Conversa de Waack revela o racismo incorporado no Brasil

Os ataques afetam diretamente os tons mais escuros de pele

Por Edilson Nascimento

A conversa de Willian Waack, jornalista da Rede Globo, revela o que é bem claro no Brasil, o racismo incorporado nas relações sociais. Esse assunto sempre provoca diferentes reações, alguns nem acreditam que exista, embora já se encontre toda uma legislação voltada para o combate a injuria e ofensa racial.

O fato é que o grau de sensibilidade de percepção em relação aos ataques racistas, vai ser diretamente proporcional a tonalidade da cor da pele da pessoa, ou seja, quanto mais escura, consequentemente mais afetada com as insinuações e comentários, que nem sempre são objetivos e escancarados por conta da lei de injuria e ofensa racial.

As brincadeiras, piadas e conversas revelam o quanto ainda precisamos evoluir em relação as relações étnicas no Brasil. A colonização ainda acorrenta, aprisiona almas e espíritos de dominados e dominadores. A estrutura de uma emissora de televisão é um exemplo muito evidente da divisão de poder na sociedade.

Afirmo isso por ter trabalhado 13 anos na afiliada da Rede Globo aqui no Piauí. E, como afropiauiense ter começado nessa empresa bem na base de tudo. Na época uma equipe de externa era formada por 5 trabalhadores, que saiam em um Fiat Uno. Era composta por um motorista, um iluminador, um operador de VT, um cinegrafista e um repórter.

Nessa composição eu era o “menos importante”, o iluminador, estava sempre atrás de tudo, tinha que procurar a tomada, na hora de sair também as vezes atrasava a equipe. Não havia oportunidade para manifestar nenhuma opinião, isso porque no imaginário funcional e estrutural da coisa, “os operadores não pensam”. Essa situação me indignava e eu era tido por alguns como o recalcado, o problemático.

E as pessoas mais claras conversam nos bastidores, falam de seus desejos, de suas experiências, mas aqueles mais escuros ficam apenas espiando, muitas vezes porque as suas vivências são ridicularizadas por aqueles que estão em postos de destaque nas instâncias sociais mais privilegiadas.

O menosprezo acontece também nas brincadeiras, nas piadas. Essa manifestação de Waack é café pequeno diante de tantas injurias e ofensas que já presenciei em relação a condição do afrodescendente que sonha, que almeja algo de diferente na sociedade.

E, particularmente, acredito que as leis judiciais colaboram, mas não resolvem o problema.  O racismo acontece de diferentes formas e nem sempre temos como comprová-lo. A sociedade brasileira precisa evoluir para entender que a colonização é um grande mal e que a espécie humana é única.

Diante de tudo, cabe a ideia de Franz Fanon quando afirma que todos os seres humanos são infelizes, se engana quem pensa que apenas os negros sofrem. Os brancos também oprimem por falta de uma orientação adequada de humanidade. O racismo é um grande mal e precisa ser encarado com maior clareza. Não basta punir, temos de pensar e conversar a respeito de seus males em todos os espaços sociais.

http://www.meionorte.com/blogs/edilsonnascimento/conversa-de-waack-revela-o-racismo-incorporado-no-brasil-325928

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Documentários para entender melhor a questão do racismo no Brasil e em outros países

Documentários para entender melhor a questão do racismo no Braisl e em outros países:

OlhosAzuisviraracismodecabeaparabaixo-11) Olhos azuis
https://vimeo.com/67460531

2) cinema

3) The Color of Money – A História do Racismo e do Escravismo

4) Raça Humana

5) O negro no Brasil

6) Ninguém nasce assim

7) Racismo Camuflado no Brasil

8) Negro lá, negro cá

9) Vidas de Carolina

10) Negros dizeres

11) Mulher negra

12) Negro Eu, Negro Você

13)A realidade de trabalhadoras domésticas negras e indígenas

14) Espelho, Espelho Meu!

