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Eleições presidenciais no Senegal confirmaram o favoritismo

 

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Mais de 6,6 milhões de senegaleses participaram das eleições  para escolher o Presidente do país para os próximos cinco anos, que acabou reelegendo  o actual chefe de Estado, Macky Sall, do  país da África Ocidental que goza de uma democracia estável.

A segurança do escrutínio foi mantida por oito mil polícias, e cinco mil observadores, dos quais 900 estrangeiros, estiveram presentes nas mesas de voto.

Falando a agência de notícias francesa France-Presse, na sede da coligação presidencial, em Dakar, Mahammed Dionne disse que “os resultados permitem-nos dar os parabéns ao presidente Macky Sall pela sua reeleição”.

A agência de notícias espanhola EFE cita também o primeiro-ministro senegalês, que anunciou Macky Sal como vencedor, na primeira volta, das eleições presidenciais de domingo, com pelo menos 57 por cento dos votos, salvaguardando, no entanto, que a Comissão Eleitoral do país ainda não tinha revelado os resultados oficiais provisórios.

Também os órgãos de comunicação social locais colocavam Sal na liderança às primeiras horas da contagem dos votos – mas alguns não atribuíam os 51 por cento necessários para evitar uma segunda volta, o que levantou duras críticas dos candidatos da oposição por entenderem que só a Comissão Eleitoral pode adiantar resultados oficiais.

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Situado junto ao Atlântico, o Senegal tem uma população de 15,8 milhões de pessoas com uma média de idades de 19 anos.

O mandato de Sall ficou marcado por um crescimento económico e pelo desenvolvimento de infra-estruturas, embora as deficiências nos serviços básicos tenham sido motivo de protesto por parte dos senegaleses.

Segundo o Banco Mundial, a economia do Senegal tem vindo a apresentar um crescimento regular nos últimos anos, tendo, em 2017, registado um aumento de 7,2%, ficando acima dos 6% pelo terceiro ano consecutivo. Este crescimento foi potenciado por um plano de desenvolvimento que “impulsionou o investimento público e a atividade do sector privado”.

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Durante o atual mandato, Macky Sall focou-se na construção de infra-estruturas como um novo aeroporto internacional, a construção de estradas e de uma ligação ferroviária entre Dacar e a nova cidade de Diamniadio. Ainda assim, as deficiências em serviços primários, como a saúde e a educação, levaram à existência de várias greves e manifestações.

Com os últimos dados a apontarem para uma taxa de desemprego de 15,7% e uma taxa de pobreza cifrada em 47%, são grandes os desafios que o vencedor das eleições de hoje terá de enfrentar.

Antiga colónia francesa, o Senegal obteve a sua independência em Abril de 1960.

O Brasil tem sido um dos destinos dos imigrantes sengeleses, a procura de emprego, por melhores condições de vida. Nas ruas das grandes cidades como São Paulo , Porto Alegre há um padrão nas principais vias de circulação de pedestres: vários homens negros, em sequência, sentados em banquinhos, ao lado de uma lona esticada no chão com uma variedade de produtos exposta. Não exite uma estação de metrô em são Paulo em que não encontramos um senegalense vendendo produtos.

Alemães na África discutem investimentos e a imigração ilegal

A chanceler alemã Angela Merkel tem um programa apertado no périplo que está a fazer pela África Ocidental. No Senegal, falou de investimentos e do combate à migração ilegal.

    
Senegal - Angela Merkel besucht Senegal (picture-alliance/dpa/M. Kappeler)

Angela Merkel chegou ao Senegal, na quarta-feira (30.08), com uma comitiva de empresários alemães, que também a acompanharão até ao Gana e à Nigéria.

Com este périplo, a chanceler alemã pretende, sobretudo, reforçar os laços de cooperação económica para combater a migração ilegal para a Europa. Ao desembarcar em Dakar, Merkel encontrou-se com o Presidente Macky Sall e manifestou logo o interesse da Alemanha em investir no Senegal.

“Devemos aprender a combinar de forma sensata o desenvolvimento com o investimento privado, para que o Senegal possa fazer a transição gradual para uma recuperação económica autossustentável”, afirmou a chanceler alemã. “Este é um país jovem, com 300 mil jovens a entrar no mercado de trabalho todos os anos, à procura de oportunidades. Por isso, é do nosso interesse que o desenvolvimento seja bem-sucedido.”

Senegal aberto a investimentos

O Presidente senegalês garantiu que o seu país está interessado em investimentos estrangeiros, mas não está só aberto às ofertas alemãs.

“A Alemanha é bem-vinda”, frisou Macky Sall. Mas “eu disse à chanceler que a China [também] é bem-vinda ao Senegal, tal como os Estados Unidos da América, a França e a Turquia, porque, a partir do momento em que encontrarmos uma fórmula para conseguir financiamento, transferir tecnologia, criar empregos para jovens, vamos aceitar. Não podemos rejeitar ofertas que ajudem os nossos jovens”, afirmou.

Republik Senegal - Kanzlerin Merkel besucht SenegalChanceler Angela Merkel foi recebida no Senegal pelo Presidente Macky Sall

A questão da migração

Mais de 11 mil pessoas do Senegal, Gana e Nigéria solicitaram asilo na Alemanha no ano passado. Grande parte das solicitações foi negada. Estima-se que 14 mil cidadãos destes três países africanos vivem ilegalmente na Alemanha.

Tanto no Gana como no Senegal, a Alemanha financia centros de aconselhamento para migrantes, onde os jovens retornados recebem ajuda na procura de emprego. Outro centro deste tipo deverá abrir na Nigéria até ao final do ano. Além disso, a Alemanha lançou a iniciativa “Compact with Africa” quando presidiu ao grupo das 20 maiores potências económicas mundiais, o G20. A medida prevê a transferência para as nações africanas de habilidades e tecnologias para atrair investidores ocidentais. O Gana e o Senegal já participam e a Nigéria demonstrou interesse.

