Médicos moçambicanos são treinados no Brasil no tratamento do cancer

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“Quando eu cheguei, percebi que as minhas mãos eram rudes, que eu não tinha delicadeza para fazer uma sutura. Tinha medo de operar, ficava só apoiando os colegas”, diz o médico Celso Adriano. Otorrinolaringologista moçambicano, ele está há quatro meses no Brasil, atuando como fellow no Departamento de Cabeça e Pescoço do AC Camargo Câncer Center, em São Paulo.

 

 

Por: Ruth Helena Bellinghini

Site: português.medscape.com

 

“Passo cerca de 12 horas no hospital, chego em casa, e estudo e treino mais três horas com frangos”, conta o médico, que deixou em Maputo a esposa (também médica) e os dois filhos para estudar por dois anos no Brasil. Dr. Adriano e mais dois ginecologistas estão no país como resultado de um apelo emocionado feito pela ex-primeira-dama de Moçambique, Maria da Luz Guebuza, três anos atrás em Seul, Coréia do Sul, durante a conferência Global Academic Programs, que reúne anualmente o MD Anderson Cancer Center e suas instituições-irmãs. Moçambique não tem como tratar o câncer

A antiga colônia portuguesa tem 25,2 milhões de habitantes, uma taxa de pobreza de 54,7%, com uma expectativa de vida de 51,8 anos. Independente desde 1975, Moçambique enfrentou uma guerra civil de 1977 a 1992 e, em seguida a aids, que hoje atinge 11% da população. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças transmissíveis, a mortalidade materna e os acidentes respondem por 66% das mortes no país, seguidas pelos acidentes (11%), as doenças cardiovasculares (7%) e pelo câncer (4%). Pode parecer pouco, mas são as condições precárias de diagnóstico e atendimento dos casos oncológicos que motivaram o apelo da ex-primeira-dama.

O MD Anderson encarregou três instituições-irmãs brasileiras – AC Camargo Cancer Center, Hospital Israelita Albert Einstein e Hospital do Câncer de Barretos – de adaptar e implementar o programa Extension of Communits Healthcare Outcomes (ECHO) para o telementoring dos médicos moçambicanos.

Esse tipo de programa foi idealizado pelo Dr. Sanjay Arora, da Universidade do Novo México, para conter os altos índices de mortalidade de hepatite C no estado americano, por meio de cursos e orientação on-line. Mas não demorou muito para os médicos brasileiros perceberem que cursos à distância não eram suficientes diante das carências de Moçambique.

Guerra afastou corpo médico

“Eles têm um sistema de saúde até que bem estruturado lá, com atendimento primário, secundário e terciário, mas faltam a logística e os recursos humanos”, disse o Dr. José Humberto Fregnani, cirurgião oncológico e diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital do Câncer de Barretos.

Com a guerra civil, os médicos portugueses deixaram o país e a oncologia de Moçambique parou no tempo e no espaço, com a prioridade da saúde voltada para as doenças infecciosas. Praticamente 100% dos casos – a maioria de câncer de colo do útero e mama – são diagnosticados em estágio avançado, e operados por ginecologistas especializados em partos. No país, não há mamógrafos, e não há testes de Papanicolau – usa-se vinagre, que deixa as lesões pré-cancerosas esbranquiçadas, um técnica recomendada para países pobres. As mastectomias são radicais e sem reconstrução e os quimioterápicos são escassos, da mesma forma que a morfina.

“Em Moçambique não existem opções curativas para o câncer, apenas paliativas. Usam-se técnicas que abandonamos há 30 anos”, disse o Dr. Donato Callefaro Filho, oncologista clínico do Einstein.  Não há um único aparelho de radioterapia em Moçambique. Não bastasse isso, a profissão de curandeiro não apenas é reconhecida no país, como tem assento e voz ativa no Ministério da Saúde moçambicano.

“Fizemos algumas missões em Moçambique para entender melhor as dificuldades do país”, explica o Dr. Fregnani, que coordena o grupo brasileiro.

“As dificuldades são muitas, inclusive porque a ‘velha guarda’ reluta em aceitar as novas técnicas e sistemas de trabalho. Por isso nos voltamos para os médicos jovens, dispostos não só a aprender, mas capazes de disseminar uma nova estrutura de abordagem no que se refere ao câncer.”

