Menu

A crise educacional na África

gracamachel_2608950a-1

A África está no meio de uma crise educacional. Apesar das promessas de melhorar o acesso à educação para todas as crianças até 2030, muitos governos africanos não estão conseguindo financiar este componente ambicioso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Ainda há tempo para resolver o déficit de financiamento, mas somente se novas estratégias de investimento forem adotadas com vigor.

Hoje, aproximadamente metade dos jovens do mundo, incluindo cerca de 400 milhões de meninas,não estão sendo educadas para ter sucesso no local de trabalho do futuro. Este desafio é mais agudo na África; embora 75% das meninas na África Subsaariana iniciem a escola, apenas 8% concluem o ensino médio. A África Subsaariana é a única região em que as mulheres ainda não se matriculam ou concluem o ensino superior nas mesmas taxas que os homens .

Esses problemas são bem conhecidos, se nem sempre abordados. Menos entendido é o impacto contraditório que o crescimento futuro da África terá na disponibilidade de financiamento da educação.

Até 2030, espera-se que quase 30 países na África tenham atingido um status de renda média mais baixo , definido pelo Banco Mundial como renda nacional bruta per capita (RNB) entre US $ 1.026 e US $ 4. 035. À medida que os países se aproximam desse nível de desenvolvimento, serão necessários investimentos para pagar as atualizações de saúde e educação, e mobilizar a receita tributária doméstica se tornará um componente crítico das estratégias orçamentárias.

No momento, no entanto, as receitas fiscais estimadas na maioria dos países serão insuficientes para cobrir os custos associados à melhoria dos resultados educacionais. Como resultado, uma crise de financiamento educacional ameaça as esperanças de um crescimento rápido sustentado e de uma prosperidade duradoura.

As formas tradicionais de ajuda internacional continuarão a desempenhar um papel no desenvolvimento do setor educacional da África. E, no entanto, devido aos aumentos projetados no RNB, a maioria dos países de renda média-baixa deixará de se qualificar para as subvenções e os empréstimos com juros baixos ou zero atualmente disponíveis. Como resultado, milhões de jovens africanos sofrerão os efeitos de um paradoxo no desenvolvimento internacional: os países serão muito prósperos para se qualificarem para as melhores opções de financiamento, mas muito pobres para satisfazer as necessidades educacionais de seus cidadãos por conta própria.

Felizmente, a Comissão Internacional sobre Financiamento da Oportunidade Global de Educação , na qual atuo como comissário, ajudou a desenvolver uma solução. Chamada de International Finance Facility for Education , essa abordagem inovadora visa ajudar os países de renda média baixa a investir em educação – especialmente programas para mulheres e meninas – de maneiras mais sustentáveis.

Ao alavancar US $ 2 bilhões em garantias de doadores, pretendemos entregar cerca de US $ 10 bilhões em financiamento de subsídio e educação concessional para os países que mais precisam. Mas há uma armadilha: os governos que buscam acesso a esses fundos devem primeiro demonstrar interesse e capacidade para reformas educacionais de longo prazo.

Esta abordagem foi concebida para melhorar a eficácia das subvenções e dar aos países a capacidade de reforçar a sua capacidade de resistência económica com uma força de trabalho melhor formada. Pesquisas mostram que, em países de renda média-baixa, cada US $ 1 gasto em educação aumenta o poder aquisitivo dos graduados em US $ 4. Em outras palavras, nosso objetivo de longo prazo é mais amplo do que construir escolas ou ensinar matemática; é criar condições para uma mudança social e econômica duradoura.

Estratégias semelhantes de financiamento já provaram ser bem sucedidas no setor de saúde. Por exemplo, o Mecanismo de Financiamento Internacional para Imunização foi criado para fornecer financiamento para a GAVI, a aliança de vacinas . Eventualmente, bilhões de dólares em novos fundos foram mobilizados para ajudar a vacinar mais de 640 milhões de crianças e salvar mais de nove milhões de vidas. Os retornos econômicos também foram dramáticos; Um estudo que pesquisou os resultados em 73 países descobriu que cada US $ 1 gasto em imunizações traduziu-se em US $ 18 em economias relacionadas à saúde . O mecanismo de financiamento da educação tem o potencial de produzir um impacto semelhante.