Três dias, três países: Merkel faz périplo africano

Oportunidades

A chanceler alemã está no Gana esta quinta-feira e, na sexta, vai até à Nigéria, onde se encontrará com o líder da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Jean-Claude Kassi Brou, e com o Presidente Muhammadu Buhari, para discutir questões económicas.

Além disso, Angela Merkel também se encontrará com a sociedade civil. Moses Siasia, do Fórum de Jovens Profissionais da Nigéria, tem grandes expetativas quanto à visita: “Penso que esta é uma das formas mais diretas de se fazer parcerias comerciais. Além disso, os governos da Nigéria e da Alemanha podem criar um ambiente de relações comerciais para as empresas dos dois países e também oportunidades para beneficiar do conhecimento”, afirma.

Em média, a economia do Senegal cresce a um ritmo de 7% ao ano, enquanto o Gana é visto como um refúgio de estabilidade na região. A Nigéria, apesar de ser vítima da insurgência do grupo radical Boko Haram e da volatilidade do preço do petróleo, continua a ser o segundo maior parceiro comercial da Alemanha na África subsaariana.

Alou Cissé o unico negro técnico de futebol na Copa do Mundo em 2018

cisseA seleção de Senegal estreia hoje pela Copa do Mundo sob o comando do único treinador negro do torneio, Aliou Cissé, de 42 anos.

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Como jogador, Cissé foi capitão da melhor seleção de Senegal de todos os tempos, aquela que chegou até as quartas de final na Copa do Mundo de 2002, após deixar França, Uruguai e Suécia no caminho.

Como técnico, levou seu país às quartas de final da Olimpíada de Londres em 2012. Depois de vários bons resultados com as seleções de base, foi promovido e classificou Senegal para a Copa do Mundo de 2018.cisse6

Na véspera de sua estreia na Rússia Aliou Cissé revelou algum orgulho e algum incômodo com o fato de ser o único técnico negro entre os 32 que estão na Rússia para a Copa do Mundo.

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– É verdade, sou o único negro, mas este é um longo debate e não tem a ver com futebol. O futebol é um esporte universal, a cor da pele não deveria ser algo relevante. Mas sim, é importante ter um técnico negro – comentou o treinador

Em seu país, Cissé costuma ouvir críticas por ser pragmático demais – especialmente porque Senegal hoje conta com meias rápidos e atacantes perigosos, como Sadio Mané, o craque do Liverpool.

O estilo mais pragmático imposto por Cissé serviu para Senegal voltar a disputar uma Copa do Mundo após 16 anos e talvez seja o melhor caminho para uma seleção africana finalmente superar a barreira das quartas de final.

– Tenho certeza que um time africano vai vencer a Copa do Mundo. Vinte anos atrás, seleções africanas vinham só para completar a Copa, fazer parte. Já mostramos que podemos fazer muito mais. Temos muitas dificuldades em nossos países, mas não temos nenhum tipo de complexo. E precisamos de técnicos africanos para isso – disse.

Senegalesa quer capacitar meninas e mulheres para ciência e tecnologia

Uma das pessoas mais poderosas da África quer capacitar meninas e mulheres para a Ciência e a Tecnologia. Em entrevista exclusiva a EXAME, ela explica como

São Paulo – Ela foi abandonada pela mãe enquanto criança na zona rural do Senegal, não teve acesso à educação na infância e juventude e foi traficada para a França.

Mariéme Jamme se recusou a continuar parte das estatísticas que atormentam mulheres marginalizadas e aprendeu sozinha a ler e a escrever aos 16 anos. Dois anos depois, vivendo no Reino Unido, dominava sete linguagens diferentes de programação, uma habilidade que lhe garantiu empregos em grandes corporações.

Com a cabeça naquelas que não conseguiram deixar os ciclos de violência e exclusão que ela mesma conheceu, Mariéme virou ativista e criou projetos para inserir jovens senegalesas no mundo das Ciências Exatas. Ainda assim, sentia que suas ações não estavam criando impactos suficientes para mudar a realidade dessas pessoas. Queria mais.

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Criou, então, o iamtheCODE, que, segundo ela, é um dos maiores e “talvez o primeiro” movimento criado na África que tem impacto global. O projeto está hoje presente em 60 países e atua a partir da mobilização de governos e iniciativa privada na capacitação de meninas e mulheres para a Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. O objetivo? Ensinar um milhão delas a programar até 2030.

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“Por anos, meninas e mulheres foram deixadas para trás, especialmente em países como o Brasil, países da África e do Oriente Médio. Precisamos prestar atenção nisso”, avaliou em entrevista exclusiva a EXAME. “Quero garantir que elas tenham a capacitação e a confiança de que podem conseguir empregos em empresas desses setores”, reforçou.

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Mariéme teve o trabalho reconhecido pela Unicef e foi eleita uma das mulheres mais poderosas da África pela revista Forbes. Por telefone, falou a EXAME sobre a chegada de iamtheCODE no Brasil, empoderamento em comunidades marginalizadas e os desafios de agir em lugares nos quais a visão tradicional dos gêneros ainda é a realidade.

Abaixo, confira a entrevista:

EXAME – Por que é importante ensinar programação?

Mariéme – O importante não é apenas aprender a programar, mas sim inserir as pessoas no mundo digital, que é a direção em que estamos caminhando. Há muitos desafios por aí, especialmente com a robótica e a automação impactando os empregos, e são muitas as tendências para os próximos dez anos. Se não capacitarmos as mulheres nessas áreas, vão ficar para trás.

