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Elis MC bomba na internet com música sobre racismo

Aos 6 anos, Elis MC bomba na internet com música sobre racismo

Menina já havia feito sucesso há dois anos com vídeo compartilhado pela mãe: “Não tenho cabelo liso. Eu já nasci assim e não é peruca”

Agora a garota tenta alçar voos como MC, e não deixou o discurso de afirmação de lado. No clipe – bem produzido – Elis rasga o verbo: “Eu já to cansada desse papo de racismo/ Eu não tô de mimim/ Fale o que quiser não ligo”. O refrão, ao som do passinho, convoca a criançada pro baile: “Vem dançar com Elis/ Aqui não tem caô/ Só chegar e ser feliz”.

Com uma coreografia bem ensaiada, a garota esbanja fofura e muita marra. Entre os figurinos escolhidos, uma camisa com uma pantera estampada e um alerta: “Braba”. Nesta terça-feira (8) Elis e mãe concederam uma entrevista ao Uol para contar um pouco sobre a carreira. O clipe de ”Vem dançar com Elis” foi lançado em março e já alcançou quase 250 mil visualizações.

E não venha com esse papo de mulata, moreninha/ Sou preta com muito orgulho, minha coroa é de rainha”. Elis MC, uma menina negra de seis anos, já está “cansada dessa ideia de racismo” e afirma que “não está de mimimi”. Empoderada, a carioca está bombando nas redes sociais com o clipe da música Vem Dançar com a Elis, um funk engajado que levanta a autoestima das crianças negras e ensina a respeitar as diferenças.

 

Filha de Renata Morais, a guria sempre foi muito espontânea – e a mãe filmava tudo. Como a menina mostrou gostar das câmeras, da dança e do canto desde muito pequena, a mãe divulgava alguns vídeos de Elis nas redes. Em 2016, um deles bombou: a garota viralizou com um vídeo no qual falava de seu cabelo crespo, dizendo que “não era peruca”.

Hoje, Elis tem perfil no Facebook, no Instagram e canal no Youtube. Virou uma digital influencer com milhares de seguidores. Já dançou com O Dream Team do Passinho, Mc Soffia e Karol Conka. Além disso, também comanda um evento chamado Vem Dançar com a Elis, para levar música e diversão para crianças.

Quincy Jones: “as mulheres e os negros tem tido de aguentar muito”

quincy jones
ART STREIBER

Aos 85 anos, o homem que transformou em lenda discográfica o talento de Frank Sinatra, Tony Bennett e Michael Jackson se confessa. Suas presas se cravam tanto no autor de Thriller como nos Beatles, em Donald Trump e em Harvey Weinstein, no declínio do pop e no racismo dos EUA. Produtor, compositor, trompetista, executivo e eterno amigo das estrelas, o velho rei Midas da cena musical não é de meias palavras: uma entrevista completamente franca.

TANTO NO QUE se refere à sua música quanto aos seus modos, Quincy Jones sempre se mostrou suave, sofisticado e impecável. Não é todo mundo que conquista 28 prêmios Grammy e coproduz os álbuns mais vendidos de Michael Jackson. Entretanto, cara a cara, este papa da indústria musical é, aos 85 anos recém-completados, muito mais crítico e complexo. “Nunca disse nada mais que a verdade”, afirma Jones, sentado em um sofá de sua palaciana residência em Bel-Air. E adverte: “Não tenho nada a temer”. Esta entrevista é fruto da transcrição de duas conversas mantidas com Quincy Jones.

Atualmente, Jones está em mais uma caminhada triunfal, em meio aos preparativos para um documentário do Netflix e um especial da rede de TV CBS apresentado por Oprah Winfrey. Vestido com um pulôver folgado, uma calça escura e um elegante cachecol, fala como se não tivesse nada a perder. Cita nomes, critica, elogia, conta e volta a contar histórias de seus famosos amigos. Até quando utiliza palavras duras ele as pronuncia com encanto, frequentemente inclinando-se para a frente para que choquemos os punhos e para me dar um soquinho no joelho. “Quanta coisa eu vivi!”, exclama, sacudindo a cabeça maravilhado. “É quase inacreditável.”

“Michael Jackson roubou um monte de canções. Aí estão ‘State of Independence’ e ‘Billie Jean’. As notas não mentem, cara. Não se podia ser mais maquiavélico”

Você trabalhou com Michael Jackson mais do que com qualquer das pessoas com as quais se relacionou. Conte-nos algo que as pessoas não saibam sobre ele. Eu não gosto de falar disto publicamente, mas Michael roubou um monte de material. Roubou um montão de canções. Aí estão State of Independence [de Donna Summer] e Billie Jean. As notas não mentem, cara. Não se podia ser mais maquiavélico.

