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Negro também é gente, Sinhá

monteiro lobatFolha de São Paulo, 10 de fevereiro de 2019

“Negro também é gente, Sinhá”
Revisitando a polêmica sobre o racismo nos livros infantis de Monteiro Lobato
Lucilene Reginaldo
(Professora do Departamento de História da UNICAMP)
No último domingo, Jorge Coli publicou em sua coluna na Ilustríssima o texto intitulado “Viva Lobato!” O artigo festeja a boa notícia de que as obras de Monteiro Lobato estão agora em domínio público. Coli retoma um debate que eu havia acompanhado com interesse em 2010, provocado pela denúncia de conteúdo racista do livro Caçadas de Pedrinho protocolada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Educação. Da denúncia resultou um parecer técnico solicitado pelo próprio MEC, que recomendou a permanência do livro no Programa Nacional de Biblioteca da Escola com a seguinte advertência: “A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.
A recomendação deu publicidade ao assunto e levou a polêmica ao grande público. Escritores de prestígio como Ziraldo e Ana Maria Gonçalves se manifestaram publicamente. O primeiro defendendo a importância da obra de Lobato para sua e outras gerações de brasileiros; a segunda explicitando o conteúdo racista e alertando para seus efeitos danosos nas crianças negras.
Ao ler o texto de Jorge Coli, fiquei impactada com uma afirmação: “Só quem não leu ou não compreendeu os livros infantis de Lobato pode julgá-los racistas”. Respeitosamente, quero discordar do meu colega. Minha argumentação seguirá dois fios condutores. Primeiro, quero mencionar uma experiência pessoal, algo que não é do meu feitio, mas creio que é apropriado para a ocasião. Depois, da perspectiva de alguém que, nos últimos anos, tem estudado a história do racismo.
Em 2010, instigada pela polêmica, resolvi ler Caçadas de Pedrinho para meu filho, com seis anos na época. A coleção de clássicos de Monteiro Lobato estava lá na sua pequena biblioteca, e já não me recordo se foi presente ou aquisição. Eu mesma tinha lido as estórias de Lobato na infância, numa daquelas edições que os vendedores de enciclopédias ofereciam de porta em porta nos bairros populares. Sinceramente, não me lembro do impacto de Lobato na leitora infantil. Recordo bem da série televisiva, uma versão já adaptada e depurada da obra. Juntei a fome com a vontade de comer. Ler Lobato para meu filho, além do prazer materno cultivado ao longo dos anos, seria também uma oportunidade de “checar” e me posicionar no debate.
Confesso que foi uma experiência inusitada para uma mãe historiadora. Não encasquetei apenas com a frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”. Tia Nastácia era sempre a “bola da vez”: ingênua, simplória, medrosa, serviçal e alvo de racismo e discriminações explícitas. Tudo em perfeita consonância com a hierarquia racial: na base da pirâmide, a mulher negra. Para a onça que atacava os moradores do sítio, Tia Nastácia é “furrundu”, um doce feito com mamão verde, rapadura, cravo e
canela, portanto preto. No calor da guerra com as onças, Emília, a bonequinha esperta e independente, comenta: “Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem a carne preta”. O que mais me incomodava era que Tia Nastácia era adjetivada como negra, preta o tempo todo. Só ela tinha cor, apenas nela a cor se colava como uma marca indelével, mesmo que fosse “a boa negra”. Negra é vocativo, como bem interpreta Ana Maria Gonçalves. As expressões bradejavam contra tudo que nossa família buscava ensinar a um menino negro de seis anos. Por isso, confesso, omiti, cortei palavras, adaptei e editei alguns trechos. Logo eu, defensora do pensamento livre!
Não pretendo discorrer sobre o entusiasmo de Lobato com as ideias eugenistas para demonstrar seu racismo – que está, sim, expresso em sua obra ficcional. Muitos intelectuais já o fizeram com muito mais propriedade e competência. Entre 1918 e 1946, Lobato manteve correspondência constante com Renato Kehl, diretor associado da Sociedade Eugênica de São Paulo. Como ciência, a eugenia reconhecia a existência de qualidades raciais inatas e hierarquizadas; como movimento social, formulou toda uma agenda de intervenções no âmbito da higiene, dos comportamentos, da saúde mental e da educação. Seu objetivo era “melhorar” a composição hereditária de uma sociedade, encorajando a reprodução dos grupos aptos, desencorajando ou prevenindo a reprodução dos inaptos.
