Menu

Isabel dos Santos solta o verbo

isabel dos santosA empresária angolana Isabel dos Santos alertou esta quarta-feira que em Angola “a situação está a tornar-se cada vez mais tensa, com a possibilidade de se juntar à crise económica existente, uma crise política profunda”.

Numa série de mensagens divulgadas durante o dia no Twitter, a filha do ex-chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, exemplifica: “greve nacional dos médicos com 90% de adesão, quebra do poder de compra em 170%, fome nas famílias apesar do petróleo em alta”.

As mensagens divulgadas pela empresária surgem no mesmo dia em que o seu pai, José Eduardo dos Santos, fez uma declaração garantindo que não deixou os cofres públicos vazios, e poucos dias depois de o actual Presidente, João Lourenço, ter criticado a forma como foi feita a passagem da “pasta” entre os dois chefes de Estado.

Na declaração sem direito a perguntas dos jornalistas, feita pouco depois de o actual Presidente levantar voo de Luanda rumo a Lisboa, para uma visita de Estado de três dias, José Eduardo dos Santos disse: “Não deixei os cofres do Estado vazios. Em Setembro de 2017, na passagem de testemunho, deixei 15 mil milhões de dólares no Banco Nacional de Angola como reservas internacionais líquidas a cargo do um gestor que era o governador do BNA sob orientação do Governo”.

Isabel dos Santos escreveu no Twitter que esta foi “uma entrevista sem precedentes”. “Antigo Presidente angolano Eng. José Eduardo dos Santos, afirma que não deixou os ‘cofres vazios’ e novo OGE2018 foi feito pela equipa do Presidente João Lourenço. 15 mil milhões de dólares foi valor deixado em caixa. E 29 mil milhões foi receita 2018 da Sonangol”, afirma.

João Lourenço sucedeu em Setembro de 2017, após as eleições gerais de Agosto, a José Eduardo dos Santos no cargo de Presidente da República de Angola, funções que desempenhou entre 1979 e 2017.

Em Novembro de 2017, João Lourenço exonerou Isabel dos Santos da presidência do conselho de administração da petrolífera estatal angolana Sonangol.

João Lourenço assume MPLA no Congresso de Setembro

O MPLA aprovou esta  a realização de um congresso extraordinário na primeira quinzena de Setembro deste ano e a candidatura de João Lourenço ao cargo de presidente do partido, ocupado desde 1979 por José Eduardo dos Santos.

 

“O bureau político aprovou a proposta de resolução e o cronograma de preparação e re

De acordo com o comunicado da reunião, orientada pelo presidente do partido, José Eduardo dos Santos, ladeado pelo vice-presidente, João Lourenço, e pelo secretário-geral, Paulo Kassoma, o Bureau Político apreciou a evolução da preparação das autarquias, ao nível dos municípios e recomendou às organizações intermédias do MPLA, nomeadamente os seus comités provinciais e municipais, para um forte engajamento na execução das tarefas afins, para que os seus resultados sejam coroados de êxito.
O Bureau Político recomendou que sejam cada vez mais enaltecidos os feitos da liderança do Presidente José Eduardo dos Santos, que, ao longo da sua vida política activa, deu o melhor de si pela Pátria angolana, exortando a uma maior coesão no seio do MPLA, com ética, urbanidade e respeito aos seus princípios e valores.
Na mesma reunião, o Bureau Político debruçou-se sobre três pareceres, já apreciados pelo seu organismo executivo, o Secretariado do Bureau Político, em reuniões anteriores, no quadro dos ajustamentos que o MPLA está a operar em todas as suas estruturas.
Deste modo, aprovou os pareceres sobre as candidaturas aos cargos de segundo-secretário do Comité Provincial do Cuando-Cubango do MPLA, de primeira-secretária provincial de Benguela da OMA e de primeiros-secretários dos comités provinciais da JMPLA em Benguela, no Cuando-Cubango, no Cuan-za-Norte, no Huambo e na Lunda-Sul.
A propósito da realização, ontem, da Cimeira entre os presidentes das Coreias do Norte e do Sul, que culminou com a assinatura de um acor-do para uma nova era de paz nessa região, o Bureau Político do MPLA exprimiu o seu vivo regozijo por este facto histórico.
À margem da reunião, o Secretariado do Bureau Político realizou um encontro de trabalho com os primeiros-secretários dos comités provinciais do MPLA, com os quais abordou matérias sobre as autarquias locais, bem como o actual momento sociopolítico nas respectivas áreas de jurisdição.
O Bureau Político do MPLA é o organismo permanente de direcção do Partido, que delibera no intervalo das reuniões do Comité Central.
Na sua 5ª sessão ordinária, realizada a 16 de Março deste ano, o Comité Central do MPLA rejeitou a ideia do líder, José Eduardo dos Santos, de realização do congresso extraordinário em Dezembro deste ano ou Abril de 2019.
Na altura comentou-se nos bastidores que a maioria dos membros do Comité Central prefere o mês de Junho, como a data ideal para a realização daquilo que chamam de  “transição política a nível da presidência do MPLA”, ou seja, para que se concretize a anunciada retirada da vida política activa do seu actual líder, José Eduardo dos Santos. Esta decisão de retirada abre caminho para o carácter extraordinário de um congresso do MPLA, que em situação normal só deveria acontecer em 2021.
Ao discursar na abertura da 5ª sessão ordinária do Comité Central, José Eduardo dos Santos propôs a realização do congresso extraordinário que vai resolver a questão da liderança do MPLA para Dezembro próximo ou Abril de 2019.
O comunicado final da reunião anunciou a preparação de uma reflexão do Bureau Político sobre a oportunidade de realização de um Congresso Extraordinário do Partido e sobre a transição política a nível da presidência do MPLA.
Na altura, o órgão de direcção do partido que sustenta o Governo decidiu realizar a reunião de reflexão do Bureau Político no mês de Abril de 2018 para que o Comité Central faça a reunião extraordinária sobre a matéria em Maio deste ano.
De acordo com o documento, a referida reflexão tem como fim único o fortalecimento do MPLA e o reforço da sua coesão interna, privilegiando sempre os interesses do Partido e da Nação.

