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Entidades do Movimento negro entregam carta ao Presidente da Câmara dos Deputados

Carta de entidades do movimento negro ao Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia

Fotos = Mariana Belmont

Senhor Presidente,

Historicamente, o Estado brasileiro tem acirrado, em vez de eliminar, os padrões de desigualdade e discriminação a que está submetida a população negra brasileira.

Recentes declarações de parlamentares e de membros do poder executivo, bem como a proposição de determinados projetos de lei, indicam o agravamento deste quadro.

Solicitamos seu compromisso com os direitos do povo negro. É essencial que, em seu mandato na presidência da Câmara Federal, o senhor se comprometa a não apoiar projetos que coloquem em risco direitos conquistados pela luta história do movimento negro, e que trabalhe para o avanço:

Fotos = Mariana Belmont

1. do direito à educação:

– pela preservação da Lei no 12.711, de 29 de agosto de 2012, conhecida como Lei de Cotas, que garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas universidades federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos oriundos do ensino médio público, em cursos regulares ou da educação de jovens e adultos, garantindo percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas em cada estado.

Vale lembrar da legitimidade das cotas, conquista história do movimento negro, reconhecidas pelo Supremo Tribunal Federal em decisão unânime depois de intensas análises e debates de especialistas em educação e direitos fundamentais. O processo democrático contou com posicionamentos diversos e resultou na aprovação das cotas raciais e sociais, que resultarammem um novo marco na educação brasileira, sendo uma referência mundial para a efetivação do direito humano à educação. Este processo, portanto, deve ser respeitado;

– exigir do Ministério da Educação (MEC) e das Universidades a efetivação de políticas de permanência estudantil para alunos cotistas;

– cumprimento integral do Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado por lei em 2014, que estabelece metas e estratégias para uma educação de qualidade desde o ensino infantil até a pós-graduação;

– fortalecer políticas públicas e garantir a efetivação de mecanismo de implementação das diretrizes curriculares sobre a história da África e das culturas afro-brasileira e indígena previstas no artigo 26 da LDB e nas Leis 10.639/2003 e 11.645/2008;

– fortalecer políticas voltadas para a redução da evasão escolar, defasagem idade-série de estudantes pertencentes aos grupos étnicos e raciais discriminados. 2. do direito à justiça:

– promover políticas de enfrentamento à violência contra a população negra, em especial contra os homicídios que ceifam a vida da juventude negra e o feminicídio de mulheres negras;

– assegurar ações de enfrentamento às violações do direito de culto e crença, com vistas a combater a discriminação contra as religiões de matriz africana;

– exigir do poder executivo orçamento adequado para a implementação das políticas de promoção da igualdade racial contra o racismo, a violência;

– investigação dos assassinatos de quilombolas em luta por direitos.

Fotos = Mariana Belmont

3. do direito à terra, território e justiça ambiental:

– garantir a preservação, proteção, demarcação, homologação e registro incondicional das terras quilombolas, indígenas e de outros povos tradicionais. Necessário se faz também assegurar recursos orçamentários da União para a titulação das terras e para o desenvolvimento de políticas sociais e econômicas voltados para o desenvolvimento sustentável dessas comunidades, com participação das(os)
interessadas(os) nos processos de decisão;

– revogação do acordo assinado entre Brasil e EUA quanto à utilização da base de Alcântara por outro país, para que as comunidades tenham seus direitos, em especial à regularização fundiária, efetivados;

– interromper o projeto de construção da Usina Nuclear nos territórios Quilombolas de Itacuruba em Pernambuco;

– promover políticas ambientais que impeçam a remoção e a desocupação para a extração do patrimônio ambiental e de outras riquezas, o uso de agrotóxicos e outros venenos na agricultura e nas outras culturas de criação de animais e o despejo de detritos e lixos em áreas onde a população negra habita;

– fiscalização do poder executivo na garantia de preservação do ambiente e da cultura das comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas e na promoção de fontes alternativas de energia limpa, bem como a democratização, descentralização e gestão pública da energia de maneira a garantir o direito das comunidades tradicionais e das populações do meio rural ao seu acesso, na ampliação do acesso universal à água potável, limpeza urbana e ao saneamento básico, promoção de soberania alimentar e acesso a alimentação saudável, adequada e com qualidade, livre de agrotóxicos e não transgênicos;

– realização de consulta Prévia, Livre e Informada, conforme dispõe a Convenção 169 da OIT, para a construção de empreendimentos em territórios de comunidades tradicionais.