As mudanças são rápidas

Outro desafio foi enfrentar uma certa desconfiança dos profissionais africanos, acostumados a ver missões internacionais de ajuda pontuais, que realizam uma ação e nunca mais retornam ao país. O grupo está elaborando, ao lado do Ministério da Saúde de Moçambique, um Plano Nacional de Controle do Câncer, para que possa também se capacitar a receber ajuda internacional em termos financeiros e logísticos. O ideal, segundo ele, seria que especialistas conduzissem programas de formação, inclusive de pessoal de enfermagem e fisioterapia, por dois ou três anos lá, mas isso é inviável por conta da falta de equipamentos. A alternativa, por enquanto são as missões de ensino do grupo para Moçambique e intercâmbios, como o que estão fazendo dois ginecologistas, que estão passando um mês em cada hospital brasileiro.

“É incrível a mudança que a gente percebe nesses médicos em tão pouco tempo”, afirmou a Dra. Danielle Ramos Martins, mastologista do Einstein que acompanha os dois médicos nas aulas teóricas no hospital e no atendimento a pacientes no Hospital Municipal da Vila Santa Catarina, gerenciado pelo Einstein e escolhido por ser do SUS e ter condições de atendimento semelhantes às de Moçambique.

“A experiência foi frustrante no começo, porque os cirurgiões mais velhos não foram receptivos, mas ver esse pessoal com vontade de mudar é muito gratificante”, diz a mastologista, que ano passado virou notícia nos jornais de Maputo ao realizar pela primeira vez no país uma análise de linfonodo sentinela.

Por enquanto, não há um aporte regular de recursos para financiamento das missões e para a vinda dos médicos de Moçambique para o Brasil. O MD Anderson tem custeado passagens e estadia dos brasileiros em Maputo.

“Na última missão, houve menos dinheiro, mas agora o grupo está tão unido que nem isso foi problema e dividimos os quartos”, contou a Dra. Mila Salcedo, chefe do Serviço de Ginecologia da Santa Casa de Porto Alegre e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, que se juntou ao grupo por causa de sua colaboração com o MD Anderson. Especialista em Loop Electrosurgical Excision Procedure (LEEP), a Dra. Mila esteve duas vezes em Maputo, e na mais recente ensinou a técnica, que remove pequenas lesões pré-cancerosas do colo do útero, para uma turma de 40 alunos.

“Entrei num açougue e comprei quatro línguas de boi, que têm a mesma textura do colo do útero, para que todos pudessem treinar diversas vezes”, disse a médica, que já tirou do próprio bolso dinheiro para passagem e estadia.

“Damos muito pouco e recebemos muito. E a acolhida é cada vez melhor, porque os moçambicanos sabem que não estamos numa missão pontual, mas em um projeto com continuidade.”

Custos pagos pelo Amigo H

O Einstein, por meio do programa Amigo H, que arrecada recursos para oncologia clínica e hematologia, custeou a estadia dos ginecologistas em São Paulo e o AC Camargo providenciou uma bolsa de estudos para manter o Dr. Celso Adriano no país.

“Damos muito pouco e recebemos muito. E a acolhida é cada vez melhor, porque os moçambicanos sabem que não estamos numa missão pontual, mas em um projeto com continuidade.”

O médico brasileiro Thiago Chulan (esquerda) e seu colega moçambicano Celso Adriano, em foto tirado no Hospital A. C. Camargo.

“Houve um acordo também para que o Hospital Central de Maputo, onde ele trabalha, mantenha o pagamento dele, para que a família dele não passe por dificuldades”, contou o Dr. Thiago Chulan, médico do Departamento de Cabeça e Pescoço do AC Camargo, que atua como mentor do Dr. Celso no hospital. “No começo ele teve dificuldades para se adaptar aos padrões do hospital, mas ele tem motivação e capacidade, inclusive para disseminar o conhecimento adquirido para os colegas de Moçambique”, elogiou.

O AC Camargo tem planos para formar três especialistas moçambicanos em cabeça e pescoço nos próximos 10 anos.

“Ele chegou com mão de otorrino, mas está ganhando mãos de cabeça e pescoço, com habilidade mais refinada.”

Apesar de serem três instituições-irmãs do MD Anderson, esta é a primeira vez que AC Camargo, Einstein e Barretos atuam num projeto conjunto. Além disso, a experiência tem dado algumas ideias aos participantes.

