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Adriana Alves: a Academia não é um ambiente acolhedor

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A professora Adriana Alves do Instituto de Geociências da USP

Por Ana Bottallo

É comum as pessoas perguntarem aos cientistas sobre a sua pesquisa. Se alguém fizer essa pergunta à geóloga Adriana Alves, professora do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc/USP), descobrirão que em seu atual projeto de pesquisa ela busca comparar dois eventos geológicos de origem vulcânica que ocorreram em momentos muito diferentes da história geológica da Terra – o primeiro ao final do Permiano, há aproximadamente 250 milhões de anos, e o segundo ao final do Jurássico, em torno de 136 milhões de anos atrás. A diferença entre esses dois eventos não foi apenas de idade: um aconteceu na região que hoje corresponde ao Hemisfério Norte, e é evidenciado nas rochas vulcânicas siberianas, outro ocorreu nas rochas das regiões sul e sudeste do Brasil. Mais um detalhe: embora esses dois eventos sejam semelhantes, o primeiro foi responsável pela maior extinção em massa que já ocorreu no mundo, enquanto o segundo parece não ter tido consequências sequer para a biodiversidade local. Por que eventos geológicos tão similares tiveram fins tão distintos? É esta pergunta que a pesquisadora busca responder.

Nascida em Diadema, cidade da região metropolitana de São Paulo, Adriana ingressou no curso de graduação em Geologia na USP e, a partir daí, concluiu sua pesquisa de doutorado, ingressou em um pós-doutorado e foi aprovada em concurso público para um cargo de professora no mesmo Instituto. Sua pesquisa, inicialmente, abordava rochas continentais de origem magmática.

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No final do ano passado, foi selecionada, junto com outros 64 jovens pesquisadores, em um edital do Instituto Serrapilheira, com um investimento de 100 mil reais para realizar sua pesquisa. Para Adriana, os financiamentos do Serrapilheira são muito positivos, pois “valorizam o investimento em projetos multidisciplinares, mas sem amarras quanto à metodologia empregada”. Um investimento desse porte seria mais difícil através de uma agência de fomento tradicional, uma vez que o caráter multidisciplinar demandaria uma equipe de pesquisa também diversa e se enquadraria na categoria de Projeto Temático, cujo fomento é destinado a pesquisadores experientes. “O Serrapilheira permite os chamados ‘dream grants’, ou seja, um financiamento para você desenvolver a pesquisa do seu sonho, do modo como você julgar melhor”. E que sonho!

Busco entender porque eventos geológicos tão similares, como os evidenciados pelas rochas vulcânicas siberianas e pelas rochas da Província Paraná-Etendeka, tiveram fins tão distintos

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Afloramento de rocha vulcânica bandada da região de Guarapuava (PR). Um dos objetivos do projeto coordenado por Adriana é identificar a origem da estrutura “zebrada” dessas rochas. Foto: Adriana Alves.

As dificuldades, no entanto, não são apenas burocráticas ou acadêmicas, na hora de enviar pedidos de projetos científicos. Sua trajetória pessoal foi sempre muito marcada por situações onde teve que enfrentar o preconceito. “Sendo professora, escancarar o racismo, como eu fiz na matéria para a Folha de São Paulo, é muito mais tranquilo do que quando eu era aluna de graduação ou de pós. Lidar com o racismo a gente lida desde criança, mas chega um momento em que as pessoas [do Instituto de Geociências] passam a respeitar você pelo que é – ou assim esperamos”.

A professora conta, ainda, que atualmente é a presidente da Comissão de Ética e Direitos Humanos do Instituto de Geociências, e que os alunos de graduação que sofrem racismo de seus colegas ou professores reportam as ocorrências a ela. “Tem melhorado, mas eles relatam que frequentemente recebem um tratamento diferenciado”, diz Adriana. Mas essa maior conscientização, embora venha crescendo no Instituto, surgiu nos últimos anos e só ocorreu porque os próprios alunos e alunas passaram a reivindicar os seus direitos e a falar sobre as situações que ocorrem – como ela própria fez na época que entrou no Instituto.

Sendo professora, escancarar o racismo, como eu fiz na matéria para a Folha de São Paulo, é muito mais tranquilo do que quando eu era aluna de graduação ou de pós.

“Em um dos primeiros concursos que acompanhei aqui no IGc, a banca era composta por homens brancos. Eu apontei para essa questão e disse que era preciso uma mudança. Na época, me tacharam de ‘neurótica’, mas fato é que a partir dessa observação, no concurso seguinte tinha uma mulher na banca”. A Geologia é, tradicionalmente, uma ciência muito masculinizada. Quando foi criada a Sociedade Brasileira de Geologia, em 1945, em São Paulo, só haviam homens na presidência e diretoria. Dentro do próprio Instituto de Geociências da USP, no último andar, há fotos dos antigos diretores, todos homens. “Só tem uma mulher professora titular em todo o Instituto. Se as mulheres não são professoras titulares, não podem concorrer a cargos de Direção, uma vez que são elegíveis, em um primeiro momento, os professores titulares e, na ausência destes, outros docentes das demais categorias (livre-docente, professor doutor) podem concorrer. Dentre os professores doutores, é meio a meio, mas nos cargos de chefia você não encontra uma mulher”, completa ela, apontando que essa mudança no pensamento coletivo dentro da Geologia ainda é muito recente, e não parece estar totalmente incorporado. “A preocupação de gênero e mesmo de idade nos congressos de Geologia é muito recente”.

Aliada à questão de gênero, vem uma outra preocupação: a maternidade. Adriana já é mãe da Flora, de 2 anos, e está grávida de 8 meses de Serena. Quando recebeu a notícia, em dezembro passado, de que ganhou o edital do Serrapilheira, a sua primeira reação foi de surpresa: pensou em como iria conciliar duas filhas pequenas e o novo projeto de pesquisa. “A academia não é um ambiente acolhedor [para a maternidade]. [A ciência] é muito cruel, pois ela te força a ter uma dedicação e no momento que você começa a deslanchar na carreira precisa parar para decidir se vai ser mãe ou não – o que é um desejo legítimo”. O projeto aprovado pelo Serrapilheira tem a possibilidade de extensão, mas a geóloga enxerga isso como um desafio a mais. “Nós somos penalizadas por sermos mães, pois por mais que seu parceiro seja prestativo e divida tarefas, a sobrecarga é sempre da mulher”. Isso é evidenciado, por exemplo, quando vemos os cargos de alta chefia nas universidades e instituições de pesquisa, onde a maioria dos reitores, diretores e chefes de departamento é homem. Um detalhe: a maioria desses, ainda, é casado e com filhos, o que indica que o fato de terem uma família para cuidar não os impediu de chegar a esses cargos (para ver mais sobre essa discussão, relembre o texto “Mulher e Ciência”).

Essa “penalização” sofrida pelas mulheres que são pesquisadoras e mães vem principalmente na hora de comparar a produtividade com os pares masculinos. É natural que, no período logo antes e logo após a licença-maternidade, a mulher tenha uma queda na sua produtividade científica. Mesmo quando elas retornam ao trabalho, elas encontram um desafio a mais, que é o de voltar à produtividade sabendo que vai ter a sobrecarga com o cuidado dos filhos. Uma sugestão da professora para contornar esse problema seria, em um primeiro momento, divulgar os dados referentes a período de maternidade para as agências de fomento. “A informação estando lá, as agências e as empresas que fazem os cálculos de produtividade conseguiriam facilmente acessar as estatísticas. Então, é preciso calcular em 3, 4 ou 5 anos, a média de produtividade de uma pesquisadora que teve filhos, e então se basear nessa média. Se não teve filhos durante esse período, então podemos comparar com a média de produtividade dos nossos pares masculinos”. Recentemente, um movimento iniciado pela organização “Parent in Science” sugere que as mulheres pesquisadoras que usam a Plataforma Lattes incluam no seu currículo o período em que estiveram de licença-maternidade ou se afastaram do trabalho para cuidar de seus filhos. Essa iniciativa, chamada “Maternidade no Lattes”, ajuda ao mostrar a todos o elefante branco na sala: que a produtividade de uma mulher, mas não a de um homem, é influenciada pela sua vida pessoal e familiar.

A academia não é um ambiente acolhedor [para a maternidade]. [A ciência] é muito cruel, pois ela te força a ter uma dedicação e no momento que você começa a deslanchar na carreira precisa parar para decidir se vai ser mãe ou não – o que é um desejo legítimo

Ainda falando em produtividade, quando perguntada sobre a forma como a Ciência é produzida hoje, a pesquisadora a considera como negativa, e que a necessidade de publicar artigos incessantemente prejudica a qualidade do trabalho e tolhe o livre pensar. Principalmente, a forma como é avaliada excelência hoje, onde o que conta é a produtividade, desconsidera, por exemplo, períodos de baixa produção, como quando ela teve sua primeira filha. “Eu já tive uma queda de produtividade quando tive minha primeira filha, e isso influencia na hora de conseguir financiamento para meus projetos, pois a metodologia adotada hoje para avaliar excelência é produtividade. Eu prefiro elaborar uma pergunta mais complexa e desafiadora do que publicar 2, 3 artigos por ano”, completa.

E é por isso que Adriana considera como essencial unir, aos esforços das agências públicas de fomento, as iniciativas de incentivo privados à Ciência, como é o caso do Instituto Serrapilheira. “A valorização da pesquisa de base, e não o direcionamento de pesquisas com um fim específico, é fundamental para o avanço da Ciência e Tecnologia. Muitas das respostas para as perguntas que temos hoje sobre saúde ou uso de recursos naturais provêm de uma pesquisa de base”. O projeto premiado de Adriana tem até o início do ano que vem para apresentar seus resultados e, então, convencer o comitê científico do Instituto que vale o investimento de 1 milhão de reais. Mas independente de ser aprovado ou não, Adriana pretende continuar fazendo ciência da forma como faz hoje: divertindo-se. “Daqui a dez anos, quero continuar me divertindo fazendo Ciência”, termina. E nós também achamos que fazer Ciência – e divulgar também – é uma das coisas mais divertidas do mundo!

A valorização da pesquisa de base, e não o direcionamento de pesquisas com um fim específico, é fundamental para o avanço da Ciência e Tecnologia. Muitas das respostas para as perguntas que temos hoje sobre saúde ou uso de recursos provêm de uma pesquisa de base

Fonte:http://projetofilos.com.br/2018/05/filos-entrevista-adriana-alves/

Mulheres guinenses aprovaram a lei de cotas mínima de 36% nos cargos eletivos

mulher de guinéA presidente da associação de mulheres juristas da Guiné-Bissau, Helena Neves, considerou hoje que o país tem muitas mulheres com pensamento e atitude machistas e que nem a recente lei das quotas poderá ser suficiente para mudar.

Em entrevista à agência Lusa, Helena Neves, regressada ao país há quatro anos, após vários anos a residir no estrangeiro, defendeu ser necessário “muito trabalho para quebrar com as rivalidades”, que diz existir entre as mulheres na Guiné-Bissau.

