Racismo na UFSCAR

Polícia foi acionada e investigará o caso. Estudante de engenharia florestal e integrante do centro acadêmico, a vítima está assustada, segundo colegas

José Maria Tomaz
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Uma aluna negra de 22 anos foi alvo de mensagens racistas gravadas nas portas de banheiros femininos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, interior de São Paulo. Ao lado de duas suásticas, símbolo do nazismo, foram grafados o nome da estudante e os termos “preta imunda” e “vai morrer”.

Foto: Divulgação

Estudantes que se depararam com o ataque, nesta quarta-feira, 7, comunicaram o fato à direção da escola. A universidade levou o caso à Polícia Civil, que já abriu uma investigação.

Peritos foram à universidade e colheram amostras da tinta usada pelo autor da mensagem. Os prédios não são monitorados por câmeras, mas imagens de outros pontos serão analisadas. Conforme a Polícia Civil, serão investigados possíveis crimes de dano ao patrimônio, injúria e ameaça.

A estudante é aluna do segundo ano do curso de engenharia florestal da universidade. Conforme informações de colegas, ela integra o centro acadêmico, participa de movimentos estudantis e se valeu do sistema de cotas para ingressar no curso. Segundo eles, a estudante está assustada com as intimidações.

A UFSCar informou em nota que repudia qualquer forma de discriminação ou violência e tomará as medidas cabíveis diante do fato. “A UFSCar defende, com veemência, a democracia, a tolerância e o convívio harmonioso entre pessoas com culturas, ideologias ou crenças diferentes.”

A nota faz referência a recentes episódios de intolerância, envolvendo cartazes e bilhetes com ameaças, postagens agressivas, notícias falsas e discriminatórias envolvendo a universidade, que seriam “reflexos” do que ocorre na sociedade, “evidenciando dificuldade para um convívio harmonioso entre pessoas com visões de mundo distintas”.

 

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/policia/aluna-negra-e-alvo-de-pichacoes-racistas-em-banheiro-da-ufscar,969d0c397aae12f8a14cba57449c43b75e7y1aro.html

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Protesto contra o racismo na Universidade do Mackenzie

download30.out.2018 às 15h09

Fernanda Canofre

SÃO PAULO

Na manhã desta terça-feira (30), centenas de estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, protestaram em repúdio às falas de um aluno da instituição que aparece em vídeos ameaçando matar “negraiada” e “vagabundo com camiseta vermelha”.

Segundo um aluno do 9º semestre, que pediu para não ser identificado, o ato não pretendia “fazer justiça com as próprias mãos” ou transformar a vida do aluno “em um inferno”, mas sim cobrar uma posição da universidade.

“O protesto foi apartidário, pessoas de direita e esquerda estavam lá. Ele serviu para dizer que tem negros no Mackenzie, que essas vidas importam, que a gente não pode criar um ambiente acadêmico onde a pessoa se sinta confortável para fazer um vídeo ameaçando de morte minorias”, explica ele.

Os vídeos que geraram a reação foram postados no perfil pessoal do próprio estudante, que está no 10º semestre do curso de Direito. Na segunda-feira (29), eles começaram a circular entre outros alunos e ganharam repercussão nacional. O jovem foi identificado pelos colegas.

Em um deles, ele aparece dentro de um carro, vestindo uma camiseta com a foto do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e diz que vai “estar armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vagabundo com camiseta vermelha para matar logo”. Ele segue dizendo que “essa negraiada, vai morrer” e grita “é capitão, caralho”. No segundo vídeo, o estudante segura um revólver e canta “capitão, levanta-te”.

Integrante do Coletivo Negro Mack, que reúne estudantes negros do Mackenzie, Lucas, 23, aluno do 7º semestre de direito, conta que alguns alunos negros faltaram a aulas desde a divulgação dos vídeos por medo.

“É uma coisa que a gente está vendo crescer no país. A eleição do Bolsonaro legitimou esse discurso, como se não tivesse mais barreiras, nem ética, nem moral, só uma desumanização e um ódio muito grandes. A gente tem que mostrar que isso tem que ser combatido”, diz.

Em nota enviada à Folha, o reitor da universidade, Benedito Aguiar Neto, afirma que as opiniões e atitudes expressas no discurso do aluno “são veementemente repudiadas” pela instituição.

Ele diz ainda que foi instaurado um processo disciplinar “aplicando preventivamente a suspensão” do aluno e aberta “sindicância para apuração e aplicação das sanções cabíveis, conforme dispõe o Código de Decoro Acadêmico da Universidade”.

 

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Protesto contra racismo no Mackenzie /Coletivo Afro

O ato desta terça iniciou por volta das 8h e se dissipou perto das 10h. Convocado de forma espontânea por alunos da Faculdade de Direito, também reuniu alunos dos cursos de Engenharia, Comunicação Social e Arquitetura. Um segundo protesto está marcado para às 19h desta terça.