A adesão eufórica de Lobato aos “nobres ideais eugênicos”, palavras do próprio autor na primeira missiva enviada a Renato Kehl, elucida o desenraizamento familiar de Tia Nastácia e Tio Barnabé. Os dois não têm pais, irmãos ou filhos; seus únicos vínculos afetivos são com os personagens do Sítio, na condição de serviçais. O bom negro e a boa negra são estéreis. A desejada eliminação do elemento negro – visando o avanço da civilização e o bem público, é claro – assim como a defesa da subalternidade das gentes de cor foram explicitadas por Lobato sem qualquer pudor. Em 1928, quando era adido comercial do Brasil em Washington, Monteiro Lobato enviou uma carta ao amigo Antonio Neiva explicando por que não escrevia crônicas sobre suas impressões e vivência nos Estados Unidos. Após comentários pouco delicados sobre a imprensa e os leitores brasileiros, a primeira lhe parecia “um circo mambembe”, e seu público “um bando de moleques feeble-minded” (estúpidos, em bom português), Lobato lamenta nossa triste condição racial. “País de mestiços, onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para os altos destinos. (…). Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor, porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”. O manuscrito original desta carta citada na dissertação de mestrado “Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”: raça, eugenia e nação, de Paula Habib, está no acervo do CPDOC – Fundação Getúlio Vargas/RJ. Diante destes fatos, e mesmo reconhecendo que “a arte é sempre maior que o artista”, é difícil cindir autor e obra.
Lobato era um homem do seu tempo. Usando uma expressão que já virou lugar comum, surfava na onda das teorias científicas e do pensamento social dominantes na primeira metade do século XX. Não era o único intelectual e literato racista e eugenista, muito pelo contrário. Poderia aqui apresentar uma lista de entusiastas do racismo
científico. Alguns dos quais leio e releio por dever de ofício e particular interesse por suas contribuições intelectuais.
Mas o que difere Monteiro Lobato da maioria destes homens de letras, entre outras tantas variáveis, é o público leitor privilegiado, os objetivos da leitura. Para não me alongar demais, mas também por certo pudor acadêmico e disciplinar, não entrarei no debate sobre o homem e sua obra de inquestionável valor literário, sofisticação, além de outros atributos críticos. Isso para mim é obvio. Certamente, Lobato é mais do que uma fonte para os estudiosos do eugenismo, do pensamento social e da história da literatura no Brasil. Assim, não vejo por que a recomendação de 2010 não possa ser levada a sério na introdução de seus livros para o público infantil. A questão não é censurar Lobato, não se trata de forma alguma de banir seus escritos por racismo. Uma boa solução é recorrer às edições críticas, que não é prática desconhecida entre os editores. Isso aconteceu com Tintim no Congo, a popular revista em quadrinhos produzida no bojo do colonialismo belga, portanto, plasmada pela explicitação de estereótipos e preconceitos contra os africanos. Após vários debates públicos em diferentes países da Europa, esta obra tem sido publicada criticamente. No Brasil, a Companhia das Letras, que tem os direitos de publicação de Tintim, também apresenta uma nota crítica situando o autor, a obra e a história do colonialismo belga.
Hoje, aos 14 anos, meu filho, assim como muitos meninos e meninas negros – ou não – da mesma idade, pode ler Monteiro Lobato e outros “homens de seu tempo”, sem minha constrangida edição, talvez até se posicionar diante do autor e da obra. Com ajuda de uma nota crítica, talvez seja mais fácil até para os mais novos. Aos seis anos, não havia autor nem obra, apenas personagens com os quais ele vibrava, se identificava ou repelia. Não quero crer que seja necessário ter um filho negro para ser sensível aos malefícios do racismo na formação de uma criança. E acho também que estamos – ou deveríamos estar – longe de querer que um garoto (ou garota) negro aprenda com Nastácia qual é o seu lugar no mundo. Evidentemente, autor e obra são complexos, contraditórios, ambíguos, assim como o leitor pode subverter e se apropriar do texto a seu modo. “Negro também é gente, Sinhá”, afirma Nastácia. Esta é a frase que encerra Caçadas de Pedrinho. A personagem é assertiva – pelo menos aos olhos desta leitora, talvez apesar do autor. Mas nem como mãe, nem como estudiosa do racismo, posso concordar que, depois de afirmar minha humanidade, tenha que reverenciar uma “sinhá”!

