Racismo, inclusão e ascensão de negros nos bancos

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Morre Alberto Caó, autor da lei que tornou o racismo crime inafiançável

por Redação — publicado 05/02/2018 12h28
Nascido em 1941, em Salvador, Caó foi deputado federal por dois mandatos, entre 1983 e 1991, e participou da Assembleia Nacional Constituinte
Divulgação
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Militante do movimento negro, advogado e jornalista foi autor da chamada Lei Caó

Faleceu no domingo 4, aos 76 anos, o jornalista, advogado, militante do Movimento Negro e ex-deputado Carlos Alberto Caó de Oliveira, autor da chamada Lei Caó, que transformou o preconceito de raça, cor, sexo e estado civil em contravenção penal, e a emenda constitucional que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível.

Nascido em 1941, em Salvador (BA), Caó foi deputado federal pelo PDT por dois mandatos, entre 1983 e 1991. Em seu segundo mandato, participou da Assembleia Nacional Constituinte. Caó foi autor na Lei 7.437/1985, que mudou o texto da Lei Afonso Arinos, de 1951, tornando contravenção penal o preconceito de raça, cor, sexo e estado civil. O texto ficou conhecido como Lei Caó.

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Deputado constituinte pelo PDT, foi responsável pela inclusão na Carta Magna de 1988 do inciso ao Artigo 5º que tornou racismo crime inafiançável e imprescritível. Mais tarde, foi autor da Lei 7.716/1989, que regulamentou o texto constitucional determinando a prisão para o crime de preconceito e discriminação de raça ou cor.

Entre os casos punidos pela legislação, está impedir que cidadãos negros entrem em restaurantes, bares ou edifícios públicos ou utilizem transporte público (pena de reclusão de um a três anos).

Além dos crimes de racismo, também há a conduta chamada de injúria racial (artigo 140 do Código Penal), que se configura pelo ato de ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. A injúria racial se dirige contra uma pessoa específica, enquanto o crime de racismo é dirigido a uma coletividade.

Antes, como líder estudantil, foi presidente da União de Estudantes da Bahia e vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Como jornalista, passou pelas redações do Diário Carioca, da Tribuna da Imprensa, de O Jornal, do Jornal do Comércio, da TV Tupi e do Jornal do Brasil.

 

Fonte:https://www.cartacapital.com.br/sociedade/morre-alberto-cao-autor-da-lei-que-tornou-o-racismo-crime-inafiancavel

Olivia Santana é vítima de racismo e agredida verbalmente durante evento no resort em Salvador

OLÍVIA SANTANA REGISTROU QUEIXA E FEZ UMA DECLARAÇÃO NAS REDES SOCIAIS

Na tarde deste sábado (3), a Secretaria Estadual de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, Olívia Santana participava do evento ‘Folia do Batom’, quando uma senhora apertou sua mão e disse que ali não era seu lugar. Ainda disse em tom de acusação que ela era uma “comunista” e por isso não deveria estar no Hotel Catussaba. Gritava que a secretária voltasse para a favela.

Olívia Santana registrou queixa e fez uma declaração nas redes sociais sobre o episódio.

“Agradeço a todas pelas inúmeras manifestações de solidariedade que recebi. Temos que por fim ao racismo e a toda forma de intolerância que cada vez mais tem caracterizado estes tempos sombrios pelo qual passamos. Nunca vou esquecer o violento aperto de mão e as palavras duras, carregadas de ódio, das senhoras Neilda Giroldelli e Maria Antonieta Cruz Moraes que me “ordenavam” voltar para a favela. Sei o quanto é difícil para pessoas fascistas suportarem a existência de uma mulher negra, secretária de Estado. Felizmente há outras além de mim, embora poucas. Elas não vão deter o nosso avanço. Mas por mais experiência de luta que eu tenha, confesso o quanto fiquei perplexa em vê -las proferindo as ofensas, mesmo após a chegada dos policiais. Assim como o machismo, o anticomunismo, a ideologia racista captura e deforma mentes. Essas pessoas precisam aprender que racismo é crime! Precisam pagar por seus ataques. A única coisa que me interessa neste caso, é Justiça”, disse em sua página do Facebook

