História:A revolta de 4 de fevereiro de 1961 em Angola

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A luta pela liberdade contra o jugo colonial mobilizou vários nacionalistas em Angola. O secretário-geral da Associação Comité dos Heróis do 4 de Fevereiro, Agostinho Miguel Inácio “Kisekele, um dos sobreviventes do levantamento de 4 de Fevereiro de 1961, falou ao Jornal de Angola dos momentos que marcaram o dia do início da luta armada.

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Nascido aos 8 de Junho de 1940, na aldeia de Auri, em Icolo e Bengo, conta como chegou a Luanda e ingressou nas células clandestinas. Agostinho Miguel Inácio “Kisekele aponta a crença em Deus e nas forças ocultas como as principais razões de força que motivaram os nacionalistas para a luta. De 76 anos, disse que foi preciso engolir moedas para não serem atingidos por balas. Com catanas empunhadas nas mãos, 250 jovens saíram às ruas de Luanda, sob a protecção de uma jovem virgem e rainha de 12 anos, para derrubar o poderoso regime colonial. Recorda com emoção o massacre da PIDE depois dos ataques dos heróis do 4 de Fevereiro. Hoje, num país livre e em paz, diz que a juventude angolana sempre foi patriota em todas as fases da luta e apela ao registo eleitoral a todos os angolanos.


Jornal de Angola – Como é que tudo começou a 4 de Fevereiro de 1961?


Agostinho Miguel Inácio –
Foi em 1956 que saio de Icolo e Bengo para Luanda e me dirijo ao Liceu Salvador Correia para me matricular no primeiro ano e não fui aceite, porque o meu pai era indígena. Também na Escola Comercial não fui aceite. Consegui um lugar, por intermédio de uma senhora, que viu a minha aflição e me disse que a prima dela precisava de alunos no Colégio D. João IV. É ali onde me matriculo. E, como se não bastasse também, o meu pai vê-se impossibilitado de pagar propinas para dois filhos. O meu pai aconselha-me que eu começasse a trabalhar e deixar o meu irmão menor a estudar de dia. Foi o que fiz. Em Novembro de 1957, arranjei emprego, no então Serviço de Direcção Provincial de Economia e Estatística Geral, onde me empreguei.

Jornal de Angola  –  Que  cargo ocupou na administração colonial?

Agostinho Miguel Inácio –
Não fui aceite para escriturário sequer. Disseram-me que, se quisesse trabalhar, tinha que ser servente de 2ª classe, nem contínuo poderia ser. Eu aceitei o cargo de servente de 2ª classe. Aceitei, porque alguém me aconselhou que, no período de três ou quatro meses, passaria a escriturário de 2ª classe. Aceitei este conselho e, no espaço de seis meses, passei logo para auxiliar escriturário de 3ª classe.

Jornal de Angola – Mas como é que participou na revolta de 4 de Fevereiro?

Agostinho Miguel Inácio –
Em 1958, começam a criar-se as células em Luanda. Eu sou convidado por um colega que se chamou em vida João Pedro de Andrade que era afilhado do finado padre Filipe. Ele é que me convidou. No princípio, eu tinha receio, mas, depois de tanta conversa com ele, convenci-me de engrenar na célula. Ingressei na célula com o João Pedro da Andrade e só depois vim a conhecer o senhor padre João da Silva. Para dizer que o 4 de Fevereiro começou a desenhar-se em 1958. O falecido Fabião, um dos responsáveis das células, sentindo-se incapaz de conduzir a luta, convida o seu sobrinho Paiva, que se encontrava no Uíge, para encabeçar a rebelião.

Jornal de Angola – Qual foi a reacção do Paiva?

Agostinho Miguel Inácio – O Paiva, posto cá em Luanda, dirige-se ao Sambizanga, porque o Fabião morava junto ao comerciante António Camponês, no musseque Mota. O tio diz: Paiva, chamei-te para que você conduza aqui uma situação. Eu não tenho coragem, é preciso nós nos libertarmos do colono. E, para nos libertarmos, é preciso que haja um levantamento. Temos que resistir contra o colono. O Paiva aceita o desafio e depois regressa para o Uíge, apenas para entregar as obras, porque ele fazia obras por ajuste.