Milhões de jovens em todo o mundo, e particularmente meninas jovens na África, não conseguem se sobressair porque continuam a ter acesso negado à educação de qualidade. Faltando apenas 12 anos para a expiração dos ODS, a crise educacional da África deve ser levada ao topo da agenda de desenvolvimento. Os líderes do governo afirmam rotineiramente que as crianças são o nosso futuro. Se eles realmente acreditam, programas como o Mecanismo de Financiamento Internacional para a Educação devem receber a prioridade que merecem.

Graça Machel

Graça Machel

Graça Machel é uma política e humanitária moçambicana. Machel é uma defensora internacional dos direitos das mulheres e das crianças e, em 1997, tornou-se uma honorária dama britânica pelo seu trabalho humanitário. Graça Machel é membro do Africa Progress Panel (APP), um grupo de dez indivíduos distintos que advogam aos mais altos níveis. para o desenvolvimento equitativo e sustentável em África. Como membro do painel, ela facilita a formação de coalizões para alavancar e intermediar o conhecimento e convoca os tomadores de decisão a influenciar políticas para mudanças duradouras na África. Ela também é a fundadora do Graça Machel Trust e membro do The Elders.

Fonte:https://mg.co.za/article/2018-06-04-how-to-pay-for-africas-education-gains

Advertisements

A dura luta contra o racismo em Portugal

A propósito do Dia Mundial da Tolerância em Portugal em novembro do ano passado foi  entrevistado Mamadou Ba, dirigente da associação S.O.S. Racismo, e uma das vozes mais sonantes no combate ao racismo e integração das minorias étcnicas na sociedade.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

Nasceu no Senegal, fundou a Associação Luso-Senegalesa e encontrou na direção da associação S.O.S. Racismo uma missão para vida. O discurso é assertivo e vai direto ao assunto. «O racismo está bastante presente em Portugal».

O movimento S.O.S. Racismo (que também existe em também em França, Austria, Itália e Noruega) comemorou vinte anos desde a sua formação e, para Mamadou Ba, é um dos organismos que «tem mesmo de existir porque há ainda muito que fazer».

Em entrevista, Mamadou admite que o cenário melhorou mas que as minorias ainda são «uma segunda camada da sociedade».

Falamos de tolerância esta semana. O racismo e a xenofobia são a antítese desta noção. 
Completamente. Como é possível sermos tão rápidos a criticar ou ostracizar uns aos outros e já nos é mais difícil aceitar que, no fundo, somos todos iguais? É um problema tão grave que está enraizado na cultura, na educação, no civismo e na forma como olhamos o mundo.

Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Como se começa a erradicar o racismo quando está tão intrínseco na nossa sociedade? 
Começa primeiro por uma catarse social a nível global. Primeiro que tudo, para resolver o problema é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo. Não é ignorar, não é achar que já se fez tudo. Vamos admitir que este é um problema endémico e a partir dai, como sociedade, vamos criar mecanismos para resolvê-lo. Obviamente, as medidas passam por diversas áreas. Numa primeira fase, é na formação dos cidadãos. A nossa educação tem de ser absolutamente revista. Os conteúdos curriculares têm de refletir a diversidade cultural. É fundamental. Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Mas essa acaba por ser uma medida a longo prazo. O que pode ser feito agora?
É verdade. Rever todo o sistema de educação demora tempo. A curto ou médio prazo, o Estado tem de traduzir, nas suas políticas gerais, medidas concretas para combater o preconceito, não só na educação mas na área do emprego, social, cultural. O olhar da justiça sobre a diferença precisa de ser reformulado.

Primeiro que tudo, para resolver o problema do racismo é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo.