Mas como? Era ambicioso, cara. Ambicioso. Em Don’t Stop ‘Til You Get Enough, Greg Phillinganes escreveu o interlúdio. Michael deveria ter dado a ele 10% da canção, mas não deu.

Fora do campo musical, que ideia equivocada se faz de Michael? Eu costumava discutir muito com ele por causa da cirurgia estética. Ele sempre se justificava dizendo que era porque tinha algum transtorno. Bobagens.

Até que ponto a fama encobria os problemas dele?Refere-se à aparência? Michael tinha um problema com isso porque seu pai lhe dizia que era feio e o maltratava. O que se podia esperar?

É uma justaposição curiosa. Sua música era tão alegre e, por outro lado, à medida que o tempo passava, sua vida parecia cada vez mais triste e estranha. Sim, mas no fim das contas o problema de Michael era o propofol, e esse problema afeta todo mundo, mesmo que você seja famoso. As grandes farmacêuticas que produzem OxyContin e toda essa porcaria são um problema grave. Durante oito anos frequentei a Casa Branca, quando os Clinton estavam lá, e descobri quanta influência tem esse setor. Não é nenhuma brincadeira.

Por que continua havendo uma aversão tão visceral aos Clinton? O que é que as pessoas não veem em Hillary, por exemplo, e você vê? É porque tem mais de uma cara. Quando você tem segredos, eles se voltam contra você.

Como quais? Essa é outra coisa da qual não devo falar.

Parece que você sabe muitas coisas. Coisas demais, cara.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
LYNN GOLDSMITH

Há algo que preferiria nãosaber? Quem matou John Kennedy.

E quem o matou? [O mafioso de Chicago Sam] Giancana. Existia uma conexão entre Sinatra, a Máfia e Kennedy. Kennedy, que era um cara mau, pediu ao Frank que falasse com Giancana para conseguir votos.

Eu já tinha ouvido antes a teoria de que a Máfia ajudou Kennedy a ganhar em Illinois em 1960. Não deveríamos falar disto publicamente. De onde é você?

De Toronto. Eu estive no concerto no Massey Hall.

É mesmo? No concerto de Charlie Parker com Mingus e os outros? Sim, cara. Depois vi o contrato. No total, a banda ganhou 1.100 dólares [3.600 reais]. Nunca vou esquecer. Naquela ocasião, não foi mais do que um entre muitos concertos. Nada para entrar na história. Assim como Woodstock. Tito Puente me disse que queria se apresentar lá. Esses festivais não me interessam muito. Elon Musk continua tentando conseguir que eu vá ao Burning Man [festival realizado anualmente em Nevada, nos EUA]. Não, obrigado. Mas quem iria saber o que acabaria sendo Woodstock? Jimi Hendrix esteve lá acabando com o hino nacional.

Não se supunha que Hendrix ia tocar no disco GulaMatari? Sim, supunha-se que ia tocar no meu álbum, mas desistiu. Ficava nervoso de tocar com Toots Thielemans, Herbie Hancock, Hubert Laws e Roland Kirk, que eram uns caras fantásticos. Toots foi um dos maiores solistas que já existiram. Os caras que participavam de meus discos eram extraordinários, e Hendrix não queria tocar com eles.

O que pensou quando escutou rock pela primeira vez? O rock nada mais é do que uma versão branca do rhythm and blues. Já sabe que conheci Paul McCartney quando ele tinha 21 anos.

Qual foi sua primeira impressão sobreos Beatles?Que eram os piores músicos do mundo. Eles não conseguiam tocar. Paul era o pior baixista que eu já tinha ouvido. E Ringo? Melhor nem falar. Lembro-me de uma vez em que estávamos no estúdio com George Martin, e Ringo tinha passado três horas com uma coisa de quatro compassos que estava tentando arrumar em uma música. Não conseguiu. Dissemos a ele que fosse tomar uma cerveja, comer algo, descansar uma hora e meia e relaxar um pouco. Ele fez isso e chamamos Ronnie Verrell, um baterista de jazz. Ronnie veio, ficou 15 minutos e arrebentou. Quando Ringo voltou, pediu que George tocasse de novo a gravação. George tocou e Ringo disse que não soava tão mal. Eu lhe respondi: “Claro, é porque não é a sua”. Mas era uma grande figura.

