Manuel Rui, escritor angolano:“Neto era um comandante poderoso, com carisma e alto astral”

Pertence à geração que proclamou a Independência Nacional e esteve no centro dos acontecimentos da época, tanto na qualidade de ministro da Informação do Governo de Transição como de alto responsável do MPLA. Escritor consagrado, autor da letra do hino nacional, Manuel Rui tem opinião qualificada sobre a história recente e o momento actual do país. “Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias”, afirma.

É autor de letras de músicas, algumas com muito sucesso de público. Como é o seu processo de participação nas músicas?
Eu faço letras em cima de músicas e as pessoas dizem que é difícil. Prefiro que me dêem uma música para eu passar uma letra em cima. A pessoa dá-me a música e eu passo a letra em cima. Ao criar o hino da UCCLA, fiz uma letra que tinha estrofes com x sílabas e depois outra com menos sílabas e o músico meu amigo disse-me que não gostava de trabalhar assim, com sílabas… Eu disse que não era problema nenhum, “dá-me a música e eu ponho o mesmo conteúdo, as mesmas palavras dessa letra nas sílabas que me trouxeres”… O “Pôr do sol”, do André Mingas… eu fui a casa dele e ele disse-me “tenho aqui uma coisa para te mostrar, que fiz agora”… Tocou a primeira frase, pedi-lhe papel e em dez minutos fizemos o “Pôr do sol”: “Tantas vezes o mar já viu…”

Na criação do Hino Nacional a letra também foi feita em cima da melodia?

Foi uma emergência. Dois dias antes da independência, ali em minha casa, no Saneamento, o Rui Mingas com o violão tirou uma frase musical e eu pedi-lhe para repetir enquanto escrevia… Foi assim que surgiu o Hino. Estavam pessoas a assistir, a letra, o Hino surgiram ali mesmo.

O nosso Hino é considerado um dos mais bonitos do mundo…
Sim. Tenho uma enciclopédia de hinos e  falam isso. Falam da letra, da sua intemporalidade: “Unidos lutaremos pela paz, com as forças progressistas do mundo”… Isso é intocável. Quando quiseram mudar o Hino, a Unita quis mudar, fui chamado ao MPLA, com o Rui Mingas, pediram-me para tirar o “Poder popular”; o Rui Mingas não quis. Tirei e fiz outra versão. Foi  João Lourenço quem nos recebeu, na altura. A maka era o “Poder Popular”. Mas o que é certo é que as Constituições dizem que a soberania reside no povo. Isso também é poder popular. Há hinos que são bélicos, falam em canhões e nunca mudaram para mísseis…

O Carlos Lamartine também participou na criação do hino?
Não. O Lamartine não estava. Mas um momento: depois do hino ser aprovado pelo Comité Central [do MPLA] alargado, que incluía os que estavam no Governo e representantes dos comités, era preciso arranjar jovens para constituirem o coro. Mas primeiro fomos à Rádio Nacional para gravar; aí estava também o Lamartine. A Katila e mais gente, inclusive eu também cantei nesse coro improvisado. O Lamartine ficou incumbido de arranjar jovens para o coro. O ensaio foi feito mesmo no 1º de Maio. Será por isso que o Lamartine diz que também é autor do Hino nacional?  Mas isso não me importa. Não me pagaram nada nem eu ia querer direitos naquele tempo. Nem tenho uma pensão. Nem passaporte diplomático tenho.

Não lhe foi atribuída uma patente militar?

Por ser autor do Hino nacional não tenho nada. Tenho uma reforma que nem vou falar na miséria…

Mas está reformado como? Funcionário público?

Não. Trabalhei em vários sítios. Numa empresa eu era consultor e tinha contrato, portanto descontava para a segurança social; a Universidade (ISCED do Lubango, onde cheguei a ser director) fez um papel de má fé, para eu não receber (tenho aí o papel). A Endiama – eu é que inventei o nome Endiama, quando comandava o processo de nacionalização da Diamang, que ocorreu pacificamente, com os accionistas a quem prometemos que seriam parceiros no fornecimento de tecnologia e na compra dos diamantes – fez um papel para a minha reforma, todo mal feito, sem o salário que eu estaria a ganhar actualmente. Olha, o papel está aí atirado. Portanto, não tenho nenhum benefício pelo Hino nacional, tirando as pessoas me alegrarem quando vou ao supermercado: “Desculpe, não é o autor do Hino nacional?” Ou os estudantes virem bater-me à porta, no fim das suas licenciaturas, para me entrevistarem sobre o Hino nacional. Essas são as únicas vantagens que eu tenho. No mais, fechei o escritório de advogados cansado da perversidade da Justiça.

O que é feito do seu projecto 11 Poemas em Novembro, que consistia em publicar todos os anos, em Novembro, um poemário com onze poemas?

Precisava de ter uma pessoa que me arrumasse os poemas. Este ano já vou tarde, mas para o ano vou retomar.

E a antologia dos 11 Poemas em Novembro?

Já saiu uma, dos primeiros cinco anos. Os 11 Poemas em Novembro saíram durante sete anos, queria pelo menos chegar aos dez anos. A periodicidade dos 11 Poemas em Novembro pressupõe pessoas empenhadas. Quem se empenhou nisso primeiro foi o Costa Andrade “Ndunduma”, depois o David Mestre, que então trabalhava no Jornal de Angola. As pessoas não ligam muito às coisas. Fico espantado quando fazem a festa das Edições Novembro… Quem inventou a Revista Novembro? E o jornal? Há um despacho, publicado e está no vosso arquivo: “Encarrega-me o camarada ministro da Informação Dr. Manuel Rui Monteiro, de proceder ao seguinte despacho:  a partir de amanhã o jornal “A Província de Angola” passa a chamar-se “Jornal de Angola”. Assinado: Fernando Oliveira. Depois reunimo-nos ali na descida onde era a “Revista Novembro”. O (Mário de) Alcântara Monteiro, fixem este nome, foi o primeiro director da “Revista Novembro”. As edições dessa revista para saírem eram uma chatice. A luta pelo jornal “A Província de Angola” passou pela explosão de uma bomba já os sindicalistas haviam tomado o jornal. Tem gente ainda viva aí no jornal que deveria contar isso tudo. A televisão, abriu contra o Conselho de Ministros, o Alto-Comissário tuga odiava a comunicação social. Fui falar com Agostinho Neto que deu luz verde e a televisão entrou no ar… mas há quem viva por omissões da história…

Qual surge primeiro: a Revista Novembro ou a Edições Novembro?

A Revista Novembro. Depois era preciso ter uma estrutura à maneira socialista, um kolkhoze, para tomar conta da revista, do jornal… Fizeram tudo para que só houvesse um jornal. Fecharam o “Diário de Luanda” por causa do Nito Alves, enquanto que em Moçambique mantiveram todos os jornais.

O espírito de participação, de engajamento político e cívico da sua geração é comparável com o das gerações actualmente jo
vens?
Não é comparável porque nós tínhamos a certeza da vitória. Nós éramos Tanu, não éramos Zumbi, personagens do meu último romance  “Kalunga”. E além disso, mesmo na Universidade, em Coimbra, eu tive a sorte de encontrar uma geração de ouro. Grandes poetas portugueses, músicos da craveira de um  Zeca Afonso ou Adriano Correia de Oliveira…

E eram fundamentalmente de esquerda…
Absolutamente de esquerda. Marxistas, a maioria de nós. Marxista-Leninista nunca fui, porque nunca acreditei no centralismo democrático e no governo dos operários e camponeses, que nunca existiu, era tudo uma falácia. Quando começo a conhecer os países socialistas um por um, eu disse: “não quero essa porcaria”. Congelaram o pensamento de Marx. Deixou de haver liberdade.  Havia uma aparente igualdade de satisfação de bens materiais por toda a população, mas as elites tinham as suas lojas próprias. E depois havia os campos de concentração, os delitos de opinião, as prisões… Não sei se vocês souberam, mas parece que a revista do João Melo (África 21) publicou sobre Cuba quando eu estive lá num festival do livro, estavam lá também a nossa ministra da Cultura e outras pessoas do aparelho daqui… Eles fizeram uma edição do meu livro “Quem me dera ser onda”, que lá chegou a ser considerado contra-revolucionário, sem me pedirem autorização, não vi capa nem nada. A TV dava todos os dias o Chaves de meia em meia hora, e o Fidel em fato de treino. Na conferência perguntaram-me o que achava da TV (que felizmente não tinha publicidade). “Acho que é melhor que as outras, pelo menos tem menos merda”, respondi. “Mas falta a voz popular, vocês aqui em Cuba ainda não se libertaram das esquizofrenias recebidas do Leste, como nós em Angola recebemos e foi com vocês mesmo que aprendemos a usar os cartões para comer e beber, e o próprio povo é que destruiu isso, com a sua tendência para as esferas antigas, a troca das coisas, a carne pelo peixe, o feijão pelo milho. Vocês deviam acabar com as esquizofrenias que são do Leste. E o principal, acabar com os delitos de opinião e pôr os presos políticos cá fora”. Aquilo gelou a sala. Houve pessoas da delegação angolana que saíram. Quando cheguei ao hotel, disseram-me: “camarada Manuel Rui, isso não se faz, eles são os anfitriões”. Eu disse: “mas eu sou irmão do povo cubano, que verteu sangue lá em Angola, e eu com os meus irmãos tenho de ser sincero. Há pessoas muito importantes, não são como eu, um Gabriel Garcia Marques, que também já se chatearam com o Fidel e disseram que isso tinha de acabar, tinha de mudar”. Hoje, neste momento em que estamos a falar, estou a rir-me porque a nova Constituição cubana já fala em propriedade privada.

