Direitos Humanos no Brasil e o Papa

vsita ao papaO estado de mal-estar social

Um relato sobre direitos humanos no Brasil ao papa

 

Da esq. para a dir., Marinete Silva (mãe de Marielle Franco); Carol Proner, advogada e jurista; papa Francisco; Paulo Sérgio Pinheiro e Cibele Kuss, pastora luterana representante da Conic –

8.ago.2018 às 2h00

 

Roma, 40 graus. Na praça de São Pedro, filas intermináveis de turistas esperam para visitar a basílica. Entramos pelo portão de entrada no Vaticano para a Casa Santa Marta, onde mora o Papa Francisco. Na porta da casa, um carabinieri e um guarda suíço. “São adelegação brasileira? “, abrem a porta.

Já dentro, um funcionário nos dirige a uma sala. Ficamos ali alguns minutos com a jurista Carol Proner, Marinete Silva (mãe de Marielle Franco) e a pastora Cibele Kuss, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

O papa abre a porta, com um envelope branco na mão, e nos convida a sentar em roda, sem nenhum funcionário em volta.

Nada do que pretendia dizer ao papa deve ser grande novidade. O jornal L’Osservatore Romano, o órgão oficial do Vaticano, dois dias antes informava que o número de brasileiros em pobreza extrema passou de 5 milhões a 10 milhões.

Tento pegar a deixa das notícias do dia. Em curto espaço de tempo, a proteção dos direitos humanos sofreu dramático enfraquecimento no Brasil. A consequência prática é um estado de mal-estar social.

Direitos econômicos e sociais restringidos pela PEC do teto e pela reforma trabalhista. Direitos civis e políticos ameaçados pelo enfraquecimento do Estatuto do Desarmamento, o reempoderamento dos militares, o retorno da Justiça Militar para crimes comuns de militares e prisões de professores em universidades federais. Proteção do meio ambiente, dos povos indígenas e a luta contra o racismo praticamente abandonadas. Mudanças profundas nas políticas públicas jamais legitimadas antes por eleições.

Sublinho os riscos criados quando uma agenda de inclusão social, econômica e política —como a estabelecida pela constitucionalidade de 1988 e pela política de Estado de direitos humanos— é abandonada.

Nesse mesmo dia, sete relatores da ONU alertavam para a gravidade dos retrocessos em série nos últimos dois anos, culminando com o primeiro aumento da mortalidade infantil em mais de duas décadas de progresso.

A brutal e ainda inexplicável morte de Marielle Franco, representada ali no diálogo emocionante com o papa por sua mãe, é o símbolo mais forte da violência e da fraqueza da democracia no Brasil. Essa violência tem mensagem clara: falar pelos marginalizados implica grave risco. O Brasil, em 2017, foi o país do mundo com o maior número de assassinatos de defensores de direitos humanos.

É neste contexto que o Brasil caminha para uma eleição na qual um dos principais candidatos, o ex-presidente Lula, poderá ser iniquamente excluído. Ele vem sendo sistematicamente silenciado pela interferência da Justiça, que assumiu o papel de protagonista político. As forças conservadoras predominantes no Judiciário asseguram a proteção aos grupos políticos governistas afetados por denúncias.

Superar a crise vai levar tempo. Reconstituir o espaço de diálogo e a confiança nas instituições do Estado são agora tarefas ainda mais difíceis do que antes. Que inspirações buscar? A tensão e o retrocesso não são privilégios brasileiros. Difícil encontrar um país em que não se tenham discutido ou implementado restrições de direitos. Igualmente, proliferam as vozes do ódio.

Para o momento mais imediato, é essencial condenar todas as formas de violência e censura. Nesse contexto, relembro como extremamente relevante a condenação absoluta, pelo papa, da pena de morte.

Passados 50 minutos, o papa distribui rosários (que estavam no envelope branco) a todos, recolhe os relatórios e livros que recebeu e diz: “Vou passar ao secretário de Estado”. Arrisco: “Vai ser uma trabalheira”. Sobraçando tudo com um dos braços, ele se despede de nós e sai como entrou, sozinho, sem ninguém para ajudar ou abrir a porta.

Paulo Sérgio Pinheiro

Ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos (2001-2002, governo FHC) e ex-coordenador da Comissão Nacional da Verdade (2013)

Leonard Boff:“devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”.

