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A dura luta contra o racismo em Portugal

A propósito do Dia Mundial da Tolerância em Portugal em novembro do ano passado foi  entrevistado Mamadou Ba, dirigente da associação S.O.S. Racismo, e uma das vozes mais sonantes no combate ao racismo e integração das minorias étcnicas na sociedade.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

Nasceu no Senegal, fundou a Associação Luso-Senegalesa e encontrou na direção da associação S.O.S. Racismo uma missão para vida. O discurso é assertivo e vai direto ao assunto. «O racismo está bastante presente em Portugal».

O movimento S.O.S. Racismo (que também existe em também em França, Austria, Itália e Noruega) comemorou vinte anos desde a sua formação e, para Mamadou Ba, é um dos organismos que «tem mesmo de existir porque há ainda muito que fazer».

Em entrevista, Mamadou admite que o cenário melhorou mas que as minorias ainda são «uma segunda camada da sociedade».

Falamos de tolerância esta semana. O racismo e a xenofobia são a antítese desta noção. 
Completamente. Como é possível sermos tão rápidos a criticar ou ostracizar uns aos outros e já nos é mais difícil aceitar que, no fundo, somos todos iguais? É um problema tão grave que está enraizado na cultura, na educação, no civismo e na forma como olhamos o mundo.

Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Como se começa a erradicar o racismo quando está tão intrínseco na nossa sociedade? 
Começa primeiro por uma catarse social a nível global. Primeiro que tudo, para resolver o problema é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo. Não é ignorar, não é achar que já se fez tudo. Vamos admitir que este é um problema endémico e a partir dai, como sociedade, vamos criar mecanismos para resolvê-lo. Obviamente, as medidas passam por diversas áreas. Numa primeira fase, é na formação dos cidadãos. A nossa educação tem de ser absolutamente revista. Os conteúdos curriculares têm de refletir a diversidade cultural. É fundamental. Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Mas essa acaba por ser uma medida a longo prazo. O que pode ser feito agora?
É verdade. Rever todo o sistema de educação demora tempo. A curto ou médio prazo, o Estado tem de traduzir, nas suas políticas gerais, medidas concretas para combater o preconceito, não só na educação mas na área do emprego, social, cultural. O olhar da justiça sobre a diferença precisa de ser reformulado.

Primeiro que tudo, para resolver o problema do racismo é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo.

Vinte anos de trabalho do S.O.S. Racismo em Portugal. O que mudou? 
Há uma coisa inegável. A questão do racismo agora faz parte do debate público. Deixou de ser um tabu discutir o racismo na sociedade. É um passo grande. Em finais da década de 1990, houve um quadro jurídico virado para o combate contra o racismo. Não havia antes. Há instrumentos públicos que foram criados nesse sentido.

E funcionam?
Precisam ser mais eficazes. Ainda pecam muito pela falta de ação. O quadro jurídico deveria evoluir segundo as indicações da ECRI (European Commission against Racism and Intolerance). Até agora tem sido muito pouco eficiente na punição de infratores. O racismo tem de ser punível por lei. Impõe-se uma restruturação substancial do sistema legal. Não resolve do ponto de vista social a questão do racismo, mas seria um poderoso incentivo.

O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas.

O S.O.S Racismo trabalha diretamente com as comunidades negra e cigana…
Que são as duas mais afetadas pela questão racial, sem dúvida. Continuam numa espécie de segunda camada da sociedade portuguesa. Quase não existem figuras de relevo destas comunidades, pois não? Isto é um sintoma do que se passa. As pessoas ainda estão «atrás do biombo» em relação aos outros.

A Europa vive uma crise de refugiados que se arrasta há já algum tempo mas que já pouco se fala. Esta situação teve algum impacto na forma como a comunidade europeia olha para as minorias étnicas? 
Eu não chamaria crise dos refugiados, mas uma crise da resposta política à questão dos refugiados. Se nós olharmos à volta da Europa, para o Líbano ou Turquia, vemos que o número de refugiados é substancialmente maior. Houve um debate público a nível europeu que resvalou pouco por cá. O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas e observamos, com muito receio, a ascensão das forças de extrema-direita.

Em Portugal também?
Não sentimos com a mesma força que noutros países, isso não.

