturais e desenvolvimento rural.

No período da tarde, o ministro Aloysio Nunes Ferreira condecorou seu colega moçambicano com o grau de Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.34476379732_f529d28612_b ladeada pelos minsitros

Ao final do dia, acompanhado pelo ministro Jorge Nhambiu (Ciência, Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional), o ministro Aloysio reabriu o Centro Cultural Brasil-Moçambique e homenageou a escritora moçambicana Paulina Chiziane, condecorando-a com a Ordem de Rio Branco, em reconhecimento do governo brasileiro ao trabalho dessa extraordinária contadora de histórias lusófonas. O Centro Cultural acaba de ser totalmente reformado e agora abriga, além de suas galerias de arte, o Auditório Vinicius de Moraes, preparado para receber espetáculos de música e teatro, sessões de cinema, seminários e palestras.

No segundo dia de sua visita de trabalho a Moçambique, o ministro Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores) representou o governo brasileiro na inauguração do Corredor Logístico de Nacala, o maior investimento da Vale fora do Brasil.34639433835_b9e54928d4_b nacala.jpg

Junto com o presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, o ministro visitou o Terminal Portuário de Nacala-a-Velha, ponto final da estrada de ferro que liga as minas de carvão moçambicanas de Moatize com o porto do oceano Índico, atravessando o território do Malawi.33829527593_811e85d19e_b corredor34476371852_d2fc4446b9_b encontro com ministro dos negocios de moçambique.jpg

Resultado de investimentos de aproximadamente US$ 9 bilhões, o corredor logístico aumentará a competitividade do carvão moçambicano no mercado internacional, permitindo o transporte de 18 milhões de toneladas do produto por ano. A estrada de ferro de 912 km de extensão tem papel importante para a melhor integração entre Moçambique e Malawi e gera grande melhora nas condições de transporte não apenas de carga, mas também de passageiros.33829526433_7b8018246f_presidente de moçambique.jpg

Após a inauguração, o ministro Aloysio e o senador Antonio Anastasia foram recebidos em audiência pelo presidente Filipe Nyusi. Na reunião, entregou carta do presidente Michel Temer convidando o chefe de Estado moçambicano a visitar o Brasil.

Fonte:http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/

“O Kaputo Camionista e Eusébio” livro do angolano Manuel Rui

 

Fotografia: António Escrivão | Angop

A obra literária O Kaputo Camionista e Eusébio do escritor Manuel Rui foi apresentada na quinta-feira, em Lisboa, pela editora Guerra e Paz.

O livro de 120 páginas inclui vários relatos de amigos de Manuel Rui, incluindo o do secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Vítor Ramalho, que foi colega do autor da novela, embora mais novo, na província do Huambo.
Durante a apresentação do livro, o maestro António Vitorino D’Almeida disse que Manuel Rui, com uma mestria insuperável, idealizou uma ficção encantatória com um camião e as personagens Botija ao volante e Tó-Tó à boleia, sentado ao seu lado, “com o espírito de Eusébio a cobrir Angola como um véu de amargura, de redenção e, talvez, de glória, resgatando, golo a golo, uma pátria triste”.
Segundo o apresentador, a esta sua “quase épica ficção”, Manuel Rui quis juntar o prefácio de David Borges e textos de Carla Ferreira, filha de Eusébio, de Boaventura Sousa Santos, José Jorge Letria e outros amigos. “Um livro tão original que até Boaventura Sousa Santos confessa a Manuel Rui: “os sociólogos não sabem andar de boleia”.

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Manuel Rui nasceu no Huambo a 4 de Novembro de 1941. Licenciado em Direito, em Coimbra, foi ministro da Informação no Governo de Transição para a Independência Nacional em 1975, integrando a representação de Angola em organismos internacionais como a OUA e a ONU. É poeta, contista, dramaturgo, romancista e cronista. Escreveu a letra do Hino nacional angolano e letras de canções. Participou em filmes, como figurante e declamando poemas, mas também escrevendo diálogos.
Do espanhol ao mandarim, os seus livros estão traduzidos em mais de 12 línguas. Publicou, em 1977 Sim Camarada, o primeiro livro de ficção angolana pós-independência, e é também autor do livro Quem Me Dera Ser Onda, que se converteu num clássico da literatura escrita em português.

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Na cerimônia estiveram presentes o Embaixador e Representante de Angola junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Luís de Almeida, o adido cultural da Embaixada de Angola em Portugal, Luandino de Carvalho, diplomatas, funcionários diplomáticos e estudantes.

http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/livros/o_kaputo_camionista_e_eusebio_em_lisboa

“Um dos problemas da literatura moçambicana é estar trancada num beco sem saída”

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Adelino Timóteo é um dos escritores nacionais que mais publica na actualidade. Tal evento concorre para que o autor de Nós, os do Macurungo seja alvo de alguns “ataques” por parte dos seus homólogos. Mas Timóteo não se deixa levar com as “querelas” à volta da sua velocidade de escrita. Pelo contrário, nesta entrevista, o artista realça o seu compromisso com a escrita – escrevendo como se quisesse resgatar o tempo furtivo da infância –, fala dos valores que lhe caracterizam como homem, dos traços que lhe são peculiares como criador, refere-se a alguns problemas da literatura moçambicana e deixa recados aos escritores e aos políticos.

A sua obra perpetua um fascínio por civilizações antigas. Por exemplo, a Grécia e, mais recentemente, o Egito lá estão. Como reage a esta constatação?  