Em entrevista exclusiva concedida à Fórum, o teólogo Leonardo Boff falou sobre política, religião e, claro, sobre o ex-presidente Lula, seu amigo há mais de 30 anos. “Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”

Foto: Mídia Ninja

Poucos episódios ligados à política nacional brasileira deste ano foram tão tristes como o dia em que o teólogo Leonardo Boff, aos seus 79 anos, foi impedido de visitar o ex-presidente Lula na superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso há quase dois meses.

A imagem de Leonard Boff sentado à sombra da cabine policial, aguardando para visitar seu amigo há mais de 30 anos, rodou o mundo e ajudou a denunciar uma Justiça arbitrária e insensível.

“Negaram a minha humanidade e a do ex-presidente Lula”, disse Boff, aos prantos, na ocasião.

Semanas depois, sob o preceito das Regras de Mandela, o teólogo finamente conseguiu  visitar o seu velho amigo. “Nos abraçamos e choramos”, disse Boff.

Nesta semana de feriado de Corpus Christi, tão representativo aos cristãos e católicos no Brasil, Fórum procurou Leonardo Boff, que é uma das maiores referências no que tange à teologia e à Teologia da Libertação para analisar o momento político sob sua visão humanista e espiritual. Ex-sacerdote franciscano, Boff falou sobre religião, política e, claro, sobre o ex-presidente Lula.

“Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”, pontuou.

A entrevista começa com Leonardo Boff analisando as recentes declarações do Papa Francisco sobre golpes de Estado. Para o teólogo, não resta dúvidas: o pontífice mandou, sim, um recado direto ao Brasil.

“O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas”, revelou.

Quando convidado a mandar uma mensagem àqueles que sentem-se desiludidos com a situação do Brasil, Boff não tergiversou. “Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem”.

Confira.

Fórum – Leonardo, recentemente o Papa Francisco fez uma fala sobre como a mídia ajuda a manchar a imagem de lideranças e, assim, acontecem os golpes de estado. Muitos interpretaram essa fala como um recado ao Brasil. O que acha disso? Acredita que ele tem consciência da atual situação política brasileira?

Leonardo Boff – O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Na época do impeachment ele mandou uma carta pessoal à Dilma. Ela não quis publicá-la por achar que era algo privado quando, no meu entender, era altamente político, pois todos admiram este Papa.

Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas.

Fórum – Como você tem avaliado, em linhas gerais, o papado de Francisco? Acredita que ocorra uma mudança, de fato, com relação aos velhos dogmas da Igreja Católica ou as declarações de Francisco fazem parte apenas de uma estratégia para “melhorar” a imagem da Igreja?

Leonardo Boff – Esse Papa não tem nada do figurino dos Papas da tradição. Ele inovou em todos os sentidos. Antes de tudo, porque veio de fora da velha cristandade europeia em franca decadência. Basta dizer que na Europa vivem apenas 25% dos católicos do mundo, enquanto na América são 62% e os restantes na África e na Ásia. Esse Papa disse e repetiu muitas vezes que respeita os dogmas. Mas isso não é importante. Mais importante é apresentar um Cristo que ama a todos, também aos homoafetivos, e o que vale é o encontro com as pessoas, levando-lhes esperança e o fato de a misericórdia de Deus não ter limites.

Portanto, podemos sempre contar com Deus, viver sem medos, pois não existe condenação eterna, como repetiu algumas vezes. O curioso é que este Papa, como nenhum antes na história dos pontífices, tem atacado diretamente o capitalismo como um sistema anti-vida e assassino dos pobres. Ele tem lado, ao lado das vítimas deste sistema inimigo da vida da natureza e insensível face ao sofrimento da maioria da humanidade. Ele vem do caldo cultural da teologia da libertação na versão argentina que é libertação do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele introduziu este discurso no seio do próprio Vaticano e o tornou oficial.

Fórum – A Teologia da Libertação, junto aos trabalhos de base da igreja católica, ajudaram a consolidar o próprio PT e a esquerda brasileira após a redemocratização. Após o golpe e diante da conjuntura política no Brasil, aumento das desigualdades e perseguição dos movimentos sociais, acredita que a Igreja Católica possa voltar a ter um papel relevante no Brasil na construção de um novo caminho para as esquerdas e as camadas populares? Se sim, de que maneira?