 

Fonte;https://www.noticiasmagazine.pt/2017/mamadou-ba-racismo-punivel-lei/

Quilombolas protestam contra ação ilegal do INCRA no Quilombo de Mesquita, em Goiás

mesquitaA Exmo. Presidente
Sr. Leonardo Góes da Silva
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

Prezado Sr. Presidente,

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Associação Renovadora de Mesquita, Coordenação Estadual Das Comunidades Quilombolas de Pernambuco, Federação das Comunidades Quilombolas de Sergipe, Federação Quilombola do Estado de Minas Gerais, Conselho Estadual das Associações e Comunidades Quilombolas do Estado da Bahia, Coordenação Estadual dos Quilombos do Espírito Santo, Coordenação Estadual das Comunidades Negras Quilombolas Furnas de Dionísio (Mato Grosso), Coordenação Estadual de Comunidades Quilombolas do Piauí, Coordenação Estadual dos Quilombolas da Bahia, Associação Quilombola de São Pedro e Espírito Santo, Coordenação Estadual dos Quilombos do rio Grande do Norte, Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará, Federação estadual das Comunidades Quilombolas do Paraná, Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro, Associação Quilombola de Monte Alegre e a Terra Direitos, vem através do presente expor e requerer o que segue:
Considerando que a Convenção 169 da OIT reconhece o direito a consulta livre, prévia e informada, sempre que medidas administrativas possam afetar direitos das comunidades quilombolas;
Considerando que a Convenção 169 da OIT, o Art. 68 da ADCT da Constituição Federal e o Decreto Federal 4887/2003, reconhecem o direito à titulação do território necessário à reprodução física, social e cultural das comunidades quilombolas;
Considerando que no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade Nº 3239 o Supremo Tribunal Federal, por ampla maioria, reconheceu a constitucionalidade do Decreto Federal 4887/2003, sem a imposição de qualquer tipo de condicionante;
Considerando que a Instrução Normativa do Incra Nº 57 prevê que a delimitação do território tradicional necessário à reprodução física, social e cultural da comunidade deve estar amparada em estudo científico e antropológico, bem como nas demais peças que compõem o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação;
Considerando que nos autos do processo administrativo Nº 54700.001261/2006-82 concluiu-se que o território da comunidade Quilombo Mesquita, necessária à reprodução física, social e cultural, conta com 4.200 hectares, em benefício de mais de 785 famílias;
Considerando que na data de hoje publicou-se no Diário Oficial da União a Resolução Nº 12 de 17 de maio de 2018 em que o Conselho Diretor do Incra pretendeu reduzir, de forma absolutamente ilegal, o território da comunidade quilombola Mesquita para 971,4285 hectares;
Considerando que a citada tentativa de redução não foi precedida de consulta livre, prévia e informada, como expressamente reconhecido no Art. 3º da Resolução Nº 12 de 17 de maio de 2018;
Considerando que a citada tentativa de redução não está embasada em peça técnica que componha o RTID do Quilombo Mesquita;mesquita1
Considerando que a área de 971, 4285 hectares é flagrantemente insuficiente à reprodução física, cultural e social da comunidade, pois destinará a cada família, que vive do trabalho com a terra, a média de 1.2 hectares;
Considerando as fundadas suspeitas de que a tentativa ilegal de redução do território quilombola Mesquita se deu em função de pressões políticas próprias do contexto racista que conforma a sociedade brasileira há mais de 500 anos prejudicando a comunidade quilombola Mesquita;
Considerando que na data de hoje o Incra está realizando a 14ª Mesa Nacional Quilombola no território quilombola de Kalunga, na comunidade Engenho II, em Cavalcante-GO, momento apropriado para denunciar violações à direitos das comunidades quilombolas;
As organizações que firmam a presente requerem que o INCRA adote as medidas necessárias para imediatamente revogar o quanto decidido na Resolução Nº 12 de 17 de maio de 2018, sob pena da adoção das medidas necessárias para responsabilização cível, administrativa e criminal da Instituição e dos gestores com atribuição legal para processamento e julgamento no processo administrativo Nº 54700.001261/2006-82.
Por fim, informamos que no 130º aniversário da abolição formal e inconclusa da escravidão, os fatos aqui relatados serão informados ao Ministério Público Federal, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, à Organização Internacional do Trabalho, entre outras, para adoção das medidas que julgarem pertinentes.