Fotos = Mariana Belmont

4. do direito à seguridade social – saúde, assistência social e previdência:

– assegurar à população negra acesso a serviços essenciais de saúde, assistência e previdência social;

– recusar o projeto de previdência de Bolsonaro, que retira direitos e piora as condições de vida da maior parte da população. Por uma Previdência Social que seja pública, universal e solidária, reconhecendo os direitos de aposentadoria para todas as pessoas, não só para as que possam pagar pelo lucro de bancos e seguradoras;

– fiscalizar o racismo institucional nas organizações públicas e privadas e em suas diferentes políticas, planos e programas de ação;

– exigir do executivo a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra no Sistema Único de Saúde;

– exigir a implementação de políticas de Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos nas áreas da educação, da saúde e da segurança, garantindo o respeito à livre orientação afetivo-sexual, às identidades de gênero, à autonomia do corpo da mulher o direito ao aborto, bem como promover ações voltadas para a saúde sexual e saúde reprodutiva.

5. do direito à segurança pública:

– reconhecer as flagrantes violações de direitos humanos do “Pacote Anti Crime” apresentado ao Congresso Nacional pelo Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, do governo Jair Bolsonaro. A proposta ignora fatos, evidências, pesquisas, elaborações acadêmicas e científicas, além de toda a mobilização da sociedade em torno do tema, e propõe algo dissonante ao que vem sendo discutido e defendido como solução para o grave problema de segurança pública vivida no Brasil;

– arquivamento do PL-00729/2019 apresentado pelo Deputado Daniel Silveira PSL/RJ, que disciplina a cessão compulsória de órgãos, no caso em que o cadáver apresenta indícios de morte por resultado de ação criminosa. O PL já foi devolvido por ser manifestamente inconstitucional, nos termos do regimento, artigo 137, § 1o, inciso II, alínea “b”, do RICD;

– erradicar o racismo institucional das políticas de segurança, coibindo o uso da violência racial que produz altos índices de homicídios contra a população negra, por meio de políticas de segurança pública, baseadas em Direitos Humanos;

– promover a participação, o delineamento e o controle social das políticas de segurança pública, considerando, fundamentalmente, a participação do movimento negro nos conselhos deliberativos dessas políticas;

– exigir do executivo ações de enfrentamento ao genocídio da juventude negra, com a participação ativa dos grupos envolvidos.

6. do direito ao trabalho

– pela preservação da Lei 12.990 de 2014 que estabelece reserva de vagas aosnegros em concursos públicos da administração pública federal, autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de  economia mista controladas pela União;

– os compromissos assumidos pelo Brasil ao ratificar a Convenção no 111, de 1958, da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da discriminação no emprego e na profissão;

– promoção da tramitação de projetos de lei que assegurem a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, inclusive mediante a implementação de medidas visando à promoção da igualdade nas contratações do setor público e o incentivo à adoção de medidas similares nas empresas e
organizações privadas.

7. da ratificação de tratados internacionais

– promoção da ratificação da Convenção Interamericana Contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância e da Convenção Interamericana Contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância, já aprovadas no âmbito da Organização dos Estados Americanos e assinadas pelo Brasil.

Respeitosamente,

MNU – Movimento Negro Unificado
Unegro – União de Negros pela Igualdade
Conaq – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais
Quilombolas
Marcha das Mulheres Negras de São Paulo
Educafro
Uneafro Brasil
AfirmAÇão Rede de Cursinhos Populares
PVNC Rio
Steve Biko
Geledés – Instituto da Mulher Negra
Ceert
Criola
Irohin – Comunicação e Memória Afro-brasileira
Latinidades – festival da mulher afro latino americana e caribenha
Maré Núcleo de Estudos em Cultura Jurídica e Atlântico Negro da Faculdade de Direito da
UnB
Núcleo de Consciência Negra na USP
Círculo Palmarino
Alma Preta – portal de mídia negra

Racismo no Fórum criminal de Campinas, no estado de São Paulo

 

Juíza de Campinas diz que réu não parece bandido por ser branco

Magistrada escreveu que suspeito “não possui estereótipo de bandido” por ter “pele, olhos e cabelos claros”

Sarah Brito | ACidadeON Campinas


Trecho do processo onde juíza escreveu argumentação sobre “estereótipo padrão de bandido”. (Foto: Reprodução) 

A juíza Lissandra Reis Ceccon, da 5ª Vara Criminal de Campinas, escreveu em uma sentença que um acusado de latrocínio “não possui estereótipo de bandido” por ter “pele, olhos e cabelos claros”.  Ela fez a afirmação ao relatar o depoimento de familiares da vítima, que disseram ter reconhecido o suspeito facilmente porque ele não seria igual a outros bandidos.

O réu foi condenado em 1ª instância, em 2016, a 30 anos de prisão. Uma imagem da sentença começou a circular entre advogados de Campinas há uma semana, com críticas à postura supostamente racista da juíza. O processo corre em segredo de Justiça. A condenação foi por um caso de latrocínio ocorrido em 2013 o réu atirou em um homem e em seu neto.