Antes de tudo, devo confessar-te a minha paixão literária. Tenho um vínculo muito forte com a língua e com a leitura, desde os meus nove, dez anos. E por vezes surpreendo-me nestas constatações, trabalhadas ao nível do inconsciente. Lembro-me agora de um livro que li para aí aos dez anos, Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, que me permitiram o fascínio ao Egito daspirâmides, dos mitos. Na quinta classe, o Egipto foi também um dos temas de fascínio. A escrita nasce dessa herança entre o transcendental e a contemplação. Li o livro Carta a Greco, de Nikos Kazantzakis, nos meus dezassete anos. Fiquei fascinado com a quantidade de imagens. Mais tarde, aos trinta e quatro, surpreendi-me a escrever Viagem à Grécia. Portanto, o meu grande trabalho talvez esteja na leitura, depois tudo frui como marcas de entrosamento com outras coordenadas. Trabalho de rescrita e desconstrução, que termina na criação do meu universo.

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E esse processo da configuração civilizacional e espacial faz-se através de uma viagem que entrecruza tempo e espaço, como se pretendesse sugerir que o melhor da Humanidade está no passado… Quis com O corpo de Cleópatra estabelecer uma relação da rainha egípcia com o continente?

Não pretendo sugerir que o melhor da Humanidade esteja no passado. Devo dizer-te que tudo opera debaixo da matriz em que me sinto um cidadão do mundo, porque a minha formação cultural e literária são nutridas dessa dimensão de ser, do sentir. Escrevo como se quisesse resgatar o tempo furtivo, da infância, da adolescência, conectar-me com vozes e ressonâncias universais. Repara, hoje se fala do feminismo e vão buscar exemplos a Madame Bovary. Mas temos aqui perto a Cleópatra, as donas dos prazos. É um pouco um piscar de olhos a um espaço geográfico e mito que nos pertence por herança, mas de que somos passivos.

 

Publicou, há alguns anos, uma obra dedicada ao público infanto-juvenil, Na aldeia dos crocodilos, a qual mergulha no Zambeze com realismo fantástico. Porquê escolher esta linha do (im)provável e terror nesta conversa com as crianças?

As minhas primeiras leituras infantis foram Os cinco e os sete, de Enid Blyton. Se chama isso terror não sei como encararia os livros de Blyton, onde não faltam fantasmas e mistério. Com Na aldeia dos crocodilos pretendi oferecer histórias que ouvia em miúdo, sobre aquele universo que tanto me fascinou, de um submundo, contraponto de Alice no País das Maravilhas. Repara que os alunos da Escola Portuguesa de Maputo encenaram Na aldeia dos Crocodilos. Um grupo de canto e dança da Beira tem estado a encenar o mesmo livro.

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É muito ligado à sua terra – Nós, os do Macurungo é um exemplo claro disso. É daqueles autores que tem ou teria dificuldade em escrever fora do país?

Devo esclarecer-te que escrevi Nós, os do Macurungo, para aí aos 40 anos. É um livro de pausa. De exercício memorialístico. Muito preocupado com a verdade e a contemplação do tempo. Talvez nunca mais fique curado dessa ligação intrínseca a Macurungo. E ainda bem. Saí de lá aos 26, mas precisei de muitos anos de distância para escrever sobre o mesmo. E o resultado foi óptimo. É muito procurado. Está praticamente esgotado. Tenho já esboçado a segunda parte deNós, os do Macurungo. É uma questão de metodologia. Mais tarde, encontrei a mesma perspectiva sistemática, quando li O peixe na água, de Vargas Llosa, ou mesmo A tia Júlia e o Escrevidor, desse mesmo autor. Se quiser, Viver para contá-la, de Garcia Marquez. Ou Não chora, criança, de Ngugi wa Thiong’o. Se teria dificuldade de escrever fora do país? Diria que não. Fiz uma experiência pioneira com Não chora, Carmen, em 2009, quando cheguei à Espanha. Tenho pretensão de escrever algo sobre a comunidade africana de Lisboa, uma das cidades intrinsecamente ligadas a minha vida, pois penso que um dos problemas da nossa literatura é estar trancada num beco sem saída. Elementos e símbolos externos enriquecem qualquer literatura.

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Falando na terra, há oito anos publicou Nação pária, obra que inventa o desaparecimento de uma nação, questiona a existência de cidadãos e não se esquece do medo. Escreveu este livro tentando vaticinar o que hoje caracteriza a sociedade moçambicana?

Não tentei vaticinar nada. O livro fez-me o favor de ser intemporal. Eu tenho o hábito de ir fechando etapas, ir fechando épocas que vivi ou sobre as quais descorri, ouvi falar. A guerra foi uma delas. Quando era adolescente ouvi como os capitães de exército se enriqueciam à custa da guerra. Daí, em Nação Pária, há uma personagem que diz algo assim: “Nós inventamos a guerra para enriquecermos”. E sempre que isso se passar em Moçambique o livro ganhará actualidade. Vimos como foi urdido o processo das aquisições de armas e com quem ficou o dinheiro. Vimos como se inventaram as duas últimas guerras. Eu acho que a guerra é uma invenção com certas premissas, ou totalitárias ou de enriquecimento ou de domínio de uma tribo sobre a outra.

 

O que julga que os moçambicanos, sobretudo aqueles que não gostam e nem investem na política, devem fazer para recuperar a utopia de que se constrói o projecto de nação?

Para recuperar a utopia devemos ser mais tolerantes. O país deveria criar um fórum nacional sobre a paz, para discutir mensalmente cada questão que periga a paz, ser uma instituição que promova debates itenerantes. Que esse fórum funcionasse como uma instituição que juntasse actores políticos e da sociedade civil independente, onde se pudesse desperir da balalaica e do casaco partidário e se discutisse activamente a cidadania.

