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Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora nigeriana

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”chimamanda-novo-livro

Com novo lançamento no Brasil, escritora nigeriana comenta sobre ser uma das principais vozes a falar sobre mulheres negras fortes na literatura mundial.

Considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, 39 anos, autora do best-seller Americanah (2013),teve seu sexto livro lançado no Brasil no final de julho pela editora Companhia das Letras. Publicado originalmente em 2009, No Seu Pescoço era a única publicação de Chimamanda que faltava  chegar ao Brasil.

O livro reúne 12 contos que têm, em comum, mulheres e homens nigerianos como protagonistas. Nessas narrativas, assim como em todo o seu trabalho, Chimamanda denuncia e questiona o racismo, o machismo e outras opressões que seguem fortes tanto na Nigéria quanto em toda a nossa sociedade.

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CLAUDIA aproveitou a ocasião do lançamento para conversar com Chimamanda.

CLAUDIA: No Seu Pescoço está sendo publicado no Brasil quase dez anos após ter sido escrito. Como você se sente ao ver esses contos ganhando relevância outra vez, agora com um novo público?

Chimamanda Ngozi Adichie: É sempre encantador ver seu trabalho ganhando atenção. Ficção é, em conjunto, uma trabalho de artesanato e emoção. Logo, existe alguma coisa no fato de continuar sendo lida que traz um certo tipo de validação.

CLAUDIA: O best-seller Americanah (2013), muito apreciado no Brasil, foi escrito após No Seu Pescoço (2009). A personagem principal do conto que dá título ao livro, assim como Ifemelu protagonista do romance, deixa a Nigéria para viver nos EUA. Existe mais alguma semelhança entre elas? 

Chimamanda: Elas provavelmente têm preocupações parecidas, mas eu não penso no meu trabalho de forma temática. Eu sigo a história que me chamar. No Seu Pescoço é uma coleção de histórias que foram escritas em momentos diferentes e realmente não são semelhantes entre si.

CLAUDIA: A maioria de seus personagens são mulheres negras fortes. Infelizmente – mesmo que esse cenário esteja mudando –, mulheres fortes e, principalmente, mulheres negras fortes continuam sendo minoria nas principais narrativas literárias ao redor do mundo. Você se sente pressionado por ser uma das poucas escritores em destaque a escrever sobre essas mulheres?

Chimamanda: Não. Mulheres negras fortes são normais para mim. Escrever sobre mulheres negras fortes também. Eu cresci rodeada por essas mulheres, o mundo é repleto de mulheres negras fortes. E como elas são normais para mim, eu não sinto nenhuma pressão ou responsabilidade. Eu simplesmente escrevo a verdade sobre o que eu conheço.

CLAUDIA: Para você, qual a importância de narrativas como essas estarem ganhando destaque? Além disso, você enxerga a literatura como um reflexo de uma sociedade em mudança ou como um agente transformador da sociedade? 

Chimamanda: Acredito que literatura pode ser os dois. Algumas vezes, escrevendo sobre o mundo como ele é, nos podemos criar narrativas que se transformam em catalisadores para mudança. Eu realmente acredito que seja importante se ouvir histórias sobre lugares e pessoas que são marginalizados. É importante porque, se temos histórias diversas, nos tornamos melhores para compreender o mundo e nosso próprio lugar nele.

CLAUDIA: Após quatro livros de ficção, seus dois lançamentos mais recentes foram manifestos feministas. Qual a importância de publicações didáticas como Sejamos Todos Feministas (2014) e Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto (2017) para a luta das mulheres em nossa sociedade? Quem você acha que eles atingem mais?

Chimamanda: Eu espero que eles atinjam tanto homens quanto mulheres. Não acredito estar dizendo às mulheres o que elas não sabem ainda. Elas sabem porque elas vivem isso. Mas eu acredito que os livros dão palavras ao que as mulheres experienciammotivo de elas se conectarem a eles. Eu ouvi de alguns leitores homens que eles começaram a pensar diferente sobre gênero após lerem as obras.

CLAUDIA: Você pretende seguir esse caminho ou tem alguma ficção a caminho?

Chimamanda: Fico feliz em escrever sobre coisas com as quais eu me importo e me interesso muito por política e história. Mas a única coisa que realmente me dá felicidade é a ficção. Ficção é minha vocação. Ficção é meu único e verdadeiro chamado.

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”

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Chinua Achebe, o autor nigeriano fundamental para a literatura

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Chinua Achebe colocou a Nigéria na geografia literária ao contar num tom sério, a partir de dentro e sem direito a desfile etnográfico, a identidade africana em subtil mudança.

Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana

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Achebe retoma as regras canónicas do romance e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana MANUEL ROBERTO

Ler os romances do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013) é viajar para a realidade africana das histórias contadas oralmente na sombra da grande árvore do centro da aldeia. Ele é como o velho sábio que assim vai passando a tradição aos que o ouvem, levando-os pelas palavras ditas ao mundo dos mitos africanos, inscrevendo nos ouvintes (ou mostrando, no caso dos leitores) uma identidade cultural apenas entendida na sua essência se vista e descrita a partir de dentro. Contar uma história tem na sua natureza um elemento de magia, de poder viajar a uma outra realidade. Esse efeito mágico cumpre, sobretudo nas comunidades e nas sociedades mais tradicionais, a função de organizar um suposto passado (tantas vezes mítico e também arquetípico) de maneira a estruturar o presente. É fazendo uso desse “poder de feiticeiro que narra” que Chinua Achebe — considerado pelos críticos anglo-saxónicos o fundador da literatura africana — começa a recriar de maneira singular universos até então ausentes dos romances sobre África.

Em 1958 publicou aquele que é considerado o livro seminal da literatura africana pós-colonial, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Ele escreve a partir de dentro, levando o leitor para uma nova realidade cultural e histórica, em oposição aos romances em que o olhar está do lado de fora, em que esse olhar é “estrangeiro”. Por várias vezes (e escreveu mesmo um ensaio para o demonstrar) apelidou de racista o famoso livro de Joseph Conrad, Heart of Darknesse (O Coração das Trevas), exactamente por causa dessa maneira de olhar etnocêntrica, ignorante da cultura africana, arrogante e exterior ao continente.Chinua-Achebe-speakn-abt-thingsfallapart1.jpg

Achebe retoma as regras canónicas da forma do romance, as convenções clássicas do género, e acrescenta-lhe a estética da tradição oral africana. Não subverte a linguagem nem cai no facilitismo de lhe inventar efeitos “folclóricos” (escreve num inglês perfeito; conta histórias na língua dos colonos para que os seus livros possam ser lidos em todo o continente, é assim que se justifica quando é disso acusado). Nascido num país, a Nigéria, com 200 etnias e 500 línguas faladas, Chinua Achebe consegue unificar numa língua escrita (extraindo do todo o essencial) essas múltiplas tradições da oralidade, retratando uma identidade em constante e subtil mudança.

O olhar desapiedado

Deste autor nigeriano foram publicados em Portugal três dos cinco romances que escreveu: A Flecha de Deus (Edições 70, 1978), Um Homem Popular (Caminho, 1987) e aquele que é considerado a sua obra-prima, Quando Tudo Se Desmorona (Mercado de Letras, 2008). Chinua Achebe foi uma voz incómoda para alguns intelectuais africanos que a qualquer pretexto desfraldam a bandeira da “vitimização” do continente, demitindo-se assim de responsabilidades; e foi-o também para um certo Ocidente trendy que não se consegue ver livre de um exacerbado complexo de culpa histórica, e que com essa disfarçada atitude paternalista mais não faz do que legitimar a hipocrisia e a desgraça.

