Blésnya Minher, top model angolana na capa da Vogue Brasil


A top model angolana Blésnya Minher, é a figura de destaque da edição de Julho na Vogue Brasil, após ter embarcado para Salvador onde foi a protagonista de uma narrativa visual inspirada na obra de Jorge Amado.

No mês de julho, em plena as variações das tendências de moda, as páginas da Vogue costumam ser contagiadas por um clima de escapismo e sonho. A revista que o público terá em mãos em Julho, sintetiza esta proposta de maneira original, e trás a angolana deslumbrante pelas lentes do fotografo Zee Nunes.

Agradecida pelo privilegio alcançado, a modelo deixou na sua página a seguinte mensagem:
“Estou muito orgulhosa e feliz em anunciar as minhas novas capas da Vogue Brasil, as minhas primeiras capas da Vogue, estou muito feliz por ter feito isso com uma equipe tão acolhedora e amorosa que, além de trabalhar, me divertiu muito e me apresentou os melhores sabores do Brasil, obrigada de coração a toda a equipe da Vogue, sem falar que conhecer Bahía foi uma experiência inesquecível”

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Josefina Massango: uma atriz de teatro moçambicano

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Josefina Massango é das actrizes mais experientes no país. Recentemente, participou na gravação do filme Ruth, estreado em Maputo semana passada. Nesta entrevista, a actriz fala da sua participação nesta produção cinematográfica preparada, igualmente, para ser série de tv. Além disso, Massango deixa um comentário sobre a qualidade dos actuais actores moçambicanos.

Desempenha o papel de mãe de Eusébio, no filme Ruth. Como foi encarnar essa personagem?

Estaria a mentir se dissesse que foi um trabalho como qualquer um. Aqui havia uma responsabilidade acrescida porque não estamos a falar de uma figura qualquer. Ainda assim, dediquei ao personagem toda entrega que dedico às outras.

Com o mesmo rigor?

Tem que ser. Essa é a palavra-chave para o artista. O rigor é mestre de tudo. Se não formos rigorosos com aquilo que fazemos, se calhar, passamos à personagem o que constitui o nosso dia-a-dia. É preciso sonhar com o personagem, namorar e dialogar com o personagem e viver com ela aqueles dias em que antecedem o trabalho. É preciso sonhar e amar com o personagem.

E como é que se aprende a sonhar com o personagem?

É muito simples. Desde o primeiro momento que nos atribuem o personagem, logo devemos começar a fazer uma viagem com ela, na base do texto que nos permite perceber o papel ao longo da história.

E esta é uma viagem quase sempre solitária…

Muitas vezes é. E é esta disciplina que os actores são convidados a ter.

No caso do papel interpretado no Ruth, teve que recuar no tempo?

Para este personagem não. Mesmo porque esse exercício depende de cada realizador. Uma das coisas que me pediram para este personagem é a questão do peso, não no sentido massa corporal, mas no das coisas que se dizem, na maneira como a mãe do Eusébio aparece e na estrutura daquela mulher. E, também por isso, a responsabilidade foi maior, porque, no fundo, tinha que retratar o desconhecido sobre uma figura que é muito conhecida.

O que lhe foi pedido interferiu na maneira como preparou a personagem?

Sem dúvidas. É necessário e é bom que isso aconteça. Até porque, quando estamos diante de um desafio destes, próximos às filmagens, as pessoas que nos conhecessem vão notando alguma diferença em nós porque estamos a exercitar o papel. E nós até gostamos desse feedback de as pessoas estarem a notar uma diferença entre o eu, no meu dia-dia, e quando estou a fazer o exercício para o personagem.

Precisou de voltar a percorrer as ruas da Mafalala, quer do ponto de vista real ou virtual, de modo a familiarizar-se com o papel?

Cresci brincando na Mafalala. Conheço aqueles becos todos. Os meus melhores amigos ainda hoje residem na Mafalala – refiro-me, por exemplo, a mamã Marieta, que, sempre que posso, vou lá ter para comer uns rissóis que ela bem faz. Cresci naquele mundo, mas, com este filme, tive, sim, de ir várias vezes, até para, em conversas, saber como era a forma de estar lá, mesmo porque vivi 17 anos em Portugal e há coisas que ali mudaram. Mas a memória do espaço, daquela vivência, os sons e o resto ainda existe em mim.

O papel de mãe de Eusébio foi atribuído a Josefina depois de um casting. Este tipo de vitórias ainda dá-lhe gozo?

Sim. Qualquer actor ainda tem esse momento de satisfação, quando isso acontece. Os castings são aquelas coisas muito chatas. Confesso, são muito chatas, mas também necessárias, porque os realizadores querem testar alguma coisa. Aliás, casos há em que os castings têm a ver com a questão da imagem e com a necessidade de se perceber que aquela figura vai bater com certo actor. E hoje em dia acontece eu estar nos castings com colegas de longa data e, inclusive, novos formados por mim. Dependendo do que o realizador quer, ele faz a sua escolha. E quando se é escolhido, naturalmente, há momentos de grande satisfação e de grande responsabilidade.

Ao ver o filme na estreia, já com público alargado, o que lhe ocorreu?

Muitas vezes, eu não gosto de me ver, é estranho. Para mim, depois do filme, tem que se passar para outra coisa. Se me perguntar qual era a personagem, até pode acontecer não conseguir responder daqui a dois meses, porque já estou noutro papel.

Desliga-se facilmente das personagens?

Neste caso do Ruth é difícil porque o filme ainda está a correr. Neste momento ainda estou a viver a mãe do Eusébio. Mas, geralmente, sim. Desligo-me.

É professora de teatro. Sente-se pressionada, quando está a preparar um papel, pela ideia de que os seus alunos actores vão exigir mais de si?

Não. De forma nenhuma. Se um dia isso acontecer, nós estamos acabados como actores. As camadas mais jovens têm tanto para nos ensinar que nós só devemos estar abertos para receber… Aliás, há actores que têm privilégio de partilhar o palco com quem estão a formar. É uma experiência única. Com isso recuperamos momentos que julgávamos perdidos. Pessoalmente, tenho prazer de fazer isso.