“Tenho dito que a Guiné-Bissau é um país de mulheres muito machistas”, afirmou a presidente da associação de mulheres juristas que a própria teve que liderar por falta de quem se chegasse à frente.

Após um grande movimento de pressão das organizações femininas, entre as quais a rede das mulheres parlamentares e a plataforma política das mulheres, o parlamento do país aprovou recentemente uma lei que impõe uma quota mínima de 36% de mulheres nas candidaturas para cargos eletivos públicos.

A lei, aprovada na generalidade no passado mês de agosto ainda se encontra em sede de discussão na especialidade no parlamento, pelo que não entrará em vigor a tempo de ser aplicada nas próximas eleições legislativas, marcadas para 18 de novembro.

A presidente da associação das mulheres juristas da Guiné-Bissau considera que se não for feito um trabalho de disseminação e de sensibilização das próprias mulheres, nem a lei das quotas trará a mudança desejada.

“É preciso explicar o que é isso da lei de quotas, se não for assim será uma letra morta”, observou Helena Neves.

A dirigente associativa aponta para as conclusões de um estudo recente da organização não-governamental Voz di Paz (Voz de Paz), que referem que a rivalidade entre as mulheres é um dos fatores que limitam a igualdade no país.

“Há mulheres que tendo trabalhos que podem dar à outras mulheres profissionais, dão a homens”, enfatizou Neves.

A dirigente sublinha ser anormal quando se vê homens a darem cursos sobre liderança feminina, quando, disse, o país já tem profissionais do sexo feminino naqueles domínios.

fonte:https://www.rtp.pt/noticias/mundo/guine-bissau-e-um-pais-de-mulheres-machistas-afirma-lider-das-mulheres-juristas_n1106046

Joy James: “Mesmo quando somos assassinados, temos que ser dóceis”

por Laura Castanho — publicado 18/09/2018 
Uma das acadêmicas de maior renome da Williams College, James critica a falsa sensação de progresso racial na gestão do ex-presidente dos EUA
Alice Vergueiro/Ibccrim
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‘Os negros pensaram que pertenciam ao próprio país, sem entender que isso tinha data de validade’, diz James sobre a era Obama

“Obrigado pelo livro, mas ele não tem nada a ver com a minha vida.” Foi a carta curta e grossa de Jalil Mutanqim, ativista dos Panteras Negras preso desde 1971, que abriu os olhos de Joy James para expandir o ativismo para fora dos muros da academia.

Aos 59 anos, ela é uma das acadêmicas de maior renome da Williams College, uma pequena universidade de elite na costa leste dos Estados Unidos. Especializada em filosofia política e estudos afro-americanos, ela foi apresentada à mobilização política por ninguém menos que Angela Davis.

James trabalha com presos políticos há 20 anos e milita no movimento abolicionista contemporâneo, que visa acabar com as prisões — a décima terceira emenda da constituição americana, que aboliu a escravidão, não vale para pessoas privadas de liberdade.

Em entrevista a CartaCapital, ela criticou as políticas de segurança pública na gestão Obama e o feminismo negro. Também se disse entusiasmada por novas ativistas, como Alexandria Ocasio-Cortez – estrela ascendente da ala socialista do Partido Democrata, atualmente concorrendo ao Senado – e Erica Garner, a filha de um homem morto pela polícia que se converteu em ativista e morreu no fim do ano passado, aos 27 anos.

Confira abaixo a íntegra da entrevista.

CC: Qual  diagnóstico a sra. faz da democracia, nos EUA e no mundo?

Joy James: Ela está muito frágil. Passamos muito tempo reparando as pessoas que foram traumatizadas pela polícia, ou pelas prisões, ou as enterrando, e isso torna muito difícil ser proativo com a democracia e a organização política. Temos muita gente desgastada.

Pensando no caso da Marielle Franco: você conecta a política doméstica com a internacional, e é aí que acontece a repressão. Foi isso que aconteceu com Malcom X, quando ele viajou a Meca e passou a ser financiado pelo Egito, segundo algumas fontes. Quando ele voltou aos EUA, foi assassinado pouco depois. Foi o que houve com Martin Luther King, quando ele juntou o ativismo pelos direitos civis com a crítica à Guerra do Vietnã e começou a denunciar o capitalismo e o imperialismo — e em 1968 ele também foi morto. O fio é uma coalizão organizada e internacional, e que também apoiamos a democracia quando apoiamos uns aos outros.

CC: Como vê o debate sobre as prisões na atualidade?

JJ: Senti que a resistência crítica e o abolicionismo mainstream estavam minimizando os presos políticos. Uma vez que você considera a ideia de presos políticos, tem que lidar com a autonomia deles. Geralmente falamos do encarceramento em massa e de suas vítimas. Mas os presos políticos não são vítimas, são ativistas, intelectuais. Alguns usam violência, outros não.

A honra é muito importante e acho que é dela que os abolicionistas sentem falta. A honra e a dignidade é o que os torna (presos) humanos. Você tem que respeitá-los.

A democracia ainda não se consolidou no que diz respeito aos negros. É por isso que somos policiados, mortos e humilhados em maior escala. Mas é essa asserção de dignidade – mesmo quando você não é pobre – que leva à rebelião. E penso que é essa asserção que costuma se perder ou ser mal compreendida quando resolvemos a política no pragmatismo.

CC: A sra. leciona um curso sobre o racismo institucional na era Obama. Em retrospecto, como avalia a política racial do ex-presidente?

JJ: O governo norte-americano, na gestão Obama, diminuiu a importância da violência dos supremacistas brancos. Sob Obama, quase todos os chefes do aparato de policiamento eram negros. Obama era o comandante-chefe dos militares, Eric Holder era o advogado-geral, e depois dele foi Lorretta Lynch. O responsável pela segurança interna era Jay Johnson. Então pensei: como é que todo mundo no controle do aparato policial nos Estados Unidos é negro e mesmo assim você não consegue controlar a violência contra os negros por parte da polícia?

Então o Obama disse algo muito pungente — sempre vou lembrar a frase, porque o verbo que usou é incomum. Ele disse, ‘Não posso federalizar a polícia’. Não entendi o significado de primeira, mas então percebi: ah, você acabou de dizer que não consegue controlar a polícia dos EUA. Então por que estamos nos dirigindo a você nas petições? Ele basicamente quis dizer, ‘Perdão, gente, não consigo controlá-los’.

CC: Era apenas simbólico?

JJ: É arrogância, é orgulho, é performance. Trump realmente odeia os negros e age de modo indecente, então claro que há um contraste nítido entre ambos. Mas o que os liberais estavam dispostos a arriscar, sob a gestão de um presidente negro liberal, era mínimo.

No final, as pessoas pensaram, ‘O que eu tirei disso tudo?’. As elites negras tiraram muita coisa, muito capital cultural. Elas iam às festas na Casa Branca. Era um momento em que os negros pensaram que pertenciam ao próprio país, sem entender que isso tinha data de validade. E essa sensação de pertencimento tinha mais a ver com cultura e representação do que com controle sobre a violência e a economia.

Paramos de focar na violência racista [na gestão Obama]. Focamos no fato de que ele cantou ‘Amazing Grace’ e chorou [após o massacre em uma igreja de Charleston]. Esse momento de vulnerabilidade e perdão negros estava estampado na cara do presidente, como se estivéssemos sempre ofendendo.

Mesmo quando somos assassinados, temos que ser dóceis. Não podemos manifestar raiva em público. Esse era o modelo a ser seguido, o modelo oficial do abolicionismo liberal convencional — ‘não irrite os brancos’. Mas eles já estão irritados.

Havia toda essa narrativa triunfal de que tínhamos superado as piores partes e estávamos seguindo adiante. Na verdade, ainda temos que passar pelas piores partes, porque os negros e os radicais são sempre orientados a calar a boca, trabalhar com coalizões e parar de aprontar.

CC: Outro curso que a sra. leciona é focado nas mulheres na política nacional. O que pensa das candidatas nas eleições no Legislativo, em novembro, como Alexandria Ocasio-Cortez?

JJ: Fico animada com ela. Adoro como a juventude está tomando seu espaço. Sei que o Partido Democrata está tentando conter o que vê como ‘a facção do Bernie [Sanders]’, mas ela não é a menina do Bernie. Ela é autônoma e é um fenômeno único. Muito da política é comprometimento ideológico, e também alguma traição. Sinto que em algum momento ela vai se comprometer, mas não acho que trairá ninguém. Era assim que eu também via a Erica Garner.

Fiquei obcecada pela Erica Garner. Ela não fazia a política dos liberais. Se fizesse, teria aparecido nos jornais quando morreu, mas não foi assim. Ela criou sozinha uma das propagandas de campanha mais poderosas nas últimas décadas. Acho que sou uma versão mais atenuada dela, dentro dos espaços liberais.

CC: E os movimentos recentes pela justiça racial, como o Black Lives Matter?

JJ: É complicado. Tenho a Erica Garner como modelo, mas não as outras organizações, como o Black Lives Matter (BLM) e o Say Her Name. O BLM recebeu 100 milhões de dólares da Fundação Ford. Tudo bem. Mas eles também negaram dinheiro ao Martin Luther King quando ele passou a criticar o imperialismo e o capitalismo, então os pagantes têm as suas vontades.

Eles [BLM] estão fazendo coisas importantes, mas não são novidades — ao contrário da Alexandria Ocasio-Cortez e da Erica Garner. Não tem que haver só uma disrupção da norma, mas uma proposta de novos caminhos.

Nossos cérebros estão tão engessados na mesma definição de democracia e trabalho duro, e precisamos abrir espaço para novas formas de pensar. É assim que vejo esses jovens que fogem da política tradicional — não é para destruir nada, mas para plantar algo novo. Não dá para respirarmos sem esse novo fervor político e intelectual.

CC: A sra. também faz uma crítica do feminismo negro. Poderia explicá-la?

JJ: As pessoas se contentam em achar que o feminismo negro é necessariamente mais progressista que o feminismo branco, porque o tornaram monolítico. Meu argumento é que já resolvemos isso nos anos oitenta, e que agora precisamos olhar para a ideologia. Então mesmo com a interseccionalidade, eu pergunto, ‘Ok, mas cadê a ideologia?’. É ela que vai dizer se temos uma marxista ou uma capitalista, uma radical ou uma neoliberal.

É essa ausência de interrogação do feminismo negro, de imbuir nele uma autocrítica, que permite que pensemos que ele é sempre progressista e transformador, mesmo quando não é. Teve quem boicotou meus textos, por eu fazer essa crítica.

Os feminismos negros se consolidaram como uma vanguarda, mas passam muito tempo fazendo uma análise da vitimização. Vitimização não é sinônimo de liderança. Só porque você foi vitimizado, não quer dizer que deva liderar [um movimento político]. A sua subalternidade na ordem social não reflete, necessariamente, a sua coragem de mudá-la.