Acredita no seu país?

Acredito em Moçambique, razão porque falo de um fórum da paz a diversos níveis, onde os partidos beligerantes, cada chefe local, todos os segmentos da sociedade, fossem chamado a representar e dialogar. Uma vez por mês subia ao púlpito, na voz de políticos representante das suas hostes, e falavam das linhas de fraquezas e forças da paz, buscar caminhos conjuntos. Sermos mais abertos, porque sempre somos atropelados quando as coisas não têm conserto, quando o fogo nos tem dentro da sua cintura. Se fosse assim por um período de 10, 15, 20 anos, seríamos um país com as instituições consolidadas e fortes. Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo. Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências.

 

Numa apresentação do seu livro vinquei que “apocalipse” é um tipo de literatura próprio das épocas de perseguição e de crise, tentando convencer aos deprimidos que a vitória final será dos bons. Agrada-lhe que Apocalipse dos predadores possa ter esta interpretação?

Não tinha reparado nisso. Ainda bem que a tua sensibilidade captou essa mensagem de esperança.

 

Uma personagem desse livro diz: “O segredo desta burguesia é que criou uma utopia e, enquanto nós nos distraímos da utopia socializante, eles esbanjam do erário público, para acumular propriedades, as suas fartas mansões, os seus faustosos carros de luxo”. Identifica-se com esta reflexão?

Eu identifico-me com essa reflexão, pois quando miúdo bebemos muito a ideologia do partido Frelimo. A música era o internacionalismo, o campesinato, o proletariado e a solidariedades com os mauberes, namíbios e saharuis. Havia aquela imagem dissuasora do Xiconhoca nos jornais de parede e na revista Tempo. De repente, nos tempos que correm, alguém proferiu um discurso cheiroso prometendo que vai haver mais roubo. E uma vez a lição que nos transmitiram iluminava para a austeridade, fica-se num vácuo. E lembro-me que nos meus dezanove anos, quando o Estado ressentiu-se da falta de escolas, criaram-se escolas comunitárias. Eu e o Carlos Pinto fomos dar aulas, debaixo de cajueiros, em casa da anciã Laura Arouca. Não ganhávamos nada, mas estávamos contentes. Custa muito convencer o povo sobre o voluntariado, porque lá em cima o ensinamento que se incute é apego ao dinheiro.

 

Para quê questiona a heroicidade dos libertadores da pátria à luz dos comportamentos revelados ao longo das últimas quatro décadas, em Apocalipse dos predadores?

Esta pergunta parece ter resposta nas anteriores. O oportunismo da esquerda produziu novos ricos, que ao mesmo tempo querem ser visto como puros. Cada um quer ser legítimo para deslegitimar o outro.

 

Desafio-lhe a comentar o seguinte excerto de Amílcar Cabral, retirado do livro de Oleg Ignatiev: “Camaradas, isto é que é África! A nossa tradição é essa! Quem é chefe é cantado, e quem vem atrás para cantar de vez em quando recebe uns tostões e fica calado”.

Na cultura em que me eduquei não se fica calado, nem há espaço a bolas de sabão. Manda-se às urtigas. Isso! Às urtigas!

 

É um autor que está a escrever e a publicar constantemente, o que não é comum no país. E isso, eu sei, já lhe criou algumas “incompreensões”. As críticas dirigidas à sua velocidade de publicação condicionam-lhe? Que conclusões tira dessa estupefação dos seus homólogos?

Já me apercebi que alguns começaram a padecer de urticária desde que me tornei regular. No meio em que eu nasci e cresci este ambiente de hostilidade, quase mobbing, quase bullying, não existe. Na Beira cada novo livro meu é celebrado. De Maputo, vem as zangas. Jorge Luís Borges diz que “quando te detractam é sinal de que estás no bom caminho”. Ainda bem que tenho educação. Estou num dos momentos mais plenos de vida e de criador. Continuarei com o meu ritmo. Alguns querem vir no meu “mercedes”, mas no meu volante ninguém pega! O Rui Knopfli, meu mestre, dizia: “Não deixa que o óxido dos políticos entre na lâmina dos teus versos”. Vê, cada um pode oxidar-se como quer. Quando em 1996 o Filimone Meigos, fazendo digressão pelo país, para estabelecer equilíbrio na difusão da literatura, escalou a Beira, à busca de escritores com originais, eu fui o único que tinha pronto Os segredos da arte de amar. E foi acontecendo que nesse espírito, de que escritor é quem escreve, fui amontoando a gaveta de outros livros. Como não sou assíduo de barracas, tenho opção. Lá vou escrevendo.

 

Paulina Chiziane e Mia Couto foram alvos de muitos ataques ao longo da carreira literária. Sente-se na condição de ser alvo de alguém ou de alguma coisa?

Eu entrei para a escrita muito ingénuo. Tinha aquela concepção de que escrever é antes de tudo ler os contemporâneos. Eu li os meus contemporâneos todos e fui publicando recessões escritas no Savana e na Lua Nova, da AEMO. Quando Os segredos da arte de amar ficou pronto, para lançamento, ninguém me quis apresentar o livro. Lembrei-me muito daquela rapsódia do Nikos Kazantzakis, A Escola Comunal, que para mim, deve ter inspirado As mãos dos pretos. Fala com um e este dizia para ter com o outro, aquele, aqueloutro, etc, jogo de empurra. E depois um crítico escreveu um texto no Savana sobre “um escritor da Beira, de cujo nome esqueço-me sempre”. Eu era durante muitos anos “aquele escritor da Beira, de quem se esqueciam sempre do nome”. E a graça está aqui. Uma forma de manter a velha premissa de esquecimento é obullying, assassínio de carácter. Ou seja, criarem-se artifícios de tipo donos da bola: “Não escreva poesia”, “não, escreva poesia e nunca prosa, porque isso não é para ti”. Eu estudei o fenómeno. Isto passa-se também na Espanha. O problema é o mercado. O mundo literário é feito de vaidade. Os egos feridos.