Nas eleições deste ano, o Diretório Central de Estudantes (DCE) e o Centro Acadêmico João Mendes Jr., da Faculdade de Direito, haviam se manifestado oficialmente contra a candidatura de Jair Bolsonaro e a favor de Fernando Haddad (PT). O Mackenzie, porém, se manteve neutro.

Em um texto postado nas redes sociais, o Centro Acadêmico diz que a posição é “um mea culpa” para reparar o apoio de alunos à ditadura militar em 1968. No dia 3 de outubro daquele ano, estudantes do Mackenzie entraram em confronto com alunos da Universidade de São Paulo, contrários ao regime, no episódio que ficou conhecido como“batalha da Maria Antônia”.

Um estudante secundarista, José Guimarães, 20 anos, quatro pessoas foram baleadas e dezenas ficaram feridas. O episódio também serviu como justificativa para a implementação do Ato Institucional Nº 5.

Veja a nota na íntegra:

A Universidade Presbiteriana Mackenzie tomou conhecimento de vídeos produzidos por um discente, fora do ambiente da Universidade, e divulgados nas redes sociais, onde ele faz discurso incitando a violência, com ameaças, e manifestação racista.

Tais opiniões e atitudes são veementemente repudiadas por nossa Instituição que, de imediato, instaurou processo disciplinar, aplicando preventivamente a suspensão do discente das atividades acadêmicas. Iniciou, paralelamente, sindicância para apuração e aplicação das sanções cabíveis, conforme dispõe o Código de Decoro Acadêmico da Universidade.

Benedito G. Aguiar Neto
Reitor

fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/10/alunos-protestam-e-mackenzie-suspende-estudante-que-falou-em-negraiada.shtml?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=noticias

Angolanos temem o racismo e a xenofobia no Brasil, por conta do Bolsonaro

Osvaldo Gonçalves

Enquanto por cá alguns comentários sobre as eleições do Brasil, feitos sobretudo nas redes sociais, levam a questionar sobre a existência de forças de direita organizadas, mais do que simples reacções ao descalabro a que chegou o país em relação à corrupção, os africanos, entre os quais angolanos, residentes naquele país temem um aumento da violência, do racismo e da xenofobia, caso o “coiso” ( Jair Bolsonaro), do PSL, vença a segundo turno das eleições presidenciais.

O Bolsonaro e o vice, António Hamilton Mourão, repudiados pelo discurso de ódio e racista
Fotografia: DRApós o ataque ao , outro caso mediático fez manchete nos jornais no início deste mês, quando o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto em Salvador, Bahia com 12 facadas, por causa de uma discussão política.
Agora, para a segundo turno (ou segundo turno, como dizem os brasileiros), o candidato da direita mantém uma margem de 20 por cento em relação ao rival do PT, Fernando Haddad, que concorre a estas eleições sob um forte manto de Lula da Silva, preso em Curitiba.
Em S. Paulo, a maior cidade brasileira, tal como no Rio de Janeiro, a segunda, como em Salvador da Bahia, onde se encontram as maiores comunidades angolanas, o medo de uma escalada na violência, por racismo ou por xenofobia, aumenta, assim como os receios em relação a casos relativos  à opção sexual.
Em Porto Alegre, Márcia Pungo, uma estudante universitária angolana que vive há quatro anos no Brasil, sonha em voltar ao país no próximo ano. “O brasileiro tem muito ódio para destilar e não tem preguiça de fazer isso”, desabafa. E acrescenta: “Se a pessoa comentou algo que não vai ao encontro do que a outra acredita, essa pessoa já é digna de ser odiada. O brasileiro não tem vergonha de destilar o seu ódio.”
O sentimento de Márcia Pungo é partilhado por outros estudantes africanos noutras regiões do Brasil. Sara Santiago, de 24 anos, estudante de comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul a viver naquele país desde 2015, sente na pele o preconceito que impera entre muitos brasileiros. Ela recorda uma situação “constrangedora” que sofreu em plena sala de aula assim que chegou ao país:
“Na primeira prova que fiz, tirei nota 8 [em 10]. Uma colega chegou ao pé de mim e retirou-me a prova da mão. Virou-se para a professora e perguntou por que é que eu, que vinha de África, tinha tirado 8 e ela 6.” Já o guineense de Bissau Germem Correia, de 28 anos, estudante de mestrado em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a viver há cerca de cinco anos no Brasil, critica a posição agressiva dos brasileiros quando o assunto é política: “Tu percebes que existe ódio. Cada um é livre de ter e escolher o seu partido, mas o importante é respeitar a opinião dos outros. Muitas vezes, as pessoas acabam por não entender isso.”
No próximo dia 28 de Outubro, 147 milhões de brasileiros são chamados às urnas para eleger o novo Presidente da República. Os eleitores têm de escolher entre Jair Bolsonaro do PSL e Fernando Haddad do PT.
Em 2017, 36 milhões de africanos foram obrigados a migrar, 14 por cento dos 258 milhões de deslocamentos registados no continente, mas 75 por cento de todos permaneceram dentro do continente, mudando apenas de país. Em relação a Jair Bolsonaro, o receio tem explicação, embora se multipliquem as acusações sobre o uso de “fakenews” (notícias falsas) de um lado e do outro. Falsas ou não – cremos que não -, tanto Jair Bolsonaro, como o vice da sua chapa de eleição, o general da reserva António Hamilton Mourão (PRTB), têm-se feito notabilizar por declarações chocantes. Jair Bolsonaro, por exemplo, disse no Programa Roda Viva do último dia 30 do mês passado, que os portugueses nunca pisaram na África, que foram os próprios negros que se entregaram para a escravidão.
António Hamilton Mourão afirmou, durante um evento da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul, que o Brasil herdou a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos. “Temos uma herança cultural, uma herança que tem muita gente que gosta do privilégio (…). Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem (…) é oriunda do africano”, afirmou.
E foi mais longe: demonstrou desprezo pelos africanos e disse que o país adoptou a “diplomacia que foi chamada de Sul-Sul”. “E aí nos ligamos com toda a mulambada, me perdoem o termo, existente do outro lado do oceano (África), do lado de cá, que não resultou em nada, só em dívidas que foram contraídas e que nós estamos tomando calote disso aí”, frisou.