Vinte anos de trabalho do S.O.S. Racismo em Portugal. O que mudou? 
Há uma coisa inegável. A questão do racismo agora faz parte do debate público. Deixou de ser um tabu discutir o racismo na sociedade. É um passo grande. Em finais da década de 1990, houve um quadro jurídico virado para o combate contra o racismo. Não havia antes. Há instrumentos públicos que foram criados nesse sentido.

E funcionam?
Precisam ser mais eficazes. Ainda pecam muito pela falta de ação. O quadro jurídico deveria evoluir segundo as indicações da ECRI (European Commission against Racism and Intolerance). Até agora tem sido muito pouco eficiente na punição de infratores. O racismo tem de ser punível por lei. Impõe-se uma restruturação substancial do sistema legal. Não resolve do ponto de vista social a questão do racismo, mas seria um poderoso incentivo.

O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas.

O S.O.S Racismo trabalha diretamente com as comunidades negra e cigana…
Que são as duas mais afetadas pela questão racial, sem dúvida. Continuam numa espécie de segunda camada da sociedade portuguesa. Quase não existem figuras de relevo destas comunidades, pois não? Isto é um sintoma do que se passa. As pessoas ainda estão «atrás do biombo» em relação aos outros.

A Europa vive uma crise de refugiados que se arrasta há já algum tempo mas que já pouco se fala. Esta situação teve algum impacto na forma como a comunidade europeia olha para as minorias étnicas? 
Eu não chamaria crise dos refugiados, mas uma crise da resposta política à questão dos refugiados. Se nós olharmos à volta da Europa, para o Líbano ou Turquia, vemos que o número de refugiados é substancialmente maior. Houve um debate público a nível europeu que resvalou pouco por cá. O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas e observamos, com muito receio, a ascensão das forças de extrema-direita.

Em Portugal também?
Não sentimos com a mesma força que noutros países, isso não.

 

Fonte;https://www.noticiasmagazine.pt/2017/mamadou-ba-racismo-punivel-lei/

Paulo Lauro, o primeiro prefeito negro de São Paulo

paulo-lauro-deputado-1908-19832

Paulo Lauro nasceu em 19 de novembro de 1907, na cidade de Descalvado, município localizado em São Paulo. Filho de Alfredo Lauro e de Leopoldina Lauro. Advogado e exímio argumentador, foi o primeiro prefeito negro da cidade de São Paulo e Secretário de Negócios Jurídicos da Prefeitura anteriormente. Também foi eleito Deputado Federal em várias legislaturas, Vice- Presidente da Comissão de Justiça e membro da Comissão de Educação e Cultura e de São Paulo.

Casado com Diva da Fonseca, teve dois filhos Paulo Lauro Júnior, já falecido e Dora Aparecida Lauro Sodré Santoro. Formou-se professor pela Escola Normal Secundária de São Paulo lecionando Português e História e pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, se tornou advogado, tendo sido orador do Centro Acadêmico XI de Agosto.

Bastante eloquente, Paulo Lauro foi notabilizado ao realizar a defesa de Arias de Oliveira, que era acusado de ter matado quatro pessoas, em 02 de fevereiro de 1938, na rua Wenceslau Brás nº 13, Capital de São Paulo.

O caso foi conhecido como “O crime do restaurante Chinês” e é retratado atualmente no Museu da Polícia Civil de São Paulo (conhecido como Museu do Crime), cujos autos se encontram no Museu do Tribunal de Justiça. O réu foi absolvido por insuficiência de provas para a acusação. Mesmo o Estado tendo na opinião de muitos, provas suficientes para isso. A absolvição do acusado rendeu a Paulo Lauro, a atenção e admiração de muitos outros advogados e juízes da área criminalística.

Como prefeito realizou obras como: parques infantis nos bairros, mercados distritais, pontes e pontilhões, um grupo escolar, pavimentou ruas, prolongou avenidas, construiu os viadutos Dª Paulina e Nove de Julho e instalou cinco restaurantes populares para o operariado. Ficou no cargo durante o período de agosto de 1947 a agosto de 1948.