Brasília, 24 de maio de 2018.

Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)
Associação Renovadora de Mesquita
Coordenação Estadual Das Comunidades Quilombolas de Pernambuco
Federação das Comunidades Quilombolas de Sergipe
Federação Quilombola do Estado de Minas Gerais
Conselho Estadual das Associações e Comunidades Quilombolas do Estado da Bahia
Coordenação Estadual dos Quilombos do Espírito Santo
Coordenação Estadual das Comunidades Negras Quilombolas Furnas de Dionísio (Mato Grosso)
Coordenação Estadual de Comunidades Quilombolas do Piauí
Coordenação Estadual dos Quilombolas da Bahia, Associação Quilombola de São Pedro e Espírito Santo
Coordenação Estadual dos Quilombos do rio Grande do Norte
Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará

Federação estadual das Comunidades Quilombolas do Paraná
Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro
Associação Quilombola de Monte Alegre
Terra Direitos

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A despedida do líder da Resistência Nacional Moçambicana

As bandeiras a meia haste nas duas sedes da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) na cidade da Beira, em Moçambique, são o único sinal visível da morte do líder do partido no quotidiano da capital provincial.
Óbito/Dhlakama: Adeus ao líder da Renamo prepara-se na cidade da Beira

À porta, alguns militantes juntam-se para aguardar pelo final da reunião da comissão política do partido, na sede provincial, que deverá decidir como será feito o adeus a Afonso Dhlakama.

“Só saímos daqui quando soubermos quando é o funeral”, refere, Cândido Vaja, militante integrado num grupo que não passa de 50 pessoas, sentados em cadeiras e bancos dispostos no recinto da sede distrital, noutra ponta da cidade, num ambiente sereno.

A morte do líder da oposição moçambicana causou uma tal surpresa que é natural que ainda não haja maior mobilização, conta um outro militante à Lusa.

A mesma surpresa a que faz alusão Manuel Bissopo, secretário-geral da Renamo, para pedir aos jornalistas tempo para o partido se reunir, remetendo quaisquer declarações para depois do encontro da comissão política.

Pelas 15:00 (menos uma hora em Lisboa), aguardava-se ainda pela chegada de alguns membros do órgão, oriundos de Maputo.

Entretanto, articulavam-se também os contactos com a família de Dhlakama.

Para já, segundo referiu, prevê-se que o funeral decorra em Mangunde, distrito de Chibabava, no interior da província de Sofala, terra natal do líder da Renamo, ainda sem data marcada.

O corpo de Afonso Dhlakama foi transportado de madrugada desde a Serra da Gorongosa e encontra-se na morgue do Hospital Central da Beira, onde à porta permanecem dois militantes de base.

São uma espécie de últimos guardiões do comandante, admitem à Lusa, enquanto aguardam também por novidades.

A cidade da Beira foi a última cidade onde Dhlakama residiu antes de se retirar para a serra da Gorongosa, em 2015, recorda Vaja, que participou nalgumas sessões políticas dinamizadas pelo líder.

“Ele ensinava-nos o que fazer. Em 2017, na serra da Gorongosa, juntou jovens para uma acção sobre preparação de eleições e sobre como detectar acções de fraude”, refere.

Décadas antes, a luta tinha sido feita de armas nas mãos e Janete Tenene, que hoje chora à porta da sede provincial, na Beira, foi uma das militares da Renamo.

“Lutávamos nas matas contra a Frelimo, porque queríamos o multipartidarismo em Moçambique, e ele foi o nosso grande dirigente”, descreve.

Janete foi combatente até à assinatura dos Acordos de Paz de 1992 e aponta o comandante com “um amigo de todos e de tudo”.

A antiga militar faz parte de um grupo que viajou por estrada durante sete horas, de Chimoio, capital provincial de Manica, até à Beira para render a última homenagem a Dhlakama.

“Vai fazer muita falta em Moçambique”, para o processo de paz em curso, acrescentou.