Leonardo Boff – Sou da opinião que este Papa está criando uma nova genealogia de Papas que virão das partes mais numerosas e mais criativas da atual Igreja, quer dizer, do Grande Sul, do que chamávamos de Terceiro e Quarto Mundo. Ele tem consolidado um tipo de Igreja que está à altura dos problemas mundiais, especialmente a grande injustiça social mundial, a questão das ameaças que pesam sobre o planeta Terra. Ele está desocidentalizando a Igreja e também despatriarcalizando os estilos palacianos que a Igreja ainda apresenta. Ele despojou-se de tudo. Não foi viver no palácio pontifício, mas numa casa de hóspede. Ainda come com todos e diz com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”.

Quanto à Igreja da base, vale dizer as Comunidades Eclesiais de Base, os movimentos sociais nascidos no interior dessa Igreja como o MST, o CIMI (Centro Indigenista Missionário), que cuida dos problemas indígenas, a CPT (Comissão da Pastoral da Terra), que cuida das pastorais sociais, dos afrodescendentes, das mulheres, da infância e outros, todos esses movimentos ajudaram na fundação do PT. Não é que eles entraram no PT. Eles constituíram células e grupos do partido. Portanto, ajudaram a fundar o PT.

A convicção era e continua sendo: as políticas sociais dos governos Lula-Dilma realizavam os ideais que amadureceram nas bases de justiça social e de participação popular. Em dialeto cristão se diz: essas políticas para os pobres mostram os bens do Reino de Deus que são feitos de justiça, de participação, de solidariedade e de amor efetivo, especialmente para os mais invisíveis. Lula sempre reconheceu a importância deste fato.

Fórum – Qual a sua opinião sobre a indicação do ex-presidente Lula para o Prêmio Nobel da Paz? Que características ele carrega que o fazem merecedor do prêmio?

Leonardo Boff – Eu creio e assim também o confirmou o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, que Lula preenche todas as características para ganhar o prêmio Nobel da Paz. Principalmente pelas políticas sociais que permitiram que 36 milhões de pessoas saíssem da fome e da miséria e entrassem na sociedade organizada. E outros projetos que beneficiaram os mais vulneráveis. E, além disso, ele irrompe como uma liderança mundial única, já que vivemos num mundo sem grandes líderes que convoquem a humanidade para algo melhor do que agora temos, que é uma barbárie para as grandes maiorias do mundo. Mas por trás há sempre um jogo político, pois cada país tem os seus “heróis” que mereceriam esse título, o que duvido realmente.

Fórum – O senhor foi o primeiro que conseguiu autorização para visitar o ex-presidente Lula na categoria de “assistência espiritual”, que agora acontece todas as segundas-feiras. Qual a importância deste tipo de visita?

Leonardo Boff – Eu atendi a um pedido do próprio Lula, que é meu amigo já há mais de 30 anos. De tempos em tempos ele me chama junto com a minha companheira Márcia para um diálogo. Como não venho do campo político, nem sou membro do PT, ele tem muita confiança e gosta de ouvir opiniões de fora da política partidária. Eu fui junto com o portador do prêmio Nobel da Paz, o argentino Perez Esquivel. Segundo uma determinação da ONU, um portador deste título pode em qualquer país do mundo entrar nas prisões e visitar lugares de conflito. É a chamada Lei Mandela. Argumentamos junto à juíza Carolina Lebbos, que é o braço direito de Sérgio Moro, mas ela não quis nem saber. Alegou que isso não vale para o Brasil, no maior desrespeito a um portador mundialmente conhecido que é Adolfo Perez Esquivel. Tivemos que ir embora. Somente depois que se completaram 30 dias na prisão que a autoritária juíza permitiu que eu fosse visitá-lo. Começamos por aquilo que a Constituição ou a Justiça Penal prevê: que o encarcerado possa receber assistência espiritual. Não havia mais como negá-lo.

Fórum – Como o senhor se sentiu na primeira vez em que foi impedido de visitar o ex-presidente?

Leonardo Boff – Eu fiquei penalizado pela injustiça que essa proibição significa. Como religioso e teólogo fui cumprir o preceito evangélico que diz “estive preso e vieste me visitar”. A foto minha sentado à sombra da cabine policial na entrada da Polícia Federal girou o mundo. Dez minutos depois vinham mensagens de protesto de vários países da Europa e da América Latina. Muitos escreveram belos artigos sobre essa foto pois era altamente significativa.

Fórum – Espiritualmente falando, como está ex-presidente Lula? Ele está esperançoso?