Em Um Homem Popular é feita uma crítica feroz, por vezes irónica, aos políticos africanos corruptos. E Achebe sabe daquilo que conta. O livro foi publicado originalmente em 1966 e a história acaba com um golpe de Estado, final profético, pois uns meses depois o Governo nigeriano foi derrubado. A trama literária é-nos narrada por um jovem professor de aldeia que um dia se encontra com um seu antigo mestre-escola, entretanto tornado ministro. Um Homem Popular traz-nos o olhar desapiedado de Achebe, não apenas sobre a classe política, mas também sobre os povos africanos: “O próprio povo, como já vimos, tinha-se tornado ainda mais cínico do que os seus líderes, e estava apático frente às negociatas.” Achebe tenta entender (sem desculpabilizar) esse mesmo povo que acaba por ser vítima também de si próprio, ao não conseguir manter o equilíbrio entre o lado material e espiritual da vida, ao aceitar passivamente a hipocrisia de uma duplicidade de valores.

Quando Tudo Se Desmorona tem por epígrafe quatro versos de W. B. Yeats retirados do poema The Second Coming, que se refere ao dia do Juízo Final, ao acordar da Besta, à desintegração da ordem do mundo, a um tempo de desmoronamento. O livro conta-nos a história de Okonkwo, um jovem de uma tribo Igbo, que está determinado a não ser um falhado como o pai, e que pretende seguir a tradição e ascender socialmente na tribo. E as coisas não lhe correm mal. Consegue atingir a prosperidade e o topo da hierarquia. Mas chega o dia em que desrespeita a tradição e as coisas começam a mudar. É o princípio do fim, o início de uma série de catástrofes. Tudo coincide com a chegada do “homem branco”.

A linguagem de Chinua Achebe, elegante e luminosa, é muito telúrica, característica que empresta às narrativas uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos em que nada acontece, como neste exemplo retirado da sua obra-prima: “Recordou-se da história que ela habitualmente contava sobre a antiga desavença entre a Terra e o Céu, e de como o Céu retivera a chuva durante sete anos, até as sementeiras definharem e os mortos não poderem ser enterrados porque as enxadas se quebravam ao tentar abrir sulcos na Terra empedernida. Por fim, o Abutre foi enviado até junto do Céu para tentar amolecer o seu coração com uma canção sobre o sofrimento dos filhos do homem.”

 

https://www.publico.pt/2017/08/15/culturaipsilon/noticia/saber-contar-a-sombra-da-grande-arvore-africana-1782306

Paulina Chiziane: Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem conosco”

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A liberdade é um tema que preocupa Paulina Chiziane. Por isso, o novo livro da autora, O canto dos escravos, investe na libertação individual e colectiva como recurso fundamental. Falando do livro, Chiziane explica por que aposta, desta vez, numa obra em verso ao mesmo tempo que tece um comentário sobre a actualidade do país: “Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco”. E a escritora não fica por aí, neste quesito, avança que a dívida externa pode acabar num neo-colonialismo que prejudique todos os moçambicanos. Para que tal não acontece, a escritora sugere que a luta pela liberdade seja cada vez mais permanente. Além disso, depois de ano passado ter dito que não voltaria a escrever, Paulina Chiziane volta a falar do assunto, com um esclarecimento aos seus leitores.

O canto dos escravos é título do seu novo livro, que aglutina, em 120 páginas, muitos séculos de História. Por quê?

Este livro foi inspirado no nosso hino nacional, que nos diz, a certa altura: “Na memória de África e do mundo”. Então, comecei a caminhar, em busca dessa memória e da nossa História. Primeiro, escrevi um texto muito grande, era massudo. No entanto, com esses anos todos que tenho de escrita, apercebi-me que, algumas vezes, a leitura de um livro volumoso é um privilégio de poucos. Fui comprimindo o texto até que aparecesse, agora, em verso, O canto dos escravos, no qual falo do percurso dos africanos no país e fora do continente. Com este livro celebro a existência do negro, da dor, da alegria e da esperança em seis capítulos, de modo a torna-lo um diálogo entre o passado, o presente e o futuro.

 

A Paulina Chiziane que temos neste livro parece mensageira da liberdade. Concorda com isso?

Não gosto da palavra mensageira. Os meus livros todos, se for a verificar, têm um denominador comum: a liberdade, da mulher, dos grupos socialmente silenciados, do pobre e de todas as coisas, embora os temas sejam diferentes. Eu canto a liberdade que quero para mim e para os que me rodeiam. Por outro lado, verifiquei que na verdade o planeta terra tem dois continentes africanos: uma África que é esta que temos aqui e outra na América. Mas não há comunicação perfeita entre as duas Áfricas. Por isso, o livro não é tão simples assim porque move sentimentos, emoções, pensamentos e vivências, colocando esperanças nesta vida de ser negro. Este livro é para todos, porque nas escolas falamos da escravatura apenas em duas linhas e mais nada.

 

Os escravos aqui parecem ser a metáfora de um cidadão oprimido. Quis que assim fosse?

É assim, eu não quero falar de metáforas. O que quero é dizer que esta realidade existe. O escravo, ao morrer ontem, de certeza que tinha um sonho, a liberdade que possuímos hoje. Portanto, sou independente hoje porque alguém um dia lutou, sofreu e morreu. Custa-me ver que, algumas vezes, deitamos fora esta independência e liberdade que temos hoje. E não estamos a ensinar o suficiente para que as novas gerações saibam que têm responsabilidades. Ter independência não é estar livre. Somos independente, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco. Então, este livro também é uma chamada de atenção que pretende nos lembrar que a liberdade ganha-se e perde-se. Por exemplo, a dívida externa, não sabemos como foi contraída, mas pode vir a renovar um colonialismo ou mesmo uma escravatura contra o nosso povo.

 

E mesmo a propósito disso, uma voz do livro diz: “os colonos já se foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado”…

As pessoas em Moçambique têm medo, de dizer a verdade, de trabalhar e de dizer aquilo que não foi revelado. Os meus últimos livros provam isto, porque, com a sua publicação, levantaram-se vozes que falaram de proibições no lugar onde não existem. Nós somos prisioneiros dos fantasmas do passado. Por exemplo, quando estava para lançar O 7º juramento, algumas pessoas daqui de Moçambique escreveram artigos para publicar nos jornais de Portugal, de modo a frisar que “o que a Paulina escreveu não é propriamente a nossa cultura e nós não concordamos muito com esse tipo de escrita”. Mas, porque o livro ganhou uma vida própria, os capangas do passado tiveram que refazer os seus discursos.

 

Quem são esses capangas, esses escravos?

Alguns, são bem formados, mas a mente está presa, com medo de um patrão invisível. Não se libertam a si próprio e nem permitem que o seu povo se liberte também. O meu diálogo com o leitor neste livro é para uma autolibertação.

 

Como a Paulina vê a liberdade? É uma possibilidade?

Vejo como uma necessidade que se deve alcançar e preservar.

 

Por quê faz do canto, ao invés das armas, por exemplo, um instrumento propenso à liberdade?

Procuremos perceber como é que os negros que foram para a escravatura sobreviveram, vivendo numa tortura sem fim. O canto, a dança, são artes que preenchem o lado invisível do ser humano, fazendo do Homem muito forte. E quem for a ler atentamente este livro, vai perceber que alguns dos versos são letras de música, dá para ler e cantar.

 

Escreveu o livro chorando?

Não vou mentir. Até agora, há textos que leio e fico deprimida. Por exemplo, o primeiro texto do livro, “O testamento de um escravo”. Quando o leio, ainda divago no espaço. O último, “O canto de esperança”, também mexe comigo. É um texto que me coloca de pé e deixa-me com vontade de enfrentar o mundo.

 

E o que lhe faz pensar que o canto pode triunfar?

O canto não pode, vai triunfar, se cantarmos, resistirmos e estudarmos em colectivo. Se trabalharmos em conjunto, não haverá força que nos derrube. A liberdade é esta possibilidade de fazer com que a minha voz possa ser ouvida.

 

“Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição”. Este seu verso é muito profundo.

É verdade, e qualquer negro no mundo pode-lhe dizer isto. É o discurso do opressor, uma realidade amarga.

 

Não teme que a chamem “escritora racista” pelo compromisso que este livro tem com Homem preto?

Já me chamaram vários nomes e não é isso que me vai preocupar. Pensar no que me vão chamar pode ser uma outra prisão, outra escravatura. Mas repara que não falei de raça, falei de genocídio. Agora, se o genocídio foi para os pretos, de que mais vou falar? Não se trata de promover xenofobia. Falo da humanidade.