 

Sente-se um escritor incompreendido?

A escrita deu-me prestígio, muito mais do que eu imaginei alguma vez e não posso exigir mais.Eu sinto que sou um autor não só compreendido, como acarinhado. Sinto-me privilegiado como autor de Moçambique, pelo crescente número de estudos sobre a minha obra não só no país, como em universidades de Portugal, Espanha e Brasil. Quando vou pelas ruas há algo muito marcante, o afecto das pessoas. Não quero mais do que o muito carinho que recebo, sinal óbvio de que a minha mensagem as têm alcançado. Alguns noviços me tratam por mestre. Não me suscita vaidade, pois passo a relacionar-me como amigo deles. Pedem-me todas as semanas que leia seus manuscritos. Pedem-me que os prefacie. E o problema é que, infelizmente, não consigo responder a todos como desejava, porque a demanda é maior e escasseia-me o tempo.

 

De onde vem esse poderio todo e urgência de querer dar voz às palavras?

Simplesmente tenho certo comprometimento com a escrita e uma “disciplina jornalítica”. Não é por acaso que no passado a maioria de escritores faziam carreira depois de passarem pelo jornalismo ou paralelamente. Escrever não é um fim em si. Há todo aquele trabalho de ourives. Burila-se, até sete ou oito versões do mesmo livro, em dois ou três anos. O tempo que medeia um e outro livro é no mínimo esse. É difícil ser faquir, daí haver mais propensão para frequentar barracas e apedrejar aqueles que investem oito horas por dia, curvados a acariciar os teclados.

 

Se pudesse reinventar Moçambique através da ficção, como seria?

Uma mãe que tem vinte e cinco milhões de filhos. Não uma gata borradeira. Mas uma mãe generosa, com um regaço onde cabem todos. Uma mãe-galinha, talvez, que não desampara os seus filhos, que os acoita, no seu útero. Um pouco infantil essa ideia, porque temos uma mãe-galinha que não consegue exercer a providência social e é apedrejada, velipendiada, depois se lhe queimam os pés, lhe saqueiam os ovos. A mãe-galinha pobre coitada que não tem um único ovo para si mesma, inconsolada a chorar, porque não tem nada com que abastercer os pintainhos, pois os corvos, essas aves de rapina, abocanharam-lhe todos os ovos.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Ventos do apocalipse, de Paulina Chiziane, e Maputo blues, de Nelson Saúte.

 

 

Perfil

Adelino Timóteo nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na Beira. É formado em Docência de Língua Portuguesa e em Direito. Além de escritor, é poeta, artista plástico e jornalista. Possui vários livros publicados, como: Os segredos da arte de amar, Mulungu, A virgem da babilónia, A fronteira do sublime, Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique, Livro mulher, Dos frutos do amor e desamor até à partida. É vencedor do Prémio Literário BCI (2011), do Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (2001) e do Prémio Anual do SNJ para a Melhor Crónica Jornalística.

 

A história da bela “Imani” por Mia Couto

“(Não é possível) travar o vento com uma peneira”

Os mitos podem forjar nações, mas é a sua contestação que as fortalece. Gungunhana já foi um mito em Moçambique e em Portugal. No último romance de Mia Couto é apenas um homem.

Esta trilogia romanesca é (quanto aos seus dois primeiros volumes) menos permeada pela inventividade linguística que tem caracterizado Mia Couto, dela estando ausentes os tão celebrados “miacoutismos”

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Esta trilogia romanesca é (quanto aos seus dois primeiros volumes) menos permeada pela inventividade linguística que tem caracterizado Mia Couto, dela estando ausentes os tão celebrados “miacoutismos” PAULO PIMENTA

A carta fictícia está datada de 1 de Outubro de 1895 e o remetente é um fictício Germano de Melo, sargento português punido, por haver participado na revolta portuense e republicana de 31 de Janeiro de 1891, com o envio para um remoto posto militar nas ardentes planícies da África Oriental portuguesa, onde se viviam tempos não menos tumultuosos. O destinatário é o histórico tenente Ayres de Ornelas, que alcançou glória militar em Marracuene e Coolela, e em outras batalhas históricas das “campanhas de pacificação” de Gaza. “Que filhos teríamos” indaga retoricamente o sargento, a propósito da sua paixão por uma jovem negra chamada Imani – que é a narradora principal dos dois volumes até agora publicados da “trilogia moçambicana” de Mia Couto (Beira, 1955) intitulada As Areias do Imperador. E logo Germano de Melo transcreve a resposta de Bibliana, profetisa adoecida da “particular cegueira” de ver pelos olhos dos deuses: “Que importa a cor da pele dos que nascerem? Gungunhane terá netos brancos portugueses e os portugueses terão netos africanos! Contrariar essa inclinação é travar o vento com uma peneira. O Tempo […] é um grande misturador de sementes.”