No campo do Direito Eleitoral, deixou escritos preciosos como: Prática da Legislação Eleitoral e Código Eleitoral Comentado por assunto e Lei de Inelegibilidade explicada de forma prática. Na justiça Eleitoral realizou outra grande defesa, a de Antônio Tito Costa.

A vida política nunca afastou Paulo Lauro de sua maior paixão, a Advocacia. Trabalhou em seu escritório até seus últimos dias. Faleceu no dia 05 de agosto de 1983.

É um grande exemplo de homem, político e advogado.

De |novembro 21st, 2016|Notícia|Comments Offon Paulo Lauro, primeiro prefeito negro da cidade de São Paulo

Novas faces da negritude – Jornal Valor Econômico

 

arte11cul-603-capa-d10 valor economico

Desde já, uma advertência: esta reportagem contém pequenos testes.

Mas não se assuste. Eles são de simples solução, ainda que tragam

conclusões complexas. Eis o primeiro. Em um ambiente de caráter mais

elitista, olhe ao redor. Conte quantos negros o espaço acomoda. A

resposta será alguma coisa entre zero e pouquíssimos. Não estranhe,

porém. No Brasil, tal vazio é, por assim dizer, comum. Aliás, os

afrodescendentes, que compõem a maioria da população brasileira e são

55% do total, fazem o mesmo exame. Eles o chamam de “teste do

pescoço”, em referência à parte do corpo que gira para os lados, como

um periscópio, durante esse tipo de inspeção. O resultado, todos sabem,

é invariável e historicamente o mesmo.

Levantamentos de toda sorte confirmam a prevalência de brancos nesses

locais no Brasil. Uma pesquisa do Instituto Ethos, só a título de exemplo, mostra que os negros ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% dos postos de gerência nas 500 maiores empresas do Brasil.

 

No caso das mulheres negras, tal presença é ainda mais rarefeita. Os números

são, respectivamente, 0,4% e 1,6%. Tudo isso é inegável. Mas a chamada “questão racial” apresenta, hoje, nuanças intrigantes. Embora incipientes, elas estão nas ruas, agindo em conjunto. Eis a lista. Está saindo das universidades a primeira grande leva de negros formados dentro do sistema de cotas. Em paralelo, grupos de afrodescendentes apoderaram-se dos espaços digitais, dando novo alcance ao debate e às denúncias sobre o racismo. Políticas de gestão de diversidade, que resultam na inclusão de negros em postos qualificados de trabalho, também ganham tração em companhias instaladas no Brasil. Por fim, empresas, agências de publicidade e institutos de pesquisa começam a se interessar pelos afro-brasileiros sob um aspecto até aqui pouco usual – como consumidores.

 

Considere, agora, uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, em 2017. Ela constatou que o tempo médio de estudo dos negros passou de 5,9 anos, em 2002, para 8,6 anos, em 2015. Foi um salto de 35%. Entre os não negros, houve elevação, mas foi inferior: 22%. Além do mais, o percentual de pretos e pardos – como o IBGE

define o grupo de negros – com diploma de graduação dobrou entre 2007 e 2015. Além do mais, 75% das pessoas que ascenderam à classe média na última década eram afro-brasileiros, ainda que parte dessa escalada tenha sido comprometida nos anos bicudos da recessão. Estima-se, por fim, que os negros movimentaram R$

1,6 trilhão no ano passado.

 

O mercado de trabalho é um aspecto importante nessa transformação, ainda que lenta. O antropólogo Pedro Jaime, autor de “Executivos Negros, Racismo e Diversidade no Mundo Empresarial” (Edusp), identificou uma alteração singular na forma como duas gerações de afrodescendentes alcançaram cargos de direção ou gerência nas empresas nacionais.