Há algum músico de rock que você tenha achado bom? Eu gostava do grupo de Eric Clapton. Como se chamava?

Cream. Sim. Sabiam tocar. Mas sabe quem canta e toca exatamente como Hendrix?

Quem? Paul Allen.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
FRANZ HUBMANN

Espere um pouco, você se refere ao cofundador da Microsoft? Sim, cara. Fiz uma viagem em seu iate. Tinha convidado David Crosby, Joe Walsh, Sean Lennon, todo esse pessoal irado. Nos últimos dois dias chegou Stevie Wonder com sua banda e fez Paul tocar com eles − ele é bom, cara.

Você frequenta esses círculos sociais de elite e sempre deu importância ao trabalho humanitário.Esses megarricos se preocupam tanto com os pobres quanto você gostaria? Não, os ricos não fazem o suficiente. Não se importam nem um pouco. Eu venho da rua, e me preocupo com as crianças que não têm o que necessitam porque me sinto uma delas. Essas outras pessoas não sabem o que é ser pobre, por isso não se preocupam.

Vivemos em um país melhor do que quando você começou seu trabalho humanitário, há 50 anos?Não. Estamos pior do que nunca, mas por isso as pessoas estão tentando melhorar as coisas. Com o feminismo, as mulheres estão dizendo que não vão mais tolerar [discriminação e abusos]. As pessoas estão combatendo o racismo. Deus está colocando os maus diante dos nossos olhos para que as pessoas contra-ataquem.

Ultimamente temos visto o quanto a indústria do espetáculo pode ser destrutiva para as mulheres. Como você trabalhou nesse setor no mais alto nível durante tantos anos, ficou surpreso com tudo que veio à tona recentemente? Que nada, cara. As mulheres e os irmãos negros tiveram de aguentar muitas coisas terríveis. Ambos temos de lidar com barreiras invisíveis.

O que tem a dizer do suposto comportamento de seu amigo BillCosby? É difícil combinar as acusações contra ele [de abuso sexual] com a pessoa que você conhece? Todos faziam isso. Brett Ratner, [Harvey] Weinstein. Weinstein é um filho da puta que não vale nada. Não atendeu nenhum dos meus cinco telefonemas. É um fanfarrão.

“Deixei de beber há dois anos e hoje me sinto como se tivesse 19. Nunca fui tão criativo. Não sei como explicar. Tremenda vida!”

E quanto a Cosby? Quanto a Cosby o quê?

Você se surpreendeu com as acusações? Não podemos falar disso publicamente, cara.

Se você pudesse resolver um problema dos EUA num piscar de olhos, qual seria? O racismo. Sou testemunha do racismo há muito tempo, da década de trinta até hoje. Avançamos muito, mas resta muito a fazer. O sul sempre foi terrível, mas lá você sabe onde está metido. No norte, o racismo está disfarçado. Você nunca sabe em que lugar está. É por isso que o que está acontecendo agora é bom, porque pessoas que antes não diziam que eram racistas, agora dizem. Agora sabemos.

O que provocou esta situação? Só otrumpismo?Trump e os camponeses ignorantes. Tudo que Trump faz é dizer-lhes o que eles querem ouvir. Antes tinha a ver com ele. É um filho da puta e está louco. É uma pessoa intelectualmente limitada, megalômana e narcisista. Não o aguento. Eu saí com Ivanka, sabia?

Não me diga. É mesmo? Sim, há 12 anos. Tommy Hilfiger, que estava trabalhando com minha filha Kidada, disse-me que Ivanka queria jantar comigo. Respondi-lhe que não havia nenhum problema. Tinha as pernas mais bonitas que já vi, mas o pai errado.

Acredita que sua amiga Oprah seria uma boa presidenta? Não acredito que ela deva se candidatar. Não tem o que é preciso ter para isso. Se você nunca foi governador de um Estado, CEO de uma empresa ou general do Exército, não sabe como liderar pessoas.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
ART STREIBER (AUGUST / CORDON PRESS)

Ela é CEO de uma empresa. O regente de uma orquestra sinfônica sabe mais como liderar do que a maioria dos empresários. Mais do que Trump, que não tem nem ideia. Alguém que saiba de verdade de liderança não teria tanta gente contra ele. Trump é um maldito idiota.

