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Angola cria a Academia Angolana de Letras

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As primeiras eleições para os dos órgãos sociais da Academia Angolana de Letras (AAL) realiza-se no dia 3 de Setembro, às 8h00, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, com apenas uma lista de candidatura.

A Comissão Eleitoral, disse que a lista única é constituída pelos escritores Artur Pestana “Pepetela”, presidente da Mesa da Assembleia Geral, Boaventura Cardoso, presidente do Conselho de Administração, e Henrique Lopes Guerra, presidente do Conselho Fiscal.

A Comissão Eleitoral é integrada por Victor Kajibanga, presidente, Virgílio Coelho, vice-presidente, e Irene Guerra Marques, vogal.
Um comunicado da Comissão Eleitoral refere que a candidatura única foi entregue dentro dos prazos legais e obedece aos requisitos previstos no regulamento do pleito eleitoral, nomeadamente a exigência de subscrição de um mínimo de cinco por cento dos membros fundadores.

A campanha eleitoral teve início ontem e termina a 1 de Setembro, estando reservado o dia seguinte à reflexão. A mesma tem o seu estatuto editado no Diário da República n.º57 III Série de 28 de Março de 2016, como uma associação privada sem fins lucrativos, de carácter cultural e científico.
A Academia tem como patrono o primeiro Presidente da República de Angola, Agostinho Neto, e admite como membros os fundadores, efectivos e beneméritos, para além de colaboradores com a categoria de correspondentes, estes últimos podendo ter nacionalidade diferente que as dos restantes membros.
De acordo com o estatuto, os membros efectivos da Academia Angolana de Letras devem cumprir dois de três requisitos: ter obra como objecto de estudo em universidades angolanas e estrangeiras; ter ganho prémios literários ou de investigação em Angola ou no estrangeiro e ter obras que tenham sido objecto de ensaios por especialistas em literaturas africanas de língua portuguesa. A constituição da Academia Angolana de Letras vem corresponder aos anseios de uma sociedade angolana cada vez mais engajada com a sua identidade, história, cultura e pensamento, bem como reforçar o pensamento angolano no espaço nacional – quer pelo ensino, quer pela investigação e espaço internacional, quer pela promoção, quer pela divulgação.
A Academia vai responder também ao estado e utilidade da literatura angolana, alavancando de forma positiva o pensamento angolano hodierno e uma política de investigação científica em torno das artes, das letras e demais domínios das ciências sociais e humanas.
A Academia Angolana de Letras (AAL) tem a sua sede provisória na União dos Escritores Angolanos (UEA).

http://jornaldeangola.sapo.ao/…/escritores_elegem_membros_d…

Haverá escritores negros na Feira do Livro de Porto Alegre?

Poeta Ronald Augusto lança questionamentos à direção da feira do livro de porto alegre sobre a falta de representação da literatura negra em eventos da área, discussão que já surgiu na Flip deste ano

Por: Ronald Augusto
06/08/2016 – 03h00min | Atualizada em 06/08/2016 – 03h00min
Haverá escritores negros na Feira do Livro de Porto Alegre? Adriana Franciosi/Agencia RBS

Escritor espera uma resposta da Área Adulta da Feira de Porto Alegre sobre quais autores negros estarão no eventoFoto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

No dia 7 de julho, postei em minha página do Facebook a seguinte indagação: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Como é usual acontecer nessas ocasiões, alguém replicou: “Mas escritor tem cor?”. Ao que eu respondi, de pronto: “Escritor tem cor, sexo, CPF e RG”. Desgraçadamente, concepções como essa, que não só eu defendo, mas muitos outros, ainda provocam constrangimentos. Entretanto, o problema não é nosso se uma parcela de leitores e fruidores segue depositando confiança na crença anacrônica de uma “arte pura”.

Recentemente, tivemos a chance de testemunhar uma discussão muito importante a respeito da invisibilidade dos escritores negros relativamente às práticas seletivas de prestigiamento e de indiferença vigentes no sistema e no mercado literários. A esse propósito, evoco aqui a polêmica causada pela – para dizer o mínimo – incompetência da curadoria da Flip que, em uma edição tida e havida como inovadora, porque dedicada à produção literária das mulheres, não foi capaz de apresentar uma escritora negra sequer para ser integrada ao evento. Dezessete escritoras brancas convidadas. Nenhuma negra. Eu posso ainda refrescar a memória do leitor com o episódio da comitiva de escritores brasileiros enviada à Feira do Livro de Frankfurt de 2013: essa comitiva tinha apenas um ou dois escritores negros. Enfim, trata-se de uma questão em relação à qual as curadorias de feiras e eventos literários não podem mais se comportar com indiferença nem esconder seus critérios de escolha atrás de desculpas convencionais e retardatárias.

No caso da Flip, por exemplo, o curador respondeu às críticas dizendo que tentou agendar as participações de Elza Soares e Mano Brown, mas infelizmente, segundo ele, as negociações não deram certo. Não tenho nada contra os dois artistas, pelo contrário, mas circunscrever a presença negra na literatura contemporânea apenas a esses nomes revela um total descaso a respeito da riqueza de vozes e de linguagens da autoria negra brasileira que, pelo menos, já há quase 30 anos vem despertando o interesse de leitores e pesquisadores em todas as partes. Por outro lado, pelo perfil dos convidados negros desejados pela curadoria da Flip, o teor da participação negra no evento não escaparia à rotina da mera animação de festa, porque, em que pese a contundência estético-política de Elza e Brown, ainda estaríamos presos à nossa proverbial dimensão rítmico-musical; espécie de essência ou de lugar negro tolerado pela casa-grande.

Foi pensando exatamente nessas imposturas e nesses enjoamentos preconceituosos que fiz a pergunta já mencionada bem no início desse texto, repito-a: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Insisto nela porque até agora não obtive resposta completa da organização da Feira do Livro de Porto Alegre. Na verdade, consegui uma resposta parcial. Sônia Zanchetta, responsável pela Área Infantil e Juvenil da Feira, confirmou a participação, este ano, dos escritores Heloísa Pires Lima, Rogério Andrade Barbosa e Sérgio Vaz. Além disso, segundo a organizadora, o coletivo de poetas negros Sopapo Poético apresentará um sarau no Teatro Carlos Urbim, e o Coral do Centro Ecumênico da Cultura Negra – Cecune, se apresentará no encerramento da programação no mesmo teatro pelo 16º ano consecutivo.

Vamos por partes. Os três escritores mencionados por Sônia Zanchetta, a saber, Heloísa Pires Lima, Sérgio Vaz e Rogério Andrade Barbosa, representam o vago perfil do escritor que “trabalha na área da literatura afrobrasileira”, isto é, eles entram no rol dos escritores negros devido à “temática”, o que é um erro conceitual. Esse erro conceitual permite abrigar, inclusive, o virtual escritor branco de boa-vontade, só que, neste caso, o problema da invisibilidade do escritor negro segue sendo negado. Em outras palavras, esse branco sensível à cultura afrobrasileira pode passar a noite inteira, a noite em claro, lendo e praticando literatura negra, mas na manhã seguinte ainda vai acordar como um indivíduo branco. Quanto à participação dos dois coletivos negros, entendo que serve como uma espécie de atenuante, mas ainda acho pouco e segue na linha de “abrilhantar” o evento. Concordo que é possível e estratégico ocupar esse espaço simbólico. Romper o círculo endogâmico da branquitude usando não apenas essa expressividade por meio da qual sempre somos lembrados, mas lançando mão também de nossa reflexão sobre a literatura e seus modos de consagração e exclusão.