15) Open Arms, Closed Doors

16) The Brazilian carnival queen deemed ‘too black’- A Globeleza que era negra demais

17) Boa Esperança – minidoc

18) Você faz a diferença

19) Memórias do cativeiro

20) Quilombo São José da Serra

21) 7%
https://www.facebook.com/usp7doc/

22) Menino 23

23) Pele Negra, Máscara Branca

24) Introdução ao pensamento de Frantz Fanon

25) Invernada dos Negros

26) A negação do Brasil

27) Sua cor bate na minha

28) História da Resistência Negra no Brasil

Frente Favela Brasil :”As famílias negras hoje mobilizam R$ 1,5 trilhão por ano.”

A intelectualidade negra do Império do Brasil

Antes da Abolição, editores e homens de letras descendentes de escravos desempenharam papel social importante

Em novembro de 1831, o tipógrafo negro Francisco de Paula Brito (1809-1861) comprou a livraria de seu primo, o mulato Silvino José de Almeida, e a transformou em uma das maiores editoras do Segundo Reinado. Entre seus acionistas figurou o próprio d. Pedro II, que em 1851 lhe concedeu o título de impressor da Casa Imperial. A importância de Paula Brito não se limitou a seu êxito empresarial: ele imprimiu um dos primeiros periódicos em defesa dos direitos dos negros e, mais tarde, publicou as primeiras obras dos escritores Teixeira e Sousa e Machado de Assis.Romance do escritor Teixeira e Sousa...

Como explica Rodrigo Camargo de Godoi em sua tese Um editor no Império: Francisco de Paula Brito (1809-1861), defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) em 2014 e agora publicada em livro pela Edusp, a trajetória do editor não é um caso isolado: “Há toda uma intelectualidade negra que se forma no fim do século XVIII e no início do século XIX, integrada por figuras como o jurista Antonio Pereira Rebouças e o político Francisco Jê de Acaiaba Montezuma, o Visconde de Jequitinhonha. São filhos e netos de escravos que se afastaram do cativeiro, ascenderam socialmente e ocuparam cargos em áreas que vão da medicina até o jornalismo e a política”.

A integração dos afrodescendentes à elite cultural do Império nunca foi fácil, pois o preconceito fechava muitas portas. Na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, diversos professores (como Avellar Brotero e Veiga Cabral) não escondiam suas tendências racistas – tanto assim que foi apenas em 1879 que um negro, José Rubino de Oliveira, conseguiu se tornar professor da instituição. A resistência, contudo, foi diminuindo com a expansão do estrato de afrodescendentes livres.

...e livro publicado pelo editor Paula Brito: intelectuais negros na década de 1840

O percentual de escravos na população diminuiu bastante durante o século XIX, em parte pelas restrições crescentes ao tráfico negreiro, em parte pela expansão de outras relações de trabalho. Em 1818, segundo o historiador Jacob Gorender, no livro O escravismo colonial, de 1978, os cativos ainda representavam 50,5% da população. Esse percentual declinou para 34,5% em 1850 e atingiu 15,2% em 1872. Nesse último ano, de acordo com o professor da Unicamp Sidney Chalhoub (A força da escravidão, 2012), os negros e mulatos livres representavam 42,7% da população. À época, de cada quatro negros três eram livres. Muitos deles se destacavam nas instituições de ensino, nas artes e sobretudo na imprensa, como mostra Ana Flávia Magalhães Pinto em sua tese “Fortes laços em linhas rotas: Literatos negros, racismo e cidadania na segunda metade do século XIX”, defendida no IFCH-Unicamp em 2014 e que recebeu menção honrosa do Prêmio Capes de Teses em 2015.

Teixeira e Sousa...