Grada Kilomba:”O Brasil ainda é extremamente colonial”

Eron Rezende

Escritora, performer e pesquisadora, Grada Kilomba discute em sua obra racismo e memória - Foto: Adilton Venegeroles
Escritora, performer e pesquisadora, Grada Kilomba discute em sua obra racismo e memória
Adilton Venegeroles

Grada Kilomba nasceu em Portugal, cresceu em São Tomé e Príncipe (uma das ex-colônias portuguesas na África) e viaja o mundo apresentando seus trabalhos – videoinstalações, performances e produções literárias – que versam fundamentalmente sobre racismo e memória.

No Brasil, onde integrou a 32ª edição da  Bienal de São Paulo, encerrada em dezembro último, apresentou a série de vídeos do seu “Projeto Desejo” e diz ter encontrado “um país fraturado”. “Há uma história de privilégios, escravatura e colonialismo expressa de maneira muito forte na realidade cotidiana”, explica. “E é espantoso ver a naturalidade com que os brasileiros conseguem lidar com isso”. Escritora, performer e professora da Universidade Humboldt – a mais antiga e uma das mais tradicionais de Berlim, onde vive atualmente –, Kilomba é autora dos livros Plantations memories – episodes of everyday racism (2008), onde conta suas histórias pessoais como mulher e negra, e Performing knowledge (2016), no qual trata da necessidade de “descolonizar os pensamentos”. “Muitas vezes, nos dizem que nós somos discriminados porque somos diferentes. Isso é um mito. Não sou discriminada por ser diferente, mas me torno diferente justamente pela discriminação que sofro”.

Nesta entrevista à Muito, concedida durante a residência artística que realiza  no Instituto Cultural Brasil-Alemanha (Icba), ela fala sobre racismo e outros “ismos” que marcam o mundo contemporâneo: “O branco não é uma cor. O branco é uma definição política que representa os privilégios históricos, políticos e sociais de um determinado grupo. Um grupo que tem acesso à estruturas e instituições dominantes da sociedade. Branquitude representa a realidade e a história de um determinado grupo”.

Na Bienal de São Paulo, a senhora apresentou o Desire Project [Projeto Desejo], uma série de vídeos que indicam a presença de um sujeito sem voz, que é silenciado pela história. Vivemos num momento em que esse silêncio já foi quebrado?

Esse silêncio tem sido quebrado pontualmente. Mas não existe realmente uma linha contínua. Ele é quebrado por pensadores, por intelectuais e por artistas, que são exceções. A palavra que batiza o projeto – desejo –  vem de uma vontade de expressar o que ainda não é expressado: o que nós queremos e o que é, de fato, importante para nós. Os sujeitos historicamente silenciados, como os negros, as mulheres e os gays, estão muito treinados a dizer o que não querem. Somos contra o racimo, o sexismo e a homofobia. Mas é muito importante também  criar novas agendas, criar novos discursos. Como não nos perguntam o que nós desejamos, isso precisa ser colocado por nós. Qual é o caminho que eu quero seguir? Qual é o vocabulário que eu quero usar? Como eu quero me tornar visível? Como eu quero contar a minha história? Parte do processo de descolonização é se fazer essas questões. E isso integra um processo de humanização, porque o racismo, por exemplo, não nos permite ser humanos. O racismo nos coloca fora da condição humana, e isso é muito violento.

A senhora mora e trabalha, hoje, em Berlim, na Alemanha. Considera que a tomada de consciência de sua identidade negra é maior numa cidade predominantemente branca? 