Com efeito, a presença da autoria negra na Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre é tímida demais, para justificar essa conclusão basta mencionarmos que a Feira tem duração de duas semanas, sua programação é intensa, cheia de debates, lançamentos de livros, conversas com escritores, oficinas, etc. E diante de tudo isso a coordenação da Área Infantil e Juvenil traz como contribuição apenas dois ou três escritores negros e dois coletivos de cultura afro para entreter os leitores e visitantes. É pouco.
Assim, ainda aguardo uma resposta da coordenação da Área Adulta da Feira à questão: quantos e quais escritores negros farão parte da

62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Meu questionamento foi público. Suscitou uma série de manifestações, tanto de escritores negros/brancos, como de leitores e interessados. Foi por essa razão, aliás, que Sônia Zanchetta, com grande presteza, veio a público e apresentou uma resposta.

Espero que a Área Adulta da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre nos apresente uma posição. Espero que esse silêncio, esse intervalo sem resposta, quando rompido pela manifestação pública da coordenação, não se revele uma decepção. Esperamos que seja uma resposta de gente grande.

POST-SCRIPTUM: SUGESTÕES

Sugiro não só à organização da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, mas do mesmo modo às edições vindouras do evento, bem como às demais feiras do interior do RS, que suas curadorias: (a) ou passem por um processo de formação no sentido de incorporarem à categoria do literário a representação das diversidades étnicas e de gênero presentes nas poéticas contemporâneas; (b) ou constituam curadorias que contenham representantes dessas diversidades, isto é, curadores com um conhecimento mais aprofundado a respeito de seus respectivos campos estético-literários.

Com relação à incorporação da literatura negra ao cardápio das feiras de livro, eu poderia sugerir os seguintes nomes: Mel Adún, Jorge Fróes, Henrique Freitas, Esmeralda Ribeiro, Guellwaar Adún, Eliane Marques eEdimilson de Almeida Pereira.

Enquanto isso, para quem quiser – ao invés de atrapalhar – se informar mais sobre escritores negros, visite o portal Literafro: zhora.co/litera-afro.

Manuel Rui Monteiro apadrinha prémio literário

10 de Julho, 2016

Fotografia: M. Machangongo

A Fundação Sol e a União dos Escritores Angolanos (UEA), em parceria com o Ministério da Educação, reuniram recentemente no átrio da UEA crianças do lar de acolhimento Nzoji e de instituições escolares de Luanda,para a cerimônia de lançamento do prêmio literário infanto-juvenil “Quem me dera ser onda”. O evento,  bastante concorrido, contou com a presença do autor da obra literária “Quem me dera ser onda”, o escritor Manuel Rui Monteiro, assim como de Tanya Garcia, da Fundação Sol, entidade patrocinadora do prémio, e dos escritores John Bella e Adriano Botelho de Vasconcelos. A 17.ª edição do concurso literário infanto-juvenil juvenil está aberta a crianças com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos. As inscrições podem ser apresentadas até ao próximo mês de Novembro. A reportagem da Gente esteve sob responsabilidade deAldaberto Ceitas.

http://jornaldeangola.sapo.ao/gente/manuel_rui_monteiro_apadrinha_premio_literario

I Congresso Internacional e III Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Literaturas e Linguística.

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Programa

Programação

Dia 29/11, terça – feira.

8h-9h Inscrições para ouvintes e entrega de Material.

 

9h30 Solenidade de Abertura (Auditório CCE)

9h30- 10h30 Conferência de abertura (Auditório CCE)

Profª. Drª. Yeda Pessoa de Castro (UNEB)

10h-10h30: Café

10h30-12h Mesa redonda I (Auditório CCE):

Africanidades e Brasilidades: Literaturas e Linguística

Prof.Dr. Clézio Roberto Gonçalves (Ufop)

Africanidades e brasilidades na língua portuguesa

Profª. Drª. Jurema Oliveira (Ufes/Fapes/NAFRICAB)

Africanidades e brasilidades em literaturas

Prof. Dr. Amarino Oliveira de Queiroz (UFRN/NAFRICAB)

Africanidades e crioulidades em culturas

Coordenação: Prof. Dr. Amarino Queiroz (UFRN/NAFRICAB)

12h-14h: Intervalo de almoço

14h- 17h Grupos de Trabalhos, minicursos, Oficinas

GT1 – Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Literaturas e Linguística

Coordenação: Prof. Dr. Amarino Queiroz (UFRN/NAFRICAB), Profª Drª. Michele Silva Schiffer (FAPES/Ufes/NAFRICAB)

 

GT2 – Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Educação Coordenação: Profª. Drª. Denise Maria Botelho (UFRPE), Profª. Drª. Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira (PPGECI-UFRPE/FUNDAJ), Profª. Drª. Rosangela Costa Araújo (Janja Araújo) – (UFBA).

 

GT3 – Grupo de Trabalho  Africanidades e Brasilidades em Direitos Humanos e Políticas Públicas

Coordenação: Prof. Dr. Ivan Lima (Unilab / Redenção – CE/NAFRICAB)

 

GT4 – Africanidades e Brasilidades: Teatro Africano e o Teatro Negro Brasileiro

Coordenação: Profª. Drª. Denise Rocha (Unilab / Redenção-CE)

 

14h-17h Oficinas: Auditório do IC II

Plantar, colher e dividir: brincando e mobilizando conhecimentos matemáticos por meio de adaptações do jogo Mankala awalé.

Prof. Ms Leonardo Dourado de Azevedo Neto (UFAM)

14h – 17h Oficina: Auditório da Biblioteca Central (Ufes)

Brincando e cantando com as crianças africanas

Prof. e escritor Rogério Andrade Barbosa

17h-17h30 Intervalo do café

17h30-18h Atividades Culturais

Apresentação da Banda de Congo – São Benedito – Vila do Riacho – Aracruz, ES

18h-19h (Auditório do CCE)

Conversa com escritores/lançamento de livros

Amélia Dalomba (Angola), João Melo (Angola) Adriano Botelho (Angola)(confirmar)

19h-19h30(Auditório do CCE)

Sarau e declamação dos poemas de Alda Espírito Santo – CEA (Prof. Itamar Cossi)

19h30-20h30

Mesa-redonda II (Auditório CCE):

 

Africanidades e Brasilidades: Educação

Profª. Drª. Denise Maria Botelho (UFRPE),

Educação e comunidades tradicionais de terreiros Afro-indigenas

Profª. Drª. Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira (PPGECI-UFRPE/FUNDAJ)

Protagonismos de mulheres negras e suas organizações no nordeste brasileiro

Profª. Drª. Rosangela Costa Araújo (Janja Araújo) – (UFBA).

Aguinguerrei” versos que gingan

Coordenação: Profª. Drª. Denise Maria Botelho (UFRPE)

Dia 30/11 quarta-feira

9h- 10h30 Mesa redonda III (Auditório CCE):

Africanidades e Brasilidades: Culturas e Tradições

Antônio Ramos dos Santos (Mestre, Capitão e vice-presidente da Banda de congo – São Benedito do Rosário-Vila do Riacho, Aracruz, ES)

José Sizenando (Cacique mais antigo da aldeia indígena Tupiniquim Caieira Velha – Aracruz, ES)

Prof. Dr. Ivan Lima (Unilab / Redenção – CE/NAFRICAB)

As religiões de matriz africana espaço de conhecimentos e atuação política

Coordenação: Prof. Dr. Ivan Lima (Unilab/Redenção – CE/NAFRICAB)

10h30 -12h Mesa Redonda IV(Auditório CCE):

Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos, Políticas Públicas e o papel dos NEABS

Prof. Dr. Paulino de Jesus Cardoso  (UESC/NEAB)

O fim do arco-iris: intelectuais, movimento negro e luta antirracismo no Brasil

Profª. Drª. Rebeca Alcântara Meijer – Unilab/Procuradora de regulação de cursos

Prof. Dr. Ivair Augusto Alves dos Santos (UNB/NAFRICAB)

Teoria crítica de direitos humanos no Brasil e a luta contra o racismo

Prof. Dr. Henrique Cunha Junior (UFC)

Africanidade e afrodescendencia uma metodologia pesquisa negra

Coordenação: Profª. Rebeca Alcântara Meijer – Unilab/Procuradora de regulação de cursos

12h- 14h Intervalo para almoço

14h- 17h Grupos de Trabalhos, minicursos e oficinas

GT1 – Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Literaturas e Linguística. Coordenação Prof. Dr. Amarino Oliveira de Queiroz (UFRN/NAFRICAB), Profª Drª. Michele Silva Schiffer (FAPES/Ufes/NAFRICAB)

GT2 – Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Educação

Coordenação: Profª. Drª. Denise Maria Botelho (UFRPE), Profª. Drª. Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira (PPGECI-UFRPE/FUNDAJ), Profª. Drª. Rosangela Costa Araújo (Janja Araújo) – (UFBA).