Acredito que é importante trabalharmos não só a capacitação em programação, mas também a educação digital como um todo, ensinar essas mulheres a procurarem por dados e soluções para seus problemas. Nosso objetivo é o de garantir que elas estejam sempre bem-informadas para tomar as suas decisões.

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EXAME – Essa é essa premissa por trás do movimento iamtheCODE? Pode nos contar um pouco mais sobre o projeto?

Mariéme – O iamtheCODE é um dos maiores, talvez o primeiro, movimento criado na África e que tem impacto global e foi criado por mim a partir da minha própria frustração.

Na época em que a ideia surgiu, eu estava aprendendo a ensinar meninas a programar e investigando como dar acesso à essa educação para as mulheres. No entanto, não conseguia ver os impactos das minhas ações nos governos e no setor privado. Assim, decidi criar algo holístico em que pudesse mobilizar essas pessoas a realmente investir na educação.

Educação não pode ser caridade. As meninas que cresceram em favelas, por exemplo, não deveriam estar ali, mas estão porque alguém não está fazendo o seu trabalho. Queremos transformar as meninas da favela em mulheres bem-sucedidas, dar para essas pessoas esperança e oportunidades.

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EXAME – IamtheCODE agora está presente em 60 países. Em muitos deles, a sociedade ainda enxerga os gêneros a partir dos seus papeis tradicionais. Como convencer as pessoas da importância de ensinar programação para meninas e mulheres?

Mariéme – É muito desafiador e, ao mesmo tempo, animador, pois está claro que não podemos mais excluir as meninas e as mulheres das narrativas. Já tiramos coisas demais delas nos últimos anos.

Na semana passada, eu estava em Gana para uma palestra. Nela, um homem se levantou e perguntou por quê estávamos falando apenas sobre a capacitação de meninas e mulheres. Eu respondi que entendia que se essas medidas não impactassem os meninos, eles também ficariam para trás. E esse é também um desafio, ainda há muitas pessoas que não acreditam que as mulheres deveriam estar nessas discussões.

Mas esse é também o nosso trabalho e é por isso que iamtheCODE é tão importante: educamos, informamos e realizamos trabalhos de advocacy para conscientizar os governantes sobre importância da inclusão feminina.

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EXAME – Quais os planos para iamtheCODE no Brasil?

Mariéme – Temos uma empresa britânica parceira que está presente em São Paulo e nossa intenção é a de iniciar as operações dos clubes de programação em Salvador, São Paulo e Recife ainda neste mês. A expectativa é a de que todos os clubes estejam em atividade até o fim de maio.

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EXAME – O projeto também pretende inserir essas meninas e mulheres no mercado de trabalho?

Mariéme – Estamos falando de comunidades marginalizadas, especialmente a negra, portanto, nossa prioridade é inspirá-las, mostrá-las que não é por serem negras que não podem ser bem-sucedidas no Brasil. Depois, queremos realmente ajudá-las a ter a confiança de que vão aprender e de que podem trabalhar em uma empresa de tecnologia.

Nosso objetivo é o de auxiliá-las a conseguir esse emprego no final da jornada. Até o momento, trabalhamos com meninas entre 11 e 18 anos de idade, mas já estamos olhando para a geração seguinte, jovens entre 18 e 25 anos.

Especificamente sobre o Brasil, o sistema ainda é muito racista e não acho que está pronto para contratar pessoas negras na Tecnologia e da Inovação. Não desejamos tornar isso uma questão racial, mas vejo que o maior desafio no país é o de encontrar pessoas que estejam dispostas a dar uma chance para as minorias.

Uma das coisas que queremos fazer no Brasil é convidar as mulheres que fazem parte desse mundo a terem mais compaixão e empatia. Acho que ainda não há muito interesse em ajudar as minorias, mas espero conseguir mostrar que a tecnologia não conhece barreiras, passaportes, raças.

Temos meninas programando em São Francisco (Estados Unidos) e no Quênia. Então, o problema não é conhecimento, mas sim inclusão e quero garantir as pessoas entendam e falem sobre o assunto.

trip272-marieme-header.jpgEXAME – Sua história de vida é impressionante. Quando você olha para trás, como se sente?

Mariéme – É uma lição de humildade, mas é fruto de trabalho duro. Me sinto lisonjeada de ter a atenção da imprensa, de ver as pessoas interessadas na minha história e é por isso que quero deixar meu legado no mundo e nas meninas.

Minha história não me define, sou o exemplo de pessoa que foi pobre, marginalizada e que conseguiu ser bem-sucedida. Mas, o Reino Unido me deu oportunidades: vivo em um país que reconheceu meu valor. Então, quero devolver para a sociedade, pois todos os dias milhões de meninas são traficadas, violadas, abusadas, discriminadas e ninguém faz nada.

É evidente que, se você der para uma menina habilidades e oportunidades para pensar e se educar, ela será muito bem-sucedida.

Esta senegalesa tem um plano para ensinar 1 milhão de meninas a programar

Agricultura em Angola é prioridade do Governo, mas não recebe dotação orçamentária

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Em Angola a agricultura, pecuária, silvicultura e pesca no Produto Interno Bruto (PIB) entre 2001 e 2003 foi de cerca de 8,00 por cento, indicador que aumentou em 2017 para 12 por cento, devido os programas de investimento público. O governo angolano tem anunciado diversos investimentos na agricultura, pesca , nomeadamente na compra de equipamentos, valorização da mulher rural, estabelecendo parcerias com países como Itália, Espanha, Alemanha, Brasil e outros.

Agostinho Neto, após ter proclamado a independência de Angola, em 1975, declarou 1979 como o “Ano da Agricultura”. Participou em campanhas durante os seus quatro “meteoritos” anos de presidência, a ramagem de milho, café e algodão são símbolos que estão no  mais alto da insígnia da nação angolana.