Leonardo Boff – Encontrei o Lula surpreendente assim como o conhecemos. Nada desfigurado. Sorridente. Nos abraçamos e nos comovemos juntos. Eu era o primeiro, afora os filhos e os advogados, que ele encontrava. Ele sente a falta de contato com o povo. Mas se consola ao ouvir às oito horas da manhã o “Bom Dia Lula” e o “Boa Noite Lula” vindos do acampamento em frente ao edifício da polícia. E ele escuta perfeitamente. Isso o consola.

O maior consolo vem de dentro, pois diz que sua consciência não o acusa de nada. Não participou de nenhum roubo, não recebeu uma única propina. Chega a dizer: “se alguém disser que eu dei cinco centavos a alguém ou recebi cinco centavos de alguém é um mentiroso. Aprendi com a minha mãe Lindu ser sempre correto e nunca pegar nada dos outros”.

Espiritualmente, isso lhe dá tranquilidade. Mas revela muita indignação pela injustiça que lhe é feita. Ele fez um desafio e pediu que eu o dissesse publicamente: “Se o Moro apresentar uma única prova sobre a propriedade a mim atribuída do triplex quero ser condenado e preso”. Até hoje não apareceu nenhuma prova. Sente-se, com razão, vítima do ódio deste juiz, instruído nos Estados Unidos a praticar o lawfare, quer dizer, distorcer as leis e sua interpretação para condenar o acusado. Ninguém pode prender seus e os nossos sonhos. Mesmo preso é um homem livre. Nunca se resigna. Disse-me claramente: “não quero cair de pé. O que quero é não cair. E não vou cair como eles desejam”.

Fórum – Que mensagem o senhor enviaria ao leitor da Fórum que está desiludido com o país e indignado com a situação do ex-presidente Lula?

Leonardo Boff – A minha mensagem vem de Santo Agostinho, um dos maiores pensadores cristãos, nascido na África e bispo de Hipona, hoje Argélia, aí pelos anos 450 da atual era. Diz ele: “devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”. “A esperança”, dizia mais, “tem duas belas irmãs: a indignação contra as coisas erradas que vemos e a coragem para superá-las”.

Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem, coragem. Era o que o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns de São Paulo sempre repetia aos resistentes ao regime militar e aos que sofriam a violência do Estado terrorista.

Fórum – Se Lula saísse da prisão e fosse presidente do Brasil novamente, o que o senhor lhe recomendaria repetir enquanto governante e o que o senhor lhe recomendaria evitar ou mudar?

Leonardo Boff – Eu diria duas coisas e ele concordou dizendo: “Se for novamente Presidente, primeiro vou revogar as medidas antipopulares e antinacionais que os golpistas introduziram contra a própria Constituição”. Depois, isso ele o repetiu muitas vezes, iria radicalizar as política sociais unidas à uma consciência de cidadania e de participação. Em segundo lugar, eu diria que ele deveria manter permanente contato com o povo e os movimentos sociais para equilibrar as alianças que se vê obrigado a fazer no parlamento para poder governar. Ele não quer fazer o mesmo. Quer levar mais a fundo e radicalizar o combate à injustiça social e dar mais lugar aos colocados injustamente à margem, especialmente os afrodescendentes face aos quais temos uma dívida até hoje nunca paga.

Fórum – Como Leonardo Boff, em uma visão filosófica, definiria o Brasil de hoje?

Leonardo Boff – Minha visão é mais de uma ecologia integral na linha do que diz o Papa Francisco na sua encíclica “como cuidar da Casa Comum”. Acredito que dentro de pouco tempo toda a economia deverá passar pela ecologia, vale dizer, pelos bens e serviços da natureza. Estes estão se esgotando mais e mais. A Terra entrou no vermelho, o assim chamado The Overshoot Day, o dia da ultrapassagem dos limites suportáveis para o equilíbrio da Terra. Este ano foi no dia 2 de maio. Até o final do ano iremos tirar à força da dispensa da Terra para podermos viver e sobreviver e manter, de forma irracional, o consumo das elites consumidoras.

Um projeto infinito de acumulação não pode ser suportado por um planeta finito. Ou mudamos de paradigma e de hábitos ou vamos ao encontro de um caminho sem retorno. Mas o Brasil, no contexto do mundo, tem tudo para ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro. Aqui está a maior biodiversidade. Aqui está a maior reserva de água doce do mundo, 13%. Aqui estão as maiores florestas úmidas que equilibram os climas da Terra. Aqui vive um povo inteligente, hospitaleiro que mostra, no meio do sofrimento, alegria de viver, que festeja seus carnavais e o seu futebol, com uma arte invejável, que elabora uma música apreciada e imitada pelo resto do mundo.