Profª. Drª. Denise Maria Botelho (UFRPE)

GT3 – Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Direitos Humanos e Políticas Públicas

Coordenação: Prof. Dr. Ivan Lima (Unilab / Redenção – CE/NAFRICAB)

GT4 – Africanidades e Brasilidades: Teatro Africano e Negro Brasileiro Coordenação Profª. Drª. Denise Rocha (Unilab, Redenção-CE)

Auditório do IC II

14h-15h30 Oficina de contação de histórias: Cata papel e conta histórias

Profª. Ms Maria José Corrêa de Souza (Instituto  Federal de Ciência e Tecnologia do Espírito Santo-Campus Ifes /Venda Nova do Imigrante)

15:30h 17h  Plantar, colher e dividir: brincando e mobilizando conhecimentos matemáticos por meio de adaptações do jogo Mankala awalé.

Prof. Ms Leonardo Dourado de Azevedo Neto (UFAM)

14h – 17h Oficina: Auditório da Biblioteca Central (Ufes)

Brincando e cantando com as crianças africanas

Prof. e escritor Rogério Andrade Barbosa

17h -17h30 Intervalo do café

17h30-18h Atividades Culturais

Apresentação da Banda Tambores Fortes – São Benedito – Caieira Velha – Aracruz, ES

18h-19h30 Conversa com escritores/ lançamento de livros (Auditório do CCE)

João Canda (Angola), Isidro Sanene (Angola) Abreu Paxe (angola)

19h30-20h30 (Auditório do CCE)

Adaptação do conto de Boaventura Cardoso – “A morte do velho Kipacaça” (Prof. Itamar Cossi / CEA)

01/12 quinta-feira

Manhã livre

12h-14h Almoço

14h-17h Grupos de trabalho, minicursos e oficinas.

 

GT1-Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Literaturas e Linguística

Coordenação Prof. Dr. Amarino Oliveira de Queiroz (UFRN/NAFRICAB), Profª Drª. Michele Silva Schiffer (FAPES/Ufes/NAFRICAB)

 

GT2-Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Educação Coordenação Profª. Drª. Denise Maria Botelho (UFRPE), Profª. Drª. Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira (PPGECI-UFRPE/FUNDAJ), Profª. Drª. Rosangela Costa Araújo (Janja Araújo) – (UFBA).

 

Gt3-Grupo de Trabalho Africanidades e Brasilidades em Direitos Humanos e Políticas Públicas

Coordenação Prof. Dr. Ivan Lima (Unilab / Redenção – CE/NAFRICAB)

 

GT4-Africanidades e Brasilidades: Teatro Africano e o teatro negro brasileiro

Coordenação Profª. Drª. Denise Rocha (Unilab / Redenção-CE)

Auditório do IC II

14h-17h Oficina de contação de histórias: Cata papel e conta histórias

Profª. Ms Maria José Corrêa de Souza (Instituto  Federal de Ciência e Tecnologia do Espírito Santo-Campus Ifes /Venda Nova do Imigrante)

14h-17h Minicurso: Auditório da Biblioteca Central (Ufes)

História, memória e territorialidades dos povos indígenas no extremo sul baiano

Prof. Ms. Paulo de Tássio Borges da Silva

17h 17h30 intervalo para café

17h30 -18h Atividades Culturais

Apresentação da Dança Tupiniquim – Caieira Velha – Aracruz, ES

18h-19h Conversa com escritores/ lançamento de livros (Auditório do CCE)

Pepetela (Angola) (confirmar) Rogério Andrade (Brasil)(confirmado) e Boaventura Cardoso (Angola)(confirmar)

19h-20h

(Auditório do CCE)

Conferência de encerramento

Escritor e Jornalista Oswaldo de Camargo

Presença da África na Literatura negra brasileira: um trajeto de resistência com a palavra

Festa de confraternização com um show de músicos angolanos (na sede da Adufes)

Show musical de Gabriel Tchiema, um dos mais populares artistas angolanos (confirmar)

Exposição de quadros “A beleza da mulher negra” CEA (Coord. Profª. Dulcineia Rui – CEA no salão de exposição da Ufes)

COMITÊ CIENTÍFICO

Profª. Drª. Jurema Oliveira (UFES/NAFRICAB)

Prof. Dr. Amarino Oliveira de Queiroz (UFRN/NAFRICAB)

Prof. Dr. Flávio Garcia de Almeida (UERJ/NAFRICAB)

Prof. Dr. Ivair Augusto Alves dos Santos (UNB/NAFRICAB)

Prof. Dr. Ivan Costa Lima (Unilab / Redenção-CE/NAFRICAB)

Prof. Ms. Leonardo Dourado de Azevedo Neto (UFAM)

 

 

COMISSÃO ORGANIZADORA

Profª. Drª. Jurema Oliveira – UFES – (Presidente)

Prof. Dr. Amarino Oliveira de Queiroz (UFRN)

Prof. Dr. Ivan Costa Lima (Unilab)

Prof. Itamar Cossi (CEA)

 

Lopito Feijóo ” Toda a poesia é doutrinária”

Poeta, ensaísta e crítico literário, LopitoFeijóo é um dos nomes internacionalmente mais conhecidos da literatura e da poesia angolana. Os 35 anos de carreira literária foram assinalados com a publicação do seu mais recente livro, ReuniVersos Doutrinários, que reafirma a visão de uma vida de que existe uma doutrina poética. “Porque acima de tudo: A POESIA!”, afirma Lopito no poema de abertura desta sua obra.

Lopito Feijóo
LopitoFeijóoFotografia: Paulino Damião

Existe um grande trabalho ao longo do seu percurso literário no contacto com os leitores. Esta é uma componente importante de uma espécie de ‘missão’ do escritor?
Terei que citar o David Mestre, um dos maiores críticos de literatura angolana, que sempre afirmou que uma geração só se afirma se tiver dentro dela os seus próprios críticos. Ele próprio foi uma das pessoas que mais me incentivou no trabalho de divulgação, junto das páginas culturais que existiam em Angola nos anos 80, e que eram escassas, e junto dos membros integrantes da minha geração. Enquanto estudante de Direito, recordo-me de muitas vezes estudar para provas e ao ler os livros do meu curso encontrar técnicas de redacção, algum juízo crítico da sociedade nos meus próprios estudos. Estes factores levaram-me a enveredar pelo caminho do ensaio crítico. Abracei este caminho e nunca mais o deixei. Hoje sinto-me talhado e com sentido crítico apurado diante de qualquer modalidade artística.

De que forma começou a divulgar a sua obra?
Comecei a colaborar com jornais do mundo inteiro. A minha preocupação não era a de olhar para a minha obra, mas para o que os meus coetâneos faziam. Em alguns contextos, cheguei a divulgar poesia de elementos da minha geração em momentos dedicados à minha obra. Tudo isto deu-me uma responsabilidade social que, hoje, reconheço que vai muito mais além do que eu imaginava nos anos 80. E foi mesmo por via dessa responsabilidade social que em 1992 cheguei a Deputado da Assembleia Nacional aquando das primeiras eleições democráticas e multipartidárias em Angola. Significa que, por via da literatura, eu era já um agente cultural muito representativo.