 

O FIM DA ESCRITA OU O PRINCÍPIO DE UM RECOMEÇO?

Num dos programas que fizemos juntos, disse que já não voltaria a escrever e que estava farta de tanta incompreensão. Um ano depois, as prateleiras ganham mais um livro seu. Mudou de ideia?

Não, não mudei de ideias. Uma coisa é publicar e outra é escrever. Quando conversamos há um ano, já tinha esse trabalho pronto. Agora é que publico. Aliás, tenho uma série de trabalhos escritos, apenas à espera de ocasião para publicar. Escrever? Já chega.

 

Neste O canto dos escravos as entidades não cedem a qualquer tipo de submissão. Pelo contrário, lutam para ultrapassar dificuldades. Por quê a autora não teria a mesma persistência, nessa árdua tentativa de fintar o que a faz dizer basta à escrita?

Cansaço é um estado físico. A vista, a coluna, às vezes, cansam-se. E a vontade de escrever diminui. Às vezes, essas dificuldades são um motor. Mas quero agradecer a todos aqueles que não confiaram em mim. Sou daquele tipo de pessoas que, quando enfrenta uma dificuldade ou quando não é bem compreendida não desiste, porque acredita que um dia vai ser compreendida. Enfim, olhar para o computador, agora, hiiii…, cansa… Entre as mulheres que escreveram ou escrevem neste país sou das que trouxe mais polémicas e assuntos para reflexão. De Vez em quando é bom sossegar. Quando se fala muito da pessoa, às vezes, a mesma pode não se sentir em paz, por haver demasiada invasão da sua vida íntima. Enfim, acima de tudo, estou cansada e gostaria de convidar àqueles que um dia julgaram que estivesse enganada no meu percurso que mostrassem também a força que têm. O meu percurso foi feito de muita luta, sempre em busca da compreensão.

 

Sente que ainda é alvo dessas “cotoveladas’ que existem na literatura moçambicana?

Ainda sou e agora piorou. Há pessoas que só ficam à espera de ver o nosso trabalho para apedrejar ao invés de nos aproximar para propor melhorias à nossa obra. Esse sentido de ajuda, colaboração, é o que gostaria de ver dos donos da língua.

 

Nos últimos livros seus temos uma escrita muito virada ao real. Deixou para o passado a ficção que calha em A balada ou em O 7º Juramento?

Todos os meus livros têm um denominador comum, o que muda é o crescimento. Apercebi-me que, se quero dialogar, tenho de ser curta, incisiva, breve e, algumas vezes, mesmo cesárea, reajustando-me de acordo com a minha experiência. E eu estou a escrever o que me apetece.

 

É o que é graças aos seus primeiros cinco livros. De tal forma que, por mais que não tivesse escrito mais, a sua marca continuaria bem registada. Se tivesse começado a carreira com os seus cinco últimos livros, acha que também seria essa menina do mundo que hoje merece tanto reconhecimento?

Não fiz nada de novo. Se for a ver a literatura de Noémia de Sousa e Craveirinha, fizeram este tipo de percurso. Noémia de Sousa fez denúncia e foi reconhecida dentro e fora do país. Não me venham dizer que é preciso escrever para agradar o outro, de modo que possamos ter reconhecimento. Sinceramente, acredito que teria reconhecimento da mesma maneira, porque reconhecimento é um produto de luta, não é nenhuma dádiva. Teria sucesso na mesma, pode crer.

 

Já agora, teve dificuldades de publicação ao longo desses anos?

Internamente, sim, mas fora não. E essa é outra parte da estória interessante. Tive muitas mais dificuldades no país do que fora, sempre. E continua assim.

 

Como é que Paulina Chiziane quer ser lembrada pelos seus leitores?

Sei lá. A única coisa que me dá alegria é saber que os meus livros são cada dia mais reconhecidos. E é muita sorte, porque há escritores que são reconhecidos só depois da morte. Eu não. Tive a oportunidade de olhar para traz e dizer que trabalhei e colhi. Para mim isso basta, o que vier virá. Não estou preocupado com o futuro. Se alguém leu o meu trabalho e inspirou-se, que faça melhor do que fiz. Há uma geração muito mais nova, com melhores tecnologias, que deve continuar a luta pela liberdade.

 

Uma luta pela liberdade que inclui perdão pelos que nos escravizaram. Por quê perdoar?

É preciso perdoar para limpar o coração. O ódio é um peso, faz mal à cabeça e destrói o relacionamento com o outro. É preciso perdoar, esquecer é que não.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Que leiam O canto dos escravos, porque, quem quiser compor, até pode conseguir boas cantigas.

 

Perfil

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, já lá vão 62 anos. Estreia-se em livro em 1990, com o lançamento de Balada de amor ao vento. O seu repertório literário inclui Ventos do apocalipse;O 7º juramento; Niketche; As andorinhas; O Alegre canto da perdiz; Na mão de Deus; Por quem vibram os tambores do além? Ngoma Yethu e, agora, O canto dos escravos. É Prémio Literário José Craveirinha e soma várias condecorações e homenagens, como Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo governo português. Em 2015, foi homenageada pela SOICO, pelos 25 anos de carreira e 60 anos de vida. Este ano foi homenageada no FliPoços, no Brasil, e condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo governo brasileiro, em Maputo.

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/45544-somos-prisioneiros-dos-fantasmas-do-nosso-passado.html

 

 

 

Remição da pena, pela leitura no Brasil

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Recomendação Nº 44 de 26/11/2013 do Conselho Nacional da Justiça do Brasil

Ementa: Dispõe sobre atividades educacionais complementares para fins de remição da pena pelo estudo e estabelece critérios para a admissão pela leitura.

Origem: Presidência

 

O PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ), no uso de suas atribuições legais e regimentais,

CONSIDERANDO o teor da Nota Técnica Conjunta de n. 125/2012, expedida pelos Ministérios da Justiça e da Educação, em 22 de agosto de 2012;

CONSIDERANDO a edição da Portaria Conjunta de n. 276, de 20 de junho de 2012, do Conselho da Justiça Federal (CJF) e da Diretoria-Geral do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) do Ministério da Justiça, que disciplinou o projeto de remição pela leitura para os presos de regime fechado custodiados em penitenciárias federais de segurança máxima;

CONSIDERANDO o disposto nos arts. 126 a 129 da Lei n. 7.210/84 (Lei de Execução Penal – LEP), com a redação dada pela Lei n. 12.433, de 29 de junho de 2011, que possibilitam a chamada remição de pena pelo estudo de condenados presos nos regimes fechado e semiaberto;

CONSIDERANDO o teor da Súmula de nº 341, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que proclama: “A frequência a curso de ensino formal é causa de remição de parte do tempo de execução de pena sob regime fechado ou semiaberto”;

CONSIDERANDO o que preconiza o art. 3º, inciso III, da Resolução de n. 02, da Câmara de Educação Básica (CEB), do Conselho Nacional de Educação, que institui diretrizes curriculares para o ensino fundamental e procura valorizar os diferentes momentos e tipos de aprendizagem;

CONSIDERANDO o disposto no art. 3º, inciso IV, da Resolução de n. 03, de 11 de março de 2009, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), que associa a oferta da educação às ações complementares de fomento à leitura no contexto prisional;

CONSIDERANDO a experiência exitosa de projetos pioneiros no Brasil, em algumas unidades da federação, no sentido de assegurar à população segregada em regime fechado e que demonstra bom comportamento no cumprimento da pena a chamada remição pela leitura;

CONSIDERANDO a decisão plenária tomada no julgamento do Ato n. 0000411-19.2013.2.00.0000, na 179ª Sessão Ordinária, realizada em 12 de novembro de 2013;

 

 RESOLVE:

 

Art. 1º Recomendar aos Tribunais que:

I – para fins de remição pelo estudo (Lei nº 12.433/2011), sejam valoradas e consideradas as atividades de caráter complementar, assim entendidas aquelas que ampliam as possibilidades de educação nas prisões, tais como as de natureza cultural, esportiva, de capacitação profissional, de saúde, entre outras, conquanto integradas ao projeto político-pedagógico (PPP) da unidade ou do sistema prisional local e sejam oferecidas por instituição devidamente autorizada ou conveniada com o poder público para esse fim;

II – para serem reconhecidos como atividades de caráter complementar e, assim, possibilitar a remição pelo estudo, os projetos desenvolvidos pelas autoridades competentes podem conter, sempre que possível:

a) disposições a respeito do tipo de modalidade de oferta (presencial ou a distância);

b) indicação da instituição responsável por sua execução e dos educadores e/ou tutores, que acompanharão as atividades desenvolvidas;

c) fixação dos objetivos a serem perseguidos;

d) referenciais teóricos e metodológicos a serem observados;

e) carga horária a ser ministrada e respectivo conteúdo programático;

f) forma de realização dos processos avaliativos;

III – considerem, para fins de remição pelo estudo, o número de horas correspondente à efetiva participação do apenado nas atividades educacionais, independentemente de aproveitamento, exceto, neste último aspecto (aproveitamento), quando o condenado for autorizado a estudar fora do estabelecimento penal (LEP, art. 129, § 1º), ocasião em que terá de comprovar, mensalmente, por meio de autoridade educacional competente, tanto a frequência, como o aproveitamento escolar.