Como está o país em termos de qualidade de actores neste contexto em que temos um curso de teatro e muitos grupos a surgirem?

É impensável para alguém que se encontra a trabalhar na área de formação em teatro não ter uma postura optimista em relação a esta questão. Sinto que há coisas que se conquistaram, que se deve conquistar e devem ser recuperadas. Há um conjunto de coisas que estão a acontecer e são positivas. Mas há coisas sobre as quais devemos reflectir. Eu sou de uma geração em que o teatro, no país, era algo quase obrigatório, porque haviam apresentações que mexiam com as pessoas, como ainda hoje mexem. Na altura, não ir ao teatro e não saber o que se passou num certo final de semana, significava ficar sem assunto.

Era como perder o capítulo de uma telenovela, hoje?

Mais ou menos isso. Aliás, essas duas coisas caminhavam juntas. Lembro-me que, na altura, depois das 20h, dificilmente mantinha-se os expectadores no teatro porque havia hora da telenovela. Sinto que estamos a dar passos positivos e o público está mais exigente agora. Ainda por cima, porque há gente formada no teatro. Faltam meios, é verdade, mas isso também é um motor para estimularmos a criatividade.

O que gostava de ter no nosso teatro?

Melhores condições. Por exemplo, uma sala municipal, um equipamento de iluminação para os espectáculos à disposição. Muitas vezes não há. Gostava de ter uma série de coisas que fazem com que o espectáculo, de facto, aconteça. No meu caso, eu faço muita investigação dentro desta área e quero continuar a estar em palco e no cinema. Há muitos sonhos e eu vivo nesse desejo de que o sonho não deve acabar, porque isso é o motor do que pretendemos fazer. Eu sonho com o sonho.

 

A vossa geração não foi um produto de escola, entendo, no sentido de lá terem recebido ferramentas teóricas sobre teatro. Hoje, o que a escola está a acrescentar à qualidade dos novos actores?

Estaria a mentir se dissesse que não há uma escola por detrás do teatro que se fazia no meu tempo. Havia uma escola, a escola primária. Nós viemos de lá. Aquele espaço é que nos levou a tomar o gosto e a desenvolver outras áreas. E nós temos que recuperar isso. Hoje, nós estamos a lidar com estudantes que vão parar ao ensino superior em teatro sem as bases que nós, em tempos, adquirimos na escola primária. Então, aí, é preciso dar tempo ao tempo. Eu tive escola, e a minha escola foi a 24 de Julho, onde fizemos muitas actividades culturais e eu tomei gosto nisso. Seja como for, os novos actores, nossos estudantes, trazem consigo o gosto, o prazer, esse querer…

E o compromisso?

De certa forma… Porque essa escolha de fazer teatro é feita pelo indivíduo, e nem é uma escolha, arrisco-me dizer, que um pai faça pelo seu filho. Se, hoje, vimos artistas, é porque essa escolha partiu deles e eles têm um compromisso com essa escolha. Isso é o que diferencia a arte e o ser artista de muitas outras áreas.

Palco ou cinema, o que prefere?

Gosto de tudo isso, embora o palco seja o local onde tenho mais liberdade. No cinema estamos um pouco limitados, mas o actor tem que lidar com isso. Embora goste de estar nos dois espaços, o teatro é aquele que me dá mais liberdade, ainda que o processo de preparação dos papéis seja mais complexos no teatro.

É vantajoso para o actor partir do teatro para o cinema e não o contrário?

Eu ando à procura dessa resposta.

O que espera que venha a ser o Ruth?

Que contribua para que, em outras áreas, surja o atrevimento de se imortalizar certas figuras, artisticamente.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro que vejam FITI, Comboio de sal e açúcar e o livro Os pilares da terra.

fonte: http://opais.sapo.mz/josefina-massango-ou-uma-entrevista-a-mae-de-eusebio

Mulheres negras cientistas brasileiras

Acadêmicas das áreas de humanas, exatas e biológicas que superaram machismo acadêmico e o racismo

Norma Odara

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Sonia Guimarães no lançamento do filme "Estrelas Além do Tempo" - Créditos: Reprodução/Norma Odara
Sonia Guimarães no lançamento do filme “Estrelas Além do Tempo” / Reprodução/Norma Odara

No Brasil, 54% da população se autodeclara preta ou parda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2015. No entanto, no mesmo ano, somente 12,8% dos jovens negros de 18 a 24 anos (considerando homens e mulheres) chegaram ao nível superior, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números mostram que o espaço acadêmico ainda é pouco ocupado por mulheres negras e, as poucas que alcançam destaque, o conseguem com muito esforço e resistência.

Diante deste cenário adverso, o Brasil de Fato elaborou uma lista reconhecendo o talento e o sucesso de cientistas negras brasileiras do ramo das exatas, humanas e biológicas, que superaram o machismo acadêmico e o racismo. Confira:

1. Enedina Alves 

Enedina Alves Marques foi a primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil. Nascida em 1913, de família pobre, ela cursou engenharia e se formou aos 30 anos no Instituto de Engenharia do Paraná (IEP). Em agosto de 1981, foi vítima de um infarte.

O cineasta Paulo Munhoz e o historiador Sandro Luis Fernando pesquisaram a vida de Enedina e pretendem lançar um documentário sobre sua vida pessoal e acadêmica.

Enedina Alves/ Arquivo

2.  Viviane dos Santos Barbosa

A baiana Viviane dos Santos Barbosa cursou bacharelado em engenharia química e bioquímica pela Delft University of Technology, na Holanda, e se formou em mestre em nanotecnologia na mesma instituição.

Ela cursou química industrial por dois anos na Universidade Federal da Bahia, mas, nos anos 90, decidiu ir para Holanda. Lá desenvolveu uma pesquisa com catalisadores (que aceleram reações) através da mistura de Paladium e Platina.

O projeto foi premiado em 2010, durante a conferência científica internacional, na cidade de Helsinki, na Finlândia, onde competiu com outros 800 trabalhos.