“Neto era um comandante poderoso, com carisma e alto astral”

O apoio dos países socialistas era incontornável? 
Os países do Leste, isto temos que reconhecer, apoiavam os movimentos de libertação. Mesmo na ONU batiam-se por nós contra Portugal com os americanos por trás. Só que a determinada altura houve uma espécie de pacto. Houve um aproveitamento da guerra fria. Vieram fazer a guerra fria aqui, experimentar armamento aqui. A segunda batalha com o maior número de blindados, depois da II Guerra Mundial, foi aqui em Angola. Foi uma tremenda estupidez nossa andarmos em guerra uns contra os outros, em vez de conversarmos. Mas como não tínhamos conversado durante a guerrilha, tornava-se impossível conversar com o Savimbi. E quer na UNITA, quer na FNLA, quer no MPLA, os presidentes eram a simbologia do poder e não presidentes de partidos. E estupidamente fomos aceitar aqueles acordos do Alvor, que não serviram para nada, Portugal nem tinha experiência de democracia.  A França quando dá a independência ao Senegal já tinha a democracia e o Senghor já tinha sido ministro da Cultura em França. Foi um erro tremendo, não sabermos conversar uns com os outros. Os colonos deixaram uma economia forte, uma capital que os outros não tinham. Em cada província o colono deixou um palácio, há países que não têm palácios de Presidente assim. Temos uma rede de rios, água com fartura, temos riquezas minerais, temos tudo. Porquê que nos fomos meter na guerra? Se não fosse a guerra não tínhamos esta gente toda que está cá. As pessoas que enriqueceram com a guerra… Eu não imagino a potência que seria Angola. Os sul-africanos diziam, quando conversavam connosco: “Vocês têm coisas que nós não temos. Vocês ultrapassaram o problema racial, até mesmo os problemas tribais vocês ultrapassaram”.

É a insolúvel questão do “se”. Infelizmente não é possível modificar o passado.

Sim. Ainda voltando à questão que colocou sobre o marxismo. O marxismo para mim é uma forma de pensamento para reflectir uma socedade, mas não é uma forma tipo Bíblia ou Corão, que possa incluir todas as soluções, quer espirituais quer materiais de forma dogmática e estacionária. No socialismo não há mudanças e quando as há é para importar o mais perverso do capitalismo.

Não faltaram alertas à sua geração, e mesmo à anterior, sobre o marxismo. Já se tinham publicado livros sobre as purgas, os gulag, a inexistência de liberdade e intelectuais de nomeada no Ocidente demarcaram-se do comunismo.

Sim. Aqui, quando algumas pessoas como eu agarraram nesses livros e os entregamos a pessoas que mandavam, vieram ralhar comigo. Que era contra-revolucionário. Havia pessoas com a cabeça quadrada e outras que utilizavam o marxismo para roubar. O marxismo servia para tudo aqui. Sob o olhar silencioso de Lénine.
O problema de fundo é que nós não tivemos pensamento, no sentido de cientistas políticos ou pensadores políticos, como o PAIGC teve o Amílcar Cabral, mesmo o próprio Mondlane ou Samora Machel em Moçambique. É só juntar os discursos do Samora Machel e ver como é que um enfermeiro é um grande pensador. No livro do Óscar Monteiro, que eu fiz a contracapa, há uma parte em que os portugueses estão a bombardear imenso, a matar muita gente, e o Samora faz uma reunião alargada com os quadros todos, os intelectuais estavam todos lá, tinham poucos mas estavam lá todos, no MPLA sempre houve chatice com os intelectuais e divisões (Revolta Activa, etc., etc., etc.). Os intelectuais ponderaram que era preciso mudar a estratégia, ver como é que se deviam posicionar perante a forte resposta colonial; Samora disse: “O que está a faltar à Frelimo é produzir pensamento, todos nós temos que produzir pensamento, produzindo pensamento vamos vencer”. Isto define uma liderança. Agora, tem um aspecto que é inevitável, a nata do pensamento em Angola estava no MPLA. A pouco e pouco essa nata foi absorvida pelo pensamento dos guerrilheiros, dos maquisards.

Qual era o pensamento dos maquisards? 

Era uma via muito estreita e empírica do marxismo-leninismo. Um pensamento igualitário, idealista, impossível de alcançar em qualquer sociedade. Enquanto que os outros já pensavam nos erros do campo socialista, já faziam uma reflexão crítica. É tudo bonito dizer que a gente vai reunir para tomar decisões, mas todos nós estamos a pensar que vamos votar na decisão que o chefe quer. Eu nas primeiras reuniões via as pessoas a correr e de repente estava eu sentado do lado direito da cabeceira do Agostinho Neto e era o primeiro a falar; se dissesse asneira estava lixado. Todos fugiam daquele lugar.

A figura de Agostinho Neto era completamente absorvente?

O Neto era o capitão do navio, um comandante poderoso, ele era  cheio de energia.

A isso chama-se carisma…

Não era só carisma. Era alto astral.

Mas essas qualidades não impediam o surgimento de outras vozes, com outros pensamentos…
Sim. Mas é no tempo do Neto que se sai do marxismo-leninismo. Sem dizer nada. Em Moçambique a Frelimo ainda fez uma pequena declaração antes.

Há quem diga com convicção que a morte de Neto em Moscovo terá resultado dessa guinada que ele faz para o centro do espectro ideológico…

Ele começou a observar que os fenómenos, a prática, não era consoante aquilo que ele teria pensado.

Enquanto autor sente-se realizado?

Não totalmente. Podia ter escrito mais. Aqui em Angola não há uma actividade editorial consequente. Não há livrarias, as pessoas não lêem. Os jornais publicam coisas que não são literatura, transformam os amigos em escritores, as pessoas compram os livros desses autores e depois não compram mais, desistem. Se for a um restaurante e a comida não presta, deixo de ir a esse restaurante.

Para si dá para viver da escrita?

Não. Os direitos de autor que recebo, neste momento, vêem mais de fora. Sempre há um disco. O ano passado correu bem, foram três livros. “Os meninos do Huambo” fazem um bocado de dinheiro, por exemplo. Agora quero publicar os meus primeiros livros de poesia, “A onda” e “Poesia sem notícia”. Tenho várias séries de crónicas. Já publiquei duas em livro, “Maninha” e “As Novas da Maninha”. A primeira série de crónicas foi publicada no Jornal de Angola, “O Kikas e o Kocas”, a falar na problemática da alteração alfabética, da ortografia, já naquele tempo. Tenho umas três séries de crónicas no Jornal de Angola, outra naquele jornal Semanário Angolense. Gostaria de publicar em livro as séries de crónicas que estão no Jornal de Angola, com um texto introdutório de uma pessoa que conheça a história do Jornal de Angola.

Como é que o Diário de Luanda desaparece?

Administrativamente. Estava lá o António Cardoso, que era um stalinista, a dirigir. Aquilo era um coito do Nito Alves. À boa maneira do MPLA, em vez de tirarem o Cardoso e o Nito Alves, fecharam o jornal. Para nunca mais abrir.

27 de Maio: “Até agora faz sentido criar uma comissão da verdade”

Naquela altura Estado e Partido misturavam-se, mas era o Partido a mandar no Estado.
Já havia Estado, Constituição, Hino Nacional, Bandeira, mas para o MPLA era como se isso não existisse. Assim, houve um conflito dentro do Movimento, fizeram uma reunião, que devia ser um Conselho de Ministros, mas fizeram uma reunião do Comité Central, onde expulsaram os chamados fraccionistas, democraticamente, quando o golpe já vinha sendo preparado. Nas vésperas do 27 de Maio de 1977 o José Van-Dúnem queria que eu me encontrasse com ele, queria falar comigo. Se eu me tivesse encontrado com ele também tinha desaparecido.

É verdade que fez parte da chamada comissão de lágrimas? Qual era o seu objectivo?

A tal comissão esteve dois dias a trabalhar. O objectivo era ouvir se pertenciam, se estiveram por dentro da organização (do golpe).

Não tinha também a missão de determinar se as pessoas eram ou não culpadas?