Ele Semog poemas do livro “Guardas pra mim”

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Ele Semog

” Você e seus perdidos”
[08:16, 30/12/2017] +55 61 9849-5051: Pensou que ia dar
Um perdido na vida
é nem percebeu que ela
passou num repente
que o passado é essência
do que vai a frente,
que o futuro não espera
quem chega com tudo
atrasado nos sentimentos.
Não adianta pressa
é não dá para jogar
com a sorte, a sina, ou destino…

Pode voltar para carregar
a sua cesta de espinhos,
não deixe nada pelo caminho,
tem gente que quer passar.

 

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Ele Semog

“O graveto e a tora”

 

Não olhe para mim

pensando que sou

um negro  e só

Olhe outra vez,

e veja

Sou negros

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Ele Semog
“A toa te amar”

Qualquer tempo é tudo
e se houver sete minutos
pegue todos os segundos
para ser dona do mundo.
A vida não se arrepende,
então, sete minutos
para amar assim,
é muito mais que uma
eternidade dentro do fim

Ele Semog
“Memórias”

Já fui romântico
que pensava
que toda dama de puteiro
tinha um ursinho de pelúcia

JÁ CONHECE A VASTA LITERATURA PRODUZIDA POR MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS?

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EM 2009 a escritora nigeriana Chimamanda Adichie falou sobre “O perigo de uma única história”, no TEDx. Ela discorreu sobre o erro que é conhecer histórias sob apenas um aspecto e de como isso contamina nossas percepções de mundo.

Hoje conhecida mundialmente, Chimamanda aprendeu a ler e a viajar pelas linhas dos livros lendo os autores que tinha à mão, que eram geralmente americanos ou britânicos. Devido a colonização britânica, o inglês é a língua oficial da Nigéria e, claro, a influência cultural inglesa é massiva no país.

Quando foi apresentada à literatura africana de Chinua Achebe e Camara Laye, a autora mudou sua perspectiva, sua narrativa e sua vida. Começou a ver – e ler – as coisas fora da perspectiva do observador e, no caso, do “vencedor”. “Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.”

É importante que as pessoas se identifiquem nas histórias, porque elas não são únicas e, claro, elas podem estar lá. Chimamanda amava aqueles livros americanos e britânicos que lia. “Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos”, disse. Mas com um porém: “a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são”.

O que Chimamanda passou, muitas mulheres negras passam. E homens negros também, embora menos. No ano passado, mulheres protestaram contra a ausência de escritoras negras na Festa Literária de Parati (FLIP). O curador da Flip, Paulo Werneck, fez um mea culpa ao reconhecer a falha.