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/governo-obama-subestimou-a-violencia-racista-dos-estados-unidos

Valéria a guerreira na justiça

Valéria Lucia.jpgLuiza Souto

Da Universa

11/09/2018 18h11

Seria um dia normal de audiência para Valéria Lúcia dos Santos, mas a advogada saiu do 3º Juizado Especial Cível da Comarca de Duque de Caxias (RJ) algemada após discussão com uma juíza. As imagens logo se espalharam pelas redes. Negra, afirmou ter sentido “certo desdém” da profissional, mas durante coletiva para a imprensa, pontuou:

“Não quero colocar a questão do racismo. Quando falamos em racismo, as pessoas falam que é ‘mimimi’. Não quero isso. Sou mulher e preciso trabalhar. Não tem ninguém que me sustenta”.

 

Valéria conta que teve o pedido de acesso à contestação da cliente que representava, bem como à pauta da audiência, negado pela juíza leiga Ethel de Vasconcelos. “Eu e minha cliente recusamos acordo do réu. Queria ver a peça de defesa da outra empresa para contestar os pontos que achamos controversos”, relatou ela. Diante da negativa da juíza, a advogada saiu da sala, localizada no segundo andar, e subiu até o quarto para solicitar um delegado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Quando voltou, afirma, foi avisada de que a sessão havia terminado.

Começou, então, uma discussão. Nos vídeos divulgados na internet, a advogada aparece reclamando da atitude da juíza e se recusando a sair da sala. A juíza então chama policiais militares para retirá-la. “A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” informou o policial.

“Direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar”

Em outro momento do vídeo, Valéria aparece sentada no chão, algemada, com as mãos para trás, e um grupo de policiais tentando tirá-la. A advogada diz que não sabe informar se foi a juíza quem pediu para algemá-la.

“É meu direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar”, grita ela no vídeo. Durante a coletiva, no entanto, a defensora frisou que não queria entrar na questão racial. “Esquece isso. Esquece que sou negra. Quero trabalhar como vocês”.

Após o ato, Valéria foi à delegacia registrar queixa. “Foi muito grave o que aconteceu. Estamos perdendo totalmente a autonomia. Ali houve abuso de autoridade”, concluiu ela na coletiva.

O presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB, Luciano Bandeira, disse que iria representar uma reclamação na Corregedoria da Polícia e do Tribunal de Justiça contra a juíza. Será pedida ainda uma reparação civil pelo constrangimento. Ele defende que a magistrada seja suspensa enquanto se apura o caso.

“O advogado, no exercício da profissão, não pode ser preso. A única hipótese é se ele cometer crime inafiançável, o que não aconteceu”, explicou Bandeira.

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/09/11/sou-mulher-e-preciso-trabalhar-diz-advogada-algemada-no-rio-de-janeiro.htm

Advogada negra é agredida em pleno tribunal

Advogada negra é detida, algemada e arrastada durante audiência em Duque de Caxias. Por André Zanardo

Advogada é detida. Foto: Reprodução/Justificando

Publicado originalmente no site Justificando

POR ANDRÉ ZANARDO

A advogada, doutora Valéria Santos, negra, carioca, foi detida e posta algemada no exercício de sua profissão durante uma audiência no  3˚Juizado Especial Criminal em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A defensora aparece em vídeo divulgado em rede social requerendo à juiza leiga, durante audiência criminal, para que tivesse sua requisição apreciada em defesa da ré, sua cliente. Entretanto, a juíza teria dado por encerrada a audiência, sem apreciar o pedido da advogada e em seguida ordenou que ela se ausentasse da sala. Valéria teria dito que não deixaria a sala de audiência sem a presença de um representante da OAB, visto que a audiência foi encerrada sem que apreciado e consignado o seu pedido.
“Eu estou indignada de vocês como representante de Estado atropelarem a lei. Eu tenho o direito de ler a contestação e impugnar os pontos da contestação do réu. Isto está na lei, eu não estou falando nada absurdo aqui.”

Enquanto a advogada exercia seu direito de defender a ré que estava sentada ao seu lado e em frente da juíza, foi requerido aos policiais que faziam  a segurança da repartição pública que retirassem a advogada da sala de audiência.

“A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” rebate o policial não identificado.

A advogada, subjulgada pelos presentes, faz a sua defesa neste momento direcionando sua fala diretamente para o policial que alterava a sua voz dizendo que iria prendê-la. Ainda requereu a presença de um membro da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB, para que a representasse a fim de fazer valer os seus direitos enquanto patrona da ré alí presente.

“Eu não vou sair, não, eu tenho que esperar o delegado da OAB, porque eu quero fazer cumprir o meu direito. Eu não vou sair  eu estou no meu direito, eu estou trabalhando. Eu não estou roubando, não estou fazendo nada não. Estou trabalhando!”, insiste a defensora.

Alguns advogados presentes, mesmo presenciando a cena absurda não fizeram a defesa da colega. Reclamavam, entretanto, que a advogada terminasse a atuação brevemente, para que eles pudessem fazer as suas audiências e pudessem terminar logo seus trabalhos.

A altiva advogada neste momento se dirige aos advogados presentes e reclama solidariedade:

“Eles estão preocupados com audiência e (permitem) atropelar a lei, que país é esse? Depois querem reclamar de político que rouba, que faz tudo errado. Se vocês são advogados e não estão respeitando a lei.”

Neste momento, outros advogados presentes na sala de audiência diminuem o ocorrido dizendo que ela não estaria fazendo a defesa dela corretamente e a acusaram de estarem sendos desrespeitados, por estarem perdendo tempo com o episódio.

“A senhora não está respeitando a gente” afirma uma das advogadas que esperavam para a próxima audiência. Outro afirmou: “a senhora pode pleitear o seu direito da forma adequada”.

Instantes depois, em segundo vídeo é possível ver a advogada sendo presa, algemada com a mão nas costas e arrastada no chão da sala de audiência.
A advogada agredida, ainda no chão, grita insistentemente em sua defesa que está trabalhando e sinaliza indiretamente o racismo que estaria ocorrendo naquele flagrante violação de prerrogativa e abuso de autoridade:

“É meu direito enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar.”

De acordo com o Presidente da Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil, Luciano Bandeira,  foi enviado um representante da que acompanhou o caso e conseguiu ao menos que fosse retirada as algemas postas ilegalmente em Valéria.

“Nada justifica o tratamento dado à colega, que denota somente a crescente criminalização de nossa classe. Iremos atrás de todos os que perpetraram esse flagrante abuso de autoridade.” defendeu o Presidente da Comissão.

Frente de Juristas Negras e Negros do Rio de Janeiro repudiam o ocorrido e se solidarizam com a advogada agredida

A FEJUNN-RJ, vem a público repudiar veementemente o tratamento a que foi submetida a ilustríssima advogada, Dra. Valéria Santos, em pleno exercício da profissão.

Não há como não nos manifestarmos enquanto uma Frente que busca inserir no meio jurídico o recorte étnico racial necessário para pensar o Direito de forma ampla e igualitária. Deste modo, nos solidarizamos com a Dra. Valéria, compreendendo que à luz da história, negros e negras são tratados de maneira violenta pelo Estado. Não basta ser Doutora, operadora do Direito. O Estado de maneira eficaz ousa nos colocar no lugar o qual pretende que estejamos por todo o sempre.

O Supremo Tribunal Federal por meio da Sumula Vinculante n.º 11 regulou a utilização excepcional das algemas. No caso do fato ocorrido com a Dra. Valéria, ainda assim, em momento algum se enquadra na hipótese prevista no referido verbete, ainda mais sem a presença de um delegado da OAB.

Repudiamos o uso das algemas e o tratamento da Dra. Valéria Santos, em pleno exercício na profissão. O episódio de hoje mais uma vez demonstra a importância da FEJUNN – RJ existir. Demonstra a fragilidade que vivemos enquanto negros e negras, para além dos dados estatísticos do cárcere e da letalidade, também no exercício de nossa profissão, com o agravante pelo fato ter ocorrido no meio jurídico.

Queremos justiça, o exercício do Direito, a dignidade para alcançarmos uma sociedade livre, justa e verdadeiramente democrática.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/advogada-negra-e-detida-algemada-e-arrastada-durante-audiencia-em-duque-de-caxias-por-andre-zanardo/

Entrevista de Nancy Fraser

nancy-fraser-pulDiante do crescimento do populismo de direita em todo o mundo, Nancy Fraser sustenta: há revolta positiva no ar; é preciso dar-lhe sentido.

A entrevista é de Shray Mehta, publicada por Outras Palavras, 19-08-2018. A tradução é de Inês Castilho.

Esta entrevista foi realizada em março de 2018, quando Nancy Fraser foi convidada pelo Departamento de Sociologia da Universidade do Sul Asiático para fazer uma palestra sobre “Raça, Império, Capitalismo: teorizando os nexos”.

Quando emergem na cena política personagens como Jair Bolsonaro, parte da esquerda tende a uma atitude defensiva. Em face de um perigo corretamente associado ao fascismo e à violência, seria o caso de preservar a normalidade do sistema institucional, e mesmo de convocar alianças em seu favor. A repercussão que o discurso de ódio encontra entre parcelas amplas da sociedade indicaria que é hora de refrear o passo, até que a onda regressiva se esvazie.

Associada a um marxismo heterodoxo, a filósofa e feminista norte-americana Nancy Fraser julga que esta atitude não afastará o perigo — e pode, ao contrário, torná-lo maior. Uma visão particular sobre o chamado “populismo de direita” a faz pensar assim. As maiorias, crê Fraser, têm boas razões para se revoltar contra a ordem. Ao longo das três últimas décadas, elas foram castigadas, na maior parte dos países, pelo desmonte dos direitos sociais. Em muitos casos, partidos associados à esquerda envolveram-se ativamente neste processo (no Brasil, vale lembrar a adesão do segundo governo Dilma ao “ajuste fiscal” proposto pela direita). Agora, há raiva e rancor. Enxergar os que nutrem estes sentimentos como “fascistas” só agravará o cenário.

feminismo é, para Fraser, uma chave para encontrar outro tipo de resposta. A crise global da esquerda está associada à transição do capitalismo industrial ao financeirizado— e, portanto, à ineficácia das antigas estratégias de resistência, que se baseavam na ação dos trabalhadores organizados. Agora, o centro de geração de valor e acumulação de riqueza do próprio sistema deslocou-se: já não é a fábrica, mas a produção imaterial, que se espraia por toda a sociedade. Não bastaria isso para enxergar a relevância (e a potência transformadora) de formas de trabalho não-reconhecidas e não-remuneradas, secularmente associadas às mulheres?

Como fazê-lo? Na entrevista a seguir, concedida em março deste ano ao jornalista indiano Shray MehtaFraser oferece algumas pistas. “O que necessitamos”, diz “é o que André Gorz chamou de ‘reformas não-reformistas’. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital”. Porém, estas reformas, prossegue a filósofa, “não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educaçãomoradiasaúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos”.

