O triste drama de uma mulher nigeriana

 

O drama da mulher nigeriana ao pedir em casamento seu amigo. O vídeo mais visto no continente africano, no dia de hoje , mostra o drama de uma mulher que está em um shopping e pergunta sobre um homem,  se alguém o viu. Ela faz gesto mostrando que ele é alto.

Ela está com vestido preto, com sapatos de salto alto dourados e ainda carrega uma bolsa. Uma elegância discreta, que mostra cuidado, não está só, acompanhada de uma amiga que parece ser mais jovem, com uma roupa mais simples, esportiva e usa sandálias.  ela está ali como uma testemunha e uma entusiasta, um apoio ao que vai ocorrer naquele lugar. Uma amiga confidente.

Passados alguns segundos esse homem de camisa preta e chapéu desce uma escada rolante. e num gesto teatral a mulher se ajoelha e tira uma caixa onde tem um anel e oferece ao homem. Este está acompanhado e fica atônito, sem saber o que fazer.

Demora uma eternidade para se aproximar da mulher, conversa com seu amigo, mostra indecisão, não sabe se fica no lugar ou vai embora. São segundos que no vídeo parecem horas.

Em frente, está a mulher, que fica imóvel, pensando será que ele vai aceitar o meu pedido de casamento? . Ao seu lado está de pé sua amiga que procura ajudá-la, acreditando em um desfecho positivo, faz gestos e pede para que o homem se aproxime.

A hesitação do pretendente, as expressões de dúvidas de quem parece não acreditar o que está acontecendo, aumenta o drama da situação, com as pessoas em sua volta, o  cobram por uma atitude , uma reação. Entre risos e olhares de surpresa.

O homem caminha, com passos lentos, sem a firmezav de quem vai tomar uma decisão. Sua aproximação vem acompanhado de um peso, que ele deve carregar. Se ela foi levada a essa decisão, não foi atoa -devo ter feito algum gesto, que a levou  a ter tanta confiança de que poderia aceitar o seu inusitado pedido de casamento. Pena nos encontros passados, nas  falas, conversas, do que disse, nos olhares, nos apertos de mãos, nos abraços e beijos de despedida.

Ele se aproxima e pede que se levante, abraça  mulher , que permaneceu ajoelhada durante muito tempo, pois esse momento é o mais importante de sua vida. Um gesto de coragem de dizer que ama e quer passar o resto de sua vida com ele. Ele a abraça e se a levanta do chão e sussurra algumas palavras. Ele se afasta. A mulher entra em desespero. Dhora, grita, sai correndo pelo saguão do shopping.

Todos a sua volta se perguntam o que aconteceu, o que será que ele disse de tão terrível, que levou a mulher ao soltar um grito, com lágrimas, e muito choro.

-Sou casado. Foram essas duas palavras.

Não há conversas longas, ele é direto, não pede desculpas. Só diz que é casado. Casado? Sim casado e, ela como fica agora? Precisará ser amparada, pois está marcada pelo símbolo da rejeição pública. Alguns irão se questionar se ela devia ter se preparado para receber uma negativa. uma mulher apaixonada, cega por qualquer obstáculo, disposta a tudo. Não pensaria jamais em uma negativa. Há sinais, códigos, movimentos do corpo que selam a cumplicidade entre um casal.

O mundo inteiro que acessou o vídeo, fica solidário a ela. E se perguntam como esse canalha deixou isso acontecer?  Será que ele deu motivos? São íntimos? Filho de uma puta, sacana, aproveitador de mulheres, vagabundo. Não faltaria adjetivos para expressar o sentimento de revolta por te levado essa mulher a humilhação e o desespero. Uma mulher apaixonada

A solidariedade nesse momento é para com a mulher, que se expôs,  num gesto magnânimo de amor , despojado de vergonhas, com muita coragem, beleza, ela estava com sua melhor roupa, toda maquiada Fez uma grande preparação, pois repito era o maior e mais importante momento de sua vida. Este gesto exigiu coragem, conversa com as amigas e provavelmente consultas com familiares.

Sim, ele deve ser um canalha, um mulherengo que se aproveitou da situação de fragilidade da mulher. E por que nunca disse que era casado?

Ele responde que eram só amigos, sem ser íntimos.

Na internet as opiniões se dividem, mas há sem dúvida uma solidariedade a essa mulher que foi levada ao desespero.

 

 

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A maioria dos africanos não emigra para onde você (possivelmente) pensa

Sai o primeiro atlas que analisa os complexos fluxos populacionais da África Subsaariana, com especial atenção ao âmbito rural

Amostras de mapas do atlas ‘África em Movimento’.
Amostras de mapas do atlas ‘África em Movimento’. FAO / CIRAD

Dizer que a África se movimenta seria pouco. O continente na verdade está em ebulição: 36 milhões de africanos migraram em 2017, ou seja, 14% dos 258 milhões de deslocamentos registrados no ano passado em todo mundo, segundo o relatório de migrações de 2017 das Nações Unidas. Mas não migram como costumamos acreditar. Geralmente se imagina que os fluxos entre a África e a Europa e a América do Norte são os únicos, ou os de maior volume, mas 75% dos indivíduos que mudaram de ares na África Subsaariana permaneceram dentro do continente, segundo o estudo África em Movimento: Dinâmica e Motores da Migração ao Sul do Saara, publicado em novembro pela FAO (agência da ONU para alimentação e agricultura) e o Centro de Pesquisas Agrícolas para o Desenvolvimento (CIRAD). Trata-se do primeiro atlas a analisar a inter-relação dos fatores que levam os habitantes do continente africano a abandonar seus lares.