No que se refere à raça, Hollywood funciona tão mal quanto o restante do país? Sei que quando você começou a escrever música para filmes, ouvia os produtores dizerem, por exemplo, que não queriam partituras “tipoblues”, o que era claramente um racismo velado. Continua se deparando com esse tipo de racismo? Sim, as coisas continuam complicadas. Em 1964, quando estava em Las Vegas, havia lugares nos quais se supunha que não podia entrar por ser negro, mas Frank [Sinatra] deu um jeito para mim. Para que as coisas mudem, são necessários esforços individuais como esse. É preciso que os brancos perguntem a outros brancos se querem realmente ser racistas, se acreditam de verdade nisso. Mas cada lugar é diferente. Quando vou a Dublin, Bono me faz ficar em seu castelo, porque a Irlanda é muito racista. Bono é meu irmão, cara. Ele batizou o filho dele com o meu nome.

O U2 continua fazendo boa música? [Ele nega com a cabeça].

Por que não? Não sei. Gosto do Bono com toda minha alma, mas o grupo está submetido a muita pressão. Está fazendo um bom trabalho no mundo todo. Colaborar com ele e com Bob Geldof para a redução da dívida foi uma das coisas mais importantes que já fiz. Mais ou menos como We Are the World.

Diga algo em que tenha trabalhado que deveria ter sido mais importante. O que é que você está dizendo? Nunca tive esse problema. Todos os meus trabalhos foram importantes.

Do ponto de vista estritamente musical, de tudo que já fez, o que o deixa mais orgulhoso? O fato de que tudo que posso sentir eu consigo traduzir em uma partitura. Não há muita gente capaz de fazer isso. Posso conseguir que uma banda toque do jeito que um cantor canta. Nisso consistem os arranjos musicais, e este é um grande dom. Não o trocaria por nada.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
MICHAEL OCH ARCHIVE (GETTY)

Há alguns anos foi citada uma suposta declaração sua (não consegui encontrar a fonte, de modo que a citação é apócrifa) em que o senhor menosprezava o rap dizendo que era um punhado de loopings de quatro compassos. Continua sustentando essa opinião? É verdade que o rap é assim. É a mesma frase o tempo todo. O ouvido precisa da melodia adequada; é preciso sempre dar a ele algo atrativo, porque a mente desconecta quando a música não muda. A música feita assim é estranha. É preciso fazer com que o ouvido fique ocupado.

Há algum exemplo em seu trabalho, talvez com Michael, que ilustra isso que o senhor disse? Sim, o melhor exemplo de uma tentativa minha de fomentar os princípios musicais do passado – me refiro ao bebop – é Baby Be Mine. [Cantarola a melodia da canção]. É Coltrane transformado em música pop. Eu me refiro a fazer com que os jovens escutem bebop. O jazz está no topo da hierarquia musical porque os músicos aprenderam tudo o que podiam de música. Sempre que me encontrava com Coltrane, ele estava com o livro de Nicolas Slonimsky.

Sim, sabe-se que ele estava obcecado com o livro Thesaurus of Scales and Melodic Patterns[Tesauro de Escalas e Padrões Melódicos]. O senhor se refere a ele, certo? Sim, isso mesmo. Agora sim você está falando de assuntos interessantes. Tudo o que Coltrane tocou em algum momento estava no tesauro. De fato, no começo do livro há um exemplo de dodecafonia. É Giant Steps. Todo mundo pensa que Coltrane a compôs, mas não foi ele. Foi Slonimsky. Esse livro fez com que todos os músicos de jazz improvisassem com essa dodecafonia. Coltrane o levou consigo até as páginas caírem.

Quando Coltrane começou a ir além com a música…Giant Steps.

Tudo bem, até mesmo além disso, como em Ascension. Não dá para ir além dos 12 tons, e Giant Steps é dodecafônica.

Mas quando ele tocava utilizando um sistema atonal… Não, não, não. Até nisso havia uma grande influência de Alban Berg. É o mais longe que se pode chegar.

O senhor nota o espírito do jazz no pop atual? As pessoas renunciaram a ele para correr atrás de dinheiro. Quando o que te interessa é vodca Cîroc, roupas Phat Farm e todo esse lixo, Deus vai embora. Nunca na minha vida fiz música para conseguir fama e dinheiro. Nem mesmo com Thriller. Nem pensar. Deus sai do seu lado quando você pensa em dinheiro. Você pode gastar um milhão de dólares em uma partitura para piano e ela pode não te trazer outro milhão. As coisas não funcionam dessa forma.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
JOHN DOMINIS

A música pop atual é inovadora? De jeito nenhum. Não é mais do que loopings, batida, ritmo e ganchos. O que posso aprender com eles? Não há uma só merda de música. A música é o poder, e o cantor é o mensageiro. Nem o melhor cantor do mundo pode salvar uma música ruim. Eu apreendi isso há mais de 50 anos, e essa é a grande lição que aprendi como produtor. Se você não tem uma boa música, não importa o que você coloque ao redor dela.