  Repúdio em Montevideu

Centenas de pessoas entre uruguaios e brasileiros protestaram, sábado, diante da Embaixada do Brasil, em Montevideu, contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que defronta Fernando Haddad (PT) na segunda volta das eleições presidenciais.
Cerca de 300 pessoas foram para os arredores da sede diplomática brasileira ao canto de “ele não”, utilizado em outros países para manifestar a rejeição à candidatura de Bolsonaro.
A representante da organização cívica internacional Pão e Rosas, Karina Rojas, disse à agência Efe que a convocação foi feita para se manifestar contra a “onda de repressão” vivida no Brasil depois da vitória do candidato na primeira volta.
“Não queremos que haja fascismo na América Latina, não queremos que haja extrema direita que acabe com as nossas liberdades democráticas, que persiga os lutadores e lutadoras, que promova a xenofobia, o racismo, a misoginia e a homofobia”, disse Karina.
A activista acrescentou que em caso de uma hipotética vitória de Bolsonaro nas próximas eleições esta organização cívica irá convocar comités de acção “para se defender dos ataques dos grupos de extrema-direita”, já que segundo sua opinião “não há melhor resistência do que a mobilização e a luta nas ruas”.
“Queremos que todos os sectores que se dizem democráticos enfrentem o ‘bolsonarismo’ e o golpismo no Brasil e em toda a América Latina, queremos uma postura firme contra Bolsonaro”, concluiu Karina.

Criança é ameaçada por conta da sua cor

Criança é ameaçada por colega: 'Bolsonaro já ganhou. Aqui não é lugar para você'

Foto: Guia do Turismo Brasil

Aluna de uma pequena escola particular no bairro de Candeias, Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, relatou à família, de acordo com o Diário de Pernambuco, que tinha vivido uma ameaça logo após a divulgação do resultado do primeiro turno.

Ainda conforme o jornal, um menino, da mesma idade, se aproximou e disse: “Ayanna, aqui não é lugar para você. Você não vai poder estudar mais nesta escola porque não combina com sua cor. Sua família é negra e vocês têm que viver separados de nós. Bolsonaro já ganhou e garantiu que vai resolver essa mistura. Se seus pais vierem falar merda, a gente mete bala”.

Este ano ela não quis participar das comemorações do Dia das Crianças por causa do ato.

Joy James: “Mesmo quando somos assassinados, temos que ser dóceis”

por Laura Castanho — publicado 18/09/2018 
Uma das acadêmicas de maior renome da Williams College, James critica a falsa sensação de progresso racial na gestão do ex-presidente dos EUA
Alice Vergueiro/Ibccrim
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‘Os negros pensaram que pertenciam ao próprio país, sem entender que isso tinha data de validade’, diz James sobre a era Obama

“Obrigado pelo livro, mas ele não tem nada a ver com a minha vida.” Foi a carta curta e grossa de Jalil Mutanqim, ativista dos Panteras Negras preso desde 1971, que abriu os olhos de Joy James para expandir o ativismo para fora dos muros da academia.

Aos 59 anos, ela é uma das acadêmicas de maior renome da Williams College, uma pequena universidade de elite na costa leste dos Estados Unidos. Especializada em filosofia política e estudos afro-americanos, ela foi apresentada à mobilização política por ninguém menos que Angela Davis.