Fonte: https://noticias.mmo.co.mz/2018/04/jose-eduardo-dos-santos-deixa-lideranca-do-mpla.html#ixzz5EpGqsi47

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/joao_lourenco_assume_mpla_no_congresso_de_setembro

Angola emergiu uma burguesia burocrática-empresarial e uma elite econômica

Jean-Michel Mabeko-Tali1.jpgO historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali defendeu hoje à agência Lusa que o atual Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975) está dividido em três — massa popular, classe média e a elite.

Jean-Michel Mabeko-Tali, natural do Congo-Brazzaville e professor desde 2002 na Universidade de Howard, em Washington, falava à Lusa a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, recordou que, nessa altura, existiam dois MPLA, liderado pelo “oficial”, e o “popular”, o das “massas”.

O “oficial”, sustentou, tinha uma direção que mantinha “uma relação especial com dirigentes congoleses” — “de elite para elite” -, e que beneficiava de vários privilégios, como documentos para viagens, passaportes com nomes falsos para permitir viagens no exterior em benefício da luta de libertação.

“E havia um MPLA popular, composto por militantes de base, que não tinham o mínimo acesso a estes pequenos privilégios, e muito menos contactos com a elite do país anfitrião. Embora não diretamente ligados à estrutura do movimento de libertação, tinham-no como um elemento de referência identitário e de ligação com Angola. Foi neste MPLA popular que houve o fenómeno de aprendizagem e de prática das línguas veiculares locais, como o ‘lingala’, coisa que, salvo raras exceções, não se verificava nos meios do MPLA oficial e da elite”, realçou.

Segundo o autor, doutorado em História pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot e mestre em estudos Africanos, está aí a “génese” de o MPLA de hoje refletir a divisão da sociedade angolana pós-independência em múltiplas classes sociais, cujo cordão umbilical, em termos de identidade política para uma boa parte dessas classes, é o MPLA.

“Mas é um MPLA que aparece, cada vez mais, sob visões diferentes, consoante se está nos musseques ou em bairros privilegiados. Há um MPLA que pertence à massa popular, sua base social incondicional; há um MPLA da classe média, o sustentáculo medianeiro que serve de caixa-de-ressonância e de megafone ao discurso da elite dirigente. E há esta elite, suficientemente dotada e talentosa, ao ponto de conseguir transformar o seu discurso social em discurso nacional e integracionista, que até a oposição acaba comprando”, explicou.

“[A elite] pertence a uma burguesia largamente compradora, pois na sua maioria recipiente das prebendas que resultam da inserção de Angola na economia-mundo, numa conexão em que ainda sobrevive, em larga medida, uma economia extravertida herdada do modelo económico colonial”, argumentou.

Segundo o académico congolês, os 38 anos de consulado do agora ex-Presidente José Eduardo dos Santos, “com a sua carga de estrondosos e rápidos enriquecimentos, alienaram de certo modo, e progressivamente, o forte laço político-identitário que ligava o MPLA popular e o elitista”.

“Nisto jogou também, e objetivamente falando, o pouco, senão mesmo a falta de laços de cumplicidade que o próprio presidente não foi capaz de criar com a população, sobretudo, nas províncias. Ao contrário de Agostinho Neto, não obstante o seu curto consulado à frente dos destinos do país (1975-1979), o seu sucessor não soube criar, um contrato de confiança com a população, e menos ainda com a Angola profunda. Nada de espantar, portanto, que a imagem do presidente Agostinho Neto ainda domine largamente em muitos desses lugares da Angola profunda”, destacou.

“A transformação do próprio partido numa máquina empresarial bilionária acabou por fazer emergir uma burguesia burocrático-empresarial e uma elite económica que, ao que me parece, olha agora com temor tanto para uma juventude urbana cada vez mais irrequieta, que mal se revê na JMPLA, como também para os musseques, mesmo que esses ainda lhe sejam largamente fiéis”, concluiu.

4 de Abril de 2002, o fim do pior período da história contemporânea de Angola

 

Luísa Rogério

A assinatura do Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, a 4 de Abril de 2002, pôs fim ao pior período da História recente de Angola. A data passou a designar-se como o Dia da Paz.

Venâncio de Moura, Boutros Gali e Blondin Beye, durante o processo negocial de Lusaka
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

Com o acto, o Governo angolano e a UNITA fecharam o nefasto ciclo de guerra, que deixou o pesado balanço de vários milhares de mortos. Profundamente dilacerado, o país contava, na altura, cinquenta mil crianças órfãs e cem mil mutilados. Informações disponibilizadas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR) indicam que mais de quatro milhões de angolanos tornaram-se deslocados no território nacional, enquanto 600 mil buscaram refúgio no estrangeiro.
Coube aos generais Armando da Cruz Neto, pelas Forças Armadas Angolanas (FAA), e Abreu Muengo “Kamorteiro”, pela UNITA, assinar o Memorando na presença de personalidades da sociedade civil, líderes religiosos e representantes do corpo diplomático. Milhões de angolanos no país e ao redor do mundo acompanharam a solenidade que alterou radicalmente as expectativas da população cansada de guerra. Do início das conversações, pouco depois da morte, em combate, de Jonas Savimbi, a 22 de Fevereiro, ao cessar-fogo, deu-se um curtíssimo passo. A formalização ocorreu a 4 de Abril, mas não houve o registo oficial de combates nesse espaço de tempo.
A vontade política das partes signatárias, que autorizam as chefias dos dois exércitos a conversar sem mediação estrangeira, ao longo de quinze dias, foi determinante para o desfecho positivo.
Luena, a capital do Moxico, albergou as negociações entre militares das FAA e FALA que subscreveram, a 30 de Março, o memorando complementar para a cessação das hostilidades e resolução das questões pendentes nos termos do Protocolo de Lusaka. O acto, realizado a 4 de Abril, no Palácio dos Congressos, encerrou também o período de 27 anos de acordos mal sucedidos entre o MPLA e a UNITA.
O primeiro pacto aconteceu no Algarve, a 15 de Janeiro de 1975, na sequência do reconhecimento, por Portugal, dos líderes dos três movimentos de libertação, MPLA, FNLA e UNITA, como únicos e legítimos representantes do povo angolano. Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi assinaram, pelos respectivos partidos, os chamados Acordos de Alvor, na presença de Vasco Martins e Costa Gomes, nesta ordem, Primeiro-Ministro e Presidente de Portugal. O consenso para a versão final dos documentos foi obtido ao fim de seis dias de discussões. Com 60 artigos, o entendimento estabeleceu os mecanismos de partilha do poder até à proclamação da independência de Angola, marcada para 11 de Novembro de 1975.
A eleição de uma assembleia constituinte, a seguir à retirada das tropas portuguesas de Angola, seria um dos pontos altos do processo, que cuminaria com a Independência Nacional. Alvor foi antecedido de inúmeros encontros secretos, iniciados três meses antes, tendo o texto final resultado de uma pré-cimeira, realizada em Mombaça, no Quénia. Os três movimentos definiram as formas de divisão de poderes, a estrutura do Governo de Transição, que funcionaria de modo rotativo, assim como a integridade do território e a data da independência.
Em determinada etapa da concretização dos Acordos de Alvor, o processo descarrilou. A história se encarregará de desmistificar as verdadeiras razões do revés. O facto é que o Acordo de Nakuru, rubricado a 21 de Junho de 1975, na localidade que lhe deu o nome, no Quénia, visou resgatar o espírito de Alvor.
As conversações resultaram na concordância, pelos três movimentos, de uma trégua que só vigorou até 9 de Julho. Os políticos voltaram a desentender-se. Dessa vez, sem margem para retorno à mesa de negociações.
Agostinho Neto proclamou a Independência de Angola na data prevista. Fê-lo sozinho, em nome do MPLA, sob o troar de canhões a escassos quilómetros de Luanda.
O conflito agravou-se, a ponto de ter sido considerado um dos mais violentos do mundo. A UNITA, à qual se atribuía um protagonismo menor na arena militar, montou o seu quartel-general na Jamba (Kuando Ku-bango). Armou-se e fez alianças decisivas.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/longo_caminho_ate_a_paz