A parte do processo ao qual o ACidadeON Campinasteve acesso fala sobre o réu ter sido reconhecido por uma das vítima sobreviventes e uma testemunha (a filha), sem hesitação de ambas. Essa testemunha uma mulher – tem o depoimento ressaltado pela juíza por tê-lo considerado “forte e contundente”. A juíza afirma que a mulher disse que o réu, ao sair da caminhonete para atirar contra as vítimas, olhou nos olhos de uma delas que sobreviveu.

A magistrada, então, diz que o réu não seria confundido pela testemunha, uma vez que não possui o “estereótipo padrão de bandido”, comprovando, portanto, que seria de fato ele a cometer o crime. O réu negou a autoria do crime e alega inocência.

O QUE DIZ O TJ

Em nota oficial, o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) disse que não poderia se posicionar sobre a argumentação da juíza. “Trata-se de uma ação judicial na qual há a decisão de uma magistrada. Não cabe ao Tribunal de Justiça de São Paulo se posicionar em relação aos fundamentos utilizados na decisão, quaisquer que sejam eles. A própria Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), em seu artigo 36, veda a manifestação do TJ-SP e da magistrada.”O TJ-SP orientou ainda que quem se sentir prejudicado deve procurar os “meios adequados para a solução da questão”. A nota também afirma que a Corregedoria Geral da Justiça “está sempre atenta às orientações necessárias aos juízes de 1ª instância, sem contudo interferir na autonomia, independência ou liberdade de julgar dos magistrados.”

A reportagem insistiu para que tivesse contato com a juíza Lissandra Reis Ceccon. O TJ, porém, reafirmou que ela não poderia se manifestar pois também é impedida por lei e, caso o o fizesse, perderia o direito de atuar no processo. O Tribunal, no entanto, assegurou que deu ciência a ela sobre a reportagem.

https://www.acidadeon.com/campinas/cotidiano/cidades/NOT,0,0,1407567,juiza+de+campinas+diz+que+reu+nao+parece+bandido+por+ser+branco.aspx

A educação pela treva

antonio prataAntônio Prata

Como se educa um filho num país desses? Como dizer “e eles viveram felizes para sempre, agora dorme tranquilo, papai e mamãe tão na sala”, quando na sala papai e mamãe não estão nada tranquilos vendo que a história caminha para longe de um final feliz? Como dizer “não precisa ter medo do escuro”, “monstro não existe”, quando papai e mamãe são obrigados a sussurrar ou falar outra língua ao conversar na frente das crianças?

“Um homem que não quis se identificar, tio de dois mortos, um de 16 anos e outro de 18, afirmou que os policiais esfaquearam os suspeitos depois de atirar nas pernas, para impedir que fugissem”. “Um dos suspeitos aparece com o intestino completamente para fora do corpo”. “O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), que mantém bom trânsito com o governador, anunciou nesta terça que propôs homenagem ao Choque do Bope. ‘Eles mostraram aos marginais que a polícia do Rio de Janeiro tem que ser respeitada. Foram 13 CPFs cancelados'”.

Rodrigo Amorim é aquele que, durante a campanha, comemorou o “cancelamento” de outro CPF, o da vereadora Marielle Franco, quebrando a placa com seu nome. A placa quebrada, agora emoldurada, decora o seu gabinete, como o chifre de um animal abatido. E eu lendo pro meu filho “O Reizinho Mandão”, ensinando que o autoritarismo destrói a autoridade. Desculpa, Ruth Rocha, mas acho que de agora em diante embalarei o sono do meu filho com “O Senhor das Moscas”.

Eu queria muito ter que responder perguntas simples do tipo “Como os bebês são feitos?”, mas no Brasil o tabu é mais embaixo. “Por que ela dorme na rua?”. “Por que ela é pobre?”. “Por que ela não tem trabalho?”. “Por que ela não foi pra escola?”. “Por que a mãe dela também não foi pra escola?”. “Por que a avó dela também não foi pra escola?”. “Por que as pessoas pobres são sempre marrons?”. O que balbucio à guisa de resposta tem a eficácia de um saquinho de Floc Gel sobre a lama da Vale: “Elas não são marrons, elas são negras”.

Pra que me agachar no chão durante a festa e explicar pacientemente ao meu filho que ele tem que emprestar o Batman pro Guilherme “porque se todo mundo emprestar os brinquedos pra todo mundo, todo mundo vai poder brincar com todos os brinquedos”?

Se eu fosse sincero e educasse pra realidade brasileira e não pros meus delírios utópicos ultrapassados eu deveria dizer 1) “Não empresta, você é maior do que o Guilherme, empurra o Guilherme, pisa no Guilherme, cospe no Guilherme e mostra quem manda” ou 2) “Empresta, o Guilherme é maior do que você, se você não emprestar o Guilherme vai te empurrar, vai pisar em você, cuspir em você e mostrar quem manda”.