“Se conseguimos fazer discussão de casos, cursos à distância e missões do outro lado do oceano, podemos usar o mesmo sistema amanhã ou depois para outros países de língua portuguesa na mesma situação. E, claro, usar essa experiência aqui mesmo, para treinar e aperfeiçoar os profissionais de áreas como o Norte e o Nordeste, que carecem de especialistas em oncologia”, afirma o Dr. Fregnan

 

 

https://www.brasil247.com/pt/saude247/saude247/308996/Tratamento-do-c%C3%A2ncer-Hospitais-brasileiros-treinam-m%C3%A9dicos-mo%C3%A7ambicanos.htm

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Quantos hipertensos existem em Angola?

hipertensão

 

O estudo sobre a prevalência da Hipertensão “May Measurement Month”, abrange 100 países, entre eles está  Angola que realizou medições nas províncias de Luanda, Benguela, Huíla e Cabinda, e pretende atingir na primeira quinzena deste mês 10 mil medições.

Segundo o coordenador, o estudo visa saber como está a tensão arterial e qual a prevalência da hipertensão em vários países do mundo.

“Nós queremos uma meta bastante ambiciosa, até aos dois anos subsequentes de recolha de dados, poder atingir um universo de mais de 100.000 angolanos incluídos no estudo. Até ao dia 15 nós queremos estar próximos das 10.000 medições”, disse Mário Fernandes à rádio pública angolana.

O responsável acrescentou que a pesquisa irá permitir que as autoridades sanitárias angolanas tenham uma ideia concreta de quantos hipertensos existem em Angola, qual a sua percentagem na população global e sobretudo qual o perfil do doente hipertenso no país, bem como as faixas etárias em que a doença é mais prevalente.

“São dados que nós estamos há muitos anos à procura”, frisou o médico cardiologista.

http://lifestyle.sapo.ao/saude/saude-e-medicina/artigos/angola-responde-a-estudo-internacional-com-medicao-arterial-a-mais-de-9-000-pessoas

São Tomé e Príncipe: Doença de origem desconhecida afecta quase 2.000 pessoas

São Tomé – Uma doença de origem ainda desconhecida está a afetar São Tomé e Príncipe, tendo as autoridades sanitárias diagnosticado já 1.994 casos e quatro óbitos “associados à doença”, indicou fonte hospitalar.

VISTA PARCIAL DA CIDADE DE SÃO TOMÉ

FOTO: LINO GUIMARÃES

Os primeiros casos desta infecção foram diagnosticados nos últimos 10 meses.

A infecção ataca os membros inferiores e a esmagadora maioria das vítimas são homens.

“Coceiras, inchaço das pernas, pele avermelhada que depois se constitui em bolhas, dores intensas de membros inferiores, são os principais sintomas da doença, que deixa depois uma espécie de queimadura na pele e com corrimentos“, explica a directora dos cuidados primários de saúde, Maria Tomé Palmer.

Há cerca de dois meses, o ministério da Saúde de São Tomé e Príncipe pediu a ajuda das autoridades sanitárias portuguesas para tentar identificar a doença e encontrar uma cura.

Deslocou-se ao país o infecciologista Kamal Mansinho, da Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital Egas Moniz.

O especialista português recomendou um tratamento, mas “o efeito revelou-se incapaz” de combater a doença e o número de casos esta aumentar.

Nessa altura, as autoridades falavam em mais de 640 casos e hoje já são 1.994 as pessoas infectadas.

As autoridades sanitárias do país mostram-se preocupadas e procuram agora uma segunda linha de tratamento eficaz para a doença, tendo recorrido à ajuda da Organização Mundial da Saúde (OMS), que enviou um especialista para o arquipélago.

Ghislain Sopoh, do Benim, disse hoje aos jornalistas que “ainda é prematuro” definir o tipo de patologia que está a afectar os são-tomenses.

Maria Tomé, directora dos cuidados primários de Saúde de São Tomé e Príncipe, disse que uma das enfermarias do hospital Ayres de Menezes que foi reservada para acolher os doentes com esta doença “está repleta”.

Acrescentou que os custos de internamento têm sido elevados, tendo em conta, o período demorado que as pacientes ficam no hospital para tratamento.

A médica garantiu que não há mortes directas relacionadas com a doença em causa, mas explicou que pacientes com imunidades baixas com doenças associadas ao caso, nomeadamente a diabetes, não conseguem resistir e acabam por falecer.