Como Darcy Ribeiro dizia: podemos ser a Roma tropical tardia, na província mais bela e ridente da Terra. Estimo que o futuro da humanidade e da vida poderá passar pelo Brasil. Não porque o queremos, mas porque Deus nos deu tanta riqueza, diversidade e originalidade que podemos contribuir e garantir o futuro da nossa civilização e da Casa Comum que é a Terra.

Fonte:https://www.revistaforum.com.br/entrevista-exclusiva-com-leonardo-boff-devemos-manter-a-indignacao/

A crise da igreja Católica continua na Nigéria

download (1)O arcebispo Ignatius Kaigama, presidente da Conferência dos Bispos da Nigéria, está pedindo aos sacerdotes da diocese de Ahiara para aceitar um bispo nomeado por Bento XVI e confirmado por Francisco, embora não advenha do grupo étnico e linguístico majoritário da diocese. Ainda que alguns sacerdotes afirmem que estão prontos para cumprir o que quer que o papa decida, isso não significa que as queixas implícitas estejam resolvidas.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 23-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O arcebispo Ignatius Kaigama, presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, pediu aos sacerdotes e leigos da problemática diocese de Ahiara que “deixem as queixas de lado” e aceitem o bispo Peter Ebere Okpaleke, nomeado pelo Papa Bento XVI ainda em 2012 e que ainda não teve permissão de fazer parte da diocese por não ser do grupo étnico e linguístico majoritário.

“Não estamos felizes que a igreja de Ahiara tenha ficado de fora do sistema por todo esse tempo”, disse Kaigama à Agência de Notícias da Nigéria.

“Não estamos exatamente felizes que o nome da Nigéria esteja se espalhando por diferentes partes do mundo como pessoas desleais à autoridade do papa”, declarou no domingo, em entrevista na arquidiocese de Jos, localizada no “cinturão médio” da Nigéria.

Kaigama estava se referindo aos abalos provocados pelo ultimato emitido pelo papa Francisco em junho, que insistia que todos os sacerdotes na diocese de Ahiaraescrevessem uma carta pedindo desculpas por se recusar a aceitar a autoridade papal e receber Okpaleke como bispo.

O prazo para o envio da carta se encerrou em 9 de julho, e os que não enviaram enfrentam ameaça de suspensão. O pedido já havia sido feito pelo cardeal Fernando Filoni, da Congregação para a Evangelização dos Povos do Vaticano, que supervisiona os territórios missionários. O pedido foi enviado em uma carta datada de 24 de junho de 2014.

“Oramos fervorosamente para que o povo de Ahiara seja sensato e volte a ser uma Igreja baseada na obediência à autoridade de Deus”, disse Kaigama, no domingo, apelando aos sacerdotes e aos leigos para “deixar as queixas de lado e aceitar o bispo Okpalaeke para que o trabalho de Deus possa continuar”.

Desde o início da crise, não houve ordenações sacerdotais nem confirmações, pois ambas são tarefas exclusivas dos bispos.

De acordo com o fórum católico pro-Okpaleke de Mbaise, grande parte dos sacerdotes cumpriu o pedido do Papa Francisco e enviou a carta pedindo desculpas pela rebeldia, embora alguns tenham agido com reservas.

“Sobre a diretiva do papa de que devemos enviar uma carta individualmente expressando obediência e lealdade a ele e pedindo perdão por ter contribuído com a dor que sofreu devido à crise na diocese de Ahiara, todos os sacerdotes na diocese a cumpriram”, afirmou um dos sacerdotes ao Crux, no final de julho, sob a condição de permanecer anônimo.

“Ele é nosso pai, nossa lealdade a ele não pode ser comprometida de forma alguma”.

No entanto, pouco depois, acrescentou: “Mas esperamos que ele reavalie seu posicionamento e nomeie outro bispo”.

O padre David Iheanacho teve um discurso parecido, dizendo ao Crux que havia escrito a carta a Francisco, “pedindo perdão pela contribuição pessoal à dor que sofreu devido à crise. Prometi total lealdade a ele como pontífice supremo, sucessor de São Pedro e vigário de Cristo na Terra. Expressei minha vontade de aceitar quem quer que enviasse e tivesse designado para ser meu bispo”.