Esta estratégia dá resultados concretos, mostra Fraser. A Inglaterra é o exemplo eloquente. Lá, boa parte dos votos de rancor dados ao Brexit, há dois anos, tem sido recuperada por Jeremy Corbyn, líder rebelde do Partido Trabalhista, que propõe precisamente um programa radical de recuperação e ampliação dos serviços públicos. Foi esta postura, aliás, que desarmou o partido xenófobo (UKIP) — líder do voto contra a União Europeia, mas hoje esvaziado e dividido.

E no Brasil: qual o melhor antídoto contra os Bolsonaro e os Alckmin? A equação deFraser sugere que talvez não seja uma esquerda defensora da ordem — mas, ao contrário, capaz de desafiá-la por meio de medidas distributivas e anti-sistêmicas bem mais profundas que as praticadas pelo lulismo, em sua primeira experiência de governo. (A.M.).

Eis a entrevista.

Muito obrigado pela oportunidade desta conversa. O mundo está assistindo a uma aumento alarmante de líderes populistas e o padrão parece repetir-se com frequência em todo o espectro político, não restrito apenas ao Norte ou ao Sul globais. Como se pode contextualizar essa expansão do populismo como um momento histórico mundial? Ele teria uma dinâmica sistêmica que vai além das nações e está localizado na economia internacional e crise do capitalismo?

populismo está situado numa dinâmica histórica mundial. Ele sinaliza uma crise hegemônica do capitalismo – ou melhor, uma crise hegemônica de uma forma específica de capitalismo que temos hoje: globalizado, neoliberal e financeirizado. Esse regime suplantou a variedade anterior, do capitalismo gerido pelo Estado, e dizimou todos os ganhos que as classes trabalhadoras haviam conquistado no período prévio. O populismo é, em grande medida, uma revolta dessas classes contra o capitalismo financeiro e as forças políticas que o impõem. Para entender a revolta, é preciso entender o bloco hegemônico anterior que está sendo rejeitado. Eu chamei esse bloco de “neoliberalismo progressista”. Como formação dominante, o neoliberalismo progressista estava centrado nos Estados mais poderosos do Norte global, mas tinha também postos avançados em outros lugares. Exemplos incluem o “Novo Trabalhismo” de Tony Blair, na Inglaterra, o “novo” Partido Democrático de Bill Clinton, nos EUA, o Partido Socialista na França, e os últimos governos do Partido do Congresso, da Índia.

O que é específico do “neoliberalismo progressista” é que ele combina políticas econômicas regressivas, liberalizantes, com políticas de reconhecimento aparentemente progressistas. Sua economia política baseia-se em “livre comércio” (que em realidade significa livre movimentação do capital) e desregulamentação das finanças (que empodera investidores, bancos centrais e instituições financeiras globais para ditar políticas de “austeridade” para o Estado por meio de decretos e da chantagem da dívida). Entretanto, seu lado de reconhecimento centra-se na compreensão liberal do multiculturalismo, do ambientalismo e dos direitos das mulheres e LGBTQ[lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer]. Inteiramente compatível com o neoliberalismo financeiro, essa compreensão é meritocrática, oposta ao igualitarismo. Focados na “discriminação”, eles buscam assegurar-se de que uns poucos indivíduos “talentosos” de “grupos sub-representados” possam ascender ao topo da hierarquia corporativa e alcançar posições e remuneração paritárias com os homens heterossexuais brancos de sua própria classe.

O que não é mencionado, contudo, é que enquanto esses poucos “quebram o teto de vidro”, todo o resto continua preso no porão. De fato, o neoliberalismo progressistaarticulou uma política econômica regressiva com uma aparente política progressistade reconhecimento. O lado progressista de reconhecimento serviu como um álibi ao lado econômico regressivo. Isso possibilitou ao neoliberalismo apresentar-se como cosmopolita, emancipatório, inovador e moralmente avançado – em contraste com as classes trabalhadoras aparentemente paroquiais, atrasadas e incultas.

neoliberalismo progressista foi hegemônico por umas duas décadas. Encabeçando vastos aumentos da desigualdade, foi uma grande bonança para o 1% global, mas também para o estrato gerencial profissional. Foram atropeladas as classes trabalhadoras do norte, que haviam se beneficiado da social democracia; os camponeses do sul, que sofreram desapropriação renovada por dívida, em escala maciça; e um vasto precariado urbano no mundo inteiro. O que se vem denominando populismo é uma revolta desses estratos contra o neoliberalismo progressista. Ao votar em Trump, no Brexit, em Modi (Índia) e no Movimento Cinco Estrelas na Itália, as maiorias declararam que se recusam a continuar desempenhando o papel que lhes foi atribuído, de cordeiros de sacrifício, num regime que não tem nada a lhes oferecer.

Os movimentos populistas são frequentemente apresentados como “fascistas”, assim que começam a articular suas demandas. Contudo, quando vistos como uma articulação das preocupações populares contra a apatia sistêmica, surge um cenário mais complexo. Por exemplo, a ascensão de Trump está baseada até certo ponto no apoio de uma base eleitoral que é apressadamente descartada como “homens brancos racistas”, embora possam ter votado em Obama nas duas últimas eleições. Num outro contexto, na Índia, a ascensão do nacionalismo hindu é taxada de fascista sem vê-la na perspectiva histórica, de reação às políticas neoliberais dos governos anteriores, do Partido do Congresso. Como perceber essa rejeição completa das preocupações populares no discurso público, por um lado, e a rotulagem da reação popular como fascista?

Concordo com sua visão nesse assunto. O liberalismo tem uma longa história de tentar deslegitimar a oposição a ele – estigmatizando seus opositores como, por exemplo, “stalinistas”, “fascistas”, o que seja. Isso é certamente o que está acontecendo agora com relação ao termo “populismo”. Essa palavra é hoje amplamente usada pelos liberais para desqualificar como ilegítimas as forças populares que estão se rebelando contra seu domínio. Mas você está certo, é uma tática defensiva por parte dos defensores do “neoliberalismo progressista”. Ao estigmatizar a oposição, eles esperam ressuscitar seu projeto. Nos Estados Unidos, estão procurando desesperadamente um novo líder, com mais apelo que Hillary Clinton, sob o qual possam restaurar uma nova versão do neoliberalismo progressista. Essa é a agenda de uma grande parcela da “resistência” anti-Trump. Não conheço o suficiente da política indiana para ter certeza, mas imagino que o Partido do Congresso está usando tática semelhante na esperança de retomar o poder.

Eu certamente jamais endossaria Trump ou Modi [o presidente da Índia] – isso é óbvio. Todavia, não estou infeliz com o fato de que quem foi massacrado pelo “neoliberalismo progressista” levante-se contra ele. Em alguns casos, é claro, a forma que esta rebelião assume é problemática. As populações frequentemente equivocam-se quanto à verdadeira causa de seus problemas, e fazem de bode expiatório os imigrantesmuçulmanosnegrosjudeus e outros. Mas é contraprodutivo simplesmente desqualificá-los como racistas e islamofóbicos irredimíveis. É tolo assumir, de saída, que não há qualquer possibilidade de ganhá-los para a esquerda, seja para o populismo de esquerda ou para o socialismo democrático.

Além disso, a ideia de que todos esses eleitores não passam de racistas de carteirinha não bate com os dados. Nos EUA, como você disse, 8,5 milhões de pessoas que votaram para Obama em 2012 mudaram de posição e votaram em Trump em 2016. Muitos deles eram pessoas da classe trabalhadora em comunidades do “cinturão de ferrugem”, que sofreram maciçamente com a desindustrialização, precarização e uma grande epidemia de adição a opiáceos, orquestrada pela indústria farmacêutica. Foram eles que entregaram a presidência para Trump. Em ambas as eleições, 2012 e 2016, votaram contra a economia neoliberal – primeiro para Obama, que fez campanha à esquerda, adotando a retórica do “Ocuppy Wall Street”, e depois para Trump, cuja campanha baseou-se não somente no reconhecimento excludente, mas também na economia populista. O que isso mostra é que as questões identitárias não estavam, na mente desses eleitores, acima de tudo. Nessas questões, eles foram bastante volúveis, agindo de diferentes maneiras, conforme as opções oferecidas. Ao contrário, foram consistentes na rejeição da terceirização, “livre comércio” e financeirização; no apoio à proteção social, pleno emprego e salários dignos. O mesmo é verdade, aliás, no Reino Unido. Muita gente da classe trabalhadora do norte da Inglaterra que votou a favor do Brexit apoia agora, fortemente, Jeremy Corbyn. Na França também, houve grande troca de votos, de um lado pro outro, entre a Frente Nacional [de ultra-direita] e o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon.

Meu ponto é que todos esses eleitores (e outros!) têm queixas legítimas contra o neoliberalismo progressista. Ao invés de desqualificá-los como racistas, a esquerda deve validar suas críticas. Ao invés de assumir que eles não têm jeito, devemos partir da premissa de que muitos eleitores populistas à direita podem ser, em princípio, conquistados pela esquerda. Precisamos atraí-los, validando suas queixas e oferecendo-lhes uma análise alternativa da verdadeira causa de seus problemas e uma proposta alternativa para resolvê-los.

Sobre oferecer uma explicação e uma visão alternativas, não é a primeira vez que ocorre essa troca de eleitores entre a esquerda e a direita. Sabemos que há precedentes históricos. A direita é capaz de estabelecer nexos casuais entre os problemas sistêmicos e grupos sociais tais como judeus, muçulmanos ou imigrantes, para sugerir que transformá-los em alvos pode resolver os problemas de emprego – isso tem apelo para as pessoas. Ainda que a esquerda tente intervir, a visão alternativa parece muito utópica para as pessoas. Você sente que ainda há uma lacuna crucial, na esquerda, com relação a isso?

Sim, eu concordo. Há com certeza uma lacuna programática na esquerda. Isso se deve em parte ao fim do comunismo soviético, que teve o infeliz efeito de deslegitimar não apenas aquele regime esclerosado, mas também ideias de socialismo e igualitarismo social em geral. A atmosfera resultante beneficiou grandemente os neoliberais, enquanto intimidava e desmoralizava a esquerda.

Mas isso não é toda a história. Nesse clima, uma parte significativa do que poderia ter sido uma opinião à esquerda foi direcionada para o liberalismo. Pense por exemplo no feminismo liberal, no anti-racismo liberal, no multiculturalismo liberal, no “capitalismo verde” etc. Essas são as correntes dominantes, hoje, de parte dos novos movimentos sociais, cujas origens foram, se não diretamente à esquerda, ao menos esquerdizantes ou proto-esquerdistas. Hoje, porém, falta-lhes até mesmo a mais pálida ideia de uma transformação estrutural ou uma economia política alternativa. Longe de buscar a abolição da hierarquia social, sua mentalidade está voltada a atrair mais mulheres, gays e não-brancos para os altos escalões. Certamente, nos EUA mas também em outros países, a esquerda foi colonizada pelo liberalismo.