A gravidade da situação levou o ministério da Saúde a orientar a rádio e a televisão pública a emitir permanentemente anúncios a alertar a população sobre o risco da doença e os seus sintomas e os cuidados a ter.

Fonte: http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2017/0/5/Sao-Tome-Principe-Doenca-origem-desconhecida-afecta-quase-000-pessoas,62261526-47f4-49e6-a245-312b1b93c09a.html

Sudão do Sul: “Nossos pacientes estão nos contando histórias horríveis”

15/07/2016
Ruben Pottier, coordenador de MSF em Juba, fala sobre os relatos de sofrimento e perda dos pacientes de uma clínica móvel no sul da cidade sul-sudanesa
Sudão do Sul: “Nossos pacientes estão nos contando histórias horríveis”

“Depois de cinco dias de confrontos, este é o segundo dia calmo – não ouvimos um tiro sequer. O cessar-fogo foi respeitado no sentido de que os grupos militarizados não estão lutando entre si, mas ainda há muitos tiroteios e roubos acontecendo. De acordo com muitos pacientes que atendemos hoje e também da nossa equipe sul-sudanesa, uma área da cidade em particular ainda está muito insegura.

Esses pacientes tiveram de fugir de seus lares e ainda estão amedrontados demais para voltar. Suas casas foram saqueadas e eles perderam todos os seus pertences. Algumas pessoas que decidiram voltar para casa descobriram que tudo havia sido roubado, então precisaram retornar à igreja de Santa Theresa, no sul da cidade de Juba, onde funciona a nossa clínica móvel. As principais necessidades humanitárias dessas pessoas são alimentos, abrigo, água, saneamento e cuidados básicos de saúde.

Foto: MSFOntem realizamos 150 consultas e hoje 377. Também examinamos crianças com suspeita de desnutrição e oferecemos alimento terapêutico para aquelas que estavam grave ou agudamente desnutridas. Nossos pacientes estão nos contando histórias horríveis – como quando homens armados entraram em suas casas e atiraram nas pessoas que estavam ali. Ao tentar fugir da violência, muitos perderam membros da família. Hoje eu conheci um menino de oito anos que perdeu a mãe e o pai, assassinados a tiros, e agora não tem ninguém para cuidar dele. Vi uma menina de doze anos levando a sua irmã de três anos no colo para uma consulta e dizendo que seu pai e sua mãe tinham sido assassinados.

Muitas pessoas foram apanhadas no meio do fogo cruzado e acabaram com ferimentos a bala. Muitos outros foram feridos enquanto corriam no meio do caos tentando fugir dos confrontos. Alguns agarraram cercas de arame quando tentavam escalar muros e acabaram com cortes nos dedos; outros têm ferimentos e hematomas na cabeça, nos braços e nas pernas.

Dois pacientes nos contaram que homens armados e sem uniforme chegaram às suas casas, levaram suas crianças e todos os seus bens, incluindo as roupas. Eles contaram que fugiram de casa nus. Pessoas da vizinhança lhes deram algumas roupas, que agora são tudo que eles têm.

As histórias que temos ouvido são terríveis – inclusive sobre as coisas que estão acontecendo agora, desde que os confrontos cessaram. Ouvir esses casos é muito traumático, especialmente quando você ouviu os sons dos tiros e das bombas e o barulho das pessoas correndo nas ruas. É muito estressante para nós, mas obviamente é muito mais estressante e traumático para as pessoas que vivem nessas áreas, incluindo muitos dos integrantes da nossa equipe sul-sudanesa.

 

http://www.msf.org.br/noticias/sudao-do-sul-nossos-pacientes-estao-nos-contando-historias-horriveis

Oposição ao Governo de Mugabe cresce no Zimbabwe

zimbabwe revolta

Veteranos de guerra associaram-se às manifestações de protesto

 

A oposição ao Governo cresce num país pouco dado a protestos. Uma greve geral convocada para esta quarta-feira promete paralisar o país

Os veteranos de guerra associaram-se às manifestações de protesto cujo tom tem vindo a crescer no Zimbabwe. O alvo dos protestos é o Governo do Presidente Robert Mugabe e a acusação de políticas falhadas dirige-se ao partido na liderança, o ZANU-PF (União Nacional Africana do Zimbabwe), publica o site zimbabweano DailyNews.