Através de vários mapas e do estudo aprofundado de quatro exemplos (Senegal, Madagascar, África do Sul e Zâmbia), a publicação visa a facilitar a compreensão das dinâmicas e tendências dos fluxos migratórios. Os migrantes deram forma ao mundo no qual vivemos hoje, impulsionaram o progresso, e os movimentos humanos não irão parar. Por isso, é preferível promover ações que aumentem seu potencial e diminuam os possíveis efeitos nocivos. Esse atlas tenta encontrar padrões que sirvam para desenvolver políticas mais eficientes. “Os migrantes podem ser agentes de desenvolvimento, então é de suma importância aproveitar isso”, afirma o estudo. A seguir, algumas das suas principais conclusões:

Mais população rural, e o emprego como grande desafio

Gráficos que descrevem a densidade da população rural em 2015 e a estimada para 2050. Abaixo, o número de pessoas que entraram para a população economicamente ativa desde 1950 e o estimado até 2050, as mudanças demográficas previstas para os países e regiões analisados e uma comparação da evolução da população rural em vários países.ampliar foto
Gráficos que descrevem a densidade da população rural em 2015 e a estimada para 2050. Abaixo, o número de pessoas que entraram para a população economicamente ativa desde 1950 e o estimado até 2050, as mudanças demográficas previstas para os países e regiões analisados e uma comparação da evolução da população rural em vários países. FAO/CIRAD

A população na África Subsaariana continua crescendo numa escala sem precedentes. Até 2050, aumentará em 208 milhões de pessoas, chegando a 2,2 bilhões. Essa expansão representa uma mudança maior que a experimentada pela China e a Índia no passado. A região continuará sendo principalmente rural, já que o crescimento das cidades é relativamente recente: em 2015, 62% dos africanos (602 milhões) ainda viviam no campo. Até 2050, a cifra chegará a 980 milhões, ou um terço dos camponeses do mundo. Como consequência, a mão de obra aumentará em 813 milhões até o ano 2050. Quase 35% serão de origem rural, com 220 milhões de trabalhadores.

Também aumenta a faixa etária economicamente ativa (de 15 a 64 anos), algo que representa uma grande vantagem para o crescimento econômico. Mas, sem um ambiente econômico e institucional favorável, esse possível benefício poderia se tornar um ônus demográfico (muitos desempregados), gerando tensões sociais e políticas. O maior desafio para a África Subsaariana é criar empregos suficientes para absorver sua força de trabalho em expansão. A evolução do setor agrário dependerá da pressão sobre os recursos e sua gestão.

Migra-se mais dentro da África

Gráfico que mostra o volume de migrações rurais e urbanas por destino e as migrações dentro e fora da África.ampliar foto
Gráfico que mostra o volume de migrações rurais e urbanas por destino e as migrações dentro e fora da África. FAO/CIRAD

Em 2015, cerca de 33 milhões de africanos viviam fora de seus países de origem, embora os que se deslocam dentro do próprio continente respondam por quase 75% desse total. A porosidade das fronteiras e as regras regionais destinadas a facilitar a livre circulação de pessoas favorecem esse movimento. Os padrões de migração rural e urbana apresentam características muito diferentes. Os migrantes rurais costumam se mudar para cidades quando permanecem no seu próprio país. Já os migrantes urbanos em geral partem para outros continentes e zonas urbanas. A migração entre zonas rurais surge quando é possível o acesso à terra e quando se desenvolvem novas atividades, como na mineração artesanal. Entretanto, na maioria das vezes decorre da falta de empregos nas cidades e da maior oferta em zonas de produção de cultivos comerciais como algodão, amendoim, cacau, café e arroz.

Tais dinâmicas demonstram que os vínculos entre o rural e o urbano são cada vez menos estáticos. A migração favorece a diversificação dos meios de subsistência das famílias e o acesso a oportunidades de emprego. Fortalece o papel das cidades pequenas e médias, bem como as dinâmicas locais e regionais. Essa nova realidade territorial, moldada pela migração, deveria facilitar uma melhor coincidência das ações políticas com as necessidades locais.

Perfil dos migrantes africanos

Infográfico que mostra os motivos principais para migrar no caso dos migrantes rurais de alguns países selecionados, as características dos migrantes internacionais por país em 2015 e as dos migrantes rurais e de seus lares.ampliar foto
Infográfico que mostra os motivos principais para migrar no caso dos migrantes rurais de alguns países selecionados, as características dos migrantes internacionais por país em 2015 e as dos migrantes rurais e de seus lares. FAO/CIRAD

Em 2015, a África apresentou a maior proporção de jovens migrantes internacionais (de 15 a 24 anos) com 34% do total. A média de idade foi de 29 anos. Observando mais de perto um grupo de países (Senegal, Burkina Faso, Uganda e Quênia), encontram-se semelhanças: os jovens se movem dentro de seu país e são o grosso dos migrantes rurais. Por volta de 60% tem entre 15 e 34 anos e as mulheres são geralmente mais jovens, mas eles são maioria: entre 60% e 80%. A região também se caracteriza por ter famílias muito numerosas (frequentemente sete ou mais membros) que geralmente são mais propensas a ter migrantes. Isso se reflete nas dificuldades dos jovens para ter acesso e herdar terras agrícolas, o que é um incentivo para ir embora.

Os camponeses têm desenvolvimento escolar mais baixo do que os seus homólogos urbanos, e os que decidem deixar o campo não são uma exceção. Os migrantes tendem, entretanto, a passar mais anos na escola, e a maioria dos rurais vêm de lares que têm membros melhor educados. Ao se observar o emprego, a maioria dos que tem educação formal limitada ou nula terminam em trabalhos por conta própria, enquanto aqueles que obtiveram o nível de educação básica têm mais probabilidades de conseguir um emprego assalariado.

Importância das remessas

Infográfico sobre o envio e recepção de remessas: principais países que as recebem, quantidade em bilhões de dólares recebidos em vários países africanos, e envios em espécie.
Infográfico sobre o envio e recepção de remessas: principais países que as recebem, quantidade em bilhões de dólares recebidos em vários países africanos, e envios em espécie. FAO/CIRAD

O motor de desenvolvimento mais tangível da migração é o dinheiro que os migrantes enviam à casa. A África Subsaariana recebeu aproximadamente 32 bilhões de dólares (103 bilhões de reais) dos 580 bilhões (1,86 trilhão de reais) enviados ao redor do mundo. Os números reais, entretanto, devem ser superiores porque muitos enviam informalmente e porque outros o fazem em forma de bens, em espécie, e isso não se reflete nas estatísticas.