Viviane dos Santos Barbosa/Arquivo Fapesp

3. Maria Beatriz do Nascimento

Nasceu em Aracaju (SE) em 1942, e migrou com seus dez irmãos e seus pais para o Rio de Janeiro, na década de 50. Cursou história na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aos 28 anos de idade. Fez pós-graduação na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1981.

Beatriz dedicou sua vida para que a temática étnico-racial ganhasse visibilidade no Brasil. Foi responsável por formar um grupo de ativistas negras e negros chamado Grupo de Trabalho André Rebouças (GTAR), na Universidade Federal Fluminense, em meados dos anos 1983, almejando o envolvimento do corpo docente nos estudos sobre África.

Seus artigos foram publicados na Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de diversas entrevistas e depoimentos à grande mídia.

Maria Beatriz Nascimento/Arquivo

4. Sonia Guimarães

Sonia sonhava em ser engenheira, mas foi em sua última opção do vestibular, em 1970. Na época, ela prestou física no Mapofei, um vestibular criado em 1969 para a área de exatas nas universidades Instituto Mauá de Tecnologia, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), e se apaixonou.

Hoje, Sonia é a primeira negra brasileira doutora em física pela University of Manchester Institute of Science and Technology e compõe, há 24 anos, o corpo docente do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Ela atua na área de física aplicada, com ênfase em Propriedade Eletróticas de Ligas Semicondutoras Crescidas Epitaxialmente, e já conduziu pesquisas sobre sensores de radiação infravermelha.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fbrasildefato%2Fvideos%2F1323146117733349%2F&show_text=0&width=560

5. Simone Maia Evaristo

A bióloga e citotecnologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Simone Maia é presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (Anacito). É a única brasileira no quadro de membros ativo, como membro diretor da Academia Internacional de Citologia (IAC).

Atualmente é supervisora na área de ensino técnico do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e sua missão tem sido divulgar o papel do controle do câncer.

Simone Maia Evaristo, à esquerda, de camisa branca/Reprodução/Facebook

6. Luiza Bairros

Luiza Bairros foi uma das vozes mais respeitadas no combate à discriminação racial no Brasil e compôs o Movimento Negro Unificado (MNU). A ativista negra foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) durante o segundo governo Dilma Rousseff (PT), e faleceu em julho do ano passado, enquanto ainda tramitava o processo de impeachment da presidenta.

Luiza era mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em sociologia pela Michigan State University (EUA). Sua graduação foi em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGS) e especializou-se em Planejamento Regional pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Valter Campanato/Agência Brasil

7. Anita Canavarro

É professora de química na Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Ciências pela Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). Fundou, em 2009, o grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências (CIATA) do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (CIATA-LPEQI/UFG) com a proposta de “ descolonizar” o estudo de ciências.

Além disso é presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), que busca promover a superação do racismo por meio da educação, defendendo e zelando pela manutenção de pesquisas com financiamento público.

Anitta Cavarro/Foto: Portal Catarinas

8. Katemari Rosa

Desde criança, a gaúcha Katemari Rosa foi apaixonada por física, observava as estrelas e sonhava em alçá-las. Hoje, é formada em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em filosofia e em história das ciências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Ciências pela Universidade de Columbia, em Nova York.

Ao longo de sua trajetória, Katemari começou a reparar no racismo dentro de seu campo de atuação e, em 2015, iniciou a pesquisa “Contando nossa história: negras e negros nas ciências, tecnologias e engenharias no Brasil”, com o intuito de criar um banco de histórias de negros e negras cientistas brasileiros.

Atualmente é professora na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e se preocupa com a formação de professores que inspirem jovens negros para área das ciências.

Katemari Rosa/Foto: Divulgação/Página pessoal

Quem são as cientistas negras brasileiras?

As mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000

São Paulo 
Sonia Guimarães no ITA.
Sonia Guimarães no ITA. ROOSEVELT CÁSSIO

Quando criança, Sonia Guimarães era a segunda melhor aluna da sala e adorava matemática. No primário, ficou entre as cinco melhores da classe. Estudava de tarde, mas quem se destacava tinha a chance de ir para a turma da manhã. Sonia não foi porque foi preterida pela filha de uma das funcionárias, que havia pleiteado a vaga. “Quem tiraram? A pretinha. Eu me senti depreciada por isso”, lembra ela. A hoje professora de Física no Instituto Tecnológico da Aeronáutica(ITA), uma das instituições de ensino mais conceituadas e concorridas do país, lembra que essa não foi a única passagem de racismo que a marcou em sua vida. Mas, apesar da torcida contra, conseguiu o primeiro título de doutorado em física concedido a uma mulher negra brasileira.

Ela, porém, sequer sabia dessa deferência. “Descobri por acaso quando o site Black Women of Brazil fez uma matéria. Nem meus chefes no ITA sabem disso! Alguns alunos descobriram porque eles pesquisam sobre mim na internet”. Estudante de escola pública durante toda a vida, Sonia trabalhava na adolescência e todo seu dinheiro era destinado a pagar o cursinho, já que fazia ensino médio técnico. Sonhava em ser engenheira civil. Para realizar seu sonho prestou Mapofei, um vestibular que na década de 1970 dava vagas para as grandes faculdades de engenharia deSão Paulo. Mas foi orientada por um professor a colocar como opções no vestibular os cursos que tivessem menor procura. Sua escolha foi para física. “No segundo ano [do curso], eu prestei vestibular para engenharia civil, mas comecei a ter aula de física que estuda materiais sólidos, e me apaixonei”.

saga de Sonia faz um paralelo com a de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughanque faziam parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época em que negros não podiam nem mesmo usar os mesmo banheiros que funcionários brancos na Agência. Elas são as protagonistas do filme Estrelas Além do Tempo. A presença de mulheres negras na ciência também é mínima no Brasil. Embora o país tenha 52% de negros, somente em 2013 soube-se quantos deles estavam na área científica.

Foi nesse ano que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) solicitou que os pesquisadores brasileiros informassem raça e cor em seus lattes. Um estudo feito em 2015 tendo como base essas informações, mostra que entre 91.103 bolsistas da instituição cursando pós-graduação, seja em formato de Mestrado, Doutorado ou Iniciação Científica, as mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000, ou 5,5%.