James trabalha com presos políticos há 20 anos e milita no movimento abolicionista contemporâneo, que visa acabar com as prisões — a décima terceira emenda da constituição americana, que aboliu a escravidão, não vale para pessoas privadas de liberdade.

Em entrevista a CartaCapital, ela criticou as políticas de segurança pública na gestão Obama e o feminismo negro. Também se disse entusiasmada por novas ativistas, como Alexandria Ocasio-Cortez – estrela ascendente da ala socialista do Partido Democrata, atualmente concorrendo ao Senado – e Erica Garner, a filha de um homem morto pela polícia que se converteu em ativista e morreu no fim do ano passado, aos 27 anos.

Confira abaixo a íntegra da entrevista.

CC: Qual  diagnóstico a sra. faz da democracia, nos EUA e no mundo?

Joy James: Ela está muito frágil. Passamos muito tempo reparando as pessoas que foram traumatizadas pela polícia, ou pelas prisões, ou as enterrando, e isso torna muito difícil ser proativo com a democracia e a organização política. Temos muita gente desgastada.

Pensando no caso da Marielle Franco: você conecta a política doméstica com a internacional, e é aí que acontece a repressão. Foi isso que aconteceu com Malcom X, quando ele viajou a Meca e passou a ser financiado pelo Egito, segundo algumas fontes. Quando ele voltou aos EUA, foi assassinado pouco depois. Foi o que houve com Martin Luther King, quando ele juntou o ativismo pelos direitos civis com a crítica à Guerra do Vietnã e começou a denunciar o capitalismo e o imperialismo — e em 1968 ele também foi morto. O fio é uma coalizão organizada e internacional, e que também apoiamos a democracia quando apoiamos uns aos outros.

CC: Como vê o debate sobre as prisões na atualidade?

JJ: Senti que a resistência crítica e o abolicionismo mainstream estavam minimizando os presos políticos. Uma vez que você considera a ideia de presos políticos, tem que lidar com a autonomia deles. Geralmente falamos do encarceramento em massa e de suas vítimas. Mas os presos políticos não são vítimas, são ativistas, intelectuais. Alguns usam violência, outros não.

A honra é muito importante e acho que é dela que os abolicionistas sentem falta. A honra e a dignidade é o que os torna (presos) humanos. Você tem que respeitá-los.

A democracia ainda não se consolidou no que diz respeito aos negros. É por isso que somos policiados, mortos e humilhados em maior escala. Mas é essa asserção de dignidade – mesmo quando você não é pobre – que leva à rebelião. E penso que é essa asserção que costuma se perder ou ser mal compreendida quando resolvemos a política no pragmatismo.

CC: A sra. leciona um curso sobre o racismo institucional na era Obama. Em retrospecto, como avalia a política racial do ex-presidente?

JJ: O governo norte-americano, na gestão Obama, diminuiu a importância da violência dos supremacistas brancos. Sob Obama, quase todos os chefes do aparato de policiamento eram negros. Obama era o comandante-chefe dos militares, Eric Holder era o advogado-geral, e depois dele foi Lorretta Lynch. O responsável pela segurança interna era Jay Johnson. Então pensei: como é que todo mundo no controle do aparato policial nos Estados Unidos é negro e mesmo assim você não consegue controlar a violência contra os negros por parte da polícia?

Então o Obama disse algo muito pungente — sempre vou lembrar a frase, porque o verbo que usou é incomum. Ele disse, ‘Não posso federalizar a polícia’. Não entendi o significado de primeira, mas então percebi: ah, você acabou de dizer que não consegue controlar a polícia dos EUA. Então por que estamos nos dirigindo a você nas petições? Ele basicamente quis dizer, ‘Perdão, gente, não consigo controlá-los’.

CC: Era apenas simbólico?

JJ: É arrogância, é orgulho, é performance. Trump realmente odeia os negros e age de modo indecente, então claro que há um contraste nítido entre ambos. Mas o que os liberais estavam dispostos a arriscar, sob a gestão de um presidente negro liberal, era mínimo.

No final, as pessoas pensaram, ‘O que eu tirei disso tudo?’. As elites negras tiraram muita coisa, muito capital cultural. Elas iam às festas na Casa Branca. Era um momento em que os negros pensaram que pertenciam ao próprio país, sem entender que isso tinha data de validade. E essa sensação de pertencimento tinha mais a ver com cultura e representação do que com controle sobre a violência e a economia.

Paramos de focar na violência racista [na gestão Obama]. Focamos no fato de que ele cantou ‘Amazing Grace’ e chorou [após o massacre em uma igreja de Charleston]. Esse momento de vulnerabilidade e perdão negros estava estampado na cara do presidente, como se estivéssemos sempre ofendendo.