A determinada altura começou a olhar mais para a sua poesia?
Sim, comecei a olhar mais para a minha escrita, para a promoção dela, para o apuramento estético-literário e até mesmo ético, e para a sua internacionalização. Esta abertura era muito importante porque no contexto de guerra em que vivíamos sentia-me um bocadinho sufocado. Nunca tive apetência para a emigração. Vivia exilado dentro da minha própria pátria.

Foi deputado da Assembleia Nacional durante 16 anos.
Tinha responsabilidades e não podia de todo abandonar o meu país. Mas nunca deixei de dizer que o exílio lá era muito mais difícil. Vivemos em Angola num contexto muito difícil, em que as pessoas queriam todas sair do país. Coube-me dizer às pessoas poeticamente que o exílio dentro da nossa própria terra era muito mais difícil do que viver no exílio como muita gente vivia. Quando me libertei dessas funções de natureza política e mais burocrática, engajei-me nessa internacionalização da minha obra. Em 2013, saí 13 vezes de Angola ao longo do ano. Em 2014, saí 10 vezes. Em 2015, saí 12 vezes. Neste ano, estive recentemente na Póvoa de Varzim. Dia 18 de Março, apresentei o meu primeiro livro traduzido para francês no Salão do Livro em Paris. Para Junho, tenho o festival AFRAKA no Brasil, depois tenho a reunião da Academia ALPAS-21 também no Brasil. Tenho ainda para este ano o convite para visitar e participar da Feira Internacional do Livro de Maputo em Moçambique e depois em Brazzaville no Congo, dentre outras coisas… Sinto que tenho tido o ‘feedback’ que quero junto dos leitores e dos escritores. Actualmente, modéstia à parte, sou o escritor angolano residente em Angola mais conhecido em África e desde Paris estou integrado num projecto de promoção de livros e autores de países da bacia do rio Congo e que integra escritores de mais de uma dezena de países africanos. Mas, infelizmente, muitas vezes as nossas atenções viram-se só para o Brasil e para Portugal.

Esse contacto com os países africanos foi importante para si?
O meu contacto com os países africanos foi e tem sido muito importante, assim como com a América ou, caso concreto, a partir da França. A abertura que França me deu fez com que eu tivesse um contacto muito próximo com a maior parte dos escritores de África e francófonos. Falo de escritores que na sua maioria recebem apoios por parte do governo francês, no âmbito do projecto de apoio a escritores e livros da bacia do rio Congo. Feliz ou infelizmente, de Angola só descobriram o LopitoFeijóo. Anualmente, recebo duas a três passagens oficiais que me chegam da França para vários eventos.

Recentemente, esteve presente no Saloninternationaldu livre, em Paris.
Sim, apresentei la o CoeurTellurique, uma obra minha traduzida. Depois disso, estarei presente no conhecido Marché de lapoesie também ainda este ano. E seguem-se várias feiras e actividades culturais, como disse anteriormente.

Internacionalização é, aliás, uma palavra que se utiliza muito para falar da literatura angolana. Considera que existe um caminho ainda a percorrer nos domínios da tradução e da crítica?
Esta palavra é um pouco pesada e, às vezes, incompreensível. Ela surge em Angola no âmbito de um processo eleitoralista, quando um grupo de escritores queria assumir a direcção da União dos Escritores Angolanos. Eu pergunto, qual é o escritor angolano sufocado ali dentro que, mesmo sem qualidade literária apurada, não quer aparecer na mídia internacional? Julgo que eu sozinho acabei por conseguir internacionalizar muito mais a literatura angolana do que as próprias instituições locais. Quando se fala de internacionalização deve-se ter um sustentáculo no exercício das práticas literárias que a justifique. Quando é que um autor sem a qualidade necessária é editado? Qual é o editor que dá a sua chancela a um autor sem qualidades ou que não tem disponibilidade em termos de tempo para acompanhar a divulgação da sua obra?

Considera que a tradução é uma etapa muito importante neste processo?
Nos últimos cinco anos, conheci tradutores de todas as línguas. Foi editado pela “federop editora” o livro Coração Telúrico mas, durante dois anos, discuti esta tradução com o tradutor. A tradução implica, às vezes, uma certa interpretação idiomática. Ao introduzir no meu léxico algumas palavras de línguas locais, este torna-se um trabalho mais complexo para um tradutor. É necessário dialogar com os tradutores, e é um trabalho demoradoporque o tradutor é um “traidor” e, simultaneamente, um criador. Mas se não houver qualidade literária, algo que cative o tradutor, não há tradução. E não havendo traduções não há internacionalização. Tive a sorte de conseguir bons tradutores. Em França, por exemplo, sou traduzido pelo PatrickQuillier, tradutor da obra de Fernando Pessoa. Em suma, se não houver ‘engajamento’ não pode haver internacionalização. E eu noto que falta esta entrega e este sentido de profissionalismo, e o espírito de missão especialmente nos escritores da minha geração.

Qual é para si a geração literária mais produtiva em Angola, nas últimas décadas?
Tenho-o dito e com um sentido crítico de alguma exigência – o melhor que se está a produzir na literatura angolana está a ser feito pelos escritores da geração de 80. Em termos etários, poderíamos traçar um parâmetro entre a Paula Tavares (a mais velha) e eu que sou o mais novo. Entretanto, não posso deixar de dizer que ainda temos autores de grande referência, no activo, que são da década de 70, tais como o Boaventura Cardoso, Pepetela ou o Manuel Rui Monteiro. Depois da geração de 80, em Angola, aconteceram casos esporádicos – TrajanoNankova nos anos 90 e RoderickNehone, já no presente século. Agora temos um David Capelenguela na poesia, ou um Ondjaki por demais conhecido… Existem mesmo autores locais que não são conhecidos em Portugal. Tudo, somente, em razão das malhas que o “império” tece. Poderia falar de uma Da Lomba, um FredNingui, de um Sapiruca, Nok Nogueira e muitos mais… Ou mesmo de uma poesia no feminino que se começa a afirmar e a confirmar cada vez mais. Começam a aparecer mulheres com menos de 25 anos que mostram já indícios de continuidade, praticantes de uma poesia de reflexão, de cariz intimista e de intervenção social.

Participou este ano nas Correntes d’Escritas com a apresentação da obra ReuniVersos Doutrinários. O que podemos encontrar neste volume?
Este livro deu-me muito prazer fazer. Quase todos os integrantes da minha geração têm um marco que é o dia 5 de Julho de 1980, que foi a data da proclamação da primeira Brigada Jovem de Literatura em Angola, da qual eu fiz parte. A literatura angolana da época colonial estava engavetada por causa da guerrilha e da clandestinidade. Quando se proclamou a União dos Escritores Angolanos em 1975, deu-se uma espécie de boom editorial e publicaram-se todos os títulos que poe anos e anos estiveram guardados. Só após 1980 começou a existir uma abertura para a publicação de novos autores. Foi aí que nós surgimos com a Brigada Jovem de Literatura que congregava escritores e/ou simples amantes da literatura. Em 2015, quando se completaram 35 anos sobre esta data, lancei este livro que pretende homenagear todos os escritores, e a minha própria geração. Se olhar para a minha obra e para tudo o que foi publicado nas redes sociais, tenho mais de 1000 poemas originais. Ao longo de 35 anos, conto cerca de 40.000 exemplares de livros publicados. Isso foi o que me motivou a fazer este livro, não uma antologia mas uma amostra do que as pessoas mais gostam na minha obra. Fiz uma escolha sem grande preocupação de auto-censura. Para além dos poemas, a primeira parte do livro é constituída por cerca de 100 páginas de notas críticas e recensões. A minha obra circulou pelo mundo e julgo que é importante transmitir o percurso da crítica e até do contraditório que existe sobre a minha obra.