Que fatores possibilitaram o aparecimento desses intelectuais negros em uma sociedade ainda cindida pelo trabalho escravo? Segundo Ana Flávia, os esforços dos descendentes de africanos para superar as barreiras colocadas ao exercício da cidadania tiveram de se valer dos canais de poder e prestígio então vigentes. Como argumenta o crítico Roberto Schwarz em seu livro Ao vencedor as batatas (1977), em uma sociedade fundada nas relações de dominação pessoal (senhor-escravo), a distribuição dos cargos públicos e dos benefícios do Estado dependia de favores pessoais prestados pelos detentores do poder. A distribuição desses favores, contudo, não se processava apenas por meio “de relações verticais, hierarquizadas, de proteção pessoal”. Segundo Chalhoub, havia também “redes horizontais”, integradas por muitos indivíduos, que agiam de forma mais ou menos coordenada: “Por exemplo, quando começou a atuar como jornalista, Machado de Assis atendia a muitos pedidos de resenhas para divulgar livros de colegas iniciantes”.

Dentre as redes de sociabilidade, uma das mais conhecidas é a maçonaria. Ligia Fonseca Ferreira, professora do programa de pós-graduação em letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e organizadora da edição crítica de Com a palavra, Luiz Gama: Poemas, artigos, cartas, máximas (2011), observa que dois importantes intelectuais negros, o advogado Luiz Gama e o escritor José Ferreira de Menezes, aderiram à Loja América, em São Paulo, fundada em 1868. Dois anos depois, a instituição já mantinha uma escola noturna de primeiras letras com 214 alunos: “Eles recebiam libertos e alforriados na escola. E, dada a carência de bibliotecas na cidade, criaram também uma biblioteca aberta à população”, diz Ligia. De acordo com ela, o próprio Luiz Gama atuou como professor na escola, e algumas classes funcionavam na casa dele.

Além da maçonaria, os partidos políticos também desempenharam um papel essencial. Enfrentando uma concorrência acirrada de livreiros franceses como Baptiste Louis Garnier, o editor brasileiro Paula Brito deveu parte do seu sucesso a alianças com os políticos liberais em fins da década de 1830 e com os conservadores de 1840 até o fim da vida. Como mostra Rodrigo Godoi, seus contatos políticos permitiram que ele fosse agraciado com os serviços de africanos resgatados de navios negreiros apreendidos. Esses trabalhadores (que na prática pouco se distinguiam dos escravos) eram entregues a particulares, que em troca deveriam vesti-los e alimentá-los. Como explica Godoi em seu livro, “receber tais concessões refletia antes de tudo o prestígio social […], tornando-se sinônimo de favor político”.

...e Paula Brito: frequentadores dos círculos intelectuais do Império

Mas a emergência da intelectualidade negra não se apoiou apenas em conexões com as classes proprietárias, sustenta Ana Flávia. “É comum explicar a ascensão de pessoas como Luiz Gama, José do Patrocínio e Machado de Assis a partir da identificação da presença de algum medalhão como protetor”, afirma a pesquisadora. “Sem negar a importância da lógica do favor entre ‘senhores’ e ‘livres dependentes’, a pesquisa tem me permitido acessar outras redes de proteção tão importantes quanto essas.” Ana Flávia destaca os casos de Arthur Carlos, Ignácio de Araújo Lima e Theophilo Dias de Castro, envolvidos com a edição dos jornais A Pátria e O Progresso, primeiros exemplares da imprensa negra em São Paulo, e que eram vinculados às irmandades de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora dos Remédios. Segundo Ana Flávia, cada indivíduo muitas vezes participava de diversas associações ao longo da vida: “Vicente de Souza, que estou pesquisando no pós-doutorado, participou de mais de 50 organizações, religiosas, políticas e literárias. Ele tem vínculos com a maçonaria e o positivismo. Era abolicionista, republicano e socialista. Vários líderes do movimento operário no Rio de Janeiro nas décadas de 1890 eram negros”.