Berlim é uma cidade que não é bonita esteticamente, comparada a Paris ou Lisboa, mas é uma cidade que te leva à reflexão e ao pensamento. Isso me permitiu focar no que sou e em como quero construir o meu trabalho. Talvez em outra cidade, em outro contexto, isso não acontecesse ou fosse algo retardado. Escrevo e falo como uma mulher e artista negra. Mas, por outro lado, Berlim é uma cidade cosmopolita e eu estou em contato com tantas pessoas diferentes, de movimentos politizados distintos, que isso cria um outro discurso em mim. Eu acabo não tão focada em ser mulher e negra, embora isso faça parte da minha identidade.

Países sem passado escravocrata, como Alemanha, são identificados como territórios mais tolerantes diante da questão negra. Percebe dessa forma?

Não. A questão racial é um problema, mesmo na Alemanha, que não teve em seu território o regime escravocrata. Mas a Alemanha colonizou muitos países e tem também um passado escravocrata muito brutal. Mas essa história foi silenciada por muito tempo. O primeiro genocídio do século 20 aconteceu na Namíbia e foi realizado pela Alemanha [entre 1904 e 1908]. Mais de 100 anos depois do início da tentativa de extermínio das tribos Herero e Nama é que o governo reconheceu, oficialmente, que o país havia cometido um genocídio e fez as compensações devidas. Na Namíbia, por exemplo, os descendentes dos sobreviventes tiveram que decidir o que fazer com os crânios de parentes que haviam sido enviados a Berlim para experiências científicas. A questão é que a história colonial alemã é muito mal documentada. Mas todo o genocídio, a exploração e a violência que está por trás de um processo colonial está, também, na Alemanha. Só muito recentemente é o que país parece ter se dedicado a enfrentar essa questão. Primeiro, na forma de dor. Depois, na forma de vergonha. E isso tem permitido uma reflexão.

 

A história colonial é uma ferida profunda, muito infectada, que de vez em quando sangra. E só quando sangra é que fazemos um curativo

Grada Kilomba

No Brasil, há o mito da democracia racial e uma política de eufemismos. Em sua opinião, como podemos enfrentar o racismo nessa situação?

Penso que a história colonial é uma ferida muito profunda, muito infectada, que de vez em quando sangra. E só quando ela sangra é que nós vamos lá e fazemos um curativo. Não há um tratamento contínuo dessa ferida. E a história colonial já tem 500 anos. O racismo, no Brasil, é muito presente. O Brasil é extremamente colonial. Existe toda uma estrutura colonial arraigada neste país. A arquitetura é um exemplo disso. Há uma porta da frente e uma porta dos fundos. Isso eu só vi aqui no Brasil. E as portas do fundo e as da frente possuem sujeitos diferentes. E essa arquitetura não foi construída no século 19, mas nos anos 1980, 1990. E aqui há um senhor que abre a porta, um senhor que conduz o carro, uma senhora que limpa… Estes são serviços completamente coloniais. Como é possível ter tantos corpos negros prestando serviços dentro de uma estrutura assim? O branco de hoje não é mais o responsável pela escravidão, mas ele tem a responsabilidade de equilibrar a sociedade em que vive. Ninguém escapa do passado.

A senhora já disse certa vez que uma das grandes fantasias das pessoas brancas é poder escapar da sua branquitude…

É que o branco não é uma cor. O branco é uma definição política que representa os privilégios históricos, políticos e sociais de um determinado grupo. Um grupo que tem acesso à estruturas e instituições dominantes da sociedade. A branquitude representa a realidade e a história de um determinado grupo. Quando falamos sobre o que significa ser branco, falamos de política e não de biologia. É curioso quando as pessoas  falam em “racismo reverso”, porque as pessoas que excluem, que dominam e que oprimem não podem ser, ao mesmo tempo, vítimas dessa opressão. Mas elas, certamente, desenvolvem um sentimento de culpa em relação a isso. O que muitas vezes acontece é que, como o sentimento de culpa é tão avassalador, o agressor passa à vítima e transforma a vítima em seu agressor. Isso permite que o agressor se liberte da ansiedade que o seu próprio racismo provoca. Uma pessoa negra jamais teria esta escolha. Sob esse aspecto, penso que  é impossível escapar da branquitude e daquilo que ela realmente representa.