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Carolina Maria de Jesus com Clarice Lispector

Foto: Acervo de divulgação/Editora Rocco

Quantas pessoas sabem que uma das maiores escritoras do Brasil é uma mulher negra e favelada? O livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960, vendeu mais de 100 mil exemplares, foi traduzido para 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Mesmo com essa biografia, Carolina foi lembrada em um trecho da biografia de Clarice Lispector – escrita por Benjamin Moser – de uma forma que foi duramente criticada: “Carolina parece tensa e fora de lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro”.Nesse Dia Internacional da Mulher é preciso que as mulheres negras não sejam apagadas e reduzidas como Carolina Maria de Jesus e ampliem sua visão de mundo para além da versão única, como fez Chimamanda Adichie. Por isso The Intercept Brasil preparou uma lista de dicas de autoras negras para quem quer se ver e reconhecer na literatura:

 

  • Alzira Rufino: primeira escritora negra a ter seu depoimento gravado no Museu de Literatura Mário de Andrade, em São Paulo/SP
  • Ana Maria Gonçalves: Prémio Casa de las Américas? (2007) pelo livro “Um Defeito de Cor” (e colunista do The Intercept Brasil)
  • Geni Guimarães: Prêmio Jabuti de Literatura (1990) pela novela “A cor da ternura”
  • Eliana Alves Cruz: Prêmio Oliveira Silveira (2016), pelo livro “Água de Barrela”
  • Livia Natalia: O livro “Água Negra” foi premiado pelo Concurso Literário de Banco Capital (2011)
  • Lélia Gonzalez: Seu livro “Festas Populares no Brasil” recebeu um prêmio internacional na categoria “os mais belos livros do mundo”, na Feira de Leipzig/Alemanha Oriental – uma das mais importantes do mercado editorial
  • Miriam Alves: Publicou seu primeiro livro, “Momentos de Busca” (1983) com o dinheiro de seu 13º salário

https://theintercept.com/2017/03/08/ja-conhece-a-vasta-literatura-produzida-por-mulheres-negras/

