Mia Couto; “A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

O escritor moçambicano conversa com o EL PAÍS sobre escrita, política e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros

Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. “Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida”, conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.

Mia Couto descobriu-se poeta aos 14 anos — o primeiro poema foi feito para o pai e publicado sem a autorização do jovem escritor no Diário da Beira, algo que, à época, lhe fez querer “morrer de vergonha”. A prosa chegou anos mais tarde, quando começou a trabalhar como repórter em um jornal, como infiltrado da luta clandestina pela independência de Moçambique. “Aí comecei a ter a tentação de escrever, de inventar mundos paralelos”, lembra. Quando conheceu a lírica de João Guimarães Rosa, soube que ia por bom caminho. O escritor moçambicano visitou recentemente diversas capitais do Brasil para falar sobre a obra-prima do brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956), que acaba de ganhar uma nova edição da Companhia das Letras. Numa dessas vindas, conversou com o EL PAÍS, em São Paulo, sobre a influência desse livro em sua escrita, sexismo na literatura e sobre como as palavras reinventam-se e seguem vivas, firmes, mesmo quando tudo ao redor se destrói.

Pergunta. Quando você conheceu a literatura de Guimarães Rosa?

Resposta.  Ele chegou a mim através de Luandino Vieira, um escritor angolano que me influenciou muito. Meu primeiro livro de contos foi muito marcado pela escrita do Luandino, que deixava que as vozes da rua entrassem na história e fossem elas próprias personagens. E um dia ele falou comigo e disse: “Vai até a fonte, que está no Brasil. Eu mesmo fui influenciado pelo Guimarães Rosa”. Em 1985, quando Moçambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu não conseguia ter ligação com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotocópia d’A terceira margem do rio. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a própria vocação de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimarães. Depois fiquei anos tentando voltar e encontrá-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a Grande Sertão: Veredas. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro não foi fácil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. É como se de repente houvesse uma revelação, não sobre o que ele estava contando, mas sobre mim próprio.

P. Qual foi essa revelação?

R.  O que o Guimarães fez foi uma abertura de caminho, uma espécie de luz verde, uma autorização, dizendo “você pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim”, deixando que as vozes chamadas não cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na história e no próprio narrador. Quando cheguei a Grande Sertão, eu já estava embriagado dessa literatura.

P. Dar esse protagonismo às vozes das personagens, como se brotassem sozinhas das páginas do livro, é a grande contribuição de Guimarães Rosa à literatura lusófona?

R. Eu acho que tudo o que ele faz é quase um milagre, principalmente tendo o pé em uma coisa muito perigosa, que é o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debruçando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interrogações da humanidade. Do ponto de vista da literatura lusófona africana, foi uma contribuição mais ao nível do tratamento linguístico, ver como ele contava aquilo por meio de uma linguagem poética.

P.  Qual seu trecho favorito de Grande Sertão?

R. É o momento em que o Riobaldo sobe numa grande pedra, olha para o vão abaixo e diz que parece que é como se a gente tivesse um brinquedo, que é o mundo. Essa coisa de transformar o mundo em uma coisa com a qual podemos brincar é uma espécie de revolução de uma infância que foi tolhida. Isso me tocou.

P. Vê similaridades entre sua obra e a de Guimarães Rosa?

“Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor”

R.  Acho que não tem muita coisa. Só isso que eu, agora já menos, mas em um certo momento deixei-me encantar por essa brincriação, que era jogar com as palavras, reinventá-las, muito motivado por uma coisa que vem de dentro. Isto é, os moçambicanos têm vivas e falam em seu cotidiano outras línguas que não o português, e há um momento muito feliz para um escritor, que é perceber que sua língua não está acabada, não está feita. Por exemplo, eu todo dia recolho palavras novas na rua, palavras que não são criações literárias. Isso é um alimento muito grande. Por exemplo, as pessoas dizem arrumário para dizer armário. A palavra arrumário tem muito mais sentido, não só porque é o lugar onde arrumamos as coisas, mas porque, se revisitarmos a história, o armário era o lugar onde se guardavam as armas. Essa relação da língua com uma coisa que é nossa, mas não é, que tem profundidade e história, é muito salutar para nos reportarmos ao que Guimarães Rosa dizia sobre o malefício de uma linguagem funcional, uma linguagem que serve só para uma comunicação imediata.

P. O contato com a literatura brasileira tem ampliado seu vocabulário de brincriação?

R. Sim, porque o Brasil tem esse desafio de dizer sua cultura em uma língua que era a língua do outro. O país teve que encontrar isso, então há uma relação muito mais criativa, de fruição da língua portuguesa, mais do que existe em Portugal, onde o idioma é tão próprio que é difícil brincar com ele.

P. Quais são os brasileiros e brasileiras que você mais lê?

R. Eu sou da poesia e fico estagnado no tempo, então sou muito ligado também ao Carlos Drummond de Andrade, ao João Cabral de Melo Neto mais ainda, à Hilda Hilst, Manoel de Barros…

P. Do que escreveria se fosse brasileiro?

R. Não sei. Vejo, sobretudo aqui em São Paulo, uma nova geração que vive um lado da escrita muito curioso, uma escrita sem lugar, que fala sobre o próprio drama do escritor, que não precisa tanto de uma história. Eu não seria capaz de fazer isso, porque eu teria que viver em uma grande cidade como esta, o que me arrancaria da relação com a terra, a terra como se fosse uma criatura viva. Eu teria que escrever sobre o sertão, como o Guimarães (risos), porque ele conseguiu essa relação com um lugar que não é lugar nenhum, que ele inventou a partir de vozes que dizem coisas poderosas.

P. Você já disse que na África não há realismo mágico, mas sim um “realismo real”. Acredita que acontece o mesmo no Brasil?

R.  Vejo muito a África nas pessoas daqui, mesmo naquelas que, aparentemente, não têm relação histórica com o continente. A África impregnou muito o Brasil, desde a relação com o tempo, com o corpo, essa fronteira muito fluída entre a rua e a casa, o íntimo e o público, não é? A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam.

Podemos escrever uns sobre os outros. Antes, havia uma interdição: os africanos que escrevessem sobre Europa ou América não eram considerados, porque existia aquela obrigação de o africano ser “autêntico”. Não sabemos o que é isso de ser “autêntico”, mas, para atender aos critérios de aceitação da crítica, pediam uma “África tradicional”, tinha que ter uma fogueira, uma feiticeira e esse tipo de estereótipo que identifica uma “África autêntica”. A nova geração de escritores africanos libertou-se dessa africanidade imposta desde fora e hoje há muitos escrevendo sobre o mundo inteiro.

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Mia Couto, durante a entrevista. CAMILA SVENSON

Um africano pode escrever sobre o Brasil, mas não é o meu caso. Porque eu transportaria tanto a minha infância para qualquer lugar que eu fosse, que estaria sempre escrevendo num mesmo lugar, que é minha cidade. Agora que aconteceu o ciclone, percebi como isso tudo que era um chão que parecia estável, que parecia definitivo, de repente pode fazer-se frágil. Entrei em pânico, porque pensei que tinha perdido meu lugar de infância, mas quando visitei a Beira, percebi que uma cidade é feita, sobretudo, de pessoas. E as pessoas estavam ali, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar histórias. Ali eu percebi que não, não acabou.

P. Uma parte de seu futuro romance se passa em uma igreja de Beira, que foi destruída pelo ciclone Idai. De que modo isso lhe afetou?

R. Agora que tive tempo de pensar minha relação com a escrita do Guimarães Rosa, vi que, no fundo, o que ele entrega é essa possibilidade nossa de fazermos de um lugar uma coisa sonhada, alguma coisa que é mítica, que não faz parte da geografia. Percebi que essa minha cidade é uma cidade que inventei. Aliás, isso é muito concreto, porque quando estou a falar com meus irmãos com muito entusiasmo sobre coisas que se passaram na nossa infância, eles me dizem “não foi assim, nunca aconteceu isso”. Eu ignoro, porque, para mim, aconteceu.

P. Você pensou em contar as histórias de sobrevivência de Beira, tanto das pessoas quanto de sua cultura, depois do ciclone?

R. De repente, tenho que repensar o romance que já comecei, e tenho um certo pudor em me aproveitar da circunstância dramática. Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor. Se eu faço qualquer coisa em relação a esse tema, será como cidadão, ajudando os outros, sem interesse literário. Pensei, sim, em fazer um registro daquelas pessoas foram heróis, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca terão protagonismo. Penso em fazer isso de maneira prática e didática para contar aos jovens que há gente que não tem rosto nem nome, mas que é capaz de gestos como esses. Eu e minha família [por meio da Fundação Mia Couto] faremos um livrinho com o depoimento dessas pessoas.

P. O romance, então, está provisoriamente suspenso?

R. Tenho que repensá-lo. E eu cheguei a um momento que é muito triste para mim, que é quando já sei o que vai acontecer, então adio o máximo possível. Como ter vontade de escrever se eu já sei o que é a história?

P. A nova obra já tem nome?

R.   Eu vou dando nome aos livros à medida que eles vão se revelando. O nome que estava vivo, que me guiava, era um nome quase premonitório em relação a essa situação, porque era algo como Antes de nascer, vi rios e mares. E, de fato, foram rios e mares que engoliram aquela cidade.

P. Você diz-se surpreso com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro à Moçambique depois da tragédia, considerando os laços culturais e históricos entre ambos países. Considerou-a pequena. [Além da ajuda financeira, o Governo enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho, e decidiu manter a equipe de salvamento no país depois que o ciclone Kenneth, o segundo desde março, atingiu o norte de Moçambique nas últimas semanas].

R.  Sim, mas gostaria de dizer uma coisa também para me defender, porque parece que é pouco polido da minha parte, estando Moçambique a receber e eu a dizer que é pouco. Mas realmente esperávamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fração dessa gente que telefonou e escreveu já cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro.

“A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

Mas acho que mais grave até do que o Governo dar pouco, foi como a notícia chegou tão tardiamente aqui. Falei com amigos brasileiros que só uma semana depois da tragédia acordaram para uma coisa que, em outros países, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, já contavam. Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distantes, já estivemos mais próximos.

Quando eu cheguei aqui há 15 anos, a África ainda era muito mistificada, mas isso mudou com políticas de aproximação do Governo Lula, por exemplo. Por outro lado, o próprio Brasil é muito grande para perceber o que está a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que é difícil olhar para fora, e esse fora tem um critério, obviamente: estar mais próximo dos Estados Unidos e da Europa. O país não se reconhece nem na chamada América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente.

P. Qual o papel da literatura para o país reconhecer a si mesmo?

R. Em Moçambique, como a África como “grande mãe” está sempre tão presente, tivemos que desmistificá-la e perceber que há várias Áfricas, várias nações, e contar essa diversidade.

P.  Em Terra Sonâmbula, você conta a guerra civil moçambicana e defende que a literatura tem a missão de revisitar o passado, mas sem a tentação de atribuir culpas. De que maneira política e literatura relacionam-se e como a primeira deve refletir a atualidade?

R. Tanto a política quanto a literatura são construções narrativas. Mas a construção da narrativa literária é uma mentira que não mente, enquanto a política faz o inverso. É discutir a verdade, pensar como hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio. A literatura pode mostrar esses que são chamados “os outros” —essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos. A literatura lembra a importância do diálogo. Nós chegamos a essa conclusão em Moçambique depois de uma guerra civil que começou com a diabolização do outro, até o ponto em que eu não falava com determinada pessoa só porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milhão de mortos depois, a gente viu que teríamos que conversar.