IV – na hipótese de o apenado não estar, circunstancialmente, vinculado a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento penal e realizar estudos por conta própria, ou com simples acompanhamento pedagógico, logrando, com isso, obter aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão do ensino fundamental Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) ou médio Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a fim de se dar plena aplicação ao disposto no § 5º do art. 126 da LEP (Lei n. 7.210/84), considerar, como base de cálculo para fins de cômputo das horas, visando à remição da pena pelo estudo, 50% (cinquenta por cento) da carga horária definida legalmente para cada nível de ensino [fundamental ou médio – art. 4º, incisos II, III e seu parágrafo único, todos da Resolução n. 03/2010, do CNE], isto é, 1600 (mil e seiscentas) horas para os anos finais do ensino fundamental e 1200 (mil e duzentas) horas para o ensino médio ou educação profissional técnica de nível médio;

V – estimular, no âmbito das unidades prisionais estaduais e federais, como forma de atividade complementar, a remição pela leitura, notadamente para apenados aos quais não sejam assegurados os direitos ao trabalho, educação e qualificação profissional, nos termos da Lei n. 7.210/84 (LEP – arts. 17, 28, 31, 36 e 41, incisos II, VI e VII), observando-se os seguintes aspectos:

a) necessidade de constituição, por parte da autoridade penitenciária estadual ou federal, de projeto específico visando à remição pela leitura, atendendo a pressupostos de ordem objetiva e outros de ordem subjetiva;

b) assegurar que a participação do preso se dê de forma voluntária, disponibilizando-se ao participante 1 (um) exemplar de obra literária, clássica, científica ou filosófica, dentre outras, de acordo com o acervo disponível na unidade, adquiridas pelo Poder Judiciário, pelo DEPEN, Secretarias Estaduais/Superintendências de Administração Penitenciária dos Estados ou outros órgãos de execução penal e doadas aos respectivos estabelecimentos prisionais;

c) assegurar, o quanto possível, a participação no projeto de presos nacionais e estrangeiros submetidos à prisão cautelar;

d) para que haja a efetivação dos projetos, garantir que nos acervos das bibliotecas existam, no mínimo, 20 (vinte) exemplares de cada obra a ser trabalhada no desenvolvimento de atividades;

livros-freee) procurar estabelecer, como critério objetivo, que o preso terá o prazo de 21 (vinte e um) a 30 (trinta) dias para a leitura da obra, apresentando ao final do período resenha a respeito do assunto, possibilitando, segundo critério legal de avaliação, a remição de 4 (quatro) dias de sua pena e ao final de até 12 (doze) obras efetivamente lidas e avaliadas, a possibilidade de remir 48 (quarenta e oito) dias, no prazo de 12 (doze) meses, de acordo com a capacidade gerencial da unidade prisional;

f) assegurar que a comissão organizadora do projeto analise, em prazo razoável, os trabalhos produzidos, observando aspectos relacionados à compreensão e compatibilidade do texto com o livro trabalhado. O resultado da avaliação deverá ser enviado, por ofício, ao Juiz de Execução Penal competente, a fim de que este decida sobre o aproveitamento da leitura realizada, contabilizando-se 4 (quatro) dias de remição de pena para os que alcançarem os objetivos propostos;

g) cientificar, sempre que necessário, os integrantes da comissão referida na alínea anterior, nos termos do art. 130 da Lei n. 7.210/84, acerca da possibilidade de constituir crime a conduta de atestar falsamente pedido de remição de pena;

h) a remição deverá ser aferida e declarada pelo juízo da execução penal competente, ouvidos o Ministério Público e a defesa;

i) fazer com que o diretor do estabelecimento penal, estadual ou federal, encaminhe mensalmente ao juízo da execução cópia do registro de todos os presos participantes do projeto, com informações sobre o item de leitura de cada um deles, conforme indicado acima;

j) fornecer ao apenado a relação dos dias remidos por meio da leitura.

Art. 2º Publique-se e encaminhe-se cópia desta Recomendação a todos os Tribunais.

 

Filipe Nyusi, presidente de Moçambique, recebe o Ministro das Relações Exteriores do Brasil

34598386636_8674f72399_b aloysio e presidente
Acompanhado por delegação de empresários brasileiros, o ministro Aloysio Nunes Ferreira participou ontem de cerimônia de abertura de seminário empresarial por ocasião de sua visita a Maputo. Organizado pelo Itamaraty, em parceria com a Apex-Brasil e a CNI, o evento promoveu a realização de rodadas de negócios sobre o potencial de crescimento dos investimentos brasileiros no setor agrícola em Moçambique e oportunidades na produção local, entre outros, de têxteis, pneus, vidro e madeira processada.

Os compromissos da manhã do primeiro dia da viagem de trabalho a Moçambique incluíram ainda um encontro com o Vice-Ministro de Indústria e Comércio de Moçambique, Ragendra de Sousa, que reafirmou a confiança dos moçambicanos nos exportadores brasileiros e confirmou que o país já começou a retirar as barreiras às importações de frango brasileiro introduzidas na época da Operação Carne Fraca.

34476371852_d2fc4446b9_b encontro com ministri dos negocios de moçambiqueApós sua participação na vertente empresarial da visita, o ministro Aloysio Nunes Ferreira manteve reunião de trabalho com o ministro de Relações Exteriores de Moçambique, Oldemiro Baloi. No encontro, confirmaram o consenso entre os dois países sobre os principais temas da agenda bilateral e multilateral, bem como sobre cooperação, aquecimento global e necessidade de reforma das instituições de governança global. Ao final, os chanceleres assinaram três acordos, entre os quais se destaca o memorando entre os dois governos e o Banco Mundial para promoção de cooperação em meio ambiente, gestão de recursos naturais e desenvolvimento rural.

No período da tarde, o ministro Aloysio Nunes Ferreira condecorou seu colega moçambicano com o grau de Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.34476379732_f529d28612_b ladeada pelos minsitros

Ao final do dia, acompanhado pelo ministro Jorge Nhambiu (Ciência, Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional), o ministro Aloysio reabriu o Centro Cultural Brasil-Moçambique e homenageou a escritora moçambicana Paulina Chiziane, condecorando-a com a Ordem de Rio Branco, em reconhecimento do governo brasileiro ao trabalho dessa extraordinária contadora de histórias lusófonas. O Centro Cultural acaba de ser totalmente reformado e agora abriga, além de suas galerias de arte, o Auditório Vinicius de Moraes, preparado para receber espetáculos de música e teatro, sessões de cinema, seminários e palestras.