Não. E tudo era gravado pela televisão. Não sei se já deitaram fora as gravações. A gente não estava a fazer relatórios a dizer “mata este”, “mata aquele”. Era uma comissão com lágrima no olho, nós estávamos comovidos com aquilo. O Diógenes [Boavida], o [Ambrósio] Lukoki, eu… Estávamos a ser usados como tribunal à margem da lei. Havia um Estado, fizeram uma reunião do Comité Central, expulsaram os homens quando há a tentativa do golpe de Estado, aquilo devia passar para os tribunais, ou militares ou civis, e não ser resolvido dentro da estrutura da guerrilha. Ao contrário do que muitos dizem, que eu andei a torturar pessoas, começamos é a safar as pessoas. Mas o mundo faz-se disso. Havia pessoas que se queriam promover em Portugal e o protagonismo era a vitimização na imprensa.
Tudo foi feito segundo a estrutura da guerrilha e era gravado pela televisão, tudo era instrumentalizado. Quando alguém fosse fuzilado dizia-se que foi para uma bolsa de estudo em Cuba. Usava-se essa expressão.

Depois de tudo isso o que é que devia ter sido feito, para reconciliar verdadeira e profundamente as pessoas no seio do MPLA?

Devia-se ter feito uma comissão da verdade.

Ainda hoje faz sentido criar uma comissão da verdade sobre os acontecimentos que se seguiram ao 27 de Maio de 1977?
Até agora faz sentido. Se não a história vai ficar cheia de mentiras. O Nito Alves vai aparecer como um libertador que foi amputado, quando seria uma desgraça se ele ganhasse. Isto seria um Kampucheia, um Cambodja. Houve essa confusão, o desprezo pelas estruturas do Estado, que se vai agravando consoante a guerra que nós tínhamos, na ilusão de que ela se resolveria com tiros, quando afinal dava jeito para alguns que houvesse guerra. É nessa continuidade que não se inventa um esquema económico de  satisfazer as novas exigências e que se cortam verdadeiramente as comunicações humanas, que ainda hoje estão por restabelecer (estamos a caminho disso). É só com essas comunicações humanas que o feijão pode ir de um lado ao outro, que o peixe seco pode ir para o interior, que os medicamentos podem chegar aos hospitais, sem serem roubados, para as pessoas terem consciência de que estão ao serviço da sociedade e não de meia dúzia de ladrões, em suma, para diminuir as desigualdades. Até à entrada deste novo presidente o povo sabia que a economia estava ao serviço dos milionários. O povo sabe tudo. As empregadas dos mwatas contam aos maridos, os maridos contam aos amigos, estes contam nos candongueiros… O povo é que é a Internet. Internet sem fake news.

Voltando à ideia da criação, ainda hoje, da comissão da verdade sobre o 27 de Maio. Qual seria o formato dessa comissão? Ao jeito da que foi criada na África do Sul?

Já falei sobre isso numa entrevista que dei há anos ao Folha 8. A África do Sul fez isso com coisas muito mais graves do que as nossas.

O ponto prévio seria que todo o mundo que se oferecesse a prestar depoimento teria o perdão?

Nós aqui vamos perdoar a quem? O ponto de partida seria a verdade.

Esse processo deveria ser dinamizado sobretudo pelo MPLA?

Sim. E não seria assim tão difícil.

Qual seria a saída para toda essa crise económica e social, com fortes raízes éticas e morais, em que nos encontramos?
A saída seria um socialismo democrático. Não impedir o crescimento da riqueza. As pessoas que têm propriedade privada que a desenvolvam. Essa economia está dependente disso. Está provado que o Estado não pode ser produtor. Mas reservar áreas da economia para o Estado. Áreas que são propriedade do povo. A água é propriedade do povo. Antes de haver MPLA, antes de haver independência, e se este é o continente-berço, antes de se inventar Deus (Deus foi inventado no continente-berço), a água era do povo. Num dos meus contos eu falo nisso. Há áreas que no meu entender não podem ser privatizadas. A água, a energia eléctrica, a indústria diamantífera, os petróleos… Portanto, as infraestruturas de base. Nós só devíamos poder pagar o custo da água acrescido de um milésimo, porque a água custa para chegar às nossas casas. A energia eléctrica também. Mas podemos fazer tabelas diferentes. Lá onde o dinheiro vale mais, por exemplo no Huambo, o preço tem de ser diferente. As cooperativas agrícolas. Os silos. A população produziu, entrega o seu milho, o seu feijão, parte é guardado, parte é comprado e tem as lojas para comprar panos, tem as farmácias… Portanto, há uma economia privada de cariz eminentemente capitalista que visa o lucro mas é controlada, há zonas comerciais com os preços controlados e tratamento fiscal especial, por exemplo os medicamentos não pagam impostos, para serem baratos. O ensino gratuito com livros de graça até um determinado nível e a entrada nas universidades por critérios de meritocracia. Na Universidade já há uma ligação com as empresas e estruturas do Estado. Evita-se a concorrência desleal. Eu sou ministro, agarro no telefone e digo: “Olha, arranja-me um lugar no Ministério das Finanças, o meu filho formou-se em economia”. No tempo antigo só faltaria acrescentar: “Eh pá, o gajo também quer roubar um bocado”. (Risos).

O que pensa de todo esse processo de discussão sobre a implementação das autarquias?
O tempo que se quer dar para fazer autarquias, 10 anos, é muito tempo. Actualmente o poder local nas províncias são pequenos feudos. O governador manda mais do que toda a gente e até pode mandar matar uma pessoa indirectamente.

E a sua opinião sobre a legislação de repatriamento dos activos obtidos ilicitamente? Todo o mundo devia ir para a cadeia?
Acho que ninguém devia ir para a cadeia. A solução do Presidente actual é sábia, resolver os problemas na justiça sem fazer a divisão física entre os cidadãos. Há famílias poderosas que vão ficar incomodadas. Os milionários têm o seu séquito. Cada milionário tem a volta de si umas três mil pessoas. É preciso evitar que a sociedade se deflagre por causa dos actos ilícitos mas que foram consentidos por quem mandava.  As pessoas não foram com uma espingarda ou uma bomba roubar a caixa forte de um banco. Tiraram com a consciência de que era ilícito. E isso de tirar em cima vinha até cá abaixo, onde só se podia pedir uma gasosa. Penso que esse dinheiro tem de voltar para cá mas para ser aplicado em infraestruturas, hospitais, escolas. Se o dinheiro vem e fica nas mãos deles lançam no mercado e vamos todos comprar os dólares. Ou o dinheiro vem e depois dizem-lhes: “você vai fazer uma fábrica de chouriço?” Isso é absurdo. Aliás é absurdo devolver o roubado ao ladrão. Veja o caso Lava Jacto no Brasil. E é preciso fazer a prova e dar o contraditório para não ser inquisitorial. Não me incomoda muito o que foi roubado, mas o que vamos produzir. Agora estamos todos à procura de ladrões. Eu não estou a pensar num Estado-Polícia. Já perdemos o medo de falar. Nos jornais isso vê-se, até no vosso. Agora não vamos inventar outros medos. Um sistema fossilizado é como um balão. Tem de ser esvaziado cuidadosamente para não rebentar. Veja, os garotos compram nos armazéns dos estrangeiros que arranjaram licenças pela mão de agentes do Estado, para venderem na rua, as quitandeiras compram legumes e frutas nos camiões, os medicamentos andam nos mercados. Basta cortar um elemento do sistema, por exemplo, os armazéns, para os miúdos não terem nada para vender e se parar as quitandeiras deixamos de ter a comida à porta (forma subtil de obrigar as pessoas a irem aos grandes espaços propriedade dos donos disto tudo)…

O facto de já haver pessoas detidas faz-lhe pensar em quê?

É impensável, nem em ficção, no romance, eu escreveria que um Fundo Soberano, que é equivalente à Reserva Federal dos EUA, seja entregue a meia dúzia de jovens para gerir. Fazer isto é um crime. Ainda por cima a um filho. Você é presidente de uma República e não vai entregar o Fundo Soberano a um filho. Entregar a gestão da maior indústria que sustenta esta economia, que é o petróleo, a uma filha; a comunicação social a outro filho. Isto tem nome. O outro comprou um relógio a 500 mil dólares. É igual ao Obiang. Aquele relógio do Obiang, filho do nosso ilustre parceiro na CPLP. Mas eu peço desculpa a Dos Santos porque está fragilizado. Ele deveria ser o primeiro a vir a público falar dos erros, porque se se vai melhorar o que está bem é porque no seu consulado também se fizeram coisas boas. Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias.