4 de Abril a paz negociada de Angola

Edna Dala

Geraldo Abreu Muhengo Ukwachitembo “Kamorteiro”,  vice-chefe do Estado Maior General das FAA para a Logística e Infraestruturas  e um dos subscritores do Acordo de Paz de 2002, afirma que são raras as vezes que no continente berço se consegue alcançar uma paz real e negociada exclusivamente pelos africanos, mas os angolanos conseguiram

Dezasseis anos depois da assinatura dos acordos de paz, tudo corre como previsto, diz general
Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

É um dos subscritores do acordo que, em definitivo,  acabou com a guerra. Como é que sentiu o peso da responsabilidade que teve naquele exacto momento?
Já tinha desempenhado inúmeras  funções quer nas ex-Forças Militares da UNITA,  que eram de responsabilidade de suma importância. Mas o 4 de Abril foi um dia inédito, pois estávamos diante de figuras mais conspícuas da Nação angolana e também da comunidade internacional. Foi um acto muito emotivo e de muito sentido.

Como é que foi escolhido entre os generais da UNITA para assinar o acordo? 
Desde o dia 30 de Março, aquando da assinatura do Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, na cidade do Luena, o Governo e a direcção da UNITA tinham concordado que, a 4 de Abril, o chefe do Estado-Maior General das FAA e o então chefe do Estado Maior General das  FALA haveriam de rubricar o cessar-fogo definitivo, ou seja, o Acordo de Paz.

Como é que começaram as negociações no Moxico? Quem deu o primeiro sinal e o que começou logo a ser negociado? 

Depois da morte do Dr. Jonas Savimbi e do seu vice presidente, eng. António Sebastião Dembo, os membros do partido tinham decidido criar uma Comissão de Gestão chefiada por Lukamba Gato, que era o terceiro homem na hierarquia do partido, na época secretário-geral.
No dia 4 de Março, o chefe da Comissão de Gestão tinha comunicado aos militares e coordenadores de ação política sobre a existência deste órgão, referindo que dias antes houve contactos exploratórios entre a direcção da UNITA e o Governo. Ambos tinham entendido que havia essa possibilidade de uma aproximação e foi assim que a 15 de Março de 2002, o Governo e a UNITA mandataram as suas delegações, que se encontraram na margem esquerda do rio Luzi, a norte de Kassanga, no Moxico.
Neste primeiro encontro, por sinal muito importante, porque na época havia necessidade de se estancar as hostilidades, em definitivo, embora de forma exploratória, foi muito importante e as delegações foram chefiadas, da parte do Governo, por Geraldo Sachipengo Nunda, então chefe do Estado-Maior General adjunto das FAA, e outra parte chefiada por mim. Daí, os passos subsequentes deram-se no Luena, até que a 30 de Março assinou-se o Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka. Este foi o processo que nos levou ao 4 de Abril, porque as coisas tinham sido dirimidas.

Quem tinha dado o primeiro passo na época e o que começou por ser negociado?
A primeira coisa que foi negociada foi mesmo o cessar-fogo, pois era importante que não houvesse mais tiros  pelo país adentro. Quanto a quem se deve a iniciativa, houve uma coincidência total, pois depois da morte do Dr. Savimbi, o Governo entendeu que não convinha prosseguir com ações militares e a UNITA precisava reorganizar-se, não mais para o combate armado, mas para poder negociar, de forma mais assertiva, com o Governo e foi assim que a situação ou o processo começou. Até porque antes do dia 4 de Março, o general Nunda tinha visitado a base onde se encontrava parte da direcção da UNITA, inclusive o general Lukamba Gato e o Brigadeiro Marciel  Dachala, Isaías Chitombe, brigadeiro Diote, entre outros. Houve muito movimento exploratório para que se chegasse à conclusão de que era possível chegar a uma boa plataforma de entendimento.

Que avaliação faz dos acordos assinados? 

As transformações históricas nunca surgem de forma meteórica. 16 anos depois digo, de cabeça bem erguida, que Angola tem vindo a galgar em passos seguros e é um dos modelos em África. Raras  vezes em África se consegue alcançar uma paz real e negociada exclusivamente por africanos e angolanos conseguiram isso. Hoje temos um país cada vez mais unido e creio que pode haver uma dificuldade ali e acolá, mas,  no geral o país ganhou. Como militar idóneo, tendo em conta os meus 43 anos nas Forças Armadas, tenho a certeza que não haverá mais guerra entre os angolanos. Temos vindo a enfrentar outros desafios, olhando um pouco mais para o exterior a ver se alguém  provoca Angola. Porque, felizmente os países vizinhos são todos amigos, mas não devemos descurar que há sempre amizade aleatória e tudo que chama amizade faz-se por interesse e quando o interesse deixa de existir acabou a amizade.