P. É possível escrever sobre o passado sem apontar culpas mesmo revisitando episódios como, por exemplo, uma ditadura militar?

R. O que a literatura pode fazer é mostrar que aquele que estava do outro lado, apesar de tudo, mesmo que fosse um torturador, por exemplo, tinha conflitos internos. Que ele não era assim porque tinha um demônio dentro de si. Mas isso não tem a ver com o que podemos ajuizar como justificável. A literatura não pode atenuar o peso que as vítimas têm. O sangue que essa gente derramou não pode ser lavado por meio da literatura.

P. Aos 17 anos, você abandonou a faculdade de Medicina para alistar-se à luta clandestina pela independência de Moçambique. De que maneira a militância política influenciou seu trabalho? Quando escreve, você ainda é aquele rapaz de 17 anos?

R.  Eu acho que sou sempre, mesmo quando não estou escrevendo. Aquela entrega a uma causa me marcou muito, porque eu tinha a crença absoluta de que estava fazendo uma coisa que não era por mim, mas pelos outros, para mudar o mundo, mesmo que uma parte desse mundo tombasse em cima de mim, porque eu fazia parte de uma minoria privilegiada e eu queria derrubar o sistema que sustentava esse privilégio. Era uma coisa que, para mim, não sendo eu religioso e tendo uma formação como ateu, não tenha escapado a essa ideia cristã de me redimir com qualquer coisa que traga como pecado original, não sei. Eu me alistei porque havia também uma razão moral. Nosso lema era “somos os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios”. Isso foi verdade nos primeiros anos. Quando chegou a guerra civil, não havia o que comer. Eu estava na fila, esperando horas para uma pequena loja abrir e, muitas vezes, não havia nada dentro. Não quero nunca mais passar por essa experiência. Eu saía de casa todos os dias sem saber o que ia trazer de comer para os meus filhos, e isso durou não um dia ou um mês, mas anos. Só suportamos isso porque sabíamos que estávamos juntos.

P. Por falar em privilégios, quando se fala hoje em literatura africana, temos autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, mas os nomes mais venerados ainda são aqueles como Mia Couto, José Eduardo Agualusa ou J. M. Coetzee. É preciso ser um homem branco para ser considerado escritor na África?

R.  Isso vai acabar rapidamente. É uma herança histórica que a atual geração de escritores africanos vai enterrar. Eu e Agualusa somos resultados desse mundo em que nós [homens brancos] éramos os educados, os que recebíamos formação, mas isso já está mudando. Todos os escritores moçambicanos que eu conheço são negros. Alguns deles têm, realmente, grande mérito. Está a surgir em Moçambique e Angola uma educação para que as pessoas dominem a literatura e os instrumentos para escrever, então não é tanto uma questão política, nesse sentido.

Acredito que talvez haja, sim, a percepção de que eu e Agualusa, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha família criamos uma Fundação para promover a literatura entre jovens moçambicanos —e quando digo moçambicanos, automaticamente estou a dizer negros— e ajudá-los a publicar seus livros e construir espaços de debate literário.

Em relação ao sexismo, aí sim a luta é mais complicada. Estão vivos ainda preceitos e preconceitos que realmente afastam a mulher desse reconhecimento. Temos a Paulina Chiziane, que, felizmente, já está lançada no mundo e é bem aceita. Mas, no início, por ser mulher e por acreditar que uma mulher possa contar histórias e que possa falar de coisas da intimidade, da sexualidade, ela sofreu muito e quase fez um auto-exílio.

P. Seu nome é um dos mais celebrados quando se fala em literatura lusófona. Em 2013, você ganhou o Prêmio Camões, assim como José Saramago. Você sonha com honrarias maiores? O Nobel, talvez?

R. Não penso nisso, não. E, quando penso, penso que é impossível.

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/cultura/1555598858_754829.html

Mia Couto: Moçambique tem que se preparar de forma muito séria e consistente

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José Luís Mendonça

Mia Couto esteve em Luanda no passado sábado, 6 de Abril, numa sessão intensiva de trabalho, com os escritores José Eduardo Agualusa e Cynthia Perez, para criaram três livros infantis apresentados na Rádio LAC, uma iniciativa do Goethe-Institut Angola. O Jornal de Angola entrevistou o escritor moçambicano que acaba de publicar “O Bebedor de Horizontes”, um livro que desenterra do passado colonial a figura do Imperador Ngungunyane. Com este livro, o autor propõe que se olhe para o passado de modo menos politizado. A excessiva politização da história que os africanos vão fazendo mostra-nos, segundo o autor, que não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Actualmente existe uma mudança positiva, embora, diz o escritor, tenha chegado tarde. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. Assim pensa o autor moçambicano, que tem em Luandino Vieira, o primeiro escritor que o desafiou na busca de uma escrita que integrasse a oralidade.

Escritor moçambicano Mia Couto
Fotografia: DR

Mia Couto adoptou este pseudónimo devido à sua paixão pelos gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome. Ainda gosta de gatos? Tem-nos em casa?

Gosto de animais, mas não como criaturas domésticas. Gosto de bichos mas quero manter com eles uma relação em que espero que eles sejam animais e, assim sendo, me ajudem a ser mais humano. Tenho cães, se é que se pode dizer que se “tem” cão. E por essa razão, os cães é que fazem as suas escolhas. E escolheram não ter a companhia dos gatos.

Com 14 anos de idade, publicou poemas no jornal Notícias da Beira. Em 1983, publica o seu primeiro livro de poesias Raiz de Orvalho. Você próprio um dia disse: “Eu sou da poesia”. Como e de onde nasceu esse afecto pela Poesia?

A poesia vivia em minha casa. O meu pai era poeta, não apenas porque escrevia versos. Mas porque vivia de forma poética. O que quer dizer que ele ensinou-nos a dar valor às coisas que passavam desapercebidas. Às coisas que, na aparência, não tinham valor. Reaprendi essa lição quando encontrei a poesia de Manoel de Barros que mostra como descobrir beleza no meio da poeira.

No Poema Da Despedida, você diz: “Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei ainda assim,escrevo.” Contudo, a sua palavra alcançou o Mundo, tendo a sua obra sido traduzida em mais de 20 países. Além do mérito reconhecido e do percurso editorial, valeu a pena ter escrito?
Valeu. Eu acho que nenhuma outra coisa que eu faça me dá tanto sentido de realização. Há algo que insisto em dizer aos mais jovens. Não busquem fama, nem glória. O que vale é o gosto que temos em ser escritores, o que vale é termos amigos e não fãs.

No livro Mar Me Quer, o narrador fala assim para Luarmina: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.” Você acredita na eternidade, não só do homem, mas de toda a Vida?

A eternidade é alcançada em momentos de absoluta felicidade. São instantes em que podemos ser inteiros. E isso quase sempre se faz em harmonia com os outros, com quem amamos, com o que nos comove por uma razão de beleza.

João Passarinheiro, em Todo o Homem é Uma Raça, diz: “Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual.” Você, enquanto biólogo, pode explicar porque é que o ser humano, dono de tanta beleza que é a cor da pele, se implica tanto com a sua diversidade biológica?

Cada vez mais, a ciência nos ensina que grande parte do nosso corpo não é composto por células humanas. Nós, humanos, somos feitos por outros organismos que não tem material genético hu-mano. Não vivem connosco apenas. Nós somos eles. Esta descoberta tem repercussões fundamentais no modo como nos pensamos e como pensamos o mundo. A biodiversidade não está fora de nós. Está dentro. Há muito que a ciência biológica sabe que, quando se fala de espécie humana, o conceito “raça” não se aplica. Há mais diversidade dentro de um grupo que chamamos da mesma raça do que entre grupo e outros. O que quer dizer que dentro da chamada raça branca (é só um exemplo) há mais diversidade genética do que entre essa raça e qualquer outra raça. Aquilo que chamamos de diversidade é apenas um outro nome da própria vida.

O seu livro Cronicando mereceu um prémio da Organização dos Jornalistas Moçambicanos, em 1989. Além do seu carácter moralizante, as suas crónicas e intervenções públicas fazem também a denúncia da pobreza e da corrupção em Moçambique. A que se deve essa sua preocupação com as violações dos direitos humanos?

Não sei ficar calado, não sei aceitar a injustiça. Sei o que devo fazer como escritor. A minha obrigação de cidadão não se esgota no exercício da literatura. Mas não confundo a minha intervenção cívica com o que faço como escritor. Em Moçambique, colaboro com jornais, vou a escolas, intervenho nas redes sociais e nos espaços de debate público. O mais importante não é tanto o que se defende nesse espaço, mas a sugestão de que o importante é a discussão franca e aberta de ideias. E não o ataque pessoal, não a imposição da razão pela autoridade e pelo medo.

Numa entrevista, você diz que “O dinheiro não está ligado nunca às coisas do espírito. É a antítese do mundo real, onde tudo é comprável e as pessoas têm sempre um preço. Mesmo em Moçambique, apesar da importância que se atribui aos espíritos e à relação com os antepassados.” O falhanço na edificação do Estado africano terá algo a ver com a desatenção dada ao espírito, nas suas várias nuances (Educação, Cultura, etc.)?

Eu creio que os países africanos não tiveram tempo para completar essa edificação de um Estado central. Não chamaria a isso um “Estado Africano” porque não sei bem se temos um consenso sobre o que isso seria. Mas nós estamos também a pagar o preço de termos importado um modelo de Estado copiado dos Estados colonizadores. Não houve tempo (e se calhar não houve vontade) para pensar que tipo de Estado nos convinha erguer. Mas tudo isso não pode ser discutido se não aceitarmos que os nossos modos de produzir riqueza não mudaram tanto assim depois das independências. Extraímos matéria prima que exportamos para o Primeiro Mundo que depois nos revende de forma manufacturada. Essa era a base da economia colonial.

Será essa desatenção ou aversão que leva os políticos no poder a rejeitarem as propostas e as vozes críticas dos intelectuais africanos?

Eu creio que existe uma mudança positiva. Chegou tarde, em muitos casos. Mas resta pouco espaço para regimes autoritários, mesmo dos que exercem repressão em nome da sua pretensa legitimidade histórica. As novas gerações dos países africanos não viveram a opressão colonial. Muitos já não fizeram a luta pelas independências. Esses jovens estão ligados ao mundo, sabem como funcionam os outros países e como a liberdade se pode conquistar. A questão já não é dos intelectuais. A questão também não é a forma como os regimes rejeitam as vozes críticas. A questão é inversa: como as vozes críticas rejeitam os poderes autoritários.

Será essa constatação que o levou, tal como Pepetela, a afastar-se da actuação política directa? Para si, quem são o herói e o vilão hoje em Moçambique?
Fui membro da FRELIMO durante anos. Muito do que sou aprendi nessa luta. Mas devo dizer que, mais do que os lemas políticos, havia imperativos éticos que me motivaram. Um deles era este: a FRELIMO defendia o princípio de que um militante devia ser o primeiro no sacrifício e o último nos benefícios. Durante um tempo isso foi verdade. Mas depois, tudo se adulterou. E hoje quem está no poder acredita ser legítimo servir-se e não servir os outros. Não acontece evidentemente em Moçambique apenas. Deixei de ser membro de um partido mas não abandonei a defesa dos princípios éticos que me fizeram ser militante.