Paula Brito criou uma espécie de clube, a Sociedade Petalógica, que se reunia em sua livraria para discutir assuntos da atualidade. Entre seus integrantes estavam os políticos Visconde de Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos), Eusébio de Queiroz e Justiniano Rocha, os escritores Joaquim Manuel de Macedo, Teixeira e Sousa e Machado de Assis, o jornalista Augusto Emílio Zaluar e o ator João Caetano. Segundo escreveu Machado de Assis na crônica Ao acaso, publicada em 1865, na Petalógica se conversava sobre tudo, “desde a retirada de um ministério até a pirueta da dançarina da moda”. Era um “campo neutro” no qual o estreante em letras se encontrava com o conselheiro, e o cantor italiano dialogava com o ex-ministro.

Edição da Revista Ilustrada de 1880 mostra o escritor Ferreira de Meneses (na janela, à esq.) e o jornalista José do Patrocínio na Gazeta de Notícias, da qual ambos foram donos

Neto de negros libertos que se alfabetizaram ainda no século XVIII, Paula Brito teve acesso às letras ainda muito jovem, o que permitiu que ele se tornasse tipógrafo em 1824. Também compunha poesias (um de seus poemas, a “Ode à imprensa”, foi escrito diante de dom Pedro II no Paço Imperial) e, após comprar a livraria de seu primo, passou a imprimir dezenas de jornais. Foi ele quem publicou um dos primeiros periódicos da imprensa negra no Brasil, O mulato ou O homem de cor, que criticava a ausência dos afrodescendentes nos cargos públicos.

Uma vez inseridos em redes de sociabilidade, intelectuais negros conseguiam abrir caminho para outros. Paula Brito deu emprego a Teixeira e Sousa, do qual publicou Cânticos líricos em 1841 e O filho do pescador, o primeiro romance brasileiro, em 1843. Paula Brito também publicou os primeiros poemas e artigos de Machado de Assis em seu jornal Marmota Fluminense. Segundo Godoi, com Paula Brito nasceu no Brasil a figura do “editor moderno, aquele que compra o manuscrito e o publica”. Em uma época em que as editoras costumavam publicar traduções piratas de autores estrangeiros, ele decidiu comprar textos e direitos de autores nacionais.

Esses intelectuais, porém, eram alvo de muitas críticas. Alguns estudiosos, como o historiador Humberto Fernandes Machado (autor da tese “Palavras e brados: A imprensa abolicionista do Rio de Janeiro, 1880-1888”), afirmam que jornalistas como José do Patrocínio tinham “uma postura paternalista, conciliadora e reformista”, sintonizada com os interesses dos senhores. Acusações semelhantes eram feitas já no século XIX a Machado de Assis pelo gramático negro Hemetério José dos Santos. Na opinião de Ana Flávia, considerações desse tipo esquecem o fato de que os intelectuais negros eram obrigados a dialogar com um público muito diversificado, que incluía tanto senhores de escravos refratários a qualquer concessão quanto abolicionistas radicais.

Edição da Gazeta de Notícias anuncia a publicação em forma de folhetim do primeiro romance brasileiro, O filho do pescador, do escritor negro Teixeira e Sousa

Para Chalhoub, os intelectuais negros ganharam maior visibilidade a partir da década de 1870 porque o abolicionismo se tornou uma causa generalizada, agregando intelectuais de diferentes tendências (liberais, conservadores, republicanos). Mas, após o fim da escravidão, “houve um silenciamento do legado da escravidão: o regime republicano foi em grande medida criado em reação à percepção de que a Coroa, ao se aliar à luta contra a escravidão, prejudicara os interesses da cafeicultura”. A partir daí, a intelectualidade negra começou a perder espaço.

Projetos
1. Fortes laços em linhas rotas: Experiências de intelectuais negros em jornais fluminenses e paulistanos no fim do século XX (nº 2009/09115-0); Modalidade Bolsa no País – Doutorado; Pesquisador responsável Sidney Chalhoub (IFCH-Unicamp); Beneficiária Ana Flávia Magalhães Pinto; Investimento R$ 126.751,52.
2. Operários das letras: Escritores, jornalistas e editores no Rio de Janeiro (1850-1920) (nº 2014/19669); Modalidade Bolsa no País – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Sidney Chalhoub (IFCH-Unicamp); Beneficiário Rodrigo Camargo de Godoi; Investimento R$ 182.696,80.