Quais são os grandes desafios que hoje recaem sobre as FAA?
O mundo de hoje é bastante volátil e ambíguo e debate-se com problemas de terrorismo. No caso de Angola, em particular, há um fenómeno irritante que é a imigração ilegal, um problema que talvez algumas pessoas analisem de forma simplista, mas é uma questão muito séria porque desestabiliza. Quando os imigrantes ilegais vêm para aqui para usurparem os nossos bens, vêm com todo tipo de vícios, o que belisca sempre a economia do país.
Além da economia,  mexe com a política e a questão social e mexe com tudo, é um grande desafio. Reconheço os esforços da Polícia Nacional que tudo tem feito para pôr as coisas em ordem, mas a nossa fronteira é bastante extensa e vimos que quase todos os dias são repatriados 30 ou mais cidadãos ilegais da capital,  para não falar de outras províncias, que também são áreas potencialmente ricas em minérios, sobretudo diamantes.
É um fenómeno muito sério. Angola tem amizade com todos os países vizinhos mas não deve esquecer que tem de estar sempre alerta e cuidar dessas amizades para que um dia não nos decepcionem.

Passados 16 anos, acredita que o acordo está a ser cumprido tal como se pretendia? 
Sem dúvida, pois as FAA estão cada vez mais coesas e são hoje o barómetro da unidade nacional. Não têm faltado vozes sectaristas, mas no geral a  situação é salutar. Angola é um ente uno, indivisível o que deve ser o nosso lema.

Há ex-militares da UNITA que alegam ter ficado de fora do processo de desmobilização e sem subsídios. Como é que pensa que essa situação deve ser resolvida? 

A questão da desmobilização foi abordada desde o primeiro dia das conversações em 2002. Existem sim casos de ex-militares que não recebem os seus subsídios e este é um processo que não deve ser abordado de forma simplista.
A verdade é que muitos militares estiveram em países vizinhos e outros na fase de registo apresentaram-se com determinados nomes e quando trataram os bilhetes de identidade acrescentavam um nome, o que ocasionou diversos constrangimentos.
Na sua maioria, os que estão nesta situação receberam as suas cédulas em 2014 e deviam começar a receber os subsídios em 2015. Infelizmente foi no segundo semestre de 2014 que o país viu-se mergulhado na crise económica e financeira,  por causa da baixa do preço do “ouro negro” e,  daí para cá,  nunca mais se orçamentou esta questão referente aos ex-militares que ainda não tinham começado a receber os seus subsídios.
O problema existe mas se encontra parado, mas acredito que tão logo a economia conheça algumas melhorias o processo será retomado.

Depois de tantos anos sente que valeu a pena a assinatura deste grande acordo?
Foi a melhor coisa que o país fez, porque depois da independência ninguém conheceu a paz em Angola. Até o 11 de Novembro foi celebrado debaixo dos tiros. Na época já era militar e me encontrava numa povoação a 22 quilómetros da cidade do Luena, ao longo do caminho-de-ferro, onde fazíamos tiros ao ar a festejar a independência. Isto é festa? em Luanda celebrou-se no Primeiro de Maio. Poucos dias antes, as ex-FAPLA e o ex-ELNA (exército da FNLA) tinham se concentrado em Kifangondo, tinha havido confrontos em muitas partes de Angola e daí nunca mais conhecemos paz. Tentou-se em 1991, foi uma paz efémera que durou apenas um ano e poucos meses.
Para a paz efectiva, desta vez os angolanos reflectiram melhor. Em 1991 as coisas pareciam muito pacíficas,  mas,  profundamente,  as coisas não tinham um período  definido para que se realizassem eleições, muita coisa estava por se consolidar.

 Assiste-se a uma mudança pacífica no país

Que apelo faz para os seus companheiros das FAA?
Uma palavra de alento para os meus correligionários da FAA de Cabinda ao Cunene:   devem continuar a ser o espelho da unidade e da reconciliação nacional. Para todos os concidadãos, devemos consolidar, não a paz militar, mas sim a paz social, porque a paz militar já não faz sentido abordá-la hoje, pois a paz social é fundamental para o momento que vivemos.  Hoje a luta é de ideias, mas tem de ser uma luta civilizada, feita na diferença, pois sem diferença não haverá progresso. Sem o contraditório não há progressos e hoje as pessoas têm um pouco de receio de falar sobre a “lei da unidade dos contrários”. Mas nos tempos em que se abordava o materialismo dialéctico sem receio dizia-se que “o movimento é a vida e a vida é movimento”.

Que avaliação faz do momento que o país vive, com um novo Presidente da República e o grande desafio do combate à corrupção?
Angola tem vindo a marcar passos pela positiva, onde se assiste a uma transição pacífica, um fenómeno raro em África, pois são poucos os países que se contam aos dedos os que transitaram de forma pacífica. Foi bom ver na quinta feira (22 de Março),  o ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, no Conselho da República. Muitos podem não conseguir avaliar o peso da sua presença, mas foi muito importante e um gesto que galvaniza os corações dos angolanos, um gesto muito bonito.

O que diz sobre o combate à corrupção?
É bom que Angola deixe de figurar na lista de países corruptos e a luta que se começou é positiva porque Angola tem potencial para dispensar a corrupção, pois o país não precisa.
O que precisa é gerir bem os seus recursos e transformá-los em riqueza para que os cidadãos deixem de gritar e é possível. A corrupção é um fenómeno quase universal, cada país tem os seus corruptos, com níveis diferentes e Angola tem figurado em níveis alarmantes. O mais importante não é o nível de corrupção que atingimos mas sim sairmos desta lista de corruptos, porque Angola não tem razões para tal.
O país tem recursos, até dormentes, que ainda não foram mexidos. Ninguém está a explorar o ouro como tal, o ferro está aí a dormir a espera de quem o vá explorar. Kassinga não é a única área com ferro, temos aí o norte do país, o Bié nas áreas do Andulo há muita coisa para se explorar.
Todos devem colaborar para que a corrupção seja combatida. É um fenómeno que dá vergonha. Se não tivermos cuidado podemos até ser corrompidos por aqueles que vêm de fora, porque em muitos casos muitos foram corrompidos por forças externas e a dado momento adaptaram-se ao sistema e começaram a galgar assim. Mas não é um fenómeno hodierno, mas antigo desde os tempos coloniais, que agora atingiu proporções alarmantes. Todos temos de lutar e apoiar o Governo a lutar contra a corrupção.