O envio de remessas transforma a vida das famílias no país, aliviando a pobreza e melhorando o consumo dos lares, mas pode gerar problemas se chega a perturbar as instituições e sistemas tradicionais ou provoca a dependência da família que recebe da pessoa que envia. Ainda assim ajuda a melhorar os meios de vida para muitos. De acordo com os autores, a África deveria priorizar a redução dos custos de envio e promover a concorrência, a eficiência e a transparência. “Os Estados africanos também deveriam reformar seu sistema bancário e financeiro para facilitar a capacidade dos migrantes de enviar dinheiro através de instituições financeiras”, recomendam.

A importância da mudança climática

Infográfico em inglês sobre o impacto da mudança climática na África. Mostra as inter-relações entre as zonas de aridez e os níveis de degradação do solo, densidade populacional, níveis de vulnerabilidade, população trabalhadora dedicada à agricultura e níveis de pobreza.ampliar foto
Infográfico em inglês sobre o impacto da mudança climática na África. Mostra as inter-relações entre as zonas de aridez e os níveis de degradação do solo, densidade populacional, níveis de vulnerabilidade, população trabalhadora dedicada à agricultura e níveis de pobreza. FAO/CIRAD

mudança climática é um fenômeno global cada vez mais prejudicial aos humanos. As temperaturas e as mudanças nas chuvas podem ter graves repercussões nos meios de subsistência. A estimativa das perdas nas colheitas de grãos chega a 20% e a região subsaariana será uma das mais atingidas, com cenários que projetam um aumento de 20% da desnutrição em 2050 se medidas não forem tomadas.

Em países de alto risco e com mecanismos de mitigação, as pessoas podem sobreviver melhor a esse fenômeno. A capacidade dos Governos para responder às necessidades básicas após os desastres naturais pode, por exemplo, permitir às pessoas reconstruírem seus meios de vida sem a necessidade de migrar. Na maioria dos países da África Subsaariana, problemas como a instabilidade política, governança ruim, falta de capacidades e os recursos financeiros limitados impedem o uso efetivo e a boa implementação de mecanismos de prevenção e adaptação. Para consegui-los devem ser criadas estratégias de desenvolvimento fundamentadas em um olhar a longo prazo dos possíveis cenários para se conseguir um modelo adequado e eficiente das políticas públicas.

 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/11/internacional/1515674435_555866.html

Ser inventor é só para crianças ricas

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Vários estudos documentam o imenso talento que se perde devido à desigualdade social e de gênero

Meninos de famílias abastadas têm acesso muito mais fácil à inovação.
Meninos de famílias abastadas têm acesso muito mais fácil à inovação. US ETV

Se você pensa que existem carreiras elitistas, como a diplomacia e a magistratura, talvez deva considerar os inovadores. Estudos recentes revelam uma realidade bem diferente do estereótipo do gênio inventor que vive sem um tostão, encerrado numa garagem com seu talento e o suor de sua testa. A profissão de inventor é muito pouco igualitária, com injustos filtros que impedem o acesso de mulheresminorias e, essencialmente, pessoas com famílias de poucos recursos. O principal talento necessário para ser um inovador de sucesso é ter pais com dinheiro.

“Transformar-se em inventor depende de duas coisas nos EUA: se destacar em matemática e ciências e ter uma família rica”, concluem os autores

Um menino criado numa das famílias que compõem o 1% mais rico da população tem 10 vezes mais chances de se transformar em inventor do que outro educado por pais com renda abaixo da média, sem importar as notas que tenham, segundo o estudo “Quem se torna um inventor nos EUA”, publicado recentemente. As crianças que mais se destacam na aula de matemática, por exemplo, têm muito mais probabilidade de se tornarem inventores – mas somente se vierem de famílias de alta renda. É pouco provável que as crianças com bom desempenho em matemática e de famílias de baixa renda ou minorias consigam seguir essa carreira.

“Transformar-se em inventor depende de duas coisas nos Estados Unidos: se destacar em matemática e ciências e ter uma família rica”, concluem os autores do trabalho. Assim, uma criança de família pobre que se sobressai em matemática tem as mesmas chances de triunfar como inovador que as de uma criança rica com notas medíocres nessa matéria.

“[A desigualdade] pode se dever a fatores intangíveis, como a falta de acesso à rede de amigos e contatos familiares”, explica Palomeras

O estudo analisa, com uma quantidade excepcional de dados, o perfil sociodemográfico de 1,2 milhão de inventores nos EUA, considerando a renda familiar, as notas escolares e as patentes registradas. Tudo começa muito antes da universidade. “Os estudantes de famílias de baixa e alta rendas nas universidades com maiores quantidades de inventores (por exemplo, o MIT) continuam patenteando a um ritmo relativamente similar, apoiando a noção de que os fatores que afetam as crianças antes de ingressar no mercado de trabalho são determinantes para quem se transforma em inventor”, afirmam os pesquisadores do estudo, liderado por Raj Chetty, da Universidade Stanford.

Poderia se pensar que a desigualdade dos EUA é pouco representativa além de suas fronteiras. Mas outro estudo recente, “A origem social dos inventores”, sobre os inventores na Finlândia, obteve resultados similares. Na Finlândia, um país com educação igualitária e gratuita, com pouca discriminação a priori no mercado de trabalho, os pesquisadores encontraram uma má gestão do talento, “que afeta sobretudo os indivíduos de alto coeficiente de inteligência”. Os autores da pesquisa focaram nesse fator, o da capacidade cognitiva, em vez das notas escolares, mas encontraram um padrão idêntico ao dos EUA: as possibilidades de se transformar em inventor na idade adulta aumentam à medida que cresce a renda da família, disparando quando chega ao topo das famílias mais ricas. As capacidades de meninas e meninos são um fator secundário também na Finlândia, um dos países mais igualitários do mundo. A educação dos pais afeta decisivamente as possibilidades dos filhos, um fator que em muitos países tem um vínculo direto com sua renda. “A relação entre a renda dos pais e a probabilidade de se tornar um inventor se baseia na educação dos pais, tanto diretamente como através de seu impacto na educação do filho”, explicam os autores, liderados por Philippe Aghion, do College de France, em Paris.