No segundo dia de sua visita de trabalho a Moçambique, o ministro Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores) representou o governo brasileiro na inauguração do Corredor Logístico de Nacala, o maior investimento da Vale fora do Brasil.34639433835_b9e54928d4_b nacala.jpg

Junto com o presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, o ministro visitou o Terminal Portuário de Nacala-a-Velha, ponto final da estrada de ferro que liga as minas de carvão moçambicanas de Moatize com o porto do oceano Índico, atravessando o território do Malawi.33829527593_811e85d19e_b corredor34476371852_d2fc4446b9_b encontro com ministro dos negocios de moçambique.jpg

Resultado de investimentos de aproximadamente US$ 9 bilhões, o corredor logístico aumentará a competitividade do carvão moçambicano no mercado internacional, permitindo o transporte de 18 milhões de toneladas do produto por ano. A estrada de ferro de 912 km de extensão tem papel importante para a melhor integração entre Moçambique e Malawi e gera grande melhora nas condições de transporte não apenas de carga, mas também de passageiros.33829526433_7b8018246f_presidente de moçambique.jpg

Após a inauguração, o ministro Aloysio e o senador Antonio Anastasia foram recebidos em audiência pelo presidente Filipe Nyusi. Na reunião, entregou carta do presidente Michel Temer convidando o chefe de Estado moçambicano a visitar o Brasil.

Fonte:http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/

‘É difícil olhar a escravidão, seja você branco ou negro’, diz vencedor do Pulitzer

Colson Whitehead,

por JOHN FREEMAN

Nenhum escritor americano se divertiu mais com coisas sérias do que Colson Whitehead, nos últimos 20 anos.

Se Ishmael Reed e Thomas Pynchon tivessem montado um grupo de teatro do absurdo, poderiam facilmente ter escolhido Colson Whitehead como nome. O grupo teria surgido em 1969, em Manhattan, ganhado força em Harvard e se desenvolvido na Redação do “Village Voice”, jornal no qual Whitehead foi crítico de TV por alguns anos.

Whitehead certa vez disse que gostava do emprego porque permitia que ele trabalhasse só quatro horas por semana. Nas outras 30, ele começou a escrever seu primeiro livro, “A Intuicionista”, uma paródia de história de detetive que é também uma brilhante evocação do conceito de avanço racial, em uma cidade parecida com Nova York, mas algo diferente.

Ao longo de sua carreira, Whitehead vem sendo o carrancudo poeta laureado da cidade onde vive. Contraposto à sua sequência de romances e ao humor absurdo que os ilumina em lampejos, há um segundo veio, no qual ele investiga e inverte os conceitos de raça e justiça racial.

O sexto romance de Whitehead, “The Underground Railroad”, é uma narrativa histórica sobre o que aconteceu e poderia ter acontecido na vida de uma adolescente chamada Cora, que foge de uma plantação na Geórgia. Ela corre de Estado a Estado, da Carolina do Norte até Indiana e além, sempre tentando escapar de Ridgeway, um caçador de recompensas.

O livro, que sai no Brasil no mês que vem pela HarperCollins, com o título “A Ferrovia Subterrânea”, é um best-seller nos EUA, tendo chegado ao primeiro posto na lista de mais vendidos do “New York Times” e recebido críticas altamente elogiosas.

Whitehead ganhou uma das “bolsas para gênios” da Fundação MacArthur e uma série de prêmios, além de ter sido finalista em outros tantos. Com “A Ferrovia Subterrânea”, ele conquistou dois dos maiores prêmios literários dos EUA, o National Book Award, em 2016 e, nesta segunda (10), o Pulitzer.

Esta entrevista foi editada a partir de uma conversa ocorrida no palco do Festival de Escritores de Vancouver, em novembro passado.

Sunny Shokrae/The New York Times
The author Colson Whitehead at his home in New York, July 28, 2016. Whiteheadâ€Ãôs newest book, â€ÃúThe Underground Railroad,â€Ãù follows a 15-year-old slave named Cora as she escapes north via a literal network of underground tracks and trains. Oprah Winfrey made it her latest book club pick on Aug. 2. (Sunny Shokrae/The New York Times) ORG XMIT: XNYT72 ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Colson Whitehead, vencedor do Pulitzer de ficção

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Folha – Você já disse que esse livro passou muito tempo germinando. Quanto? E por que você esperou para escrevê-lo?
Colson Whitehead – Eu estava terminando de escrever “John Henry Days”, no começo de 2000, quando encontrei uma referência à Ferrovia Subterrânea e lembrei de quando tinha ouvido falar sobre ela, na quarta série. Era um termo muito evocativo. Eu a imaginava literalmente como uma ferrovia sob a terra que os escravos podiam usar para fugir, até que na escola me explicaram como era.

Parecia servir como premissa para um romance, mas não havia muita história ali, e por isso acrescentei como complicador o ingrediente de que, cada Estado que o protagonista atravessa –na época o protagonista era homem–, Carolina do Sul, Carolina do Norte, representa uma possibilidade diferente para os EUA, meio que alternativa do que poderia ter existido. A ideia parecia muito boa, mas eu sabia que, se tentasse escrevê-la naquele momento, eu não teria conseguido, porque ainda não estava maduro o bastante.

Sempre tenho essas ideias e penso “isso é realmente bom; se eu fosse um escritor melhor, conseguiria colocar no papel”. E então tento me tornar um escritor melhor para fazer jus à ideia. Sempre que concluía um livro, eu voltava à ideia e tentava decidir se estava pronto. A resposta era sempre não, e por isso eu escrevia outro livro, até cerca de dois anos e meio atrás.

Eu tinha vendido um livro à minha editora, a trama já estava delineada. A ideia parecia boa, mas o conceito da “Ferrovia” me voltava o tempo todo à mente, e ntão comentei com minha mulher. Ela respondeu: “Não quero dizer que sua ideia de um romance sobre um escritor em Brooklyn vivendo uma crise de meia-idade seja idiota, mas esse livro sobre a Ferrovia Subterrânea parece muito bom”.

Você disse uma vez que Lila Mae, de “A Intuicionista”, também começou como homem e que fez do personagem uma mulher porque isso o assustava. Qual foi o motivo para fazer do narrador do novo romance uma mulher?
Acho que sempre me esforço para não me repetir demais. Sempre que escrevo alguma coisa, termino cansado do formato. É um modo de manter o frescor das coisas para mim.

Eu tinha escrito três livros em seguida narrados por homens e, por isso, precisava mudar. Uma das primeiras narrativas de escravos que li na escola foi a de Harriet Jacobs –uma mulher que fugiu de seu dono e supostamente passou sete anos escondida em um sótão, antes de conseguir escapar da Carolina do Norte. Ela diz, no começo daquele livro, que, quando uma menina escrava chega à puberdade, começa o pior período para ela, porque se torna presa sexual do senhor de escravos, dos feitores, de outros escravos, e tem a obrigação de produzir bebês –quanto mais bebês, mais gente para colher algodão, e mais algodão queria dizer mais dinheiro. A menina era obrigada a produzir pessoas que pudessem se tornar máquinas de fazer dinheiro para o senhor de escravos.

Os terrores específicos de ser uma escrava pareciam merecer um estudo em ficção, e voltar àquela primeira inspiração me fez pensar: por que não uma protagonista mulher?

Em “John Henry Days”, “A Intuicionista” e no novo livro, você fala de como a questão racial está indelevelmente conectada à maquinaria do capitalismo. Fico imaginando se contar a história de Cora foi como que criar um antídoto para aquela maquinaria.
Todo mundo está aprisionado na máquina de diferentes maneiras. E há as pessoas que escapam, e essas são as pessoas na Ferrovia Subterrânea, como Cora –que alguém escape representa uma traição da ordem. É claramente assim que Ridgeway encara a situação. Se você permitir que muitas pessoas escapem, a sociedade escravocrata se dissolve.

Os escravos se rebelam de diferentes formas, seja cuspindo na sopa do senhor, seja fugindo. O livro é sobre o grande e heroico gesto de escapar de um sistema, um ato de verdadeira bravura, que solapa as ideias sobre as quais aquela sociedade se ergueu.