Jornal de Angola – Quais foram os passos subsequentes?

Agostinho Miguel Inácio – Quando o Paiva entregou as obras no Uíge e regressa a Luanda, a situação estava mais avançada e entrou numa célula. No dia 25 de Janeiro de 1961, a célula onde se encontrava o Paiva resolve encontrar um lugar para os treinos. Os treinos começaram no espaço onde está o bairro Rangel. É ali onde se encontrava a casa onde as pessoas reuniam-se. Entretanto, a direcção viu que o sítio estava muito visível e facilmente se descobriria que ali havia movimentação. Muda-se para ali onde está hoje o Marco Histórico do Cazenga e ali começou a haver treinos de grau urbano, já em 1961. Contudo, neste local onde hoje há o Marco Histórico existia lá cerca de sete casas. Numa delas, habitava um tenebroso da PIDE que se chamava Pina. O senhor era natural de Icolo e Bengo e era informador. Então, resolveu-se abandonar o sítio e mudámos para Cacuaco na zona da Pedreira, ali onde hoje deram o nome de Belo Monte. O local também não era seguro. A 25 de Janeiro de 1961, regressámos a Luanda.

Jornal de Angola – Como eram feitos os treinos?


Agostinho Miguel Inácio – O treino que fazíamos era de guerrilha, treinos feitos com catanas e paus
. Nós tínhamos três soldados indígenas que tinham servido o exército colonial, em Timor, Macau e na Índia. Esses é que eram os nossos instrutores. Corrida, cambalhotar, rastejar, simular ataque com alguém de pé, neste caso a sentinela. Postos em Luanda, a direcção apercebe-se que havia-se desviado o navio Santa Maria, que se dizia que rumava para Luanda e também aproximava-se o Carnaval. Então, com estas duas coisas ao mesmo tempo… Mas aí havia o problema de comprar as catanas. Comprávamos as catanas nos comerciantes do Rangel, cada um comprava a sua catana. Numa reunião, ficou acordado que cada um deveria arranjar a sua catana. Na compra de catanas, dizíamos que era para roçar as nossas lavras.

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Jornal de Angola – A procura de catanas não despertou os colonialistas?

Agostinho Miguel Inácio –
Nós fazíamos assim: se um compra aqui catana, o outro compra noutro sítio. Há pessoas que saíam do bairro Rangel para ir comprar no Bairro Popular. Não poderíamos comprar no mesmo sítio, senão dariam conta, porque os comerciantes eram os informadores da PIDE.

Jornal de Angola – Quanto custava uma catana?

Agostinho Miguel Inácio – A catana custava entre 15 a 20 escudos.
Eu tenho esta catana que serve de amostra. Nós ficámos cerca de 20 a 30 dias a afiar as catanas. Inicialmente, começámos a afiar as catanas com limas, depois passámos para as pedras. Em Icolo e Bengo, há pedras próprias que servem para afiar as catanas. Cada um afiava a catana em sua casa. Sem exagero nenhum, com aquelas catanas poder-se-ia fazer a barba. Estavam muito bem afiadas.

Jornal de Angola – Para além de catanas, que outros instrumentos de luta estavam a preparar?

Agostinho Miguel Inácio – Se alguém disser que no 4 de Fevereiro entraram armas, mente. Não é verdade. Ninguém poderia ter armas. Tínhamos catanas e paus.

Jornal de Angola – Quantos elementos estavam envolvidos neste processo?

Agostinho Miguel Inácio –
Éramos 3.123 jovens, contudo, no dia 4 de Fevereiro só entraram em acção 250 pessoas (241 soldados e 9 responsáveis).
Jornal de Angola – Havia jovens com 18 anos na altura?

Agostinho Miguel Inácio –
Com 18 anos, parece que havia apenas um ou dois, que eu conheço. Um deles é o Mateus Mário de Andrade.

Jornal de Angola – Depois de receberem o treino e comprarem as catanas, qual foi o passo seguinte?