João Lourenço versus Dos Santos

É possível comparar esses dois homens: José Eduardo dos Santos e João Lourenço?
Primeiro no perfil do pensamento, este homem [João Lourenço] estudou História, compreende melhor uma filosofia política de acção, e é marido de uma cientista de economia que já esteve no FMI… Quanto a Dos Santos fico por aqui porque não é positivo falar de pugilistas tombados no ringue, com o desmoronar da sua família seria mais um acto de crueldade. No entanto, sublinho  que  João Lourenço foi um opositor mas com uma consciência dos passos que devia dar. São pessoas totalmente diferentes. Um tolerou ou fomentou o nepotismo, a corrupção e a miséria do povo, o outro é contra o nepotismo, contra a corrupção e diz-se empenhado em resolver os problemas do povo. Isso é interessante. Na fenomenologia política isso é inédito e deve-nos honrar. Dentro do seu próprio partido fazer mudanças que correspondem a uma revolução e as próprias pessoas do partido aceitarem a ideia anti-corrupção, quando algumas delas são parte activa nesse fenómeno da corrupção. Mas isso é saudável porque tem uma inspiração da tradição africana. É bom chamar os mais velhos e traçar um plano de solução que satisfaça os interesses da maioria. Claro que 99,9 % do povo está de acordo com o Presidente. As pessoas que não têm poder, porque  as que têm muito poder económico nem todas estão de acordo com ele, há algumas que já não sabem quando é que roubaram ou quanto é que não roubaram. Mas temo que a questão do regresso da riqueza não vá a bom porto. Por mim era daqui para a frente.

Não haverá um risco de desestabilização por parte da franja que sendo minoritária tem poder real?
Têm poder real e isso é que tem de ser controlado.

Como?
Lembras-te da figura do Tanu, que sem querer tinha poder económico no Quilombo? Mas o Zumbi tinha o poder político. O Tanu é que tinha razão. Se Zumbi o tivesse deixado fazer o que queria, ir pelas encostas atrás dos fazendeiros, a coisa teria sido diferente. E além disso este Presidente é um homem que não cultiva a “estabilidade”, a paralisação, como o outro. As coisas estavam todas em águas mornas. Inaugurar no fim do seu governo obras que ainda não estavam acabadas! Fazer coisas que me parecem inócuas; assim que começou o processo eleitoral o governo devia ser só de gestão corrente e não fazer leis para depois de sair, criar imunidades para si próprio! Não é possível comparar essas duas pessoas.

Como é que vê o futuro deste povo, deste país?

Com optimismo. Por tudo aquilo que a gente já passou, aqui em África não há um país com a estabilidade como a nossa. Posso ir de noite daqui até ao Namibe, daqui até ao Huambo, desde que a estrada me deixe. Já fui de noite daqui até ao Uíge. No Quénia não é possível. Eles têm pequenas aldeias com bares e prostitutas, os camiões ficam ali parados até de manhã, não se viaja à noite. Na Namíbia também já está a ficar assim, na África do Sul está assim há muito tempo. As pessoas querem vir para cá.

Está a advogar a ideia de que os angolanos são especiais?

Não somos especiais. Tivemos uma história diferente. Uma colonização de 500 anos que nos pôs a falar a língua do invasor tal como ele fala ou melhor. As lutas dos reinos contra os colonos. As primeiras revoltas nas minas sul-africanas foram comandadas por um angolano, kwanhama. No Sul os portugueses levaram muita tareia, os kwanhamas nunca pagaram imposto, até ao fim do colonialismo. É todo esse tipo de trama, das lutas, da revolta da Baixa de Cassanje, do 4 de Fevereiro, é o Savimbi que tem a coragem e a filosofia maoísta de se encontrar com os portugueses para negociar, a avalanche toda da poesia de Neto, do Viriato da Cruz, etc., etc., em paralelo com os grandes poetas da Negritude que estava a acontecer em França, é a origem do MPLA, por exemplo, em que os estudantes fogem de Portugal para depois descerem para o Marrocos para fazer treino militar e ir para a guerra… Tudo isso é diferente de receber a independência através de um papel. Fazendo a soma disso tudo, aí está a nossa endurance, que faz de nós a única ex-colónia que vai bater o pé ao ex-colonizador. Chegar lá e dizer, “o meu processo não fica aqui, vai para Luanda”. Tudo isso aponta para a singularidade deste país, mas também para a singularidade do Magreb, da África do Sul, etc., etc. Outro fenómeno é a liberdade religiosa. Não troco este país por outro.

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Cuti: Quebranto

cuti5O poema Quebranto foi uma questão de múltipla escolha que caiu no Enem de 2018. Motivo de celebração pelo reconhecimento da literatura negra

cuti7

Questão de múltiplia escolha

Quebranto às vezes sou o policial que me suspeito me peço documentos e mesmo de posse deles me prendo e me dou porrada às vezes sou o porteiro não me deixando entrar em mim mesmo a não ser pela porta de serviço

[—]

às vezes faço questão de não me ver e entupido com a visão deles sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco sendo o gesto que me nego a pinga que me bebo e me embebedo o dedo que me aponto e denuncio o ponto em que me entrego. às vezes!…
CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza, 2007 (fragmento).

Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a presença de elementos que traduzem experiências históricas de preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico

 

Correta incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.
submete-se à discriminação como meio de fortalecimento.
engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.
sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento.
acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade igualitária.

 cuti1

Integra do poema de Cuti :QUEBRANTO

às vezes sou o policial
que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o zelador
não me deixando entrar
em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredito

às vezes sou o amor
que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que
sonhei e não comi
outras o bem-te-vi
com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me
lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida
uma constituição que me promulgo
a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão
de não me ver
e entupido com a visão deles
me sinto a miséria
concebida como um
eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo
e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.

às vezes!…

 

Ascensão econômica, Crédito e Black Money: a contramão da realidade dos empreendedores negros no Brasil

Segundo o IBGE, brasileiros com origem no topo da pirâmide social têm quase 14 vezes mais chances de continuarem nesse estrato do que pessoas nascidas na base ascenderem para essa posição. É sabido que a base sócioeconômica brasileira pelo seu contexto histórico tem cor e raça. Nesse viés, o mesmo estudo do IBGE observou que a mobilidade social é menor entre pretos ou pardos do que entre brancos . Na análise de mobilidade de longa distância, um indivíduo branco tem o dobro das chances de conseguir migrar dos estratos D, E ou F para o A do que um preto ou pardo.
Os resultados apontam que para a população preta ou parda, é mais difícil ascender ou mesmo permanecer no mesmo estrato do que para a população branca.

“Diversos estudos que analisaram as chances relativas de mobilidade entre brancos e não brancos confirmam a existência de barreiras raciais à mobilidade intergeracional no Brasil”, afirma o instituto.
É mandatório analisarmos as estruturas que causam as barreiras raciais a essa mobilidade. No Brasil temos vários cases de sucesso de empreendedores, mas quantos destes empreendedores são negros? Será que estes são menos capazes que os empreendedores brancos?

Empreender é um grande desafio no Brasil, onde cerca de 60% das empresas fecham antes de completar 3 anos de existência. Entre os motivos: burocracia, carga tributária excessiva, dificuldade de concessão de crédito e falta de conhecimento gerencial, especialmente para os micro e pequenos empreendedores. Contudo, essa saga é ainda mais hercúlea para o empreendedor negro.

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Ser negro no Brasil, além de ter mais chances de ser morto ainda na juventude, ter menor acesso à educação e ganhar proporcionalmente menos que os brancos, também representa ter menores oportunidades no mundo dos negócios.

Hoje, 51% dos empreendedores brasileiros são negros, mas apenas 29% deles empregam ao menos uma pessoa. Segundo especialistas, os afrobrasileiros enfrentam não só barreiras cumulativas devido à História brasileira, mas também devido ao racismo que persiste nas relações sociais. Eugene Cornelius Junior, que é chefe do escritório internacional da SBA nos Estados Unidos (entidade que oferece apoio para as pequenas e médias empresas, equivalente ao Sebrae que temos por aqui) afirma que, no Brasil, o empreendedor negro tem o seu pedido de crédito negado três vezes mais do que o empreendedor branco.

Isso significa que, “se uma pessoa da comunidade negra tem o desejo de empreender, mas não possui capital para isso e nem conhece alguém próximo que possa fazer um empréstimo, possivelmente não vai conseguir tirar a sua ideia do papel , expandir seu negócio ou fazer novas contratações. Porém engana-se aquele que acha que isso é um problema exclusivo dos negros – ao privar o acesso da maioria ao crédito inibimos o crescimento econômico e a criação de empregos no Brasil”, diz Alan Soares Planejador Financeiro /Sócio da Trader Brasil e fundador do Movimento Black Money . “O nosso PIB poderia crescer muito mais se não houvesse essa discriminação tão intensa dentro da economia”, complementa.