Você começou a escrever o livro em 2014, ele saiu em 2016. Você escreveu muito rápido. Como é que o processo acontece? O que acontece depois que você delineia a história?
Preciso saber o começo e o fim, mas o meio pode estar indefinido. Creio que o meu jeito nerd de pensar sobre isso é que encontrar as palavras certas a cada dia já é difícil o bastante; se você não sabe o que vai acontecer, a dificuldade dobra. A cada dia acordo e, por exemplo, descrevo o pai de Ridgeway, a ferraria. São duas páginas, um bom dia de trabalho. Descrevo Ridgeway, e como ele vai para Nova York, mais uma. Às vezes você só consegue produzir uma página, às vezes consegue fazer duas coisas diferentes. Mas me imponho uma tarefa.

Tento produzir oito páginas por semana. Hoje em dia, esse parece ser o ritmo de uma boa semana. Tenho que pegar as crianças na escola, e há dias menos produtivos, de vez em quando. Se tenho uma consulta médica às 13h, penso que nem vale a pena começar a escrever. Meço minha vida com base em quanto tempo vai demorar para que eu acabe a próxima coisa horrível que tenho de fazer. Um romance é uma dessas coisas. Estou oito páginas mais perto de terminar o trabalho. E depois tiro 18 meses de folga, para lecionar, promover meus livros ou seja lá o que for –ficar curtindo minha rabugice.

Certa vez, você disse: “não considero a história muito confiável. Há a história branca e a história negra”. Você ainda sente isso, após este livro?
Com sorte, o livro talvez possa ser um acesso para pessoas diferentes pensarem a história de maneira diferente. Não tenho um público em mente ao escrever. Estou só tentando resolver um problema meu, com esses livros.

Mas quanto a esse tema específico –escravidão e raça nos Estados Unidos–, sim, estamos todos implicados nisso. E creio que a estrutura do livro permita uma conversação diferente sobre a história.

A seção sobre a Carolina do Norte, por exemplo, foi inspirada por Harriet Jacobs. Quando as pessoas pensam sobre alguém que se esconde no sótão para escapar a um regime opressivo, pensam em Anne Frank. Como posso falar sobre a opressão dos negros em 1850, e sobre a supremacia branca em 1850, de modo que isso também fale sobre a supremacia branca nazista?

E agora não estamos falando apenas de escravidão, mas sobre toda forma de demonização do outro em épocas diferentes –como isso não muda. Há personagens brancos malévolos no livro, vilões negros, heróis negros.

Creio que, se a sua família já vivia nos Estados Unidos na época da escravidão, é difícil, como branco, contemplar o fato de que seu ta-ta-tataravô estuprou, torturou e abusou de pessoas para ganhar a vida e transferiu esse conhecimento aos filhos dele: “É assim que se ganha a vida”.

Se você é negro e está confortavelmente instalado na classe média, se representa a terceira geração de sua família a ter curso superior, se você “encontrou o sucesso”, de acordo com o padrão norte-americano para isso, de que forma deve contemplar a imensa brutalidade a que seus ancestrais foram submetidos?

A escravidão é difícil de contemplar, seja você negro ou branco. Acho que se esse livro, por causa da maneira pela qual manipulo a história, permite que as pessoas pensem diferente ou entendam diferente a nossa história compartilhada, então ele é bom.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/04/1874434-e-dificil-olhar-a-escravidao-seja-voce-branco-ou-negro-diz-vencedor-do-pulitzer.shtml

JÁ CONHECE A VASTA LITERATURA PRODUZIDA POR MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS?

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EM 2009 a escritora nigeriana Chimamanda Adichie falou sobre “O perigo de uma única história”, no TEDx. Ela discorreu sobre o erro que é conhecer histórias sob apenas um aspecto e de como isso contamina nossas percepções de mundo.

Hoje conhecida mundialmente, Chimamanda aprendeu a ler e a viajar pelas linhas dos livros lendo os autores que tinha à mão, que eram geralmente americanos ou britânicos. Devido a colonização britânica, o inglês é a língua oficial da Nigéria e, claro, a influência cultural inglesa é massiva no país.

Quando foi apresentada à literatura africana de Chinua Achebe e Camara Laye, a autora mudou sua perspectiva, sua narrativa e sua vida. Começou a ver – e ler – as coisas fora da perspectiva do observador e, no caso, do “vencedor”. “Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.”

É importante que as pessoas se identifiquem nas histórias, porque elas não são únicas e, claro, elas podem estar lá. Chimamanda amava aqueles livros americanos e britânicos que lia. “Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos”, disse. Mas com um porém: “a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são”.

O que Chimamanda passou, muitas mulheres negras passam. E homens negros também, embora menos. No ano passado, mulheres protestaram contra a ausência de escritoras negras na Festa Literária de Parati (FLIP). O curador da Flip, Paulo Werneck, fez um mea culpa ao reconhecer a falha.

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Carolina Maria de Jesus com Clarice Lispector

Foto: Acervo de divulgação/Editora Rocco

Quantas pessoas sabem que uma das maiores escritoras do Brasil é uma mulher negra e favelada? O livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960, vendeu mais de 100 mil exemplares, foi traduzido para 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Mesmo com essa biografia, Carolina foi lembrada em um trecho da biografia de Clarice Lispector – escrita por Benjamin Moser – de uma forma que foi duramente criticada: “Carolina parece tensa e fora de lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro”.Nesse Dia Internacional da Mulher é preciso que as mulheres negras não sejam apagadas e reduzidas como Carolina Maria de Jesus e ampliem sua visão de mundo para além da versão única, como fez Chimamanda Adichie. Por isso The Intercept Brasil preparou uma lista de dicas de autoras negras para quem quer se ver e reconhecer na literatura:

 

  • Alzira Rufino: primeira escritora negra a ter seu depoimento gravado no Museu de Literatura Mário de Andrade, em São Paulo/SP
  • Ana Maria Gonçalves: Prémio Casa de las Américas? (2007) pelo livro “Um Defeito de Cor” (e colunista do The Intercept Brasil)
  • Geni Guimarães: Prêmio Jabuti de Literatura (1990) pela novela “A cor da ternura”
  • Eliana Alves Cruz: Prêmio Oliveira Silveira (2016), pelo livro “Água de Barrela”
  • Livia Natalia: O livro “Água Negra” foi premiado pelo Concurso Literário de Banco Capital (2011)
  • Lélia Gonzalez: Seu livro “Festas Populares no Brasil” recebeu um prêmio internacional na categoria “os mais belos livros do mundo”, na Feira de Leipzig/Alemanha Oriental – uma das mais importantes do mercado editorial
  • Miriam Alves: Publicou seu primeiro livro, “Momentos de Busca” (1983) com o dinheiro de seu 13º salário

https://theintercept.com/2017/03/08/ja-conhece-a-vasta-literatura-produzida-por-mulheres-negras/

“O Kaputo Camionista e Eusébio” livro do angolano Manuel Rui

 

Fotografia: António Escrivão | Angop

A obra literária O Kaputo Camionista e Eusébio do escritor Manuel Rui foi apresentada na quinta-feira, em Lisboa, pela editora Guerra e Paz.

O livro de 120 páginas inclui vários relatos de amigos de Manuel Rui, incluindo o do secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Vítor Ramalho, que foi colega do autor da novela, embora mais novo, na província do Huambo.
Durante a apresentação do livro, o maestro António Vitorino D’Almeida disse que Manuel Rui, com uma mestria insuperável, idealizou uma ficção encantatória com um camião e as personagens Botija ao volante e Tó-Tó à boleia, sentado ao seu lado, “com o espírito de Eusébio a cobrir Angola como um véu de amargura, de redenção e, talvez, de glória, resgatando, golo a golo, uma pátria triste”.
Segundo o apresentador, a esta sua “quase épica ficção”, Manuel Rui quis juntar o prefácio de David Borges e textos de Carla Ferreira, filha de Eusébio, de Boaventura Sousa Santos, José Jorge Letria e outros amigos. “Um livro tão original que até Boaventura Sousa Santos confessa a Manuel Rui: “os sociólogos não sabem andar de boleia”.