A dissonância entre a realidade brasileira e o que meu filho aprende em casa e na escola é da ordem da psicose. Dois mais dois são quatro, nós insistimos em dizer, mas sabemos que se você tiver os contatos certos, dois mais dois são cinco ou quinhentos, assim como também pode ser zero ou menos mil se você tiver nascido no lugar errado, com a cor errada, o gênero errado, a orientação sexual errada.

Não, filho, os bons não vencem no final. Não, os maus não serão punidos. Não, ser legal com os outros não faz com que os outros sejam legais com você. Mas veja: você é branco, é homem, é bem-nascido. Você não pedirá dinheiro pelas ruas, você não terá seu CPF “cancelado” pela polícia. Aqui, neste reino distante, tudo conflui para você chegar a ser um reizinho mandão, um senhor das moscas com um chifre pendurado na parede. Acho que a minha tarefa como pai é te ensinar que este não é um final feliz.

Negro também é gente, Sinhá

monteiro lobatFolha de São Paulo, 10 de fevereiro de 2019

“Negro também é gente, Sinhá”
Revisitando a polêmica sobre o racismo nos livros infantis de Monteiro Lobato
Lucilene Reginaldo
(Professora do Departamento de História da UNICAMP)
No último domingo, Jorge Coli publicou em sua coluna na Ilustríssima o texto intitulado “Viva Lobato!” O artigo festeja a boa notícia de que as obras de Monteiro Lobato estão agora em domínio público. Coli retoma um debate que eu havia acompanhado com interesse em 2010, provocado pela denúncia de conteúdo racista do livro Caçadas de Pedrinho protocolada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Educação. Da denúncia resultou um parecer técnico solicitado pelo próprio MEC, que recomendou a permanência do livro no Programa Nacional de Biblioteca da Escola com a seguinte advertência: “A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.
A recomendação deu publicidade ao assunto e levou a polêmica ao grande público. Escritores de prestígio como Ziraldo e Ana Maria Gonçalves se manifestaram publicamente. O primeiro defendendo a importância da obra de Lobato para sua e outras gerações de brasileiros; a segunda explicitando o conteúdo racista e alertando para seus efeitos danosos nas crianças negras.
Ao ler o texto de Jorge Coli, fiquei impactada com uma afirmação: “Só quem não leu ou não compreendeu os livros infantis de Lobato pode julgá-los racistas”. Respeitosamente, quero discordar do meu colega. Minha argumentação seguirá dois fios condutores. Primeiro, quero mencionar uma experiência pessoal, algo que não é do meu feitio, mas creio que é apropriado para a ocasião. Depois, da perspectiva de alguém que, nos últimos anos, tem estudado a história do racismo.
Em 2010, instigada pela polêmica, resolvi ler Caçadas de Pedrinho para meu filho, com seis anos na época. A coleção de clássicos de Monteiro Lobato estava lá na sua pequena biblioteca, e já não me recordo se foi presente ou aquisição. Eu mesma tinha lido as estórias de Lobato na infância, numa daquelas edições que os vendedores de enciclopédias ofereciam de porta em porta nos bairros populares. Sinceramente, não me lembro do impacto de Lobato na leitora infantil. Recordo bem da série televisiva, uma versão já adaptada e depurada da obra. Juntei a fome com a vontade de comer. Ler Lobato para meu filho, além do prazer materno cultivado ao longo dos anos, seria também uma oportunidade de “checar” e me posicionar no debate.
Confesso que foi uma experiência inusitada para uma mãe historiadora. Não encasquetei apenas com a frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”. Tia Nastácia era sempre a “bola da vez”: ingênua, simplória, medrosa, serviçal e alvo de racismo e discriminações explícitas. Tudo em perfeita consonância com a hierarquia racial: na base da pirâmide, a mulher negra. Para a onça que atacava os moradores do sítio, Tia Nastácia é “furrundu”, um doce feito com mamão verde, rapadura, cravo e
canela, portanto preto. No calor da guerra com as onças, Emília, a bonequinha esperta e independente, comenta: “Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem a carne preta”. O que mais me incomodava era que Tia Nastácia era adjetivada como negra, preta o tempo todo. Só ela tinha cor, apenas nela a cor se colava como uma marca indelével, mesmo que fosse “a boa negra”. Negra é vocativo, como bem interpreta Ana Maria Gonçalves. As expressões bradejavam contra tudo que nossa família buscava ensinar a um menino negro de seis anos. Por isso, confesso, omiti, cortei palavras, adaptei e editei alguns trechos. Logo eu, defensora do pensamento livre!
Não pretendo discorrer sobre o entusiasmo de Lobato com as ideias eugenistas para demonstrar seu racismo – que está, sim, expresso em sua obra ficcional. Muitos intelectuais já o fizeram com muito mais propriedade e competência. Entre 1918 e 1946, Lobato manteve correspondência constante com Renato Kehl, diretor associado da Sociedade Eugênica de São Paulo. Como ciência, a eugenia reconhecia a existência de qualidades raciais inatas e hierarquizadas; como movimento social, formulou toda uma agenda de intervenções no âmbito da higiene, dos comportamentos, da saúde mental e da educação. Seu objetivo era “melhorar” a composição hereditária de uma sociedade, encorajando a reprodução dos grupos aptos, desencorajando ou prevenindo a reprodução dos inaptos.