Um personagem de Germano Almeida diz num dos seus romances que a falta de pontualidade é um dos factores de atraso do Continente. Já Samora Machel vivia preocupado com este problema. Esta falta de pontualidade que Pepetela diz ser para os dirigentes vincarem o seu poder, não terá nada a ver com a idiossincrasia do africano? Como é que podemos mudar este modo de pensar e agir?

Não creio que se possa falar da idiossincrasia do “africano”. Há milhões de africanos e cada um tem a sua identidade pessoal. Eu acho que a pontualidade é algo que só existe quando é criado e alimentado numa dada sociedade. Para isso há que dar o exemplo. Quando os nossos pais nos ensinarem o valor do tempo, quando os nosso chefes derem o exemplo na pontualidade então deixaremos para trás isso que pensávamos ser da nossa idiossincrasia. E repare, a pontualidade não tem a ver com o Tempo. Tem a ver com o respeito pelos outros, por esses que são obrigados a ficar à espera.

O seu romance O Bebedor de Horizontes faz uma re-trospectiva ficcional da História de Moçambique, indo desenterrar ao passado colonial a vida de Ngungunyane, preso em Dezembro de 1895 em Chaimite. Porque é que a figura do Imperador Ngungunyane o apaixonou? Tem esse livro alguma lição para os poderes estabelecidos em Moçambique?

Existem vários recados nessa obra. Talvez o mais importante seja que devemos olhar para o nosso passado de modo menos politizado. A nossa História oficial, aquela que ensinamos na escola, é uma narrativa simplificada que deitou fora outras narrativas paralelas mas que não serviam certos interesses. A nossa história está cheia de histórias silenciadas. É muito mais rica e complexa do que aquilo que surge no discurso patrioteiro que nos ensinaram.

A Água e a Águia é o seu mais recente livro infantil saído no ano passado. E não é o único. Que ingredientes deve ter uma boa estória para crianças?
Deve ter beleza, como qualquer obra literária. Existe uma tendência para minimizar a capacidade de en-tendimento das crianças. Então, explica-se o que só pode ser sugerido, simplifica-se aquilo que imaginamos que as crianças não en-tendem. O resultado são obras moralistas e paternalistas que perdem o mistério e o fascínio que as crianças naturalmente buscam.

Em A Confissão da Leoa você levanta, de forma mais completa, a problemática da Mu-lher em África e no Mundo. Com o crescimento da po-breza, cresce também o co-mércio do sexo, a chamada profissão mais antiga do Mundo. Se Mia Couto fosse mulher e pobre em Moçambique, como fugiria desta profissão, muitas vezes a última alternativa para sobreviver?

Eu responderia que, quando escrevo, sou mulher e sou pobre. Como sou qualquer outro personagem dos meus livros. Eu vejo que a prostituição é bem mais vasta que o comércio que erradamente se atribui apenas às mulheres. Raramente se fala em prostitutos mas há tantos ou mais homens do que mulheres que se prostituem. E falo apenas do ponto de visto da venda do corpo para o sexo. Mas existe a prostituição moral e essa não é domínio exclusivo dos po-bres. Quantos são hoje ricos porque se prostituíram? A fuga, como você lhe chama, depende muito da construção de uma sociedade que se constrói com verdade sobre valores morais.

Luandino Vieira teve alguma influência no seu estilo de “falinventar” o português e na reinvenção da narrativa africana, como observamos nas Estórias Abensonhadas?

Sem dúvida. Foi Luandino o primeiro escritor a me desafiar na busca de uma escrita que integrasse a oralidade. Faço questão de invocar o nome deste que foi um dos instigadores do meu caminho. Há escritores que se esquecem dos seus mestres. Quando se tornam mais conhecidos deixam de mencionar aqueles que foram as suas referências. Não será o meu caso.

Em 2014, Mia Couto ganhou o Prémio Neustadt International Prize for Literature, considerado o Nobel americano. Você acredita que se não tivesse sido traduzido para o inglês, teria alguma vez ganho este prémio? Como é que podemos, nós, escritores africanos de língua portuguesa, sair do gheto edi-
torial, quando não temos possibilidades de ser publicados no estrangeiro?

Tem razão. Se eu não tivesse sido publicado em inglês, (e diria por certas editoras) eu não teria visibilidade para que o júri do Prémio Neustad tivesse pensado no meu nome. É uma injustiça? Sim, é. Mas todos sa-bemos da hegemonia da língua inglesa e de como os prémios actuam associados aos mercados do livro. Mas temos que deixar de chorar. Eu creio que te-remos que organizar nos nossos próprios países formas de nos tornar mais visíveis. Os africanos po-diam explorar melhor plataformas de visibilidade internacional como é, por exemplo o Prémio Camões. Mas na verdade, não nos interessamos em prestigiar esse galardão. Quais são os países africanos que contribuem financeiramente para este prémio? Nenhum. Queixamo-nos muito e fazemos pouco. É preciso dizer que para esse prémio Neustad eu fui proposto por uma escritora africana, de nacionalidade etíope. Temos que ter um trabalho paciente mas firme de nos valorizar enquanto continente.

Líderes dos processos são determinantes

Quando recebeu o Prémio Camões, você celebrou “o que há ainda por fazer, (…) para que seja mais viva e mais verdadeira esta família que celebramos na nossa língua comum”. Porque é que a literatura dos PALOP é tão cara e tem tão pouca circulação nos nossos países e como ultrapassar esta situação?
Essa pergunta deve ser dirigida aos que mandam no mercado editorial. Os governos demitiram-se desta matéria. É um daqueles assuntos em que os Estados deram um passo atrás e entregaram tudo à lógica dos mercados. Tenho esperança que os livros possam circular por outras vias.

Após o desastre causado pelo Ciclone Idai, o representante da Renamo em Portugal considerou que o Governo falhou no combate à prevenção. Como biólogo, você concorda ou discorda deste pronunciamento? Porquê?

Eu creio que não seja muito edificante procurar, neste momento, culpas e desculpas. Ainda por cima, fazendo isso roupa suja a ser lavada fora de casa. Moçambique tem que se preparar de forma muito séria e consistente. Ocorrem em média três ciclones de grande escala por ano no Canal de Moçambique. Alguns destes ciclones atingem inevitavelmente a costa de Moçambique que é muito extensa e muito vulnerável. Moçambique tem que ter sistemas de prevenção e resposta instalados e isso é urgente e uma das lições que se deve retirar desta ocorrência. Mas é preciso dizer que a escala deste ciclone e das enxurradas que se seguiram é algo de proporções que superam as capacidades da maior partes dos países.

Angola e Moçambique têm uma experiência política muito parecida. Filipe Nyusi e João Lourenço estão am-bos empenhados no combate sem tréguas contra a corrupção. Que diferença representa, neste comba-te, a leveza das instituições de controle e fiscalização da economia, nascidas de uma situação de monopólio dos poderes políticos pelo Executivo?

As pessoas que lideram os processos são, num dado momentos, determinantes. E que estes processos sejam consistentes; eles não podem depender de vontades pessoais. Deve ser um processo institucional. Mas deve ser também um combate pela criação de valores morais, desde a mais tenra idade. É preciso entender que se deixou que a corrupção se convertesse num sistema que é vivido desde casa e desde a escola como a normalidade.

Fonte: http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/a-luta-contra-a-corrupcao-deve-ser-tambem-um-combate-pela-criacao-de-valores-morais