Essa pouca diversidade colabora para que a ciência produzida no Brasil seja descolada da necessidade da população, avalia Anna Maria Canavarro Benite, presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). Embora o país seja um dos maiores produtores de artigos científicos, ocupando o 13º lugar no ranking elaborado pela empresa Thomson Reuters, essa produção é descolada da necessidade da população. “O Brasil produz muito. Mas, por exemplo, agora o país vive um surto de febre amarela e essas pesquisas não ajudam a vida prática da sociedade”, afirma.

Anita Canavarro, como é conhecida, também é professora de química da Universidade Federal de Goiás(UFG) e dedica sua carreira a “descolonizar” o currículo da disciplina nas escolas públicas. A professora chama de “descolonização” a necessidade de colocar o negro como sujeito produtor da tecnologia. “Nós temos traços de apagamento e invisibilização. Vários artefatos tecnológicos utilizados no Brasil são datados desde antes da chegada do colonizador e até hoje não são creditados”, explica Anita. A indústria de mineração, por exemplo, utiliza colunas de destilação que tem arquitetura semelhante à de fornos africanos. Já a indústria de mineração utiliza até os dias atuais processos já utilizados por povos africanos que faziam fundição de ferro, explica ela. “Ao mesmo tempo, a primeira Constituição do Brasil proibia negros de irem à escola alegando que eles possuíam moléstias contagiosas”.

Antes de ser cientista, a presidenta ABPN era uma moradora da Baixada Fluminense que se aproximou das ciências exatas porque percebeu que os cursos ligados à licenciatura eram menos disputados na Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ), quando iniciou sua graduação em 2001. “Uma vez no curso, eu me apaixonei pelos processos de transformação da matéria. Hoje minha leitura de mundo é muito ligada a isso”.

Ao contrário de Anita e Sonia, Katemari Rosa sempre foi apaixonada pela ciência. “Eu escolhi fazer física porque eu quis descobrir o céu, quando criança me apaixonei por astronomia”, diz ela. A maioria dos astrônomos são formados em física e por isso seguiu o curso, explica.

Gaúcha, Katemari estudou no atual Instituto Federal do Rio Grande do Sul(IFRS), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Foi no campus que ela pôde frequentar o observatório e o planetário da universidade.

Quando ela olha para trás, se lembra de casos de racismo que sofreu, mas que na época não identificava como tal, como quando a funcionária da escola que cuidava de estágios a indicou para uma vaga de assistente de dentista. Além de atender telefone e fazer coisas específicas da função, foi orientada a lavar a louça do consultório. “A funcionária jamais indicaria uma daquelas meninas brancas para essa vaga”.

O maior choque que teve, porém, foi quando se mudou para Salvador para fazer o Mestrado. A cidade com mais negros no Brasil tinha uma universidade pública que não espelhava isso, já que no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA) havia apenas um professor negro. “A gente tem dificuldade de atribuir ao racismo porque isso significa que existem pessoas pensando que a gente é menos gente. Trata-se de um mecanismo de defesa, como dizia Derrick Bell”, reflete ela, citando o primeiro professor negro de Direito em Harvard nos anos 1970. “É difícil de explicar e só quem sente, sabe. A gente tem essas sensações, mesmo que não atribua ao racismo, na experiência cotidiana”.

A física atualmente trabalha na Universidade Federal de Campina Grande(UFCG), onde concentra seus esforços para formar novos professores que entendam a necessidade de inspirar jovens a seguir no caminho das ciências. “Uma das minhas alunas fez um projeto para examinar livros didáticos de física do ensino médio. Nas imagens analisadas, as pessoas negras só apareciam na parte de mecânica, velocistas africanos ou jogadores de futebol”, relata. As negras estavam empurrando carrinho de bebê. “E a gente pensa que física não tem nada a ver mas está cheio de imagens que reforçam o papel da mulher, o papel do negro. Nós aprendemos desde cedo onde são nossos lugares”.

A química Denise Fungaro, por outro lado, confessa que não se atentava para a inexistência de professores e colegas negros quando entrou na Universidade de São Paulo (USP) em 1983. “Eu não sofria discriminação. Nunca tive professores negros, mas como a avaliação é feita através de provas não tem como a pessoa te discriminar”, afirma. “Hoje entendo que eu era exceção, a única aluna negra no curso em um país onde 52% da população é negra”. Ela acabou de ser agraciada com o prêmio Kurt Politzer, concedido pela Associação Brasileira de Indústria Química (ABIQUIM), mas seu desejo é servir de inspiração para sua filha que tem três anos. “Eu quero que ela saiba que pode ser bem-sucedida em outras áreas que não sejam exclusivamente artísticas ou esportivas”.

Enquanto isso, Sonia Guimarães pensa em se aposentar do ITA, mas não sabe quando. Na conversa com o EL PAÍS, lembra dos tempos em que trabalhou na Itália e em que estudou na Inglaterra, enquanto dá entrevistas para meninas do ensino médio, através do projeto “Elas nas Exatas”. Tornou-se também voluntária ensinando inglês para que outros jovens negros realizem seus sonhos de uma formação no exterior

 

Fonte;https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/ciencia/1487948035_323512.html

A crise educacional na África

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A África está no meio de uma crise educacional. Apesar das promessas de melhorar o acesso à educação para todas as crianças até 2030, muitos governos africanos não estão conseguindo financiar este componente ambicioso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Ainda há tempo para resolver o déficit de financiamento, mas somente se novas estratégias de investimento forem adotadas com vigor.

Hoje, aproximadamente metade dos jovens do mundo, incluindo cerca de 400 milhões de meninas,não estão sendo educadas para ter sucesso no local de trabalho do futuro. Este desafio é mais agudo na África; embora 75% das meninas na África Subsaariana iniciem a escola, apenas 8% concluem o ensino médio. A África Subsaariana é a única região em que as mulheres ainda não se matriculam ou concluem o ensino superior nas mesmas taxas que os homens .