A meu ver, o melhor caminho para reconstruir a esquerda é ressuscitar a velha ideia de um “programa socialista de transição” e dar a ele um novo conteúdo, apropriado ao século 21. Hoje, não podemos começar dizendo às pessoas que vamos socializar os meios de produção e em seguida elas terão empregos seguros e bem pagos. Essa retórica está vencida. O que necessitamos, ao contrário, é o que André Gorz chamou de “reformas não-reformistas”. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital. Além disso, essas reformas não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Elas precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educação, moradia, saúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos.

Embora longe da perfeição, a campanha de Bernie Sanders nos EUA teve algumas ideias que apontavam nessa direção. Acima e além do aumento do salário mínimo para 15 dólares a hora, Sanders fez campanha pelo “Medicare para todos”, ensino universitário gratuito, reforma da justiça criminal, liberdade reprodutiva e a quebra dos grandes bancos – tudo isso ligado ao emprego. Suas ideias não foram inteiramente desenvolvidas, é certo. E elas são possivelmente mais social democratas do que democráticas socialistas. Mas representam a primeira inspiração de uma alternativa populista à esquerda, nos EUA.

A esquerda precisa também pensar sobre finanças e bancos. Um dos pesadores mais interessantes nesse assunto é Robin Blackburn, que defende que as finanças deveriam tornar-se um bem público, como costumava ser a eletricidade — o que significa que devia pertencer a todos e ser alocada publicamente. Decisões sobre crédito, onde investir e quais projetos financiar deveriam ser tomadas com base não na taxa de retorno, mas no valor e utilidade social. E deveriam ser tomadas democraticamente – por meio de conselhos eleitos, encarregados de representar as comunidades e outras partes interessadas. Essa é uma ideia muito interessante, porque precisamos, é claro, de um sistema de crédito. Abolir os bancos e instituições financeiras globais não é a resposta. O que é necessário, ao invés disso, é socializar as finanças.

Aliás, esses são tempos perfeitos para desenvolver um programa de esquerda para as finanças. Muita gente está agora aberta para esse problema. Afinal, era exatamente este o ponto do Occupy Wall Street. Todo mundo sabe que os circuitos de investimento que causaram a crise estão de volta a seus velhos truques e que nada foi feito no sentido de uma reforma estrutural para prevenir um derretimento global, no futuro próximo. Os norte-americanos estão bem conscientes de que Obama usou os impostos para socorrer os bancos, cujos esquemas predatórios quase derrubaram a economia global — mas não fez nada para ajudar as 10 milhões de pessoas que perderam sua casa na crise de execução das hipotecas. Não há dúvidas de que muitos estão abertos a repensar esse sistema. Nessa questão, nem a direita nem o centro têm nada a oferecer, de modo que é uma grande oportunidade para a esquerda.

Gostaria agora de debater algumas preocupações teóricas. No seu artigo “A morada escondida de Marx” (“Marx’s HIdden Abode”), na New Left Review, você argumentou longamente sobre como o valor é produzido não apenas pelo trabalho produtivo, mas também pelo trabalho não remunerado. Este último seria o que, na verdade, suporta e sustenta o primeiro. A certa altura você sugere que uma parte da expansão do capitalismo é o “potencial emancipatório do capitalismo”. Esse “potencial emancipatório” é um tema muito debatido no pensamento marxista. Argumenta-se que frequentemente o trabalho não livre é ainda mais aprisionado, na dialética da “dupla liberdade” do capitalismo. Nesse contexto, como se pode entender o potencial emancipatório do capitalismo no que diz respeito ao trabalho não livre?

A expressão “dupla liberdade” é irônica. O lado positivo tem a ver com o fato de podermos circular e termos o direito de aceitar “voluntariamente” um contrato de trabalho. Mas, como você sabe, ela carrega um outro lado. Ao tornar-se livre para vender sua força de trabalho, uma pessoa também livrou-se de – quer dizer, foi privada de – ter acesso aos meios de sub-existência e aos meios de produção. Marx ressaltava que os proletários haviam sido “libertos” do acesso à terra, ferramentas, matérias primas e outros bens de que necessitariam para organizar seu próprio trabalho e satisfazer suas necessidades. Em consequência, não têm escolha senão aceitar um contrato de trabalho com um capitalista. O lado bom da liberdade está severamente comprometido, quando não é simplesmente ilusório.

liberdade no capitalismo é de fato uma faca de dois gumes. Se alguém é escravo ou servo, a possibilidade de tornar-se um trabalhador remunerado é certamente um passo adiante, como o próprio Marx frequentemente ressaltava. Mas isso não significa que essa pessoa se torne livre num sentido completo e robusto. Ao contrário, o proletariado torna-se sujeito de dominação. De modo que eu não superestimaria o potencial emancipatório do capitalismo, mas também não o ignoraria.

O ponto focal, contudo, é outro: o capitalismo não é um sistema uniforme. Ele não trata todo mundo do mesmo modo ao mesmo tempo. Mesmo quando “emancipa” alguns da dependência e trabalho forçado, transformando-os em proletários duplamente livres, ele deixa outros – muitos outros, de fato – em contextos e formas de dominação tradicionais. Ou, ainda, transforma aquelas formas e contextos tradicionais em formas novas, frequentemente muito opressivas.

De fato, argumentei recentemente, na palestra Contribuições ao Conhecimento Contemporâneo, que a exploração de “trabalhadores livres” está intimamente ligada — depende, na verdade — da expropriação de “outros” dependentes. O que quero dizer com expropriação é o sequestro de bens de pessoas subjugadas (seu trabalho, terra, animais, ferramentas, crianças e corpos) e o afunilamento desses bens sequestrados em circuitos de acumulação de capital. Compreendida dessa maneira, a expropriação difere nitidamente da exploração. A exploração é mediada por um contrato salarial: o trabalhador explorado troca “livremente” sua força de trabalho por salários que supostamente cobrem os custos sociais médios necessários a sua reprodução. A expropriação, ao contrário, dispensa a folha de parreira do consentimento e toma brutalmente propriedade e pessoas, sem contrapartida – seja por força militar ou por dívida. Minha visão é como a de Rosa Luxemburgo e David Harvey: a exploração por si só não poderia sustentar a acumulação de capital ao longo do tempo. Esta depende, antes, de contínuos movimentos de expropriação. Então, os dois “ex” estão interligados. E é o processo combinado de exploração e expropriação que cria o valor excedente.

Essa ideia é lindamente ilustrada numa frase de Jason Moore, relativa ao início da industrialização. Ele diz, “Atrás de Manchester fica Mississippi”. Isso significa que a indústria têxtil altamente rentável de Manchester, sobre a qual Engels escreveu, não seria rentável sem o algodão barato fornecido por meio do trabalho escravo das Américas. Sou tentada, por sinal, a acrescentar um terceiro M — para Mumbai, para assinalar o importante papel desempenhado no crescimento de Manchester pelo destruição calculada da manufatura têxtil da Índia pelos britânicos. Este é um caso em que a expropriação é condição para a possibilidade de exploração lucrativa. O capitalismo joga um jogo duplo com as pessoas, encaminhando alguns à “mera” exploração e condenando outros à brutal expropriação — uma diferença que historicamente tem sido associada com império e raça. De modo que eu rejeito a alegação, com frequência atribuída a Marx, de que o valor é produzido apenas pelo trabalho assalariado. Há muitos outros fatores não assalariados no processo, inclusive o trabalho social-reprodutivo das mulheres, sem o qual o trabalho assalariado não seria possível.

Para aprofundar isso, você poderia por favor explicar essa dinâmica do potencial emancipatório do capitalismo tendo em mente as economias “periféricas”? Você acha que pode-se continuar a pensar nelas como periféricas, num contexto do neoliberalismo que parece prover liberdade completa ao capital, ao restringir o trabalho em bases nacionais?

O conceito de “centro e periferia” faz menos sentido agora do que fez em períodos anteriores, mas estamos ainda lutando para encontrar uma alternativa satisfatória. Defensores da teoria de sistema-mundo falam de países semi-periféricos com estratégias para subir os degraus da escada de valor agregado baseados na produção de commodities. Mas mesmo isso não é inteiramente adequado para uma situação em que a indústria está sendo realocada em escala maciça. Dado o peso das economias de países como os membros do BRICS, é difícil chamá-los de “semi-periféricos”, quanto mais de periféricos. O que complica a situação ainda mais é que, a despeito de seu peso econômico, os países dos BRICS não estão (ainda?) em posição de afirmar-se como potências globais no cenário mundial. Ao contrário, uma potência econômica decadente (os EUA) ainda desempenha o papel de hegemonia global, a despeito de sua credibilidade moral que desaba e a mudança em seu status para uma nação devedora.

Ainda não sabemos aonde tudo isso leva — e depende muito da China. Mas embora as coisas funcionem assim, precisaremos desenvolver um novo vocabulário e enquadramento para apreender a nova situação histórica.

Ainda assim, uma coisa já está clara: tem havido uma tremenda mudança no relacionamento entre exploração e expropriação no capitalismo financeiro. Isso ocorre em grande parte graças à realocação da indústria para longe de seu centro histórico e à universalização da expropriação pela dívida. Este último fator é óbvio no caso da desapropriação de terras e dos programas de ajuste estrutural, que impõem condicionalidades de empréstimo aos países do Sul global. Governos de todo lugar, da América Latina à África e à Grécia tiveram de cortar gastos sociais e abrir seus mercados ao capital estrangeiro, vampirizando seu povo para o benefício do capital. Nesses casos, a dívida é um veículo de expropriação na (ex) periferia e semiperiferia, mesmo que essas regiões também estejam se tornando locais primários de exploração.

Ao mesmo tempo, a expropriação está aumentando no “centro” histórico. À medida em que o trabalho precarizado e de baixos salários nos serviços ultrapassa o trabalho industrial sindicalizado, o capital paga seus trabalhadores menos do que o custo socialmente necessário para sua reprodução. No entanto, ainda precisa que esses trabalhadores cumpram o duplo dever como consumidores. Então, o que fazer? A solução é aumentar a dívida dos consumidores, que permite às pessoas comprar coisas baratas produzidas em outros lugares. Aqui, também, a expropriação alimenta aqueles que também são explorados em “McEmpregos”.

Ou seja, estamos diante de uma nova constelação, que mistura a velha divisão exploração/expropriação. A maior exploração costumava ocorrer no centro histórico, enquanto a maior parte das expropriações era feita na ex-periferia. Não é mais o caso. Agora os dois ex não formam um ou/ou, mas um ambos/e. Não mais alternativas mutuamente excludentes, eles encontram-se em grande proximidade; frequentemente as mesmas pessoas são submetidas a ambas.