Negro também é gente, Sinhá

monteiro lobatFolha de São Paulo, 10 de fevereiro de 2019

“Negro também é gente, Sinhá”
Revisitando a polêmica sobre o racismo nos livros infantis de Monteiro Lobato
Lucilene Reginaldo
(Professora do Departamento de História da UNICAMP)
No último domingo, Jorge Coli publicou em sua coluna na Ilustríssima o texto intitulado “Viva Lobato!” O artigo festeja a boa notícia de que as obras de Monteiro Lobato estão agora em domínio público. Coli retoma um debate que eu havia acompanhado com interesse em 2010, provocado pela denúncia de conteúdo racista do livro Caçadas de Pedrinho protocolada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Educação. Da denúncia resultou um parecer técnico solicitado pelo próprio MEC, que recomendou a permanência do livro no Programa Nacional de Biblioteca da Escola com a seguinte advertência: “A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.
A recomendação deu publicidade ao assunto e levou a polêmica ao grande público. Escritores de prestígio como Ziraldo e Ana Maria Gonçalves se manifestaram publicamente. O primeiro defendendo a importância da obra de Lobato para sua e outras gerações de brasileiros; a segunda explicitando o conteúdo racista e alertando para seus efeitos danosos nas crianças negras.
Ao ler o texto de Jorge Coli, fiquei impactada com uma afirmação: “Só quem não leu ou não compreendeu os livros infantis de Lobato pode julgá-los racistas”. Respeitosamente, quero discordar do meu colega. Minha argumentação seguirá dois fios condutores. Primeiro, quero mencionar uma experiência pessoal, algo que não é do meu feitio, mas creio que é apropriado para a ocasião. Depois, da perspectiva de alguém que, nos últimos anos, tem estudado a história do racismo.
Em 2010, instigada pela polêmica, resolvi ler Caçadas de Pedrinho para meu filho, com seis anos na época. A coleção de clássicos de Monteiro Lobato estava lá na sua pequena biblioteca, e já não me recordo se foi presente ou aquisição. Eu mesma tinha lido as estórias de Lobato na infância, numa daquelas edições que os vendedores de enciclopédias ofereciam de porta em porta nos bairros populares. Sinceramente, não me lembro do impacto de Lobato na leitora infantil. Recordo bem da série televisiva, uma versão já adaptada e depurada da obra. Juntei a fome com a vontade de comer. Ler Lobato para meu filho, além do prazer materno cultivado ao longo dos anos, seria também uma oportunidade de “checar” e me posicionar no debate.
Confesso que foi uma experiência inusitada para uma mãe historiadora. Não encasquetei apenas com a frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”. Tia Nastácia era sempre a “bola da vez”: ingênua, simplória, medrosa, serviçal e alvo de racismo e discriminações explícitas. Tudo em perfeita consonância com a hierarquia racial: na base da pirâmide, a mulher negra. Para a onça que atacava os moradores do sítio, Tia Nastácia é “furrundu”, um doce feito com mamão verde, rapadura, cravo e
canela, portanto preto. No calor da guerra com as onças, Emília, a bonequinha esperta e independente, comenta: “Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem a carne preta”. O que mais me incomodava era que Tia Nastácia era adjetivada como negra, preta o tempo todo. Só ela tinha cor, apenas nela a cor se colava como uma marca indelével, mesmo que fosse “a boa negra”. Negra é vocativo, como bem interpreta Ana Maria Gonçalves. As expressões bradejavam contra tudo que nossa família buscava ensinar a um menino negro de seis anos. Por isso, confesso, omiti, cortei palavras, adaptei e editei alguns trechos. Logo eu, defensora do pensamento livre!
Não pretendo discorrer sobre o entusiasmo de Lobato com as ideias eugenistas para demonstrar seu racismo – que está, sim, expresso em sua obra ficcional. Muitos intelectuais já o fizeram com muito mais propriedade e competência. Entre 1918 e 1946, Lobato manteve correspondência constante com Renato Kehl, diretor associado da Sociedade Eugênica de São Paulo. Como ciência, a eugenia reconhecia a existência de qualidades raciais inatas e hierarquizadas; como movimento social, formulou toda uma agenda de intervenções no âmbito da higiene, dos comportamentos, da saúde mental e da educação. Seu objetivo era “melhorar” a composição hereditária de uma sociedade, encorajando a reprodução dos grupos aptos, desencorajando ou prevenindo a reprodução dos inaptos.
A adesão eufórica de Lobato aos “nobres ideais eugênicos”, palavras do próprio autor na primeira missiva enviada a Renato Kehl, elucida o desenraizamento familiar de Tia Nastácia e Tio Barnabé. Os dois não têm pais, irmãos ou filhos; seus únicos vínculos afetivos são com os personagens do Sítio, na condição de serviçais. O bom negro e a boa negra são estéreis. A desejada eliminação do elemento negro – visando o avanço da civilização e o bem público, é claro – assim como a defesa da subalternidade das gentes de cor foram explicitadas por Lobato sem qualquer pudor. Em 1928, quando era adido comercial do Brasil em Washington, Monteiro Lobato enviou uma carta ao amigo Antonio Neiva explicando por que não escrevia crônicas sobre suas impressões e vivência nos Estados Unidos. Após comentários pouco delicados sobre a imprensa e os leitores brasileiros, a primeira lhe parecia “um circo mambembe”, e seu público “um bando de moleques feeble-minded” (estúpidos, em bom português), Lobato lamenta nossa triste condição racial. “País de mestiços, onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para os altos destinos. (…). Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor, porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”. O manuscrito original desta carta citada na dissertação de mestrado “Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”: raça, eugenia e nação, de Paula Habib, está no acervo do CPDOC – Fundação Getúlio Vargas/RJ. Diante destes fatos, e mesmo reconhecendo que “a arte é sempre maior que o artista”, é difícil cindir autor e obra.
Lobato era um homem do seu tempo. Usando uma expressão que já virou lugar comum, surfava na onda das teorias científicas e do pensamento social dominantes na primeira metade do século XX. Não era o único intelectual e literato racista e eugenista, muito pelo contrário. Poderia aqui apresentar uma lista de entusiastas do racismo
científico. Alguns dos quais leio e releio por dever de ofício e particular interesse por suas contribuições intelectuais.
Mas o que difere Monteiro Lobato da maioria destes homens de letras, entre outras tantas variáveis, é o público leitor privilegiado, os objetivos da leitura. Para não me alongar demais, mas também por certo pudor acadêmico e disciplinar, não entrarei no debate sobre o homem e sua obra de inquestionável valor literário, sofisticação, além de outros atributos críticos. Isso para mim é obvio. Certamente, Lobato é mais do que uma fonte para os estudiosos do eugenismo, do pensamento social e da história da literatura no Brasil. Assim, não vejo por que a recomendação de 2010 não possa ser levada a sério na introdução de seus livros para o público infantil. A questão não é censurar Lobato, não se trata de forma alguma de banir seus escritos por racismo. Uma boa solução é recorrer às edições críticas, que não é prática desconhecida entre os editores. Isso aconteceu com Tintim no Congo, a popular revista em quadrinhos produzida no bojo do colonialismo belga, portanto, plasmada pela explicitação de estereótipos e preconceitos contra os africanos. Após vários debates públicos em diferentes países da Europa, esta obra tem sido publicada criticamente. No Brasil, a Companhia das Letras, que tem os direitos de publicação de Tintim, também apresenta uma nota crítica situando o autor, a obra e a história do colonialismo belga.
Hoje, aos 14 anos, meu filho, assim como muitos meninos e meninas negros – ou não – da mesma idade, pode ler Monteiro Lobato e outros “homens de seu tempo”, sem minha constrangida edição, talvez até se posicionar diante do autor e da obra. Com ajuda de uma nota crítica, talvez seja mais fácil até para os mais novos. Aos seis anos, não havia autor nem obra, apenas personagens com os quais ele vibrava, se identificava ou repelia. Não quero crer que seja necessário ter um filho negro para ser sensível aos malefícios do racismo na formação de uma criança. E acho também que estamos – ou deveríamos estar – longe de querer que um garoto (ou garota) negro aprenda com Nastácia qual é o seu lugar no mundo. Evidentemente, autor e obra são complexos, contraditórios, ambíguos, assim como o leitor pode subverter e se apropriar do texto a seu modo. “Negro também é gente, Sinhá”, afirma Nastácia. Esta é a frase que encerra Caçadas de Pedrinho. A personagem é assertiva – pelo menos aos olhos desta leitora, talvez apesar do autor. Mas nem como mãe, nem como estudiosa do racismo, posso concordar que, depois de afirmar minha humanidade, tenha que reverenciar uma “sinhá”!

Manuel Rui, escritor angolano:“Neto era um comandante poderoso, com carisma e alto astral”

Pertence à geração que proclamou a Independência Nacional e esteve no centro dos acontecimentos da época, tanto na qualidade de ministro da Informação do Governo de Transição como de alto responsável do MPLA. Escritor consagrado, autor da letra do hino nacional, Manuel Rui tem opinião qualificada sobre a história recente e o momento actual do país. “Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias”, afirma.

É autor de letras de músicas, algumas com muito sucesso de público. Como é o seu processo de participação nas músicas?
Eu faço letras em cima de músicas e as pessoas dizem que é difícil. Prefiro que me dêem uma música para eu passar uma letra em cima. A pessoa dá-me a música e eu passo a letra em cima. Ao criar o hino da UCCLA, fiz uma letra que tinha estrofes com x sílabas e depois outra com menos sílabas e o músico meu amigo disse-me que não gostava de trabalhar assim, com sílabas… Eu disse que não era problema nenhum, “dá-me a música e eu ponho o mesmo conteúdo, as mesmas palavras dessa letra nas sílabas que me trouxeres”… O “Pôr do sol”, do André Mingas… eu fui a casa dele e ele disse-me “tenho aqui uma coisa para te mostrar, que fiz agora”… Tocou a primeira frase, pedi-lhe papel e em dez minutos fizemos o “Pôr do sol”: “Tantas vezes o mar já viu…”

Na criação do Hino Nacional a letra também foi feita em cima da melodia?

Foi uma emergência. Dois dias antes da independência, ali em minha casa, no Saneamento, o Rui Mingas com o violão tirou uma frase musical e eu pedi-lhe para repetir enquanto escrevia… Foi assim que surgiu o Hino. Estavam pessoas a assistir, a letra, o Hino surgiram ali mesmo.

O nosso Hino é considerado um dos mais bonitos do mundo…
Sim. Tenho uma enciclopédia de hinos e  falam isso. Falam da letra, da sua intemporalidade: “Unidos lutaremos pela paz, com as forças progressistas do mundo”… Isso é intocável. Quando quiseram mudar o Hino, a Unita quis mudar, fui chamado ao MPLA, com o Rui Mingas, pediram-me para tirar o “Poder popular”; o Rui Mingas não quis. Tirei e fiz outra versão. Foi  João Lourenço quem nos recebeu, na altura. A maka era o “Poder Popular”. Mas o que é certo é que as Constituições dizem que a soberania reside no povo. Isso também é poder popular. Há hinos que são bélicos, falam em canhões e nunca mudaram para mísseis…

O Carlos Lamartine também participou na criação do hino?
Não. O Lamartine não estava. Mas um momento: depois do hino ser aprovado pelo Comité Central [do MPLA] alargado, que incluía os que estavam no Governo e representantes dos comités, era preciso arranjar jovens para constituirem o coro. Mas primeiro fomos à Rádio Nacional para gravar; aí estava também o Lamartine. A Katila e mais gente, inclusive eu também cantei nesse coro improvisado. O Lamartine ficou incumbido de arranjar jovens para o coro. O ensaio foi feito mesmo no 1º de Maio. Será por isso que o Lamartine diz que também é autor do Hino nacional?  Mas isso não me importa. Não me pagaram nada nem eu ia querer direitos naquele tempo. Nem tenho uma pensão. Nem passaporte diplomático tenho.

Não lhe foi atribuída uma patente militar?

Por ser autor do Hino nacional não tenho nada. Tenho uma reforma que nem vou falar na miséria…

Mas está reformado como? Funcionário público?

Não. Trabalhei em vários sítios. Numa empresa eu era consultor e tinha contrato, portanto descontava para a segurança social; a Universidade (ISCED do Lubango, onde cheguei a ser director) fez um papel de má fé, para eu não receber (tenho aí o papel). A Endiama – eu é que inventei o nome Endiama, quando comandava o processo de nacionalização da Diamang, que ocorreu pacificamente, com os accionistas a quem prometemos que seriam parceiros no fornecimento de tecnologia e na compra dos diamantes – fez um papel para a minha reforma, todo mal feito, sem o salário que eu estaria a ganhar actualmente. Olha, o papel está aí atirado. Portanto, não tenho nenhum benefício pelo Hino nacional, tirando as pessoas me alegrarem quando vou ao supermercado: “Desculpe, não é o autor do Hino nacional?” Ou os estudantes virem bater-me à porta, no fim das suas licenciaturas, para me entrevistarem sobre o Hino nacional. Essas são as únicas vantagens que eu tenho. No mais, fechei o escritório de advogados cansado da perversidade da Justiça.

O que é feito do seu projecto 11 Poemas em Novembro, que consistia em publicar todos os anos, em Novembro, um poemário com onze poemas?

Precisava de ter uma pessoa que me arrumasse os poemas. Este ano já vou tarde, mas para o ano vou retomar.

E a antologia dos 11 Poemas em Novembro?

Já saiu uma, dos primeiros cinco anos. Os 11 Poemas em Novembro saíram durante sete anos, queria pelo menos chegar aos dez anos. A periodicidade dos 11 Poemas em Novembro pressupõe pessoas empenhadas. Quem se empenhou nisso primeiro foi o Costa Andrade “Ndunduma”, depois o David Mestre, que então trabalhava no Jornal de Angola. As pessoas não ligam muito às coisas. Fico espantado quando fazem a festa das Edições Novembro… Quem inventou a Revista Novembro? E o jornal? Há um despacho, publicado e está no vosso arquivo: “Encarrega-me o camarada ministro da Informação Dr. Manuel Rui Monteiro, de proceder ao seguinte despacho:  a partir de amanhã o jornal “A Província de Angola” passa a chamar-se “Jornal de Angola”. Assinado: Fernando Oliveira. Depois reunimo-nos ali na descida onde era a “Revista Novembro”. O (Mário de) Alcântara Monteiro, fixem este nome, foi o primeiro director da “Revista Novembro”. As edições dessa revista para saírem eram uma chatice. A luta pelo jornal “A Província de Angola” passou pela explosão de uma bomba já os sindicalistas haviam tomado o jornal. Tem gente ainda viva aí no jornal que deveria contar isso tudo. A televisão, abriu contra o Conselho de Ministros, o Alto-Comissário tuga odiava a comunicação social. Fui falar com Agostinho Neto que deu luz verde e a televisão entrou no ar… mas há quem viva por omissões da história…

Qual surge primeiro: a Revista Novembro ou a Edições Novembro?

A Revista Novembro. Depois era preciso ter uma estrutura à maneira socialista, um kolkhoze, para tomar conta da revista, do jornal… Fizeram tudo para que só houvesse um jornal. Fecharam o “Diário de Luanda” por causa do Nito Alves, enquanto que em Moçambique mantiveram todos os jornais.