Esses problemas são bem conhecidos, se nem sempre abordados. Menos entendido é o impacto contraditório que o crescimento futuro da África terá na disponibilidade de financiamento da educação.

Até 2030, espera-se que quase 30 países na África tenham atingido um status de renda média mais baixo , definido pelo Banco Mundial como renda nacional bruta per capita (RNB) entre US $ 1.026 e US $ 4. 035. À medida que os países se aproximam desse nível de desenvolvimento, serão necessários investimentos para pagar as atualizações de saúde e educação, e mobilizar a receita tributária doméstica se tornará um componente crítico das estratégias orçamentárias.

No momento, no entanto, as receitas fiscais estimadas na maioria dos países serão insuficientes para cobrir os custos associados à melhoria dos resultados educacionais. Como resultado, uma crise de financiamento educacional ameaça as esperanças de um crescimento rápido sustentado e de uma prosperidade duradoura.

As formas tradicionais de ajuda internacional continuarão a desempenhar um papel no desenvolvimento do setor educacional da África. E, no entanto, devido aos aumentos projetados no RNB, a maioria dos países de renda média-baixa deixará de se qualificar para as subvenções e os empréstimos com juros baixos ou zero atualmente disponíveis. Como resultado, milhões de jovens africanos sofrerão os efeitos de um paradoxo no desenvolvimento internacional: os países serão muito prósperos para se qualificarem para as melhores opções de financiamento, mas muito pobres para satisfazer as necessidades educacionais de seus cidadãos por conta própria.

Felizmente, a Comissão Internacional sobre Financiamento da Oportunidade Global de Educação , na qual atuo como comissário, ajudou a desenvolver uma solução. Chamada de International Finance Facility for Education , essa abordagem inovadora visa ajudar os países de renda média baixa a investir em educação – especialmente programas para mulheres e meninas – de maneiras mais sustentáveis.

Ao alavancar US $ 2 bilhões em garantias de doadores, pretendemos entregar cerca de US $ 10 bilhões em financiamento de subsídio e educação concessional para os países que mais precisam. Mas há uma armadilha: os governos que buscam acesso a esses fundos devem primeiro demonstrar interesse e capacidade para reformas educacionais de longo prazo.

Esta abordagem foi concebida para melhorar a eficácia das subvenções e dar aos países a capacidade de reforçar a sua capacidade de resistência económica com uma força de trabalho melhor formada. Pesquisas mostram que, em países de renda média-baixa, cada US $ 1 gasto em educação aumenta o poder aquisitivo dos graduados em US $ 4. Em outras palavras, nosso objetivo de longo prazo é mais amplo do que construir escolas ou ensinar matemática; é criar condições para uma mudança social e econômica duradoura.

Estratégias semelhantes de financiamento já provaram ser bem sucedidas no setor de saúde. Por exemplo, o Mecanismo de Financiamento Internacional para Imunização foi criado para fornecer financiamento para a GAVI, a aliança de vacinas . Eventualmente, bilhões de dólares em novos fundos foram mobilizados para ajudar a vacinar mais de 640 milhões de crianças e salvar mais de nove milhões de vidas. Os retornos econômicos também foram dramáticos; Um estudo que pesquisou os resultados em 73 países descobriu que cada US $ 1 gasto em imunizações traduziu-se em US $ 18 em economias relacionadas à saúde . O mecanismo de financiamento da educação tem o potencial de produzir um impacto semelhante.

Milhões de jovens em todo o mundo, e particularmente meninas jovens na África, não conseguem se sobressair porque continuam a ter acesso negado à educação de qualidade. Faltando apenas 12 anos para a expiração dos ODS, a crise educacional da África deve ser levada ao topo da agenda de desenvolvimento. Os líderes do governo afirmam rotineiramente que as crianças são o nosso futuro. Se eles realmente acreditam, programas como o Mecanismo de Financiamento Internacional para a Educação devem receber a prioridade que merecem.

Graça Machel

Graça Machel

Graça Machel é uma política e humanitária moçambicana. Machel é uma defensora internacional dos direitos das mulheres e das crianças e, em 1997, tornou-se uma honorária dama britânica pelo seu trabalho humanitário. Graça Machel é membro do Africa Progress Panel (APP), um grupo de dez indivíduos distintos que advogam aos mais altos níveis. para o desenvolvimento equitativo e sustentável em África. Como membro do painel, ela facilita a formação de coalizões para alavancar e intermediar o conhecimento e convoca os tomadores de decisão a influenciar políticas para mudanças duradouras na África. Ela também é a fundadora do Graça Machel Trust e membro do The Elders.

Fonte:https://mg.co.za/article/2018-06-04-how-to-pay-for-africas-education-gains

OMS: Depressão é a maior causa de problemas de saúde e doenças incapacitantes

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a depressão como a maior causa de problemas de saúde e doenças incapacitantes em todo o mundo. Segundo as últimas estimativas da OMS, mais de 300 milhões de pessoas estão vivendo agora com depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015. depressão

Reproduzo dois casos que ocorreram com mulheres negras,  que sofreram  de depressão e racismo: A Globeleza e judoca  Rafaela Silva

Coroada como a nova Globeleza no carnaval em 2014, Nayara Justino entrou em depressão após ler alguns comentários racistas ao seu respeito. Os ataques começaram essa semana, após ser noticiado que a mulata vai perder o posto do símbolo de carnaval da TV Globo, e que a emissora já busca uma nova beldade para substituí-la. Triste, Nayara se trancou em sua casa, no Rio, e foi buscar uma ajuda de um psicólogo.

“Ganhei no voto popular, por quê estão me detonando assim? São tantas noticias ofensivas. Uma jornalista me atacando… Isso acabou com minha vida. Os jornais publicam essas notícias e as pessoas postam comentários racistas”, queixa-se.