Dalcídio Jurandir(1909-1979)Carta a uma Católica Militante

dalcidio-jurandiCarta a uma Católica Militante

Você me declara: o teu partido é contra a minha fé. Estamos em campos opostos. Então lhe pergunto: concorda que para combater a dominação norte-americana, expulsar os exploradores e monopolizadores de energia elétrica no país significa perde a fé religiosa? Constitui traição ao seu Deus considerar que os milhões e Milhões de irmãos nossos, lavradores, meeiros, assalariados agrícolas vivem numa miséria atroz, nem podem ao menos comprar alguns metros de milhões e milhões de metros de fazenda que se acumulam nas lojas e fábricas de tecidos, à espera de fregueses? O programa do partido é pela liberdade de cultos, isto fere a crença católica? A <<abolição de todas as desigualdades econômicas, sociais e jurídicas que ainda pesam sobre as mulheres>> ofende ao sentimento religioso? A <<anulação de todas as dívidas dos camponeses para com os latifundiários, os usuários, os Bancos, o governo e as companhias norte-americanas>> atenta contra a fidelidade aos altares? Expulsar as missões militares e finaceiras, que roubam as nossas matérias-primas e querem transformar a nossa juventude em bando mercenário de guerra, e violar os sacrários? Ver que a causa da política de traição nacional está <<no próprio regime de latifundiários e grandes capitalistas ligados ao imperialismo americano que o governo de Vrgas representa>>, pode impedi-la de rezar, de frequentar a igreja, vai abalar os fundamentos de sa convicção religiosa? Em que consiste, pois, a incompatibilidade atuante, prática, irremediável, entre o programa do Partido e sua fé religiosa? A divergência no campo filosófico não exclui a nossa aproximação no campo político, quando temos comuns acêrca de problemas aflitivos de nosso país e não defendemos interesses pessoais. Você não tem latifúndios, não faz parte de grupos econômicos norte-americanos, não participa
dos roubos e escândalos do governo. Em que verdade concreta, em que argumento definitivo se apoia você para combater o programa?
Porque é um programa de comunista? Mas o programa ataca a atividade religiosa, coloca a questão religiosa como centro do debate, por acaso insinua que os católicos são inimigos do Brasil? Não foi você mesma que viu na infiltração norte-americana? É obrigatório aderir o marxismo-leninimos para apoiar o programa? Deve abdicar à sua fé para considerar justas as <<transformações democráticas e progressitas na estrutura econômica e social do Brasil>> indicadas pelo estudo objetivo da realidade brasileira? Em que é que o programa vai impedir de você ir a missa, de assitir, piedosamente, aos doentes e presos, de ensinar a doutrina na Pia União, de proclamar como excelente a sua prática religiosa? O programa não lhe tira essa liberdade nem a obriga ao não cumpromento dessa devoção. Podemos, decerto, conversar sem colera nem azedume, sobre problemas gerais da filosofia, eu, com a minha concepção materialista e você, com a sua concepção idealista. Podemos discutir interminavelmente. Nunca poderíamos chegar a um acordo neste terreno transcedente ou teórico. Mas de que servirá ficarmos longa exaustivamente discutindo se Deus existe ou não existe, se o socialismo e a caridade cristã são duas coisas irreconciliáveis, se devor ser religioso ou se deve ser materialista, quando devemos empregar o nosso esforço, o nosso tempo, sem sacrificio de nossas convicções, no estudo urgente e na soluções de problemas elementares da vida brasileira? Eu, com o meu distintivo da foice e o martelo e você, com a sua cruz, podemos juntos lutar amplamente pela independência de nossa pátria. Quando passamos ao campo prático da luta política, quando examinamos mil e um problemas que formam o conjunto da grande e sagrada questão nacional para sabermos se há ou não possibildades de progresso para o Brasil, vemos que a nossas divergências se apagam. No campo ideológico, podemos discutir, você, por seu caráter, sua formação, tudo fará para defender a sua fé, eu, tudo farei para defender as minhas idéias, com o calor e intransigência de minha convicção.Isto em princípio é bom para que nos conheçamos, tornando nítido aquilo que nos pode separar e mais nítido e profando aquilo que nos pode unir. Você, católica essencialmente honesta, e eu, comunista, chegamos à mesma conclusão de que de que o regime atual brasileiro deve mudar, que os grupos dominantes  um bando de traidores e desavergonhados e que o Deus deles não pode ser o Deus a que você consagra a sua fé e a sua vida de militante. O que mais necessitamos é desfazer as desconfianças, é tirar os véus que nos separam, é ter a coragem do exame de tudo que aparece diante de nós. Não receie em ter nas mãos um documento honesto, claro, patriótico, fiel à realidade brasileira, que é o Programa do Partido Comunista. Amanhã, por certo, quando os acontecimentos se mostrarem mais claros e decisivos, você terá que dizer, inevitàvelmente, a você mesma e a todos, com segurança e paz de consciência: – Sim, os comunistas tinham razão.

Dalcídio Jurandir: Banzo de Negro

(Lamento Negro ou Cantiga dos Negros Cativos)- 1937
Letra: Dalcidio Jurandir
Música: Gentil Puget

Negro é Oxum
Vem vindo lá do mar,
Vem vindo em porão
Em cima do mar,
Ah! Em cimado mae!
No mar, ê ô
No mar, ê ô ê ô ê ô…
Vem o veleiro da Costa
Negro bantu vem de longe
Veio em cima do mar
Veio em cima do mar
No mar, ê ô
Ah! No mar ê ô
Iemanjá nossa mãe tá no fundo mar
Nossa mãe tá no fundo do mar
No mar, no mar ê ô
No mar ê ô
Chora o banzo, Sinhô
Nas ondas do mar
Pai de Santo, Pai de Santo ô
Iemanjá oh! Iemanjá.
Eh! Negro Orixá
Lá na Costa chegou,
Vem falando Nagô
Negro Orixá,
Ah! Negro Orixá
No mar, ê ô
No mar ê ô ê ô ê ô…
Nosso choro foi o banzo
Nossa casa foi senzala
Nossa esperança Zumbi
Só nos resta o Orixá.