O espírito de participação, de engajamento político e cívico da sua geração é comparável com o das gerações actualmente jo
vens?
Não é comparável porque nós tínhamos a certeza da vitória. Nós éramos Tanu, não éramos Zumbi, personagens do meu último romance  “Kalunga”. E além disso, mesmo na Universidade, em Coimbra, eu tive a sorte de encontrar uma geração de ouro. Grandes poetas portugueses, músicos da craveira de um  Zeca Afonso ou Adriano Correia de Oliveira…

E eram fundamentalmente de esquerda…
Absolutamente de esquerda. Marxistas, a maioria de nós. Marxista-Leninista nunca fui, porque nunca acreditei no centralismo democrático e no governo dos operários e camponeses, que nunca existiu, era tudo uma falácia. Quando começo a conhecer os países socialistas um por um, eu disse: “não quero essa porcaria”. Congelaram o pensamento de Marx. Deixou de haver liberdade.  Havia uma aparente igualdade de satisfação de bens materiais por toda a população, mas as elites tinham as suas lojas próprias. E depois havia os campos de concentração, os delitos de opinião, as prisões… Não sei se vocês souberam, mas parece que a revista do João Melo (África 21) publicou sobre Cuba quando eu estive lá num festival do livro, estavam lá também a nossa ministra da Cultura e outras pessoas do aparelho daqui… Eles fizeram uma edição do meu livro “Quem me dera ser onda”, que lá chegou a ser considerado contra-revolucionário, sem me pedirem autorização, não vi capa nem nada. A TV dava todos os dias o Chaves de meia em meia hora, e o Fidel em fato de treino. Na conferência perguntaram-me o que achava da TV (que felizmente não tinha publicidade). “Acho que é melhor que as outras, pelo menos tem menos merda”, respondi. “Mas falta a voz popular, vocês aqui em Cuba ainda não se libertaram das esquizofrenias recebidas do Leste, como nós em Angola recebemos e foi com vocês mesmo que aprendemos a usar os cartões para comer e beber, e o próprio povo é que destruiu isso, com a sua tendência para as esferas antigas, a troca das coisas, a carne pelo peixe, o feijão pelo milho. Vocês deviam acabar com as esquizofrenias que são do Leste. E o principal, acabar com os delitos de opinião e pôr os presos políticos cá fora”. Aquilo gelou a sala. Houve pessoas da delegação angolana que saíram. Quando cheguei ao hotel, disseram-me: “camarada Manuel Rui, isso não se faz, eles são os anfitriões”. Eu disse: “mas eu sou irmão do povo cubano, que verteu sangue lá em Angola, e eu com os meus irmãos tenho de ser sincero. Há pessoas muito importantes, não são como eu, um Gabriel Garcia Marques, que também já se chatearam com o Fidel e disseram que isso tinha de acabar, tinha de mudar”. Hoje, neste momento em que estamos a falar, estou a rir-me porque a nova Constituição cubana já fala em propriedade privada.

“Neto era um comandante poderoso, com carisma e alto astral”

O apoio dos países socialistas era incontornável? 
Os países do Leste, isto temos que reconhecer, apoiavam os movimentos de libertação. Mesmo na ONU batiam-se por nós contra Portugal com os americanos por trás. Só que a determinada altura houve uma espécie de pacto. Houve um aproveitamento da guerra fria. Vieram fazer a guerra fria aqui, experimentar armamento aqui. A segunda batalha com o maior número de blindados, depois da II Guerra Mundial, foi aqui em Angola. Foi uma tremenda estupidez nossa andarmos em guerra uns contra os outros, em vez de conversarmos. Mas como não tínhamos conversado durante a guerrilha, tornava-se impossível conversar com o Savimbi. E quer na UNITA, quer na FNLA, quer no MPLA, os presidentes eram a simbologia do poder e não presidentes de partidos. E estupidamente fomos aceitar aqueles acordos do Alvor, que não serviram para nada, Portugal nem tinha experiência de democracia.  A França quando dá a independência ao Senegal já tinha a democracia e o Senghor já tinha sido ministro da Cultura em França. Foi um erro tremendo, não sabermos conversar uns com os outros. Os colonos deixaram uma economia forte, uma capital que os outros não tinham. Em cada província o colono deixou um palácio, há países que não têm palácios de Presidente assim. Temos uma rede de rios, água com fartura, temos riquezas minerais, temos tudo. Porquê que nos fomos meter na guerra? Se não fosse a guerra não tínhamos esta gente toda que está cá. As pessoas que enriqueceram com a guerra… Eu não imagino a potência que seria Angola. Os sul-africanos diziam, quando conversavam connosco: “Vocês têm coisas que nós não temos. Vocês ultrapassaram o problema racial, até mesmo os problemas tribais vocês ultrapassaram”.

É a insolúvel questão do “se”. Infelizmente não é possível modificar o passado.

Sim. Ainda voltando à questão que colocou sobre o marxismo. O marxismo para mim é uma forma de pensamento para reflectir uma socedade, mas não é uma forma tipo Bíblia ou Corão, que possa incluir todas as soluções, quer espirituais quer materiais de forma dogmática e estacionária. No socialismo não há mudanças e quando as há é para importar o mais perverso do capitalismo.

Não faltaram alertas à sua geração, e mesmo à anterior, sobre o marxismo. Já se tinham publicado livros sobre as purgas, os gulag, a inexistência de liberdade e intelectuais de nomeada no Ocidente demarcaram-se do comunismo.

Sim. Aqui, quando algumas pessoas como eu agarraram nesses livros e os entregamos a pessoas que mandavam, vieram ralhar comigo. Que era contra-revolucionário. Havia pessoas com a cabeça quadrada e outras que utilizavam o marxismo para roubar. O marxismo servia para tudo aqui. Sob o olhar silencioso de Lénine.
O problema de fundo é que nós não tivemos pensamento, no sentido de cientistas políticos ou pensadores políticos, como o PAIGC teve o Amílcar Cabral, mesmo o próprio Mondlane ou Samora Machel em Moçambique. É só juntar os discursos do Samora Machel e ver como é que um enfermeiro é um grande pensador. No livro do Óscar Monteiro, que eu fiz a contracapa, há uma parte em que os portugueses estão a bombardear imenso, a matar muita gente, e o Samora faz uma reunião alargada com os quadros todos, os intelectuais estavam todos lá, tinham poucos mas estavam lá todos, no MPLA sempre houve chatice com os intelectuais e divisões (Revolta Activa, etc., etc., etc.). Os intelectuais ponderaram que era preciso mudar a estratégia, ver como é que se deviam posicionar perante a forte resposta colonial; Samora disse: “O que está a faltar à Frelimo é produzir pensamento, todos nós temos que produzir pensamento, produzindo pensamento vamos vencer”. Isto define uma liderança. Agora, tem um aspecto que é inevitável, a nata do pensamento em Angola estava no MPLA. A pouco e pouco essa nata foi absorvida pelo pensamento dos guerrilheiros, dos maquisards.

Qual era o pensamento dos maquisards? 

Era uma via muito estreita e empírica do marxismo-leninismo. Um pensamento igualitário, idealista, impossível de alcançar em qualquer sociedade. Enquanto que os outros já pensavam nos erros do campo socialista, já faziam uma reflexão crítica. É tudo bonito dizer que a gente vai reunir para tomar decisões, mas todos nós estamos a pensar que vamos votar na decisão que o chefe quer. Eu nas primeiras reuniões via as pessoas a correr e de repente estava eu sentado do lado direito da cabeceira do Agostinho Neto e era o primeiro a falar; se dissesse asneira estava lixado. Todos fugiam daquele lugar.

A figura de Agostinho Neto era completamente absorvente?

O Neto era o capitão do navio, um comandante poderoso, ele era  cheio de energia.

A isso chama-se carisma…

Não era só carisma. Era alto astral.

Mas essas qualidades não impediam o surgimento de outras vozes, com outros pensamentos…
Sim. Mas é no tempo do Neto que se sai do marxismo-leninismo. Sem dizer nada. Em Moçambique a Frelimo ainda fez uma pequena declaração antes.

Há quem diga com convicção que a morte de Neto em Moscovo terá resultado dessa guinada que ele faz para o centro do espectro ideológico…

Ele começou a observar que os fenómenos, a prática, não era consoante aquilo que ele teria pensado.

Enquanto autor sente-se realizado?

Não totalmente. Podia ter escrito mais. Aqui em Angola não há uma actividade editorial consequente. Não há livrarias, as pessoas não lêem. Os jornais publicam coisas que não são literatura, transformam os amigos em escritores, as pessoas compram os livros desses autores e depois não compram mais, desistem. Se for a um restaurante e a comida não presta, deixo de ir a esse restaurante.

Para si dá para viver da escrita?

Não. Os direitos de autor que recebo, neste momento, vêem mais de fora. Sempre há um disco. O ano passado correu bem, foram três livros. “Os meninos do Huambo” fazem um bocado de dinheiro, por exemplo. Agora quero publicar os meus primeiros livros de poesia, “A onda” e “Poesia sem notícia”. Tenho várias séries de crónicas. Já publiquei duas em livro, “Maninha” e “As Novas da Maninha”. A primeira série de crónicas foi publicada no Jornal de Angola, “O Kikas e o Kocas”, a falar na problemática da alteração alfabética, da ortografia, já naquele tempo. Tenho umas três séries de crónicas no Jornal de Angola, outra naquele jornal Semanário Angolense. Gostaria de publicar em livro as séries de crónicas que estão no Jornal de Angola, com um texto introdutório de uma pessoa que conheça a história do Jornal de Angola.

Como é que o Diário de Luanda desaparece?

Administrativamente. Estava lá o António Cardoso, que era um stalinista, a dirigir. Aquilo era um coito do Nito Alves. À boa maneira do MPLA, em vez de tirarem o Cardoso e o Nito Alves, fecharam o jornal. Para nunca mais abrir.

27 de Maio: “Até agora faz sentido criar uma comissão da verdade”

Naquela altura Estado e Partido misturavam-se, mas era o Partido a mandar no Estado.
Já havia Estado, Constituição, Hino Nacional, Bandeira, mas para o MPLA era como se isso não existisse. Assim, houve um conflito dentro do Movimento, fizeram uma reunião, que devia ser um Conselho de Ministros, mas fizeram uma reunião do Comité Central, onde expulsaram os chamados fraccionistas, democraticamente, quando o golpe já vinha sendo preparado. Nas vésperas do 27 de Maio de 1977 o José Van-Dúnem queria que eu me encontrasse com ele, queria falar comigo. Se eu me tivesse encontrado com ele também tinha desaparecido.

É verdade que fez parte da chamada comissão de lágrimas? Qual era o seu objectivo?

A tal comissão esteve dois dias a trabalhar. O objectivo era ouvir se pertenciam, se estiveram por dentro da organização (do golpe).

Não tinha também a missão de determinar se as pessoas eram ou não culpadas?