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O indicador do setor agrícola tenha contribuído para uma redução da fome, o impacto foi menor na redução da pobreza”.
A maior parte do crescimento deveu-se a expansão das terras cultivadas e não a um aumento da produtividade. “Mesmo que o setor da agricultura tenha sido identificado como área prioritária na estratégia de redução da pobreza, as dotações orçamentais para o setor continuam baixas. Nos últimos anos, a fatia do Orçamento Geral do Estado (OGE) para a agricultura não chega a um por cento.

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Antes da Independência, Angola era autossuficiente em todos os principais gêneros alimentares, exceto na produção do trigo, e exportava vários produtos agrícolas, em particular o café e açúcar. “A guerra e a falta de investimento tiveram um forte impacto no sector agro-alimentar e, desde 1990, o país depende da importação de alimentos e da ajuda alimentar.
Hoje, apenas dez por cento das terras aráveis de Angola são cultivadas e a produtividade por área cultivada é uma das mais baixas da África Subsaariana.

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No contexto de crise, parece-me existir um desinteresse quase generalizado por parte dos angolanos na produção dos seus próprios alimentos, respeitando algumas excepções que permitem que chegue até à nossa mesa alguma produção local e que haja excedente de alguns tubérculos e banana que, regra geral, deixaram de ser importada, há tempo.

Burkina Faso, Etiópia, Guiné, Malawi, Mali, Níger, Senegal e Zimbabwe têm honrado o compromisso de dedicar 10% do orçamento para agricultura e são a prova de que este tipo de investimentos pode resultar em melhorias na vida dos seus cidadãos. Por exemplo, no Burkina Faso, o crescimento do sector agrícola tem estado acima de 6 por cento ao ano, há já algum tempo, e parece estar no bom caminho para a eliminação dos altos índices de fome e de extrema pobreza.

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De várias partes do Mundo chegam alguns exemplos e, em alguns casos, verifica-se até mesmo algum excesso de zelo. De qualquer forma, alguns exemplos ajudam a uma rápida e melhor reflexão. A Etiópia quer atingir até 2025 o estatuto de país com uma economia de rendimento médio. Para tal, foram feitas sérias apostas na agricultura e hoje o país é um dos maiores produtores do continente em gergelim (semente de sésamo) e criação de gado.bananas-angola-itália.jpg

Robert Mugabe, ex presidente  no Zimbabwe, outrora conhecido como celeiro de África, conduziu uma reforma agrária que resultou na redistribuição sem compensação aos fazendeiros brancos. Muitos estabelecem comparação do processo com o de uma mulher que dá luz a um filho, por via de uma “cesariana”.

Na África do Sul e também na vizinha Namíbia, esse tema continua a ser um assunto crítico. Em um jantar oferecido pelo presidente Mugabe, em Maio de 2017, em Harare, o Presidente Geingob, da Namíbia, referiu que o emotivo e complexo assunto sobre a reforma da terra requer conversação sincera e difícil. A terra deve ser um ativo produtivo, não apenas confinada à redistribuição.

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A agricultura se quer hoje e que agricultura se vai testar para as futuras gerações. Parece  sensato o investimento e apoio a agricultura  famíliar, para que possam apostar em atividades que garantam maior sustentabilidade.

Senegaleses denunciam violência policial em Florianópolis

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Na história recente da imigração no Brasil, começamos a receber os  senegalenses ou senegaleses , que vem tentar uma vida melhor no Brasil, a principal razão da vinda é econômica. São muitas as dificuldades econômicas no Senegal, muito desemprego, e como consequências temos uma parcela da juventude que atravessa o oceano Atlântico para vir tentar arrumar trabalho.

A população brasileira não está acostumada a receber imigrantes africanos, além do estranhamento inicial, há o racismo e a xenofobia. Enfrentam muitos problemas de adaptação no Brasil que vai da língua,  religião e os costumes e os problemas começam a surgir:

A  cidade de Florianópolis  tem recebido muitos senegaleses , uma cidade onde a temos um nmenores percentuais da população negra do país, a chegada de imigrantes não é bem recebida por parte da população e a violência policial que atinge indiscrimindamente os negros do país, atinge também os senegaleses

Um grupo de senegaleses fez uma manifestação no Centro de Florianópolis na tarde da sexta-feira, dia 7 de março. Eles reclamavam de uso de violência por parte da Polícia Militar e da Guarda Municipal quando são abordados na cidade. Muitos deles são vendedores ambulantes.

“A violência começou nessas situações, quando eles vendem materiais, mas se estende para outras situações de abordagens. Eles têm sido coagidos e tem tom de ameaças para eles”, explica Janaina Santos, doutoranda de Antropologia que estuda migrações e acompanhou a manifestação. Segundo ela, muitos dos imigrantes dizem que são abordados só por estarem com uma mochila andando na rua, por exemplo.

 

O ambulante senegalês Boubacar Dieyê reclamou do tratamento policial: “A polícia está tratando mal. Está batendo. Está botando [gás] lacrimogêneo”. Ibratima Ndoye resumiu a falta de segurança: “Eu tenho medo de Floripa. Tenho muito medo de andar em Floripa”.

“Se você é preto, senegalês ou haitiano, coloca uma mochila e passa perto da polícia, eles falam ‘ei, parou. O que tem dentro da mochila'”?, relatou o ambulante Elhadji Ngom.

 

Há relatos ainda de invasão de suas casas, abordagens quando estão andando nas ruas e expulsão de lugares públicos. De acordo com um depoimento, um casal de senegaleses que estava tomando café na manhã em uma padaria foi retirado .