Qual foi sua maior inovação musical? Tudo o que eu fiz.

Tudo o que o senhor fez foi inovador? Tudo foi algo de que pude me orgulhar, absolutamente tudo. Foi um contraste assombroso de gêneros. Desde que era muito jovem toquei todos os tipos de música: música para o bar mitzvah, marchas de Souza, música para clubes de strip-tease, jazz, pop, tudo. Não precisei aprender nada para trabalhar com Michael Jackson.

Qual o motivo das músicas não serem tão boas como antes? A mentalidade das pessoas que compõem a música. Atualmente, os produtores ignoram todos os princípios musicais das gerações passadas. É ridículo. As coisas não funcionam assim; supõe-se que você precisa utilizar tudo o que o passado te proporciona. Se você sabe de onde vem, é mais fácil chegar no lugar em que você quer ir. Você precisa entender de música para emocionar as pessoas e transformar-se na trilha sonora de sua vida. Posso contar qual foi um dos melhores momentos de minha vida?

Claro. Foi a primeira vez que se comemorou o aniversário de Martin Luther King em Washington. Stevie Wonder era o responsável e me pediu para que eu fosse o diretor musical. Depois da apresentação, fomos a uma recepção e três senhoras se aproximaram de nós. A mais velha estava com o disco Sinatra at the Sands, com arranjos meus; sua filha estava com meu álbum The Dude, e a filha desta, Thriller. Três gerações de mulheres me dizendo que esses eram seus discos favoritos. Foi muito emocionante.

Estou tentando entender qual o senhor acha que é especificamente o problema do pop atual. É a falta de formação musical acadêmica dos músicos?Sim. E, além disso, nem sequer se importam em não tê-la.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
MICHAEL OCH ARCHIVES (GETTY)

E quem está tentando fazer coisas que valem a pena? Bruno Mars, Chance the Rapper, Kendrick Lamar. Gosto da mentalidade de Kendrick. Tem os pés no chão. Chance também. E o disco de Ed Sheeran é fantástico. E adoro Sam Smith, que absolutamente não esconde sua homossexualidade. Mark Robson é um músico que sabe produzir.

Deixando de lado a qualidade das músicas contemporâneas, há algum aspecto técnico e alguma novidade de produção sonora que transmitam alguma sensação de novidade? Não, não há nada novo. Os produtores são preguiçosos e ambiciosos.

Vê algum futuro no mundo da música? O mundo da música já não existe. Se essas pessoas tivessem prestado atenção em Shawn Fanning há 20 anos, agora não teríamos esses problemas. Mas no negócio da música continuam existindo muitos contadores da velha escola. Não dá para ser assim. Não podem ser esses a dizer sempre: “Na minha época…”.

Agora o senhor está falando de negócios, não de música, mas – e o digo com todo o respeito – não lhe parece que algumas de suas ideias sobre música também são do tipo “na minha época…”?Existem princípios musicais, cara. Hoje em dia os músicos não são capazes de tirar tudo da música porque não fizeram a lição de casa com o lóbulo esquerdo do cérebro. A música é emoção e ciência. A emoção não precisa ser praticada, porque sai naturalmente. Com a técnica é diferente. Se no piano você não sabe colocar o dedo entre o mi e o  e o sie o , não pode tocar. Sem técnica você só pode chegar a um ponto. A pessoas limitam-se a si mesmas. Por acaso esses músicos conhecem o tango? E a macumba? E a música yoruba? E o samba, a bossa nova e o chachachá?

O chachachá talvez não. [Marlon] Brando costumava sair para dançar chachachá com a gente. Podia dançar até quase cair morto. Era o cara com mais charme que já conheci na vida. Transava com qualquer pessoa. Com qualquer pessoa. Transaria até com uma caixa de correio. James Baldwin, Richard Pryor, Marvin Gaye…

Dormiu com eles? Como o senhor sabe? [Franze o cenho] Vamos, cara. Ele não dava a mínima. Você gosta de música brasileira?

Sim, mas conheço pouca coisa além de Jorge Ben Jor e Gilberto Gil. Gilberto Gil e Caetano Veloso são reis. Você sabe, todos os anos vou às favelas. Esses caras têm uma vida difícil, mas são gente dura. Se você pensa que aqui as coisas estão ruins, aquilo é pior.