Não. E tudo era gravado pela televisão. Não sei se já deitaram fora as gravações. A gente não estava a fazer relatórios a dizer “mata este”, “mata aquele”. Era uma comissão com lágrima no olho, nós estávamos comovidos com aquilo. O Diógenes [Boavida], o [Ambrósio] Lukoki, eu… Estávamos a ser usados como tribunal à margem da lei. Havia um Estado, fizeram uma reunião do Comité Central, expulsaram os homens quando há a tentativa do golpe de Estado, aquilo devia passar para os tribunais, ou militares ou civis, e não ser resolvido dentro da estrutura da guerrilha. Ao contrário do que muitos dizem, que eu andei a torturar pessoas, começamos é a safar as pessoas. Mas o mundo faz-se disso. Havia pessoas que se queriam promover em Portugal e o protagonismo era a vitimização na imprensa.
Tudo foi feito segundo a estrutura da guerrilha e era gravado pela televisão, tudo era instrumentalizado. Quando alguém fosse fuzilado dizia-se que foi para uma bolsa de estudo em Cuba. Usava-se essa expressão.

Depois de tudo isso o que é que devia ter sido feito, para reconciliar verdadeira e profundamente as pessoas no seio do MPLA?

Devia-se ter feito uma comissão da verdade.

Ainda hoje faz sentido criar uma comissão da verdade sobre os acontecimentos que se seguiram ao 27 de Maio de 1977?
Até agora faz sentido. Se não a história vai ficar cheia de mentiras. O Nito Alves vai aparecer como um libertador que foi amputado, quando seria uma desgraça se ele ganhasse. Isto seria um Kampucheia, um Cambodja. Houve essa confusão, o desprezo pelas estruturas do Estado, que se vai agravando consoante a guerra que nós tínhamos, na ilusão de que ela se resolveria com tiros, quando afinal dava jeito para alguns que houvesse guerra. É nessa continuidade que não se inventa um esquema económico de  satisfazer as novas exigências e que se cortam verdadeiramente as comunicações humanas, que ainda hoje estão por restabelecer (estamos a caminho disso). É só com essas comunicações humanas que o feijão pode ir de um lado ao outro, que o peixe seco pode ir para o interior, que os medicamentos podem chegar aos hospitais, sem serem roubados, para as pessoas terem consciência de que estão ao serviço da sociedade e não de meia dúzia de ladrões, em suma, para diminuir as desigualdades. Até à entrada deste novo presidente o povo sabia que a economia estava ao serviço dos milionários. O povo sabe tudo. As empregadas dos mwatas contam aos maridos, os maridos contam aos amigos, estes contam nos candongueiros… O povo é que é a Internet. Internet sem fake news.

Voltando à ideia da criação, ainda hoje, da comissão da verdade sobre o 27 de Maio. Qual seria o formato dessa comissão? Ao jeito da que foi criada na África do Sul?

Já falei sobre isso numa entrevista que dei há anos ao Folha 8. A África do Sul fez isso com coisas muito mais graves do que as nossas.

O ponto prévio seria que todo o mundo que se oferecesse a prestar depoimento teria o perdão?

Nós aqui vamos perdoar a quem? O ponto de partida seria a verdade.

Esse processo deveria ser dinamizado sobretudo pelo MPLA?

Sim. E não seria assim tão difícil.

Qual seria a saída para toda essa crise económica e social, com fortes raízes éticas e morais, em que nos encontramos?
A saída seria um socialismo democrático. Não impedir o crescimento da riqueza. As pessoas que têm propriedade privada que a desenvolvam. Essa economia está dependente disso. Está provado que o Estado não pode ser produtor. Mas reservar áreas da economia para o Estado. Áreas que são propriedade do povo. A água é propriedade do povo. Antes de haver MPLA, antes de haver independência, e se este é o continente-berço, antes de se inventar Deus (Deus foi inventado no continente-berço), a água era do povo. Num dos meus contos eu falo nisso. Há áreas que no meu entender não podem ser privatizadas. A água, a energia eléctrica, a indústria diamantífera, os petróleos… Portanto, as infraestruturas de base. Nós só devíamos poder pagar o custo da água acrescido de um milésimo, porque a água custa para chegar às nossas casas. A energia eléctrica também. Mas podemos fazer tabelas diferentes. Lá onde o dinheiro vale mais, por exemplo no Huambo, o preço tem de ser diferente. As cooperativas agrícolas. Os silos. A população produziu, entrega o seu milho, o seu feijão, parte é guardado, parte é comprado e tem as lojas para comprar panos, tem as farmácias… Portanto, há uma economia privada de cariz eminentemente capitalista que visa o lucro mas é controlada, há zonas comerciais com os preços controlados e tratamento fiscal especial, por exemplo os medicamentos não pagam impostos, para serem baratos. O ensino gratuito com livros de graça até um determinado nível e a entrada nas universidades por critérios de meritocracia. Na Universidade já há uma ligação com as empresas e estruturas do Estado. Evita-se a concorrência desleal. Eu sou ministro, agarro no telefone e digo: “Olha, arranja-me um lugar no Ministério das Finanças, o meu filho formou-se em economia”. No tempo antigo só faltaria acrescentar: “Eh pá, o gajo também quer roubar um bocado”. (Risos).

O que pensa de todo esse processo de discussão sobre a implementação das autarquias?
O tempo que se quer dar para fazer autarquias, 10 anos, é muito tempo. Actualmente o poder local nas províncias são pequenos feudos. O governador manda mais do que toda a gente e até pode mandar matar uma pessoa indirectamente.

E a sua opinião sobre a legislação de repatriamento dos activos obtidos ilicitamente? Todo o mundo devia ir para a cadeia?
Acho que ninguém devia ir para a cadeia. A solução do Presidente actual é sábia, resolver os problemas na justiça sem fazer a divisão física entre os cidadãos. Há famílias poderosas que vão ficar incomodadas. Os milionários têm o seu séquito. Cada milionário tem a volta de si umas três mil pessoas. É preciso evitar que a sociedade se deflagre por causa dos actos ilícitos mas que foram consentidos por quem mandava.  As pessoas não foram com uma espingarda ou uma bomba roubar a caixa forte de um banco. Tiraram com a consciência de que era ilícito. E isso de tirar em cima vinha até cá abaixo, onde só se podia pedir uma gasosa. Penso que esse dinheiro tem de voltar para cá mas para ser aplicado em infraestruturas, hospitais, escolas. Se o dinheiro vem e fica nas mãos deles lançam no mercado e vamos todos comprar os dólares. Ou o dinheiro vem e depois dizem-lhes: “você vai fazer uma fábrica de chouriço?” Isso é absurdo. Aliás é absurdo devolver o roubado ao ladrão. Veja o caso Lava Jacto no Brasil. E é preciso fazer a prova e dar o contraditório para não ser inquisitorial. Não me incomoda muito o que foi roubado, mas o que vamos produzir. Agora estamos todos à procura de ladrões. Eu não estou a pensar num Estado-Polícia. Já perdemos o medo de falar. Nos jornais isso vê-se, até no vosso. Agora não vamos inventar outros medos. Um sistema fossilizado é como um balão. Tem de ser esvaziado cuidadosamente para não rebentar. Veja, os garotos compram nos armazéns dos estrangeiros que arranjaram licenças pela mão de agentes do Estado, para venderem na rua, as quitandeiras compram legumes e frutas nos camiões, os medicamentos andam nos mercados. Basta cortar um elemento do sistema, por exemplo, os armazéns, para os miúdos não terem nada para vender e se parar as quitandeiras deixamos de ter a comida à porta (forma subtil de obrigar as pessoas a irem aos grandes espaços propriedade dos donos disto tudo)…

O facto de já haver pessoas detidas faz-lhe pensar em quê?

É impensável, nem em ficção, no romance, eu escreveria que um Fundo Soberano, que é equivalente à Reserva Federal dos EUA, seja entregue a meia dúzia de jovens para gerir. Fazer isto é um crime. Ainda por cima a um filho. Você é presidente de uma República e não vai entregar o Fundo Soberano a um filho. Entregar a gestão da maior indústria que sustenta esta economia, que é o petróleo, a uma filha; a comunicação social a outro filho. Isto tem nome. O outro comprou um relógio a 500 mil dólares. É igual ao Obiang. Aquele relógio do Obiang, filho do nosso ilustre parceiro na CPLP. Mas eu peço desculpa a Dos Santos porque está fragilizado. Ele deveria ser o primeiro a vir a público falar dos erros, porque se se vai melhorar o que está bem é porque no seu consulado também se fizeram coisas boas. Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias.

João Lourenço versus Dos Santos

É possível comparar esses dois homens: José Eduardo dos Santos e João Lourenço?
Primeiro no perfil do pensamento, este homem [João Lourenço] estudou História, compreende melhor uma filosofia política de acção, e é marido de uma cientista de economia que já esteve no FMI… Quanto a Dos Santos fico por aqui porque não é positivo falar de pugilistas tombados no ringue, com o desmoronar da sua família seria mais um acto de crueldade. No entanto, sublinho  que  João Lourenço foi um opositor mas com uma consciência dos passos que devia dar. São pessoas totalmente diferentes. Um tolerou ou fomentou o nepotismo, a corrupção e a miséria do povo, o outro é contra o nepotismo, contra a corrupção e diz-se empenhado em resolver os problemas do povo. Isso é interessante. Na fenomenologia política isso é inédito e deve-nos honrar. Dentro do seu próprio partido fazer mudanças que correspondem a uma revolução e as próprias pessoas do partido aceitarem a ideia anti-corrupção, quando algumas delas são parte activa nesse fenómeno da corrupção. Mas isso é saudável porque tem uma inspiração da tradição africana. É bom chamar os mais velhos e traçar um plano de solução que satisfaça os interesses da maioria. Claro que 99,9 % do povo está de acordo com o Presidente. As pessoas que não têm poder, porque  as que têm muito poder económico nem todas estão de acordo com ele, há algumas que já não sabem quando é que roubaram ou quanto é que não roubaram. Mas temo que a questão do regresso da riqueza não vá a bom porto. Por mim era daqui para a frente.

Não haverá um risco de desestabilização por parte da franja que sendo minoritária tem poder real?
Têm poder real e isso é que tem de ser controlado.

Como?
Lembras-te da figura do Tanu, que sem querer tinha poder económico no Quilombo? Mas o Zumbi tinha o poder político. O Tanu é que tinha razão. Se Zumbi o tivesse deixado fazer o que queria, ir pelas encostas atrás dos fazendeiros, a coisa teria sido diferente. E além disso este Presidente é um homem que não cultiva a “estabilidade”, a paralisação, como o outro. As coisas estavam todas em águas mornas. Inaugurar no fim do seu governo obras que ainda não estavam acabadas! Fazer coisas que me parecem inócuas; assim que começou o processo eleitoral o governo devia ser só de gestão corrente e não fazer leis para depois de sair, criar imunidades para si próprio! Não é possível comparar essas duas pessoas.

Como é que vê o futuro deste povo, deste país?

Com optimismo. Por tudo aquilo que a gente já passou, aqui em África não há um país com a estabilidade como a nossa. Posso ir de noite daqui até ao Namibe, daqui até ao Huambo, desde que a estrada me deixe. Já fui de noite daqui até ao Uíge. No Quénia não é possível. Eles têm pequenas aldeias com bares e prostitutas, os camiões ficam ali parados até de manhã, não se viaja à noite. Na Namíbia também já está a ficar assim, na África do Sul está assim há muito tempo. As pessoas querem vir para cá.

Está a advogar a ideia de que os angolanos são especiais?