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/angola_e_modelo_na_transicao_politica_em_africa

José Eduardo dos Santos : “Se quiserem que eu saia, eu saio já” da direção do MPLA

GUSTAVO COSTAcorrespondente em Luanda

JOÃO CARLOS SANTOS

O ex-chefe de Estado angolano reconheceu esta semana, durante uma reunião da cúpula do MPLA, que poderá abandonar a presidência do partido, cargo que tinha prometido deixar até ao fim deste ano. A declaração de que poderá fazê-lo em breve foi feita depois de Roberto de Almeida, um dos subscritores de um abaixo assinado contra a sua permanência à frente do MPLA, ter exigido o fim imediato da bicefalia política: João Lourenço é o Presidente da República e Eduardo dos Santos o líder do partido que governa o país – e que até recentemente era automaticamente o chefe do Estado.

“Se quiserem que eu saia, eu saio já!” – disse, visivelmente incomodado, o líder do MPLA, em reação à corrente de vozes que, no seio do partido, pretendem vê-lo afastado da vida política.

http://expresso.sapo.pt/dossies/diario/2018-03-15-Se-quiserem-que-eu-saia-eu-saio-ja.-Jose-Eduardo-dos-Santos-admite-demitir-se-da-presidencia-do-MPLA#gs.mm8f=FI

A repercussão da entrevista do Presidente de Angola

Garrido Fragoso e Edna Dala |

Em reação à entrevista colectiva concedida ontem pelo Chefe de Estado a um batalhão de jornalistas nacionais e estrangeiros, no Jardim do Palácio da Cidade Alta, em Luanda, o Jornal de Angola ouviu a reação de alguns políticos sobre o inédito evento.

Oposição com assento no Parlamento divergente entre as críticas e os elogios ao balanço dos primeiros meses
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

O vice-presidente da UNITA, Raúl Danda, disse que do Presidente João Lourenço gostaria primeiro de ouvir um resumo dos cem dias de governação, sobre as autarquias e a “forma concreta” como deve ser combatida a corrupção.
“Ficamos sem saber se em cumprimento da Lei da Probidade o Presidente da República fez ou não a sua declaração de bens”, disse o político, acrescentando que João Lourenço também “passou de lado” à premente questão da despartidarização das instituições do Estado.
Raúl Danda lamentou o facto de o Presidente da República não ter pronunciado uma só palavra sobre como vai ser resolvido o problema de Cabinda, tão pouco quando termina o prazo para o repatriamento voluntário de capitais, e as consequências para os incumpridores da medida.
“O Presidente garantiu-nos que o sofrimento da população vai aumentar até que a desgraça da crise nos abandone. Foi com profunda frustração que vi a montanha parir um rato”, afirmou o responsável da UNITA, que considerou “boa” a iniciativa (a entrevista colectiva).
“Os angolanos não estavam habituados a ver o seu Presidente falar de modo tão à vontade com os jornalistas e, por via deles, a todos os angolanos”, disse Raúl Danda, acrescentando que João Lourenço ganhou pelo marketing, mas não pelas respostas às questões colocadas.
Em relação à problemática da fiscalização dos actos do Executivo pelo Parlamento disse ter ficado a saber pela resposta do próprio Presidente da República que “tudo vai ficar na mesma”.

Lucas Ngonda 
O líder da FNLA, considerou “louvável” a iniciativa, salientando ser uma prática de vários Chefes de Estado do globo para avaliar a  situação política, económica e social dos respectivos países. “A interacção directa entre jornalistas nacionais e o Presidente da República não era prática no consulado de José Eduardo dos Santos”, lamentou Lucas Ngonda, para quem a iniciativa abre uma nova era para o país.
O combate à corrupção e a identificação dos grupos sociais facilmente corruptíveis no país, incluindo indivíduos da alta hierarquia foram os pontos aflorados pelo Presidente da República na entrevista que marcaram a atenção do político. Lucas Ngonda defendeu a fiscalização dos actos do Executivo pela Assembleia Nacional, salientando que a não aplicação da medida tem como consequências a proliferação a todos os níveis da corrupção no país, e de outros males que enfermam o desenvolvimento sustentável do país.
Em relação ao caso que envolve o ex-Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, o líder da FNLA apoiou a opinião do Presidente João Lourenço, de não permitir que as autoridades lusas continuem a subestimar as instituições judiciais do país.
“Ao não permitirem que Manuel Vicente seja julgado no país os portugueses desvalorizam a justiça do país”, disse o político.

Nota negativa
O vice-presidente da CASA-CE para Comunicação e Marketing, Lindo Bernardo Tito, deu “nota negativa” à postura do Presidente João Lourenço em “defender insistentemente” o ex-Vice-Presidente Manuel Vicente, colocando em causa as relações de um Estado com o outro.
Lindo Bernardo Tito sublinhou que “Angola é de todos e não apenas de Manuel Vicente, daí que o Presidente da República não pode insistir em defender o ex-Vice-Presidente da República.
O político destacou que João Lourenço também não fez o balanço dos 100 dias de governação, para transmitir ao país que medidas até o momento foram tomadas neste período.
O vice-presidente da coligação CASA-CE lembrou que o Executivo tem um programa intercalar com acções definidas para os 100 primeiros dias e outras que cessam em Março próximo, que deviam merecer a análise neste balanço.
O político da CASA-CE deu nota positiva ao facto de o Presidente João Lourenço ter dado uma “autorização expressa” à Rádio Ecclésia, para estender o seu sinal em todo país. “Espero que a direcção da rádio esteja preparada”, referiu.
Quanto à questão colocada sobre alegada crispação entre o Presidente e o vice-Presidente do MPLA, Lindo Bernardo Tito disse que João Lourenço deixou transparecer na sua comunicação que a relação entre ambos não é saudável.