A adesão eufórica de Lobato aos “nobres ideais eugênicos”, palavras do próprio autor na primeira missiva enviada a Renato Kehl, elucida o desenraizamento familiar de Tia Nastácia e Tio Barnabé. Os dois não têm pais, irmãos ou filhos; seus únicos vínculos afetivos são com os personagens do Sítio, na condição de serviçais. O bom negro e a boa negra são estéreis. A desejada eliminação do elemento negro – visando o avanço da civilização e o bem público, é claro – assim como a defesa da subalternidade das gentes de cor foram explicitadas por Lobato sem qualquer pudor. Em 1928, quando era adido comercial do Brasil em Washington, Monteiro Lobato enviou uma carta ao amigo Antonio Neiva explicando por que não escrevia crônicas sobre suas impressões e vivência nos Estados Unidos. Após comentários pouco delicados sobre a imprensa e os leitores brasileiros, a primeira lhe parecia “um circo mambembe”, e seu público “um bando de moleques feeble-minded” (estúpidos, em bom português), Lobato lamenta nossa triste condição racial. “País de mestiços, onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para os altos destinos. (…). Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor, porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”. O manuscrito original desta carta citada na dissertação de mestrado “Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”: raça, eugenia e nação, de Paula Habib, está no acervo do CPDOC – Fundação Getúlio Vargas/RJ. Diante destes fatos, e mesmo reconhecendo que “a arte é sempre maior que o artista”, é difícil cindir autor e obra.
Lobato era um homem do seu tempo. Usando uma expressão que já virou lugar comum, surfava na onda das teorias científicas e do pensamento social dominantes na primeira metade do século XX. Não era o único intelectual e literato racista e eugenista, muito pelo contrário. Poderia aqui apresentar uma lista de entusiastas do racismo
científico. Alguns dos quais leio e releio por dever de ofício e particular interesse por suas contribuições intelectuais.
Mas o que difere Monteiro Lobato da maioria destes homens de letras, entre outras tantas variáveis, é o público leitor privilegiado, os objetivos da leitura. Para não me alongar demais, mas também por certo pudor acadêmico e disciplinar, não entrarei no debate sobre o homem e sua obra de inquestionável valor literário, sofisticação, além de outros atributos críticos. Isso para mim é obvio. Certamente, Lobato é mais do que uma fonte para os estudiosos do eugenismo, do pensamento social e da história da literatura no Brasil. Assim, não vejo por que a recomendação de 2010 não possa ser levada a sério na introdução de seus livros para o público infantil. A questão não é censurar Lobato, não se trata de forma alguma de banir seus escritos por racismo. Uma boa solução é recorrer às edições críticas, que não é prática desconhecida entre os editores. Isso aconteceu com Tintim no Congo, a popular revista em quadrinhos produzida no bojo do colonialismo belga, portanto, plasmada pela explicitação de estereótipos e preconceitos contra os africanos. Após vários debates públicos em diferentes países da Europa, esta obra tem sido publicada criticamente. No Brasil, a Companhia das Letras, que tem os direitos de publicação de Tintim, também apresenta uma nota crítica situando o autor, a obra e a história do colonialismo belga.
Hoje, aos 14 anos, meu filho, assim como muitos meninos e meninas negros – ou não – da mesma idade, pode ler Monteiro Lobato e outros “homens de seu tempo”, sem minha constrangida edição, talvez até se posicionar diante do autor e da obra. Com ajuda de uma nota crítica, talvez seja mais fácil até para os mais novos. Aos seis anos, não havia autor nem obra, apenas personagens com os quais ele vibrava, se identificava ou repelia. Não quero crer que seja necessário ter um filho negro para ser sensível aos malefícios do racismo na formação de uma criança. E acho também que estamos – ou deveríamos estar – longe de querer que um garoto (ou garota) negro aprenda com Nastácia qual é o seu lugar no mundo. Evidentemente, autor e obra são complexos, contraditórios, ambíguos, assim como o leitor pode subverter e se apropriar do texto a seu modo. “Negro também é gente, Sinhá”, afirma Nastácia. Esta é a frase que encerra Caçadas de Pedrinho. A personagem é assertiva – pelo menos aos olhos desta leitora, talvez apesar do autor. Mas nem como mãe, nem como estudiosa do racismo, posso concordar que, depois de afirmar minha humanidade, tenha que reverenciar uma “sinhá”!

Cerveja portuguesa Quinas faz propaganda racista

A campanha publicitária destina-se ao mercado africano, mas foram os brasileiros que mais se indignaram.