Também há uma gigantesca disparidade de gênero: só 4,2% dos inventores europeus são mulheres. E recebem 14% menos que seus colegas homens por patentes de alta qualidade

Como funciona esse mecanismo? “Pode influir de muitas formas intangíveis: se os pais não têm a educação adequada, talvez não saibam que há oportunidades que seus filhos estejam perdendo; ou porque não têm referentes em seu entorno; ou porque não têm acesso à rede de amigos e contatos da família”, explica Neus Palomeras, economista da Universidad Carlos III, em Madri. Há uma década, Palomeras participou do primeiro estudo que tentava estabelecer um perfil dos inventores europeus, “Inventores e processos de invenção na Europa”. Por exemplo, só 26% tinham doutorado e 77% diploma universitário.7-cientistas-negros-que-vocc3aa-deveria-conhecer-fb1.png

Mas talvez o que mais chamou a atenção naquele estudo, assim como nos atuais, seja o espaço praticamente residual deixado às mulheres: em sua amostra de 9.000 europeus com patentes importantes, só 2,8% eram inventoras. No estudo de 2016 “É um trabalho de homem: renda e diferença de gênero na pesquisa industrial”, que abordou esse problema, apenas 4,2% dos 9.700 inventores de 23 países eram mulheres (8,3% na Espanha; 2,4% na Suécia), que além disso recebiam 14% menos que seus colegas homens com o mesmo nível de produtividade de patentes de alta qualidade. Nos EUA, a equipe de Chetty estima que haja 18% de inventoras na geração nascida em 1980, contra 7% na geração de 1940.

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Uma criança de família pobre que se sobressai em matemática tem as mesmas chances de triunfar como inovador que as de uma criança rica com notas medíocres na matéria

Trata-se de um enorme problema de desigualdade de gênero que, como em outros casos, começa na infância. No estudo do Chetty sobre os EUA, as meninas estavam tão longe de ter acesso a essa carreira inovadora quanto os meninos de famílias sem recursos ou de minorias étnicas. “Se as meninas estivessem tão expostas a inventoras quanto os meninos a inventores, a disparidade de gênero na inovação se reduziria à metade”, calcula a equipe do estudo. Essa ideia tem sido implementada em diversas iniciativas, como a de cientistas mulheres que compartilham suas experiências com suas alunas, além da campanha espanhola 11 de Fevereiro, que promove a vocação das estudantes por ocasião do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

Por essa razão, os autores falam de “Einsteins perdidos”: são todos esses cérebros que não podem contribuir com seu talento inovador para a sociedade. “Se as mulheres, as minorias e as crianças de famílias de baixa renda inventassem no mesmo ritmo que os homens brancos de famílias de alta renda, a taxa de inovação nos EUA seria quadruplicada”, calcula a equipe de Chetty. “Seriam pessoas que poderiam substituir outras menos produtivas em seus cargos ou que poderiam levar ao mercado uma ideia de qualidade que ajudasse a aumentar a inovação”, diz Palomeras.

Na Finlândia, um dos países mais igualitários, as oportunidades também aumentam à medida que a renda familiar cresce

A desigualdade de gênero, pelo menos nos EUA, foi ligeiramente corrigida. Mas a desigualdade de classe nem sempre foi assim. Entre 1880 e 1940, a renda do pai se relacionava positivamente com a chance de o filho se tornar um inventor – mas, ao contrário de agora, a educação da criança era mais decisiva, segundo um estudo publicado em 2017 sobre a idade de ouro dos inventores norte-americanos. Como afirma Chetty no The New York Times, a “criatividade está amplamente distribuída; as oportunidades, não.”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/26/ciencia/1514291186_766622.html3

Yaa Nana Asantewaa: a rainha guerreira da nação Ashanti do Gana

Ficou conhecida pelo seu papel heróico na guerra do “Trono de Ouro”, no Gana. Asantewaa era uma mulher forte e que seguia as suas convicções. Defendeu sempre o que acreditava ser a santidade da sua terra e cultura.

DW Videostill Projekt African Roots | Yaa Asantewaa, Ghana (Comic Republic)

Nasceu: em 1840 em Besease, no atual Gana, e morreu a 17 de outubro de 1921, nas Seychelles.

Reconhecida:

– por ter inspirado e apoiado o que é hoje conhecido como guerra do “Trono de Ouro”. O “Trono de Ouro” era a propriedade mais sagrada da nação Ashanti – atual Gana -, tendo o representante britânico na época na Costa do Ouro, Frederick Mitchell Hodgson, exigido que lho dessem.

– por se ter pronunciado sem hesitar e em frente aos homens Ashanti, quando confrontada pela exigência do representante britânico. Afirmou: “É verdade que a bravura dos Ashanti acabou? Não posso acreditar. Não pode ser! Devo dizer: Se vocês, homens de Asante, não vão em frente, então nós vamos. Apelo às minhas companheiras mulheres. Vamos lutar contra os homens brancos. Vamos lutar até que a última de nós caia no campo de batalha”.

– por ter sido nomeada por uma série de reis regionais Ashanti a líder da força de guerra de combate. Foi a primeira e única mulher na história de Asante com estas funções.

– por ter estado, em momentos diferentes, na frente de guerra para dar conselhos e cuidar do abastecimento dos combatentes Asante – aos 60 anos!

Legado:  Yaa Asantewa é um importante modelo e inspiração não só para as raparigas e mulheres do Gana, mas também para todo o continente africano, pela bravura que demonstrou ter. Hoje, muitas mulheres que ingressam em profissões que, anteriormente, eram dominadas por homens, são muitas vezes apelidadas de Yaa Asantewaa como forma de incentivo e apoio.

Em 2000, um museu foi criado em memória à grande rainha guerreira na localidade de Ejisu no Gana. A sua família contribuiu com heranças e artigos que Yaa Asantewaa usava, incluindo peças de roupa, e também uma carapaça de tartaruga, na qual se diz que a rainha tenha comido as suas refeições. Infelizmente, um incêndio destruiu o museu em julho de 2004. A maioria das coisas foram perdidas, estando o museu ainda em ruínas.