Gungunhane (ou Gungunhana) – que é, evidentemente, o imperador do título genérico da trilogia romanesca do escritor moçambicano – foi o último rei do Estado vátua de Gaza e será aprisionado por Mouzinho de Albuquerque (um português raro, certamente, por contrário à política do “quanto mais devagar melhor”) no seu refúgio em Chaimite, no dia 28 de Dezembro de 1895. O feito demorou uma semana até ser noticiado em Lisboa (bons tempos…), mas deu brado em Portugal, que havia sido humilhado pelo Ultimato inglês, e ecoou na restante Europa, tanto por causa da lenda heróica e letal que aureolava o “Leão de Gaza”, quanto pelas suas consequências geopolíticas: sem essa derrota dos vátuas, é provável que Moçambique não existisse hoje com a configuração que lhe conhecemos.

Para inglês ver

Poder-se-á dizer, com efeito e com verdade, que as campanhas portuguesas “de conquista e pacificação” em África foram feitas para inglês ver. Recorde-se que, em 1885, em Berlim, as potências coloniais europeias haviam feito depender a partilha de África entre si de uma efectiva capacidade de exploração e controlo dos territórios em disputa. À intenção portuguesa de unir Angola e Moçambique (o Mapa Cor-de-Rosa) opusera-se, em 1890, a Inglaterra (o Ultimato), e as duas potências disputavam também o território controlado por Gungunhana. Por sua vez, o imperador de Gaza não descartaria um aliado europeu que o ajudasse a derrotar os vários inimigos internos. É neste contexto, de sucessivas e contraditórias alianças e traições, que se pode compreender a relevância do aprisionamento do chefe vátua que, com sete das suas inúmeras mulheres e outros elementos do real séquito, seria exilado para os Açores (Terceira), onde veio a morrer, em 1906. O seu captor, o trágico oficial de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, suicidara-se cerca de cinco anos antes.

Em 2005, o Museu Militar de Lisboa assinalou os 110 anos decorridos desde o histórico episódio de Chaimite. Entre os presentes, lê-se na imprensa, estavam descendentes portuguesas de Gungunhana. Assim se confirmou a profecia de Bibliana. Mas o processo de mitificação institucional do imperador de Gaza culminara havia já vinte anos, quando o então Presidente moçambicano Samora Machel obteve a solene trasladação para Maputo dos supostos restos mortais de Gungunhana. Supostos porque, como em tantos outros casos semelhantes, a autenticidade do traslado não foi cientificamente comprovada, não sendo improvável que na urna enviada para Moçambique seguissem apenas as “areias” de que fala o título da vasta trilogia de Mia Couto (os primeiros dois volumes somam já mais de 850 páginas).

A produção e instrumentalização política de mitos fundadores comunitários é certamente uma doença infantil do processo de afirmação identitária de nações e Estados. A sua contestação, ou desconstrução, não será menos útil e menos necessária, sendo até mesmo, provavelmente, condição e prova da sua sobrevivência. Se assim for, Moçambique vai no bom caminho. E se a contestação de Gungunhana enquanto ferramenta ideológica de unificação política do país já não é nova, a desconstrução do mito através da ficção tem também precedentes, podendo referir-se aqui o romance Ualalapi (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa. Lembram alguns – sem novidade que se note, aliás – que o fratricida Gungunhana alcançou o poder através da violência e do crime, e que durante uma década governou com mão de ferro o seu império, colonizando, explorando e oprimindo outros grupos étnicos autóctones do Sul de Moçambique. Será o caso, em A Espada e a Azagaia, dos vatxopi (ou chopes), povo de onde provém a bela e muito jovem Imani (15 anos à data dos acontecimentos narrados). Bastará dizer que no “Resumo do primeiro volume”, que inaugura A Espada e a Azagaia, se lê: “Os Vatxopi são um povo ocupado e massacrado pelo domínio dos Vanguni [ou vátuas] e que estabeleceram, por esta razão, uma aliança de cooperação militar com as autoridades portuguesas.”

O que é mais interessante, porém, neste romance de Mia Couto, é que a humanidade de Gungunhana cresce na inversa proporção do emagrecimento do mito. No final do segundo volume da trilogia (no primeiro volume, publicado em 2015 e intitulado Mulheres de Cinza, o imperador de Gaza é uma presença ausente que se manifesta só enquanto remoto detonador de uma sequência de tragédias na família da protagonista narradora), o temido e lendário “Leão” é apenas um homem fragilizado e amedrontado. E perplexo com a infinita e universal competência para a traição: “De que vale ter milhões de súbditos, se eles não são fiéis? De que vale possuir centenas de mulheres, se nenhuma delas é realmente nossa? De que vale ser coroado imperador se os que hoje te saúdam venerarão com maior devoção aqueles que te vão derrubar?” (p. 364) Igualmente o lamenta a rainha-mãe: “Tenho pena do meu filho […]. Todos lhe obedecem, ninguém lhe é leal.” (p. 367) Talvez se possa convocar aqui um “dito” atribuído a outra personagem, o padre Rudolfo Fernandes: “Eis a pobreza do nosso destino: acabamos por ter saudade do tirano anterior.” (p. 165)

Cada homem é uma raça

De igual modo, a representação dos europeus, em geral, e dos portugueses, em particular, é múltipla e contrastada. Já no primeiro volume da trilogia, o sargento republicano, deitando contas à “pretensão imperialista dos ingleses em provar que Portugal não tem condição para governar as suas colónias africanas”, concluía: “Não sei se odeio mais a ambição inglesa ou a vergonhosa submissão das nossas autoridades.” No presente e mais fluído volume, é o tenente Ornelas – que vem juntar a sua qualidade de narrador aos dois anteriores (Imani e Germano de Melo) – quem comenta: “Há no nosso seio correntes mais hostis entre si que as que separam anjos e demónios. Essas desavenças não são exclusivas dos lusitanos. Porque, por estas bandas, andam os europeus em guerra uns com os outros. Por razões políticas, por razões religiosas. Católicos e protestantes brigam como se não tivessem um único Deus. Há mais rivalidade entre ingleses e portugueses do que entre brancos e pretos. Se não há unidade entre os brancos também não existe uma entidade a que se possa chamar ‘os pretos’. […] Como podemos empreender uma guerra se desconhecemos a fronteira que nos separa dos inimigos?” (pp. 317-18)