 

“Um grupo ascendeu nos anos 70 como resultado de iniciativas individuais”, afirma Jaime. “O outro começa a ocupar postos semelhantes, mas sua trajetória é fruto de uma ação diferente, pois é coletiva.” Para o acadêmico, a guinada do individual para o coletivo foi resultado de dois fatores. Houve, por um lado, uma maior politização dos debates sobre racismo, em grande medida, intensificados pelas discussões sobre cotas. O outro componente foi a adoção por parte de empresas de políticas de diversidade. Esse tipo de técnica de gestão parte do princípio segundo o qual equipes heterogêneas de trabalhadores, e isso vale para etnia, gênero, credo, orientação sexual e idade, trazem benefícios para os negócios: diminuem a rotatividade de funcionários, atraem e retêm talentos e, entre outras vantagens, criam times mais propensos a inovador. De quebra, observa Jaime, a diversidade atenua tensões sociais como a demanda pela presença de “minorias” no ambiente empresarial.

 

A pesquisa do Instituto Ethos, cuja última edição é de 2016, constatou que somente 3,4% das 500 maiores companhias brasileiras têm metas e ações planejadas para ampliar a presença de negros em cargos executivos. O percentual é pequeno, mas essas firmas são gigantes em seus setores. A lista inclui grandes nomes como

Bayer, Basf, IBM, Google, Microsoft, Avon, Dow.

 

Acrescente-se que, em algumas delas, está em curso uma ruptura cultural, com a formação de núcleos de funcionários encarregados de discutir e encaminhar a questão do racismo dentro das quatro paredes da empresa.

 

Ricardo Gonçalves, executivo-sênior de TI na Bayer; Raphaella Martins, gerente de contas da agência de publicidade J. Walter Thompson; e Leila Luz, da área de comunicação para a América Latina da Basf, integram grupos desse tipo. Gonçalves conta que só tomou consciência do problema racial dentro do ambiente

corporativo.

 

“Como ralei muito durante toda a vida, sempre achei que a ascensão no

mercado de trabalho dependia apenas do esforço pessoal”, afirma. Mas,

à medida que ele participava das discussões sobre diversidade na

empresa, mudou de opinião. “Comecei a fazer o teste do pescoço nos

lugares onde frequentava e a questionar: realmente, onde estão os

negros?”

Raphaella, por sua vez, havia trabalhado 15 anos em agências de publicidade e estava “cheia” de ser a única negra em um cargo executivo nesses locais. Ao entrar na J. Walter Thompson, em 2014, decidiu incluir afrodescendentes em sua equipe. Essa disposição encontrou ressonância na cúpula da companhia. Nessa época, Ricardo John, vicepresidente de criação da agência, tateava o tema diversidade. Não foi difícil que o interesse de ambos convergisse.

 

Como resultado, os negros em postos estratégicos da empresa passaram de 2, em 2014, para 30 (20% dos funcionários) atualmente. “Mas a experiência não se resumiu aos números”, diz Raphaella. “Ela desencadeou um processo de conscientização que atingiu todos na agência.”

 

Em tais debates, porém, muitas vezes emergem rusgas – e não consensos. “Mas algum tipo de desconforto também pode ser útil”, afirma Leila Luz, da Basf. Em uma ocasião, ela contratou um funcionário negro. Uma colega lhe indagou se a cor da pele do candidato havia influenciado na decisão. “Ora, pessoas brancas contratam brancos o tempo todo, e ninguém faz esse tipo de questionamento”, diz Leila.

“Nesse caso, expus o meu ponto de vista e foi bom. Isso ajudou a superar o problema.” Ela observa, contudo, que o resultado líquido da atuação

desses grupos nem sempre é animador. “Fico na expectativa de ouvir um diálogo transformador, mas, na prática, as pessoas tendem a reproduzir o senso comum.”