DW African Roots- Yaa Asantewaa (Comic Republic)

Rainha guerreira proveniente de famílias humildes

A primeira Escola Secundária do Governo em Kumasie recebeu o seu nome: Escola Secundária Yaa Asantewaa.

Asantewaa nasceu em 1840, em Ejisu, atual Gana, que fazia parte do império Ashanti naquela época. Casou cedo e teve uma filha.

Em entrevista à DW África, Wilhemina Donkor, historiadora e presidente da Universidade Garden City, no Gana, lembra que Yaa Asantewaa era proveniente de famílias humildes, tendo começado a sua vida como uma “mulher comum”. Yaa Asantewaa era agricultora e “cultivava amendoim, cebolas e outros produtos alimentares”.

No entanto, a sua vida mudou decisivamente quando os seus pais morreram. O seu irmão Kwasi Afrane tornou-se líder de Ejisu e nomeou a sua mãe Rainha. No entanto, Kwasi Afrane morreu pouco tempo depois, em 1894. Seguiu-se um novo líder, um dos dez netos de Yaa Asantewaa, mas que acabou por ser exilado pelos britânicos dois anos depois. É aqui que Yaa Asantewa se torna regente de Ejisu.

De agricultora a líder de Guerra

Representar o líder do seu país deu a Yaa Asantewaa a oportunidade de estar entre os chefes que foram convidados a conhecer o representante britânico em 1900.

Na reunião, Frederick Mitchell Hodgson, representante da coroa britânica, solicitou que o “Trono de Ouro” lhe fosse concedido, no entanto este não era um trono comum. Era o “Trono de Ouro”, o objeto mais sagrado da cultura Ashanti e por isso Asantewaa entendeu que não poderia deixar que os britânicos o levassem.

Ouvir o áudio04:08

Yaa Nana Asantewaa: a rainha guerreira

No entanto, foi a única a lutar contra isso. Pelos chefes de Ashanti, a solução desistir e sacrificar o “Trono de Ouro”. Mas, para Yaa Asantewaa esta solução não estava em cima da mesa. Asantewaa insurgiu-se e proferiu as tão famosas palavras: “Se vocês, homens de Asante, não vão em frente, então nós vamos. Desafio as minhas companheiras mulheres. Vamos lutar contra os homens brancos. Vamos lutar até que a última de nós caia no campo de batalha. Se vocês, os chefes, não lutarem, então deverão trocar a vossa tanga pela minha roupa interior”.

Guerra do Trono de Ouro

A guerra que se seguiu ficou conhecida como a “Guerra do Trono de Ouro” e também como a “Guerra de Yaa Asantewaa”.

De acordo com Wilhemina Donkor, Yaa Asantewaa deixou algumas lições, nomeadamente, “ensinou-nos a defender aquilo em que acreditamos”. “Sendo a dignidade de Ashanti que estava em jogo, ela ergueu-se”, explica.

Yaa Asantewaa não só iniciou a guerra, como também desempenhou um papel ativo. Tinha 60 anos na época e há provas de que esteve na frente da batalha, não só para motivar os soldados mas também para lhes fornecer armas.

A guerra apenas atenuou depois da sua filha ter sido capturada, o que forçou Yaa Asantewaa a render-se. Os britânicos levaram-na para as Seychelles, no Oceano Índico, onde acabou por morrer, em outubro de 1921.

DW African Roots- Yaa Asantewaa (Comic Republic)

Um ícone

Ainda assim, os britânicos nunca encontraram o “Trono de Ouro”. Yaa Asantewaa tornou-se um ícone, respeitado no Gana e mais além.

Para Daniel Baker Glover, cineasta e comentador político, Asantewaa inspirou a luta da independência no seu país. No seu entender, “o que ela estava a querer dizer ao povo Asante e, indiretamente, aos ganianos e africanos, é que esta é a nossa terra, e ninguém vindo do exterior pode chegar e dizer como é que devemos viver. (…) Ao vestir “a capa” de líder de guerra, ela estava a querer mostrar às mulheres que elas são iguais aos homens, e que não são cidadãos de segunda classe”.

Quase um século após a sua morte, Yaa Nana Asantewaa continua a ser lembrada um pouco por todo continente africano por ter sido uma mulher excecionalmente corajosa e forte. Para preservar a herança de Yaa Asantewaa, uma das melhores escolas secundárias do sexo feminino no Gana tem o seu nome.

A sua memória está também preservada através de livros, filmes, peças de rádio e canções – ou seja, na memória de uma nação .

O projeto “Raízes Africanas” é financiado pela Fundação Gerda Henkel.

http://www.dw.com/pt-002/yaa-nana-asantewaa-a-rainha-guerreira-da-na%C3%A7%C3%A3o-ashanti-do-gana/a-41770230

O poder de Grace Mugabe era muito grande

por Victor Carvalho

À medida que vão passando os dias sobre o pedido de demissão apresentado por Robet Mugabe, mais se vai sabendo sobre o poder político que estava nas mãos da sua esposa Grace Mugabe.

Grace Mugabe é acusada de cometer excessos
Fotografia: Jekesai Njikizana | afpAlguns colaboradores do antigo Presidente do Zimbabwe, aos poucos, vão levantando a ponta do véu e revelando episódios que mostram o poder que Grace Mugabe tinha a ponto de dizerem que era ela quem, efectivamente, governou o Zimbabwe nos últimos dois anos. Já no processo de negociação das condições para a sua resignação, Robert Mugabe deixou que fosse a mulher a analisar as propostas apresentadas pelos militares e a elaborar rascunhos das contra-propostas que ele depois apresentaria como suas através do padre Fidelis Mukonori.
Grace Mugabe, segundo alguns colaboradores do antigo Presidente, redigia os discursos que o marido lia e escolhia pessoalmente os dirigentes que ele recebia na sua residência particular.
Era ela também, talvez a recordar os tempos em que foi secretária do Presidente, que elaborava a agenda oficial e particular do marido e escolhia os eventos em que ele devia participar. Foi ela que, no mesmo dia em que o marido assinou a sua carta de demissão, convocou para essa manhã uma reunião de ministros na State House (então já ocupada pelos militares) e na qual, mesmo assim, ainda haviam de comparecer três elementos.
Foi Grace Mugabe, também, quem escreveu a carta a demitir Emmerson Mnangagwa do cargo de Vice-Presidente da República, não se sabendo se Robert Mugabe a assinou com a plena consciência do que estava a fazer.
Outros pormenores sobre o poder que Grace tinha sobre Robert Mugabe estão a ser recolhidos por um jornalista zimbabweano e podem ser em breve revelados em forma de livro.