Alberto João, militante da Renamo, tem fé e acredita que “a paz vai continuar”. Há condições, tudo depende do Governo”, conclui.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/obitodhlakama-adeus-ao-lider-da-renamo-prepara-se-na-cidade-da-beira

Nomzamo Winnie Mandela: as mulheres na História da luta contra o apartheid

Tshepiso Mabula 12 de abril de 2018 11:48

Minha avó me disse que o nome Nomzamo em isiXhosa significa a mãe de todos os esforços, ela que nunca pára de tentar e nunca desiste

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Cara prisioneira número 1323/69,

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Comecei a escrever muitas cartas para você, mas nunca terminei uma. Hoje, sinto-me compelido a derramar meu coração a você com o terrível conhecimento de que você nunca conseguirá lê-la. Talvez meu erro seja ter  esperado  ouvir a notícia de sua morte antes de compartilhar meus pensamentos com você.

Eu nasci em 1993 com a promessa de liberdade e democracia. Foi-me dito para esperar por oportunidades intermináveis ​​e uma vida melhor para mim e meus entes queridos. Enquanto escrevo isso, ainda estou esperando.

Eu ouvi muitas histórias sobre sua força resiliente em tempos de adversidade. Foi-me dito que você demonstrou amor resoluto em um tempo de revolução e como você levantou seu punho para dar esperança a um povo aleijado por um sistema projetado para aniquilá-lo.

Minha avó me disse que o nome Nomzamo em isiXhosa significa a mãe de todos os esforços, ela que nunca para de tentar e nunca desiste – e quando soube que era o nome dado a você no nascimento, eu sabia que ela não estava enganada.

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Assim como eu sou negro e sou mulher na África do Sul. Eu acordo todos os dias para me lembrar da minha posição inerentemente subserviente nessa sociedade. Eu sou lembrada diariamente que este mundo não é feito para pessoas como nós, e eu me pergunto como você sobreviveu seus 81 anos.

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Os livros de história que li falam de homens negros fisicamente capazes como os únicos heróis da luta. Retratam  de figuras com barbas revolucionárias e ternos desbotados. São altos e fortes, esses homens que definharam nas celas da prisão e são os protagonistas da luta contra o apartheid.Nelson-Mandela-y-Winnie-por-Alf-Kumalo

Suas esposas são figuras periféricas que só são celebradas por sua capacidade de manter lares e criar filhos na ausência de seus pais. Nada é dito sobre a tortura que elas sofreram. Os muitos meses passados ​​em confinamento solitário. As ordens de proibição e a difamação. A calúnia que elas enfrentaram nas mãos da mídia do apartheid. Os livros de história esqueceram-se de mencionar que, para você, o apartheid não era apenas uma história para dormir; foi uma experiência vivida.img_797x448$2018_04_02_19_54_32_293702

Eles se esqueceram de nos ensinar que você, enquanto criava filhos em um sistema patriarcal, involuntariamente se tornou o portadora da luta pela libertação. Eles esqueceram de nos ensinar que você não era apenas a esposa de um ícone de luta, mas a figura destemida que sofreu atrocidades dolorosas por uma nação que adotou você como mãe, mas o jogou sob o ônibus proverbial depois que seu pai se divorciou de você.we

Quando penso em sua vida, lembro-me de minha mãe, minha avó e muitas outras mulheres negras que se estabeleceram como sacrifícios vivos, suportando uma dor implacável para que suas comunidades pudessem prosperar.winnie (2)

Então,  Nomzamo,  por favor aceite minhas desculpas. Sinto muito por ter ajudado a demonizar você com acusações de assassinato e violência. Lamento nunca ter falado quando você foi acusada de romper com seu casamento  com cinco filhos enquanto não responsabilizava o pai. Perdoe-me por nunca ter dito a você enquanto você ainda estava viva que, se Deus fosse um matemático, você seria a linha de simetria de Deus, onde o eixo X de sua força inabalável encontraria o eixo Y de seu inegável amor e lealdade.

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Sinto muito pelas vezes em que deixei de mencionar que, se Deus fosse músico, vocês seriam os acordes negros e as batidas de Deus das baladas. Que se Deus fosse músico, você seria jazz.

Lamento por acreditar que você seria uma mancha na vida de Nelson Mandela, porque a verdade é que você era a tábua de salvação que mantinha seu nome vivo. Lamento por todas as vezes em que pesei a importância das mulheres negras em nossa sociedade. Lamento apenas comprar flores para elas nos dias de seus funerais. Sinto muito por minha complacência quando elas são empurradas para a periferia e por assistir silenciosamente quando são socados pelos mesmos punhos que foram levantados com gritos de “amandla”.