Mesmo quando somos assassinados, temos que ser dóceis. Não podemos manifestar raiva em público. Esse era o modelo a ser seguido, o modelo oficial do abolicionismo liberal convencional — ‘não irrite os brancos’. Mas eles já estão irritados.

Havia toda essa narrativa triunfal de que tínhamos superado as piores partes e estávamos seguindo adiante. Na verdade, ainda temos que passar pelas piores partes, porque os negros e os radicais são sempre orientados a calar a boca, trabalhar com coalizões e parar de aprontar.

CC: Outro curso que a sra. leciona é focado nas mulheres na política nacional. O que pensa das candidatas nas eleições no Legislativo, em novembro, como Alexandria Ocasio-Cortez?

JJ: Fico animada com ela. Adoro como a juventude está tomando seu espaço. Sei que o Partido Democrata está tentando conter o que vê como ‘a facção do Bernie [Sanders]’, mas ela não é a menina do Bernie. Ela é autônoma e é um fenômeno único. Muito da política é comprometimento ideológico, e também alguma traição. Sinto que em algum momento ela vai se comprometer, mas não acho que trairá ninguém. Era assim que eu também via a Erica Garner.

Fiquei obcecada pela Erica Garner. Ela não fazia a política dos liberais. Se fizesse, teria aparecido nos jornais quando morreu, mas não foi assim. Ela criou sozinha uma das propagandas de campanha mais poderosas nas últimas décadas. Acho que sou uma versão mais atenuada dela, dentro dos espaços liberais.

CC: E os movimentos recentes pela justiça racial, como o Black Lives Matter?

JJ: É complicado. Tenho a Erica Garner como modelo, mas não as outras organizações, como o Black Lives Matter (BLM) e o Say Her Name. O BLM recebeu 100 milhões de dólares da Fundação Ford. Tudo bem. Mas eles também negaram dinheiro ao Martin Luther King quando ele passou a criticar o imperialismo e o capitalismo, então os pagantes têm as suas vontades.

Eles [BLM] estão fazendo coisas importantes, mas não são novidades — ao contrário da Alexandria Ocasio-Cortez e da Erica Garner. Não tem que haver só uma disrupção da norma, mas uma proposta de novos caminhos.

Nossos cérebros estão tão engessados na mesma definição de democracia e trabalho duro, e precisamos abrir espaço para novas formas de pensar. É assim que vejo esses jovens que fogem da política tradicional — não é para destruir nada, mas para plantar algo novo. Não dá para respirarmos sem esse novo fervor político e intelectual.

CC: A sra. também faz uma crítica do feminismo negro. Poderia explicá-la?

JJ: As pessoas se contentam em achar que o feminismo negro é necessariamente mais progressista que o feminismo branco, porque o tornaram monolítico. Meu argumento é que já resolvemos isso nos anos oitenta, e que agora precisamos olhar para a ideologia. Então mesmo com a interseccionalidade, eu pergunto, ‘Ok, mas cadê a ideologia?’. É ela que vai dizer se temos uma marxista ou uma capitalista, uma radical ou uma neoliberal.

É essa ausência de interrogação do feminismo negro, de imbuir nele uma autocrítica, que permite que pensemos que ele é sempre progressista e transformador, mesmo quando não é. Teve quem boicotou meus textos, por eu fazer essa crítica.

Os feminismos negros se consolidaram como uma vanguarda, mas passam muito tempo fazendo uma análise da vitimização. Vitimização não é sinônimo de liderança. Só porque você foi vitimizado, não quer dizer que deva liderar [um movimento político]. A sua subalternidade na ordem social não reflete, necessariamente, a sua coragem de mudá-la.

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/governo-obama-subestimou-a-violencia-racista-dos-estados-unidos