Direito a maternidade passa a ser de 90 dias em Moçambique

Maputo – O presidente moçambicano, Filipe Nyusi, promulgou a proposta que alarga os direitos dos funcionários e agentes do Estado, segundo um comunicado da Presidência enviado à Lusa.

PRESIDENTE DE MOÇAMBIQUE, FILIPE NYUSI

FOTO: PEDRO PARENTE

A lei alarga o período da licença de maternidade de 60 para 90 dias, enquanto o período da licença de paternidade passa a ser de sete dias.

A proposta de lei foi aprovada em Abril pelas três bancadas do parlamento moçambicano, nomeadamente a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido governamental, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), maior força de oposição, e do Movimento Democrático de Moçambique (MDM).

Na altura, a ministra da Administração Estatal e Função Pública, Carmelita Namashulua, disse que o novo estatuto visa ainda suprimir o limite de tempo de serviço como fundamento de aposentação obrigatória.

Entre outras medidas, prevê-se ainda imprimir maior celeridade ao abono da pensão de aposentação, reduzir burocracias, ajustar o regime de contratação e aperfeiçoar o regime das promoções, progressões e mudança de carreira, associando-os ao desempenho, mérito e experiência do funcionário.

http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2017/7/31/Mocambique-Presidente-promulga-lei-que-alarga-direitos-dos-funcionarios-agentes-Estado,6c7970be-5c4d-4f60-acaa-f31598c13317.html

Nigéria recebe apoio para empoderar as mulheres

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As Nações Unidas (ONU) instaram o governo da Nigéria a aumentar seu investimento no desenvolvimento das mulheres na promoção da paz no país.

Secretária-geral adjunta da ONU, Amina Mohammed fez a contato ontem quando se encontrou com o presidente interino, Yemi Osinbajo, na villa presidencial, Abuja.

Ela disse que a equipe da ONU liderada por ela mesma estava na cidade para discutir a implementação da agenda 2030, mas também 2063 e ver como a Nigéria poderia ser apoiada especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento das mulheres. Promover o desenvolvimento das mulheres, o governo nigeriano precisaria começar a colocar as mulheres no centro dos assuntos.

 
Ela disse: “Tenho a honra de liderar uma delegação com foco na paz e no desenvolvimento das mulheres.

“Comigo, a presidente-executiva ONU mulheres, também está a representante especial sobre mulheres e conflitos, também temos conosco nosso parceiro a União Africana, a conselheira especial também sobre paz, mulheres e desenvolvimento.

A representante da ONU também disse que está ponderando maneiras de apoiar a Nigéria.

É um momento emocionante estar aqui, porque realmente estamos falando sobre a implementação da agenda 2030, mas também 2063 e para nós, é sobre como apoiarmos a Nigéria e em um contexto muito difícil fazer mais e fazer em escala paa que todas as mulheres nigerianas sejam assistidas.

Ela incluiu isso, embora eles enfrentam desafios, eles também têm histórias de sucesso.

“Sabemos que há muitas lições que aprenderam e há desafios que temos, mas temos alguns sucessos do Nordeste todo o caminho para o sul.

“Queremos garantir que façamos mais para que possamos ver especialmente as mulheres no centro das preocupações e dos avanços.

Mulher cabo-verdiana conquista destaque na politica internacional

presidenta do paicv

A presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), o principal da oposição, Jandira Hopffer Almada, foi eleita vice-presidente da Internacional Socialista (IS).


“Este é, inequivocamente, um ganho extraordinário para Cabo Verde, para o PAICV e para a líder, pois esta eleição representa a ascensão ao mais elevado a cargo alguma vez ocupado por um partido político em Cabo Verde, na arena internacional”, indica em comunicado a direção do partido.

A nota sublinha que a eleição de Jandira Hopffer Almada “é também o mais elevado cargo que o PAICV já conseguiu a nível mundial, no seu longo percurso na Internacional Socialista”.

Para o PAICV, a eleição da sua líder como vice-presidente da IS a nível mundial significa “um grande reconhecimento” do país e do partido, para o qual “muito contribuíram, por ser das poucas mulheres a assumirem a liderança de um partido histórico”.

A IS é uma organização de partidos sociais-democratas, socialistas e trabalhistas que existe, com o atual figurino, desde 1951, e integra 150 partidos, de mais de 100 países e de todos os continentes.

O PAICV, então sob a liderança de Pedro Pires, foi admitido na Internacional Socialista no Congresso de Berlim, em 1992, com o apoio dos partidos socialistas português e francês e do partido social-democrata da Alemanha (SPD).

O PAICV, que governou Cabo Verde nos primeiros 15 anos da independência em regime de partido único (1975-1990) e noutros 15 anos já em regime democrático (2001-2016), já assumiu anteriormente a vice-presidência do Comité África da Internacional Socialista e organizou várias reuniões desse Comité em Cabo Verde.