Nayara Justino posta foto apos polêmica
Nayara Justino posta foto apos polêmica Foto: Instagram
Nayara está deprimida após ofensas raciais
Nayara está deprimida após ofensas raciais Foto: Divulgação
 

“Nayara ficou revoltada. Não queria falar com ninguém, não queria sair. E o pior de tudo essas mensagens racistas que ela tinha lido na internet. Eu já recolhi aqui mais de 50 mensagens chamando ela de feia, de macaca… Nayara sofre preconceito desde pequena, mas agora estão pegando pesado. Ela já chorou muito”, diz Cairo marido da Nayara.

Nayara Justino, a Globeleza de 2014
Nayara Justino, a Globeleza de 2014 Foto: Nina Lima
Judo - Women -57 kg Final - Gold Medal Contest

2016 Rio Olympics – Judo – Final – Women -57 kg Final – Gold Medal Contest – Carioca Arena 2 – Rio de Janeiro, Brazil – 08/08/2016. Rafaela Silva (BRA) of Brazil celebrates. REUTERS/Kai Pfaffenbach TPX IMAGES OF THE DAY. FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS.

A judoca Rafaela Silva conquistou  o primeiro ouro do Brasil na Rio 2016. Ela venceu as cinco lutas que disputou na categoria leve (até 57kg). Na final, bateu ninguém menos que a mongol Sumiya Dorjsuren, atual líder do ranking mundial. Após a vitória, aos prantos, a atleta declarou à imprensa:

“Treinei muito depois de Londres porque não queria repetir o sofrimento. Depois da minha derrota, muita gente me criticou, disse que eu era uma vergonha para minha família, para meu país. E agora sou campeã olímpica.”

O sofrimento a que Rafaela se refere ocorreu em 2012, durante os Jogos Olímpicos de Londres, quando foi desclassificada pelos juízes após aplicar um golpe irregular. A judoca foi eliminada do torneio em sua segunda luta.

Mulher negra, de infância pobre na Cidade de Deus (comunidade retratada no filme homônimo de Fernando Meirelles, que foi diretor-geral do show de abertura da Rio 2016), Rafaela recebeu como resposta dos torcedores uma enxurrada de protestos racistas no Twitter. Ao GloboEsporte, ela explicou:

“Tinha [tuíte dizendo] que lugar de macaco era na jaula, e não nas Olimpíadas, que eu era vergonha para a minha família. Tinha um comentário [dizendo] que eu estava gastando o dinheiro que a pessoa pagava de imposto para querer ganhar roubando. Respondi que eu pagava imposto também. (…) Da maneira que eu perdi já tinha doído bastante. Eu estava indignada, só queria minha família. Achei que ia ter incentivo, mas estava todo mundo me criticando.”

Ela não se intimidou. Pelo contrário, devolveu com palavrões as críticas e insultos racistas. O caso logo ganhou repercussão na mídia e a judoca foi orientada pela Confederação Brasileira de Judô a tornar suas redes sociais privadas. Os criminosos racistas nunca foram identificados.

O episódio traumático, depois de quatro anos de preparo, afetou o emocional da atleta. De volta ao Brasil, Rafaela entrou em depressão e ficou cerca de dois meses sem pisar no tatame. Pensou em desistir do esporte, mas seu técnico, Geraldo Bernardes, não deixou: “Fizemos uma operação para recuperá-la. Não podíamos perder um talento assim”, disse.

Geraldo Bernardes é um dos profissionais do Instituto Reação, ONG criada pelo ex-judoca Flávio Canto, pela qual Rafaela foi recrutada e onde conheceu a disciplina do judô. Apesar de referência das jovens promessas da instituição, ela não é elogiada por sua disciplina. Em entrevistas, Rafaela diz que gosta é de “competir”, deixando de lado treinos físicos, de chão e até os cuidados com a alimentação.

A recuperação desse apetite por competição perdido depois do episódio de 2012 veio por meio do acompanhamento de uma psicóloga, Alessandra Salgado, contratada pela ONG para trabalhar o lado emocional dos atletas. A “operação” foi realizada com sucesso. A atleta, que também é sargento da Marinha, redescobriu sua autoestima e, no ano seguinte, se tornou a primeira judoca brasileira a conquistar o ouro em campeonatos mundiais (Rio 2013).

Hoje, após entrar para a história do País como a primeira judoca brasileira a se tornar campeã olímpica e mundial, Rafaela declarou emocionada:

“Minha vida é o judô. Se não fosse o judô, não sei onde estaria agora. Graças a Deus conheci o esporte e estou aqui, campeã mundial e campeã olímpica.”

Os pais de Rafaela Silva, Zenilda e Luiz Carlos, saíram de ônibus da comunidade Cidade de Deus para acompanhar a vitória gloriosa da judoca na Arena Carioca 2. Como mãe sabe das coisas, antes da sequência de vitórias, dona Zenilda previu:

“Em Londres, a gente não estava lá. Chamaram a minha filha de macaca. Agora, estamos aqui. O mundo todo chorou e hoje ela vai dar a volta por cima.”

 

Senegalesa quer capacitar meninas e mulheres para ciência e tecnologia

Uma das pessoas mais poderosas da África quer capacitar meninas e mulheres para a Ciência e a Tecnologia. Em entrevista exclusiva a EXAME, ela explica como

São Paulo – Ela foi abandonada pela mãe enquanto criança na zona rural do Senegal, não teve acesso à educação na infância e juventude e foi traficada para a França.

Mariéme Jamme se recusou a continuar parte das estatísticas que atormentam mulheres marginalizadas e aprendeu sozinha a ler e a escrever aos 16 anos. Dois anos depois, vivendo no Reino Unido, dominava sete linguagens diferentes de programação, uma habilidade que lhe garantiu empregos em grandes corporações.

Com a cabeça naquelas que não conseguiram deixar os ciclos de violência e exclusão que ela mesma conheceu, Mariéme virou ativista e criou projetos para inserir jovens senegalesas no mundo das Ciências Exatas. Ainda assim, sentia que suas ações não estavam criando impactos suficientes para mudar a realidade dessas pessoas. Queria mais.

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Criou, então, o iamtheCODE, que, segundo ela, é um dos maiores e “talvez o primeiro” movimento criado na África que tem impacto global. O projeto está hoje presente em 60 países e atua a partir da mobilização de governos e iniciativa privada na capacitação de meninas e mulheres para a Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. O objetivo? Ensinar um milhão delas a programar até 2030.