Agostinho Miguel Inácio –
No dia 3 de Fevereiro de 1961, há uma reunião de dirigentes. Nos concentrámos no quintalão do falecido Imperial Santana, como se fosse o comando geral, o comandante-geral era o Raul Agostinho Leão. Na altura que reunimos havia a discussão sobre qual seria a data. Só no dia 3 é que se encontra a data. Enquanto estávamos reunidos, surge um colega nosso, que é o Salvador Sebastião, que avisa que tínhamos muitas dificuldades de entrar lá por que havia muita segurança em volta e que não foi fácil. Ele avisa o comandante Paiva. O Paiva não lhe manda entrar, ele saiu e foi ter com ele fora. Então, o que é que se passa? O comandante Paiva pergunta ao Salvador o que se passava. Ele respondeu que trazia um recado, que teve um contacto com o Padre Manuel das Neves, que lhe disse que os colonos que se encontram em Angola já tomaram conhecimento do assunto, que haveria uma rebelião em Luanda e que haveria escaramuças.

Jornal de Angola – Qual foi a orientação do Padre Manuel das Neves?

Agostinho Miguel Inácio –
Ele orientou que se tivesse tudo preparado, que fizessem ainda hoje ou amanhã, porque se falhasse, eles iriam agir. Isso serviu de motivação para que o acto tivesse lugar no dia 4 de Fevereiro. E inclusive, parece, calhou num sábado como vai calhar este ano. Na reunião que tivemos, os dirigentes saem da reunião, vieram ter connosco. Então, avisam que chegou o dia e nós tínhamos que passar à acção. O primeiro passo que nos deram foi o de criar grupos de 25 elementos cada. Mas antes desses grupos, distribuíram a cada uma boina preta e catana. Cada um usou um calção preto e uma camisola. Levámos isto tudo às escondidas. Só lá no quintalão é que usámos os nossos calções pretos, os ténis pretos e azuis, a boina e a catana. Depois, partimos para a acção a partir das 2 da manhã. As partidas começaram a ser feitas da seguinte forma: de dez em dez minutos, partia um grupo. Cada grupo tinha um objectivo a atingir, um dos postos a atingir era a Cadeia de São Paulo hoje, a Casa de Reclusão que hoje é Unidade Operativa, o Regimento de Infantaria, o aeroporto que hoje é ali onde é o Largo das Escolas. Eram cerca de sete objectivos a atingir, só que houve falha, porque o espaço de dez minutos foi muito grande, de mais.

Jornal de Angola – Como foi possível atacar homens que tinham armas de fogo?

Agostinho Miguel Inácio – O nosso sangue era da juventude. Também  duas coisas contribuíram para isso. Primeiro, crença em Deus e, depois, a magia negra. Engolimos cada um uma moeda de 50 centavos, porque acreditávamos que com isto a bala não entrava. E, outra coisa, ao ir ao ataque, se recuasse não poderia virar. Se virasse atrás a bala te apanhava. Havia ainda outra orientação. Aqueles que tinham mulheres, ninguém podia um dia antes envolver-se com a sua mulher. E quem o fizesse poderia morrer. Eu na altura não tinha mulher, porque o meu pai não deixava. Os que tinham mulheres eram os nossos chefes, como Paiva da Silva, Imperial Santana e Gomes Manuel, que foi o tesoureiro geral e o Adão Boca, comandante Francisco Mbungo, que era o secretário-geral da célula.

Jornal de Angola – Que outras orientações receberam mais?

Agostinho Miguel Inácio – Na altura, nos perguntaram quem queria morrer pela pátria. Todos em uníssono respondemos: queremos morrer pela pátria. Nós jurámos a bandeira aí. O Paiva perguntava quem quer morrer pela pátria – respondíamos – nós queremos morrer pela pátria.

Jornal de Angola – No dia do ataque, não houve mortes?

Agostinho Miguel Inácio –
Houve. Morreram dois dirigentes. Morreu o dirigente que comandou a quarta esquadra, Ivo Manuel, e morreu o comandante que orientou o assalto à cadeia de São Paulo, António Francisco. Feridos, o comandante que foi comigo na Emissora Oficial, ficou lá ferido, o Imperial Santana também ficou ferido e mais seis.