Não somos especiais. Tivemos uma história diferente. Uma colonização de 500 anos que nos pôs a falar a língua do invasor tal como ele fala ou melhor. As lutas dos reinos contra os colonos. As primeiras revoltas nas minas sul-africanas foram comandadas por um angolano, kwanhama. No Sul os portugueses levaram muita tareia, os kwanhamas nunca pagaram imposto, até ao fim do colonialismo. É todo esse tipo de trama, das lutas, da revolta da Baixa de Cassanje, do 4 de Fevereiro, é o Savimbi que tem a coragem e a filosofia maoísta de se encontrar com os portugueses para negociar, a avalanche toda da poesia de Neto, do Viriato da Cruz, etc., etc., em paralelo com os grandes poetas da Negritude que estava a acontecer em França, é a origem do MPLA, por exemplo, em que os estudantes fogem de Portugal para depois descerem para o Marrocos para fazer treino militar e ir para a guerra… Tudo isso é diferente de receber a independência através de um papel. Fazendo a soma disso tudo, aí está a nossa endurance, que faz de nós a única ex-colónia que vai bater o pé ao ex-colonizador. Chegar lá e dizer, “o meu processo não fica aqui, vai para Luanda”. Tudo isso aponta para a singularidade deste país, mas também para a singularidade do Magreb, da África do Sul, etc., etc. Outro fenómeno é a liberdade religiosa. Não troco este país por outro.

Cuti: Quebranto

cuti5O poema Quebranto foi uma questão de múltipla escolha que caiu no Enem de 2018. Motivo de celebração pelo reconhecimento da literatura negra

cuti7

Questão de múltiplia escolha

Quebranto às vezes sou o policial que me suspeito me peço documentos e mesmo de posse deles me prendo e me dou porrada às vezes sou o porteiro não me deixando entrar em mim mesmo a não ser pela porta de serviço

[—]

às vezes faço questão de não me ver e entupido com a visão deles sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco sendo o gesto que me nego a pinga que me bebo e me embebedo o dedo que me aponto e denuncio o ponto em que me entrego. às vezes!…
CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza, 2007 (fragmento).

Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a presença de elementos que traduzem experiências históricas de preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico

 

Correta incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.
submete-se à discriminação como meio de fortalecimento.
engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.
sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento.
acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade igualitária.

 cuti1

Integra do poema de Cuti :QUEBRANTO

às vezes sou o policial
que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o zelador
não me deixando entrar
em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredito

às vezes sou o amor
que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que
sonhei e não comi
outras o bem-te-vi
com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me
lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida
uma constituição que me promulgo
a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão
de não me ver
e entupido com a visão deles
me sinto a miséria
concebida como um
eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo
e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.

às vezes!…

 

Escritor angolano, Manuel Rui, analisa as eleições no Brasil e cita Ivone Lara

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Manuel Rui

Quando eu era adolescente, os correligionários de meu pai que se reuniam na Livraria Brasileira ou no Centro Espírita na loja do senhor Matos, eram apodados, na cidade de Nova Lisboa, por contra a situação, anticristos, mais tarde apareceu a designação do reviralho até à de anti-salazaristas.

Foi durante as eleições em que Humberto Delgado fez tremer Salazar, o director do meu colégio, engenheiros, médicos e outros profissionais fugidos para Angola por mor do sistema, lembro-me do professor Jofre de quem fui encontrar um trabalho publicado na revista “Vértice”, de Coimbra, um estudo, não me recorda o título, sobre o ensino e o racismo em Nova Lisboa. Fiquei emocionado pois eu estava na posição de redactor daquela revista de cultura anti-fascista e Jofre já havia falecido. Meu pai foi preso durante as eleições. Entretanto, o meu grupo que à noite colocava propaganda de Humberto Delgado e rasgava os da situação colados por uma malandragem chefiada pelo Girão que havia de ser um grande radialista no Bié, começava a aprender essa dicotomia direita esquerda. Nós éramos de esquerda. Hoje ainda sou de esquerda reconhecendo os equívocos do socialismo real que conheci e rejeitei pela ausência da liberdade.
Mas afinal como nasce a dicotomia direita esquerda? Pelas “calendas” a origem do conceito de “esquerda” aparece, como postura político-ideológica, durante as Assembleias Constituintes francesas do séc. XVIII. Após a Revolução Francesa (1789) os parlamentares representantes da aristocracia conservadora sentavam-se do lado direito da Assembleia para não se misturarem com a plebe. Os “comuns,” que pertenciam às classes mais humildes, adeptos do revolucionismo, ficavam do lado esquerdo da sala. De início, trabalhadores e camponeses não faziam parte da Assembleia e, paradoxalmente, os primeiros representantes da esquerda terão sido os capitalistas burgueses contra a aristocracia. Com o desenrolar dos tempos, as definições de esquerda e direita foram objecto de transformações e novas interpretações de tal forma que hoje a esquerda engloba os social-democratas, os socialistas democráticos,  os ambientalistas e os progressistas. Autoritários e igualitários serão exemplos de extrema-esquerda. Os partidos de direita incluem os conservadores, os democratas-cristãos, os liberais e os nacionalistas. Na extrema-direita podem-se listar o ditatorialismo, o nazismo e o fascismo. Simplificando, a esquerda defende o igualitarismo, as implantações de políticas públicas como saúde e ensino, a luta pelos movimentos populares, sociais e de minorias e a direita aparece como defensora de mais liberdade individual, preservação religiosa e conservação das tradições. Marx não havia nascido ainda (1818-1883) e, portanto, é preciso não esquecer que os conceitos de socialismo e comunismo vão aparecer muito mais tarde.
Marx escreveu: “os filósofos somente interpretam o Mundo, de diversas maneiras. O ponto, entretanto, é mudá-lo.” E o filósofo francês Alexis Tocqueville (1805-1859) afirmava que “as instituições humanas podem ser mudadas, mas não o homem: qualquer que seja o esforço geral de uma comunidade para fazer seus membros iguais e semelhantes, o orgulho pessoal dos indivíduos sempre buscará elevar-se acima da linha e formar em algum lugar uma desigualdade para a sua própria vantagem.” Porque crónica não é de minúcia como ensaio político, partimos para a democracia (do grego demos-povo e kratos-poder) que se pode definir em essência como o regime em que todos os cidadãos elegíveis participam directa ou indirectamente por voto na eleição dos dirigentes políticos.
Todo este nosso cronicar coloca a realidade que vivemos com a cibernética, as energias sujas e as limpas, os migrantes, a velocidade de comunicações e a nova acepção dos géneros com a legitimação da homossexualidade, os casamentos de pessoas do mesmo sexo e um Mundo com disseminação de conflitos armados por todos os continentes ou países que vivem em paz mas em clima de guerra urbana constante como acontece no Brasil. Passando pelos movimentos populistas que abundam na Europa, com arame farpado nas fronteiras como a Hungria, é bom repensar o conceito de democracia num tempo em que os políticos são profissionais, quase com dinastias com acontece no Brasil em que o pai é senador e o filho deputado… Aliás, assim como o futebol já não é desporto mas indústria desportiva, a política já não é política mas uma indústria do poder. Se ponderarmos bem nas afirmações públicas do candidato de direita, capitão subalternado por um general, constatamos que em democracia, neste caso, pode-se fazer a defesa do racismo, por exemplo, num país onde há uma lei contra o racismo…mas, sendo o 2.º país negro do Mundo a seguir à Nigéria, o racismo continua, brasileiros são os brancos, os negros afro-brasileiros e os índios indígenas, em nenhum debate televisivo se colocou. O certo é que o muadiê segue adiante e somos a colocar a ideia de que se as democracias não deviam impedir os movimentos ou partidos que sejam contra os direitos humanos, não permitindo movimentos ou partidos neonazis… qualquer dia surge um movimento contra mulheres… Mesmo em Portugal há movimentos neonazis que fazem duelos como aconteceu entre grupos motares ou um grupo que atacava negros, chefiado por um conhecido nome que aqui se não escreve para não sujar a crónica. Em suma, é necessário delimitar a democracia pois em nome dela já o macaco… o resto vocês sabem. Mas custa muito ver o Brasil de Ivone Lara e ouvir, como estou fazendo agora, “Sonho meu/ Sonho meu/Vai levar esta saudade sonho meu/ com a sua liberdade sonho meu…”

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/sopa_&_almoco/brasil_esquerda_direita_um_dois

Ele Semog poemas do livro “Guardas pra mim”

ele semog

Ele Semog

” Você e seus perdidos”
[08:16, 30/12/2017] +55 61 9849-5051: Pensou que ia dar
Um perdido na vida
é nem percebeu que ela
passou num repente
que o passado é essência
do que vai a frente,
que o futuro não espera
quem chega com tudo
atrasado nos sentimentos.
Não adianta pressa
é não dá para jogar
com a sorte, a sina, ou destino…

Pode voltar para carregar
a sua cesta de espinhos,
não deixe nada pelo caminho,
tem gente que quer passar.

 

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Ele Semog

“O graveto e a tora”

 

Não olhe para mim

pensando que sou

um negro  e só

Olhe outra vez,

e veja

Sou negros

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Ele Semog
“A toa te amar”

Qualquer tempo é tudo
e se houver sete minutos
pegue todos os segundos
para ser dona do mundo.
A vida não se arrepende,
então, sete minutos
para amar assim,
é muito mais que uma
eternidade dentro do fim

Ele Semog
“Memórias”

Já fui romântico
que pensava
que toda dama de puteiro
tinha um ursinho de pelúcia

Wole Soyinka: A África não precisa inventar a roda.

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Nascido na Nigéria, primeiro africano ganhador do Nobel da Literatura, em 1986, Wole Soyinka esteve no Rio Grande do Sul a convite da Bienal do Mercosul, para falar na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nesta entrevista, ele trata de tolerância, diversidade, arte de guerrilha e dos métodos que usa para escrever as suas obras.

Correio do Povo: O senhor defende como escritor e intelectual um mundo de diversidade e tolerância. O momento atual pode ser visto como de retrocesso em relação a esse ideal?
Wole Soyinka: Um pouco de duas coisas. Está retrocedendo, mas também está evoluindo. A maioria das pessoas considera a diversidade como algo bom. Sem diversidade a vida seria muito enfadonha. Mas houve momentos na história em que grupos usavam esse tipo de questão para explorar outros. Havia uma ideia de que eliminar a diversidade equivaleria a suprimir as diferenças de classe, as diferenças sociais. Mas essa ideia é falsa. Quem pensava assim não entendia que as diferenças culturais costumam melhorar a produtividade e o entendimento entre as pessoas. Estamos, porém, retrocedendo em termos de tolerância. É o que se vê, por exemplo, com o islamismo radical.

CP: O mundo ocidental tem como aceitar essa ideia de pluralidade?
Wole Soyinka: Nas minhas experiências no Brasil, em Cuba e na Colômbia, encontrei pessoas que se identificam com essa cultura pluralista. Há quem retorne à África para se reconectar com esses valores. O sincretismo mostra que se a pessoa está com a mentalidade aberta essa convivência é natural.

CP: O senhor disse que tem a impressão de que parte dos brasileiros tem essa ligação com a África e que outra parte a ignora. É isso mesmo?
Wole Soyinka: A nossa cultura carrega em si a concepção da diversidade. Entendemos e aceitamos que existam outras visões de mundo, que não são excludentes. Na África, o islamismo e o cristianismo entraram, mas não se foi tentar resgatar os que se converteram. Nossa postura é de convivência e de aceitação das diferenças. Há até quem sem converta por loucura.