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Como transformar essa culpa que você menciona em algo produtivo?

Trabalhar o próprio racismo é um processo psicológico e não tem nada a ver com moralidade. As pessoas brancas muitas vezes perguntam: ‘Sou racista?’. Essa é uma questão moral, que não é realmente produtiva, porque a resposta será sempre: ‘Sim’. Temos que entender que somos educados a pensar em estruturas coloniais e racistas. A pergunta deveria ser: “Como eu posso desconstruir meu próprio racismo?”. Essa seria uma questão produtiva, que já se opõe à negação e inicia um processo psicológico. A questão, hoje, não é se livrar da branquitude, mas conseguir se posicionar novamente dentro dessa branquitude. Tem a ver com a forma como uma pessoa que tem acesso ao poder utiliza esse poder para criar uma nova agenda e recontar a história. Nós não podemos fugir da história que nós temos, mas podemos nos posicionar com um novo olhar.

Quando Barack Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos, a senhora escreveu sobre a importância de termos  pessoas negras no poder, criando imagens positivas para outras pessoas negras. Como vê a ascensão de Donald Trump e da extrema direita europeia?

Às vezes tenho a impressão de que vivemos numa atemporalidade, em que  o passado está sempre no presente. Nós vivemos no presente, mas o passado está sempre sendo construído. E a mudança parece algo muito pontual. O caso de Obama, sucedido por Trump, é um exemplo disso. A estrutura na qual a sociedade se forma é conservadora. O mundo vive um dilema com as três dimensões do tempo: o passado, o presente e o futuro, sem parecer, de fato, alcançar esse futuro. Há um mês, fiz um trabalho chamado “Ilusões”, em que reencenei o mito de Narciso (castigado a só conseguir amar a si próprio) e de Eco (castigada a viver repetindo o que os outros diziam), fazendo um paralelo desses mitos com nossa sociedade contemporânea – que é narcisista, branca e patriarcal. Há uma repetição infinita dessa imagem colonial, branca, patriarcal, que parece apaixonada por si mesma e obstinada a idealizar a si mesma, e que não vê mais nada diante de si, a não ser sua própria representação. É uma representação onde as outras pessoas simplesmente não existem. Donald Trump foi apoiado por boa parte do eleitorado feminino. Um eleitorado que ele explicitamente insulta. Nós somos leais ao passado, à figuras paternas e discriminatórias. Nós apoiamos figuras que excluem. Uma parceria entre Eco e Narciso que não é quebrada.

Grada KilombaEm muitos trabalhos, a senhora alerta para o risco de ver as coisas de um único ponto de vista, mais precisamente sob o estereótipo branco dominante. A globalização e a tecnologia lançaram a promessa de ajudar a combater essa visão única. Acredita que isso tem acontecido?

Em parte. A tecnologia nos deu opções e acesso a histórias diversas. Se alguém quiser, hoje mesmo, poderá ler os jornais da África do Sul. Mas, ao mesmo tempo, a tecnologia também lhe permite assinar apenas as notícias do seu bairro, da sua rua, por exemplo, e isso é tudo o que chegará. A tecnologia, portanto, não resolveu de fato o problema. O filtro-bolha e esse isolamento de grupos que pensam diferente, muito presente nas redes sociais, são consequências de nossa aprovação para notícias e opiniões que reforcem apenas as nossas crenças preexistentes. Consumir informações que confirmem nossas ideias de mundo é simples e até mesmo  prazeroso. Mas consumir informações que nos desafiem a pensar novas formas ou a enfrentar as  nossas arrogâncias é frustrante e muito difícil.

No livro Plantation Memories – Episodes of everyday racism a senhora não aborda o racismo do ponto de vista político ou histórico, mas do ponto de vista pessoal, quase psicológico. Por que a opção?