Você perguntou sobre as implicações disso para a emancipação. Essa é, a meu ver, a questão chave para a esquerda em nossos tempos. O que se segue, politicamente, ao fato de que o capitalismo não mais atribui a exploração a um grupo social ou região e a expropriação a outro grupo ou região? Quanto era assim, os cidadãos-trabalhadores “livremente” explorados do centro podiam dissociar facilmente seus objetivos e lutas daqueles sujeitos subjugados, racialmente expropriados da periferia. E isso enfraquecia as forças da emancipação, pois permitiam o dividir-para-governar. Agora, contudo, quase todo mundo está sendo simultaneamente explorado e expropriado. Então, parece que a base material para aquelas divisões políticas intra-classe-trabalhadora está desaparecendo. Em teoria, isso poderia abrir perspectivas para alianças novas e ampliadas. Se aqueles que sofrem podem agora entender que exploração e expropriação são elementos — analiticamente distintos, mas praticamente enlaçados — de um único sistema capitalista, o qual é a própria causa raiz da maioria de seus sofrimentos, então podem concluir que compartilham um inimigo comum e deveriam unir forças. Mas esse resultado não é nem automático, nem assegurado. Por ora, ao menos, as mudanças associadas ao capitalismo financeiro estão gerando paranoia e ansiedade, que conduzem a formas exacerbadas de chauvinismo, inclusive nos populismos de direitaque discutimos no início.

Na verdade, fechamos agora um círculo completo nesta conversa. Mas devo ressaltar novamente agora o que disse antes. Ainda que solidariedades ampliadas não sejam geradas automaticamente, pelo simples fato de que ocorreu uma mudança estrutural, elas ainda podem ser criadas politicamente, através de intervenções políticas de esquerda. Estas, como disse antes, precisam rejeitar firmemente os jogos táticos-assustadores que o liberalismo desempenha com a palavra “populismo”. Sem medo dessa palavra, e determinados a conquistar aqueles que estão agora atraídos por suas variantes de direita, devemos montar nossa própria crítica de esquerda estrutural-sistêmica do neoliberalismo progressista e nossa própria visão transformadora de uma alternativa emancipatória. Rompendo definitivamente tanto com a economia neoliberal quanto com as várias políticas de reconhecimento que ultimamente lhe deram suporte, devemos abandonar não apenas o etnonacionalismo excludente, mas também o individualismo liberal-meritocrático. Somente unindo uma política de distribuição fortemente igualitária a uma política de reconhecimento substancialmente inclusiva, sensível à classe, podemos construir um bloco contra-hegemônico capaz de nos levar além da crise atual, em direção a um mundo melhor.

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/581999-uma-feminista-propoe-repensar-a-esquerda

Mulheres de Guiné Bissau exigem cumprimento das Lei das cotas

Lei da Cota Histórica foi aprovada a 2 de agosto na Assembleia Nacional Popular. Obrigada os partidos a incluir 36% de mulheres nas suas listas. Precisa ainda ser promulgada pelo presidente da República

A Lei da Cota Histórica aprovada a 2 de agosto na Assembleia Nacional Popular (ANP) pulverizou a Guiné-Bissau com a agitação provocada pelas reinvidicações de mulheres pelos seus direitos políticos. As guineenses exigem ter acesso aos órgãos de decisão de que foram afastadas depois da abertura da pátria de Amílcar Cabral ao sistema de democracia multipartidária.

Hoje em toda a Guiné-Bissau de Norte ao Sul e de Leste a Oeste, nos Ministérios, nas estruturas das comunidades rurais, nas estruturas étnicas, nos mercados, nos bares, nas discotecas dos bairros das grandes cidades do país não se fala de outra coisa que não seja a lei da Cota Histórica conquistada pelas mulheres guineenses na ANP sob a batuta da Plataforma Política das Mulheres da Guiné-Bissau, da Rede das Mulheres Parlamentares e dos ativistas dos direitos políticos das Mulheres da Guiné-Bissau.

“A lei da Quota Histórica vai, sem dúvida, acabar agora de uma vez por todas com a injustiça social contra as mulheres”, explicou a DN a presidente da Rede das Mulheres Parlamentares da Guiné-Bissau, a deputada Suzi Barbosa. No seu entender já era tempo de a mulher guineneense reinvidicar o seu direito de acesso aos órgãos de decisão. “Na Guiné-Bissau temos uma população maioritariamente feminina. O país tem 52% de mulheres e não se sabe muito bem a razão pela qual elas não têm acesso até agora aos lugares de decisão”, defendeu, manifestando de seguida ao DN a sua convicção: “Com a lei da Quota Histórica as mulheres guineenses nunca mais serão usadas pelos partidos políticos nas campanhas eleitorais como carne para obter votos. Agora temos que integrar as mulheres nas listas para as legislativas como candidatas legitimas para sermos também chamadas a elaborar e implementar a gestão das políticas públicas”.

A deputada Suzi Barbosa espelha a imagem real da convicção e predisposição das mulheres guineenses para desencadear agora uma luta desenfreada para conquistar de uma vez por todas os seus direitos políticos de acesso aos órgãos de decisão.
E a três meses das legislativas, ameaçam boicotar o próximo processo eleitoral se os partidos políticos não cumprirem a lei da Quota Histórica que exige a cada força partidária a integração nas suas listas de candidatos ao escrutínio de 18 de novembro 36% de mulheres.

Apoiadas pela Rede das Mulheres Parlamentares, pela Plataforma Política das Mulheres e pelos ativistas dos direitos políticos das mulheres, as mulheres guineenses assumiram elas próprias o papel de fiscalizar a lei da Quota Histórica no ato da entrega das listas no Supremo Tribunal de Justiça em Bissau.

“Seremos nós as mulheres membros dos partidos políticos, deputadas, ativistas dos direitos políticos das mulheres e membros de organizações da sociedade civil que vamos fiscalizar o cumprimento da lei nas listas dos candidatos as legislativas”, asseverou Suzi Barbosa, acrescentando que “ninguém neste país é melhor do que as mulheres na implementação das políticas públicas. Portanto, se os partidos não cumprirem a lei da Quota Histórica, reservamo-nos o direito de boicotar as próximas legislativas de 18 de novembro”.

A Lei da Cota Histórica é assim designada em virtude de o fundador da nacionalidade guineense, Amílcar Cabral, ter aplicado já durante a luta armada pela libertação nacional uma quota de paridade na constituição dos Comítés de Tabanca. Na altura, as mulheres partilhavam de forma equitativa a elaboração das politicas da luta e da gestão de dois terço das regiões libertadas na altura sob domínio colonial português. Dos cinco membros de Comités de Tabanca, dois eram mulheres. Assim sendo, as guineenses defendem também hoje, numa única voz, que se as heroínas como Titina Sila e Carmen Pereira, e outras ainda vivas como Adja Satu Camará e Francisca Pereira, tiveram coragem de exigir a Amílcar Cabral a Quota de Paridade durante a histórica luta armada da libertação nacional, elas vão também fiscalizar nas próximas legislativas todas listas de candidatos entregues no Supremo Tribunal de Justiça para exigir a democracia paritária.

As vendedoras dos mercados de Bandim e de Bairro militar, em Bissau, embora não tenham grande informação sobre a lei da Quota Histórica, sabem como as restantes de todo o país que ela já foi aprovada na ANP. Estão dispostas também a apoiar a luta das mulheres guineenses para ter acesso aos órgãos de decisão, no sentido de poder ativamente participar na elaboração e gestão das políticas públicas do país.

Motivadas pela aprovação da Lei da Quota Histórica na ANP, as organizações das mulheres guineenses garantem que a partir de agora nenhuma mulher votará nos partidos que não cumprirem com a inclusão de 36% de mulheres nas suas listas. No olhar da Rede das Mulheres Parlamentares, da Plataforma Política das Mulheres e dos ativistas dos direitos políticos das mulheres, “as guineenses não podem continuar a ser enfeites domésticos e deixarem os homens monopolizar os órgãos de decisão para legislar, tomar medidas e criar politicas públicas apenas para o consumo das mulheres”.

A presidente da Rede das Mulheres Parlamentas acredita que a “inclusão das guineenses na elaboração das Políticas Públicas as torna mais humanitárias”. Porque elas sabem melhor do que homens como cuidar da família. Por seu lado, o sociólogo guineense e ativista dos direitos políticos das mulheres da Guiné-Bissau, Miguel de Barros, sustentou como prova de que as mulheres serão boas gestoras das politicas públicas o facto de “na Guiné-Bissau quando há fome a mulher lembra-se de dar de comer aos filhos enquanto o homem prefere comer tudo sob a alegação de poder ir trabalhar no dia seguinte para adquirir mais sustento para a família”.

Miguel de Barros e Suzi Barbosa assumem unanimemente que a crise política e institucional que a Guiné-Bissau viveu há três anos e levou ao encerramento da ANP deveu-se ao facto de os homens monopolizarem os órgãos de decisão, legislando, tomando medidas e criando sozinhos todas as políticas públicas sem participação das mulheres.

Os dois promotores e defensores acérrimos da lei da democracia paritária na Guiné-Bissau disseram ao DN que não obstante “as mulheres na Guiné-Bissau representarem 52% da população do país, mas é o grupo mais vulnerável e excluído da esfera de decisão”. No entender deles, a vulnerabilidade é um dos fatores que levam as mulheres guineenses a apresentarem níveis mais baixos de educação do que os homens. Os casamentos e gravidez precoces são também apontados por eles como fatores que reduzem a possibilidades de as mulheres terem o acesso às oportunidades de educação e desenvolvimento profissional. “A maioria dos 30% da população guineense que não tem o acesso à educação são mulheres.

Quando se fala nos partidos políticos da inclusão de mulheres nas listas para as legislativas, os homens não recusam, mas afirmam sempre que tem de haver mulheres com capacidade”, asseverou ao DN Miguel de Barros. Já Suzi Barbosa contra-ataca: “Nós as mulheres, depois da declaração de Cantchungo em 2015, interrogamo-nos se realmente todos os homens deputados que estão na ANP têm capacidades?”. E logo assume: “Hoje há muitas mulheres na Guiné-Bissau com capacidade superior à de muitos homens deputados que andam de um lado para outro na ANP. O que existe agora no nosso país é a falta de vontade politica dos lideres dos partidos políticos em as nomear para os órgãos de decisão”.

Para a vice-presidente da Plataforma Política das Mulheres da Guiné-Bissau, Aissatu Indjai, foi na realidade a ausência de vontade politica dos homens em aceitar a democracia paritária no país que levou a organização das Mulheres que preside, os ativistas dos direitos políticos das Mulheres guineenses e com o apoio da ONU-Mulheres, a criarem há seis anos o projeto da lei da Quota Histórica para garantir os direitos políticos das mulheres guineenses a uma maior participação e inclusiva na esfera de tomada de decisão.