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Manuel Rui nasceu no Huambo a 4 de Novembro de 1941. Licenciado em Direito, em Coimbra, foi ministro da Informação no Governo de Transição para a Independência Nacional em 1975, integrando a representação de Angola em organismos internacionais como a OUA e a ONU. É poeta, contista, dramaturgo, romancista e cronista. Escreveu a letra do Hino nacional angolano e letras de canções. Participou em filmes, como figurante e declamando poemas, mas também escrevendo diálogos.
Do espanhol ao mandarim, os seus livros estão traduzidos em mais de 12 línguas. Publicou, em 1977 Sim Camarada, o primeiro livro de ficção angolana pós-independência, e é também autor do livro Quem Me Dera Ser Onda, que se converteu num clássico da literatura escrita em português.

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Na cerimônia estiveram presentes o Embaixador e Representante de Angola junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Luís de Almeida, o adido cultural da Embaixada de Angola em Portugal, Luandino de Carvalho, diplomatas, funcionários diplomáticos e estudantes.

http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/livros/o_kaputo_camionista_e_eusebio_em_lisboa

“Um dos problemas da literatura moçambicana é estar trancada num beco sem saída”

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Adelino Timóteo é um dos escritores nacionais que mais publica na actualidade. Tal evento concorre para que o autor de Nós, os do Macurungo seja alvo de alguns “ataques” por parte dos seus homólogos. Mas Timóteo não se deixa levar com as “querelas” à volta da sua velocidade de escrita. Pelo contrário, nesta entrevista, o artista realça o seu compromisso com a escrita – escrevendo como se quisesse resgatar o tempo furtivo da infância –, fala dos valores que lhe caracterizam como homem, dos traços que lhe são peculiares como criador, refere-se a alguns problemas da literatura moçambicana e deixa recados aos escritores e aos políticos.

A sua obra perpetua um fascínio por civilizações antigas. Por exemplo, a Grécia e, mais recentemente, o Egito lá estão. Como reage a esta constatação?  

Antes de tudo, devo confessar-te a minha paixão literária. Tenho um vínculo muito forte com a língua e com a leitura, desde os meus nove, dez anos. E por vezes surpreendo-me nestas constatações, trabalhadas ao nível do inconsciente. Lembro-me agora de um livro que li para aí aos dez anos, Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, que me permitiram o fascínio ao Egito daspirâmides, dos mitos. Na quinta classe, o Egipto foi também um dos temas de fascínio. A escrita nasce dessa herança entre o transcendental e a contemplação. Li o livro Carta a Greco, de Nikos Kazantzakis, nos meus dezassete anos. Fiquei fascinado com a quantidade de imagens. Mais tarde, aos trinta e quatro, surpreendi-me a escrever Viagem à Grécia. Portanto, o meu grande trabalho talvez esteja na leitura, depois tudo frui como marcas de entrosamento com outras coordenadas. Trabalho de rescrita e desconstrução, que termina na criação do meu universo.

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E esse processo da configuração civilizacional e espacial faz-se através de uma viagem que entrecruza tempo e espaço, como se pretendesse sugerir que o melhor da Humanidade está no passado… Quis com O corpo de Cleópatra estabelecer uma relação da rainha egípcia com o continente?

Não pretendo sugerir que o melhor da Humanidade esteja no passado. Devo dizer-te que tudo opera debaixo da matriz em que me sinto um cidadão do mundo, porque a minha formação cultural e literária são nutridas dessa dimensão de ser, do sentir. Escrevo como se quisesse resgatar o tempo furtivo, da infância, da adolescência, conectar-me com vozes e ressonâncias universais. Repara, hoje se fala do feminismo e vão buscar exemplos a Madame Bovary. Mas temos aqui perto a Cleópatra, as donas dos prazos. É um pouco um piscar de olhos a um espaço geográfico e mito que nos pertence por herança, mas de que somos passivos.

 

Publicou, há alguns anos, uma obra dedicada ao público infanto-juvenil, Na aldeia dos crocodilos, a qual mergulha no Zambeze com realismo fantástico. Porquê escolher esta linha do (im)provável e terror nesta conversa com as crianças?

As minhas primeiras leituras infantis foram Os cinco e os sete, de Enid Blyton. Se chama isso terror não sei como encararia os livros de Blyton, onde não faltam fantasmas e mistério. Com Na aldeia dos crocodilos pretendi oferecer histórias que ouvia em miúdo, sobre aquele universo que tanto me fascinou, de um submundo, contraponto de Alice no País das Maravilhas. Repara que os alunos da Escola Portuguesa de Maputo encenaram Na aldeia dos Crocodilos. Um grupo de canto e dança da Beira tem estado a encenar o mesmo livro.

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É muito ligado à sua terra – Nós, os do Macurungo é um exemplo claro disso. É daqueles autores que tem ou teria dificuldade em escrever fora do país?

Devo esclarecer-te que escrevi Nós, os do Macurungo, para aí aos 40 anos. É um livro de pausa. De exercício memorialístico. Muito preocupado com a verdade e a contemplação do tempo. Talvez nunca mais fique curado dessa ligação intrínseca a Macurungo. E ainda bem. Saí de lá aos 26, mas precisei de muitos anos de distância para escrever sobre o mesmo. E o resultado foi óptimo. É muito procurado. Está praticamente esgotado. Tenho já esboçado a segunda parte deNós, os do Macurungo. É uma questão de metodologia. Mais tarde, encontrei a mesma perspectiva sistemática, quando li O peixe na água, de Vargas Llosa, ou mesmo A tia Júlia e o Escrevidor, desse mesmo autor. Se quiser, Viver para contá-la, de Garcia Marquez. Ou Não chora, criança, de Ngugi wa Thiong’o. Se teria dificuldade de escrever fora do país? Diria que não. Fiz uma experiência pioneira com Não chora, Carmen, em 2009, quando cheguei à Espanha. Tenho pretensão de escrever algo sobre a comunidade africana de Lisboa, uma das cidades intrinsecamente ligadas a minha vida, pois penso que um dos problemas da nossa literatura é estar trancada num beco sem saída. Elementos e símbolos externos enriquecem qualquer literatura.

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Falando na terra, há oito anos publicou Nação pária, obra que inventa o desaparecimento de uma nação, questiona a existência de cidadãos e não se esquece do medo. Escreveu este livro tentando vaticinar o que hoje caracteriza a sociedade moçambicana?

Não tentei vaticinar nada. O livro fez-me o favor de ser intemporal. Eu tenho o hábito de ir fechando etapas, ir fechando épocas que vivi ou sobre as quais descorri, ouvi falar. A guerra foi uma delas. Quando era adolescente ouvi como os capitães de exército se enriqueciam à custa da guerra. Daí, em Nação Pária, há uma personagem que diz algo assim: “Nós inventamos a guerra para enriquecermos”. E sempre que isso se passar em Moçambique o livro ganhará actualidade. Vimos como foi urdido o processo das aquisições de armas e com quem ficou o dinheiro. Vimos como se inventaram as duas últimas guerras. Eu acho que a guerra é uma invenção com certas premissas, ou totalitárias ou de enriquecimento ou de domínio de uma tribo sobre a outra.

 

O que julga que os moçambicanos, sobretudo aqueles que não gostam e nem investem na política, devem fazer para recuperar a utopia de que se constrói o projecto de nação?

Para recuperar a utopia devemos ser mais tolerantes. O país deveria criar um fórum nacional sobre a paz, para discutir mensalmente cada questão que periga a paz, ser uma instituição que promova debates itenerantes. Que esse fórum funcionasse como uma instituição que juntasse actores políticos e da sociedade civil independente, onde se pudesse desperir da balalaica e do casaco partidário e se discutisse activamente a cidadania.

Acredita no seu país?

Acredito em Moçambique, razão porque falo de um fórum da paz a diversos níveis, onde os partidos beligerantes, cada chefe local, todos os segmentos da sociedade, fossem chamado a representar e dialogar. Uma vez por mês subia ao púlpito, na voz de políticos representante das suas hostes, e falavam das linhas de fraquezas e forças da paz, buscar caminhos conjuntos. Sermos mais abertos, porque sempre somos atropelados quando as coisas não têm conserto, quando o fogo nos tem dentro da sua cintura. Se fosse assim por um período de 10, 15, 20 anos, seríamos um país com as instituições consolidadas e fortes. Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo. Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências.