CP: O senhor tem apontado o Boko Haram como a grande ameaça na Nigéria. Como foi possível que um grupo extremista islâmico se encravasse numa cultura de tolerância?
Wole Soyinka: 
O fato é que entre os convertidos ao islamismo radical que mais levam ao pé da letra o que defendem, muito poucos são de origem iorubá. Conheço um líder iorubá, membro do governo, radicalizado que não deixa a esposa receber em casa ninguém que não seja convertido ao islamismo. Tem um membro do governo que usa luvas para não tocar com as mãos nuas em nenhuma mulher nas suas ações oficiais. Mas esses são exemplos raros.

CP: Escritor político, o senhor esteve preso, critica ditadores e não poupa o autoritarismo. A queda de Robert Mugabe será a libertação do Zimbábue ou apenas mais um capítulo numa longa novela de ditaduras?
Wole Soyinka: 
Em todas as sociedades existem homens que acreditam ter encontrado o segredo da vida e da morte. O mesmo vale para o poder. Existem homens que acreditam saber como nunca mais perder o poder. Mugabe, no começo, lutou de maneira libertária para livrar seu país da opressão colonialista. Com o passar do tempo, no entanto, alienou-se e passou a praticamente se identificar com as forças coloniais expulsas. Para nossa cultura, porém, não existe poder eterno. A hora de Mugabe teria de chegar. Mugabe não é o fim nem foi o começo de coisa alguma. Ele é apenas mais um capítulo nessa marcha rumo à libertação, uma das últimas figuras a ainda a acreditar na perenidade do seu poder.

CP: A saída desse tipo de homem muda um país ou é só mais uma ilusão?
Wole Soyinka: 
Há algum avanço, pois essa saga de Mugabe foi instrutiva no sentido de que a oposição ficou mais madura. Os generais estão tirando-o do poder lentamente de modo a evitar uma ruptura traumática.

CP: Durante um tempo o senhor dizia fazer teatro de guerrilha. Hoje, consagrado pelo Nobel, ainda faz uma espécie de arte de resistência?
Wole Soyinka: Se eu continuasse a fazer sempre o mesmo teatro, sofreria uma espécie de atrofia mental. O meu teatro também precisa de diversidade. A minha última peça é meio uma farsa que trata do fato de que muitas pessoas se recusam agora a falar a língua iorubá com o sotaque certo. Falar sem esse ritmo, de uma língua tonal, é perder metade da sua força. Como é difícil ficar livre de um hábito, contudo, agora me dou conta de que dentro dessa minha peça tem algumas críticas a governantes.

CP: O senhor disse que não consegue entender os escritores que levantam de manhã e já começam a produzir. É muito difícil escrever?
Wole Soyinka: 
Não sou um escritor metódico. Gosto de ter bastante tempo para trabalhar. Posso virar madrugadas. Às vezes, dou uma parada, tomo um expresso e, quando me falta inspiração, saio para dar uma caminhada. Quando a inspiração vai embora, é preciso fazer outra coisa, ouvir música, andar, espairecer. É dessa maneira que trabalho.

CP: Há sempre um grande interesse pela ‘‘cozinha’’ dos escritores. Hemingway dizia trabalhar 12 horas por dia para obter um parágrafo. O senhor consegue produzir grandes fragmentos de texto num único dia de trabalho?
Wole Soyinka: 
O meu processo é muito parecido com o de um escultor. Quando um escultor começa normalmente ele tem uma ideia de onde quer chegar, mas ao tirar pedaços da pedra vê que sua ideia inicial pode ser redirecionada para outro lugar. Hoje, com o computador, é uma pena não termos mais provas físicas desse trabalho de transformação, desse suor, ver todas as páginas que foram arrancadas e rasgadas, tudo que foi riscado. Eu me sinto assim.

CP: O escritor francês Michel Houellebecq diz que quando está possuído por uma ideia precisa escrever para se livrar dela. Acontece com o senhor?
Wole Soyinka: 
Quando sou possuído por uma ideia tenho pena das pessoas à minha volta. Nesses momentos, tudo que não seja escrever, como dar aula ou receber pessoas, vira inimigo. Quando vejo uma modelo rindo numa propaganda como essas de creme dental, com aquele sorriso falso, sei que é exatamente assim que fico quando estou possuído por uma ideia que precisa sair.

CP: A literatura tem futuro num tempo em que, segundo uma pesquisa, duas pessoas em cada três veem Netflix até mesmo quando estão na rua?
Wole Soyinka: 
Será difícil matar a literatura não só pelo poder da palavra escrita, mas por causa do livro como objeto. Nem sei o que é Netflix. Prefiro ver filmes no cinema. Tento ver no avião, mas acabo dormindo. Trabalho nos aviões e talvez durma rapidamente por já estar esgotado.

CP: Por que o teatro lhe pareceu a forma de expressão mais conveniente?
Wole Soyinka: 
Nasci num meio muito teatral, com muito teatro de rua e muitas mascaradas, que são espetáculos metade sagrados metade profanos. Cheguei a escrever contos. Na verdade, sou atraído por muitos meios de expressão. Eu me sinto um arquiteto fracassado, um músico fracassado…

CP: Uma frase sua diz que ‘‘o homem morre em todos os que se calam’’. Calar não é em certas circunstâncias a única forma de sobreviver?
Wole Soyinka: 
Nessas circunstâncias é uma estratégia pessoal e cabe a cada um perceber quando é o momento de esperar um pouco, inclusive de aconselhar os outros a esperar. Outra situação que exige o silêncio é quando a gente fala, fala e vê a sociedade fazendo exatamente o contrário do que lhe é dito. É insuportável ficar ouvindo a própria voz cair no vazio. Outro momento para calar é quando surge uma nova geração para assumir certas causas. Dá vontade de deitar a cadeira e pegar uma taça de vinho.

CP: Um escritor num país africano ou no Brasil, lugares de muita desigualdade, tem a obrigação de falar, de denunciar, de se engajar?
Wole Soyinka: Não. Eu não vejo qualquer problema em literaturas escapistas como a ficção científica, que são produtos da imaginação, pois elas, às vezes, apontam outros modos de vida não diretamente políticos. O engajamento obrigatório pode resultar em pura propaganda.

CP: Ano passado, estive em Moçambique. É lindo e chocantemente pobre como muitas partes do Brasil. O senhor consegue imaginar num tempo razoável uma África democrática, desenvolvida e igualitária?
Wole Soyinka: 
Sim. Estamos a caminho disso, mas muito lentamente. Eu me sinto incomodado quanto estou ao volante do meu carro e vejo crianças mexendo no lixo em busca de comida. Machuca a alma e deixa até o que comemos com gosto ruim. A África, porém, não precisa inventar a roda. Coisas já mudaram.

CP: O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. A África do Sul é o primeiro. A desigualdade tornou-se o principal ponto em comum entre Brasil e África?
Wole Soyinka: 
Visitei favelas brasileiras. É uma pobreza muito similar à que temos na África. Lembro dos protestos na época da Copa do Mundo para que o evento não acontecesse por causa dessa desigualdade. Apesar disso, não é necessário esperar que todos sejam iguais para que alguns progressos ocorram. Não devemos sobretudo ficar esperando assistencialismo externo.

por Juremir Machado da Silva

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/dialogos/2017/11/1510/wole-soyinka-sera-dificil-matar-a-literatura/

Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora nigeriana

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”chimamanda-novo-livro

Com novo lançamento no Brasil, escritora nigeriana comenta sobre ser uma das principais vozes a falar sobre mulheres negras fortes na literatura mundial.

Considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, 39 anos, autora do best-seller Americanah (2013),teve seu sexto livro lançado no Brasil no final de julho pela editora Companhia das Letras. Publicado originalmente em 2009, No Seu Pescoço era a única publicação de Chimamanda que faltava  chegar ao Brasil.

O livro reúne 12 contos que têm, em comum, mulheres e homens nigerianos como protagonistas. Nessas narrativas, assim como em todo o seu trabalho, Chimamanda denuncia e questiona o racismo, o machismo e outras opressões que seguem fortes tanto na Nigéria quanto em toda a nossa sociedade.

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CLAUDIA aproveitou a ocasião do lançamento para conversar com Chimamanda.

CLAUDIA: No Seu Pescoço está sendo publicado no Brasil quase dez anos após ter sido escrito. Como você se sente ao ver esses contos ganhando relevância outra vez, agora com um novo público?

Chimamanda Ngozi Adichie: É sempre encantador ver seu trabalho ganhando atenção. Ficção é, em conjunto, uma trabalho de artesanato e emoção. Logo, existe alguma coisa no fato de continuar sendo lida que traz um certo tipo de validação.

CLAUDIA: O best-seller Americanah (2013), muito apreciado no Brasil, foi escrito após No Seu Pescoço (2009). A personagem principal do conto que dá título ao livro, assim como Ifemelu protagonista do romance, deixa a Nigéria para viver nos EUA. Existe mais alguma semelhança entre elas? 

Chimamanda: Elas provavelmente têm preocupações parecidas, mas eu não penso no meu trabalho de forma temática. Eu sigo a história que me chamar. No Seu Pescoço é uma coleção de histórias que foram escritas em momentos diferentes e realmente não são semelhantes entre si.

CLAUDIA: A maioria de seus personagens são mulheres negras fortes. Infelizmente – mesmo que esse cenário esteja mudando –, mulheres fortes e, principalmente, mulheres negras fortes continuam sendo minoria nas principais narrativas literárias ao redor do mundo. Você se sente pressionado por ser uma das poucas escritores em destaque a escrever sobre essas mulheres?

Chimamanda: Não. Mulheres negras fortes são normais para mim. Escrever sobre mulheres negras fortes também. Eu cresci rodeada por essas mulheres, o mundo é repleto de mulheres negras fortes. E como elas são normais para mim, eu não sinto nenhuma pressão ou responsabilidade. Eu simplesmente escrevo a verdade sobre o que eu conheço.

CLAUDIA: Para você, qual a importância de narrativas como essas estarem ganhando destaque? Além disso, você enxerga a literatura como um reflexo de uma sociedade em mudança ou como um agente transformador da sociedade? 

Chimamanda: Acredito que literatura pode ser os dois. Algumas vezes, escrevendo sobre o mundo como ele é, nos podemos criar narrativas que se transformam em catalisadores para mudança. Eu realmente acredito que seja importante se ouvir histórias sobre lugares e pessoas que são marginalizados. É importante porque, se temos histórias diversas, nos tornamos melhores para compreender o mundo e nosso próprio lugar nele.

CLAUDIA: Após quatro livros de ficção, seus dois lançamentos mais recentes foram manifestos feministas. Qual a importância de publicações didáticas como Sejamos Todos Feministas (2014) e Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto (2017) para a luta das mulheres em nossa sociedade? Quem você acha que eles atingem mais?

Chimamanda: Eu espero que eles atinjam tanto homens quanto mulheres. Não acredito estar dizendo às mulheres o que elas não sabem ainda. Elas sabem porque elas vivem isso. Mas eu acredito que os livros dão palavras ao que as mulheres experienciammotivo de elas se conectarem a eles. Eu ouvi de alguns leitores homens que eles começaram a pensar diferente sobre gênero após lerem as obras.

CLAUDIA: Você pretende seguir esse caminho ou tem alguma ficção a caminho?

Chimamanda: Fico feliz em escrever sobre coisas com as quais eu me importo e me interesso muito por política e história. Mas a única coisa que realmente me dá felicidade é a ficção. Ficção é minha vocação. Ficção é meu único e verdadeiro chamado.

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”