“A crise que assola o nosso grande país é resultado de má governação e corrupção endémica e as suas consequências funestas estão agora à beira de consumir a nação”, declarou em conferência de imprensa Douglas Mahiya, porta-voz da Associação de Veteranos da Guerra de Libertação Nacional do Zimbabwe.

Os professores, médicos e enfermeiros estão, desde ontem, em greve de protesto por não receberem os seus salários há mais de um mês. Ainda que o Governo continue a prometer a regularização dos salários em meados deste mês de Julho, os manifestantes denunciam a falta de dinheiro crónica, que tem levado a sucessivas desvalorizações da moeda.

A greve dos sectores da função pública antecipa uma greve geral convocada por activistas para hoje. As acusações ao Executivo denunciam o mau estado da economia do país e a alegada corrupção do Governo. “Os funcionários públicos passam meses sem receber e não reagem. Deposita-se dinheiro nos bancos locais, um processo instantâneo, mas passam-se dias em filas, senão meses, para levantar uma fração desse dinheiro”, lê-se numa coluna de opinião do jornal “New Zimbabwe”.

Tumultos crescentes

As forças de segurança dispararam gás lacrimogéneo e canhões de água para tentar deter um surto de violência nas manifestação que reuniu milhares de condutores de transportes públicos na capital Harare. Os manifestantes bloquearem os acessos ao centro da cidade, obrigando os trabalhadores a fazerem dez quilómetros a pé.

Um repórter da Associated Press testemunhou, na passada segunda-feira, um grupo de manifestantes a espancarem dois polícias com paus. E nas últimas semanas tem-se assistido cenas destas quase diariamente, alimentadas pela frustração da população perante a incompetência governativa.

Robert Mugabe, que preside ao Governo do Zimbabwe desde 22 de dezembro de 1987, enfrenta cada vez mais oposição interna num país pouco dado a protestos como os que, em 1998, obrigaram a mandatar o exército para fazer parar os protestos contra a escassez de alimentos.

Em fevereiro deste ano, Mugabe comemorou o seu 92º aniversário com cerimônias públicas com pompa e circunstância, provocando reações muito negativas em vários sectores da sociedade.

http://opais.sapo.mz/index.php/internacional/56-internacional/41288-oposicao-ao-governo-de-mugabe-cresce-no-zimbabwe-.html

Moxico tem gestão elogiada pelo presidente de Angola

Kumuênho da Rosa , Samuel António , José Rufino e Lino Vieira | Luena
23 de Junho, 2016

Fotografia: Francisco Bernardo

A escassez de recursos financeiros decorrente da quebra das receitas do Orçamento Geral do Estado, principalmente do sector petrolífero, é um problema real no país, mas não pode ser pretexto para a inércia ou a improdutividade, defendeu ontem o Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

 

Num breve discurso a introduzir a sessão conjunta das comissões Econômica e para a Economia Real, no Moxico, e após ouvir o governador provincial João Ernesto dos Santos, o Presidente da República falou da preocupação do Governo em relação à execução da carteira de investimentos públicos na província numa conjuntura econômica adversa, em que a escassez de recursos põe à prova a capacidade e criatividade dos gestores.
Antes de prometer apoio e atenção ao Governo do Moxico, a quem fez elogios pela forma “cuidadosa e parcimoniosa” como procura fazer a gestão dos escassos recursos que tem, o Presidente da República falou da estratégia adoptada pelo Executivo para a saída da situação difícil que o país atravessa.
Na sua intervenção foi notório o cuidado do Presidente ao falar em“situação económica difícil” ou “adversa”, em vez de crise económica.
E nessa perspectiva, a província do Moxico, com terras férteis, numerosos rios, lagos e lagoas, e tantos outros recursos naturais, pode ter um papel determinante para alteração desse quadro no médio prazo.
O Presidente destacou que apesar dos constrangimentos relatados pelo governador João Ernesto dos Santos, quando fez a leitura do relatório do plano de desenvolvimento económico e social da província, é possível perceber que há um grande trabalho e os progressos são evidentes. “Temos que dar os parabéns por estes feitos”, assinalou.
O Chefe de Estado justificou a escolha do Luena para acolher a sessão conjunta das comissões Económica e para a Economia Real do Conselho de Ministros, com a “preocupação” do Executivo em relação a “alguns problemas que se têm agravado nessa província por causa da situação económica e financeira que o país vive”.