Ninguém quer brindar.

“Os portugueses são conquistadores e gostam de deixar marca onde passam”.Campanha publicitária de nova cerveja…

Publicado por MC Somsen em Domingo, 3 de fevereiro de 2019

Miguel Somsen, jornalista e escritor, divulgou este domingo, 3 de fevereiro, o caso nas redes sociais e remete para a página oficial da Quinas. Lá, podem ler-se textos odiosos, como: “Destruíram todo por onde passaram. Essa é a marca”; “Ladrões, esclavagistas, assassinos”; ou “Vocês são ridículos. É melhor mudarem a equipa de marketing, porque em África já não voltam a ‘conquistar’ absolutamente nada”.

Mas há mais. “Deixaram marcas até hoje, por isso é que o Brasil está a merda que está” e “África, escondam o ouro que sobrou” são outros comentários.

Houve até quem fosse mais longe e fizesse uma montagem com a nova campanha da marca portuguesa. No lugar da frase publicitária escreveram: “Os portugueses têm mais é que se foder. Só não riem quando a cerveja acaba”.

 

Racismo na UFSCAR

Polícia foi acionada e investigará o caso. Estudante de engenharia florestal e integrante do centro acadêmico, a vítima está assustada, segundo colegas

José Maria Tomaz
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Uma aluna negra de 22 anos foi alvo de mensagens racistas gravadas nas portas de banheiros femininos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, interior de São Paulo. Ao lado de duas suásticas, símbolo do nazismo, foram grafados o nome da estudante e os termos “preta imunda” e “vai morrer”.

Foto: Divulgação

Estudantes que se depararam com o ataque, nesta quarta-feira, 7, comunicaram o fato à direção da escola. A universidade levou o caso à Polícia Civil, que já abriu uma investigação.

Peritos foram à universidade e colheram amostras da tinta usada pelo autor da mensagem. Os prédios não são monitorados por câmeras, mas imagens de outros pontos serão analisadas. Conforme a Polícia Civil, serão investigados possíveis crimes de dano ao patrimônio, injúria e ameaça.

A estudante é aluna do segundo ano do curso de engenharia florestal da universidade. Conforme informações de colegas, ela integra o centro acadêmico, participa de movimentos estudantis e se valeu do sistema de cotas para ingressar no curso. Segundo eles, a estudante está assustada com as intimidações.

A UFSCar informou em nota que repudia qualquer forma de discriminação ou violência e tomará as medidas cabíveis diante do fato. “A UFSCar defende, com veemência, a democracia, a tolerância e o convívio harmonioso entre pessoas com culturas, ideologias ou crenças diferentes.”

A nota faz referência a recentes episódios de intolerância, envolvendo cartazes e bilhetes com ameaças, postagens agressivas, notícias falsas e discriminatórias envolvendo a universidade, que seriam “reflexos” do que ocorre na sociedade, “evidenciando dificuldade para um convívio harmonioso entre pessoas com visões de mundo distintas”.

 

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/policia/aluna-negra-e-alvo-de-pichacoes-racistas-em-banheiro-da-ufscar,969d0c397aae12f8a14cba57449c43b75e7y1aro.html

Protesto contra o racismo na Universidade do Mackenzie

download30.out.2018 às 15h09

Fernanda Canofre

SÃO PAULO

Na manhã desta terça-feira (30), centenas de estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, protestaram em repúdio às falas de um aluno da instituição que aparece em vídeos ameaçando matar “negraiada” e “vagabundo com camiseta vermelha”.

Segundo um aluno do 9º semestre, que pediu para não ser identificado, o ato não pretendia “fazer justiça com as próprias mãos” ou transformar a vida do aluno “em um inferno”, mas sim cobrar uma posição da universidade.

“O protesto foi apartidário, pessoas de direita e esquerda estavam lá. Ele serviu para dizer que tem negros no Mackenzie, que essas vidas importam, que a gente não pode criar um ambiente acadêmico onde a pessoa se sinta confortável para fazer um vídeo ameaçando de morte minorias”, explica ele.

Os vídeos que geraram a reação foram postados no perfil pessoal do próprio estudante, que está no 10º semestre do curso de Direito. Na segunda-feira (29), eles começaram a circular entre outros alunos e ganharam repercussão nacional. O jovem foi identificado pelos colegas.

Em um deles, ele aparece dentro de um carro, vestindo uma camiseta com a foto do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e diz que vai “estar armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vagabundo com camiseta vermelha para matar logo”. Ele segue dizendo que “essa negraiada, vai morrer” e grita “é capitão, caralho”. No segundo vídeo, o estudante segura um revólver e canta “capitão, levanta-te”.

Integrante do Coletivo Negro Mack, que reúne estudantes negros do Mackenzie, Lucas, 23, aluno do 7º semestre de direito, conta que alguns alunos negros faltaram a aulas desde a divulgação dos vídeos por medo.