Ele afirma que todos os sacerdotes consentiram, porque o papa não “brinca” com ameaças de sanção. Também declarou que Francisco é muito amado em Ahiara, e que sua palavra é “lei para os sacerdotes e leigos da diocese”.

“O único problema é que todos nós entramos em um dilema terrível entre engolir uma amarga pílula de injustiça e obedecer ao Santo Padre”, disse ele, por telefone. “Não se engane, o dilema ainda existe, e não sei como vai se resolver. Estamos rezando para que o Espírito Santo ilumine o Santo Padre para tomar a decisão certa e resolver o problema em nossa diocese.”

Em texto no fórum, o leigo Mark C. Nwoga afirma que a crise atual de Ahiara e de outras dioceses, que enfrentam conflitos semelhantes, não resulta de um processo falido de nomeação de bispos, mas sim de uma falha entre os sacerdotes.

“Há alguns ‘sacerdotes profissionais, ao invés de vocacionais’, que não são tão adeptos da oração nem da piedade, mas muito demonstram abertamente uma visão e um estilo de vida mundanos”, afirmou.

A raiz do problema, segundo ele, é que alguns sacerdotes se comportam mais como “agitadores políticos, querendo ser nomeados bispos”.

A nomeação de Okpaleke foi recebida com protestos e abaixo-assinados pedindo por um bispo do clero local. Apesar da rejeição, ele foi ordenado bispo em maio de 2013, embora a posse formal ainda não tenha ocorrido.

jornal The Guardian da Nigéria informou, no sábado, que o bispo declarou que não está incomodado pela oposição contra a nomeação e que está aguardando a posse, cuja data ainda não foi anunciada.

Em discurso na celebração do 70º aniversário de um sacerdote de sua cidade natal, Okpaleke disse que não pode permitir que a crise o distraia da missão de servir a Deus: “o que estão dizendo não diz respeito à minha vocação; minha vocação vem de Deus e é declarada pela Igreja”.

 

http://www.ihu.unisinos.br/570988-nigeria-diocese-de-ahiara-deve-deixar-as-queixas-de-lado-e-aceitar-o-bispo

Papa Francisco pode fechar 163 paróquias , no estado de Imo na Nigéria

ahiaraPapa Francisco está pensando seriamente na possibilidade de fechar 163 paróquias na diocese católica de Ahiara, no estado de Imo, devido à crise prolongada gerada pela nomeação de Peter Okpalaeke como bispo.

A informação é publicada por The Nation, 20-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Sua nomeação, quatro anos atrás, após a morte do bispo Victor Chikwe, encontrou forte resistência dos padres do grupo étnico Mbaise e pelos leigos, o que gerou um impasse.

Uma figura crucial na Secretaria Católica da Nigéria confidenciou a um dos nossos correspondentes que o papa não teria outra escolha a não ser usar de sua autoridade caso o impasse continue.

Declarou que “o que está acontecendo em Ahiala é uma afronta jamais vista na história do catolicismo na Nigéria e na África“.

“A nomeação de um bispo jamais foi tão contestada. É uma pena e uma grande vergonha para o Secretariado Católico da Nigéria e para o papa.”

Segundo ele, como os gladiadores já indicaram que não vão voltar atrás, o papa teria que fechar as 163 paróquias da diocese.

“Considerando a paciência demonstrada, devemos concordar que não seria fora de contexto o papa agir agora.”

“De agora em diante, a qualquer momento, ele pode anunciar que as paróquias não estão mais sob a liderança do Vaticano. Nesse caso, poderiam ir para outro lugar.”

“O papa é a autoridade última da Igreja e nada fará ele se voltar a sentimentos étnicos primordiais”, afirmou a fonte, que pediu completo anonimato.

Ele sugeriu que alguns padres recalcitrantes que alimentam a oposição ao compromisso do bispado também podem ser depostos para servir como retaliação aos outros.

O tão discutido Okpalaeke, porém, declarou ontem que não está incomodado pela oposição à nomeação.

Disse estar aguardando a posse apesar de protestos da grupo étnico dos sacerdotes de Ahiara.

Ele falou durante a cerimônia de 70 anos do Monsenhor Johnbosco Akam em sua casa de campo de Uga, no Conselho de Aguata, estado de Anambra.

Segundo ele, “o que estão dizendo não diz respeito à minha vocação; minha vocação vem de Deus e é declarada pela Igreja”.