Livro
GODOI, R. C. de. Um editor no Império: Francisco de Paula Brito (1809-1861). São Paulo: Edusp, 2016, 392 p.

 

http://revistapesquisa.fapesp.br/2016/11/18/a-intelectualidade-negra-do-imperio/

Haverá escritores negros na Feira do Livro de Porto Alegre?

Poeta Ronald Augusto lança questionamentos à direção da feira do livro de porto alegre sobre a falta de representação da literatura negra em eventos da área, discussão que já surgiu na Flip deste ano

Por: Ronald Augusto
06/08/2016 – 03h00min | Atualizada em 06/08/2016 – 03h00min
Haverá escritores negros na Feira do Livro de Porto Alegre? Adriana Franciosi/Agencia RBS

Escritor espera uma resposta da Área Adulta da Feira de Porto Alegre sobre quais autores negros estarão no eventoFoto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

No dia 7 de julho, postei em minha página do Facebook a seguinte indagação: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Como é usual acontecer nessas ocasiões, alguém replicou: “Mas escritor tem cor?”. Ao que eu respondi, de pronto: “Escritor tem cor, sexo, CPF e RG”. Desgraçadamente, concepções como essa, que não só eu defendo, mas muitos outros, ainda provocam constrangimentos. Entretanto, o problema não é nosso se uma parcela de leitores e fruidores segue depositando confiança na crença anacrônica de uma “arte pura”.

Recentemente, tivemos a chance de testemunhar uma discussão muito importante a respeito da invisibilidade dos escritores negros relativamente às práticas seletivas de prestigiamento e de indiferença vigentes no sistema e no mercado literários. A esse propósito, evoco aqui a polêmica causada pela – para dizer o mínimo – incompetência da curadoria da Flip que, em uma edição tida e havida como inovadora, porque dedicada à produção literária das mulheres, não foi capaz de apresentar uma escritora negra sequer para ser integrada ao evento. Dezessete escritoras brancas convidadas. Nenhuma negra. Eu posso ainda refrescar a memória do leitor com o episódio da comitiva de escritores brasileiros enviada à Feira do Livro de Frankfurt de 2013: essa comitiva tinha apenas um ou dois escritores negros. Enfim, trata-se de uma questão em relação à qual as curadorias de feiras e eventos literários não podem mais se comportar com indiferença nem esconder seus critérios de escolha atrás de desculpas convencionais e retardatárias.

No caso da Flip, por exemplo, o curador respondeu às críticas dizendo que tentou agendar as participações de Elza Soares e Mano Brown, mas infelizmente, segundo ele, as negociações não deram certo. Não tenho nada contra os dois artistas, pelo contrário, mas circunscrever a presença negra na literatura contemporânea apenas a esses nomes revela um total descaso a respeito da riqueza de vozes e de linguagens da autoria negra brasileira que, pelo menos, já há quase 30 anos vem despertando o interesse de leitores e pesquisadores em todas as partes. Por outro lado, pelo perfil dos convidados negros desejados pela curadoria da Flip, o teor da participação negra no evento não escaparia à rotina da mera animação de festa, porque, em que pese a contundência estético-política de Elza e Brown, ainda estaríamos presos à nossa proverbial dimensão rítmico-musical; espécie de essência ou de lugar negro tolerado pela casa-grande.

Foi pensando exatamente nessas imposturas e nesses enjoamentos preconceituosos que fiz a pergunta já mencionada bem no início desse texto, repito-a: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Insisto nela porque até agora não obtive resposta completa da organização da Feira do Livro de Porto Alegre. Na verdade, consegui uma resposta parcial. Sônia Zanchetta, responsável pela Área Infantil e Juvenil da Feira, confirmou a participação, este ano, dos escritores Heloísa Pires Lima, Rogério Andrade Barbosa e Sérgio Vaz. Além disso, segundo a organizadora, o coletivo de poetas negros Sopapo Poético apresentará um sarau no Teatro Carlos Urbim, e o Coral do Centro Ecumênico da Cultura Negra – Cecune, se apresentará no encerramento da programação no mesmo teatro pelo 16º ano consecutivo.