Existem também nesta livro dois títulos inéditos.
A Doutrina dos Pitós recupera um tipo de poesia que se cultiva pouco em Angola, uma poesia infanto-juvenil ou para adultos que não cresceram. Ao longo das minhas práticas literárias, fui 12 vezes a Moçambique e, por isso, o segundo título inédito, Na KuRandzaMuiphíti (Poemas para Moçambique) é a minha forma de homenagear a população de Maputo. Este título está numa língua local, o ronga, e quer dizer Eu te amo Moçambique. O que é engraçado é que em Moçambique já estão à espera deste livro, mais ainda por ter o título numa língua local.

E a poesia, é doutrinária?
Toda a poesia que é feita com consciência do fazer e do dever fazer é doutrinária. Quando publicamos um texto literário, ele desprende-se do autor, passa a ser de quem o lê e de quem com ele se identifica. Começa a gerar-se um fluido de consciência, uma espécie de doutrina, que orienta o leitor e que o obriga a ler e reler o texto de forma a que nele possa encontrar novos caminhos e orientação. É isso que me proponho fazer na minha obra. Isso implica um trabalho de apuramento estético e ético que resulta da prática profissional, de um estudo aturado, saturado, diário e de exercício permanente da escrita.

Numa das suas intervenções públicas recentes disse: “Sou um aprendiz de poeta que conta histórias”. O poeta também é um contador de histórias?
Em Angola, aconteceu uma coisa muito interessante. Um jovem, dos anos 90, pegou na obra de um grande prosador angolano, UanhengaXitu, e converteu-a em versos. Levantou motivos de poeticidade na sua obra e escreveu um livro em versos. Quando o UanhengaXitu (Agostinho Mendes de Carvalho) viu, ficou incrédulo e disse que nem sabia que podia também ser poeta! Eu costumo dizer que a poesia está em tudo o que nos rodeia. O exercício poético não é um sacerdócio, nem somos lunáticos! Vivemos com as mesmas dificuldades do dia-a-dia das restantes pessoas. O poeta é aquele que olha verdadeiramente, recolhe e reflecte. O que se passa é que nem todos nós temos visão apurada para ver a poesia no nosso quotidiano, inventariar palavras e reinventá-las.

É uma pessoa que vive com intensidade o quotidiano?
Vivo muito o dia-a-dia da minha cidade. Sempre vivi em Luanda e nunca fiquei mais de seis meses longe de Angola. Consigo apreender certos fenómenos sociais, as histórias dos taxistas, dos candongueiros (motoristas dos táxis colectivos). O espaço mais democrático em Angola é o táxi colectivo. Dali pode advir boa prosa e melhor poesia. O meu trabalho é recolher essas histórias de carácter social para depois as reflectir na minha escrita. Por isso digo que sou um aprendiz do fazer poesia e também um contador de histórias. Vou contar uma pequena história: falamos muitas vezes da feitiçaria, um fenómeno muito interessante em África e não só. A maior cena de feitiçaria que já vi na minha vida, acreditando ou não, foi um dia que estava à janela da minha casa e vejo passar uma zungueira, nome dado às senhoras que percorrem as ruas vendendo produtos que levam numa bacia à cabeça. Nessa rua estavam dois agentes da polícia. Viram a senhora passar e implicaram com ela. A fruta caiu ao chão e os polícias começaram a pisar as maçãs. A senhora chorava. E os polícias pisavam a fruta que os próprios filhos em casa não têm. Foi ali que descobri que afinal algum feitiço existe. Aqueles senhores são feiticeiros, são estranhos, são esquisitos. Com esta história escrevi um poema sobre a feitiçaria. Quem diria?

Ao nível formal, a sua poesia é inovadora não só na forma como utiliza o verso livre, mas também outras formas poéticas como aquilo a que chamou o haikaiangolense.
Para mim, o verso livre é fundamental porque eu sou um poeta desregrado estou sempre na contra mão. Esta é para mim a forma mais prática para expressar a minha liberdade enquanto cidadão. Quanto ao haikai, esta é uma prática muito difícil, muito concentrada. Quando comecei a escrever, fi-lo pelos concretistas que estudei muito a fundo. Cheguei a fazer exposições de poesia, no âmbito do Colectovo de Trabalhos Literários OHANDANJI ao qual pertenço. A primeira de todas que se fez em Luanda, em 1984, foi organizada por mim e pelo Luís Kandjimbo. Na sequência do concretismo, estudei os autores experimentalistas. Seguiu-se a fase de uma poesia que respondesse às críticas e que mostrasse que esta poesia também tinha conteúdo. No caso dos haikais, no nosso contexto, era muito difícil aplicar as regras de construção originais. Então adaptámo-los, por via do provérbio e das adivinhas africanas, e chamámos-lhes haikaisangolenses. A poesia, afinal de contas, resulta sempre de uma certa parábola e que depende muito de quem a lê. Vem-me obviamente à ideia a formulação de ‘obra aberta’ do Umberto Eco – o texto tem de permitir milhares de leituras de acordo com o tipo de leitor.

Isso coloca-o na vanguarda de uma geração?
Quero continuar a ser este autor de vanguarda ou um vanguardista que só tem fim (caso o tenha!) quando passar para o além. Espero que o meu trabalho seja um trabalho de futuro. Há 30 anos, quando entrei para a União dos Escritores Angolanos a convite do Luandino Vieira, diziam-me “você tem futuro”. Sempre fui tendo futuro. O nosso futuro vai-se reconstruindo e vai acontecendo enquanto estivermos no mundo do aqui. Depois disso, a obra salva-se por si própria. David Mestre dizia e muito bem, de uma geração literária se se afirmarem seis nomes de autores já é muito bom. E se destes autores pelo menos seis poemas ficarem para a posteridade é muito melhor ainda. Espero que isso aconteça futuramente com a minha obra e que essa meia dúzia de poemas fique para a permanente posteridade “futura”. Como uma verdadeira DOUTRINA.

MARGARIDA GIL DOS REIS |

http://jornalcultura.sapo.ao/letras/lopito-feijoo-toda-a-poesia-e-doutrinaria

Eduardo de Oliveira : “Otimismo”

Eduardo_de_Oliveira_e_o_Movimento_Negro

Otimismo

Nascer, crescer, reproduzir, morrer…
eis, em síntese, o que é uma vida humana!
Por isso, toda doença é a praa insana…
é um atentado ao sonho de viver!

Façamos desta forma soberana
que neste mundo tem tanto poder,
um desses dons, capazes de vencer
toda a degradação que nos profana!

Os males fisiológicos que agridem
nosso corpo – essa máquina perfeita
não são próprios aos seres que progridem

na direção do ideal e da beleza
onde o sorriso é a flor que mais enfeita
o perpétuo esplendor da natureza!

Aside

Universidade de São Tomé e Príncipe promove primeiro encontro de letras

  • O leitorado brasileiro da Universidade de São Tomé e Príncipe (USTP) está a promover durante três dias o primeiro encontro de letras com palestras, simpósio, minicursos e atrações culturais para assinalar o segundo aniversário da fundação desta instituição.

Universidade de São Tomé e Príncipe promove primeiro encontro de letras

A literatura são-tomense marcou o arranque desse conjunto de eventos dedicados à língua e literatura, que decorre com a presença de especialistas nacionais e estrangeiros.

“Elegemos este encontro para a divulgação do valor da língua e da literatura”, disse Peregrino Costa, reitor da USTP, que identificou a literatura “como meio de afirmação e de propagação de aspetos identitários dos povos”.

Na sessão de abertura, a assistência acompanhou uma sessão da trajetória da literatura são-tomense com destaque para alguns dos nomes mais conhecidos.