“A música é o poder e o cantor é o mensageiro. Nem o melhor cantor do mundo pode salvar uma música ruim. Aprendi essa grande lição há 50 anos”

Li que quando o senhor era jovem costumava andar com um revólver. É verdade.

Alguma vez o disparou?Sim.

Contra o que? [Sorri] Só para praticar.

Permita que eu lhe faça uma pergunta incomum. Em sua autobiografia há um capítulo em que fala de… Sobre ser um cachorro?

Não estava pensando nisso, mas, certo, também aparece no livro. Estava pensando em um capítulo em que o senhor conta que sofreu um colapso nervoso pouco depois de Thriller. Frequentemente fala de seus melhores momentos. Eu me pergunto se poderia contar alguma coisa de seus piores momentos. O que aconteceu foi que eu era um dos produtores de A Cor Púrpura. Eu e Spielberg continuamos sendo bons amigos. Era uma pessoa genial. Adorei trabalhar com ele.

Certo, mas o que aconteceu em A Cor Púrpura que lhe provocou a crise? O que aconteceu foi que eu era um dos produtores do filme e, quando acabamos de filmar, todos saíram de férias. Todos menos eu. Precisei ficar em casa e escrever uma hora e 55 minutos de música para o filme. Estava tão cansado que não conseguia enxergar. Eu me sobrecarreguei de trabalho e isso teve seu preço. As pessoas aprendem com seus erros e eu aprendi que não podia voltar a fazer algo assim.

O senhor está prestes a completar 85 anos. O final o assusta? Não.

O que acha que acontece quando morremos?Simplesmente partimos.

É religioso? De jeito nenhum. Conheci Romano Mussolini, o pianista de jazz filho de Benito Mussolini. Costumávamos passar a noite improvisando. Ele me contou de onde vinham os católicos. Os católicos têm uma religião baseada no medo, na fumaça e no assassinato. E não há fraude maior do que a confissão. Você conta suas más ações e está tudo resolvido. Ora vamos. E em quase qualquer lugar do mundo para onde você for, os maiores prédios são as igrejas católicas. É dinheiro, cara. Que merda.

Falando de dinheiro, tenho uma pergunta grosseira. A primeira metade de sua carreira foi dedicada ao jazz, que não é especialmente lucrativo. Quando começou a ganhar dinheiro de verdade? Quando comecei a produzir para Lesley Gore. Eu era o primeiro vice-presidente negro de uma gravadora [Mercury], o que era sensacional, exceto quando não me pagaram por produzir para ela. Mas depois disso, na década de 1970, quando comecei a produzir para outros artistas e depois para Michael, claro, ganhei muito dinheiro. Também ganhei muito com as produções para a televisão. A série Um Maluco no Pedaço foi uma barbaridade para mim. O programa MADtv foi transmitido por 14 anos. As rendas por esse sistema de venda de programas e séries são excelentes, cara.

Como sua educação influenciou – os problemas com sua mãe e o fato de crescer na verdadeira pobreza – sua forma de enxergar o sucesso?Certamente influenciou. Valorizo a sorte que tenho porque sei o que é não ter nada.

Pensa muito em sua mãe? O tempo todo. Ela morreu em um hospital psiquiátrico. Era uma mulher brilhante, mas nunca teve a ajuda que precisava. Sua demência precoce poderia ter sido curada com vitamina B, mas não podia consegui-la porque era negra.

Qual é a coisa mais ambiciosa que lhe resta fazer?Qwest TV. Será um programa musical da Netflix. Terá a melhor música de todos os gêneros do mundo. De modo que se todos os jovens procurarem o melhor do melhor para ouvir, ali estará. A verdade é que não posso acreditar que ainda participo de coisas assim. Deixei de beber há dois anos e hoje me sinto como se tivesse 19. Nunca fui tão criativo. Não sei como explicar. Tremenda vida!

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Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/12/eps/1520857453_619147.html?id_externo_rsoc=whatsapp