Por isso, se há uma discussão que os jovens negros consideram totalmente inócua é se existe racismo no Brasil. E o motivo é simples: eles são alvos permanentes de preconceitos. O consultor de comunicação Rodrigo Fernandes, por exemplo, estava em pé na frente de um restaurante de alto padrão nos Jardins, em São Paulo,

onde almoçaria com um amigo. Um homem desceu de uma Mercedes e lhe entregou a chave do carro. “Fui confundido com o manobrista”, afirma Fernandes.

Outro ponto de transformação é a tecnologia, que, como em tudo mais na atualidade, abre espaço para outras mudanças.

“Até agora, as revoluções na mídia, com o rádio, a TV e a primeira fase da internet, foram brancas”, diz Adilson dos Santos Júnior, conhecido como AD Júnior, um expoente entre os influenciadores negros nas redes sociais. “A diferença é que, agora, temos isto”, acrescenta, apontando para um smartphone.

 

“Somos mais de 110 milhões de pretos e pardos no Brasil e ganhamos voz no mundo digital.” É longa a lista de afrodescendentes em alta nas redes sociais.

Nesse caso, chama atenção a presença de mulheres como a arquiteta Stephanie

Ribeiro e Djamila Ribeiro, ex-secretária adjunta de Direitos Humanos em São Paulo. Os coletivos da web, como Blogueiras Negras e Levante Negro, também compõem essa tribuna digital. O Levante, por exemplo, foi criado em 2015. Ele divulga trabalhos de negros em áreas como comunicação, educação ou gastronomia.

 

“A ideia é levar para a audiência uma representatividade concreta, que sirva de inspiração para jovens em início de carreira”, afirma o escritor Oswaldo Faustino, autor de “A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932” (Selo Negro). “Mas, por uma ironia cruel, o grupo tem sido alvo de ataques frequentes. As acusações como de ‘vitimismo’ se tornam rotina na vida de seus integrantes, que trabalham com a curadoria e produção de conteúdo educativo de alta qualidade.”

 

AD Júnior é especialista em marketing digital formado pela Universidade da Califórnia, em Irvine (EUA). Hoje, vive na Alemanha. Em 2012, criou um canal sobre viagens no Facebook. Assustou-se com os comentários

.

“Algumas pessoas perguntavam como um ‘macaco’ podia falar inglês”, afirma. As ofensas amontoaram-se até que AD resolveu transformar o canal em uma plataforma antirracista.

 

Djamila Ribeiro, destaque entre as atuais blogueiras negras, conta em um de seus textos que, na infância, uma amiga lhe convidou para ir a uma festa. Chegando lá, ela e seus irmãos não entraram na casa, pois um tio da garota não gostava de negros. Djamila e os irmãos foram servidos na calçada. Isso até que, indignados,

debandaram dali. É Djamila quem faz a pergunta que compõe o segundo teste desta reportagem: “Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?”.

 

Não raramente, situações dessa intensidade levam à resignação. Em outros casos, produzem um reforço identitário.

Patrícia Santos, especialista em RH, perdeu um emprego por ter feito trancinhas nos cabelos. “Minha chefe disse que eu não estava de acordo com o ‘dress

code’ da empresa”, afirma. Em resposta, e com o tempo, ela fundou a

Empregue Afro, consultoria de RH especializada na colocação de negros

no mercado de trabalho. Fernando Montenegro, por sua vez, não se conformou com o fato de pretos e pardos serem invisíveis para muitos setores do mercado. Ele criou um instituto de pesquisas focado na análise do comportamento de consumo de afro-brasileiros. Trata-se do Think Etnus.

 

Cansada de papéis secundários e estereotipados, a atriz Maria Gal também reagiu. Ela começou a produzir, e vai protagonizar, um filme sobre Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Negra, favelada, semianalfabeta, Carolina registrava seu cotidiano em papéis colhidos no lixo. Transformou-se em escritora, traduzida em vários idiomas,

autora de livros de como “Quarto de Despejo” (1960).