“Sou um sacerdote realizado. Onde quer que tenha me encontrado como padre, certamente verei a Deus no último dia. É a minha missão.”

Ele se pronunciou apenas quando as investigações revelaram que os padres adotaram novas medidas para combater a nomeação, dizendo não ser transparente.

Embora todos tenham escrito a carta de desculpas conforme foi exigido pelo Papa Francisco, como forma de punição por resistir à autoridade da Igreja, análises revelaram que eles decidiram ficar nos bastidores enquanto pediam que líderes leigos continuassem lutando.

Eles pesaram as consequências de desobedecer o Vaticano e mobilizaram os leigos para rejeitar Okpalaeke.

O presidente da Organização dos homens católicos da diocese de AhiaraGerald Anyanwu, disse a jornalistas que a diocese não está se rebelando contra o papa, mas exigindo justiça e equidade.

“Não estamos questionando a decisão do papa, mas não vamos aceitar Okpalaeke como Bispo.”

“Esse processo não seguiu os procedimentos estabelecidos para a nomeação de bispos.”

Outro membro dos leigos, Sebastian Eke, disse: “Somos a favor da justiça. Não vemos motivos por que alguém desta ou de qualquer outra diocese do estado de Imo não possa ser nomeado como bispo da diocese de Ahiara.”

“O que estamos dizendo é que não queremos Okpalaeke, e tentar forçá-lo a fazer parte da comunidade não é justo”.

A vice-presidente da Organização das Mulheres Católicas (Catholic Women Organisation – CWO) da Diocese, Dra. Liona Ohanu, que falou em nome das mulheres, pediu que o Vaticano ouvisse a demanda das pessoas.

Ela afirmou que “respeitamos o papa e não podemos desobedecer sua diretiva como nosso Chefe Supremo, mas a questão de Okpalaeke é uma exceção e ele não será bem recebido como bispo desta diocese. O papa pode nomear qualquer outra pessoa, de qualquer lugar, e vamos aceitar, menos Okpalaeke.”

Enquanto os leigos protestavam, os sacerdotes se reuniam em um dos edifícios da catedral, de onde monitoravam o desenvolvimento e a publicação das diretrizes, aparentemente operando nos bastidores para não enfurecer ainda mais o Vaticano.

Mas o principal líder católico em Abuja disse que o Papa poderia agir a qualquer momento para impedir “o constrangimento que esses jingoístas étnicos causaram à Igreja”.

Papa Francisco mostrou aborrecimento com autoridades católicas da Nigéria

D. Ignatius Kaigama, Presidente da Conferência Episcopal da Nigéria – ANSA

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O Papa Francisco exprimiu dor e tristeza pela Diocese de Ahiara, na Nigéria, cujo bispo, D. Okpaleke, regularmente nomeado há dois anos, não ter ainda sido reconhecido na Diocese. A notícia foi dada pelo Presidente da Conferência dos Bispos da Nigéria, D. Ignatius Kaigama, na sua página web, e retomada pela agencia Fides.

Quinta-feira passada, o Papa recebeu em audiência uma delegação da Igreja na Nigéria, ocasião em que solicitou explicitamente os eclesiásticos da Diocese de Ahiara a manifestarem obediência, sob pena de suspensão a divinis. “Quem se opõe à tomada de posse de D. Okpaleke quer destruir a Igreja e comete pecado mortal” – disse o Papa. Francisco acrescentou que a Diocese de Ahiara  “está desde há anos num estado de viuvez por o bispo ter sido impedido de tomar posse”.

A delegação recebida pelo Papa era formada pelo Cardeal Onaiyeken, arcebispo de Abuja e Administrador Apostólico da Diocese de Ahiara, por D. Kaigama, Presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, e pelo próprio D. Okpaleke, Bispo nomeado para Ahiara.

Evocando a parábola dos vinhateiros assassinos, o Papa comparou essa Diocese à mulher “sem esposo, que perdeu a sua fecundidade e não pode dar fruto”.  Quem se opôs à tomada de posse do bispo – continuou Francisco – quer destruir a Igreja. “Isto não é permitido. O Papa não pode ficar indiferente”.

Francisco louvou a paciência mostrada pelo bispo e confessou ter mesmo pensado em suprimir essa diocese, mas “a Igreja é mãe e não pode abandonar tantos filhos” – afirmou. O Papa declarou-se triste por os sacerdotes serem “manipulados”, talvez mesmo do estrangeiro e de fora da Diocese: “não se trata de um acaso de tribalismo – precisou – mas de apropriação da vinha do Senhor”.