Jornal de Angola – Como é que o senhor Agostinho Miguel Inácio se saiu destes ataques?


Agostinho Miguel Inácio –
Eu tive sorte. Nós fomos com o objectivo de atacar a Emissora Oficial. Ao chegarmos próximo, cerca de seis metros de distância, surge um polícia que é da guarda republicana que rondava a área. O Paiva lhe pergunta – quem vem aí, faz alto. Nós abrimos alas, ele ficou no meio, mas ele teve tempo de disparar dois tiros no abdómen do nosso comandante. E depois foi evacuado.

Jornal de Angola – E o que acontece com o polícia?

Agostinho Miguel Inácio – O polícia foi abatido de imediato, morreu logo aí. Foi morto com catanas. Eu e o Samuel demos a volta ao polícia e lhe demos com catanas ao pescoço. A cabeça caiu em direcção ao peito e ficou suspensa pela cartilagem. Senti-me feliz, porque sabia que havia algo de bom a vir para o povo.

Jornal de Angola – Disse que a vossa força estava enraizada em Deus, como compreender a vossa acção com a crença em Deus?

Agostinho Miguel Inácio – Deus, na Bíblia, diz cuida-te e eu te cuidarei. Como me cuidar, é estar livre. Nas nossas reuniões na igreja, nas classes, fazíamos os cultos à tarde e à noite. Eram mais metodistas do que católicos. Eram mais metodistas e kimbanguistas. Eu orgulho-me de ter participado dessa acção.

Jornal de Angola – Qual foi o passo seguinte, depois do primeiro ataque?

Agostinho Miguel Inácio –
Houve necessidade de nós sairmos da área. Saímos daí dos Correios. Alguns polícias estavam em cima do tanque e estava escuro. Era por volta das 2 horas da manhã. Nós chegámos às duas da manhã. Recuámos, atravessámos a linha férrea. E fomos parar ali onde hoje é a sede da Associação 4 de Fevereiro, ali atrás da Fábrica da Cuca, nos Cajueiros. Parámos aí e fomos saindo cada um sozinho. A maior parte das pessoas que estavam ali vivia no Rangel. Eu saí com o Adão Cardoso, durante dois dias.

Jornal de Angola – No dia do ataque, todos dispersaram?

Agostinho Miguel Inácio – Todos dispersaram. Mas havia um sítio onde todas as pessoas tinham que se encontrar, mas nós não fomos lá. As pessoas tinham que se encontrar depois na casa do Imperial Santana, ou então na casa da nossa rainha.

Jornal de Angola – Quem foi a rainha?

Agostinho Miguel Inácio – Engrácia Francisco Cabenha. Era uma miúda de 12 anos. Um dos chefes, o finado Augusto Bembi, numa reunião, aconselha que a revolução angolana só teria êxito se nela estivessem envolvidas também mulheres. E era preciso uma mulher para representar a Rainha Ginga. E essa mulher tinha de ser virgem. E a única mulher que foi encontrada e que deveria ser virgem era a Engrácia, que era sobrinha do Raul Augusto Leão.

Jornal de Angola – Por que razão tinha de ser necessariamente uma mulher virgem?

Agostinho Miguel Inácio – Aí já não sei dizer. Só os chefes sabiam o truque. Mas eles queriam que fosse só uma mulher virgem e se não fosse virgem não daria certo. Ela tinha uma casa que era espécie de um posto policial. Uma casa de um quarto e sala só, tinha velas acesas, a Bíblia aberta e três guardas à volta. Os guardas eram Pascoal Salvador, Adriano Manuel Gerónimo e Mateus de Andrade. A rainha se ocupava de disciplinar os chefes, principalmente. Porque, ali onde ela estava, nenhum chefe poderia sair sem orientação dela. Ela é que tinha de autorizar. Quem incumprisse tinha castigo para ele. O Imperial Santana tinha mais de trinta anos. Ela tinha autoridade para tal. Ela foi investida com esta autoridade.

Jornal de Angola – Qual foi o papel da rainha no dia 4 de Fevereiro?

Agostinho Miguel Inácio – Ela ficou nesta casa onde havia Bíblia, a orar, já de luto, porque sabia que poucos voltariam. Ela já estava  enlutada. Muitos já não regressaram às casas.