Fui criada por uma mãe que orava e muitas vezes ouvi a história de Adão e Eva no Jardim do Éden. Diz-se, em algum momento entre morder o fruto proibido e enfrentar a ira de Deus, Adão viu que era adequado trair Eva em vez de agradecê-la por sua libertação.winnie 1323

O Jardim do Éden tornou-se um tribunal de intolerância, onde o patriarcado recebeu seus poderes do supremo tribunal de juízes religiosos. É o lugar onde Eva foi condenada a uma eternidade de dor e sofrimento, e muitos aparentemente concordarão que ela era uma pecadora merecedora.

Passei muitos domingos na igreja imaginando qual o olhar que Eva deu a Adão durante aquele momento crucial em que seu dedo indicador apontou na direção dela depois que Deus fez essa pergunta pertinente. Essa cena muitas vezes me lembra a Comissão da Verdade e Reconciliação, onde você se sentou para responder pelos crimes hediondos que supostamente cometeu quando a guerra estava no auge. O homem com quem você lutou lado a lado sentou-se no maior assento do país. Ele se parecia com um deus. O primeiro do seu tipo, nosso presidente negro.

Fiquei imaginando quando exatamente a amnésia se instalara. Fiquei imaginando como é que todos se esqueceram de que os palitos de fósforo e os pneus pelos quais você foi julgada lhes garantiram a liberação de que agora desfrutavam. Como qualquer outra pessoa em uma guerra, você, Nomzamo, não era uma santa. Você era uma guerreira e, em sua luta, houve baixas.

Embora possamos querer crucificá-la por eles, nunca devemos esquecer que você também foi abusada e espancada pelo sistema contra o qual lutou.

Eu faço este empreendimento para você: Eu não vou te vilipidiar como Adão fez com Eva. Não vou esquecer que você abandonou o seu bem-estar para que eu pudesse ser negra e uma mulher na África do Sul. Não vou esquecer que, como minha mãe e outras mulheres negras, você estava na linha de frente da luta e não apenas como uma figura doméstica subserviente, mas como uma comandante.

Por isso, agradeço, prisioneira número 1323/69. Você pode nunca ser celebrado da mesma forma que o prisioneiro número 466/64, mas, para mim, você sempre será a mãe de todos os esforços, a heróina que nunca desistiu, e uma mulher que foi capaz de amar em um tempo de revolução.

Atenciosamente,

Uma jovem negro nascida livre

Tshepiso Mabula

Tshepiso Mabula é uma fotógrafa e escritora de 24 anos nascida no distrito de Lephalale, em Limpopo, na África do Sul.  Leia mais de Tshepiso Mabula

 

https://mg.co.za/article/2018-04-12-too-late-too-many-things-unsaid

Winnie Mandela “A Mãe da Nação teria restaurado a dignidade dos Negros”

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Ele foi expulso do CNA depois de ter sido condenado por discursos de ódio e criou a EFF em 2013, que cresceu para ser forte o suficiente para ser um ‘fazedor de rei’ nas eleições do governo local em 2016.

 

Um porta-voz do ANC não atendeu seu telefone quando a Reuters ligou para pedir comentários sobre as declarações de Malema.

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Winnie Madikizela-Mandela fez uma campanha incansável pela libertação do marido Nelson Mandela da prisão e emergiu como uma proeminente heroína  da libertação, mas seu legado foi mais tarde manchado por alegações de violência.

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Ela estava entre os candidatos a vice-presidente do ANC em 1997, uma posição que a teria preparado para um papel de liderança nacional, mas desistiu de sua candidatura depois de não conseguir apoio suficiente.

“A Mãe da Nação teria restaurado a dignidade dos negros”, disse Malema, adotando um epíteto amplamente usado na mídia sul-africana para refletir o respeito pela oposição declarada de Winnie Madikizela-Mandela ao regime do apartheid.

 

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Alguns sul-africanos  concentraram-se nos capítulos mais sombrios de seu passado, incluindo a condenação por sequestro e agressão de um ativista encontrado com a garganta cortada perto de sua casa em Soweto.

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“Que ela descanse em paz por todo o grande trabalho que fez”, disse Esther Shabangu, residente em Joanesburgo.