 

É necessário que os brasileiros manifestem sua solidariedade aos senegaleses, no mínimo pelo ideais pan africanos de entender que tem um laço histórico que nos une.

Brasil apoia Cabo Verde e Senegal na realização de censos eletrônicos

Em 2017 cerca de 50 técnicos cabo-verdianos e senegaleses participaram de atividades de capacitação voltadas para a criação de Centros de referência em coleta eletrônica de dados nesses países. Para este ano a expectativa é engajar novos parceiros e replicar a metodologia em outras partes do continente africano

Entre os dias 20 e 23 de fevereiro, a cidade de Praia, em Cabo Verde, recebe a reunião preparatória do comitê técnico e a 2ª reunião do comitê gestor do projeto Centros de Referência em Censos com Coleta Eletrônica de Dados em África. O objetivo é definir as ações do Plano de Trabalho Anual que deve contemplar, entre outros pontos, estratégia de divulgação da iniciativa, engajamento de novos parceiros e realização das replicações da metodologia a outros países africanos.

A comitiva brasileira é formada por integrantes do escritório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Cabo Verde, se juntam à comitiva representantes dos institutos de estatística do Senegal (Agence Nationale de la Statistique et de la Démographie – ANSD) e de Cabo Verde (Instituto Nacional de Estatística – INECV).

“Acreditamos que a implementação de censos eletrônicos e a coleta de dados vai contribuir para o avanço do cumprimento dos objetivos estabelecidos na agenda 2030. Além disso, essa união de esforços e conhecimento representa uma importante iniciativa para o acompanhamento e a elaboração de políticas públicas mais efetivas”, ressaltou o representante do UNFPA, Jaime Nadal.

missao cabo verdeFoto: UNFPA Brasil/Divulgação
Sobre o projeto
O projeto faz parte de uma parceria entre a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com os institutos de estatística do Senegal (Agence Nationale de la Statistique et de la Démographie – ANSD) e de Cabo Verde (Instituto Nacional de Estatística – INECV).

O objetivo é capacitar os institutos de estatísticas desses países para atuarem como Centros de Referências em Censos com Coleta Eletrônica de Dados promovendo e facilitando o uso de tecnologias de coleta eletrônica para outros países africanos que demonstrarem interesse e assim ser aplicado nos censos dos próximos anos.

A iniciativa começou em 2014 com uma missão de prospecção para mobilização de países africanos. Seguiu em 2016 com a assinatura de um protocolo de intenções que orienta o projeto no âmbito da Cooperação Sul-Sul assinado durante a Comissão de Estatísticas das Nações Unidas. E em 2017 foi dado o ponta pé mais concreto com a realização da primeira reunião do Comitê Gestor em Dakar/Senegal e as capacitações dos técnicos que atuarão como replicadores da metodologia, ocorrida nos dois países no final do ano passado.

http://www.unfpa.org.br/novo/index.php/1800-cabo-verde-e-senegal-iniciam-segunda-etapa-de-projeto-com-apoio-do-brasil

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições.

A utopia africana de Felwine Sarr

mídiaFelwine Sarr.© Antoine Tempé

Felwine Sarr é um intelectual africano. Economista agregado, ele ensina na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis no Senegal. Em seu último livro Afrotopia (Editions Philippe Rey), ele sonha com uma amante da África que leve a ”  humanidade para outro nível  “.

”  Responder a um pensamento sobre o continente africano é uma tarefa difícil , escreve Felwine Sarr , tão tenaz, clichês, clichês e pseudo-certezas que, como um halo de neblina, escondem sua realidade  “. Sua abordagem é, portanto, desconstruir a visão da África; uma visão livre, em particular, das idéias ocidentais para alcançar a “Afrotopia”, essa ”  utopia ativa, que se propõe a descobrir no espaço real africano os vastos espaços dos possíveis e impregná-los  “.

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Esta desconstrução, “a  exigência da soberania intelectual absoluta  “, começa com o questionamento do conceito de desenvolvimento visto em Washington nos corredores do FMI ou do Banco Mundial.

Certamente, Felwine Sarr não questiona a necessidade de desenvolver o continente que é dele, mas a maneira de fazê-lo. A África deve encontrar o caminho que é próprio e não mais ser imposto um “modelo”. ”  É preciso uma crítica filosófica, moral e política da ideologia desenvolvimentista  ” , escreve o analista rigoroso que fala de um campo que ele conhece: o dos números, das estatísticas, curvas. Neste como nos outros, “a  utopia africana consiste em gerar outras formas de viver em conjunto  “.

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições. Os africanos de hoje parecem esquecê-los pouco a pouco, ansiosos para que possam desfrutar os frutos de uma certa forma de sociedade de outros lugares.
Esta é uma tendência perigosa para Felwine Sarr. ”  O homem africano contemporâneo está dividido entre uma tradição que ele não conhece mais e uma modernidade que caiu sobre ele como uma força de destruição e desumanização  ” , ele escreve pensando em colonização.

Modernidade africana

” Quais poderiam ser os contornos e os conteúdos desta modernidade africana, se quiser evitar tornar-se uma falsa contrafacção da Europa? “Pergunta o autor. Esta é a questão central do livro.

Ao longo das páginas, Felwine Sarr envolve uma reflexão filosófica que propõe, por exemplo, a existência de vários mundos. ”  Essa África que está e está acontecendo é multifacetada  “, diz ele. Deve basear seu futuro em sua autonomia cultural e em uma noção de tempo peculiar a si mesmo. E, segundo ele, a economia deve ser considerada com uma dimensão social em particular. Aqui também é uma questão de reconectar-se com a tradição. “Nas sociedades africanas tradicionais, a economia foi incluída em um sistema social maior. Ele certamente obedeceu às suas funções clássicas (subsistência, alocação de recursos, etc.), mas foi subordinado a objetivos sociais, culturais e civilizacionais  . Portanto, é necessário, diz o autor, “ ancorar as economias africanas em seu contexto cultural  “. E morar em sua casa.