Jornal de Angola – E, no dia seguinte, como se comunicaram?


Agostinho Miguel Inácio –
Eu tinha dinheiro no bolso, fui alugar uma casa e não voltei mais onde eu morava. Eu vivia ao lado da casa do Imperial Santana. Depois deste acto, eu já não voltei mais lá. Tudo o que tinha, lá deixei.

Jornal de Angola – Qual foi a reacção dos colonialistas?

Agostinho Miguel Inácio – Havia rusgas em todos os bairros. Batiam casas e pegavam nas metralhadoras e direccionavam por baixo da cama. Foi uma carnificina, morreu muita gente. Eu fui morar no Bairro Operário. Muitos dos meus familiares só souberam que eu estava vivo em 1967, porque, depois do assalto, no dia 5 de Junho incorporo-me no exército português. E vou para o Huambo como recruta. Fiz a recruta, jurei a bandeira, fiz a escola de cabo e depois fui transferido para Carmona na altura, no Uíge.

Jornal de Angola – Como se sentiu ao servir os ideais dos colonialistas?

Agostinho Miguel Inácio – Primeiro é que era obrigatório. Ninguém poderia dizer que não iria cumprir o serviço militar, porque senão seria refractário. Os únicos que não faziam o serviço militar até 1970 eram os mestiços, os assimilados, os colonos nascidos em Angola também não poderiam fazer serviço militar.

Jornal de Angola – Qual foi o maior ganho do 4 de Fevereiro?

Agostinho Miguel Inácio –
O maior ganho do 4 de Fevereiro foi a abolição do indigenato em Angola. Foi um decreto de 6 de Setembro de 1961, quando foi abolido o indigenato.

Jornal de Angola  –  Quantos sobreviventes do 4 de Fevereiro ainda existem?


Agostinho Miguel Inácio –
Neste momento, somos apenas 25, incluindo a rainha. Na altura da Independência, eram 101 pessoas. A rainha, neste momento, vive no Namibe. Todos nós somos reformados.

Jornal de Angola – Que apoios recebem do Estado?

Agostinho Miguel Inácio – Temos recebido algum apoio, mas precisamos de mais apoio. Precisamos que o Governo nos olhe mais, porque o que recebemos ainda não é o suficiente. Nós recebemos viaturas protocolares V8. Fomos promovidos em 1998 a brigadeiros. Em 2014, fomos promovidos a tenentes-generais. Todos somos tenentes-generais, menos um que é coronel. Nós desconhecemos por que razão um não é promovido a tenente-general. Recebemos também a pensão de 25 mil kwanzas, para os antigos combatentes, e o fundo de pensões, onde recebemos 62 mil kwanzas por mês. Ainda não temos casas. Já reclamámos, já escrevemos. Só se diz que teremos casas, mas quando, não sabemos. Eu, por exemplo, vivo nesta minha casa desde 1975. Estamos todos dispersos. Os 25 estamos todos em Luanda, tirando a rainha que vive no Namibe, mas ela está sempre em Luanda.

Jornal de Angola – Como estão organizados?

Agostinho Miguel Inácio – Temos a Associação Comité dos Heróis do 4 de Fevereiro. Eu sou o secretário-geral da associação. Nós, constantemente, tentamos nos encontrar, discutimos, para vermos se o partido e o Governo criam melhores condições para nós. Por exemplo, ter uma casa em condições, ter uma xitaca, uma lavra ou fazenda, ao invés de estarmos aqui a vegetar na cidade. Ainda não temos isto. Não sei se haverá um dia. Se já estamos a acabar… do dia 18 de Dezembro até hoje já morreram dois.

Jornal de Angola –  O  que gostariam de ter mais?

Agostinho Miguel Inácio –
Seria fastidioso dizer o que é que gostaríamos de ter mais. Nós gostaríamos do essencial, fosse a bolsa de estudo para os nossos filhos, nós já estamos velhos. Gostaríamos que os nossos filhos dissessem que eu estou aqui porque o meu pai participou aí e, então, com base nisso, tenho uma bolsa de estudo.