Quando eu decidi escrever, eu quis fazer um livro que eu nunca tinha lido. Nunca se falam das pessoas e o que o racismo faz com elas. Quando falamos sobre racismo, geralmente adotamos uma perspectiva que é macropolítica. Realidades, pensamentos, sentimentos e experiências das pessoas negras são ignorados. Isso é exatamente o que eu queria ter no centro deste livro, o nosso mundo subjetivo. Quando escrevi Plantations Memories, eu estava interessada em olhar para as minhas feridas e para as feridas de muita gente. Dar ênfase a uma dimensão traumática do racismo, a uma violência diária que reencena um trauma colonial e que nos emudece. Para mim, era muito importante coletar histórias do dia a dia, que ninguém parece levar a sério, mas que são violentas e que levam ao silêncio. grada1

Um futuro sem racismo é possível?

Não agora. Não sem racismo e sem outros “ismos”. Porque nós somos educados diariamente a pensar de forma dominante. O fato de Obama ser presidente não significou que o racismo tenha terminado, e o fato de Angela Merkel ser chanceler não significa que chegamos ao fim do sexismo. Mas antes de pensar num mundo sem “ismos”, a gente precisa pensar como é possível desconstruí-los. Como, por exemplo, é possível quebrar a cadeia de racismo que nos acompanha diariamente. É sempre uma questão ligada à realidade e ao agora.

Fonte:http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1829494-o-brasil-ainda-e-extremamente-colonial

Hipermercado Extra multado por racismo contra criança

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Supermercado terá de pagar multa por

Consumidor, de 10 anos de idade, foi conduzido a uma sala, desacompanhado de um responsável

POR O GLOBO

 

RIO — O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ/SP) manteve multa imposta pelo Procon-SP ao Hipermercado Extra por submeter uma criança a constrangimento para comprovar suas compras. Segundo os autos do processo, a empresa teria permitido que um funcionário conduzisse um consumidor de 10 anos de idade, de cor negra, desacompanhado de um responsável, ao interior de uma sala no Hipermercado Extra da Marginal Tietê, para prestar esclarecimentos sobre possível furto a ele atribuído. O consumidor, no entanto, portava a nota fiscal dos produtos que trazia consigo, tendo sido constrangido a permanecer confinado naquela sala, onde foi inquirido por funcionários. Diante da prática considerada abusiva, o Procon-SP aplicou multa de R$ 458 mil.

De acordo com a relatora do processo, Flora Maria Nesi Tossi Silva, o fato de a conduta praticada nas dependências do Hipermercado ensejar eventuais penalidades administrativas a serem aplicadas pela prática de atos de discriminação racial não retira a legitimidade da Fundação Procon-SP para apurar e sancionar as condutas que violam o CDC, considerando a esfera de atuação distinta de ambas as frentes.

“De um lado ocorre a apuração de crime de racismo e segregação da pessoa negra, enquanto de outro a apuração de abuso às práticas consumeristas. Portanto, não há que se falar na ocorrência de “bis in idem”, no caso concreto”, aponta a relatora.

Conforme ela anotou no acórdão, a empresa obriga-se a dispensar tratamento digno às pessoas, a fim de assegurar os direitos básicos dos consumidores e proteção destes contra práticas abusivas ou ilegais:

“É evidente a competência formal e material do Procon-RJ para o exercício do poder de polícia administrativa, aplicando as penalidades cabíveis na defesa do consumidor.”

Sobre o valor em si da multa, a desembargadora considerou que não se verifica no caso concreto violação aos princípios da razoabilidade, proporcionalidade, nem tampouco caráter confiscatório da penalidade imposta. E assim negou provimento ao recurso de apelação da autora, decisão unânime da 13ª câmara de Direito Público.