Jorge Bom Jesus, que já exerceu por duas vezes o cargo de ministro da Educação e Cultura considerou este evento como “fundamental no quadro da promoção da literatura são-tomense e na formação da juventude”.

“Temos a literatura oral e a literatura escrita, portanto há todo um acervo de valores pedagógicos, cívicos e de alguma forma até políticos que devem ser transmitidos a esta nova geração”, disse Jorge Bom Jesus.

O ex-ministro sublinha, por isso, a necessidade dos estudantes são-tomenses se apropriarem cada vez mais da literatura são-tomense, defendeu que esta “deve ser cada mais democratizada” e reiterou a necessidade do ensino da literatura nas escolas.

“Nada melhor que introduzi-la nos nossos currículos escolares e aí é uma responsabilidade das autoridades centrais do Ministério da Educação, estou falando desde o ensino básico alargado de seis classes, passando pelo secundário e naturalmente o ensino superior”, defendeu.

Segundo a organização, o encontro de letras da Universidade de São Tomé e Príncipe é também uma forma de dar a conhecer trabalhos de investigação produzidos por este estabelecimento de ensino.

“A intenção maior deste primeiro encontro de letras é mostrar as possibilidades de trabalho nessa área de ciência que é uma área muito forte e que tem sido feita aqui na Universidade de São Tomé e Príncipe, mas ninguém sabe, ninguém conhece”, explicou, por seu lado, a brasileira Eliane Oliveira, organizadora do evento.

http://24.sapo.pt/article/lusa-sapo-pt_2016_05_24_1785408990_universidade-de-sao-tome-e-principe-promove-primeiro-encontro-de-letras

Aside

Livro de Pepetela sobre guerra e paz

Roque Silva |
5 de Maio, 2016

Fotografia: Jaimagens

“Se o passado tivesse asas” é o título do livro de Pepetela a ser apresentado hoje, a partir das 18h30, no Camões – Centro Cultural Português, em Luanda, no qual propõe uma reflexão sobre os problemas causados pela guerra e a consolidação da paz.

O romance assenta numa narrativa que alterna dois períodos distintos da vida dos angolanos, a começar em 1995, numa situação de guerra, passando para 2012, em que o país alcançou a paz e registou um crescimento económico. O livro descreve personagens, que o autor considera heróis anónimos da guerra passada, mas também sobreviventes das múltiplas contradições que caracterizam a sociedade actual do país.
Pepetela faz uma incursão em temas que recordam um passado tenebroso, ainda muito fresco na memória colectiva, e outros que marcam a actualidade. A narrativa é, por vezes, chocante, algumas vezes cruel, mas profundamente comovente. Os meninos de rua e os órfãos de guerra ganham destaque neste livro de 400 páginas, com a chancela conjunta da Leya e Texto Editores.
Pepetela assumiu um lugar de destaque na literatura lusófona após receber, em 1997, o Prémio Camões. A sua vasta bibliografia compreende romances, crônicas, fábulas e novelas, entre os quais  se destacam “Mayombe” (Prémio Nacional de Literatura), publicado em 1980, “As Aventuras de Ngunda” (1972), “Muana Pwó” (1978), “O Cão e os Caluandas”, “Yaka” (1985), “ Lueji, o Nascimento de um Império” (1990) e “Geração da Utopia” (1992).

http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/livros/livro_de_pepetela_sobre_guerra_e_paz

Eduardo de Oliveira: “Judeu Negro”

eduardo7

 
Não sei por que que é que me odeiam tanto
nesta selva de pedras em que habito!
Pois, nem mesmo o Judeu, quando proscrito,
nesse deserto derramou mais pranto!
 
Minha alma chora, morta de quebranto,
mas ninguém ouve o seu supremo grito,
uma vez que só vivo circunscrito
nos limites do eterno desencanto!
 
 
Por que me não dão calor humano
aqueles que me veem com indiferença,
entre risos marotos de tirano?
 
 
Mesmo eu deixe de habitar o mundo,
não lhes odeio porque eu tenho crença
num Deus, que habita o azul de um céu profundo!
Eduardo de Oliveira – Carrossel de Sonetos , 1994
Aside

“Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena. A Outra Face do Homem”

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O belíssimo álbum “Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena. A Outra Face do Homem” revela dimensões menos conhecidas do principal líder dos movimentos de libertação das colónias portuguesas de África

Cabo-verdiano de sangue, mas nascido em solo guineense, Amílcar Cabral é considerado o pai da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Figura cimeira da África lusófona e da sua luta pela emancipação, viveu entre 1946 e 1952 em Lisboa, onde estudou, trabalhou e casou. Até 1960 continuou a vir regularmente à capital do império, mas destes anos decisivos, e particularmente da sua vida privada, pouco se sabia — além de uma entrevista à revista “História” dada pela primeira mulher, a portuguesa Maria Helena Rodrigues. Agora, a editora Rosa de Porcelana lançou um magnífico álbum com as cartas mais significativas do jovem Amílcar para a mulher amada, que vão obrigar a reescrever este período decisivo da biografia de Cabral — a quem o investigador francês Gérard Chaliand chamou “a mais bela figura revolucionária, juntamente com Nelson Mandela, produzida pela África”.

Nascido em Bafatá, no interior da Guiné, em 1924, mas filho de pais cabo-verdianos, Cabral fizera o liceu no Mindelo, na ilha de São Vicente. Bolseiro, chegara a Lisboa em 1946, logo a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial, para estudar no Instituto Superior de Agronomia. Tinha 22 anos e enamorou-se rapidamente de uma colega, Maria Helena de Ataíde Vilhena Rodrigues, de 19, nascida na também longínqua Chaves e que viria a ser uma das primeiras mulheres agrónomas em Portugal.

INCURSÃO PELA POESIA

A primeira carta, de 7 de outubro de 1946, é dirigida a “Maria Helena”, a quem ainda trata, de forma distante, por “você” e “colega”. “Tenho por norma teimar na realização dos meus desejos”, avisa. A que acrescenta na segunda carta: “A hesitação é estado psicológico que raras vezes experimento.” Mais tarde, expõe alguns traços da sua personalidade: “Não gosto nada de indecisão” e “não tenho o defeito de ser excessivamente modesto”.

É no final de 1946 que dirige à colega amada um primeiro poema. “Sabes o que é saudade?/ Espera: vou-te dizer./ Saudade é tudo que fica/ Depois de tudo morrer”, assim começa o seu “Mote para Maria Helena V. Rodrigues”. Segue-se, em 1948, “O Soneto do Nosso Amor” (ver pág. 53), escrito “sem métrica”, o que justifica pela sua preferência pela “‘corrente moderna’, onde há liberdade de movimentos”. Volta à poesia em 1950, com a “2ª Canção de Amor”, cujo manuscrito serve de contracapa ao luxuoso álbum: “A fronte erguida, Amor — Mulher, a fronte erguida,/ que o céu tem mil ladrões roubando a luz solar!/ E a luz é Vida, Amor — Mulher, a luz é Vida/ que tem de ser comum p’ra que o Homem possa amar!”

Namoro. Amílcar Cabral, algures em Lisboa, com a colega, namorada e futura mulher, Maria Helena Rodrigues

Namoro. Amílcar Cabral, algures em Lisboa, com a colega, namorada e futura mulher, Maria Helena Rodrigues

1948 já é ano de namoro a sério. De sedução. De arrebatamento. “Amanhã escreverei […] Lembras-te, querida, que prometemos escrever todos os dias?” Nesse ano, de grande produção, escreve a Lena pelo menos 32 cartas. Sobretudo no verão, quando ela está de férias em Chaves, com a mãe, Carlota, viúva de um capitão-médico que perdera as duas pernas. Só em agosto escreve 15, seguindo-se oito em setembro. É de agosto o referido soneto, seguido de uma carta de amor toda em francês: “Oui, mon amour, je veux parler français avec toi.”