E se, no primeiro volume, só as cartas de Germano de Melo, inicialmente destinadas ao conselheiro José d’Almeida, vinham intervalar a narração na primeira pessoa feita por Imani, já que o destinatário da correspondência do sargento se manteve mudo, aqui, surge a voz nova do tenente Ayres de Ornelas, criando uma verdadeira troca epistolar. Será, certamente, por esse motivo, ou seja, por razões de conformidade e verosimilhança – a acção decorre no final do século XIX e dois dos três narradores são portugueses –, que esta trilogia romanesca é (quanto aos seus dois primeiros volumes) menos permeada pela inventividade linguística que tem caracterizado o autor, dela estando praticamente ausentes os tão celebrados “miacoutismos”.

Não obstante, Imani surge como a personagem-narradora nuclear, como verdadeira protagonista do romance, e o género, aqui, não será um acaso, sendo a tematização da “condição feminina” recorrente em Mia Couto. Conta o sargento: “Ontem, aflorando este assunto [o seu caso amoroso] com Imani, ela disse algo que me parece irrefutável: que os nossos dois mundos não eram, afinal, tão diversos. E ela está certa. Em África ou na minha pequena aldeia de Portugal, as mulheres partilham as mesmas magras expectativas do que pode ser um casamento.” As vozes de Imani e de Germano de Melo são ambas de personagens de fronteira, em trânsito entre culturas, com identidades críticas. Acentuam a recusa geral de univocidade na construção e na leitura das personagens (as fictícias e as reais) e dos seus actos (aqueles documentados e os outros, só imaginados). À narrativa única da propaganda e do mito, opõe o autor a pluralidade dialógica da ficção e a sua apetência para reconstruir o real. Porque, como já dizia Imani em Mulheres de Cinza, “o pior do passado é o que está ainda por vir”. Tal programa, que Mia Couto não tem deixado de explanar e de explorar, é desde logo legível, aliás, no título do segundo livro publicado pelo autor, em 1990: Cada Homem É Uma Raça.

https://www.publico.pt/2017/01/20/culturaipsilon/noticia/nao-e-possivel-travar-o-vento-com-uma-peneira-1758567

Kapulana abre novo horizonte à obra do moçambicano Aldino Muianga no Brasil

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Autor moçambicano promoveu sua obra durante 10 dias naquele país

Aldino Muianga, uma das grandes vozes da literatura moçambicana, autor de vários livros em prosa, esteve no Brasil, entre os dias 7 e 17 deste mês, a convite da editora brasileira Kapulana. Ao longo dos 10 dias que Muianga lá esteve publicou dois livros, nomeadamente, “O domador de burros e outros contos  e “A noiva de Kebera”.

Mas a actividade do autor foi além de publicar livros já conhecidos pelo público moçambicano, no entanto, novidades para os brasileiros. Aldino Muianga também participou de um circuito de eventos culturais nas cidades de São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro, como mesas-redondas, debates e palestras sobre literatura moçambicana.

Nesta que foi a primeira visita do escritor ao território brasileiro, no dia 8, a convite de Tânia Celestino de Macedo, do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (CEA-USP), Muianga participou do programa subordinado ao tema “Encontro com o escritor Aldino Muianga”, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O escritor, que é médico-cirurgião, fez uma apresentação sobre sua vida e obra e seu processo de criação literária. O público presente – professores, alunos e outros pesquisadores de literatura – teve a oportunidade de conversar com o autor, que falou sobre a conexão existente entre os géneros “conto” e “poesia” e fez uma análise do processo tradicional de narração de histórias moçambicanas, denominado “à volta da fogueira”.

No dia seguinte, aconteceu o lançamento paulistano do livro de contos do autor, “A noiva de Kebera”, na Livraria Blooks de São Paulo. Na ocasião, foi organizada uma mesa-redonda com os principais participantes da edição brasileira: o autor; o prefaciador, Nazir A. Can, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; e o ilustrador dos contos, o brasileiro Dan Arsky. Foi um evento em que o público teve a oportunidade de ouvir dos protagonistas dessa publicação nacional como foi o processo de criação conjunto do livro que estava sendo lançado. Muianga falou sobre o processo de criação literária; Can, sobre sua leitura analítica da obra; e Arsky, sobre a representação em forma de imagens da obra moçambicana que lia pela primeira vez. Os três participaram da conversa com o público e da sessão de autógrafos.

Nesta passagem pelo Brasil Aldino Muianga visitou a Editora Kapulana e concedeu duas entrevistas: para a Rádio Unesp e para o Jornal Plano Crítico. E, acompanhado de Rosana Weg e Amanda Azevedo, diretoras da Editora Kapulana, Aldino Muianga participou das actividades da II Pré-balada literária da Bahia, na cidade de Salvador, a convite dos organizadores, os escritores Marcelino Freire e Nelson Maca.

As atividades ocorreram na Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Biblioteca dos Barris), onde o escritor da Kapulana assistiu a uma série de manifestações culturais de artistas locais. E, no dia 12 deste mês, houve o lançamento dos livros “A noiva de Kebera”, de Aldino Muianga, e “Sangue negro”, de Noémia de Sousa. Foi uma festa literária com mesas de conversas, leituras de poemas por Lúcia Santos e Luíza Santos, intervenções visuais em tempo real, performances musicais e dramatizações.