Reacção do PRS
O presidente do Partido de Renovação Social (PRS) considerou positivo o primeiro exercício do Chefe do Executivo nos primeiros 100 dias de governação.
Benedito Daniel considerou “marcante” a entrevista, por ser inédita.
O político considerou que o exercício representa maior liberdade, abertura e confiança de João Lourenço.
Benedito Daniel disse que gostaria de ver rebatido o problema do emprego, para a juventude.

Comité Central do MPLA aprovou a resolução sobre reestruturação do partido

comite central do mpla

José Eduardo dos Santos, que falava na abertura da II sessão extraordinária do Comité Central do MPLA, que elegeu cinco novos membros para o Bureau Político e debruçou-se sobre a reestruturação do aparelho central auxiliar do partido, realçou que a prossecução desses  objectivos deve ter como base a divisa “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem” e serem realizados dentro do espírito de coesão e de unidade.
José Eduardo dos Santos pediu  aos orgãos do partido, à bancada parlamentar e aos militantes que apoiem as accões e medidas do Executivo, em  conformidade com o programa eleitoral e com a moção de estratégia do líder, aprovados no último congresso.
José Eduardo dos Santos justificou a inserção de novos departamentos no secretariado como forma de possibilitar uma maior inserção do MPLA na sociedade e responder, com máxima prontidão, às exigências impostas pelo desenvolvimento do país. Numa breve intervenção, o presidente do MPLA enfatizou que “a complexidade crescente do trabalho do partido deve ser acompanhada pela qualidade e capacidade dos seus quadros.”
O presidente do MPLAdisse ser fundamental que os quadros do partido se mostrem sempre disponíveis  e à altura dos acontecimentos, visando atingir os imensos desafios a que o partido se propõe para os próximos tempos.
Estas acções, disse, inscrevem-se no âmbito do aperfeiçoamento da vida interna, conforme preconiza o VII congresso ordinário, realizado no ano passado, cujo mote continua a ser o de elevar a eficiência e eficácia do trabalho partidário.
O comunicado final encoraja também o Executivo a implementar, com celeridade, as medidas de política essenciais estabelecidas no plano intercalar, em particular as que visam alcançar a estabilidade macroeconômica, o relançamento da economia e a mitigação dos problemas sociais mais prementes.
O órgão de cúpula do MPLA aprovou a resolução sobre a reestruturação do aparelho auxiliar central do partido, que passa a ter um gabinete dos órgãos individuais de direção, gabinete do presidente, gabinete do vice-presidente e um gabinete do secretário-geral.
O CC passa a ter um departamento do Comité Central, que conta com departamentos de organização e mobilização, para as organizações sociais e da sociedade civil, para a informação e propaganda, para a administração e finanças, para os assuntos políticos e eleitorais, para a política económica, para a política social, para a política de quadros, para os antigos combatentes e veteranos da pátria, para a reforma do Estado, administração pública e autarquias e um departamento para as relações internacionais.
O Comité Central passa também a contar com uma secretaria geral, gabinetes de coordenação de estudos e análises, de informática e tecnologias de informação, gabinete técnico e um centro de documentação e investigação histórica.
Combate à corrupção
O presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, reconheceu ontem que o combate à corrupção passa pela prevenção  e tomada de medidas adequadas de natureza educativa, judiciais  e de polícia  e outras com vista a desincentivar esse tipo de crimes.
Ao discursar na abertura do seminário de capacitação sobre prevenção dos tipos de crimes a que estão sujeitos os titulares de cargos públicos,  José Eduardo dos Santos defendeu  a divulgação das leis e todo o conjunto de medidas já existentes e as que sejam necessárias adoptar sobre esse fenómeno com vista a ultrapassar os efeitos da corrupção.
José Eduardo dos Santos reconheceu que o fenómeno é antigo, por isso, entende  que a sua abordagem exige um  enquadramento político, económico e social.
O presidente do MPLA entende ser necessário a partilha de ideias   e  conhecimentos para se encontrarem soluções. “A transparência é sermos  claros em tudo aquilo que fazemos  e dizemos, sempre orientados pela honestidade e integridade. O MPLA deve posicionar-se na linha da frente no combate a todos os males que afectam a sociedade e o povo angolano, tendo em conta que no cerne do seu ideal se encontra a firme vontade de se  construir uma sociedade mais solidária,  justa e inclusiva”, afirmou José Eduardo dos Santos.
O seminário, que decorre sob  lema “O MPLA e os desafios  do combate à corrupção e ao Nepotismo “, tem como  objectivo  clarificar, dar a conhecer e discutir a legislação relacionada com a corrupção, para que  os agentes públicos se abstenham da prática de actos que configuram eventuais crimes susceptíveis  de manchar  a boa imagem do Estado, governo e do partido que sustenta o exercício do poder político, disse.
José Eduardo dos Santos adiantou que o MPLA pretende exercer uma pedagogia para a prevenção dos crimes atentatórios à probidade pública , cujo combate está na agenda das sociedades.
O MPLA, afirmou, definiu a corrupção como sendo o segundo  principal mal  que afectava a sociedade depois da guerra, tendo em conta alguns excessos praticados por agentes públicos e privados, que obtinham de forma ilícita vantagens patrimoniais  em prejuízo do bem comum, envolvendo uma transgressão da Lei e da norma de comportamento social.
No encontro, que contou com a presença do vice-presidente do MPLA e Presidente da República, João Lourenço, e outros dirigentes, José Eduardo dos Santos falou do nepotismo caracterizado  pelo favorecimento de parentes ou amigos próximos, em processos de promoção profissional ou nomeação para o exercício de função. Este conceito, disse, sofreu evolução e existem países que não reconhecem que o parentesco por si só seja um elemento suficiente para restringir o direito de alguém  qualificado ser promovido ou nomeado. “A promoção e nomeação de pessoas qualificadas para o exercício de uma certa função constitui uma forma de protecção do interesse público e não deverá o Estado ficar restringido de nomear estas pessoas unicamente por razões de parentesco entre pessoas envolvidas”, sublinhou José Eduardo dos Santos.
O economista Carlos Rosado de Carvalho, que falou sobre a corrupção, nepotismo, acumulação primitiva de  capital, afirmou que desde 2012 Angola regrediu em matéria de corrupção e piorou a forma como as entidades externas olham para o país nessa matéria. Para o economista Alves da Rocha, que falou  sobre as Finanças Públicas,  desde 2009 que o país assiste a uma desaceleração do crescimento económico, apesar de alguns anos ter-se conseguido taxas de crescimento do PIB de 6 por cento.