Investir em iniciativas que mudem essa realidade é um passo importante a ser dado através do apoio de toda sociedade civil aos negócios sociais, não faltam exemplos de projetos e empresas atuantes do ecossistema do Empreendedorismo Negro em todo o Brasil: o crowndfunding da parceria entre a Ganbatte e o Capital Herdeiro, onde uma formação de Mercado Financeiro será financiada para capacitar uma turma de jovens de baixa renda na intenção de inseri-los no mercado de trabalho (contribua aqui: http://juntos.com.vc/pt/impulsionando-talentos); iniciativas transformadoras como o D´Black Bank, uma fintech brasileira de negros para negros que será lançada em 2018 com o intuito do fomento à comunidade afrodescendente na manutenção do consumo de produtos e serviços para circulação de riqueza dentro de seu grupo étnico racial (http://www.dblackbank.com.br); ainda temos diversas plataformas de serviços para Negros como a Diáspora Black, plataforma digital que conecta viajantes e anfitriões interessados em vivenciar experiências de viagens focadas na história e cultura da comunidade negra em diferentes cidades do mundo, que está sendo incubada pelo Estação Hack, projeto do Facebook; na moda temos os Afrocriadores, coletivo que nasceu entre conversas nos intervalos de oficinas do projeto Sebrae Moda/RJ; e o Vale do Dendê que visa criar uma plataforma de atração de investimentos sociais e econômicos para a revitalização do centro de Salvador, restaurando espaços públicos e privados, formando mão de obra qualificada e criando um novo branding para a cidade.

“A cor da pele não define a capacidade de ninguém. Contudo, o negro enfrenta tantas dificuldades para conquistar o seu espaço desde criança, que acaba desenvolvendo soft skills como resiliência, empatia e persuasão que são características essenciais para qualquer empreendedor”, diz Débora Santos, Gerente de Projetos da IBM, líder do grupo BRGAfro e Advisor do Movimento Black Money.

Segundo Nina Silva, Executiva de TI e fundadora do DBB, “não faltam exemplos de que criatividade, coletivismo e iniciativa são pilares de sobrevivência da população negra, mesmo sem visibilidade e reconhecimento da história pelo sistema educacional e mídias. Durante e no pós período escravocrata a população afrodescendente lutou e tem lutado para garantir sua subsistência, onde o que denominamos “Black Money” tem sido a garantia de que podemos ser o nosso próprio mercado, em combate à marginalização e subalternação dos empreendedores e profissionais negros. Black Money também é resistência ao genocídio histórico da população negra”.

O MBM ( http://www.movimentoblackmoney.com.br ) tem como meta fomentar o empreendedorismo na comunidade negra e prestar suporte àqueles que têm uma nova ideia, uma nova forma de propor uma solução ao mercado, pois praticar o Black Money não tem a ver com ser contra os empreendedores ou profissionais não negros, pelo contrário, é potencializar a economia do país emergindo com todas as classes sociais. Não é justo, muito menos estratégico para nossa sociedade continuar permitindo que o preconceito racial impeça a emancipação da população negra e o crescimento de toda a economia do país.

https://exame.abril.com.br/negocios/dino/ascensao-economica-credito-e-black-money-a-contramao-da-realidade-dos-empreendedores-negros-no-brasil/?utm_source=whatsapp

Ele Semog poemas do livro “Guardas pra mim”

ele semog

Ele Semog

” Você e seus perdidos”
[08:16, 30/12/2017] +55 61 9849-5051: Pensou que ia dar
Um perdido na vida
é nem percebeu que ela
passou num repente
que o passado é essência
do que vai a frente,
que o futuro não espera
quem chega com tudo
atrasado nos sentimentos.
Não adianta pressa
é não dá para jogar
com a sorte, a sina, ou destino…

Pode voltar para carregar
a sua cesta de espinhos,
não deixe nada pelo caminho,
tem gente que quer passar.

 

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Ele Semog

“O graveto e a tora”

 

Não olhe para mim

pensando que sou

um negro  e só

Olhe outra vez,

e veja

Sou negros

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Ele Semog
“A toa te amar”

Qualquer tempo é tudo
e se houver sete minutos
pegue todos os segundos
para ser dona do mundo.
A vida não se arrepende,
então, sete minutos
para amar assim,
é muito mais que uma
eternidade dentro do fim

Ele Semog
“Memórias”

Já fui romântico
que pensava
que toda dama de puteiro
tinha um ursinho de pelúcia

Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora nigeriana

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”chimamanda-novo-livro

Com novo lançamento no Brasil, escritora nigeriana comenta sobre ser uma das principais vozes a falar sobre mulheres negras fortes na literatura mundial.

Considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, 39 anos, autora do best-seller Americanah (2013),teve seu sexto livro lançado no Brasil no final de julho pela editora Companhia das Letras. Publicado originalmente em 2009, No Seu Pescoço era a única publicação de Chimamanda que faltava  chegar ao Brasil.

O livro reúne 12 contos que têm, em comum, mulheres e homens nigerianos como protagonistas. Nessas narrativas, assim como em todo o seu trabalho, Chimamanda denuncia e questiona o racismo, o machismo e outras opressões que seguem fortes tanto na Nigéria quanto em toda a nossa sociedade.

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CLAUDIA aproveitou a ocasião do lançamento para conversar com Chimamanda.

CLAUDIA: No Seu Pescoço está sendo publicado no Brasil quase dez anos após ter sido escrito. Como você se sente ao ver esses contos ganhando relevância outra vez, agora com um novo público?

Chimamanda Ngozi Adichie: É sempre encantador ver seu trabalho ganhando atenção. Ficção é, em conjunto, uma trabalho de artesanato e emoção. Logo, existe alguma coisa no fato de continuar sendo lida que traz um certo tipo de validação.

CLAUDIA: O best-seller Americanah (2013), muito apreciado no Brasil, foi escrito após No Seu Pescoço (2009). A personagem principal do conto que dá título ao livro, assim como Ifemelu protagonista do romance, deixa a Nigéria para viver nos EUA. Existe mais alguma semelhança entre elas? 

Chimamanda: Elas provavelmente têm preocupações parecidas, mas eu não penso no meu trabalho de forma temática. Eu sigo a história que me chamar. No Seu Pescoço é uma coleção de histórias que foram escritas em momentos diferentes e realmente não são semelhantes entre si.

CLAUDIA: A maioria de seus personagens são mulheres negras fortes. Infelizmente – mesmo que esse cenário esteja mudando –, mulheres fortes e, principalmente, mulheres negras fortes continuam sendo minoria nas principais narrativas literárias ao redor do mundo. Você se sente pressionado por ser uma das poucas escritores em destaque a escrever sobre essas mulheres?

Chimamanda: Não. Mulheres negras fortes são normais para mim. Escrever sobre mulheres negras fortes também. Eu cresci rodeada por essas mulheres, o mundo é repleto de mulheres negras fortes. E como elas são normais para mim, eu não sinto nenhuma pressão ou responsabilidade. Eu simplesmente escrevo a verdade sobre o que eu conheço.

CLAUDIA: Para você, qual a importância de narrativas como essas estarem ganhando destaque? Além disso, você enxerga a literatura como um reflexo de uma sociedade em mudança ou como um agente transformador da sociedade? 

Chimamanda: Acredito que literatura pode ser os dois. Algumas vezes, escrevendo sobre o mundo como ele é, nos podemos criar narrativas que se transformam em catalisadores para mudança. Eu realmente acredito que seja importante se ouvir histórias sobre lugares e pessoas que são marginalizados. É importante porque, se temos histórias diversas, nos tornamos melhores para compreender o mundo e nosso próprio lugar nele.

CLAUDIA: Após quatro livros de ficção, seus dois lançamentos mais recentes foram manifestos feministas. Qual a importância de publicações didáticas como Sejamos Todos Feministas (2014) e Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto (2017) para a luta das mulheres em nossa sociedade? Quem você acha que eles atingem mais?

Chimamanda: Eu espero que eles atinjam tanto homens quanto mulheres. Não acredito estar dizendo às mulheres o que elas não sabem ainda. Elas sabem porque elas vivem isso. Mas eu acredito que os livros dão palavras ao que as mulheres experienciammotivo de elas se conectarem a eles. Eu ouvi de alguns leitores homens que eles começaram a pensar diferente sobre gênero após lerem as obras.

CLAUDIA: Você pretende seguir esse caminho ou tem alguma ficção a caminho?

Chimamanda: Fico feliz em escrever sobre coisas com as quais eu me importo e me interesso muito por política e história. Mas a única coisa que realmente me dá felicidade é a ficção. Ficção é minha vocação. Ficção é meu único e verdadeiro chamado.

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”

Chinua Achebe, o autor nigeriano fundamental para a literatura

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Chinua Achebe colocou a Nigéria na geografia literária ao contar num tom sério, a partir de dentro e sem direito a desfile etnográfico, a identidade africana em subtil mudança.

Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana

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Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana MANUEL ROBERTO

Ler os romances do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013) é viajar para a realidade africana das histórias contadas oralmente na sombra da grande árvore do centro da aldeia. Ele é como o velho sábio que assim vai passando a tradição aos que o ouvem, levando-os pelas palavras ditas ao mundo dos mitos africanos, inscrevendo nos ouvintes (ou mostrando, no caso dos leitores) uma identidade cultural apenas entendida na sua essência se vista e descrita a partir de dentro. Contar uma história tem na sua natureza um elemento de magia, de poder viajar a uma outra realidade. Esse efeito mágico cumpre, sobretudo nas comunidades e nas sociedades mais tradicionais, a função de organizar um suposto passado (tantas vezes mítico e também arquetípico) de maneira a estruturar o presente. É fazendo uso desse “poder de feiticeiro que narra” que Chinua Achebe — considerado pelos críticos anglo-saxónicos o fundador da literatura africana — começa a recriar de maneira singular universos até então ausentes dos romances sobre África.

Em 1958 publicou aquele que é considerado o livro seminal da literatura africana pós-colonial, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Ele escreve a partir de dentro, levando o leitor para uma nova realidade cultural e histórica, em oposição aos romances em que o olhar está do lado de fora, em que esse olhar é “estrangeiro”. Por várias vezes (e escreveu mesmo um ensaio para o demonstrar) apelidou de racista o famoso livro de Joseph Conrad, Heart of Darknesse (O Coração das Trevas), exactamente por causa dessa maneira de olhar etnocêntrica, ignorante da cultura africana, arrogante e exterior ao continente.Chinua-Achebe-speakn-abt-thingsfallapart1.jpg

Achebe retoma as regras canónicas da forma do romance, as convenções clássicas do género, e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana. Não subverte a linguagem nem cai no facilitismo de lhe inventar efeitos “folclóricos” (escreve num inglês perfeito; conta histórias na língua dos colonos para que os seus livros possam ser lidos em todo o continente, é assim que se justifica quando é disso acusado). Nascido num país, a Nigéria, com 200 etnias e 500 línguas faladas, Chinua Achebe consegue unificar numa língua escrita (extraindo do todo o essencial) essas múltiplas tradições da oralidade, retratando uma identidade em constante e subtil mudança.

O olhar desapiedado

Deste autor nigeriano foram publicados em Portugal três dos cinco romances que escreveu: A Flecha de Deus (Edições 70, 1978), Um Homem Popular (Caminho, 1987) e aquele que é considerado a sua obra-prima, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Chinua Achebe foi uma voz incómoda para alguns intelectuais africanos que a qualquer pretexto desfraldam a bandeira da “vitimização” do continente, demitindo-se assim de responsabilidades; e foi-o também para um certo Ocidente trendy que não se consegue ver livre de um exacerbado complexo de culpa histórica, e que com essa disfarçada atitude paternalista mais não faz do que legitimar a hipocrisia e a desgraça.

Em Um Homem Popular é feita uma crítica feroz, por vezes irónica, aos políticos africanos corruptos. E Achebe sabe daquilo que conta. O livro foi publicado originalmente em 1966 e a história acaba com um golpe de Estado, final profético, pois uns meses depois o Governo nigeriano foi derrubado. A trama literária é-nos narrada por um jovem professor de aldeia que um dia se encontra com um seu antigo mestre-escola, entretanto tornado ministro. Um Homem Popular traz-nos o olhar desapiedado de Achebe, não apenas sobre a classe política, mas também sobre os povos africanos: “O próprio povo, como já vimos, tinha-se tornado ainda mais cínico do que os seus líderes, e estava apático frente às negociatas.” Achebe tenta entender (sem desculpabilizar) esse mesmo povo que acaba por ser vítima também de si próprio, ao não conseguir manter o equilíbrio entre o lado material e espiritual da vida, ao aceitar passivamente a hipocrisia de uma duplicidade de valores.

Quando Tudo Se Desmorona tem por epígrafe quatro versos de W. B. Yeats retirados do poema The Second Coming, que se refere ao dia do Juízo Final, ao acordar da Besta, à desintegração da ordem do mundo, a um tempo de desmoronamento. O livro conta-nos a história de Okonkwo, um jovem de uma tribo Igbo, que está determinado a não ser um falhado como o pai, e que pretende seguir a tradição e ascender socialmente na tribo. E as coisas não lhe correm mal. Consegue atingir a prosperidade e o topo da hierarquia. Mas chega o dia em que desrespeita a tradição e as coisas começam a mudar. É o princípio do fim, o início de uma série de catástrofes. Tudo coincide com a chegada do “homem branco”.

A linguagem de Chinua Achebe, elegante e luminosa, é muito telúrica, característica que empresta às narrativas uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos em que nada acontece, como neste exemplo retirado da sua obra-prima: “Recordou-se da história que ela habitualmente contava sobre a antiga desavença entre a Terra e o Céu, e de como o Céu retivera a chuva durante sete anos, até as sementeiras definharem e os mortos não poderem ser enterrados porque as enxadas se quebravam ao tentar abrir sulcos na Terra empedernida. Por fim, o Abutre foi enviado até junto do Céu para tentar amolecer o seu coração com uma canção sobre o sofrimento dos filhos do homem.”

 

https://www.publico.pt/2017/08/15/culturaipsilon/noticia/saber-contar-a-sombra-da-grande-arvore-africana-1782306

Paulina Chiziane: Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem conosco”

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A liberdade é um tema que preocupa Paulina Chiziane. Por isso, o novo livro da autora, O canto dos escravos, investe na libertação individual e colectiva como recurso fundamental. Falando do livro, Chiziane explica por que aposta, desta vez, numa obra em verso ao mesmo tempo que tece um comentário sobre a actualidade do país: “Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco”. E a escritora não fica por aí, neste quesito, avança que a dívida externa pode acabar num neo-colonialismo que prejudique todos os moçambicanos. Para que tal não acontece, a escritora sugere que a luta pela liberdade seja cada vez mais permanente. Além disso, depois de ano passado ter dito que não voltaria a escrever, Paulina Chiziane volta a falar do assunto, com um esclarecimento aos seus leitores.

O canto dos escravos é título do seu novo livro, que aglutina, em 120 páginas, muitos séculos de História. Por quê?

Este livro foi inspirado no nosso hino nacional, que nos diz, a certa altura: “Na memória de África e do mundo”. Então, comecei a caminhar, em busca dessa memória e da nossa História. Primeiro, escrevi um texto muito grande, era massudo. No entanto, com esses anos todos que tenho de escrita, apercebi-me que, algumas vezes, a leitura de um livro volumoso é um privilégio de poucos. Fui comprimindo o texto até que aparecesse, agora, em verso, O canto dos escravos, no qual falo do percurso dos africanos no país e fora do continente. Com este livro celebro a existência do negro, da dor, da alegria e da esperança em seis capítulos, de modo a torna-lo um diálogo entre o passado, o presente e o futuro.

 

A Paulina Chiziane que temos neste livro parece mensageira da liberdade. Concorda com isso?

Não gosto da palavra mensageira. Os meus livros todos, se for a verificar, têm um denominador comum: a liberdade, da mulher, dos grupos socialmente silenciados, do pobre e de todas as coisas, embora os temas sejam diferentes. Eu canto a liberdade que quero para mim e para os que me rodeiam. Por outro lado, verifiquei que na verdade o planeta terra tem dois continentes africanos: uma África que é esta que temos aqui e outra na América. Mas não há comunicação perfeita entre as duas Áfricas. Por isso, o livro não é tão simples assim porque move sentimentos, emoções, pensamentos e vivências, colocando esperanças nesta vida de ser negro. Este livro é para todos, porque nas escolas falamos da escravatura apenas em duas linhas e mais nada.

 

Os escravos aqui parecem ser a metáfora de um cidadão oprimido. Quis que assim fosse?

É assim, eu não quero falar de metáforas. O que quero é dizer que esta realidade existe. O escravo, ao morrer ontem, de certeza que tinha um sonho, a liberdade que possuímos hoje. Portanto, sou independente hoje porque alguém um dia lutou, sofreu e morreu. Custa-me ver que, algumas vezes, deitamos fora esta independência e liberdade que temos hoje. E não estamos a ensinar o suficiente para que as novas gerações saibam que têm responsabilidades. Ter independência não é estar livre. Somos independente, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco. Então, este livro também é uma chamada de atenção que pretende nos lembrar que a liberdade ganha-se e perde-se. Por exemplo, a dívida externa, não sabemos como foi contraída, mas pode vir a renovar um colonialismo ou mesmo uma escravatura contra o nosso povo.

 

E mesmo a propósito disso, uma voz do livro diz: “os colonos já se foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado”…

As pessoas em Moçambique têm medo, de dizer a verdade, de trabalhar e de dizer aquilo que não foi revelado. Os meus últimos livros provam isto, porque, com a sua publicação, levantaram-se vozes que falaram de proibições no lugar onde não existem. Nós somos prisioneiros dos fantasmas do passado. Por exemplo, quando estava para lançar O 7º juramento, algumas pessoas daqui de Moçambique escreveram artigos para publicar nos jornais de Portugal, de modo a frisar que “o que a Paulina escreveu não é propriamente a nossa cultura e nós não concordamos muito com esse tipo de escrita”. Mas, porque o livro ganhou uma vida própria, os capangas do passado tiveram que refazer os seus discursos.