“As organizações promotoras e defensoras dos direitos das mulheres na Guiné-Bissau assumiram, a partir da declaração de Cantchungo, um compromisso firme no sentido de mobilizar as mulheres em todos os partidos políticos, nas ONG, na sociedade civil e nas estruturas das comunidades locais para lutarmos em bloco a favor do princípio da não-discriminação e do gozo igualitário do direito de participação nos órgãos de decisão permitindo, assim, eliminar todas as formas de descriminação contra as mulheres na Guiné-Bissau”, explicou Aissatu Indjai a DN, visivelmente orgulhosa pela união das mulheres em todo o território nacional em torno da lei da Quota Histórica. Esta, diz, não obstante várias dificuldades que têm pela frente, “vai trazer a democracia paritária na Guiné-Bissau”.

Não obstante os discursos eufóricos das organizações promotoras e defensoras da lei da Quota Histórica, para se chegar à democracia paritária nas próximas legislativas as mulheres guineenses têm ainda uma pedra no sapato. Porque se não houver a vontade política do Presidente, José Mário Vaz, em promulgar a tempo a lei da Quota Histórica para entrar em vigor 60 dias antes do próximo processo eleitoral, esta não será ainda aplicada nas próximas legislativas de 18 de novembro.

Mas, Aissatu Indjai afiançou ao DN “nós as mulheres já temos a promessa do presidente José Mário Vaz de promulgar, em menos de 24 horas, a lei da Quota Histórica para a devolver à ANP, e da Assembleia para o Ministério da Função Pública para a sua publicação no boletim oficial”.

Instada a pronunciar-se se os três meses que faltam para a realização do pleito eleitoral será suficiente para promulgação e publicação da lei no boletim oficial, a vice-presidente da Plataforma Política das Mulheres garantiu ao DN que a sua organização está diariamente a acompanhar a evolução da trajetória que a lei da Quota Paritária Histórica está a percorrer na Presidência da República e que está confiante que ela irá entrar em vigor antes das próximas eleições.

“Na verdade estamos diariamente a acompanhar de perto o percurso que a lei da Quota Histórica está a percorrer na Presidência da República. Estamos confiante que o Presidente da República José Mário Vaz promulgará o documento em menos de 24 horas”, garantiu ao DN. Aissatu Indjai manifestou ainda a sua convicção que, com a lei da Quota de paridade Histórica, as mulheres guineenses irão mostrar ao mundo e, em particular, aos países da subregião, como é que as mulheres se podem unir por uma causa, mesmo pertencendo aos vários partidos políticos com distintas ideologias.

Mulheres nas estruturas do poder tradicionais

No período pré-colonial, antes da luta armada da libertação nacional e ao longo da toda a sua caminhada histórica, a mulher guineense tem demonstrado uma forte capacidade de liderança na esfera de decisão e na gestão das políticas públicas nas estruturas das suas comunidades locais. “Só perdeu estes predicados da liderança com a instauração do regime colonial português que a retirou do poder que detinha de regular, por exemplo, as atividades comerciais ou de desempenhar dentro das estruturas das Mansas (Regulados) o papel de conselheiras dos reis que governavam um determinado reino de um império”, assegurou ao DN Miguel Barros, sociólogo e ativistas guineense dos direitos políticos das mulheres.

Miguel de Barros garantiu ainda existirem documentos históricos que provam que no “império de Gabú, por exemplo, as mulheres eram conselheiras de Rei, as mediadoras entre as diferentes classes do império e serviam também de elementos de ligação quando houvesse uma rutura na administração das politicas públicas dos impérios”. E também, de acordo com Miguel de Barros, na cidade de Cacheu, na primeira fase da escravatura, “as mulheres Nharas desempenhavam um papel importante no comércio dos escravos. Os mercadores europeus não tinham o direito do acesso a terra e eram as mulheres Nharas que regulavam as atividades do comércio de escravo com os mercadores estrangeiros, em particular, com os europeus”. Miguel de Barros testemunhou ainda a DN “as mulheres assumiam um papel importante na comunidade. Para além de confecionarem e venderem os produtos caseiros que geravam grandes rendimentos para as suas famílias, eram elas que se encarregavam de administrar e controlar in loco as atividades comerciais dos produtos e geriam também diretamente os trabalhadores das propriedades agrícolas”.

Para além das Nharas, o ativista explicou ao DN que “as mulheres Baloberas gozavam também de um grande respeito e prestigio nas estruturas das comunidades da linhagem de sucessões matrilinear porque era reconhecido nelas o dom de comunicar com os ancestrais como interpretante, vidente e auxiliares religiosas”. Assim sendo, de acordo com Miguel de Barros, “as cerimónias religiosas eram orientadas pelas estas sacerdotisas Baloberas”, mesmo que “o Régulo quisesse tomar medida sobre as políticas públicas do reino tinha que consultar, em última instância, as Baloberas porquanto eram as grandes conhecedoras de plantas medicinais”.

Regime colonial português e poder dos homens na Guiné-Bissau

Entre os ativistas e as organizações das mulheres defensora da lei da Quota Histórica a leitura é unânime que foi a instauração do regime colonial português na Guiné-Bissau que destruiu toda a arquitetura do poder paritária tradicional,​​​​​​ outrora, em algumas estruturas de comunidades, organizado em pirâmide com o Rei no topo e seguido pelos chefes religiosos onde as mulheres detinham um enorme poder.

“O poder colonial português retirou, por exemplo, às mulheres Nharas de Cacheu o poder de regular as atividades de comércios com os mercadores europeus, relegando-as apenas para as atividades domésticas”, assegurou ao DN Miguel de Barros. Este ainda sustentou que “as mulheres passaram, assim, na sociedade guineense a sofrer várias exclusões simultaneamente. São excluídas por serem mulheres, por não serem mulheres grandes, por não ser da origem da família que pode influenciar o acesso aos recursos do próprio Estado e são excluídas economicamente”.

O sociólogo e ativista garantiu a DN que a participação equilibrada entre homens e mulheres nas estruturas de decisão esteve também presente na fase da mobilização e da organização do movimento da luta armada da libertação nacional, “mas o caráter violento da dominação colonial português contribuiu na desestruturação da lógica das instâncias de gestão do poder e da administração das ações públicas pelas mulheres e contribuiu ainda para a reprodução da lógica do poder de força dos homens após a independência da Guiné-Bissau que acabou por afastar as mulheres da esfera pública da decisão”.

Este caráter violento do regime colonial português é ainda hoje, pós-independência e com abertura democrática, apontado pelas organizações e pelos ativistas dos direitos políticos das mulheres guineenses como uma das razões da posição das mulheres nas instituições políticas e nos postos de decisões estarem aquém da conquista da paridade histórica da luta armada da libertação nacional. É, ainda na opinião das organizações das mulheres guineenses, o factor que está a acentuar progressivamente a desigualdade entre homens e mulheres, em particular, a nível da representatividade nos órgãos de soberanias, nas outras estruturas governamentais e no sector privado.

Na Guiné-Bissau, quando se analisa o período da vigência do regime do partido único e o da democracia multipartidária em termos da representação das mulheres nos principais órgãos de decisão há uma grande discrepância. No poder legislativo, por exemplo, existe uma grande disparidade entre homens e mulheres. O que não aconteceu na legislatura antes da abertura ao sistema de democracia multipartidária em que a representação feminina na ANP atingiu os 20% de deputadas, caindo logo no ano seguinte para 9% e jamais, volvidos 20 anos, atingiu essa percentagem.

As organizações das mulheres guineenses garantem que por influência do conflito político-militar de 1998-1999 a sétima legislatura (1999 – 2004) teve a menor representação de mulheres na ANP. O que na leitura das guineenses conduziu a “um maior reforço do papel da cultura de “Matchundadi” na Guiné-Bissau, enfraqueceu ainda mais a presença das mulheres nas listas eleitorais dos partidos e as suas capacidades de ação na política”. Assim, nas primeiras eleições legislativas de 1994, os oito partidos políticos concorrentes apresentaram nas suas listas a deputados 902 candidatos dos quais 92 eram mulheres e apenas 33 estavam em lugares elegíveis.

A democratização do sistema político favoreceu, na Guiné-Bissau, a criação, em 1991, de um Ministério dos Assuntos Sociais e Promoção Feminina cujo mandato visava coordenar e implementar as políticas de valorização do papel das mulheres no processo do desenvolvimento nacional. Tinha também como meta, garantir a participação plena das mulheres guineenses no processo de decisão. Mas, como garantem as organizações das mulheres da sociedade civil guineenses, “não conseguiu atingir essa meta pela falta de capacidade financeira em virtude da crise económica provocada na altura pelo conflito político-militar”.

Defendem ainda que “o fracasso das ações do Ministério dos Assuntos Sociais e Promoção Feminina reflete-se na ausência de uma estratégia nacional e uma ação pragmática visada para uma maior equidade na transição política, acabando por estender e transferir o seu mandato para as organizações de massas das mulheres dos partidos políticos”. Por outro lado, na leitura das mulheres guineenses “não constitui nenhuma surpresa que o grosso das pastas que as mulheres guineenses são chamadas a liderar sejam as ligadas a assuntos sociais” (Educação, Saúde, Solidariedade e Família). O que revela, ainda na leitura dos ativistas, “a reprodução de uma visão estereotipada da extensão das ocupações domésticas das mulheres para a esfera de tomada de decisões públicas”.

Na Guiné-Bissau, passados quase vinte anos da realização das primeiras legislativas, o número de mulheres que participaram no governo não chegou a 15%. Em 14 executivos que o país conheceu teve apenas 42 mulheres contra 323 homens num universo de 363 Ministros, ou seja 13% do total. A permanente instabilidade política que o país vive é aqui apontada pelas organizações das mulheres guineenses como “um dos fatores que desfavoreceu a presença de número das mulheres guineenses naquilo que deveria ser uma legislatura paritária. Por exemplo, em 18 anos de democracia o país conheceu 14 primeiros-ministros. O que, na opinião das organizações das mulheres guineenses defensoras da lei da Quota Histórica “torna difícil a consolidação da democracia paritária na pátria de Amílcar Cabral”.

Todavia agora as mulheres da Guiné-Bissau estão motivadas e convencidas que com a lei da Quota Histórica, acabarão de uma vez por todas com os constrangimentos da participação política das mulheres guineenses na esfera da decisão e que a lei paritária permitirá criar programas de fiscalização das listas dos candidatos dos partidos políticos às legislativas de 18 de novembro.

 

Fonte:https://www.dn.pt/mundo/interior/mulheres-guineenses-ameacam-boicotar-legislativas-de-novembro-9757438.html

Mulheres sul africanas protestam contra a violência feminina

Milhares de mulheres protestaram hoje contra a violência de género em marchas e protestos em várias cidades da África do Sul, país onde uma em cada cinco mulheres tem sido afetada por este crime, segundo dados oficiais.
Milhares de mulheres manifestam-se contra a violência de género na África do Sul

Sob o tema “Total Shutdown” (“Paragem total”), as mulheres sul-africanas foram hoje chamadas a interromperem as suas atividades e a juntarem-se para aumentar a conscientização sobre os altos índices de violência contra a mulher, contra a criança e contra a comunidade LGBTI [lésbicas, gays, transexuais, bissexuais e intersexuais].