Vamos por partes. Os três escritores mencionados por Sônia Zanchetta, a saber, Heloísa Pires Lima, Sérgio Vaz e Rogério Andrade Barbosa, representam o vago perfil do escritor que “trabalha na área da literatura afrobrasileira”, isto é, eles entram no rol dos escritores negros devido à “temática”, o que é um erro conceitual. Esse erro conceitual permite abrigar, inclusive, o virtual escritor branco de boa-vontade, só que, neste caso, o problema da invisibilidade do escritor negro segue sendo negado. Em outras palavras, esse branco sensível à cultura afrobrasileira pode passar a noite inteira, a noite em claro, lendo e praticando literatura negra, mas na manhã seguinte ainda vai acordar como um indivíduo branco. Quanto à participação dos dois coletivos negros, entendo que serve como uma espécie de atenuante, mas ainda acho pouco e segue na linha de “abrilhantar” o evento. Concordo que é possível e estratégico ocupar esse espaço simbólico. Romper o círculo endogâmico da branquitude usando não apenas essa expressividade por meio da qual sempre somos lembrados, mas lançando mão também de nossa reflexão sobre a literatura e seus modos de consagração e exclusão.

Com efeito, a presença da autoria negra na Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre é tímida demais, para justificar essa conclusão basta mencionarmos que a Feira tem duração de duas semanas, sua programação é intensa, cheia de debates, lançamentos de livros, conversas com escritores, oficinas, etc. E diante de tudo isso a coordenação da Área Infantil e Juvenil traz como contribuição apenas dois ou três escritores negros e dois coletivos de cultura afro para entreter os leitores e visitantes. É pouco.
Assim, ainda aguardo uma resposta da coordenação da Área Adulta da Feira à questão: quantos e quais escritores negros farão parte da

62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Meu questionamento foi público. Suscitou uma série de manifestações, tanto de escritores negros/brancos, como de leitores e interessados. Foi por essa razão, aliás, que Sônia Zanchetta, com grande presteza, veio a público e apresentou uma resposta.

Espero que a Área Adulta da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre nos apresente uma posição. Espero que esse silêncio, esse intervalo sem resposta, quando rompido pela manifestação pública da coordenação, não se revele uma decepção. Esperamos que seja uma resposta de gente grande.

POST-SCRIPTUM: SUGESTÕES

Sugiro não só à organização da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, mas do mesmo modo às edições vindouras do evento, bem como às demais feiras do interior do RS, que suas curadorias: (a) ou passem por um processo de formação no sentido de incorporarem à categoria do literário a representação das diversidades étnicas e de gênero presentes nas poéticas contemporâneas; (b) ou constituam curadorias que contenham representantes dessas diversidades, isto é, curadores com um conhecimento mais aprofundado a respeito de seus respectivos campos estético-literários.

Com relação à incorporação da literatura negra ao cardápio das feiras de livro, eu poderia sugerir os seguintes nomes: Mel Adún, Jorge Fróes, Henrique Freitas, Esmeralda Ribeiro, Guellwaar Adún, Eliane Marques eEdimilson de Almeida Pereira.

Enquanto isso, para quem quiser – ao invés de atrapalhar – se informar mais sobre escritores negros, visite o portal Literafro: zhora.co/litera-afro.

Virginia Leone Bicudo: Produção intelectual e invisibilidade

Virgínia Leone Bicudo (São Paulo, 1910-2003) foi socióloga e uma das mais importantes psicanalistas brasileiras

Quem é Virginía Leone Bicudo? Ao indagar esta pergunta a meus colegas de universidade, poucos sabem a resposta, nunca ouviram falar. Alguns professores conhecem, outros não. A verdade é que eu também não a conhecia há pouco tempo, mesmo estudando questões sociais e conhecendo o debate em torno das relações raciais no Brasil.

