A crise em Moçambique continua, mas já foi pior

O cenário de curto prazo para a economia moçambicana “melhorou claramente”, avalia o departamento de pesquisa econômica e financeira do Banco BPI. Mas o país ainda enfrenta dificuldades como o acesso ao financiamento.

defaultA apreciação do metical, no final de 2016, foi uma das notícias positivas para o país

“O cenário de curto prazo para a economia de Moçambique melhorou claramente e o ponto mais baixo do ciclo já deve ter passado; no entanto, o cenário ainda é constrangido por vários riscos e é condicionado pela ocorrência de vários eventos”, lê-se numa nota de análise, citada pela agência de notícias Lusa

Os analistas do Banco Português de Investimento (BPI) salientam que, dos contatos que mantiveram recentemente em Maputo, os intervenientes salientaram “certas fraquezas da economia”, destacando “o débil sistema judicial, a elevada burocracia do Estado, as fracas infraestruturas e uma população com poucas qualificações”.

Mosambik junge Menschen HandelCrise continua a afetar o bolso dos moçambicanos

A estes fatores estruturais, escrevem os analistas, “juntam-se as debilidades atuais da economia”, que enfrenta “dificuldades de acesso ao financiamento, quer por via das taxas de juro elevadas, quer pelas condições exigentes na concessão de crédito, os problemas de liquidez do Estado e falta de confiança por parte dos parceiros internacionais”.

No final do ano, as notícias foram positivas para o país, designadamente “a retoma das exportações de carvão por parte da Vale e a apreciação do metical, decorrente também de medidas de política monetária fortemente restritivas”, mas para este ano as taxas de crescimento devem manter-se em níveis historicamente baixos.

Desafios para 2017

“Para este ano, apesar da expectativa de alguma retoma da atividade econômicas, não é esperado que se volte a assistir a taxas de crescimento substanciais como as verificadas no passado, embora a trajetória deva ser positiva”, escrevem os analistas do BPI no rescaldo da visita ao país.

Os desafios para este ano, apontam, passam pela “negociação com os credores para a reestruturação da dívida e acordo com o FMI para um novo programa, retirada gradual dos subsídios aos combustíveis, confirmação da atenuação/suspensão das tensões político-militares, evolução dos preços das matérias-primas nos mercados internacionais, manutenção de um cenário de restrições de liquidez no aparelho estatal e as decisões finais de investimento dos projetos de gás natural”.

Mosambik KraftstoffmangelA retirada gradual dos subsídios aos combustíveis é um dos desafios em Moçambique

Para os analistas do BPI que seguem a economia moçambicana, o modelo de assistência financeira dos doadores internacionais deverá mudar, focando-se menos no financiamento e mais em projetos concretos. “Não parece possível que os doadores voltem a conceder os donativos da mesma forma que faziam anteriormente; deverão antes aplicar diretamente a projetos, garantindo também uma melhor monitorização; nasce, assim, a necessidade do Governo desenvolver estratégias para alargar a sua base tributável e fazer face às suas despesas de funcionamento e às despesas essenciais para que se registem processos no desenvolvimento econômico”, explicam..

As perspetivas de médio e longo prazo, no entanto, “continuam favoráveis”, essencialmente devido à dinâmica renovada dos megaprojetos na área dos recursos naturais, e a situação político-militar “está aparentemente mais pacificada, permitindo a retoma da circulação normal de bens e pessoas”.

Consequências

A crise do ano passado deixa, no entanto, consequências: “no caso do Governo, será exigido que operem com menos recursos, promovendo a sua utilização de forma mais eficiente; que promovam medidas de alargamento da base tributável, medidas de combate à informalidade da economia e promoção de outros setores da economia (diversificação econômica e criação de emprego)”.

Para os privados, “é esperado que as empresas que sobreviverem a esta crise fiquem mais robustas no futuro, através da diminuição de custos, melhoria do ‘governance’ e ponderando melhor as suas apostas de negócio”.

Por último, “no caso do setor financeiro, é expectável uma gestão de tesouraria mais cautelosa, mais controle nos custos e melhor avaliação do risco na concessão de crédito”. A crise, concluem, deverá “ser vista como uma janela de oportunidades, potenciando um crescimento mais sustentado e gerador de bem-estar para a população”.

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Guiné-Bissau: Partidos saúdam clareza da CEDEAO sobre crise política no país

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Bissau – Os líderes de sete partidos guineenses saudaram a “clareza e a contundência” do comunicado da última reunião de chefes de Estado e de governos da África Ocidental em relação aos caminhos para se acabar com a crise política na Guiné-Bissau.
 
Em comunicado a que a Lusa teve acesso na segunda-feira, líderes do PAIGC, PCD, PUN, PST, MP, UM e PND, elogiaram a forma como os chefes de Estado e de governos da Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO) olham pela questão da Guiné-Bissau e as soluções que preconizam para a saída da crise.
 
Diz o comunicado que as sete formações políticas “congratulam-se com a clareza e contundência dos pronunciamentos contidos no comunicado final” aprovado pela cimeira da CEDEAO que decorreu no último sábado na Nigéria.
 
No encontro, os lideres da África Ocidental instaram o presidente guineense, José Mário Vaz, “para que se conforme aos dispositivos do Acordo de Conakry”, instrumento patrocinado pela CEDEAO e com o qual a organização acredita que a Guiné-Bissau poderá sair da crise politica que conhece há mais de ano e meio.
 
O Acordo de Conakry preconiza, entre outros, a nomeação de um primeiro-ministro de consenso entre as forças políticas com representação parlamentar e que seja ainda figura de confiança do chefe do Estado.
 
Quatro partidos signatários do Acordo de Conakry não tomaram parte no governo investido pelo presidente guineense por considerarem que a figura nomeada para primeiro-ministro, Umaro Sissoco Embaló, não reuniu o consenso necessário.
 
Para os sete partidos políticos – quatro com representação parlamentar e três sem presença no Parlamento – a posição dos líderes da CEDEAO “é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada” pelo que, defendem, a classe política guineense devia inscrever a sua actuação à luz das recomendações da cimeira.
 
O grupo alerta, no entanto, para o que diz serem “elevados riscos” qualquer tentativa de deturpação, ou atraso na implementação das resoluções da cimeira de líderes da África Ocidental.
 
Quatro líderes do grupo deslocaram-se à Nigéria, a convite da CEDEAO, para acompanharem a cimeira.