“Eu gostaria que todas nós, como mulheres, assumíssemos o legado que ela deixou para os negros neste país”.

Malema disse que a condenação de Winnie Madikizela-Mandela em 1991 foi uma farsa e prometeu que a FEP lutaria pelos direitos dos sul-africanos negros com a mesma destemida que o forte anti-apartheid.

“A lança caiu”, disse Malema. “Estamos aqui para pegar a lança.”

Nomzamo Winnie Madikizela-Mandela foi uma combatente que nunca fez acordo com o inimigo

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Milhares de sul-africanos prestaram ontem homenagem ao “espírito combativo” de Winnie Mandela com uma série de eventos dedicados à vida da lutadora contra o regime do apartheid e ex-mulher de Nelson Mandela, falecida domingo à tarde, por doença, aos 81 anos.

Apoiantes recordam Winnie com músicas de intervenção
Fotografia: DR

Muitas pessoas afluem à casa de Winnie Mandela, para homenagear a ex-mulher do ex-Presidente sul-africano, também já falecido.
Tanto o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que lidera o Congresso Nacional Africano (ANC), como o líder da oposição, Julius Malema, fundador dos Combatentes da Liberdade Económica (EFF, esquerda radical), que se tornou o confidente de Winnie Mandela nos últimos anos, saudaram a memória da militante do ANC.winie malema e cyril
As exéquias oficiais acontecem no dia 14 de Abril, anunciou Ramaphosa.
A liga das mulheres do ANC, que Winnie Mandela dirigiu no passado, organizou ontem uma marcha até ao seu domicílio, no Soweto.
Winnie e Nelson Mandela personificaram durante mais de 30 anos a luta contra o regime racista da África do Sul. A fotografia do casal, de mãos dadas, à saída de Nelson Mandela da prisão em 1990 após 27 anos atrás das grades, simbolizou uma vitória na luta contra o apartheid, que só foi oficialmente abolido em 1994.
Além de se destacar na luta antiapartheid, Winnie tornou-se uma figura controversa. A mulher que foi apelidada de “mãe da nação” encorajou a violência durante a luta contra o regime segregacionista e o seu discurso violento e as acusações de homicídio contra o seu guarda-costas afastaram-na do marido.
Nelson Mandela e Winnie, que se casaram em 1956, divorciaram-se em 1996, dois anos depois de Nelson Mandela se tornar no primeiro Presidente negro da África do Sul.
Frequentemente criticada pelo ANC, Winnie Mandela apoiava a actual liderança do partido, que o ex-marido levou ao poder após as primeiras eleições pós-apartheid em 1994.
Na segunda-feira à noite, logo após a fatídica notícia, o Presidente sul-africano, Cyrill Ramaphosa, deslocou-se à casa de Winnie Mandela no Soweto, onde os seus partidários estavam reunidos e cantavam músicas de intervenção.
“Na cultura africana, cantamos quando estamos feridos”, disse Winnie Ngwenya, 64 anos, líder da liga feminina do ANC, à agência AFP.
Uma das suas últimas aparições públicas remonta à última conferência nacional do ANC, em Dezembro, em Joanesburgo, onde foi saudada com aplausos.
Algumas semanas depois, foi hospitalizada devido a uma infecção renal e teve alta dez dias mais tarde antes de ser internada novamente no fim de semana passado.

Ícone da luta anti-apartheid : Winnie Madkizela – Mandela

Winnie Mandela morreu esta segunda-feira (02.04), aos 81 anos, num hospital de Joanesburgo, após “doença prolongada”, anunciou o seu porta-voz.

Südafrika Winnie Mandela (Imago/Gallo Images)

A política e ativista Winnie Madikizela-Mandela, figura de referência da luta contra o regime do apartheid, morreu esta esta segunda-feira (02.04), com 81 anos, num hospital de Joanesburgo, após “doença prolongada”, anunciou o seu porta-voz.

“É com grande tristeza que informamos o público de que a senhora Winnie Madikizela Mandela morreu no hospital de Milkpark de Joanesburgo segunda-feira 2 de abril”, anunciou Victor Dlamini num comunicado.