Porque Brasil também é feito de memórias, no dia 13 o escritor moçambicano foi convidado a conhecer a casa onde morava e trabalhava o escritor baiano Jorge Amado, uma das suas grandes referências literárias.

A cidade seguinte onde Aldino Muianga se apresentou foi o Rio de Janeiro, onde esteve acompanhado da directora da Kapulana, Rosana Weg e de sua assistente editorial, Bruna Barros.

Em 17 de Novembro, Muianga participou, em conjunto com o poeta angolano Fernando Kafukeno, do evento “Angola e Moçambique: diálogos literários”. A mesa de debates foi conduzida por Carmen Tindó Secco e por Nazir Ahmed Can, ambos do sector de Literaturas Africanas da UFRJ.

http://opais.sapo.mz/index.php/cultura/82-cultura/42564-kapulana-abre-novo-horizonte-a-obra-de-aldino-muianga-no-brasil-.html

Primeira romancista de Moçambique diz não ter liberdade para escrever como um homem: ‘Somos prisioneiras’

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Nos olhos azuis de Paulina Chiziane, é difícil enxergar às vezes a linha que separa a pupila e a íris. A falta de divisas se estende à forma como Paulina vê o mundo.
 
 
Primeira mulher de Moçambique a publicar um romance e uma das mais importantes escritoras africanas, ela nega ser romancista, feminista ou religiosa.
 
 
Foge das definições, em busca do que chama de liberdade absoluta, aquela que relata nas pequenas comunidades africanas onde não há estradas nem vigias, aquela que diz ser desconhecida de todas as mulheres. De suas personagens, majoritariamente femininas, e dela própria, que diz censurar seus escritos.
 
Se Vinicius de Moraes (1913-1980), um de seus poetas preferidos, pôde descrever o corpo nu de uma jovem, ela encontra dificuldades de fazer o mesmo com um homem.
 
“Temos o nosso poeta, que já morreu, Eduardo White (1963-2014). Ele tem um volume só sobre sexo. Jesus! Certa vez, eu disse ‘Eduardo, qualquer dia vou escrever o mesmo que tu escreves, vou inverter’. Ele respondeu ‘Olha, as mulheres jamais irão escrever. Vocês são prisioneiras’. Ele tem razão. Ele é um homem livre, mas nós somos prisioneiras.”
 
Apesar da constatação, a escritora diz que jamais deixará de trabalhar pelos direitos das mulheres, bandeira que abraçou depois de deixar a luta política na Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Elas são o tema central da maioria dos seus livros, nos quais fala das vivências tradicionais do seu povo e usa palavras em chope, a língua local.
 
 
Com um deles, Niketche , que conta a história de uma moçambicana que conhece as amantes do marido e decide pela relação poligâmica, venceu o prêmio José Craveirinha, ao lado de Mia Couto.
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Paulina, que também foi candidata ao Nobel da Paz por sua literatura militante, esteve no país para um evento do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e falou com a BBC Brasil.
 
BBC Brasil – Você sempre fala da literatura como instrumento para transformação da realidade. Como ela se difere de um partido político ou de um grupo como o Frelimo?
 
Paulina Chiziane – Falo da experiência de Moçambique. A consciência da opressão e da necessidade de luta foi feita através da poesia. José Craveirinha (considerado o maior poeta do país) foi um mestre. Pequenas linhas, declamações, e aquilo passava de boca em boca, então, todo mundo acordava.
 
O despertar para a consciência nacional e para a luta pela libertação nacional foi feito pela poesia. Mesmo a luta das mulheres. Há poemas que foram feitos para despertar a mulher para a luta. Esse é um tipo de literatura.
 
Mas existe a outra literatura, que oprime a mulher, começando pelos textos chamados sagrados, nos quais a mulher tem de ir para o inferno e o homem, para o céu. Neste momento, gosto mais da literatura com causa.
 
BBC Brasil – Se pudesse resumir as lutas perpetradas por sua literatura, o que diria?
 
Chiziane – Basicamente, pelos direitos humanos. Especificamente, pelos direitos da mulher.
 
BBC Brasil – Hoje o debate sobre os direitos das mulheres está muito atrelado ao feminismo, e você não se define como feminista. Por quê?
 
Chiziane – É uma questão de denominação. Por que tem de ser chamado de romancista, depois de feminista, depois de…? É muita coisa para uma cabeça. Deixem-me fazer minhas lutas. Agora, ponham os nomes que quiserem, mas não quero me assumir assim.
 
Da mesma forma como não me prendo a uma religião. Não gosto de ficar presa a um grupo. Porque, se sou membro do grupo, não terei a liberdade para fazer a devida crítica. Hoje, falo da religião porque não faço parte dela.
 
BBC Brasil – Você é tida como a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique e lançou seu livro de estreia, “Balada de Amor ao Vento”, em 1990. Por que tão poucas africanas escrevem?
 
Chiziane – São várias questões. A primeira delas é o acesso à educação, que é menor para as mulheres. O segundo é a sobrecarga na mulher, porque ela tem de trabalhar, cuidar da família, e ainda mais escrever. É muita coisa.
 
A tarefa da escrita é muito absorvente e nem sempre a mulher pode estar presente, não é fácil. Cada vez mais, há mulheres que estão escrevendo e publicando, mas ainda é uma aventura muito grande.
 
Mas estão aparecendo grandes mulheres na literatura. Na África, de maneira geral, e em Moçambique, há uma nova geração se afirmando.
 
BBC Brasil – Você costuma mencionar, além das dificuldades práticas, a falta de liberdade mental das mulheres. Pode explicar isso?
 