A análise de Felwine Sarr é alimentada por estudos de grandes mentes do continente; o filósofo Mamoussé Diagne e seu trabalho sobre a tradição oral para entender o conteúdo do pensamento africano ou mesmo Abdoulaye Elimane Kane, que busca a “participação africana” no pensamento do ser humano.
É um apelo aos africanos para capturar uma imagem da África que é sua, e não a imagem que o Ocidente os envia.

” Para acelerar o fim de um mundo, para se livrar do Ocidente, é necessário ganhar a batalha da representação, por uma estratégia de subversão e insurreição, levando à elaboração de seu próprio discurso. de uma representação de si mesmo  “, escreve esse homem posado, cuja ambição intelectual é ótima. E nobre.

 

http://www.rfi.fr/culture/20160324-utopie-afrique-felwine-sarr-developpement-humanite-afrotopia-modernite-tradition

Felwine Sarr e Achille Mbembe em entrevista ao jornal Liberation

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África: “O mundo das fronteiras preguiçosas colapsa”

Por Sonya Faure e Catherine Calvet –  (atualizado para )
Trabalho de Calixte Dakpogan apresentado na Fundação Louis Vuitton, na exposição "Arte / África, a nova oficina", até 4 de setembro.
Trabalho de Calixte Dakpogan apresentado na Fundação Louis Vuitton, na exposição “Arte / África, a nova oficina”, até 4 de setembro. Foto Maurice Aeschimann Cortesia Caac A Coleção Pigozzi

O continente africano pode se tornar um laboratório para repensar o equilíbrio entre economia e ecologia, diz o economista Felwine Sarr. “Tráfego”, a marca do século 21, também é uma “característica das culturas históricas africanas”, diz o pensador Achille Mbembe.

O cientista político e historiador Achille Mbembe (foto  à direita)eo economista Felwine Sarr (esquerda) organizaram, no outono de Dakar, os Ateliers de la Pensée. Eles explicam por que “a africanização da questão global” seria um evento importante no debate das idéias vindouras.

Como explicar o aumento atual da literatura e do pensamento africano e da diáspora?

Achille Mbembe:O tempo parece estar nos acenando. No mundo de hoje, não existe mais um “centro” que legisle e impõe sua vontade sobre o resto, embora ainda haja, claro, bolsões de dominação. Um dos pontos fortes dos novos movimentos afrodiaspóricos é trabalhar nas interfaces. Porque, onde quer que estejam, esses pensadores estão dentro e fora, e pertencem a vários mundos simultaneamente, eles são capazes de articular um novo discurso. Cada um de nós, intelectuais, romancistas, artistas, tem trajetórias individuais, algumas das quais são bem-sucedidas. Mas já não é suficiente. Se queremos que nossa voz esteja no mundo, então o tempo nos convida a se tornar um. É por isso que, Felwine e eu, criamos as oficinas do pensamento de Dakar. Queríamos fornecer uma plataforma mais ampla para essas vozes e adiar para sempre a idéia de que a África é um continente fora do mundo. O contributo mais inovador para o desenvolvimento da escrita e do pensamento crítico em francês vem do mundo afrodiasporico. Basta ler Nadia Yala Kisukidi, Elsa Dorlin, Francoise Vergès, Mamadou Diouf, Hourya Benthouami, Abdourahmane Seck ou Pap Ndiaye sobre questões tão cruciais quanto o Islã, a cidadania, a raça e as situações de minoria, a diferença sexual.

Felwine Sarr: No continente africano, como na Europa, há uma expectativa de decifrar este mundo que parece ir em todas as direções. Alguns começam a entender que o pensamento que mais questiona o mundo presente, mas especialmente o mundo que vem, não vem da Europa, mas provavelmente da África. Há uma mudança no pensamento crítico.

Por que esse movimento?

AM:Porque o mundo das falsas dicotomias e das fronteiras preguiçosas está entrando em colapso e novas jornadas de pensamento emergem fora da Europa. O pensamento de tráfego é o que melhor atende aos desafios do presente. Em grande medida, nossa contribuição para a história da modernidade vem do fato de que fomos obrigados a mudar. Se é um movimento forçado através do comércio de escravos ou deslocamento voluntário. Esta circulação é também uma característica fundamental das culturas africanas históricas, em que tudo se move: os deuses, os humanos, os objetos do comércio trans-saariano, as caravanas, até os Estados são itinerantes. Em suma, a civilização se origina no tráfego. É por isso que os africanos pagaram e ainda pagam um preço colossal pela manutenção das fronteiras herdadas da colonização. O pensamento africano e diásporo sempre teve uma dimensão transnacional.

FS: África é o continente mais antigo da história e o mais jovem em termos demográficos. É o lugar onde as formas sociais mais antigas da humanidade se desenrolaram. É especialmente o único continente que ainda não conduziu a aventura industrial até o fim. É o continente “menos avançado” neste caminho, como dizem os economistas e os teóricos do “desenvolvimento”. Hoje, no momento do Antropoceno, a África pode ter uma vantagem. Pode tornar-se o grande laboratório para repensar o equilíbrio entre economia e ecologia. Os habitantes dos territórios onde o capitalismo ocidental já está plenamente realizado não estão tão conscientes da entropia atual. Essas questões enfrentam os africanos ainda mais urgentemente do que o resto do mundo.

A África é uma nova terra de utopias?