 

Quem são esses capangas, esses escravos?

Alguns, são bem formados, mas a mente está presa, com medo de um patrão invisível. Não se libertam a si próprio e nem permitem que o seu povo se liberte também. O meu diálogo com o leitor neste livro é para uma autolibertação.

 

Como a Paulina vê a liberdade? É uma possibilidade?

Vejo como uma necessidade que se deve alcançar e preservar.

 

Por quê faz do canto, ao invés das armas, por exemplo, um instrumento propenso à liberdade?

Procuremos perceber como é que os negros que foram para a escravatura sobreviveram, vivendo numa tortura sem fim. O canto, a dança, são artes que preenchem o lado invisível do ser humano, fazendo do Homem muito forte. E quem for a ler atentamente este livro, vai perceber que alguns dos versos são letras de música, dá para ler e cantar.

 

Escreveu o livro chorando?

Não vou mentir. Até agora, há textos que leio e fico deprimida. Por exemplo, o primeiro texto do livro, “O testamento de um escravo”. Quando o leio, ainda divago no espaço. O último, “O canto de esperança”, também mexe comigo. É um texto que me coloca de pé e deixa-me com vontade de enfrentar o mundo.

 

E o que lhe faz pensar que o canto pode triunfar?

O canto não pode, vai triunfar, se cantarmos, resistirmos e estudarmos em colectivo. Se trabalharmos em conjunto, não haverá força que nos derrube. A liberdade é esta possibilidade de fazer com que a minha voz possa ser ouvida.

 

“Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição”. Este seu verso é muito profundo.

É verdade, e qualquer negro no mundo pode-lhe dizer isto. É o discurso do opressor, uma realidade amarga.

 

Não teme que a chamem “escritora racista” pelo compromisso que este livro tem com Homem preto?

Já me chamaram vários nomes e não é isso que me vai preocupar. Pensar no que me vão chamar pode ser uma outra prisão, outra escravatura. Mas repara que não falei de raça, falei de genocídio. Agora, se o genocídio foi para os pretos, de que mais vou falar? Não se trata de promover xenofobia. Falo da humanidade.

 

O FIM DA ESCRITA OU O PRINCÍPIO DE UM RECOMEÇO?

Num dos programas que fizemos juntos, disse que já não voltaria a escrever e que estava farta de tanta incompreensão. Um ano depois, as prateleiras ganham mais um livro seu. Mudou de ideia?

Não, não mudei de ideias. Uma coisa é publicar e outra é escrever. Quando conversamos há um ano, já tinha esse trabalho pronto. Agora é que publico. Aliás, tenho uma série de trabalhos escritos, apenas à espera de ocasião para publicar. Escrever? Já chega.

 

Neste O canto dos escravos as entidades não cedem a qualquer tipo de submissão. Pelo contrário, lutam para ultrapassar dificuldades. Por quê a autora não teria a mesma persistência, nessa árdua tentativa de fintar o que a faz dizer basta à escrita?

Cansaço é um estado físico. A vista, a coluna, às vezes, cansam-se. E a vontade de escrever diminui. Às vezes, essas dificuldades são um motor. Mas quero agradecer a todos aqueles que não confiaram em mim. Sou daquele tipo de pessoas que, quando enfrenta uma dificuldade ou quando não é bem compreendida não desiste, porque acredita que um dia vai ser compreendida. Enfim, olhar para o computador, agora, hiiii…, cansa… Entre as mulheres que escreveram ou escrevem neste país sou das que trouxe mais polémicas e assuntos para reflexão. De Vez em quando é bom sossegar. Quando se fala muito da pessoa, às vezes, a mesma pode não se sentir em paz, por haver demasiada invasão da sua vida íntima. Enfim, acima de tudo, estou cansada e gostaria de convidar àqueles que um dia julgaram que estivesse enganada no meu percurso que mostrassem também a força que têm. O meu percurso foi feito de muita luta, sempre em busca da compreensão.

 

Sente que ainda é alvo dessas “cotoveladas’ que existem na literatura moçambicana?

Ainda sou e agora piorou. Há pessoas que só ficam à espera de ver o nosso trabalho para apedrejar ao invés de nos aproximar para propor melhorias à nossa obra. Esse sentido de ajuda, colaboração, é o que gostaria de ver dos donos da língua.

 

Nos últimos livros seus temos uma escrita muito virada ao real. Deixou para o passado a ficção que calha em A balada ou em O 7º Juramento?

Todos os meus livros têm um denominador comum, o que muda é o crescimento. Apercebi-me que, se quero dialogar, tenho de ser curta, incisiva, breve e, algumas vezes, mesmo cesárea, reajustando-me de acordo com a minha experiência. E eu estou a escrever o que me apetece.

 

É o que é graças aos seus primeiros cinco livros. De tal forma que, por mais que não tivesse escrito mais, a sua marca continuaria bem registada. Se tivesse começado a carreira com os seus cinco últimos livros, acha que também seria essa menina do mundo que hoje merece tanto reconhecimento?

Não fiz nada de novo. Se for a ver a literatura de Noémia de Sousa e Craveirinha, fizeram este tipo de percurso. Noémia de Sousa fez denúncia e foi reconhecida dentro e fora do país. Não me venham dizer que é preciso escrever para agradar o outro, de modo que possamos ter reconhecimento. Sinceramente, acredito que teria reconhecimento da mesma maneira, porque reconhecimento é um produto de luta, não é nenhuma dádiva. Teria sucesso na mesma, pode crer.

 

Já agora, teve dificuldades de publicação ao longo desses anos?

Internamente, sim, mas fora não. E essa é outra parte da estória interessante. Tive muitas mais dificuldades no país do que fora, sempre. E continua assim.

 

Como é que Paulina Chiziane quer ser lembrada pelos seus leitores?

Sei lá. A única coisa que me dá alegria é saber que os meus livros são cada dia mais reconhecidos. E é muita sorte, porque há escritores que são reconhecidos só depois da morte. Eu não. Tive a oportunidade de olhar para traz e dizer que trabalhei e colhi. Para mim isso basta, o que vier virá. Não estou preocupado com o futuro. Se alguém leu o meu trabalho e inspirou-se, que faça melhor do que fiz. Há uma geração muito mais nova, com melhores tecnologias, que deve continuar a luta pela liberdade.

 

Uma luta pela liberdade que inclui perdão pelos que nos escravizaram. Por quê perdoar?

É preciso perdoar para limpar o coração. O ódio é um peso, faz mal à cabeça e destrói o relacionamento com o outro. É preciso perdoar, esquecer é que não.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Que leiam O canto dos escravos, porque, quem quiser compor, até pode conseguir boas cantigas.

 

Perfil

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, já lá vão 62 anos. Estreia-se em livro em 1990, com o lançamento de Balada de amor ao vento. O seu repertório literário inclui Ventos do apocalipse;O 7º juramento; Niketche; As andorinhas; O Alegre canto da perdiz; Na mão de Deus; Por quem vibram os tambores do além? Ngoma Yethu e, agora, O canto dos escravos. É Prémio Literário José Craveirinha e soma várias condecorações e homenagens, como Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo governo português. Em 2015, foi homenageada pela SOICO, pelos 25 anos de carreira e 60 anos de vida. Este ano foi homenageada no FliPoços, no Brasil, e condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo governo brasileiro, em Maputo.

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/45544-somos-prisioneiros-dos-fantasmas-do-nosso-passado.html

 

 

 

‘É difícil olhar a escravidão, seja você branco ou negro’, diz vencedor do Pulitzer

Colson Whitehead,

por JOHN FREEMAN

Nenhum escritor americano se divertiu mais com coisas sérias do que Colson Whitehead, nos últimos 20 anos.

Se Ishmael Reed e Thomas Pynchon tivessem montado um grupo de teatro do absurdo, poderiam facilmente ter escolhido Colson Whitehead como nome. O grupo teria surgido em 1969, em Manhattan, ganhado força em Harvard e se desenvolvido na Redação do “Village Voice”, jornal no qual Whitehead foi crítico de TV por alguns anos.

Whitehead certa vez disse que gostava do emprego porque permitia que ele trabalhasse só quatro horas por semana. Nas outras 30, ele começou a escrever seu primeiro livro, “A Intuicionista”, uma paródia de história de detetive que é também uma brilhante evocação do conceito de avanço racial, em uma cidade parecida com Nova York, mas algo diferente.

Ao longo de sua carreira, Whitehead vem sendo o carrancudo poeta laureado da cidade onde vive. Contraposto à sua sequência de romances e ao humor absurdo que os ilumina em lampejos, há um segundo veio, no qual ele investiga e inverte os conceitos de raça e justiça racial.