Jornal de Angola – As bolsas de estudo para os filhos dos antigos combatentes existentes nas universidades públicas do país não vos abrangem?

Agostinho Miguel Inácio –
Os meus filhos e os dos meus colegas todos estudam por nossa conta. Se existem antigos combatentes do 4 de Fevereiro que beneficiaram de bolsa de estudo, só dos que foram membros do Governo, talvez são os que beneficiaram. Nós nunca beneficiámos de bolsas de estudo para os nossos filhos. Quem já contactou a Associação 4 de Fevereiro para dizer que temos bolsas? Ouvimos dizer que existem bolsas de estudo, mas quem beneficia delas?

Jornal de Angola – Que apoio recebem da sociedade civil?

Agostinho Miguel Inácio –
Caro jornalista, já que o partido, o Governo, praticamente não olha para nós, como nós pensamos como devia ser, nós evitamos fazer pedidos. Evitamos encostar às igrejas. Cada um vai rezar e depois vai para sua casa, mas não dizemos nada sobre isto. Estamos sempre aqui. Nós não temos apoio de nenhuma instituição. Tirando o apoio do Fundo de Pensões e a pensão dos antigos combatentes, nós não temos nada. A nossa sobrevivência é com base nisso. As organizações juvenis que também deveriam nos contactar também não nos procuram. Nós andamos quase que divorciados de outras organizações.

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/pais_recorda_herois

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Partido de Mandela sofre recuo inédito na África do Sul. Por que isso aconteceu?

  • Rafael Iandoli

Após 22 anos de hegemonia na cena política nacional, o ANC recebeu nas urnas um alerta de que precisa promover reformulações estruturais

FOTO: JAMES OATWAY/REUTERS

Partido da situação, ANC sofreu derrotas importantes

ELEITORA DEPOSITA SEU VOTO EM ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA ÁFRICA DO SUL

Os eleitores sul-africanos foram às urnas na quarta-feira (03) para escolher seus governantes municipais, que ficarão no cargo pelos próximos cinco anos. Os resultados apontam para a maior retração do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) desde o estabelecimento da democracia multirracial, em 1994, solidificada com a eleição do candidato do partido, Nelson Mandela, à presidência do país.

Apesar de ainda obter a maioria dos votos no somatório nacional, pela primeira vez o ANC não chegou à marca dos 60% de votos, estacionando nos 53,9%. O resultado confirma um cenário de cansaço e desilusão com o partido, que desde o fim do Apartheid exerce o papel de situação.

Ainda mais doloroso para Jacob Zuma, atual presidente sul-africano e um dos líderes do ANC, é perder o controle de dois dos principais municípios do país: a capital, Pretoria, e Nelson Mandela Bay, famoso por ser a origem de diversos combatentes do Apartheid. Joanesburgo, principal centro econômico do país, ficou sob controle do ANC por pouco, com uma diferença de 6% para o maior partido de oposição – Aliança Democrática (DA, na sigla em inglês) – e sem garantir maioria absoluta.

TRÊS PARTIDOS COM MAIS VOTOS

Apoiado no histórico de libertação do racismo institucionalizado que persistiu de 1948 a 1994 em nível nacional, e mais especificamente na imagem de Mandela, o ANC se manteve hegemônico sem precisar fazer grandes esforços nas últimas duas décadas. Acomodou-se com uma confiança tão grande que seu secretário-geral, Gwede Mantashe, chegou a dizer que o partido era “escolhido por deus” para liderar o país.

Apesar do avanço da oposição, sobretudo nas áreas urbanas da África do Sul, onde as populações utilizam menos serviços públicos garantidos pelo governo federal, o principal motivo da fragilização do ANC, escancarado na última semana, é a desmobilização de suas bases.

Algumas cidades que são redutos do partido apresentaram números baixíssimos de comparecimento às urnas – o voto não é obrigatório por lá, como é no Brasil. Em alguns casos, menos de 5% dos eleitores registrados votaram, mesmo em locais que confirmaram a vitória do ANC. O recado foi dado: a insatisfação está posta, e o partido terá de mudar sua postura.