“É uma coisa que a gente está vendo crescer no país. A eleição do Bolsonaro legitimou esse discurso, como se não tivesse mais barreiras, nem ética, nem moral, só uma desumanização e um ódio muito grandes. A gente tem que mostrar que isso tem que ser combatido”, diz.

Em nota enviada à Folha, o reitor da universidade, Benedito Aguiar Neto, afirma que as opiniões e atitudes expressas no discurso do aluno “são veementemente repudiadas” pela instituição.

Ele diz ainda que foi instaurado um processo disciplinar “aplicando preventivamente a suspensão” do aluno e aberta “sindicância para apuração e aplicação das sanções cabíveis, conforme dispõe o Código de Decoro Acadêmico da Universidade”.

 

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Protesto contra racismo no Mackenzie /Coletivo Afro

O ato desta terça iniciou por volta das 8h e se dissipou perto das 10h. Convocado de forma espontânea por alunos da Faculdade de Direito, também reuniu alunos dos cursos de Engenharia, Comunicação Social e Arquitetura. Um segundo protesto está marcado para às 19h desta terça.

Nas eleições deste ano, o Diretório Central de Estudantes (DCE) e o Centro Acadêmico João Mendes Jr., da Faculdade de Direito, haviam se manifestado oficialmente contra a candidatura de Jair Bolsonaro e a favor de Fernando Haddad (PT). O Mackenzie, porém, se manteve neutro.

Em um texto postado nas redes sociais, o Centro Acadêmico diz que a posição é “um mea culpa” para reparar o apoio de alunos à ditadura militar em 1968. No dia 3 de outubro daquele ano, estudantes do Mackenzie entraram em confronto com alunos da Universidade de São Paulo, contrários ao regime, no episódio que ficou conhecido como“batalha da Maria Antônia”.

Um estudante secundarista, José Guimarães, 20 anos, quatro pessoas foram baleadas e dezenas ficaram feridas. O episódio também serviu como justificativa para a implementação do Ato Institucional Nº 5.

Veja a nota na íntegra:

A Universidade Presbiteriana Mackenzie tomou conhecimento de vídeos produzidos por um discente, fora do ambiente da Universidade, e divulgados nas redes sociais, onde ele faz discurso incitando a violência, com ameaças, e manifestação racista.

Tais opiniões e atitudes são veementemente repudiadas por nossa Instituição que, de imediato, instaurou processo disciplinar, aplicando preventivamente a suspensão do discente das atividades acadêmicas. Iniciou, paralelamente, sindicância para apuração e aplicação das sanções cabíveis, conforme dispõe o Código de Decoro Acadêmico da Universidade.

Benedito G. Aguiar Neto
Reitor

fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/10/alunos-protestam-e-mackenzie-suspende-estudante-que-falou-em-negraiada.shtml?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=noticias

Angolanos temem o racismo e a xenofobia no Brasil, por conta do Bolsonaro

Osvaldo Gonçalves

Enquanto por cá alguns comentários sobre as eleições do Brasil, feitos sobretudo nas redes sociais, levam a questionar sobre a existência de forças de direita organizadas, mais do que simples reacções ao descalabro a que chegou o país em relação à corrupção, os africanos, entre os quais angolanos, residentes naquele país temem um aumento da violência, do racismo e da xenofobia, caso o “coiso” ( Jair Bolsonaro), do PSL, vença a segundo turno das eleições presidenciais.