Novos membros do Secretariado do Bureau Político

O MPLA procedeu à reestruturação do seu Bureau Político, tendo eleito Carlos Maria da Silva Feijó para a função de secretário para a Reforma do Estado, Administração Pública e Autarquias e Ernesto Norberto Garcia para secretário para a Informação e Propaganda.
Diógenes do Espírito Santo Oliveira foi escolhido para secretário para a Política Económica e Mário António de Sequeira e Carvalho assume o cargo de  secretário para a Política Social.
Foram ainda eleitos Bento Joaquim Sebastião Francisco Bento para secretário para a Política de Quadros e  Pedro de Morais Neto a secretário para os Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria.
O Comité Central aprovou a reestruturação do aparelho auxiliar central do partido, composto pelos gabinetes dos órgãos individuais de direcção, do presidente, do vice-presidente e do secretário-geral do MPLA, 11 departamentos e cinco outros gabinetes, tais como os de coordenação de estudos e análises, técnico e documentação e investigação histórica.
O partido aprovou ainda a resolução sobre a eleição a membros do Bureau Político de Diógenes do Espírito Santo Oliveira, Ernesto Manuel Norberto Garcia, Maria Isabel Malunga Mutunda, Pedro de Morais Neto e Yolanda Brígida Domingos de Sousa.
Ana Paula Inês Ndala Fernando foi indicada para coordenadora da Comissão de Disciplina e Auditoria do Comité Central.

MPLA, o maior partido de Angola precisa realizar transformações profundas

20171024064053comite_central_24

A sessão foi aberta, no período da manhã de segunda feira , pelo líder do partido, José Eduardo dos Santos, que apelou para a necessidade do “reforço e manutenção da unidade de pensamento e de ação” no seio dos militantes do partido como requisitos para dar corpo ao lema “Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, que presidiu à campanha eleitoral de João Lourenço.
Discursando na abertura da sessão, no Complexo Turístico de Belas, José Eduardo dos Santos sublinhou que  a direcção do partido pretende que os cidadãos, os trabalhadores e as famílias tenham acesso aos bens essenciais e  sejam protagonistas das suas próprias vidas e das sociedades onde se inserem. “Que sejam no fundo cidadãos autónomos e responsáveis”, acrescentou o presidente do MPLA.
“É neste contexto que esta reunião vai analisar o Plano geral de actividades do partido para 2018”, destacou logo a seguir José Eduardo dos Santos, esclarecendo os objectivos desta primeira reunião do Comité Central depois da vitória do partido nas eleições de 23 de Agosto último.

Comité Central do MPLA esteve reunido na segunda-feira em Luanda pela primeira vez, depois das eleições gerais de 23 de Agosto, ganhas pelo partido dos “camaradas” com maioria qualificada.

A reunião do Comité Central do Partido que governa o país ocorre num momento em que os cidadãos angolanos esperam do Executivo a realização de grandes mudanças em diferentes sectores da vida nacional.
O MPLA ganhou as eleições e vai governar o país até 2022. Até 2022, o MPLA terá de proceder a transformações profundas na sociedade, em que avultam problemas complexos e diversos que precisam de ser superados com urgência.
O partido no poder sabe que tem de mudar o que está mal no nosso país e que tem a grande responsabilidade de colocar o país na rota do desenvolvimento e do bem-estar dos cidadãos. O povo voltou a escolher o MPLA para governar, na esperança de que o partido dos “camaradas”, pela sua experiência e pela qualidade dos seus quadros, pode fazer com que a vida dos angolanos melhore.
O país tem um novo Presidente da República, direta e democraticamente eleito, e que fez promessas que quer cumprir durante o seu mandato. O Presidente da República, João Lourenço, já disse ao país o que pretende fazer durante a sua governação, havendo expectativa em relação ao que concretamente o Chefe de Estado vai realizar.
O novo Presidente da República tem certamente consciência de que o povo espera muito dele, em termos de uma gestão que priorize a realização do bem comum. O Presidente da República conhece bem os problemas do país e tem já as terapias adequadas para resolver muitos dos nossos problemas. É verdade que nem tudo vai ser fácil de fazer, mas já é animador o facto do Chefe de Estado estar realmente determinado a realizar mudanças.
O MPLA tem apenas cinco anos para mostrar que é capaz de ultrapassar muitos dos problemas que afetam a vida dos angolanos. Estes problemas estão identificados. Importa agora que se trabalhe arduamente para que o que se prometeu na campanha eleitoral seja cumprido. As comunidades estão à espera de acções concretas e de resultados.
O Governo está obrigado, em virtude da atual situação econômica e social que vivemos, a realizar mudanças. É importante que os gestores públicos se apercebam que estamos a entrar num novo ciclo, que vai exigir deles muito trabalho.

Joao-lourenço-e-jose-eduardo
Não passou despercebido o fato do Comité Central do MPLA ter encorajado o Executivo a trabalhar de forma afincada para impulsionar as mudanças necessárias e indispensáveis nos diversos sectores da vida nacional. É positivo o fato de o Comité Central do MPLA estar alinhado com as ações do Executivo focadas no combate a muitos males de que enferma a nossa sociedade.

Sendo complexa a tarefa do Executivo, na atual conjuntura econômica, financeira e social, faz sentido que um importante órgão do partido no poder, o seu Comité Central, tome posição sobre os novos tempos ao nível da governação do país.

É o MPLA que tem a ganhar se cumprir com as suas promessas eleitorais. Os militantes do MPLA terão percebido que até às próximas eleições gerais não há muito tempo, e que se deve prestar todo o apoio ao atual Executivo, para que concretize o seu programa de governo.
Sabe-se que nem todos os militantes do partido dos “camaradas” vão gostar das mudanças que o Executivo quer empreender. Haverá inevitavelmente resistência às mudanças que o novo Presidente da República quer levar a cabo.
O que mais satisfaz os cidadãos é saber que o Presidente João Lourenço está a trabalhar em prol do bem-estar de todos os angolanos e que quer acabar com a injustiça social. Temos um Presidente que pretende governar em prol da prosperidade do país, para que todas as famílias possam viver com dignidade.