“Lutou corajosamente contra o ‘apartheid’ e sacrificou a sua vida pela liberdade do país. Manteve viva a memória do marido, Nelson Mandela, enquanto esteve preso em Robben Island e ajudou a dar à luta pela justiça na África do Sul uma das suas faces mais reconhecíveis”, afirmou.

Winnie Mandela foi casada com o antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela durante 38 anos. Separaram-se em 1992, dois anos depois da saída de “Madiba” da prisão, após 27 anos detido, e dois anos antes de se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul.

Também Winnie Mandela passou várias vezes pela prisão devido às suas atividades anti-apartheid, chegando a ser torturada pelas forças de segurança do Governo.

Em 1994, após as primeiras eleições democráticas, Winnie foi eleita deputada e nomeada vice-ministra de Arte e Cultura.

Winnie continuava a ser uma figura de referência dentro do Congresso Nacional Africano (ANC), partido que governa a África do Sul desde o fim do “apartheid”.

Nelson und Winnie Mandela (Getty Images/AFP)

Figura controversa

O percurso de Winnie é indissociável do de Nelson Mandela. A imagem dos dois, caminhando de mãos dadas no dia da libertação do herói sul-africano em 1990, correu mundo.

Nascida a 26 de setembro de 1936 na província do Cabo Oriental (sul), obteve aos 19 anos um diploma como assistente social, uma exceção para uma mulher negra na altura. Casou-se com Nelson Mandela em junho de 1958, ela com 21 anos, ele um divorciado e pai de família com quase 40. winnie2

Com a prisão do marido, assume a liderança da luta ao ‘apartheid’ e do Congresso Nacional Africano (ANC), mas divide pelo estilo autoritário, com membros do partido a acusarem-na de tortura e incitamento ao ódio.

Em 1991 é julgada e condenada a seis anos de prisão, posteriormente comutados numa multa, pelo rapto de um jovem militante, Stompie Seipei.

Em 1998, a Comissão de Verdade e Reconciliação, encarregada de julgar os crimes políticos no ‘apartheid’, considerou Winnie “politicamente e moralmente culpada de enormes violações dos direitos humanos”.

O arcebispo Desmond Tutu, que liderou a comissão, reagiu à notícia da morte da ativista lembrando-a como uma “inspiração” e “um símbolo maior” da luta contra o ‘apartheid’.

Fonte:http://www.dw.com/pt-002/morreu-a-ativista-anti-apartheid-winnie-mandela/a-43227776

Winnie Mandela :” Eu não tenho mais o sentimento do medo”

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Winnie Mandela, uma das mais destemidas ícones do combate ao apartheid que faleceu na segunda-feira, era conhecido por falar a verdade ao poder. Aqui estão algumas de suas citações famosas:

“Eu sou o produto das massas do meu país e o produto do meu inimigo.”

“Juntos, de mãos dadas, com nossos fósforos e nossos colares, vamos libertar este país.”

“Talvez se você tivesse tido um momento para se segurar e esperar o próximo golpe, suas emoções não ficariam embotadas como no meu caso. Quando isso acontece todos os dias da sua vida, quando essa dor se torna uma forma de Eu não tenho mais a emoção do medo. Não há mais nada que eu possa temer. Não há nada que o governo não tenha feito comigo. Não há nenhuma dor que eu não tenha conhecido. “

“Não permitirei que os esforços abnegados de meu marido e de seus amigos sejam esquecidos. Continuarei a lutar por uma África do Sul livre e igualitária”.

As citações seguintes apareceram em um jornal britânico em 2010, com Madikizela-Mandela depois negou:

“Mandela nos decepcionou. Ele concordou em fazer um mau acordo para os negros. Economicamente, ainda estamos do lado de fora. A economia é muito ‘branca’. Tem alguns negros simbólicos, mas muitos que deram a vida no país.” luta morreram sem recompensa “.

“Veja o que eles fazem ele fazer. O grande Mandela. Ele não tem controle ou diz mais nada. Eles colocam aquela enorme estátua dele bem no meio da mais rica área ‘branca’ de Johannesburgo. Não aqui, onde nós derramamos nosso sangue e onde tudo começou.

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“Sim, eu estava com medo no começo. Mas então há tanta coisa que eles podem fazer com você. Depois disso, é só a morte. Eles só podem te matar, e como você vê, eu ainda estou aqui.”

Fonte:http://allafrica.com/stories/201804030045.html