Bens exportáveis

O Presidente da República prometeu mais apoio à província do Moxico, mas antes explicou como ele deverá ser dado, e mais do que isso, o que espera da província, das autoridades locais e do sector empresarial privado, que tem um papel preponderante na estratégia para debelar os efeitos da escassez de recursos financeiros.
“Aqui, na província do Moxico, queremos dedicar atenção à produção e exportação de madeira. É possível fazer-se isso, tal como exportar o mel e também o arroz”, disse o Presidente José Eduardo dos Santos, lembrando que esta circunscrição da região Leste do país já produziu perto de 70 mil toneladas de arroz por ano, só de agricultura familiar.
O Chefe de Estado destacou que no quadro actual era expectável, nessa região, uma situação mais dramática dada a escassez de recursos financeiros e outras dificuldades. Mas, referiu, a província do Moxicoproduz alimentos e vive essencialmente do que produz.

Ambiente complicado

Uma das notas de destaque nessa visita do Presidente da República ao Moxico, foi a referência que fez sobre as contribuições da Sonangol ao Tesouro Nacional. Falando de forma pausada e para dissipar quaisquer equívocos, o Presidente José Eduardo dos Santos explicou como a razão da falta de recursos e como a queda do preço do petróleo no mercado internacional se refletiram na capacidade da Sonangol de contribuir para o Tesouro Nacional e para redução do fluxo de divisas no sistema financeiro nacional.
O Orçamento Geral do Estado para 2016 aprovado pela Assembleia Nacional foi calculado com base no preço de referência do barril do petróleo a 45 dólares. Só que em Fevereiro o preço do petróleo no mercado internacional chegou aos 28 dólares o barril, o que agudizou ainda mais a crise já que a venda do petróleo é a principal fonte de receitas do OGE, contribuindo com cerca de 60 por cento.
Com o preço em baixa, a concessionária nacional de hidrocarbonetos ficou sem condições de garantir recursos para o OGE. “Desde Janeiro que o Tesouro Nacional deixou de receber receitas da Sonangol, porque ela não está em condições de o fazer”, declarou o Presidente antes de sublinhar que sem os 60 por cento de receitas do sector petrolífero,restou apenas o sector não petrolífero, com as alfândegas a serem a principal fonte.

Menos receitas

Com uma economia fortemente dependente de importações, era de esperar que as alfândegas perdessem também capacidade de arrecadação de receitas, pela cobrança de serviços aduaneiros, uma vez que sem divisas não se importam bens, muito menos se contratam serviços de especialistas expatriados.
“Como as importações diminuíram drasticamente, também diminuíram as receitas dos serviços aduaneiros. Isso para perceber como fazemos a gestão, num ambiente extremamente complicado, em que não há divisas”, frisou. O Presidente da República lembrou que foi precisamente para sair da“situação econômica difícil em que nos encontramos”, que o Governo adotou uma estratégia com o objectivo de diversificar a economia, aumentando a produção interna e reduzindo gradualmente as importações.
Mas o Presidente tratou de esclarecer o que, afinal, se quer com a diversificação e o aumento da produção. “Queremos sobretudo produzir outros bens, para além do petróleo, para exportar”, declarou o Chefe de Estado, sublinhando tratar-se de uma tarefa estratégica. “Temos que produzir outros tipos de bens para exportar e para não depender só do petróleo”.
No relatório apresentado ao Presidente da República, o governador do Moxico, João Ernesto dos Santos, elencou os principais constrangimentos do seu Governo. Falou do mau estado das vias de comunicação, que condiciona a circulação de pessoas e mercadorias e inibe o investimento. Falou também da degradação acentuada das vias secundárias e terciárias no interior da província que estão há mais de30 anos sem beneficiar de obras de manutenção.

Quotas em falta

João Ernesto dos Santos falou ainda da não atribuição de quotas financeiras no valor de mais de quatro mil milhões de kwanzas, para o pagamento de empreitadas que constam no PIP, como sendo escolas e residências no âmbito do projecto de 200 fogos habitacionais por cada um dos municípios.
O incumprimento dessas obrigações contratuais, por parte do Governo provincial, disse João Ernesto dos Santos, tem provocado sérios embaraços na actividade dos empreiteiros de obras públicas e dos fornecedores, que depois de tantas reclamações acabam por desistir das obras.
Um outro problema apresentado por João Ernesto dos Santos Liberdade prende-se com a insuficiência de professores, médicos e outros técnicos, para dar cobertura à rede escolar, que cresceu muito, assim como a rede sanitária.
O governador alertou ainda para a necessidade de intervenção urgente do sector de urbanismo e construção, já que a cidade do Luena e bairros periféricos correm o risco de verem residências e infraestruturas públicas destruídas pelas ravinas já na próxima época chuvosa.