Virgínia Leone Bicudo foi uma socióloga e psicanalista brasileira, uma das primeiras professoras universitárias negras do país, nasceu em 1910 na cidade de São Paulo, filha de Joana Leone, branca, imigrante pobre de origem italiana, e de Teófilo Bicudo, negro e trabalhador doméstico que vivia em uma fazenda em Campinas.

É interessante observamos o contexto histórico da sociedade brasileira em que Virgínia Bicudo viveu, uma vez que nas primeiras décadas do século XX a sociedade brasileira ainda estava marcada pelos resquícios da sociedade escravocrata e a atenção de intelectuais se voltava para pensar o futuro da sociedade brasileira pós-escravidão. O debate que caracterizava este momento, era perpassado pelas ideias do Racismo Biológico, que determinaria a inferioridade do negro e a defesa de políticas de eugenia, como, por exemplo, a obra de Nina Rodrigues (1894); posteriormente, pelas ideias de harmonia racial propostas por Gilberto Freyre (1933). A discussão em torno das relações raciais no final dos anos 1940 tinha adquirido maior visibilidade, devido às mudanças ligadas aos estudos sobre o processo de integração de diferentes populações na sociedade brasileira, como negros, mestiços e imigrantes.

Bicudo, via na ciência sociais um meio para tentar compreender as relações raciais na sociedade brasileira de sua época, o que se tornou tema de sua produção intelectual. Os estudos sociológicos de Virgínia Bicudo como sua pesquisa Estudo das Atitudes Raciais entre Pretos e Mulatos em São Paulo (1945) teve contribuições importantíssimas ao debate das relações raciais para se tentar compreender aquele período os trabalhos desenvolvidos por Bicudo traziam novas perspectivas sobre as relações raciais, pois, se dedicavam a analisar o processo de integração do negro na capital paulista, trabalhando com a questão da identidade, procurando entender como esta se expressa em atitudes e levando em consideração que a identidade se constitui por meio dos processos de interação social.

Mulher, negra e intelectual Bicudo, coloca em debate a tese sobre a existência de uma “harmonia racial” no Brasil, pois, por meio das narrativas de seus entrevistados e suas análises sociológicas, demonstra que, ao contrário do que afirmava parte da intelectualidade brasileira daquele período, ocorria uma exclusão do negro independente da sua mobilidade social, pois também existia um preconceito de cor que independia de seu status econômico.

Quando li a tese de mestrado de Virginia Bicudo e alguns de seus artigos publicados, pensei: “Como eu nunca ouvi falar de Virginia Bicudo?”

Ao procurar por respostas me deparei com a pauta do epistemicídio de negros e negras na produção intelectual, indagada pelo debate do feminismo negro interseccional, da qual se percebe a invisibilidade de intelectuais negras na produção de conhecimento cientifico. A proposta colocada por essa perspectiva parte da crítica à forma como a construção do pensamento científico se dá no ambiente acadêmico ocidental, sobretudo, como a produção intelectual atual corrobora para a perpetuação da subordinação de grupos marginalizados. O fato é que as condições históricas constituirão privilégios sociais do grupo dominante, se entende que uma das consequências foi gerar um discurso hegemônico na produção intelectual.

Eu poderia escrever simplesmente uma critica a esse discurso hegemônico, porém, ciente da constante invisibilidade, conclui que talvez fosse interessante propor uma reflexão diante de um exemplo concreto, no caso a biografia e produção intelectual de Bicudo.

É fundamental destacar a importância de intelectuais negros e negras no Brasil, para que possamos quebrar com o discurso hegemônico em torno do debate sobre as relações raciais, dando espaço para, simultaneamente, o reconhecimento das contribuições de autores negros e autoras negras sob novas perspectivas, colaborando assim para a construção do pensamento sobre múltiplos olhares e respeitando as subjetividades.

Fonte:http://blogueirasnegras.org/2016/05/26/virginia-leone-bicudo-producao-intelectual-e-invisibilidade/