Para especialistas, apesar de perder força, o ANC tampouco pode ter sua força questionada, uma vez que contou por muitos anos não apenas com o apoio, mas também com o carinho de seus eleitores. Os laços afetivos que a população negra possui com o partido não são fáceis de serem quebrados. Os negros representam aproximadamente 80% dos sul-africanos.

“Muitas pessoas que estão desapontadas com o ANC tampouco conseguem votar em um partido que reconhecem como sendo dominado por brancos”

Shireen Hassim

Professor de política na Universidade de Witwatersrand, em entrevista ao jornal britânico “The Guardian

Origens da decepção

A África do Sul nunca se recuperou totalmente da crise econômica global que teve início em 2008. O ANC é visto como um partido que não teve a capacidade de retomar o crescimento e nem mesmo de contornar os problemas sociais derivados da crise. Somado a isso, acusações de corrupção e favorecimentos pessoais envolvendo a imagem do atual presidente Jacob Zuma contribuíram para aumentar o desgaste do partido de Mandela.

Dois principais fatores

ESTAGNAÇÃO ECONÔMICA E DESEMPREGO

Com uma economia dependente da exportação decommodities, e em plena fase de desindustrialização, a crise econômica mundial fez com que os principais compradores dos produtos sul-africanos – China, União Europeia e Estados Unidos – diminuíssem os gastos, afetando a entrada de dinheiro no país. Tal cenário contribuiu para o aumento do desemprego, que hoje atinge 25% da mão de obra. Sem demonstrar sinais de melhora, a capacidade do governo de retomar o crescimento passou a ser questionada.

CRESCE A FALTA DE POSTOS DE TRABALHO

CORRUPÇÃO

Além dos problemas nacionais que acabam rebatendo no partido em forma de críticas, o ANC é alvo também de acusações diretas de corrupção. O presidente Jacob Zuma já foi condenado em 2016 pela Corte Constitucional a devolver meio milhão de dólares aos cofres públicos, sob a alegação de que teria usado a verba para fazer reformas em um imóvel particular. O presidente também é acusado de permitir que uma família de ricos empresários comandasse as decisões de seu gabinete.

Impacto para 2019

FOTO: SIPHIWE SIBEKO/REUTERS

País africano estabeleceu pior desempenho do ANC desde o fim do Apartheid

PRESIDENTE DA ÁFRICA DO SUL, JACOB ZUMA, ANUNCIA RESULTADO DAS ELEIÇÕES

Assim como a maioria das eleições locais ao redor do mundo, o encolhimento do ANC nas municipais é mais importante pelo que ele representa para o panorama nacional do que, de fato, pelas cidades que a oposição conquistou.

O resultado é histórico, e o que se espera do partido de Zuma a partir de agora é repensar sua organização interna e sua estratégia política. A certeza do sucesso evitou que o partido evoluísse e acompanhasse as mudanças no país, conforme membros do partido constataram à imprensa após as eleições.

Nomes importantes do ANC se pronunciaram. Mavuso Msimang, líder histórico da legenda, foi um deles. Ele disse ao jornal americano “Washington Post” que “os eleitores responderam à arrogância da minha organização”.

Para a oposição, as eleições representavam, na prática, um referendo sobre o trabalho de Zuma. A notícia foi boa, tanto para o DA, de direita, quanto para o menor ‘Combatentes pela Liberdade Econômica’ (EFF), de esquerda, criado por dissidentes do ANC. Eles agora veem a possibilidade de uma disputa pelo poder, antes impossível em um país praticamente monopartidário.

“Chamamos essa de ‘eleição da mudança’ porque sentimos que foi um referendo sobre Jacob Zuma enquanto figura nacional, mas também tivemos um referendo sobre o futuro da África do Sul”

Mmusi Maimane

Primeiro líder negro da Aliança Democrática, em entrevista à rádio local “702”

O papel da dinâmica racial nas eleições

FOTO: JAMES OATWAY/REUTERS

Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, faz propaganda eleitoral na África do Sul

CARRO DE CAMPANHA DO PARTIDO DA SITUAÇÃO, ANC, NO NORTE DE JOANESBURGO

Apesar do Apartheid ter terminado oficialmente em 1994, a desigualdade racial ainda tem um papel fundamental na dinâmica social e econômica da África do Sul.