Mais energia para crescer

João Ernesto dos Santos apresentou ainda como propostas, durante o encontro, a necessidade de aumento de 40 megawatts de produção de energia eléctrica para fazer face ao crescimento da cidade do Luena. O governador defendeu também que sejam contemplados os municípios do Alto Zambeze, Luau, Bundas e Luchazes, tendo em conta as respectivas localizações e o papel que irão desempenhar no quadro do desenvolvimento político e econômico-social da província.
O governador defendeu ainda uma maior atenção ao setor da indústria e à operacionalização do Aeroporto do Luau, inaugurado pelo Presidente da República em Fevereiro do ano passado.

Momentos que marcaram a visita ao Luena

Eram 9h30 quando a aeronave que transportava o Presidente da República aterrou na pista do Aeroporto Comandante Dangereux, no Luena. Junto à pista estavam milhares de populares que proporcionaram ao ilustre visitante um autêntico “banho de multidão”. Com cânticos e palavras de ordem, os populares gritavam “Dos Santos amigo, Moxico está contigo, Angola está contigo”, e agitavam bandeiras, lenços e chapéus, numa demonstração de carinho ao Presidente de todos os angolanos.
Ainda no aeroporto, o Presidente teve um ritual especial de boas vindas, característico dos povos Luvale, apenas reservado aos reis e entidades entronizadas com a vontade da maioria. O Presidente tirou do bolso um valor monetário e colocou-o num balaio no chão. Enquanto isso formou-se um semi-círculo para dança dos tchileya – espécie de palhaço na tradição luvale -, ao som da katchatcha – instrumento musical típico feito à base de tronco de árvore-, e de batuques.
A ida ao complexo turístico cultural “Monumento à Paz”, local que acolheu a sessão conjunta das comissões Econômica e para a Economia Real, foi outro momento de grande simbolismo nessa visita do Presidente ao Moxico. O próprio empreendimento foi construído para homenagem aos angolanos que tornaram a paz uma realidade em Angola e com ela a estabilidade política e social, onde o Presidente José Eduardo dos Santos é uma figura incontornável desse processo. Daí a razão para a forte concentração de pessoas na fachada exterior do complexo, com cartazes dizendo “Zé Dú a escolha certa para a juventude” e “Moxico está com o Presidente”. José Eduardo dos Santos foi recebido ao som da música “Tata tunakuzangetueya”, que em português significa “papá vem, porque te amamos”.

Moxico diz presente!

Após dirigir os trabalhos da Equipa Econômica, o Presidente visitou uma pequena exposição de produtos do campo, representativos do potencial de cada município da província do Moxico. Foram exibidos produtos como a madeira em toro e trabalhada, mandioca, batata-doce e rena, banana, feijão, arroz, jinguba, mel e peixe caqueia. Era o Moxico a dizer o que pode produzir para ajudar a diversificar a dieta alimentar e a arrecadar receitas com a exportação.
A entrega de meios a antigos combatentes foi outro dos momentos da jornada do Presidente  na província do Moxico. O Chefe de Estado entregou tractores, enxadas, fertilizantes e pequenas embarcações para a pesca continental. Para as autoridades tradicionais, jovens e pessoas com deficiência, o Chefe de Estado fez a entrega de arcas, geleiras, cadeiras de rodas, canadianas, rádios, antenas parabólicas, geradores, televisores e material didático.

Agenda partidária

Antes de deixar o Moxico, o Presidente José Eduardo dos Santos teve um momento privado, que dedicou à agenda partidária. Durante cerca de 30 minutos, o líder do partido majoritário, que em Agosto realiza o seu Congresso ordinário, trabalhou com os responsáveis locais do partido.
De recordar que nas três eleições democráticas e multipartidárias realizadas na história do país, 1992, 2008 e 2012, o MPLA venceu sempre por números expressivos no círculo eleitoral do Moxico.

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/moxico_tem_gestao_elogiada