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/editorial/o_mpla_e_as_mudancas

Novo presidente angolano tem a obrigação de retirar a economia do “lixo”

Alberto Cafussa

O terceiro Presidente de Angola, que jura fidelidade à Pátria amanhã sob o “olhar silencioso” de Agostinho Neto, ladeado por José Eduardo dos Santos, o Chefe de Estado cessante que conquistou a paz, reconciliou os angolanos e lançou as bases da reconstrução nacional, tem a obrigação de retirar a economia do “lixo”, como a caracterizou, no início deste ano, a agência de notação financeira Standard & Poor’s.

O Presidente eleito prometeu rigor na gestão da coisa pública
Fotografia: Francisco Bernardo| Edições Novembro

Aos angolanos, João Lourenço prometeu ser o reformador da economia nacional, ao ponto de se ter comparado a Deng Xiaoping, o líder chinês que elevou a economia do “dragão asiático” a um lugar de destaque no Mundo.
Deng Xiaoping foi secretário-geral do Partido Comunista Chinês e Presidente da República Popular da China entre 1978 e 1992. Criou o designado “socialismo de mercado”, regime vigente na China moderna, que é hoje a segunda economia mundial.
João Lourenço começa o teste numa altura em que as previsões da economia nacional são pouco animadoras, com a corrupção, a impunidade, a fragilidade das instituições públicas, as desigualdades sociais e regionais, bem como a informalidade da economia a constituírem o “cancro” contra o desenvolvimento do Estado angolano. O Presidente eleito abordou esses temas bastante incómodos com coragem e determinação, por isso, sabe que não pode falhar, num país onde predomina uma população jovem que, cada vez mais, atinge altos níveis de literacia.
Como ele mesmo garantiu, vai pôr fim à mediocridade e promover o mérito, combater a promiscuidade na gestão pública para introduzir a transparência, desencorajar a impunidade e exigir a prestação de contas. É desses actos que depende a sua sobrevivência política e a manutenção no poder pelo seu partido que governa há 42 anos.
As estimativas do novo ciclo macro-económico, que começa amanhã com a investidura do novo Presidente da República, João Lourenço, e a subsequente formação do Governo, não são animadoras. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um crescimento de 1,5 por cento para o próximo ano, uma estimativa muito abaixo da consultora BMI Research, que antevê uma subida de 4,1 por cento em 2018, mas com a inflação muito elevada e o fraco ambiente empresarial a impedirem uma recuperação mais rápida. Já a Capital Economics prevê um crescimento de 2,5 por cento para o próximo ano.
O Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola antevê um incremento médio anual, até 2021, de apenas 240 dólares no PIB por habitante (o equivalente a 1,5 por cento).
As estimativas apontam para um abrandamento de 2,4 por cento em 2019 e 2020, o que é insuficiente para um país em desenvolvimento com bases magras da economia.
Mas a favor da “equipa” de João Lourenço, além da população jovem, estão os abundantes recursos naturais, como diamantes e hidrocarbonetos, outros minérios, recursos florestais, solos férteis e água abundante.

Diversificar a economia

O desafio do terceiro Presidente de Angola consiste em reduzir a dependência da economia nacional dos “petrodólares” e explorar os recursos que foram subaproveitados durante as décadas de conflito.
João Lourenço, que apelou para “esquecer um pouco o petróleo”, tem um programa ambicioso para executar em cinco anos, com a promessa de “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”.
Além de promover 500 mil empregos e dar uma bolsa de rendimento mínimo às famílias mais desfavorecidas, o programa aprovado nas eleições de 23 de Agosto de 2017 prevê a construção de 1.100 quilómetros de estradas, ao mesmo tempo que propõe reabilitar 7.083 quilómetros de estradas em acréscimo aos 10.219 reabilitados até ao ano passado.
O objectivo do partido no poder é facilitar o escoamento dos produtos do campo para os maiores centros de consumo e garantir a circulação do capital financeiro e humano por todo o território nacional, combatendo desta forma as assimetrias regionais.
A par disso, o MPLA promete concretizar o programa de construção das estradas do Leste, de vias estruturantes e a planificação de vias circulantes, anéis rodoviários e radiais nas principais cidades do país, nomeadamente Cabinda, Benguela-Catumbela-Lobito, Lubango, Huambo-Cáala, Saurimo, Ondjiva e Malanje.
Para tornar este desejo numa realidade, o Executivo de João Lourenço terá de incentivar e apoiar o sector privado na melhoria da oferta do transporte rodoviário de mercadorias, numa visão integrada com as redes logísticas das cadeias de abastecimento das populações e das empresas.
O novo Governo deve consolidar uma rede estruturada de transportes públicos de passageiros aos níveis municipal, provincial e das cidades do país, que garanta maior mobilidade das pessoas e mercadorias. O MPLA quer promover a integração da rede nacional de plataformas logísticas com a rede de transportes e capitalizar a inter-acção ao serviço do desenvolvimento e da internacionalização da economia.
Assim, durante o mandato do novo Presidente da República, serão concluídos e/ou reabilitados os aeroportos de Luanda, de Mbanza Congo, Cuito e Cabinda, a extensão do Caminho-de-Ferro de Benguela, os terminais marítimos de Cacuaco, Panguila, Porto Amboim, Benguela, Lobito e Moçâmedes, bem como o porto de águas profundas de Cabinda.
Nesta legislatura, começa a construção do Porto da Barra do Dande, em apoio ao congestionado Porto de Luanda. Também está prevista a conclusão das plataformas logísticas transfronteiriças de Santa Clara, Luvo, Kimbata, Massabi, Yema e Luau, bem como o projecto de cabotagem do Norte de Angola, com a ligação Cabinda/Zaire/Luanda, e a subvenção dos preços dos bilhetes de passagem aérea de Cabinda para Luanda.
O Executivo de João Lourenço promete implementar a rede logística nacional e melhorar os sectores da distribuição, com a conclusão de centros e entrepostos logísticos provinciais de média e grande dimensão, bem como operacionalizar estes centros nas províncias e municípios, numa parceria com o sector privado.

http://jornaldeangola.sapo.ao/economia/o_desafio_e_tirar_a_economia_da_estagnacao