A consolidação dos direitos iguais para negros e brancos não inseriu automaticamente os negros na economia formal, o que hoje se reflete em uma nova divisão populacional: os integrados na economia (tanto brancos quanto negros), e os não-integrados (majoritariamente negros).

Mesmo entre a população negra de classe média, permanece o sentimento de desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Duas populações vivendo em mundos distintos possuem, por consequência, demandas eleitorais também distintas.

Hoje, o ANC tem dificuldades em representar e conversar com ambos os lados, tornando urgente para sua sobrevivência uma reformulação estratégica.

“Temos de olhar para nós mesmos nos olhos e dizer ‘o que aconteceu?’ Não acreditamos que nenhuma outra organização na África do Sul ofereça uma solução melhor do que a do ANC. Se nós temos soluções melhores, o que deu errado?”

Jackson Mthembu

Membro do ANC, que ocupa um cargo semelhante ao líder de bancada de partido no Brasil

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/08/09/Partido-de-Mandela-sofre-recuo-in%C3%A9dito-na-%C3%81frica-do-Sul.-Por-que-isso-aconteceu

Oposição ao Governo de Mugabe cresce no Zimbabwe

zimbabwe revolta

Veteranos de guerra associaram-se às manifestações de protesto

 

A oposição ao Governo cresce num país pouco dado a protestos. Uma greve geral convocada para esta quarta-feira promete paralisar o país

Os veteranos de guerra associaram-se às manifestações de protesto cujo tom tem vindo a crescer no Zimbabwe. O alvo dos protestos é o Governo do Presidente Robert Mugabe e a acusação de políticas falhadas dirige-se ao partido na liderança, o ZANU-PF (União Nacional Africana do Zimbabwe), publica o site zimbabweano DailyNews.

“A crise que assola o nosso grande país é resultado de má governação e corrupção endémica e as suas consequências funestas estão agora à beira de consumir a nação”, declarou em conferência de imprensa Douglas Mahiya, porta-voz da Associação de Veteranos da Guerra de Libertação Nacional do Zimbabwe.

Os professores, médicos e enfermeiros estão, desde ontem, em greve de protesto por não receberem os seus salários há mais de um mês. Ainda que o Governo continue a prometer a regularização dos salários em meados deste mês de Julho, os manifestantes denunciam a falta de dinheiro crónica, que tem levado a sucessivas desvalorizações da moeda.

A greve dos sectores da função pública antecipa uma greve geral convocada por activistas para hoje. As acusações ao Executivo denunciam o mau estado da economia do país e a alegada corrupção do Governo. “Os funcionários públicos passam meses sem receber e não reagem. Deposita-se dinheiro nos bancos locais, um processo instantâneo, mas passam-se dias em filas, senão meses, para levantar uma fração desse dinheiro”, lê-se numa coluna de opinião do jornal “New Zimbabwe”.

Tumultos crescentes

As forças de segurança dispararam gás lacrimogéneo e canhões de água para tentar deter um surto de violência nas manifestação que reuniu milhares de condutores de transportes públicos na capital Harare. Os manifestantes bloquearem os acessos ao centro da cidade, obrigando os trabalhadores a fazerem dez quilómetros a pé.

Um repórter da Associated Press testemunhou, na passada segunda-feira, um grupo de manifestantes a espancarem dois polícias com paus. E nas últimas semanas tem-se assistido cenas destas quase diariamente, alimentadas pela frustração da população perante a incompetência governativa.

Robert Mugabe, que preside ao Governo do Zimbabwe desde 22 de dezembro de 1987, enfrenta cada vez mais oposição interna num país pouco dado a protestos como os que, em 1998, obrigaram a mandatar o exército para fazer parar os protestos contra a escassez de alimentos.

Em fevereiro deste ano, Mugabe comemorou o seu 92º aniversário com cerimônias públicas com pompa e circunstância, provocando reações muito negativas em vários sectores da sociedade.

http://opais.sapo.mz/index.php/internacional/56-internacional/41288-oposicao-ao-governo-de-mugabe-cresce-no-zimbabwe-.html