Pelas cartas é possível reconstituir o dia a dia de Cabral em Lisboa no final dos anos 40. O café preferido é o Palladium, no extremo sul da Avenida da Liberdade, em cuja esplanada, ao fim da tarde, escreve muitas das suas missivas. Faz regularmente a sesta, frequenta o cinema Ginásio e, como bom crioulo, gosta de dançar nos bailes de estudantes. Quando duas “raparigas metropolitanas” se sentam a seu lado no café, não resiste a comentar, na carta que está a ultimar: são “razoáveis”. No final, adenda um post scriptum: “Encontrei há bocadinho, ali, junto ao elevador da Glória 2 colegas (duas) de trabalho que, entusiasticamente, me convidaram para ir com elas ao Tivoli, hoje à noite. Acreditas, querida, acreditas que declinei o convite? Pois acredita que é verdade. Eu… desconheço-me.”

Durante uma temporada, é empregado de escritório numa Caixa de Previdência, em cujo boletim, com o título “Metalúrgico”, colabora. É leitor do “Sol”, “o meu semanário predileto” e “o meu tónico dos sábados”. Na casa de Lena em Chaves não há telefone, pelo que, para contacto urgente, recorre ao telegrama. Na ausência da namorada, deixa crescer o bigode e vai a um estúdio tirar uma fotografia, que lhe envia num envelope. Bom observador, descreve a moderna Avenida Casal Ribeiro, que contrasta com os bairros pobres de Alcântara: “O Casal Ventoso, a Fonte Santa e todas as demais imundícies que a injustiça social criou e alimenta.”

Frequenta a Casa dos Estudantes do Império (CEI), com colegas de outras escolas e colónias que virão a fundar e liderar os movimentos de libertação da África portuguesa: o PAIGC (da Guiné e Cabo Verde), o MPLA (de Angola), a Frelimo (de Moçambique), o MLSTP (de São Tomé e Príncipe). Chega a partilhar o quarto com Marcelino dos Santos, mais tarde o número dois da Frelimo. Começa por ser da direção da secção de Cabo Verde, mas cedo passa a integrar a direção geral da CEI. Participa nas assembleias gerais, que se prolongam noite fora. Relata: “Consegui comover a Assembleia (peneiras!) e, francamente, fiquei com a impressão de que, apesar de ter falado como estudante de Agronomia, eu devia ter estudado Direito.”

Amante de futebol, joga nas equipas de Agronomia e da CEI. Numa ida a Coimbra (cujo ambiente estudantil o deslumbra), defronta “as reservas da Académica”, a quem ajuda a derrotar por 7-0. Ufana-se: “O teu Amílcar parece que agradou aos espectadores, que se não pouparam a gritos e aplausos. Meti um ‘goal’, jogando a ponta esquerda.” No estádio da Tapadinha, em Alcântara, vê o Benfica, seu clube “predileto”, vencer o Atlético. E vai ao Jamor torcer por Portugal contra a Espanha, a 9 de abril de 1950.

“DIZ-LHE QUE EU SOU ANTROPÓFAGO E CANIBAL…”

Dos raríssimos estudantes negros de Agronomia, são frequentes os impropérios de conteúdo racista que escuta em Alcântara, ao verem-no na companhia de uma rapariga branca. Teoriza longamente sobre os preconceitos raciais e os mitos em torno da superioridade dos brancos. Com uma ponta de ciúme, diverte-se com quem galanteia e assedia a namorada: “Diz-lhe que eu sou antropófago, canibal, e que os canibais, ao contrário dos caracóis, gostam de… (bem, bem) Vou mandar-te uma foto com cara de mau e, adeus ele, se te perseguir!”

Pelos jornais, segue os Jogos Olímpicos de Londres de 1948. “Veem-se os negros triunfar […] conquistando os mais vibrantes aplausos, cobrindo-se de glórias.” A seu ver, “a obtenção de vitórias não implica uma superioridade mas unicamente uma melhor preparação atlética, sem desvirtuar as suas características fraternais”. Orgulha-se dos feitos de negros norte-americanos como Joe Louis, “o maior ‘boxeur’ de todos os tempos”, e Katherine Dunham, “uma das maiores bailarinas do nosso tempo”. Indigna-se quando ambos são impedidos de entrar num hotel no Brasil.

Neste contexto, elogia a Constituição portuguesa de 1933, um “dos mais belos documentos da igualdade dos homens” — cuja prática, porém, é diametralmente oposta, com o negro a ser “afastado do exército, da marinha, da magistratura, etc.”. Ou seja, um documento para “deitar poeira nos olhos”.

Com preocupação acompanha as eleições na África do Sul, que dão a vitória ao partido de Daniel Malan, que virá a institucionalizar a segregação racial — mais tarde batizada de apartheid. Saúda a luta empreendida naquele país por um advogado indiano de nome Gandhi — estava-se ainda em 1948… “Venceu, venceu porque deu consciência aos seus irmãos e fê-los ver que, como homens, eram elementos essenciais na vida do país em que se encontravam.”

Brinca com os compatriotas ilhéus. Com a sua “inteligência”, com o seu “sentimentalíssimo amor”, com as mornas, com “uma certa cabo-verdianidade (o termo é extenso e nós é que o inventámos)”. Envia a Lena uma foto dos tempos de liceu, juntando alunos e professores: “Há tantos miúdos pretos, mulatos, morenos, brancos (de todas as cores). É uma imagem fiel do que é Cabo Verde. Lá não se sabe o que é ‘ser desta ou daquela cor’. Lá o que interessa é o homem em si.”

 Da cidade dos estudantes escreveu em 1948 à namorada contando como jogara a “ponta esquerda” e marcara um “goal” contra a Académica. À direita, com um grupo de dirigentes da Casa dos Estudantes do Império num jardim de Lisboa (sentado ao centro)

Da cidade dos estudantes escreveu em 1948 à namorada contando como jogara a “ponta esquerda” e marcara um “goal” contra a Académica. À direita, com um grupo de dirigentes da Casa dos Estudantes do Império num jardim de Lisboa (sentado ao centro)

Uma das frases mais surpreendentes é ao descrever as relações entre Cabo Verde e Portugal. É a propósito do já referido Portugal-Espanha em futebol: “A propósito de ‘os Portugueses’: afinal de contas, nunca me supus tão português. O desafio de ontem provou-mo. Se bem que desconfio que talvez tivesse sido espírito ‘clubista’. Em todo o caso, se o meu vibrar foi de português, justifica-se: o cabo-verdiano é na realidade, e até onde se pode ser, obra portuguesa, português, portanto. Estás contente? Ah, o teu patriotismo doentio!”

A Guiné, terra natal, a que regressa em 1952 e que percorre no âmbito do recenseamento agrícola, deixa-o encantado. “A Guiné, flor, […] é das terras mais belas que tenho visto.” “A natureza, aqui, apesar de tudo quanto opiniões metafísicas podem apontar, convida ao trabalho e à conquista no sentido da ‘vivificação da vida’. Se alguma certeza eu tenho — oh, se tenho certezas! — é a de que gostarás disto. Da terra e dos povos, das coisas e das gentes.” É na Guiné que trabalha (e conspira) na década de 50. É lá que nasce a primeira filha, a historiadora Iva Maria, que colaborou na organização do álbum.