 

Numa apresentação do seu livro vinquei que “apocalipse” é um tipo de literatura próprio das épocas de perseguição e de crise, tentando convencer aos deprimidos que a vitória final será dos bons. Agrada-lhe que Apocalipse dos predadores possa ter esta interpretação?

Não tinha reparado nisso. Ainda bem que a tua sensibilidade captou essa mensagem de esperança.

 

Uma personagem desse livro diz: “O segredo desta burguesia é que criou uma utopia e, enquanto nós nos distraímos da utopia socializante, eles esbanjam do erário público, para acumular propriedades, as suas fartas mansões, os seus faustosos carros de luxo”. Identifica-se com esta reflexão?

Eu identifico-me com essa reflexão, pois quando miúdo bebemos muito a ideologia do partido Frelimo. A música era o internacionalismo, o campesinato, o proletariado e a solidariedades com os mauberes, namíbios e saharuis. Havia aquela imagem dissuasora do Xiconhoca nos jornais de parede e na revista Tempo. De repente, nos tempos que correm, alguém proferiu um discurso cheiroso prometendo que vai haver mais roubo. E uma vez a lição que nos transmitiram iluminava para a austeridade, fica-se num vácuo. E lembro-me que nos meus dezanove anos, quando o Estado ressentiu-se da falta de escolas, criaram-se escolas comunitárias. Eu e o Carlos Pinto fomos dar aulas, debaixo de cajueiros, em casa da anciã Laura Arouca. Não ganhávamos nada, mas estávamos contentes. Custa muito convencer o povo sobre o voluntariado, porque lá em cima o ensinamento que se incute é apego ao dinheiro.

 

Para quê questiona a heroicidade dos libertadores da pátria à luz dos comportamentos revelados ao longo das últimas quatro décadas, em Apocalipse dos predadores?

Esta pergunta parece ter resposta nas anteriores. O oportunismo da esquerda produziu novos ricos, que ao mesmo tempo querem ser visto como puros. Cada um quer ser legítimo para deslegitimar o outro.

 

Desafio-lhe a comentar o seguinte excerto de Amílcar Cabral, retirado do livro de Oleg Ignatiev: “Camaradas, isto é que é África! A nossa tradição é essa! Quem é chefe é cantado, e quem vem atrás para cantar de vez em quando recebe uns tostões e fica calado”.

Na cultura em que me eduquei não se fica calado, nem há espaço a bolas de sabão. Manda-se às urtigas. Isso! Às urtigas!

 

É um autor que está a escrever e a publicar constantemente, o que não é comum no país. E isso, eu sei, já lhe criou algumas “incompreensões”. As críticas dirigidas à sua velocidade de publicação condicionam-lhe? Que conclusões tira dessa estupefação dos seus homólogos?

Já me apercebi que alguns começaram a padecer de urticária desde que me tornei regular. No meio em que eu nasci e cresci este ambiente de hostilidade, quase mobbing, quase bullying, não existe. Na Beira cada novo livro meu é celebrado. De Maputo, vem as zangas. Jorge Luís Borges diz que “quando te detractam é sinal de que estás no bom caminho”. Ainda bem que tenho educação. Estou num dos momentos mais plenos de vida e de criador. Continuarei com o meu ritmo. Alguns querem vir no meu “mercedes”, mas no meu volante ninguém pega! O Rui Knopfli, meu mestre, dizia: “Não deixa que o óxido dos políticos entre na lâmina dos teus versos”. Vê, cada um pode oxidar-se como quer. Quando em 1996 o Filimone Meigos, fazendo digressão pelo país, para estabelecer equilíbrio na difusão da literatura, escalou a Beira, à busca de escritores com originais, eu fui o único que tinha pronto Os segredos da arte de amar. E foi acontecendo que nesse espírito, de que escritor é quem escreve, fui amontoando a gaveta de outros livros. Como não sou assíduo de barracas, tenho opção. Lá vou escrevendo.

 

Paulina Chiziane e Mia Couto foram alvos de muitos ataques ao longo da carreira literária. Sente-se na condição de ser alvo de alguém ou de alguma coisa?

Eu entrei para a escrita muito ingénuo. Tinha aquela concepção de que escrever é antes de tudo ler os contemporâneos. Eu li os meus contemporâneos todos e fui publicando recessões escritas no Savana e na Lua Nova, da AEMO. Quando Os segredos da arte de amar ficou pronto, para lançamento, ninguém me quis apresentar o livro. Lembrei-me muito daquela rapsódia do Nikos Kazantzakis, A Escola Comunal, que para mim, deve ter inspirado As mãos dos pretos. Fala com um e este dizia para ter com o outro, aquele, aqueloutro, etc, jogo de empurra. E depois um crítico escreveu um texto no Savana sobre “um escritor da Beira, de cujo nome esqueço-me sempre”. Eu era durante muitos anos “aquele escritor da Beira, de quem se esqueciam sempre do nome”. E a graça está aqui. Uma forma de manter a velha premissa de esquecimento é obullying, assassínio de carácter. Ou seja, criarem-se artifícios de tipo donos da bola: “Não escreva poesia”, “não, escreva poesia e nunca prosa, porque isso não é para ti”. Eu estudei o fenómeno. Isto passa-se também na Espanha. O problema é o mercado. O mundo literário é feito de vaidade. Os egos feridos.

 

Sente-se um escritor incompreendido?

A escrita deu-me prestígio, muito mais do que eu imaginei alguma vez e não posso exigir mais.Eu sinto que sou um autor não só compreendido, como acarinhado. Sinto-me privilegiado como autor de Moçambique, pelo crescente número de estudos sobre a minha obra não só no país, como em universidades de Portugal, Espanha e Brasil. Quando vou pelas ruas há algo muito marcante, o afecto das pessoas. Não quero mais do que o muito carinho que recebo, sinal óbvio de que a minha mensagem as têm alcançado. Alguns noviços me tratam por mestre. Não me suscita vaidade, pois passo a relacionar-me como amigo deles. Pedem-me todas as semanas que leia seus manuscritos. Pedem-me que os prefacie. E o problema é que, infelizmente, não consigo responder a todos como desejava, porque a demanda é maior e escasseia-me o tempo.

 

De onde vem esse poderio todo e urgência de querer dar voz às palavras?

Simplesmente tenho certo comprometimento com a escrita e uma “disciplina jornalítica”. Não é por acaso que no passado a maioria de escritores faziam carreira depois de passarem pelo jornalismo ou paralelamente. Escrever não é um fim em si. Há todo aquele trabalho de ourives. Burila-se, até sete ou oito versões do mesmo livro, em dois ou três anos. O tempo que medeia um e outro livro é no mínimo esse. É difícil ser faquir, daí haver mais propensão para frequentar barracas e apedrejar aqueles que investem oito horas por dia, curvados a acariciar os teclados.

 

Se pudesse reinventar Moçambique através da ficção, como seria?

Uma mãe que tem vinte e cinco milhões de filhos. Não uma gata borradeira. Mas uma mãe generosa, com um regaço onde cabem todos. Uma mãe-galinha, talvez, que não desampara os seus filhos, que os acoita, no seu útero. Um pouco infantil essa ideia, porque temos uma mãe-galinha que não consegue exercer a providência social e é apedrejada, velipendiada, depois se lhe queimam os pés, lhe saqueiam os ovos. A mãe-galinha pobre coitada que não tem um único ovo para si mesma, inconsolada a chorar, porque não tem nada com que abastercer os pintainhos, pois os corvos, essas aves de rapina, abocanharam-lhe todos os ovos.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Ventos do apocalipse, de Paulina Chiziane, e Maputo blues, de Nelson Saúte.

 

 

Perfil

Adelino Timóteo nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na Beira. É formado em Docência de Língua Portuguesa e em Direito. Além de escritor, é poeta, artista plástico e jornalista. Possui vários livros publicados, como: Os segredos da arte de amar, Mulungu, A virgem da babilónia, A fronteira do sublime, Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique, Livro mulher, Dos frutos do amor e desamor até à partida. É vencedor do Prémio Literário BCI (2011), do Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (2001) e do Prémio Anual do SNJ para a Melhor Crónica Jornalística.