Chiziane – No nível de tradições e religiões, já existe um menu daquilo que a mulher deve pensar. Pensar em cozinhar, em se pentear bem, mas ter liberdade para pensar outra coisa fora da casa e das obrigações familiares não é muito comum. Muitas sociedades não permitem, e as mulheres acabam ficando confinadas nesse mundo pequeno.
 
BBC Brasil – Na África, essa é a realidade da maioria das mulheres?
 
Chiziane – Infelizmente. É a grande realidade da maior parte das mulheres. E em qualquer religião, em qualquer tradição. Quando se diz respeito à repressão da mulher, acho que todas as instituições são iguais, sejam europeias ou africanas. As religiões são iguais, sejam árabes, cristãs ou chinesas.
 
Quando se trata de reprimir a mulher, todos são unânimes e irmãos. Às vezes, no mundo considerado primitivo, a mulher tinha mais liberdades que hoje.
 
Em Moçambique, em determinadas regiões, a mulher tem direito ao sexo. Ela diz ‘não gosto deste homem, quero dormir com aquele’, e é permitido. Quer dizer, essa tradição existia, mas foi sendo cortada. Chegou o cristianismo e piorou. A mulher tem hoje que dizer ‘sim’, mesmo que não goste. Aliás, nem pode dizer ‘sim’, tem de se submeter, é a realidade.
 
Portanto, em termos de tradição, essas mulheres têm o direito ao sexo, mas, em termos de religião e de instituição, não têm. As religiões modernas são piores que as tradicionais. Às vezes, visito uma dessas aldeias no interior do país. As mulheres perguntam ‘mas vocês, nas cidades, são felizes? Toda a vida com o mesmo marido!’. Dizem que ‘aqui não é assim. Quando me zango com meu marido, tiro umas férias, vou para casa dos meus pais e arranjo outro.’ Há sociedades ditas menos evoluídas onde mulheres têm mais expressão. É questão de estudar, conhecer melhor.
 
BBC Brasil – Em outras entrevistas, você disse que é necessária uma autocensura para publicar livros em Moçambique. O que você não pode dizer?
 
Chiziane – Em Moçambique, ainda não temos muitos problemas. Do período da independência até agora, tem-se publicado um pouco de tudo. Ainda não se sente muito a chamada censura. Mas a autocensura existe.
 
 
(Na palestra dada no Brasil), usei aquele exemplo lindo do Vinicius de Moraes (poemas sobre o corpo feminino nu). Gosto dele. Um homem pode escrever aquilo, mas, como mulher, não me vejo escrevendo, me censuro. Porque é imoral, porque depois não fica bem, porque as pessoas vão pensar, os filhos irão se zangar. Sinto mais essa autocensura no feminino. Os homens publicam qualquer coisa.
 
BBC Brasil – Então não seria uma questão política, mas interior, das próprias mulheres?
 
Chiziane – É interior. O que os homens escrevem, eu não posso escrever. Se descrever o sexo de um homem, o mundo todo vai atirar pedras em mim, vai me chamar de nomes. Mesmo que tenha vontade, não é fácil.
 
O poema do Vinicius é lindo. Mas ele escreveu assim porque é permitido. Uma mulher não pode escrever aquilo.
 
Temos o nosso poeta, que já morreu, Eduardo White. Ele tem um volume só sobre sexo…Jesus! Eu disse ‘Eduardo, qualquer dia vou escrever o mesmo que tu escreves, vou inverter. Ele respondeu ‘olha, as mulheres jamais irão escrever. Vocês são prisioneiras’. Ele tem razão. Ele é um homem livre, mas nós somos prisioneiras.
 
BBC Brasil – Você diz que não é romancista, mas contadora de histórias, e que seu pai e seu avô tiveram muita influência no seu ofício. Por que nega a definição?
 
Chiziane – Para contar uma história, a pessoa precisa ter liberdade, contar como quer, no momento que quer. Agora, para ser romancista, existem regras, e, às vezes, há coisas que não se pode dizer, porque o romance, em termos acadêmicos, é feito de uma ou de outra forma. Então, não cabe para aquilo que eu quero. De vez em quando, faço uma narrativa e paro para meter uma canção, por exemplo, o que não é comum no romance. Paro no meio, meto uma cantiga.
 
Tive uma grande influência do vilarejo onde eu vivia. Era um lugar bom, de muita liberdade. Na zona rural, o conceito de liberdade é muito grande. Na cidade, sempre é preciso tomar cuidado. No campo, não. Não há carro, não há perigo. Não há a preocupação de proibir toda hora. Todos os gestos de passear e sonhar são permitidos.
 
BBC Brasil – Em sua palestra, você mencionou como as novas religiões estariam criando uma “inquisição” do século 21 na África. Como isso acontece?
 
Chiziane – Não só. Os americanos descobriram Deus não sei onde. Os chineses estão descobrindo Deus, os árabes estão descobrindo Deus. E todos acham que a África não conhece Deus. Precisam levar sua compreensão a cada um.
 
Então, o que é da Europa vem com esses resíduos da inquisição. As igrejas evangélicas estão exatamente com a mesma filosofia da inquisição: não pode haver mais nada, só aquilo que eles pensam.
 
É só ver no que a inquisição acreditava: na força do diabo. Que pena, porque deveria ser na força de Deus. As igrejas evangélicas também acreditam muito na força do diabo, e acreditam que esse diabo vem da África.
 
Portanto, é uma religião mais voltada ao culto ao diabo e à demonização africana. Matam tudo em nome de alguma coisa sobre a qual nem têm certeza