Procurado pela reportagem, o Extra informa que o caso ainda está sob judice e que, portanto, não pode comentá-lo.

fonte: https://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/supermercado-tera-de-pagar-multa-por-constranger-crianca-negra-comprovar-compras-22123958#ixzz4zooA1WfL
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Conversa de Waack revela o racismo incorporado no Brasil

Os ataques afetam diretamente os tons mais escuros de pele

Por Edilson Nascimento

A conversa de Willian Waack, jornalista da Rede Globo, revela o que é bem claro no Brasil, o racismo incorporado nas relações sociais. Esse assunto sempre provoca diferentes reações, alguns nem acreditam que exista, embora já se encontre toda uma legislação voltada para o combate a injuria e ofensa racial.

O fato é que o grau de sensibilidade de percepção em relação aos ataques racistas, vai ser diretamente proporcional a tonalidade da cor da pele da pessoa, ou seja, quanto mais escura, consequentemente mais afetada com as insinuações e comentários, que nem sempre são objetivos e escancarados por conta da lei de injuria e ofensa racial.

As brincadeiras, piadas e conversas revelam o quanto ainda precisamos evoluir em relação as relações étnicas no Brasil. A colonização ainda acorrenta, aprisiona almas e espíritos de dominados e dominadores. A estrutura de uma emissora de televisão é um exemplo muito evidente da divisão de poder na sociedade.

Afirmo isso por ter trabalhado 13 anos na afiliada da Rede Globo aqui no Piauí. E, como afropiauiense ter começado nessa empresa bem na base de tudo. Na época uma equipe de externa era formada por 5 trabalhadores, que saiam em um Fiat Uno. Era composta por um motorista, um iluminador, um operador de VT, um cinegrafista e um repórter.

Nessa composição eu era o “menos importante”, o iluminador, estava sempre atrás de tudo, tinha que procurar a tomada, na hora de sair também as vezes atrasava a equipe. Não havia oportunidade para manifestar nenhuma opinião, isso porque no imaginário funcional e estrutural da coisa, “os operadores não pensam”. Essa situação me indignava e eu era tido por alguns como o recalcado, o problemático.

E as pessoas mais claras conversam nos bastidores, falam de seus desejos, de suas experiências, mas aqueles mais escuros ficam apenas espiando, muitas vezes porque as suas vivências são ridicularizadas por aqueles que estão em postos de destaque nas instâncias sociais mais privilegiadas.

O menosprezo acontece também nas brincadeiras, nas piadas. Essa manifestação de Waack é café pequeno diante de tantas injurias e ofensas que já presenciei em relação a condição do afrodescendente que sonha, que almeja algo de diferente na sociedade.

E, particularmente, acredito que as leis judiciais colaboram, mas não resolvem o problema.  O racismo acontece de diferentes formas e nem sempre temos como comprová-lo. A sociedade brasileira precisa evoluir para entender que a colonização é um grande mal e que a espécie humana é única.

Diante de tudo, cabe a ideia de Franz Fanon quando afirma que todos os seres humanos são infelizes, se engana quem pensa que apenas os negros sofrem. Os brancos também oprimem por falta de uma orientação adequada de humanidade. O racismo é um grande mal e precisa ser encarado com maior clareza. Não basta punir, temos de pensar e conversar a respeito de seus males em todos os espaços sociais.

http://www.meionorte.com/blogs/edilsonnascimento/conversa-de-waack-revela-o-racismo-incorporado-no-brasil-325928

Frente Favela Brasil :”As famílias negras hoje mobilizam R$ 1,5 trilhão por ano.”

Assim surgiram os Panteras Negras, pelo poder ao povo

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Por ALMA PRETA

Em 15 de Outubro de 2017, o partido dos Panteras Negras atinge a marca de 51 anos de sua fundação. Apesar do fim do grupo datar de 1982, e os últimos anos dos Panteras terem sido de uma entidade com poucos seguidores, o legado e a influência de uma das principais manifestações políticas da comunidade negra no século XX permanecem.

Figuras como Huey P. Newton, Kathleen Cleaver, Bobby Seale, Ericka Huggins, Eldridge Cleaver e Fred Hampton compõem o imaginário do ativismo anti-racista em todo mundo.