Integrou também o Comité de Ética da organização, que decide sobre as adesões e exclusões no seio dessa família política internacional.

https://africa21digital.com/2017/07/17/lider-da-oposicao-em-cabo-verde-eleita-vice-presidente-da-internacional-socialista/

Paulina Chiziane: Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem conosco”

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A liberdade é um tema que preocupa Paulina Chiziane. Por isso, o novo livro da autora, O canto dos escravos, investe na libertação individual e colectiva como recurso fundamental. Falando do livro, Chiziane explica por que aposta, desta vez, numa obra em verso ao mesmo tempo que tece um comentário sobre a actualidade do país: “Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco”. E a escritora não fica por aí, neste quesito, avança que a dívida externa pode acabar num neo-colonialismo que prejudique todos os moçambicanos. Para que tal não acontece, a escritora sugere que a luta pela liberdade seja cada vez mais permanente. Além disso, depois de ano passado ter dito que não voltaria a escrever, Paulina Chiziane volta a falar do assunto, com um esclarecimento aos seus leitores.

O canto dos escravos é título do seu novo livro, que aglutina, em 120 páginas, muitos séculos de História. Por quê?

Este livro foi inspirado no nosso hino nacional, que nos diz, a certa altura: “Na memória de África e do mundo”. Então, comecei a caminhar, em busca dessa memória e da nossa História. Primeiro, escrevi um texto muito grande, era massudo. No entanto, com esses anos todos que tenho de escrita, apercebi-me que, algumas vezes, a leitura de um livro volumoso é um privilégio de poucos. Fui comprimindo o texto até que aparecesse, agora, em verso, O canto dos escravos, no qual falo do percurso dos africanos no país e fora do continente. Com este livro celebro a existência do negro, da dor, da alegria e da esperança em seis capítulos, de modo a torna-lo um diálogo entre o passado, o presente e o futuro.

 

A Paulina Chiziane que temos neste livro parece mensageira da liberdade. Concorda com isso?

Não gosto da palavra mensageira. Os meus livros todos, se for a verificar, têm um denominador comum: a liberdade, da mulher, dos grupos socialmente silenciados, do pobre e de todas as coisas, embora os temas sejam diferentes. Eu canto a liberdade que quero para mim e para os que me rodeiam. Por outro lado, verifiquei que na verdade o planeta terra tem dois continentes africanos: uma África que é esta que temos aqui e outra na América. Mas não há comunicação perfeita entre as duas Áfricas. Por isso, o livro não é tão simples assim porque move sentimentos, emoções, pensamentos e vivências, colocando esperanças nesta vida de ser negro. Este livro é para todos, porque nas escolas falamos da escravatura apenas em duas linhas e mais nada.

 

Os escravos aqui parecem ser a metáfora de um cidadão oprimido. Quis que assim fosse?

É assim, eu não quero falar de metáforas. O que quero é dizer que esta realidade existe. O escravo, ao morrer ontem, de certeza que tinha um sonho, a liberdade que possuímos hoje. Portanto, sou independente hoje porque alguém um dia lutou, sofreu e morreu. Custa-me ver que, algumas vezes, deitamos fora esta independência e liberdade que temos hoje. E não estamos a ensinar o suficiente para que as novas gerações saibam que têm responsabilidades. Ter independência não é estar livre. Somos independente, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco. Então, este livro também é uma chamada de atenção que pretende nos lembrar que a liberdade ganha-se e perde-se. Por exemplo, a dívida externa, não sabemos como foi contraída, mas pode vir a renovar um colonialismo ou mesmo uma escravatura contra o nosso povo.

 

E mesmo a propósito disso, uma voz do livro diz: “os colonos já se foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado”…

As pessoas em Moçambique têm medo, de dizer a verdade, de trabalhar e de dizer aquilo que não foi revelado. Os meus últimos livros provam isto, porque, com a sua publicação, levantaram-se vozes que falaram de proibições no lugar onde não existem. Nós somos prisioneiros dos fantasmas do passado. Por exemplo, quando estava para lançar O 7º juramento, algumas pessoas daqui de Moçambique escreveram artigos para publicar nos jornais de Portugal, de modo a frisar que “o que a Paulina escreveu não é propriamente a nossa cultura e nós não concordamos muito com esse tipo de escrita”. Mas, porque o livro ganhou uma vida própria, os capangas do passado tiveram que refazer os seus discursos.

 

Quem são esses capangas, esses escravos?

Alguns, são bem formados, mas a mente está presa, com medo de um patrão invisível. Não se libertam a si próprio e nem permitem que o seu povo se liberte também. O meu diálogo com o leitor neste livro é para uma autolibertação.

 

Como a Paulina vê a liberdade? É uma possibilidade?

Vejo como uma necessidade que se deve alcançar e preservar.

 

Por quê faz do canto, ao invés das armas, por exemplo, um instrumento propenso à liberdade?

Procuremos perceber como é que os negros que foram para a escravatura sobreviveram, vivendo numa tortura sem fim. O canto, a dança, são artes que preenchem o lado invisível do ser humano, fazendo do Homem muito forte. E quem for a ler atentamente este livro, vai perceber que alguns dos versos são letras de música, dá para ler e cantar.

 

Escreveu o livro chorando?

Não vou mentir. Até agora, há textos que leio e fico deprimida. Por exemplo, o primeiro texto do livro, “O testamento de um escravo”. Quando o leio, ainda divago no espaço. O último, “O canto de esperança”, também mexe comigo. É um texto que me coloca de pé e deixa-me com vontade de enfrentar o mundo.

 

E o que lhe faz pensar que o canto pode triunfar?

O canto não pode, vai triunfar, se cantarmos, resistirmos e estudarmos em colectivo. Se trabalharmos em conjunto, não haverá força que nos derrube. A liberdade é esta possibilidade de fazer com que a minha voz possa ser ouvida.

 

“Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição”. Este seu verso é muito profundo.

É verdade, e qualquer negro no mundo pode-lhe dizer isto. É o discurso do opressor, uma realidade amarga.

 

Não teme que a chamem “escritora racista” pelo compromisso que este livro tem com Homem preto?

Já me chamaram vários nomes e não é isso que me vai preocupar. Pensar no que me vão chamar pode ser uma outra prisão, outra escravatura. Mas repara que não falei de raça, falei de genocídio. Agora, se o genocídio foi para os pretos, de que mais vou falar? Não se trata de promover xenofobia. Falo da humanidade.

 

O FIM DA ESCRITA OU O PRINCÍPIO DE UM RECOMEÇO?