O racismo brasileiro sob o olhar de um jornalista angolano

luanda

Victor de Carvalho

No Brasil, país que hoje vai a votos para eleger um novo Presidente da República, o preconceito é quase como que uma instituição nacional que discrimina e marginaliza grupos de cidadãos que “ousam” afirmar-se pela sua diferença, sem qualquer tipo de complexo.
Entre os marginalizados está a comunidade negra, que ao longo dos anos tem sentido o quanto é difícil conviver lado a lado com o preconceito social de quem se julga superior pelo simples facto de ter um tipo de pele diferente.
O jornal “Folha de São Paulo” publicou uma matéria que revela, mais uma vez, a força que o preconceito tem no Brasil e onde  um cidadão angolano aparece envolvido como promotor de um concurso de beleza onde foi eleita a Miss África Brasil, uma jovem natural da Guiné-Bissau que chegou seis anos atrás ao país.
Samira Nancassa, de 28 anos de idade e mãe de um bebé com pouco mais de um ano, chegou ao Brasil com dois sonhos: concluir um curso superior e ser modelo.
Se o primeiro sonho ainda permanece intacto, o segundo esfumou-se quando engravidou de um homem de quem acabaria pouco depois por se separar. Por isso, foi hesitante que se inscreveu no concurso onde acabaria por ser eleita Miss África Brasil, para sua surpresa e gáudio das mais de 400 pessoas, na sua esmagadora maioria negras, que lotaram local onde o evento se realizou.
Neste últimas seis anos, Samira Nancassa lutou contra o preconceito de pessoas que fugiam quando a viam, pensando que podia tratar-se de uma assaltante, e das que lhe perguntavam o que estava a fazer num país que não era o seu.
O prémio conquistado no concurso é constituído por uma bolsa de estudos e uma viagem, o que a deixou satisfeita porque assim pode tornar realidade um dos sonhos que trouxe para o Brasil.
Por sua vez, o angolano Geovany Aragão, também ele de 28 anos de idade, organizador do evento, sentiu igualmente na pele os efeitos do preconceito racial sublinhando que foi isso que o incentivou a levar por diante a ideia de promover o concurso para eleger a Miss África Brasil.
Geovany Aragão chegou há quatro anos ao Brasil com a aspiração de se tornar jogador profissional de futebol. Hoje, passado esse tempo, orgulha-se de estar a fazer um mestrado em engenharia e de ser presidente de uma associação de estudantes africanos, deixando o futebol apenas para os tempos livres.
A realização do concurso, segundo ele, foi o pretexto que encontrou para mostrar à sociedade brasileira a capacidade das jovens africanas, para elevar a sua auto-estima e para divulgar a sua cultura.
A ideia foi a de dar de África a imagem de um continente que não precisa só de ajuda financeira, mas sobretudo necessita de ideias que ajudem ao seu crescimentos e de muita compreensão para aquela que é a sua realidade.
Estas são duas histórias de relativo sucesso que envolvem dois jovens imigrantes africanos que viram no Brasil uma plataforma para concretizarem os seus sonhos.
Porém, todos sabemos que existem muitas outras histórias, a esmagadora maioria, onde a luta contra o preconceito não teve o mesmo sucesso, tendo os sonhos sido desfeitos pela incompreensão humana daquilo que efectivamente é o continente africano, das esperanças e das ambições dos seus melhores filhos.
Infelizmente, o Brasil é apenas um dos muitos países onde o preconceito impera. Trata-se de um facto que não se esgota em questões raciais, mas se alonga a grupos minoritários que a sociedade marginaliza com uma tremenda falta de pudor.
Infelizmente, a tendência verificada nas sondagens feitas dias antes da realização das eleições de hoje deixam perceber que nada de substancial se irá alterar a nível da governação, com a previsível vitória de um candidato de direita que por várias vezes manifestou as suas ideias discriminatórias em relação às minorias.

Entre os marginalizados está a comunidade negra, que ao longo dos anos tem sentido o quanto é difícil conviver lado a lado com o preconceito social de quem se julga superior pelo simples facto de ter um tipo de pele diferente.
O jornal “Folha de São Paulo” publicou uma matéria que revela, mais uma vez, a força que o preconceito tem no Brasil e onde  um cidadão angolano aparece envolvido como promotor de um concurso de beleza onde foi eleita a Miss África Brasil, uma jovem natural da Guiné-Bissau que chegou seis anos atrás ao país.
Samira Nancassa, de 28 anos de idade e mãe de um bebé com pouco mais de um ano, chegou ao Brasil com dois sonhos: concluir um curso superior e ser modelo.
Se o primeiro sonho ainda permanece intacto, o segundo esfumou-se quando engravidou de um homem de quem acabaria pouco depois por se separar. Por isso, foi hesitante que se inscreveu no concurso onde acabaria por ser eleita Miss África Brasil, para sua surpresa e gáudio das mais de 400 pessoas, na sua esmagadora maioria negras, que lotaram local onde o evento se realizou.
Neste últimas seis anos, Samira Nancassa lutou contra o preconceito de pessoas que fugiam quando a viam, pensando que podia tratar-se de uma assaltante, e das que lhe perguntavam o que estava a fazer num país que não era o seu.
O prémio conquistado no concurso é constituído por uma bolsa de estudos e uma viagem, o que a deixou satisfeita porque assim pode tornar realidade um dos sonhos que trouxe para o Brasil.
Por sua vez, o angolano Geovany Aragão, também ele de 28 anos de idade, organizador do evento, sentiu igualmente na pele os efeitos do preconceito racial sublinhando que foi isso que o incentivou a levar por diante a ideia de promover o concurso para eleger a Miss África Brasil.
Geovany Aragão chegou há quatro anos ao Brasil com a aspiração de se tornar jogador profissional de futebol. Hoje, passado esse tempo, orgulha-se de estar a fazer um mestrado em engenharia e de ser presidente de uma associação de estudantes africanos, deixando o futebol apenas para os tempos livres.
A realização do concurso, segundo ele, foi o pretexto que encontrou para mostrar à sociedade brasileira a capacidade das jovens africanas, para elevar a sua auto-estima e para divulgar a sua cultura.
A ideia foi a de dar de África a imagem de um continente que não precisa só de ajuda financeira, mas sobretudo necessita de ideias que ajudem ao seu crescimentos e de muita compreensão para aquela que é a sua realidade.
Estas são duas histórias de relativo sucesso que envolvem dois jovens imigrantes africanos que viram no Brasil uma plataforma para concretizarem os seus sonhos.
Porém, todos sabemos que existem muitas outras histórias, a esmagadora maioria, onde a luta contra o preconceito não teve o mesmo sucesso, tendo os sonhos sido desfeitos pela incompreensão humana daquilo que efectivamente é o continente africano, das esperanças e das ambições dos seus melhores filhos.
Infelizmente, o Brasil é apenas um dos muitos países onde o preconceito impera. Trata-se de um facto que não se esgota em questões raciais, mas se alonga a grupos minoritários que a sociedade marginaliza com uma tremenda falta de pudor.
Infelizmente, a tendência verificada nas sondagens feitas dias antes da realização das eleições de hoje deixam perceber que nada de substancial se irá alterar a nível da governação, com a previsível vitória de um candidato de direita que por várias vezes manifestou as suas ideias discriminatórias em relação às minorias.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/luta_contra_o_preconceito