 

“Só 4,4% dos filmes produzidos no Brasil têm atrizes negras no seu elenco principal”, afirma Maria Gal,justificando sua decisão de empreender. “E já desisti de um teste, porque o diretor achava a pele branca mais comercial do que a minha.”

O debate sobre o racismo no Brasil sempre se deu no campo do interdito, patinando entre falsas premissas, ambivalências e tabus.

 

No fim do século XIX, a ciência construiu a ideia de que as raças eram biologicamente determinadas. Por aqui, tal lógica, o racialismo, encontrou guarida no médico Nina Rodrigues (1862-1906), de origem negra. Tal corrente considerava os negros inferiores. Assim, difundiu-se a tese de que era preciso branquear a população no país. Algo que de fato foi tentado por meio, por exemplo, da política de atração de imigrantes europeus.

 

A partir da segunda metade do século XX, essa teoria desmoronou. Com os avanços da ciência, as categorias raciais passaram a ser vistas como socialmente construídas, e não inatas. Mas o desmanche do racialismo não teve grande utilidade prática.

 

Como diz Kwame Appiah, professor de filosofia da Universidade de Nova York

(autor de “Lines of Descent: W.E.B. Du Bois and the Emergence of Identity”), continuamos a nos classificar por raças, apesar do que nos diz a genética.

 

Queiramos ou não, como afirma a antropóloga brasileira Lilia Moritz

Schwarcz, na prática, raça ainda é um conceito poderoso e persiste como marcador social.

 

Já durante boa parte do século XX, os brasileiros viveram sob o doce

mito da democracia racial. Grosso modo, ele propagava ao mundo que o

Brasil escapara do preconceito e da discriminação. À primeira vista, esse

conceito pode parecer um produto genuinamente nacional. Mas não é.

Deborah Yashar, professora de política na Universidade Princeton,

apontou em um artigo publicado na revista “Foreign Affairs” (“Does

Race Matter in Latin America?”) que a mesma fábula seduziu diversos

países latino-americanos. Eles difundiram mitos gêmeos de unidade

nacional e homogeneidade étnica como parte do processo de construção da identidade nacional.

 

Em 1925, por exemplo, o filósofo mexicano José Vasconcelos cunhou o termo “raça cósmica” para glorificar o caráter inter-racial daquele país. Os venezuelanos usavam a expressão “cafe con leche” para celebrar o amálgama entre africanos, europeus e índios. Disse o general equatoriano Guillermo Rodríguez Lara, após

assumir o poder em 1972: “Não há mais um problema indígena. Todos nos tornamos homens brancos quando aceitamos os objetivos da cultura nacional”.

 

No Peru, o general e ex-presidente Juan Velasco Alvarado (1968 a 1975) foi mais longe. Proibiu o termo “índio” nos discursos oficiais. Em 1969, alterou o nome do Dia do Índio para Dia do Camponês.

 

Por aqui, coube a Gilberto Freyre, o autor de “Casa-Grande & Senzala”, interpretar o Brasil como um país mestiço e o brasileiro, como uma metarraça. O paraíso racial erguido por Freyre começou a desabar nos anos 50, com os sociólogos Roger Bastide e Florestan Fernandes (este autor do clássico “A Integração do Negro na

Sociedade de Classes”).

Na mesma toada desmistificadora, seguiram Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni. FHC, aliás, foi o primeiro presidente brasileiro a admitir a existência do racismo no país.

Hoje, por mais que despontem ações individuais, o que se chama de movimento negro é um conjunto de grupos que atuam em áreas diversas. Eles se articulam em situações pontuais e mantêm entre si uma espécie de comunhão de princípios. “Ainda assim, resta o desafio de construção de uma síntese”, diz Douglas Belchior, da Uneafro, entidade que prepara jovens negros para vestibulares e concursos públicos.

 

Nesse sentido, cogita-se da formação da Frente Alternativa Preta, o esboço para a formação de um partido de base étnica. A pauta de boa parte desses grupos inclui reivindicações por avanços tanto nas ações afirmativas como em políticas de reparação histórica. As primeiras são pontuais e transitórias, como as cotas, as outras visam atacar desigualdades estruturais, com iniciativas de longo prazo e investimentos permanentes em áreas específicas.