LUANDA: “RACISMO DO MAIS SUJO”

Diametralmente diferente de Cabo Verde e da Guiné é a opinião sobre Luanda. “Não: não gosto”, exclama na sua primeira epístola angolana, de 1955. Explica porquê: “Pois é, Lena: isto de Luanda, que estou a conhecer […] é das coisas mais miseráveis que imaginar se pode em matéria de ambiente colonial. Há muitos prédios em construção, é certo, mas que valem os prédios se os homens ‘vivem’ deploravelmente? Além disso, como cidade, coitadinha de Luanda aos olhos de Dakar, por exemplo. E coitadinhos dos indígenas destas paragens aos olhos da gente da Guiné, sim, da Guiné dita portuguesa. Uma miséria, Lena. Só para pensares, fica sabendo que, aqui, os choferes de táxi, os criados de hotel, restaurantes e cafés, etc., a raia miúda da sociedade é constituída por europeus. Calcularás por certo quais as posições e as situações que restam (mas o que poderá restar?) para os africanos? Miséria de todos os tamanhos. Para brancos e pretos. Racismo do mais sujo, com sorriso nos lábios, só para os pretos. Enjoado, Lena. Mas a esperança e a certeza de que, afora de tudo, o mundo marcha. Há de caminhar para a redenção na terra destes seres que por aqui vegetam e que são homens de coração e de cabeça.”

No mesmo ano escreve da Catumbela, no planalto angolano, onde descobrira uma outra dimensão do domínio colonial: a exploração intensiva, em regime de monocultura, e que o revolta. “Campos de sisal por todo o lado. Nem uma parte de terra para o indígena cultivar. Exploração dos diabos. O que vale e consola e anima é que isso tudo não vai tardar, vai acabar — oh, se vai! — para a ressurreição da vida nestas paragens.” O agrónomo trabalha intensamente na área em que se especializara. Trabalha e estuda, o que será uma constante de toda a sua vida, em que tanto valorizou o estudo. E exorta Lena: “Estuda sempre, porque vale a pena.”

“Eu preciso de vida, preciso de ter muita vida, porque tenho um longo caminho a percorrer”, anota o estudante, em 1948. Estas e outras passagens mostram o que o guineense Carlos Lopes, subsecretário-geral da ONU, designa num dos prefácios como “o afã de uma personalidade vocacionada para fazer História”. É uma espécie de premonição do seu destino. Em abril de 1950 dedica uma carta de 12 páginas a falar da morte. Num registo de diálogo, muito frequente na troca epistolar com a namorada, filosofa: “É interessante notares, Lena, que este supremo bem de vencer a outra morte […] traz em si a consequência de triunfar sobre a morte vulgar, a cessação dos fenómenos vitais. Mesmo perante tal cessação, ele continua vivendo: na obra que realizou, no contributo que deu ao Progresso da Humanidade, no sentir e no pensar das gerações que ele não viu. Na vida.”

Coincidindo com um dos momentos de maior enlevo por Lena, escreve-lhe a confessar o irresistível apelo que África exerce sobre si. Está-se a 20 de agosto de 1948, o curso vai a meio, falta uma dúzia de anos para abandonar Lisboa e 15 para dar início à luta armada. Numa carta de 10 páginas expõe o que o ex-Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, chama, noutro prefácio, de “chamamento africano”: “Mas tu sabes, como eu, quais as forças que me chamam para África, forças a que não resistirei, porque seria trair-me, trair a própria vida. […] O que me chama, Lena, (tu sabe-lo bem) são milhões de indivíduos que precisam do meu contributo na ingrata luta que têm travado com a natureza e com os próprios homens. O que me chama é, afinal, a própria Humanidade, solicitando, melhor, exigindo que eu cumpra o meu dever de Homem. E tudo me diz, Lena, tudo me diz que o meu posto de trabalho, pelo menos inicialmente, é lá. Lá, onde pouquíssimo ou nada ainda se fez. Lá, onde, apesar das cidades progressivas e belas do litoral, ainda há milhões de seres (seres humanos, Lena) que vivem em plena escuridão.” E mais à frente: “Subordino-me conscientemente a esta contingência da vida: tenho de ir para África.”

Na carta seguinte, volta ao tema. O casamento só será em dezembro de 1951, mas já trata Lena por “minha esposa e camarada”. Explica que, entretanto, adoecera: “Não sei se da canseira, se do estado em que fiquei depois de escrevê-la, estive a noite toda e o dia seguinte com febre. Eu creio que nunca escrevi uma carta que me tivesse esgotado tanto. […] África? Sim, eu tenho de ir para África, mas tu estarás comigo. Eu não vou deixar que tu fiques. Eu farei tudo, tudo para que me acompanhes sempre. Sempre.” “Prefiro ser individualmente infeliz a ser ingrato para aqueles que de muitos poucos podem esperar auxílio, dedicação, luz.” No dia imediato, numa autêntica obsessão, retorna ao assunto para dar conta de como tem vivido “a batalha atroz entre o sentir e o pensar […] sentindo em mim que a minha consciência coletiva venceria a individual”. Apela desesperadamente à namorada para que o acompanhe neste projeto africano para a sua vida e cita o soneto que lhe cantara: “Eu quero-te ao meu lado na luta desmedida/ para compor o soneto do nosso Amor”.

“A MAIS BELA CARTA DE AMOR QUE JÁ TE ESCREVI”

A filha Iva Cabral conserva muito mais cartas do pai para a mãe — e vice-versa. Os pais, porém, separaram-se em 1966. Cabral passou a viver com uma jovem guineense, Ana Maria Voss de Sá, enquanto Maria Helena se consorciou com Henrique Cerqueira, um português pertencente ao círculo do general Humberto Delgado. Da seleção de 53 cartas, feitas por Iva Cabral — a que o pai se refere amiúde como Mariva —, a última é de 1960. Nessa altura já Cabral ajudara a formar o MPLA, em Angola, bem como o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), de que é o indiscutível líder. A opção está tomada: irá instalar-se entre Dakar e Conacri, para melhor poder lutar pela independência das suas duas terras: a de sangue (Cabo Verde) e a de solo (Guiné).

Amílcar Cabral deixa definitivamente Lisboa em janeiro de 1960. A mulher e a filha deverão juntar-se-lhe em Paris, a que se seguirá África. A 30 de abril escreve a última carta deste livro, e que chega a ser comovente, na medida em que representa uma rutura e o fim de um ciclo. “Tenho na algibeira a passagem para a viagem definitiva. Tenho também a ordem das passagens para ti e para Mariva. […] Chegou, portanto, o momento de tomarmos algumas decisões fundamentais para o nosso futuro, para a vida. […] O nosso caminho é sempre para a frente, e não podemos pensar em voltar para trás.” Longa como de costume, dá instruções precisas de como deixar tudo organizado, resolvido e arrumado. “Por hoje paro aqui. Cheio de saudade. Talvez de ansiedade também. Mas cheio de esperanças no futuro, na vida que vamos construir. E a certeza, a consciência, a alegria de que esta carta é talvez a mais bela carta de amor que já te escrevi.”

À falta de uma alternativa política, o PAIGC inicia a luta armada na Guiné a 23 de janeiro de 1963. Amílcar Cabral, porém, não chegará a ver a independência. É assassinado por um dos seus guarda-costas em Conacri, capital da República da Guiné, na noite de 20 de janeiro de 1973. Em circunstâncias que ainda hoje permanecem algo nebulosas. Maria Helena só regressou a Portugal depois do 25 de Abril, tendo-se fixado em Braga, na Universidade do Minho. Morreu em 2005.

O SONETO DO NOSSO AMOR

Para a Lena
Quero a Poesia inebriante da primavera em flor
e a música selvagem dos ventos do Noroeste.
Quero a força invencível de um maremoto agreste
para compor o soneto do nosso Amor.

Quero o sofrimento imenso das crianças sem veste
lá na rua dos invernos sem Pão e sem Calor.
Para compor o soneto do nosso Amor
combaterei a injustiça das esmolas que tu deste.

Na voz dos oprimidos chama por nós a Vida
e eu quero-te ao meu lado na luta desmedida
para compor o soneto do nosso Amor.

E no fim só no fim eu cantarei teus beijos
e à luz do teu olhar libertarei meus desejos
nas horas celestiais de uma Vida sem Dor.

Amílcar Cabral (Lx, 1948)

 

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-04-10-Uma-historia-de-amor