Num dos programas que fizemos juntos, disse que já não voltaria a escrever e que estava farta de tanta incompreensão. Um ano depois, as prateleiras ganham mais um livro seu. Mudou de ideia?

Não, não mudei de ideias. Uma coisa é publicar e outra é escrever. Quando conversamos há um ano, já tinha esse trabalho pronto. Agora é que publico. Aliás, tenho uma série de trabalhos escritos, apenas à espera de ocasião para publicar. Escrever? Já chega.

 

Neste O canto dos escravos as entidades não cedem a qualquer tipo de submissão. Pelo contrário, lutam para ultrapassar dificuldades. Por quê a autora não teria a mesma persistência, nessa árdua tentativa de fintar o que a faz dizer basta à escrita?

Cansaço é um estado físico. A vista, a coluna, às vezes, cansam-se. E a vontade de escrever diminui. Às vezes, essas dificuldades são um motor. Mas quero agradecer a todos aqueles que não confiaram em mim. Sou daquele tipo de pessoas que, quando enfrenta uma dificuldade ou quando não é bem compreendida não desiste, porque acredita que um dia vai ser compreendida. Enfim, olhar para o computador, agora, hiiii…, cansa… Entre as mulheres que escreveram ou escrevem neste país sou das que trouxe mais polémicas e assuntos para reflexão. De Vez em quando é bom sossegar. Quando se fala muito da pessoa, às vezes, a mesma pode não se sentir em paz, por haver demasiada invasão da sua vida íntima. Enfim, acima de tudo, estou cansada e gostaria de convidar àqueles que um dia julgaram que estivesse enganada no meu percurso que mostrassem também a força que têm. O meu percurso foi feito de muita luta, sempre em busca da compreensão.

 

Sente que ainda é alvo dessas “cotoveladas’ que existem na literatura moçambicana?

Ainda sou e agora piorou. Há pessoas que só ficam à espera de ver o nosso trabalho para apedrejar ao invés de nos aproximar para propor melhorias à nossa obra. Esse sentido de ajuda, colaboração, é o que gostaria de ver dos donos da língua.

 

Nos últimos livros seus temos uma escrita muito virada ao real. Deixou para o passado a ficção que calha em A balada ou em O 7º Juramento?

Todos os meus livros têm um denominador comum, o que muda é o crescimento. Apercebi-me que, se quero dialogar, tenho de ser curta, incisiva, breve e, algumas vezes, mesmo cesárea, reajustando-me de acordo com a minha experiência. E eu estou a escrever o que me apetece.

 

É o que é graças aos seus primeiros cinco livros. De tal forma que, por mais que não tivesse escrito mais, a sua marca continuaria bem registada. Se tivesse começado a carreira com os seus cinco últimos livros, acha que também seria essa menina do mundo que hoje merece tanto reconhecimento?

Não fiz nada de novo. Se for a ver a literatura de Noémia de Sousa e Craveirinha, fizeram este tipo de percurso. Noémia de Sousa fez denúncia e foi reconhecida dentro e fora do país. Não me venham dizer que é preciso escrever para agradar o outro, de modo que possamos ter reconhecimento. Sinceramente, acredito que teria reconhecimento da mesma maneira, porque reconhecimento é um produto de luta, não é nenhuma dádiva. Teria sucesso na mesma, pode crer.

 

Já agora, teve dificuldades de publicação ao longo desses anos?

Internamente, sim, mas fora não. E essa é outra parte da estória interessante. Tive muitas mais dificuldades no país do que fora, sempre. E continua assim.

 

Como é que Paulina Chiziane quer ser lembrada pelos seus leitores?

Sei lá. A única coisa que me dá alegria é saber que os meus livros são cada dia mais reconhecidos. E é muita sorte, porque há escritores que são reconhecidos só depois da morte. Eu não. Tive a oportunidade de olhar para traz e dizer que trabalhei e colhi. Para mim isso basta, o que vier virá. Não estou preocupado com o futuro. Se alguém leu o meu trabalho e inspirou-se, que faça melhor do que fiz. Há uma geração muito mais nova, com melhores tecnologias, que deve continuar a luta pela liberdade.

 

Uma luta pela liberdade que inclui perdão pelos que nos escravizaram. Por quê perdoar?

É preciso perdoar para limpar o coração. O ódio é um peso, faz mal à cabeça e destrói o relacionamento com o outro. É preciso perdoar, esquecer é que não.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Que leiam O canto dos escravos, porque, quem quiser compor, até pode conseguir boas cantigas.

 

Perfil

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, já lá vão 62 anos. Estreia-se em livro em 1990, com o lançamento de Balada de amor ao vento. O seu repertório literário inclui Ventos do apocalipse;O 7º juramento; Niketche; As andorinhas; O Alegre canto da perdiz; Na mão de Deus; Por quem vibram os tambores do além? Ngoma Yethu e, agora, O canto dos escravos. É Prémio Literário José Craveirinha e soma várias condecorações e homenagens, como Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo governo português. Em 2015, foi homenageada pela SOICO, pelos 25 anos de carreira e 60 anos de vida. Este ano foi homenageada no FliPoços, no Brasil, e condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo governo brasileiro, em Maputo.

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/45544-somos-prisioneiros-dos-fantasmas-do-nosso-passado.html

 

 

 

Lupita Nyong’o em momento raro

Lupita Nyong'o (Foto: Reprodução/Instagram)Lupita Nyong’o (Foto: Reprodução/Instagram)

Eterna musa, a atriz Lupita Nyong’o usou seu Instagram para postar um clique na qual aparece em momento raro de biquíni. De modelito listrado – e uma jaqueta de couro – ela aparece mostrando as curvas e muito estilo com óculos de sol redondos.

“Foto totalmente sincera”, legendou a atriz, dando a entender que o clique não conta com nenhum filtro e nem retoques digitais. Vencedora do Oscar por seu papel no drama 12 Anos de Escravidão, Lupita conquistou elogios como “linda demais”, “perfeita”, “maravilhosa”, “rainha” e “sua cor é fora do comum”.