FS: No continente, os indivíduos não esperaram para experimentar, diariamente, outra relação com a realidade. Muitas experiências de economia circular levam em consideração a relação entre o meio ambiente e o indivíduo. Eles questionam a noção de propriedade, repensam o in-common, o non-closure, o que compartilhamos.

AM: A forma da cidade está sendo reinventada em Kinshasa, Luanda, Maputo, Abidjan … Pegue uma cidade como Lagos, que ninguém conhece exatamente o número de habitantes. Aqui, as formas convencionais de contar, calcular, produzir estatísticas são derrotadas. Outras lógicas de composição assumem o controle. Nada é perdido, tudo é reciclado, reparado, recirculado. Outro exemplo: na África, houve sociedades sem prisão. Eles tinham outros mecanismos de punição, da administração da justiça, que merecem ser analisados ​​hoje, nesta era global da inflação prisional. O que poderia ser uma sociedade sem prisão? O mesmo tipo de reflexão poderia se aplicar a outras áreas: formas de hospitalidade, a multiplicidade de associações …

E para a democracia?

FS: A crise da democracia baseia-se num problema de representação. África pré-colonial experimentou formas de participação extremamente ricas e diversas. Algumas sociedades organizaram a participação por faixa etária, categoria socioprofesional ou por rotação de poder. Como surgir uma palavra social operacional? Como envolver tantos? O mundo tem muitos exemplos mais históricos a serem considerados do que o único mito da democracia ateniense, que teve seu dia desde Pericles.

AM: Todo esforço para reinventar a democracia deve definir por si mesmo o que devemos chamar de “o comum”, um corpo que ultrapassa as fronteiras do estado-nação e os sinais para o mundo inteiro. Deve levar em conta uma nova antropologia da comunidade política que vai muito além da figura do cidadão, e que cede lugar aos migrantes, no exterior e especialmente aos transeuntes, mas também aos vivos como um todo.

O encerramento gradual da Europa diante da chegada dos migrantes é o sintoma de uma crise de civilização ?

FS: a Europa também precisa ser irrigada pelo trânsito, mas ao contrário é a barricada. Para calar a boca, ela não interessará a ninguém. Qualquer sistema que fecha eventualmente degenerar, esse princípio é válido em biologia como na sociologia. Patrick Chamoiseau descreve muito bem em seu último livro, os migrantes Frères (Seuil, 2017). Ele vê a migração como o “sangue da terra”. É a vida que lembra as sociedades que precisam ser re-irrigadas.

Você refuta qualquer idéia de “contra-discurso”: o pensamento africano não deve se registrar em oposição ao Ocidente …

FS: preferimos desviar o olhar. Uma contra-fala está sempre sufocante de um discurso dominante, é alucinada, fascinada. Não temos nada a dizer a ninguém, mas devemos ser livres e criativos. Devemos inventar as modalidades de nossa presença no mundo.

AM: Temos que sair do paradigma da refutação. A hora é uma palavra afirmativa, confiante em si mesma.

A Conferência de Bandung, em 1955, estabeleceu um princípio: “Não há centro, então não há mais periferias”. No campo das idéias, se não houver centro, Ainda existe um universal?

FS: Ao escrever África-Mundo, o filósofo Souleymane Bachir Diagne pede um “universal verdadeiramente universal”. A extensão ao resto do mundo de uma única face da experiência humana, que se considerou universal, é uma falsificação. Uma multiplicidade de centros se desenrola de sua história, sua maneira de inventar sua presença no mundo. Essa pluricidade nunca impediu o diálogo ou desafiou a singularidade da condição humana. Se pode ser articulado com o respeito pelos outros, pode chegar a um universal desta vez rico de todos os indivíduos, para citar Aimé Césaire.

Essa é a “africanização da questão planetária”?

FS: a Europa deve descer do seu pedestal falso. Ela certamente trouxe muito para o mundo, mas ela está ficando sem vapor. O fim de um mundo não significa o fim do mundo. A Europa terá que ir à escola no mundo com facilidade.

AM: Todos os desafios globais que enfrentam o planeta nunca serão resolvidos se ignorarmos a dimensão africana do mundo. Isso pode parecer bastante surpreendente, mas a África prefigura o mundo que está chegando. Há um futuro Africano de nosso planeta como o pensamento crítico do XXI th  século enfrentará como à sua própria pergunta.

 

Fonte:http://www.liberation.fr/debats/2017/07/05/afrique-le-monde-des-frontieres-paresseuses-s-effondre_1581815

Felwine Sarr: Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios

Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios e definirem os termos em que as suas instituições e economia operam. O economista senegalês vem ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, falar de Afrotopia. Nem afropessimista, nem afroeufórico: Felwine Sarr é afro-realista.

Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora

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Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora ELISE DUVAL

No ano passado, o economista senegalês Felwine Sarr (n.1972) organizou os Ateliers de La Pensée, um espaço de reflexão em forma de workshops que juntou dezenas de pensadores em Dakar e Saint-Louis. Co-criados com o filósofo e referência do pensamento pós-colonial, o camaronês Achille Mbembe, os Ateliers foram um enorme sucesso e irão repetir-se este ano, em Novembro, conta ao PÚBLICO por telefone. “Nestes últimos anos houve um renascimento dos artistas africanos. Os africanos não estão muito envolvidos na produção do discurso sobre eles próprios, com os Ateliers a ideia era reunir intelectuais africanos e da diáspora e pensar o papel de África no mundo, como olhar para o futuro”, explica.