 

Políticas de ação afirmativa, embora tenham nascido nos Estados Unidos, nos anos 60, são um fenômeno global. Foram largamente usadas na Malásia, por exemplo, no fim do século passado. Hoje, o tema atravessa o mundo, atingindo inclusive a Europa, palco de permanentes fluxos migratórios. Como diz o filósofo indiano Kenan Malik, ali, tal debate é fruto do “fiasco do multiculturalismo”, em que estão atolados os países europeus.

 

 

Para Graham K. Brown, da Universidade da Austrália Ocidental, e Arnim Langer, da Universidade de Leuven, na Bélgica, autores do livro “Building Sustainable Peace”, tais programas de ação afirmativa tiveram sucessos semelhantes e foram vítimas de fracassos similares. A maioria reduziu disparidades econômicas, ainda que com frequência menor do que seus formuladores gostariam. As ações, observa a dupla, tendem a realçar divisões étnicas, embora a inquietação racial possa ceder à medida que a desigualdade diminui.

 

No Brasil, seis anos depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter confirmado constitucionalidade da lei de cotas, em 2012, os balanços da maior ação afirmativa já adotada no país têm sido positivos. Os dados indicam que, entre 2012 e 2015, o número de estudantes pretos ou pardos passou de 933 mil para 2,1 milhões nas

universidades federais. Foi um salto de 132%. Diversas pesquisas afastaram temores segundo os quais os cotistas teriam um desempenho acadêmico pífio ou engrossariam as estatísticas de evasão.

A maior dificuldade do sistema diz respeito à definição de quem é negro, uma tarefa árdua em um país de “quase pretos”. Para escapar dessa sinuca, as universidades recorrem a entrevistas para avaliar o fenótipo dos estudantes (como nariz, cabelos), uma análise sujeita a imprecisões ou a autodeclaração do candidato, que dá

margem a fraudes. Mas problemas desse tipo, afirmam especialistas, não comprometeram até aqui a tentativa de equalizar, ainda que minimamente, as oportunidades de educação no Brasil.

 

Mas um alerta indigesto sobre a questão racial soou no mês passado, em um artigo do economista Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel, em 2001, com o título “Quando vamos superar o racismo?”. No texto, ele indica que, em 50 anos de combate a discriminações nos Estados Unidos, houve avanços em alguns setores (caso da

política, com a eleição de Barack Obama), em muitas áreas o quadro permaneceu o mesmo (disparidades na educação e no emprego) e, em outras, a situação agravou-se (desigualdade de renda e riqueza).

 

Esse balanço é detalhado no livro “Healing our Divided Society”, organizado Fred Harris, ex-senador e professor da Universidade do Novo México, e Alan Curtis, o CEO da Fundação Eisenhower. Stiglitz, que colaborou com o projeto, define a leitura do texto como “sombria”.

 

Quanto às aspirações dos afrodescendentes, eles parecem ter sido captados recentemente por uma fonte insólita: Hollywood. Considerando o efeito produzido nas plateias, “Pantera Negra” consolida uma espécie de “utopia da negritude”. No filme, um super-herói assume o trono de Wakanda, um pequeno país africano. Ele se faz passar por pobre e rural, mas detém uma tecnologia tão evoluída quanto poderosa. O protagonista vive um dilema. Deve guardar o segredo dessa riqueza, e com isso garantir a prosperidade e a segurança de seu povo, ou precisa compartilhar esse conhecimento com o mundo, notadamente com comunidades negras massacradas planeta afora. Mais do que um delírio de poder pan-africano, a história atrai pela forma como apresenta homens e mulheres negros. Eles surgem na tela como orgulhosos protagonistas de seus destinos. Não parece ser

outro o anseio na vida real._

Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5517555/novas-faces-da-negritude