Empresa Netflix reconhece que racismo é um mal negócio e demite executivo

Jonathan Friedland era um dos principais porta-voz da plataforma de streaming; ele usou mais de uma vez o termo “nigger”, considerado ofensivo nos EUA

Redação
Foto: M. Bazzi/DPA
Foto: M. Bazzi/DPA

 

Friedland tuitou que teria feito comentários de forma insensível. “Líderes precisam ser irrepreensíveis e infelizmente fiquei aquém desse padrão quando fui insensível falando para minha equipe”, escreveu o executivo.

Ele passou mais de sete anos na Netflix e, anteriormente, atuava na Walt Disney. A saída de Friedland do Netflix é a mais recente de uma série de importantes executivos renunciando por comportamento inapropriado.

Procurado pela Reuters, Friedland não estava imediatamente disponível para comentar sua saída da empresa.

 

No último sábado (22), a Netflix demitiu um dos seus principais executivos, Jonathan Friedland, por persistir em usar insultos racistas com outros funcionários da empresa.

Em memorando enviado por Reed Hastings, CEO da Netflix, ele relata os três incidentes com Friedland. A primeira, ele teria utilizado a palavra “nigger” em uma reunião sobre palavras sensíveis. O termo é um tabu nos Estados Unidos e considerado ofensivo.

Na ocasião, Friedland se desculpou, mas alguns meses depois, em um evento voltado para funcionários negros, o executivo não tocou no assunto. Na semana passada, Hastings soube de outra situação e resolveu demitir o funcionário.

Dois colegas de trabalho teriam tentado ajudar Friedman após os incidentes, mas ele voltou a usar o termo “nigger” para atingí-los.

“Jonathan contribuiu muito (para Netflix) de várias maneiras, mas seu uso da palavra que começa com N em pelo menos duas ocasiões no trabalho mostrou uma falta atenção e sensibilidade em relação a questões raciais que não correspondem aos valores da nossa empresa”, escreveu Hastings.

 

fonte:http://bahia.ba/entretenimento/netflix-demite-executivo-por-insultos-racistas/

Alou Cissé o unico negro técnico de futebol na Copa do Mundo em 2018

cisseA seleção de Senegal estreia hoje pela Copa do Mundo sob o comando do único treinador negro do torneio, Aliou Cissé, de 42 anos.

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Como jogador, Cissé foi capitão da melhor seleção de Senegal de todos os tempos, aquela que chegou até as quartas de final na Copa do Mundo de 2002, após deixar França, Uruguai e Suécia no caminho.

Como técnico, levou seu país às quartas de final da Olimpíada de Londres em 2012. Depois de vários bons resultados com as seleções de base, foi promovido e classificou Senegal para a Copa do Mundo de 2018.cisse6

Na véspera de sua estreia na Rússia Aliou Cissé revelou algum orgulho e algum incômodo com o fato de ser o único técnico negro entre os 32 que estão na Rússia para a Copa do Mundo.

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– É verdade, sou o único negro, mas este é um longo debate e não tem a ver com futebol. O futebol é um esporte universal, a cor da pele não deveria ser algo relevante. Mas sim, é importante ter um técnico negro – comentou o treinador

Em seu país, Cissé costuma ouvir críticas por ser pragmático demais – especialmente porque Senegal hoje conta com meias rápidos e atacantes perigosos, como Sadio Mané, o craque do Liverpool.