A primeira audiência do Presidente de Angola foi com os artistas

artistas em visita ao presidente da republica de Angola

Durante uma audiência no Palácio Presidencial da Cidade Alta, assistida pela ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, os músicos e demais fazedores de arte expuseram as suas pre­ocupações, principalmente ligadas a direitos autorais, in­­centivos na importação de discos e a carteira profissional.
No final, os artistas elogiaram a abertura do Chefe de Estado para ouvir as suas preocupações e o empenho para resolver os problemas apresentados. O saxofonista Nanuto destacou, entre as garantias dadas pelo Presidente João Lourenço, o apoio para a instalação de uma fábrica de discos em Angola, para minimizar as dificuldades dos músicos com os altos custos de importação de discos.
Nanuto revelou que o Chefe de Estado garantiu que a fábrica de discos pode surgir como investimento privado e que o Executivo daria todo o apoio necessário, para que o país possa contar com a estrutura o mais breve possível. “O Presidente pediu-nos para apresentarmos projectos”, disse o saxofonista, para acrescentar que, pela conversa mantida, deu para observar que o Presidente da República “desconhecia muita coisa” de que ficou ao corrente depois de ouvir dos próprios músicos e fazedores de arte.
O compositor Paulo Flores, que ofereceu ao Presidente da República o seu mais recente disco, intitulado “Candongueiro Voador”, também elogiou a abertura ao diálogo e a forma como João Lourenço permitiu que os músicos expusessem as suas preocupações.
O humorista Cesalty Paulo, do grupo os Tunezas, afirmou que o facto de o Presidente da República ter recebido os fazedores de arte na sua primeira audiência do ano mostra bem a importância que o Titular do Poder Executivo dá à Cultura.
No dia 29 de Setembro, três dias após a investidura como Presidente da República, João Lourenço também recebeu um grupo de músicos, aos quais elogiou o trabalho, pela recriação e renovação das variadas linhas melódicas e introdução de novas propostas que,  segundo o Presidente da República, tocam o coração dos angolanos e rompem fronteiras.
Em Agosto, ainda enquanto candidato a Presidente da República, João Lourenço assumiu o compromisso de conjugar esforços para potenciar o financiamento à cultura através do reforço da legislação e da criação de condições para o fomento de empresas que possam obter lucros com os produtos culturais.
João Lourenço prometeu cumprir cabalmente as linhas orientadoras da política cultural, que prevê o aumento da rede de infra-estruturas culturais por todo o país, da qual fazem parte bibliotecas, arquivos, museus, casas de cultura, teatros, cinemas e outros espaços. A acção, explicou o Presidente João Lourenço, implica, igualmente, o aumento de quadros nas respectivas especialidades, que garantam o normal funcionamento das instituições.
“Não podemos deixar em mãos alheias os créditos firmados por insignes cultores das nossas mais variadas expressões artísticas que fizeram da marca Angola um modelo ímpar e exemplar”, assinalou o Presidente da República, que destacou igualmente a importância do desenvolvimento das indústrias culturais ligadas à produção de livros, à realização do carnaval e à recuperação da produção cinematográfica.
“Estamos certos que, apesar das actuais dificuldades, passos certos serão dados para que todas as expressões das artes e da cultura possam encontrar os recursos e as in­fra-estruturas que garantam o seu desenvolvimento”, disse, para lembrar que o as­sociativismo cultural é uma via para a promoção das artes e da cultura.
O Presidente da República garantiu trabalhar para que a cultura assuma um lugar de relevo na economia, participando na diversificação e na geração de riqueza e bem-estar para as comunidades e defendeu a criação de oportunidades de trabalho e rendimento para os criadores, para forjar a identidade nacional e os valores fundamentais.

Ministra da Cultura garante que já há dinheiro para o carnaval

O Carnaval deste ano, que sai às ruas no dia 13, já tem dinheiro garantido, de acordo com a ministra da Cultura. Carolina Cerqueira prometeu uma grande festa da unidade nacional, da expressão da riqueza do saber, do ser dos angolanos e do sentir, através dos vários símbolos que são transmitidos pelos grupos durante os desfiles.
Em declarações à imprensa no final da audiência que o Chefe de Estado concedeu aos músicos e outros fazedores de arte, a ministra disse ter recebido garantias do Ti­tular do Poder Executivo de que não vão faltar verbas pa­ra que os grupos possam apre­sentar-se durante os desfiles de forma digna. Carolina Cerqueira afirmou que o conforto institucional transmitido pelo Presidente João Lourenço é prova que o sector da Cultura pode avançar para as indústrias culturais com projectos que fortaleçam essa actividade.
Em declarações recentes à RNA, a ministra da Cultura afirmou que o Ministério pretende que o Entrudo de Luan­da passe a contar com grupos de outras províncias, em representação da cultura nacional, de todas as expressões de folia, alegria e de cor de Cabinda ao Cunene.
Esta ideia, segundo Carolina Cerqueira, começa a ser efectivada a partir deste ano, com a participação de grupos de cinco províncias como forma de o tornar mais nacional e representativo

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/presidente_recebe_artistas

Ray Phiri, músico de jazz sul-africano

 

Músico de jazz sul-africano Ray Phiri morreu aos 70 anos Presidente sul-africano, Jacob Zuma, considerou a morte do músico “uma grande perda para a África do Sul e para toda a indústria musical”.