O sexto romance de Whitehead, “The Underground Railroad”, é uma narrativa histórica sobre o que aconteceu e poderia ter acontecido na vida de uma adolescente chamada Cora, que foge de uma plantação na Geórgia. Ela corre de Estado a Estado, da Carolina do Norte até Indiana e além, sempre tentando escapar de Ridgeway, um caçador de recompensas.

O livro, que sai no Brasil no mês que vem pela HarperCollins, com o título “A Ferrovia Subterrânea”, é um best-seller nos EUA, tendo chegado ao primeiro posto na lista de mais vendidos do “New York Times” e recebido críticas altamente elogiosas.

Whitehead ganhou uma das “bolsas para gênios” da Fundação MacArthur e uma série de prêmios, além de ter sido finalista em outros tantos. Com “A Ferrovia Subterrânea”, ele conquistou dois dos maiores prêmios literários dos EUA, o National Book Award, em 2016 e, nesta segunda (10), o Pulitzer.

Esta entrevista foi editada a partir de uma conversa ocorrida no palco do Festival de Escritores de Vancouver, em novembro passado.

Sunny Shokrae/The New York Times
The author Colson Whitehead at his home in New York, July 28, 2016. Whiteheadâ€Ãôs newest book, â€ÃúThe Underground Railroad,â€Ãù follows a 15-year-old slave named Cora as she escapes north via a literal network of underground tracks and trains. Oprah Winfrey made it her latest book club pick on Aug. 2. (Sunny Shokrae/The New York Times) ORG XMIT: XNYT72 ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Colson Whitehead, vencedor do Pulitzer de ficção

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Folha – Você já disse que esse livro passou muito tempo germinando. Quanto? E por que você esperou para escrevê-lo?
Colson Whitehead – Eu estava terminando de escrever “John Henry Days”, no começo de 2000, quando encontrei uma referência à Ferrovia Subterrânea e lembrei de quando tinha ouvido falar sobre ela, na quarta série. Era um termo muito evocativo. Eu a imaginava literalmente como uma ferrovia sob a terra que os escravos podiam usar para fugir, até que na escola me explicaram como era.

Parecia servir como premissa para um romance, mas não havia muita história ali, e por isso acrescentei como complicador o ingrediente de que, cada Estado que o protagonista atravessa –na época o protagonista era homem–, Carolina do Sul, Carolina do Norte, representa uma possibilidade diferente para os EUA, meio que alternativa do que poderia ter existido. A ideia parecia muito boa, mas eu sabia que, se tentasse escrevê-la naquele momento, eu não teria conseguido, porque ainda não estava maduro o bastante.

Sempre tenho essas ideias e penso “isso é realmente bom; se eu fosse um escritor melhor, conseguiria colocar no papel”. E então tento me tornar um escritor melhor para fazer jus à ideia. Sempre que concluía um livro, eu voltava à ideia e tentava decidir se estava pronto. A resposta era sempre não, e por isso eu escrevia outro livro, até cerca de dois anos e meio atrás.

Eu tinha vendido um livro à minha editora, a trama já estava delineada. A ideia parecia boa, mas o conceito da “Ferrovia” me voltava o tempo todo à mente, e ntão comentei com minha mulher. Ela respondeu: “Não quero dizer que sua ideia de um romance sobre um escritor em Brooklyn vivendo uma crise de meia-idade seja idiota, mas esse livro sobre a Ferrovia Subterrânea parece muito bom”.

Você disse uma vez que Lila Mae, de “A Intuicionista”, também começou como homem e que fez do personagem uma mulher porque isso o assustava. Qual foi o motivo para fazer do narrador do novo romance uma mulher?
Acho que sempre me esforço para não me repetir demais. Sempre que escrevo alguma coisa, termino cansado do formato. É um modo de manter o frescor das coisas para mim.

Eu tinha escrito três livros em seguida narrados por homens e, por isso, precisava mudar. Uma das primeiras narrativas de escravos que li na escola foi a de Harriet Jacobs –uma mulher que fugiu de seu dono e supostamente passou sete anos escondida em um sótão, antes de conseguir escapar da Carolina do Norte. Ela diz, no começo daquele livro, que, quando uma menina escrava chega à puberdade, começa o pior período para ela, porque se torna presa sexual do senhor de escravos, dos feitores, de outros escravos, e tem a obrigação de produzir bebês –quanto mais bebês, mais gente para colher algodão, e mais algodão queria dizer mais dinheiro. A menina era obrigada a produzir pessoas que pudessem se tornar máquinas de fazer dinheiro para o senhor de escravos.

Os terrores específicos de ser uma escrava pareciam merecer um estudo em ficção, e voltar àquela primeira inspiração me fez pensar: por que não uma protagonista mulher?

Em “John Henry Days”, “A Intuicionista” e no novo livro, você fala de como a questão racial está indelevelmente conectada à maquinaria do capitalismo. Fico imaginando se contar a história de Cora foi como que criar um antídoto para aquela maquinaria.
Todo mundo está aprisionado na máquina de diferentes maneiras. E há as pessoas que escapam, e essas são as pessoas na Ferrovia Subterrânea, como Cora –que alguém escape representa uma traição da ordem. É claramente assim que Ridgeway encara a situação. Se você permitir que muitas pessoas escapem, a sociedade escravocrata se dissolve.

Os escravos se rebelam de diferentes formas, seja cuspindo na sopa do senhor, seja fugindo. O livro é sobre o grande e heroico gesto de escapar de um sistema, um ato de verdadeira bravura, que solapa as ideias sobre as quais aquela sociedade se ergueu.

Você começou a escrever o livro em 2014, ele saiu em 2016. Você escreveu muito rápido. Como é que o processo acontece? O que acontece depois que você delineia a história?
Preciso saber o começo e o fim, mas o meio pode estar indefinido. Creio que o meu jeito nerd de pensar sobre isso é que encontrar as palavras certas a cada dia já é difícil o bastante; se você não sabe o que vai acontecer, a dificuldade dobra. A cada dia acordo e, por exemplo, descrevo o pai de Ridgeway, a ferraria. São duas páginas, um bom dia de trabalho. Descrevo Ridgeway, e como ele vai para Nova York, mais uma. Às vezes você só consegue produzir uma página, às vezes consegue fazer duas coisas diferentes. Mas me imponho uma tarefa.

Tento produzir oito páginas por semana. Hoje em dia, esse parece ser o ritmo de uma boa semana. Tenho que pegar as crianças na escola, e há dias menos produtivos, de vez em quando. Se tenho uma consulta médica às 13h, penso que nem vale a pena começar a escrever. Meço minha vida com base em quanto tempo vai demorar para que eu acabe a próxima coisa horrível que tenho de fazer. Um romance é uma dessas coisas. Estou oito páginas mais perto de terminar o trabalho. E depois tiro 18 meses de folga, para lecionar, promover meus livros ou seja lá o que for –ficar curtindo minha rabugice.

Certa vez, você disse: “não considero a história muito confiável. Há a história branca e a história negra”. Você ainda sente isso, após este livro?
Com sorte, o livro talvez possa ser um acesso para pessoas diferentes pensarem a história de maneira diferente. Não tenho um público em mente ao escrever. Estou só tentando resolver um problema meu, com esses livros.

Mas quanto a esse tema específico –escravidão e raça nos Estados Unidos–, sim, estamos todos implicados nisso. E creio que a estrutura do livro permita uma conversação diferente sobre a história.

A seção sobre a Carolina do Norte, por exemplo, foi inspirada por Harriet Jacobs. Quando as pessoas pensam sobre alguém que se esconde no sótão para escapar a um regime opressivo, pensam em Anne Frank. Como posso falar sobre a opressão dos negros em 1850, e sobre a supremacia branca em 1850, de modo que isso também fale sobre a supremacia branca nazista?

E agora não estamos falando apenas de escravidão, mas sobre toda forma de demonização do outro em épocas diferentes –como isso não muda. Há personagens brancos malévolos no livro, vilões negros, heróis negros.

Creio que, se a sua família já vivia nos Estados Unidos na época da escravidão, é difícil, como branco, contemplar o fato de que seu ta-ta-tataravô estuprou, torturou e abusou de pessoas para ganhar a vida e transferiu esse conhecimento aos filhos dele: “É assim que se ganha a vida”.

Se você é negro e está confortavelmente instalado na classe média, se representa a terceira geração de sua família a ter curso superior, se você “encontrou o sucesso”, de acordo com o padrão norte-americano para isso, de que forma deve contemplar a imensa brutalidade a que seus ancestrais foram submetidos?

A escravidão é difícil de contemplar, seja você negro ou branco. Acho que se esse livro, por causa da maneira pela qual manipulo a história, permite que as pessoas pensem diferente ou entendam diferente a nossa história compartilhada, então ele é bom.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/04/1874434-e-dificil-olhar-a-escravidao-seja-voce-branco-ou-negro-diz-vencedor-do-pulitzer.shtml