Alma Preta conversou com pesquisadores, ativistas e com o ex-Ministro da Cultura dos Panteras Negras, Emory Douglas, para entender quais foram as influências, fases, e singularidades que compõem a história do partido.

Raquel Barreto, a primeira pesquisadora a se debruçar sobre o tema no doutorado no Brasil, foi outra fonte importante. A doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que as pessoas dialogam com muita paixão sobre os Panteras Negras, que há em torno da organização ares míticos, e que é preciso compreender os diferentes momentos da entidade e a diversidade política do grupo.

O surgimento

A década de 1960 viu as nações do chamado “terceiro mundo” se rebelarem. A Guerra Fria colocou nos lados opostos os modelos econômicos capitalista, representado pelos Estados Unidos da América (EUA) e a Europa Ocidental, e o socialismo, figurado pela antiga União Soviética (URSS), China, e na América Latina, por Cuba. O tensionamento entre as propostas políticas capitalistas e socialistas estimulou o crescimento de organizações de cunho marxista em todas as partes do mundo.

Algumas das experiências políticas desse período histórico vão compor o imaginário dos Panteras Negras. Entre elas, destaque para a Revolução Cubana, de 1959, coordenada por Che Guevara e Fidel Castro, e para os movimentos que lutavam pelo fim do domínio europeu no continente africano. Franz Fanon, psicanalista e um dos nomes que se mobilizou na luta contra o colonialismo francês e pela liberdade da Argélia, era outra grande referência para o partido.

A Guerra Fria propiciou um capítulo à parte para o fortalecimento do imaginário revolucionário dos Panteras Negras, a Guerra do Vietnã. A pequena nação asiática impunha derrotas bélicas à principal potência militar do mundo. A mensagem deixada pelos vietcongues de que “sim, é possível derrotar os EUA” vai motivar as ações políticas de parte de juventude negra americana da época.

A justificativa dos Estados Unidos para atacar o Vietnã e outras nações no mundo era e ainda é marcada pela ideia de levar a liberdade para fora do país. Essa premissa foi questionada pelos Panteras Negras, porque para eles, a comunidade negra era uma colônia dentro dos EUA e não gozava de liberdade e nem de direitos.

O pedido de mudanças da juventude nos anos 1960 também vai inflar os Panteras. A Guerra do Vietnã motivava o dilema “Não faça guerra, faça amor”, na mesma medida em que crescia a segunda onda do feminismo e os movimentos de contra-cultura se espalhavam pelo mundo, como o Hippie e o de estudantes na França.

“A imaginação histórica do momento, 1966, permitia sonhar em mudanças revolucionárias e transformadoras”, afirma Raquel Barreto.

Emory Douglas, ministro da Cultura dos Panteras Negras, que ingressou no Partido em 1967, era o responsável pelo jornal The Black Panther e pela identidade visual da organização. Em entrevista ao Alma Preta, o ex-integrante do Comitê Central dos Panteras Negras diz que a produção artística do movimento bebeu das mesmas fontes que construíram a linha política do grupo.

Seus desenhos e traços foram influenciados por aquilo que era produzido pelos artistas dos movimentos políticos de libertação na África, Ásia, América Latina e da Palestina, e também pelas produções da comunidade negra americana.

“Todas esses movimentos influenciaram meu trabalho. Mas no partido dos Panteras Negras, a arte era um reflexo da comunidade. Então o impacto e a influência também vinha da comunidade, ao ouvir os problemas deles, as dores, e os sofrimentos”, conta Emory Douglas.

No ambiente interno, os EUA viviam momentos de mudanças. Em 1964, o movimento pelos direitos civis norte-americanos, liderado por Martin Luther King Jr., havia conquistado para os cidadãos negros os mesmos direitos concedidos aos cidadãos brancos. Na prática, era o fim das Leis Jim Crow, legislação que permitia e garantia na constituição a segregação racial entre brancos e negros.

https://br.noticias.yahoo.com/assim-surgiram-os-panteras-negras-pelo-poder-ao-povo-154553289.html