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“Por anos, meninas e mulheres foram deixadas para trás, especialmente em países como o Brasil, países da África e do Oriente Médio. Precisamos prestar atenção nisso”, avaliou em entrevista exclusiva a EXAME. “Quero garantir que elas tenham a capacitação e a confiança de que podem conseguir empregos em empresas desses setores”, reforçou.

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Mariéme teve o trabalho reconhecido pela Unicef e foi eleita uma das mulheres mais poderosas da África pela revista Forbes. Por telefone, falou a EXAME sobre a chegada de iamtheCODE no Brasil, empoderamento em comunidades marginalizadas e os desafios de agir em lugares nos quais a visão tradicional dos gêneros ainda é a realidade.

Abaixo, confira a entrevista:

EXAME – Por que é importante ensinar programação?

Mariéme – O importante não é apenas aprender a programar, mas sim inserir as pessoas no mundo digital, que é a direção em que estamos caminhando. Há muitos desafios por aí, especialmente com a robótica e a automação impactando os empregos, e são muitas as tendências para os próximos dez anos. Se não capacitarmos as mulheres nessas áreas, vão ficar para trás.

Acredito que é importante trabalharmos não só a capacitação em programação, mas também a educação digital como um todo, ensinar essas mulheres a procurarem por dados e soluções para seus problemas. Nosso objetivo é o de garantir que elas estejam sempre bem-informadas para tomar as suas decisões.

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EXAME – Essa é essa premissa por trás do movimento iamtheCODE? Pode nos contar um pouco mais sobre o projeto?

Mariéme – O iamtheCODE é um dos maiores, talvez o primeiro, movimento criado na África e que tem impacto global e foi criado por mim a partir da minha própria frustração.

Na época em que a ideia surgiu, eu estava aprendendo a ensinar meninas a programar e investigando como dar acesso à essa educação para as mulheres. No entanto, não conseguia ver os impactos das minhas ações nos governos e no setor privado. Assim, decidi criar algo holístico em que pudesse mobilizar essas pessoas a realmente investir na educação.

Educação não pode ser caridade. As meninas que cresceram em favelas, por exemplo, não deveriam estar ali, mas estão porque alguém não está fazendo o seu trabalho. Queremos transformar as meninas da favela em mulheres bem-sucedidas, dar para essas pessoas esperança e oportunidades.

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EXAME – IamtheCODE agora está presente em 60 países. Em muitos deles, a sociedade ainda enxerga os gêneros a partir dos seus papeis tradicionais. Como convencer as pessoas da importância de ensinar programação para meninas e mulheres?

Mariéme – É muito desafiador e, ao mesmo tempo, animador, pois está claro que não podemos mais excluir as meninas e as mulheres das narrativas. Já tiramos coisas demais delas nos últimos anos.

Na semana passada, eu estava em Gana para uma palestra. Nela, um homem se levantou e perguntou por quê estávamos falando apenas sobre a capacitação de meninas e mulheres. Eu respondi que entendia que se essas medidas não impactassem os meninos, eles também ficariam para trás. E esse é também um desafio, ainda há muitas pessoas que não acreditam que as mulheres deveriam estar nessas discussões.

Mas esse é também o nosso trabalho e é por isso que iamtheCODE é tão importante: educamos, informamos e realizamos trabalhos de advocacy para conscientizar os governantes sobre importância da inclusão feminina.

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EXAME – Quais os planos para iamtheCODE no Brasil?

Mariéme – Temos uma empresa britânica parceira que está presente em São Paulo e nossa intenção é a de iniciar as operações dos clubes de programação em Salvador, São Paulo e Recife ainda neste mês. A expectativa é a de que todos os clubes estejam em atividade até o fim de maio.

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EXAME – O projeto também pretende inserir essas meninas e mulheres no mercado de trabalho?

Mariéme – Estamos falando de comunidades marginalizadas, especialmente a negra, portanto, nossa prioridade é inspirá-las, mostrá-las que não é por serem negras que não podem ser bem-sucedidas no Brasil. Depois, queremos realmente ajudá-las a ter a confiança de que vão aprender e de que podem trabalhar em uma empresa de tecnologia.

Nosso objetivo é o de auxiliá-las a conseguir esse emprego no final da jornada. Até o momento, trabalhamos com meninas entre 11 e 18 anos de idade, mas já estamos olhando para a geração seguinte, jovens entre 18 e 25 anos.

Especificamente sobre o Brasil, o sistema ainda é muito racista e não acho que está pronto para contratar pessoas negras na Tecnologia e da Inovação. Não desejamos tornar isso uma questão racial, mas vejo que o maior desafio no país é o de encontrar pessoas que estejam dispostas a dar uma chance para as minorias.

Uma das coisas que queremos fazer no Brasil é convidar as mulheres que fazem parte desse mundo a terem mais compaixão e empatia. Acho que ainda não há muito interesse em ajudar as minorias, mas espero conseguir mostrar que a tecnologia não conhece barreiras, passaportes, raças.

Temos meninas programando em São Francisco (Estados Unidos) e no Quênia. Então, o problema não é conhecimento, mas sim inclusão e quero garantir as pessoas entendam e falem sobre o assunto.

trip272-marieme-header.jpgEXAME – Sua história de vida é impressionante. Quando você olha para trás, como se sente?

Mariéme – É uma lição de humildade, mas é fruto de trabalho duro. Me sinto lisonjeada de ter a atenção da imprensa, de ver as pessoas interessadas na minha história e é por isso que quero deixar meu legado no mundo e nas meninas.

Minha história não me define, sou o exemplo de pessoa que foi pobre, marginalizada e que conseguiu ser bem-sucedida. Mas, o Reino Unido me deu oportunidades: vivo em um país que reconheceu meu valor. Então, quero devolver para a sociedade, pois todos os dias milhões de meninas são traficadas, violadas, abusadas, discriminadas e ninguém faz nada.

É evidente que, se você der para uma menina habilidades e oportunidades para pensar e se educar, ela será muito bem-sucedida.