Nas grandes cidades, como a Cidade do Cabo, Durban ou Pretória, as marchas foram muito concorridas.

Os participantes, vestidos de preto e vermelho, empunhavam cartazes com frases como “Meu corpo, não a sua cena do crime”, “Não, não” ou “Os direitos das mulheres são direitos humanos”.

Por trás do movimento estão várias associações civis locais, que também pediram protestos contra as mulheres nos países vizinhos.

A iniciativa foi apoiada por sindicatos e organizações não-governamentais internacionais, como a Oxfam e a Amnistia Internacional.

De acordo com os meios de comunicação sul-africanos, uma mulher morre a cada oito horas na África do Sul por causa da violência de género e, de acordo com estatísticas do Governo, uma em cada cinco diz já ter sofrido este tipo de violência durante a sua vida – de acordo com um estudo publicado em 2017 e com dados de 2016).

Além disso, e segundo dados da polícia, na África do Sul são registadas anualmente cerca de 40.000 violações, a grande maioria denunciadas por mulheres.

Estes números levam a agência governamental Statistics South Africa a estimar que 1,4 em cada mil mulheres foram violadas, colocando o país com uma das maiores taxas deste tipo de crime no mundo.

Blésnya Minher, top model angolana na capa da Vogue Brasil


A top model angolana Blésnya Minher, é a figura de destaque da edição de Julho na Vogue Brasil, após ter embarcado para Salvador onde foi a protagonista de uma narrativa visual inspirada na obra de Jorge Amado.

No mês de julho, em plena as variações das tendências de moda, as páginas da Vogue costumam ser contagiadas por um clima de escapismo e sonho. A revista que o público terá em mãos em Julho, sintetiza esta proposta de maneira original, e trás a angolana deslumbrante pelas lentes do fotografo Zee Nunes.

Agradecida pelo privilegio alcançado, a modelo deixou na sua página a seguinte mensagem:
“Estou muito orgulhosa e feliz em anunciar as minhas novas capas da Vogue Brasil, as minhas primeiras capas da Vogue, estou muito feliz por ter feito isso com uma equipe tão acolhedora e amorosa que, além de trabalhar, me divertiu muito e me apresentou os melhores sabores do Brasil, obrigada de coração a toda a equipe da Vogue, sem falar que conhecer Bahía foi uma experiência inesquecível”

Josefina Massango: uma atriz de teatro moçambicano

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Josefina Massango é das actrizes mais experientes no país. Recentemente, participou na gravação do filme Ruth, estreado em Maputo semana passada. Nesta entrevista, a actriz fala da sua participação nesta produção cinematográfica preparada, igualmente, para ser série de tv. Além disso, Massango deixa um comentário sobre a qualidade dos actuais actores moçambicanos.

Desempenha o papel de mãe de Eusébio, no filme Ruth. Como foi encarnar essa personagem?

Estaria a mentir se dissesse que foi um trabalho como qualquer um. Aqui havia uma responsabilidade acrescida porque não estamos a falar de uma figura qualquer. Ainda assim, dediquei ao personagem toda entrega que dedico às outras.

Com o mesmo rigor?

Tem que ser. Essa é a palavra-chave para o artista. O rigor é mestre de tudo. Se não formos rigorosos com aquilo que fazemos, se calhar, passamos à personagem o que constitui o nosso dia-a-dia. É preciso sonhar com o personagem, namorar e dialogar com o personagem e viver com ela aqueles dias em que antecedem o trabalho. É preciso sonhar e amar com o personagem.

E como é que se aprende a sonhar com o personagem?

É muito simples. Desde o primeiro momento que nos atribuem o personagem, logo devemos começar a fazer uma viagem com ela, na base do texto que nos permite perceber o papel ao longo da história.

E esta é uma viagem quase sempre solitária…

Muitas vezes é. E é esta disciplina que os actores são convidados a ter.

No caso do papel interpretado no Ruth, teve que recuar no tempo?

Para este personagem não. Mesmo porque esse exercício depende de cada realizador. Uma das coisas que me pediram para este personagem é a questão do peso, não no sentido massa corporal, mas no das coisas que se dizem, na maneira como a mãe do Eusébio aparece e na estrutura daquela mulher. E, também por isso, a responsabilidade foi maior, porque, no fundo, tinha que retratar o desconhecido sobre uma figura que é muito conhecida.

O que lhe foi pedido interferiu na maneira como preparou a personagem?

Sem dúvidas. É necessário e é bom que isso aconteça. Até porque, quando estamos diante de um desafio destes, próximos às filmagens, as pessoas que nos conhecessem vão notando alguma diferença em nós porque estamos a exercitar o papel. E nós até gostamos desse feedback de as pessoas estarem a notar uma diferença entre o eu, no meu dia-dia, e quando estou a fazer o exercício para o personagem.

Precisou de voltar a percorrer as ruas da Mafalala, quer do ponto de vista real ou virtual, de modo a familiarizar-se com o papel?

Cresci brincando na Mafalala. Conheço aqueles becos todos. Os meus melhores amigos ainda hoje residem na Mafalala – refiro-me, por exemplo, a mamã Marieta, que, sempre que posso, vou lá ter para comer uns rissóis que ela bem faz. Cresci naquele mundo, mas, com este filme, tive, sim, de ir várias vezes, até para, em conversas, saber como era a forma de estar lá, mesmo porque vivi 17 anos em Portugal e há coisas que ali mudaram. Mas a memória do espaço, daquela vivência, os sons e o resto ainda existe em mim.

O papel de mãe de Eusébio foi atribuído a Josefina depois de um casting. Este tipo de vitórias ainda dá-lhe gozo?

Sim. Qualquer actor ainda tem esse momento de satisfação, quando isso acontece. Os castings são aquelas coisas muito chatas. Confesso, são muito chatas, mas também necessárias, porque os realizadores querem testar alguma coisa. Aliás, casos há em que os castings têm a ver com a questão da imagem e com a necessidade de se perceber que aquela figura vai bater com certo actor. E hoje em dia acontece eu estar nos castings com colegas de longa data e, inclusive, novos formados por mim. Dependendo do que o realizador quer, ele faz a sua escolha. E quando se é escolhido, naturalmente, há momentos de grande satisfação e de grande responsabilidade.

Ao ver o filme na estreia, já com público alargado, o que lhe ocorreu?

Muitas vezes, eu não gosto de me ver, é estranho. Para mim, depois do filme, tem que se passar para outra coisa. Se me perguntar qual era a personagem, até pode acontecer não conseguir responder daqui a dois meses, porque já estou noutro papel.

Desliga-se facilmente das personagens?

Neste caso do Ruth é difícil porque o filme ainda está a correr. Neste momento ainda estou a viver a mãe do Eusébio. Mas, geralmente, sim. Desligo-me.

É professora de teatro. Sente-se pressionada, quando está a preparar um papel, pela ideia de que os seus alunos actores vão exigir mais de si?

Não. De forma nenhuma. Se um dia isso acontecer, nós estamos acabados como actores. As camadas mais jovens têm tanto para nos ensinar que nós só devemos estar abertos para receber… Aliás, há actores que têm privilégio de partilhar o palco com quem estão a formar. É uma experiência única. Com isso recuperamos momentos que julgávamos perdidos. Pessoalmente, tenho prazer de fazer isso.

Como está o país em termos de qualidade de actores neste contexto em que temos um curso de teatro e muitos grupos a surgirem?

É impensável para alguém que se encontra a trabalhar na área de formação em teatro não ter uma postura optimista em relação a esta questão. Sinto que há coisas que se conquistaram, que se deve conquistar e devem ser recuperadas. Há um conjunto de coisas que estão a acontecer e são positivas. Mas há coisas sobre as quais devemos reflectir. Eu sou de uma geração em que o teatro, no país, era algo quase obrigatório, porque haviam apresentações que mexiam com as pessoas, como ainda hoje mexem. Na altura, não ir ao teatro e não saber o que se passou num certo final de semana, significava ficar sem assunto.

Era como perder o capítulo de uma telenovela, hoje?

Mais ou menos isso. Aliás, essas duas coisas caminhavam juntas. Lembro-me que, na altura, depois das 20h, dificilmente mantinha-se os expectadores no teatro porque havia hora da telenovela. Sinto que estamos a dar passos positivos e o público está mais exigente agora. Ainda por cima, porque há gente formada no teatro. Faltam meios, é verdade, mas isso também é um motor para estimularmos a criatividade.

O que gostava de ter no nosso teatro?

Melhores condições. Por exemplo, uma sala municipal, um equipamento de iluminação para os espectáculos à disposição. Muitas vezes não há. Gostava de ter uma série de coisas que fazem com que o espectáculo, de facto, aconteça. No meu caso, eu faço muita investigação dentro desta área e quero continuar a estar em palco e no cinema. Há muitos sonhos e eu vivo nesse desejo de que o sonho não deve acabar, porque isso é o motor do que pretendemos fazer. Eu sonho com o sonho.

 

A vossa geração não foi um produto de escola, entendo, no sentido de lá terem recebido ferramentas teóricas sobre teatro. Hoje, o que a escola está a acrescentar à qualidade dos novos actores?

Estaria a mentir se dissesse que não há uma escola por detrás do teatro que se fazia no meu tempo. Havia uma escola, a escola primária. Nós viemos de lá. Aquele espaço é que nos levou a tomar o gosto e a desenvolver outras áreas. E nós temos que recuperar isso. Hoje, nós estamos a lidar com estudantes que vão parar ao ensino superior em teatro sem as bases que nós, em tempos, adquirimos na escola primária. Então, aí, é preciso dar tempo ao tempo. Eu tive escola, e a minha escola foi a 24 de Julho, onde fizemos muitas actividades culturais e eu tomei gosto nisso. Seja como for, os novos actores, nossos estudantes, trazem consigo o gosto, o prazer, esse querer…

E o compromisso?

De certa forma… Porque essa escolha de fazer teatro é feita pelo indivíduo, e nem é uma escolha, arrisco-me dizer, que um pai faça pelo seu filho. Se, hoje, vimos artistas, é porque essa escolha partiu deles e eles têm um compromisso com essa escolha. Isso é o que diferencia a arte e o ser artista de muitas outras áreas.

Palco ou cinema, o que prefere?

Gosto de tudo isso, embora o palco seja o local onde tenho mais liberdade. No cinema estamos um pouco limitados, mas o actor tem que lidar com isso. Embora goste de estar nos dois espaços, o teatro é aquele que me dá mais liberdade, ainda que o processo de preparação dos papéis seja mais complexos no teatro.

É vantajoso para o actor partir do teatro para o cinema e não o contrário?

Eu ando à procura dessa resposta.

O que espera que venha a ser o Ruth?

Que contribua para que, em outras áreas, surja o atrevimento de se imortalizar certas figuras, artisticamente.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro que vejam FITI, Comboio de sal e açúcar e o livro Os pilares da terra.

fonte: http://opais.sapo.mz/josefina-massango-ou-uma-entrevista-a-mae-de-eusebio