O estilo mais pragmático imposto por Cissé serviu para Senegal voltar a disputar uma Copa do Mundo após 16 anos e talvez seja o melhor caminho para uma seleção africana finalmente superar a barreira das quartas de final.

– Tenho certeza que um time africano vai vencer a Copa do Mundo. Vinte anos atrás, seleções africanas vinham só para completar a Copa, fazer parte. Já mostramos que podemos fazer muito mais. Temos muitas dificuldades em nossos países, mas não temos nenhum tipo de complexo. E precisamos de técnicos africanos para isso – disse.

A dura luta contra o racismo em Portugal

A propósito do Dia Mundial da Tolerância em Portugal em novembro do ano passado foi  entrevistado Mamadou Ba, dirigente da associação S.O.S. Racismo, e uma das vozes mais sonantes no combate ao racismo e integração das minorias étcnicas na sociedade.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

Nasceu no Senegal, fundou a Associação Luso-Senegalesa e encontrou na direção da associação S.O.S. Racismo uma missão para vida. O discurso é assertivo e vai direto ao assunto. «O racismo está bastante presente em Portugal».

O movimento S.O.S. Racismo (que também existe em também em França, Austria, Itália e Noruega) comemorou vinte anos desde a sua formação e, para Mamadou Ba, é um dos organismos que «tem mesmo de existir porque há ainda muito que fazer».

Em entrevista, Mamadou admite que o cenário melhorou mas que as minorias ainda são «uma segunda camada da sociedade».

Falamos de tolerância esta semana. O racismo e a xenofobia são a antítese desta noção. 
Completamente. Como é possível sermos tão rápidos a criticar ou ostracizar uns aos outros e já nos é mais difícil aceitar que, no fundo, somos todos iguais? É um problema tão grave que está enraizado na cultura, na educação, no civismo e na forma como olhamos o mundo.

Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Como se começa a erradicar o racismo quando está tão intrínseco na nossa sociedade? 
Começa primeiro por uma catarse social a nível global. Primeiro que tudo, para resolver o problema é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo. Não é ignorar, não é achar que já se fez tudo. Vamos admitir que este é um problema endémico e a partir dai, como sociedade, vamos criar mecanismos para resolvê-lo. Obviamente, as medidas passam por diversas áreas. Numa primeira fase, é na formação dos cidadãos. A nossa educação tem de ser absolutamente revista. Os conteúdos curriculares têm de refletir a diversidade cultural. É fundamental. Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Mas essa acaba por ser uma medida a longo prazo. O que pode ser feito agora?
É verdade. Rever todo o sistema de educação demora tempo. A curto ou médio prazo, o Estado tem de traduzir, nas suas políticas gerais, medidas concretas para combater o preconceito, não só na educação mas na área do emprego, social, cultural. O olhar da justiça sobre a diferença precisa de ser reformulado.

Primeiro que tudo, para resolver o problema do racismo é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo.

Vinte anos de trabalho do S.O.S. Racismo em Portugal. O que mudou? 
Há uma coisa inegável. A questão do racismo agora faz parte do debate público. Deixou de ser um tabu discutir o racismo na sociedade. É um passo grande. Em finais da década de 1990, houve um quadro jurídico virado para o combate contra o racismo. Não havia antes. Há instrumentos públicos que foram criados nesse sentido.

E funcionam?
Precisam ser mais eficazes. Ainda pecam muito pela falta de ação. O quadro jurídico deveria evoluir segundo as indicações da ECRI (European Commission against Racism and Intolerance). Até agora tem sido muito pouco eficiente na punição de infratores. O racismo tem de ser punível por lei. Impõe-se uma restruturação substancial do sistema legal. Não resolve do ponto de vista social a questão do racismo, mas seria um poderoso incentivo.

O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas.

O S.O.S Racismo trabalha diretamente com as comunidades negra e cigana…
Que são as duas mais afetadas pela questão racial, sem dúvida. Continuam numa espécie de segunda camada da sociedade portuguesa. Quase não existem figuras de relevo destas comunidades, pois não? Isto é um sintoma do que se passa. As pessoas ainda estão «atrás do biombo» em relação aos outros.

A Europa vive uma crise de refugiados que se arrasta há já algum tempo mas que já pouco se fala. Esta situação teve algum impacto na forma como a comunidade europeia olha para as minorias étnicas? 
Eu não chamaria crise dos refugiados, mas uma crise da resposta política à questão dos refugiados. Se nós olharmos à volta da Europa, para o Líbano ou Turquia, vemos que o número de refugiados é substancialmente maior. Houve um debate público a nível europeu que resvalou pouco por cá. O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas e observamos, com muito receio, a ascensão das forças de extrema-direita.

Em Portugal também?
Não sentimos com a mesma força que noutros países, isso não.

 

Fonte;https://www.noticiasmagazine.pt/2017/mamadou-ba-racismo-punivel-lei/