Esta senegalesa tem um plano para ensinar 1 milhão de meninas a programar

Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas

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II CONGRESSO INTERNACIONAL, VII SEMINÁRIO INTERNACIONAL ACOLHENDO AS LÍNGUAS AFRICANAS: IV CONGRESSO NACIONAL AFRICANIDADES E BRASILIDADES: DIREITOS HUMANOS E POLÍTICAS PÚBLICAS

Início: 17/09/2018 Fim: 20/09/2018 Data de abertura: 10/05/2018 Data de encerramento: 30/07/2018 Países: Brasil

Estão abertas as inscrições para o II Congresso Internacional, VII Seminário Acolhendo as Línguas Africanas: IV Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas que ocorrerão na Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes, nos dias 17, 18, 19 e 20 de setembro de 2018.

O II CINAB, VII SIALA e IV CNAB: Direitos Humanos e Políticas Públicas são uma realização do Núcleo de Estudos e Pesquisas Africanidades e Brasilidades – NAFRICAB/Ufes em parceria com o Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros em Línguas e Culturas – GEAALC/Uneb.

O objetivo dos Núcleos de Estudos e Pesquisas envolvidos no II Congresso Internacional, VII Seminário Internacional Acolhendo as Línguas Africanas: IV Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas é estabelecer um diálogo transatlântico entre o Brasil e África valorizando aspectos ligados às esferas literária, linguística, artística, histórica, filosófica e educacional.

O II CINAB, VII SIALA e IV CNAB: Direitos Humanos e Políticas Públicas contarão com palestras, mesas-redondas, Grupos de trabalho, oficinas, minicursos, atividades culturais, exposição, lançamento de livros e conversas com escritores.

Grupos de trabalho

  • Africanidades e Brasilidades em Literaturas e Linguística
    Profa Dra. Michele Silva Schiffer (FAPES/Ufes), Profa. Dra. Lise Arruda (Geaalc/Uneb), Prof. Dr. Amarino Queiroz (UFRN/Nafricab)
  • Africanidades e Brasilidades em Educação e Relações Ético-raciais
    Profa. Dra. Kiusam de Oliveira (Ufes), Profa. Dra. Candida Soares Costa (UFMT), Prof. Dr. Gustavo Forde (Ufes)
  • Africanidades e Brasilidades em Direitos Humanos e Políticas Públicas
    Prof. Dr. Ivan Costa Lima, Profa. Dra. Ana Lucia Borges de Carvalho (Geaalc/Uneb), Profa. Dra. Joselina da Silva (UFRRJ)
  • Africanidades e Brasilidades em Teatro Negro e Africano
    Prof. Hamilton Celestino da Paixão (Sedu/Geaalc/Uneb), Prof. Dr. Ivo Ferreira de Jesus (Geaalc/Uneb)

Cada Grupo de Trabalho receberá até 60 trabalhos para apresentação em 15 minutos cada, sendo assim, serão selecionados respeitando a data de envio do resumo: 30 de julho.

Minicursos

  1. Línguas africanas no Brasil
    Profª Drª. Lise Arruda (Geaalc/Uneb) e Profª. Drª. Yeda Pessoa (Geaalc/UFBA)
  2. Bairros negros: corporativismo e autonomia das populações negras
    Dr. Henrique Cunha Junior (UFC)
  3. Diálogos ibero-afro- americanos em literatura e cultura
    Dr. Amarino Queiroz (UFRN/Nafricab)
  4. Teatro negro e africano
    Hamilton Celestino da Paixão (Sedu/Geaalc/Uneb) e Prof. Dr. Ivo Ferreira de Jesus (Geaalc/Uneb)
  5. A Educação em Direitos Humanos e o Enfrentamento às Violências na Escola
    Profª. Heloisa Ivone da Silva de Carvalho (Coordenadora da Comissão de Educação em Direitos Humanos/ GFDE/SEME)

Mais informações e inscrições: http://www.eventos.ufes.br/CNAB/CINAB2018.

 

IV GRIOTS | CONGRESSO INTERNACIONAL DE LITERATURAS E CULTURAS AFRICANAS

Início: 19/11/2018 Fim: 21/11/2018 Data de abertura: 10/05/2018 Data de encerramento: 30/09/2018 Países: Brasil

IV Congresso Griots
Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas
Literaturas e Direitos Humanos
19-21 de novembro, 2018
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Lagoa Nova, Natal – RN

O IV Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas, GRIOTS, a se realizar nos dias 19, 20, 21 de novembro de 2018, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Campus Salgado Filho, Natal, Nordeste do Brasil, afirma lugares de fala, de perspectiva, e de diversidades temáticas que atravessam a reflexão sobre a Literatura, os direitos humanos, a violência contra as mulheres negras e a comunidade afrodescendente mundo afora.

Submissão de propostas dos GTs

Cada GT comportará até 02 (dois) coordenadores de instituições distintas e com título de doutorado. A data limite para o envio de proposta será até 15 de maio de 2018. Em seguida, serão abertas as inscrições de comunicações orais em grupos de trabalho.

As propostas de trabalho serão avaliadas pela comissão organizadora do Griots 2018. Após o encerramento do período para a submissão das propostas de grupos de trabalho, será divulgada no dia 25 de maio de 2018 a relação dos aprovados no site do evento.

​O período de inscrição em propostas dos GTs será de 01/junho/2018 a 30/setembro/2018.

Eixos temáticos para propostas de Gts

  1. Literatura e filosofia
  2. Literatura, racismo e etnicidade
  3. Literatura e direitos humanos
  4. Literatura, sexualidade e feminismo negro
  5. Literatura, descolonização, guerras e diáspora
  6. Literatura afrobrasileira e latinoamericana
  7. História, ancestralidade, mitos, memória, religiosidade e oralidade
  8. Áfricas, cinema, artes plásticas
  9. Literatura, música e cultura popular
  10. Literaturas e ensino
  11. Literaturas em língua portuguesa
  12. Linguagem, tradução, práticas discursivas
  13. Literaturas indígenas e caribenhas

Mais informações no site do IV Congresso Griots.