O músico de jazz sul-africano Ray Phiri, que fundou a banda Stimela e atuou com Paul Simon, na digressão de “Graceland”, morreu esta quarta-feira, de cancro, aos 70 anos, avançou a Associated Press. O presidente sul-africano, Jacob Zuma, considerou a morte do músico “uma grande perda para a África do Sul e para toda a indústria musical”. Phiri, vocalista e guitarrista, conhecido pela versatilidade no jazz, em ritmos indígenas sul-africanos e outros estilos, recebeu vários prêmios musicais no seu país de origem.

Uma das últimas atuações de Ray Phiri foi festival Azgo, que se realizou na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique, no passado dia 20 de maio. “Ray Phiri foi sempre impulsionado por uma profunda curiosidade pelo mundo que o rodeia e pela paixão de fazer música, que se encontra profundamente enraizada no país onde nasceu, e nenhuma destas forças diminuiu com o passar dos anos”, lia-se na apresentação do programa do festival moçambicano. “Sou um estudante da vida e jamais irei parar de descobrir, criar e explorar”, disse Phiri, citado pela organização do festival Azgo. “Nunca foi meu objetivo fazer música comercial, mas sim, em vez disso, transformar a música sul-africana em algo respeitável. No final, quando tudo o mais desaparece, o que sobra é a nossa arte”, destacou o festival Azgo, no perfil do músico.

http://www.cmjornal.pt/cultura/detalhe/musico-de-jazz-sul-africano-ray-phiri-morreu-aos-70-anos?ref=cultura_outras

Angola censura espetáculo de rapper

Agentes da Polícia Nacional de Angola policiam no passado sábado o Cine Tivoli, em Luanda, onde está previsto, neste domingo à noite, um espetáculo do ‘rapper’ e ativista luso-angolano Luaty Beirão, mas cuja licença de funcionamento terá sido entretanto revogada.

A informação foi avançada à agência Lusa pelo ativista, um dos 17 condenados em março, em Luanda, por rebelião, e que musicalmente se apresenta como Ikonoklasta, que subiria ao palco daquela sala juntamente com o músico MCK, para o “Show Ikopongo”.

“Recebemos uma chamada da senhora do Cine Tivoli a dizer que a polícia foi lá e tirou, abusivamente, sem nenhum mandado, a licença. Visto que foi feito de forma ilícita, vamos falar com o pessoal do espaço e vamos continuar a apelar às pessoas para irem [ao espetáculo], até que nos apresentem um documento com a proibição”, disse Luaty Beirão.

Segundo o músico, os moldes em que o espetáculo se poderá realizar ainda não são conhecidos, mas mantém-se agendado para domingo, às 20:15 (19:15 em Lisboa).

“Intimidaram as pessoas pedindo um monte de documentos. A polícia retirou a licença do espaço Tivoli, mas enquanto isso decorria hoje, ao mesmo tempo, um evento infantil no local”, observou Luaty Beirão, falando num boicote das autoridades ao evento.

Este concerto de Ikonoclasta e MCK – ambos conhecidos pela música de intervenção -, esteve inicialmente previsto e anunciado para hoje à noite, no Chá de Caxinde, outra sala do centro de Luanda, mas os proprietários, segundo os músicos, recuaram e acabaram por não permitir a sua realização naquele local.

“Os proprietários fingiram todos que ninguém sabe, que a gerência é que decide. Disseram-nos que podíamos divulgar e no dia seguinte informaram-nos que o ‘show’ não ia poder acontecer ali”, disse Luaty Beirão.

O ativista, de 34 anos, é uma das vozes mais críticas do regime angolano liderado por José Eduardo dos Santos, tendo sido condenado em março último, no mediático processo dos “15+2”, a cinco anos e meio de prisão por atos preparatórios para uma rebelião, associação de malfeitores e falsificação de documentos.

Luaty Beirão e os restantes 16 ativistas deste processo foram libertados pelo Tribunal Supremo no final de junho, após recurso apresentado pela defesa.

Entre prisão preventiva e cumprimento de pena, Luaty Beirão chegou a estar 09 meses na cadeia, desde 20 de junho de 2015, tendo realizado durante este período uma greve de fome de protesto que se prolongou por 36 dias.

Foram entretanto abrangidos pela amnistia presidencial para crimes – excluindo os de sangue – cometidos até 11 de novembro de 2015.

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