“Todo meu romance distribuído, provavelmente, em dez volumes, é feito, da maior parte, da gente mais comum, tão ninguém, que é a minha criaturada grande de Marajó, Ilhas e Baixo Amazonas.Fui menino de beira de rio, do meio do campo, banhista de igarapé. Passei a juventude no subúrbio de Belém, entre amigos, nunca intelectuais, nos salões da melhor linhagem que são os clubinhos de gente da estiva e das oficinas, das doces e brabinhas namoradas que trabalhavam na fábrica.  Um bom intelectual de cátedra alta diria:  são as minhas essências, as minhas virtualidades.  Eu digo tão simplesmente:  é a farinha d’agua dos meus bijus (sic).  Sou um também daqueles de lá,  sempre fiz questão de não arredar pé de minha origem e para isso, ou melhor, para enterrar o pé mais fundo, pude encontrar uma filiação ideológica que me dá razão.  A esse pessoal miúdo que tento representar nos meus romances chamo de aristocracia de pé no chão”.

Dalcídio Jurandir

(Folha do Norte, 23 de outubro de 1960)

Dalcídio Jurandir Ramos Pereira nasceu em Ponta de Pedras, ilha do Marajo, Pará, 10 de janeiro de 1909, faleceu em 16 de junho de 1979, na cidade do Rio de Janeiro onde viveu maior parte de sua vida. Filho de Alfredo Pereira e Margarida Ramos.

 

É considerado um dos maiores escritores da Amazonia.

 

Dalcídio estudou em Belém, até 1927.

 

Em 1928 partiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor, na revista Fon-Fon. Em 1931 retornou para Belém. Foi nomeado auxiliar de gabinete da Interventoria do Estado.

 

Escreveu para vários jornais e revistas:  O Radical,  Diretrizes, Diário de Notícias, Correio da Manhã,  Tribuna Popular, O Jornal ,  O Cruzeiro e A Classe Operária. No semanário Para Todos, trabalha como redator, sob a direção de Jorge Amado.

 

Militante comunista, foi preso em 1936, permanecendo dois meses no cárcere, conseguindo a custo, levar consigo o Dom Quixote, de Cervantes. Em 1937 foi preso novamente, e ficou quatro meses retido, retornando somente em 1939 para o Marajó, como inspetor escolar.Em 1940, vai a Santarém, Baixo Amazonas, para exercer as funções de secertário da Delegacia de Recenseamento.

 

Obtém o primeiro lugar com o livro Chove nos Campos de Cachoeira no concurso literário instituido pelo jornal Dom Casmurro e pela Editora Vecchi, concorrendo com quase uma centena de escritores.   Faziam parte da comissão julgadora: Jorge Amado,  Álvaro Moreyra, Oswaldo de Andrade e Raquel de Queiroz.

 

Em 1950, foi repórter da Imprensa Popular.   Nos anos seguintes viajou à União Soviética, Chile.  Publicou o restante de sua obra, inclusive em outros idiomas.

 

Em 1972, a Academia Brasileira de Letras concede ao autor o Prêmio Machado de Assis,  pelo conjunto de sua obra.
Em 2001, concorreu com outras personalidades ao título de “Paraense do Século”. No mesmo ano, em novembro, foi realizado o Colóquio Dalcídio Jurandir, homenagem aos 60 anos da primeira publicação de Chove nos Campos de Cachoeira.
Em 2008, o Governo do Estado do Pará instituiu o Prêmio de Literatura Dalcídio Jurandir.
Em 2009 comemorar-se-á o Centenário do escritor e estão sendo realizadas campanhas para que até lá todos os seus livros sejam novamente publicados.

OBRAS

Série Extremo-Norte
• Chove nos Campos de Cachoeira  – 1941
• Marajó  –  1947
• Três Casas e um Rio –  1958
• Belém do Grão Pará  –  1960
• Passagem dos Inocentes  –  1963
• Primeira Manhã   –  1963
• Ponte do Galo  –  1971
• Os Habitantes  –  1976
• Chão dos Lobos  –  1976
• Ribanceira  –  1978