“Quem ofende a Igreja comete pecado mortal” – daí a solicitação a cada eclesiástico incardinado na Diocese de Ahiara, mesmo se residente no estrangeiro, a pedir perdão por escrito ao Papa no prazo de 30 dias sob pena de suspensão a divinis e a exclusão definitiva do múnus sacerdotal. Cada um deve escrever singularmente e pessoalmente – precisou o Papa – e manifestar total obediência” ao sucessor de Pedro”. Na missiva os eclesiásticos devem exprimir a própria disposição em aceitar o bispo nomeado.

Consciente de poder parecer “muito duro”, Francisco explicou, todavia, que o povo está escandalizado e que “Jesus recorda que quem escandaliza, deve assumir as consequências”. “Talvez – conclui o Papa – alguém foi manobrado sem um pleno conhecimento da ferida infligida à comunidade eclesial”. O Papa aceitou o pedido de conceder audiência no Vaticano com os eclesiásticos da Diocese e ao bispo de Ahiara quando a questão for resolvida.

http://pt.radiovaticana.va/news/2017/06/10/bispo_de_ahiara_continua_sem_poder_tomar_posse/1318244

Papa Francisco aceita convite de líderes religiosos do Sudão do Sul para visitar país

 
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CIDADE DO VATICANO (Reuters) – O papa Francisco aceitou um convite para visitar o Sudão do Sul e pregar a paz no país assolado por lutas étnicas e políticas, disseram líderes religiosos depois de conversarem com o pontífice nesta quinta-feira.
“Ele aceitou o convite e disse que em princípio realmente quer ir”, disse o reverendo Peter Gai Lual Marrow, da Igreja Presbiteriana do Sudão do Sul.
 
Marrow, Paulino Lukudu Loro, arcebispo católico da capital do Sudão do Sul, Juba, e o arcebispo episcopal Daniel Deng Bul Yak tiveram conversas com o papa, que havia lhes pedido que fossem ao Vaticano discutir a situação em sua terra.
 
O Sudão do Sul, país produtor de petróleo que se tornou independente em 2011, mergulhou em uma guerra civil em dezembro de 2013, quando uma disputa entre o presidente, Salva Kiir, e seu vice demitido, Riek Machar, degenerou em combates, muitas vezes envolvendo grupos étnicos. Os dois lados vitimaram civis, dizem grupos de direitos humanos.
Um pacto de paz de 2015 aparentemente encerrou a luta, mas foi violado com frequência, e grandes confrontos voltaram a irromper em julho.
 
O papa também precisaria de um convite do governo para realizar a visita. A maioria dos sul-sudaneses seguem crenças cristãs ou animistas tradicionais.
Nesta semana, o alto comissário de Direitos Humanos das Nações Unidas alertou que o Sudão do Sul está testemunhando um crescimento no discurso de ódio e de incitação à violência contra certos grupos étnicos, o que pode resultar em atrocidades em massa se o governo não agir.
(Por Philip Pullella)
 

Gabão: Papa mostra preocupação com «crise política»

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Resultados das eleições presidenciais são contestados por líder da oposição
 
Cidade do Vaticano, 11 set 2016 (Ecclesia) – O Papa Francisco mostrou hoje a sua preocupação pela “crise política” no Gabão, após as eleições presidenciais no país africano, e apelou ao diálogo entre as fações em conflito.
 
“Gostaria de pedir uma oração pelo Gabão, que está a atravessar um momento de grave crise política”, pediu aos peregrinos e visitantes reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, para a recitação da oração do ângelus.
 
Francisco rezou em particular pelas vítimas dos confrontos e os seus familiares.
 
O presidente do Gabão, Ali Bongo foi reeleito para um segundo mandato de sete anos, com 49,80% dos votos contra 48,23% do líder da oposição Jean Ping, que contesta o resultado.
 
O anúncio da reeleição de Bongo, esta quarta-feira, gerou uma série de tumultos e pilhagens em várias cidades do país, provocando várias mortes e detenções.
 
O Papa associou-se aos apelos dos bispos católicos no país africano para “convidar todas as partes a recusar qualquer violência e a ter sempre como objetivo o bem comum.
 
“Encorajo todos, em particular os católicos, a ser construtores da paz no respeito pela legalidade, no diálogo e na fraternidade”, concluiu.