O Bolsonaro e o vice, António Hamilton Mourão, repudiados pelo discurso de ódio e racista
Fotografia: DRApós o ataque ao , outro caso mediático fez manchete nos jornais no início deste mês, quando o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto em Salvador, Bahia com 12 facadas, por causa de uma discussão política.
Agora, para a segundo turno (ou segundo turno, como dizem os brasileiros), o candidato da direita mantém uma margem de 20 por cento em relação ao rival do PT, Fernando Haddad, que concorre a estas eleições sob um forte manto de Lula da Silva, preso em Curitiba.
Em S. Paulo, a maior cidade brasileira, tal como no Rio de Janeiro, a segunda, como em Salvador da Bahia, onde se encontram as maiores comunidades angolanas, o medo de uma escalada na violência, por racismo ou por xenofobia, aumenta, assim como os receios em relação a casos relativos  à opção sexual.
Em Porto Alegre, Márcia Pungo, uma estudante universitária angolana que vive há quatro anos no Brasil, sonha em voltar ao país no próximo ano. “O brasileiro tem muito ódio para destilar e não tem preguiça de fazer isso”, desabafa. E acrescenta: “Se a pessoa comentou algo que não vai ao encontro do que a outra acredita, essa pessoa já é digna de ser odiada. O brasileiro não tem vergonha de destilar o seu ódio.”
O sentimento de Márcia Pungo é partilhado por outros estudantes africanos noutras regiões do Brasil. Sara Santiago, de 24 anos, estudante de comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul a viver naquele país desde 2015, sente na pele o preconceito que impera entre muitos brasileiros. Ela recorda uma situação “constrangedora” que sofreu em plena sala de aula assim que chegou ao país:
“Na primeira prova que fiz, tirei nota 8 [em 10]. Uma colega chegou ao pé de mim e retirou-me a prova da mão. Virou-se para a professora e perguntou por que é que eu, que vinha de África, tinha tirado 8 e ela 6.” Já o guineense de Bissau Germem Correia, de 28 anos, estudante de mestrado em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a viver há cerca de cinco anos no Brasil, critica a posição agressiva dos brasileiros quando o assunto é política: “Tu percebes que existe ódio. Cada um é livre de ter e escolher o seu partido, mas o importante é respeitar a opinião dos outros. Muitas vezes, as pessoas acabam por não entender isso.”
No próximo dia 28 de Outubro, 147 milhões de brasileiros são chamados às urnas para eleger o novo Presidente da República. Os eleitores têm de escolher entre Jair Bolsonaro do PSL e Fernando Haddad do PT.
Em 2017, 36 milhões de africanos foram obrigados a migrar, 14 por cento dos 258 milhões de deslocamentos registados no continente, mas 75 por cento de todos permaneceram dentro do continente, mudando apenas de país. Em relação a Jair Bolsonaro, o receio tem explicação, embora se multipliquem as acusações sobre o uso de “fakenews” (notícias falsas) de um lado e do outro. Falsas ou não – cremos que não -, tanto Jair Bolsonaro, como o vice da sua chapa de eleição, o general da reserva António Hamilton Mourão (PRTB), têm-se feito notabilizar por declarações chocantes. Jair Bolsonaro, por exemplo, disse no Programa Roda Viva do último dia 30 do mês passado, que os portugueses nunca pisaram na África, que foram os próprios negros que se entregaram para a escravidão.
António Hamilton Mourão afirmou, durante um evento da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul, que o Brasil herdou a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos. “Temos uma herança cultural, uma herança que tem muita gente que gosta do privilégio (…). Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem (…) é oriunda do africano”, afirmou.
E foi mais longe: demonstrou desprezo pelos africanos e disse que o país adoptou a “diplomacia que foi chamada de Sul-Sul”. “E aí nos ligamos com toda a mulambada, me perdoem o termo, existente do outro lado do oceano (África), do lado de cá, que não resultou em nada, só em dívidas que foram contraídas e que nós estamos tomando calote disso aí”, frisou.

  Repúdio em Montevideu

Centenas de pessoas entre uruguaios e brasileiros protestaram, sábado, diante da Embaixada do Brasil, em Montevideu, contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que defronta Fernando Haddad (PT) na segunda volta das eleições presidenciais.
Cerca de 300 pessoas foram para os arredores da sede diplomática brasileira ao canto de “ele não”, utilizado em outros países para manifestar a rejeição à candidatura de Bolsonaro.
A representante da organização cívica internacional Pão e Rosas, Karina Rojas, disse à agência Efe que a convocação foi feita para se manifestar contra a “onda de repressão” vivida no Brasil depois da vitória do candidato na primeira volta.
“Não queremos que haja fascismo na América Latina, não queremos que haja extrema direita que acabe com as nossas liberdades democráticas, que persiga os lutadores e lutadoras, que promova a xenofobia, o racismo, a misoginia e a homofobia”, disse Karina.
A activista acrescentou que em caso de uma hipotética vitória de Bolsonaro nas próximas eleições esta organização cívica irá convocar comités de acção “para se defender dos ataques dos grupos de extrema-direita”, já que segundo sua opinião “não há melhor resistência do que a mobilização e a luta nas ruas”.
“Queremos que todos os sectores que se dizem democráticos enfrentem o ‘bolsonarismo’ e o golpismo no Brasil e em toda a América Latina, queremos uma postura firme contra Bolsonaro”, concluiu Karina.

Criança é ameaçada por conta da sua cor

Criança é ameaçada por colega: 'Bolsonaro já ganhou. Aqui não é lugar para você'

Foto: Guia do Turismo Brasil

Aluna de uma pequena escola particular no bairro de Candeias, Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, relatou à família, de acordo com o Diário de Pernambuco, que tinha vivido uma ameaça logo após a divulgação do resultado do primeiro turno.

Ainda conforme o jornal, um menino, da mesma idade, se aproximou e disse: “Ayanna, aqui não é lugar para você. Você não vai poder estudar mais nesta escola porque não combina com sua cor. Sua família é negra e vocês têm que viver separados de nós. Bolsonaro já ganhou e garantiu que vai resolver essa mistura. Se seus pais vierem falar merda, a gente mete bala”.

Este ano ela não quis participar das comemorações do Dia das Crianças por causa do ato.