O economista, músico, teórico, chega a Portugal na próxima semana, dia 19 de Abril, para uma conferência sobre África, capitalismo e utopias no Teatro Maria Matos, em Lisboa, integrada no Ciclo Utopias. Reclama para África, à qual se refere como uma entidade continental, uma especificidade própria. Defende que é hora de os africanos fazerem uma auto-reflexão, pensarem nas suas soluções e tornarem-se menos vulneráveis às influências exteriores veiculadas em nome de um interesse que não é necessariamente o seu. “O comércio (deportação) transatlântico e o colonialismo foram sinónimos de extracção de riquezas e de ser humanos, de desestruturação das sociedades, de distorções institucionais, de violação cultural, de alienação e de inscrição das sociedades dominadas em trajectórias pouco virtuosas”, escreve no livro. Esta é a herança com a qual os países africanos têm de viver.

Professor na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis, e director do departamento de Civilizações, Religiões, Arte e Comunicação da mesma universidade, Felwine Sarr é autor de DAHIJ (2009), 105 Rue Carnot (2011), Médiations Africaines (2012) e Afrotopia (2016). É sobre este último livro que vem falar e foi sobre ele que se debruçou a entrevista de cerca de 40 minutos.

Para contextualizar, cite-se um excerto de Afrotopias: “África é um continente que tem uma superfície de 30 milhões de quilómetros quadrados, composto por 54 Estados. Cabem nela os Estados Unidos, a China, a Índia e uma parte da Europa Ocidental. Com uma população de cerca de mais de um bilhão de indivíduos, e uma taxa de crescimento demográfico de 2,6%, daqui a meio século será o continente mais povoado, com 2,2 bilhões de habitantes, representando um quarto da população mundial. (…) Desde 2000, o seu crescimento econômico é superior a 5%. Entre as mais altas taxas de crescimento do mundo de 2008 a 2013, os países africanos estão bem representados.” Escreve ainda: “As economias africanas descolariam, se funcionassem com os seus verdadeiros motores.”

Felwine Sarr também escreve, no livro, que a “Afrotopia é uma utopia activa que procura no real africano os diversos espaços do possível e os fecunda”. Não defende nem o afro-pessimismo (que olha para o continente como estando à deriva), nem o afro-euforismo (que olha para África como o futuro económico). Qual será o lugar de um afrotópico? “O realismo”, responde.

No livro fala do fato de África estar marcada pela representação feita a partir do exterior. Como é que essa imagem foi distorcida?
Isso acontece desde os tempos do colonialismo em que é o Ocidente a definir África. África agrega essas definições que são feitas e incorpora-as, mas na verdade tem uma longa história em que pode pensar a sociedade, a vida, a história, o seu presente e decidir que tipo de futuro quer. Temos que ser nós a definir que tipo de sociedade queremos.

E nesse sentido, o que é exactamente a luta pela representação de África?
É muito importante lutar pela representação justa de África. Se em África não se acredita que é possível melhorar, e tem que se ir para o Ocidente porque aqui não há futuro, então é porque a representação é muito má. Como as pessoas se vêem a elas mesmas através desta representação? Para construir o seu presente e o seu futuro têm que ter confiança em si próprias. Mas há um preconceito em relação a África, sempre vista através da lente do conflito, do que é negativo, e não da parte positiva da resiliência dos africanos, da riqueza da sua civilização, da sua criatividade na forma de resolver os problemas.

Passados mais de 50 anos sobre a descolonização da maior parte dos países africanos (ocorridas no início dos anos 1960, não sendo o caso das colónias portuguesas), o seu livro ainda debate a necessidade de descolonização em várias áreas, incluindo das mentalidades. O que é que correu mal neste processo?
A descolonização não é apenas territorial e não acaba com as independências dos países, é um processo. O mais importante é a descolonização intelectual, psicológica, do conhecimento. Foram feitos progressos nas universidades, alguns académicos estão a pensar em como descolonizar o conhecimento e as linguagens mas isto é algo que acontece a longo prazo e para o qual se tem de olhar cuidadosamente. São precisas novas relações, mais justas e respeitadoras.

(A maioria dos) países africanos são antigas colónias, e as relações económicas, políticas e culturais continuam a existir com os países ocidentais. As ideias e decisões políticas não são tão livres como deveriam ser: são definidas pelas Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional, por políticos e por grandes empresas que têm interesse em África. Não podemos dizer que as relações são justas e simétricas, não são, há muito trabalho para fazer. Se for a algum dos países africanos, as grandes companhias que exploram os recursos naturais são internacionais. E retiram esses recursos porque têm tecnologia que nós não temos, em todas as áreas, das telecomunicações às minas, ao petróleo. Os nossos governos, por sua vez, também são influenciados pelas políticas do Banco Mundial e do FMI, pelos políticos do Norte na forma de governarem as suas sociedades.

Fala da necessidade de os africanos adquirirem a sua autonomia e de recuperarem as suas esferas políticas. Como se consegue isto? 
As sociedades africanas têm conhecimento local em várias esferas, do social, ao psicológico, até à saúde e basearam grande parte da sua sabedoria neste tipo de conhecimento que pode ser ensinado ao mesmo nível do conhecimento ocidental, articulando-os. Na minha universidade temos exemplos disso com o departamento de Cultura Africana, Civilização e Línguas, o Departamento de História.

Também defende que o ensino deve ser feito em línguas locais e que se deve, no fundo, acabar com o domínio das línguas ocidentais. Como é que depois se asseguraria a circulação do pensamento num continente em que há tantas línguas nacionais?
Há duas mil línguas em África, mais ou menos. Pode-se trabalhar a um nível trans-regional. Mas se pensarmos, há línguas que são faladas em vários países. Podem-se escolher algumas línguas transnacionais, e trabalhar nelas. O número de línguas não é um problema, o problema é a vontade política: há muitos lugares no mundo em que é a política que decide investir na língua. Quando um africano cresce, aprende a falar numa língua nativa; quando vai para a escola, aprende noutra, é um choque.

Diz que os instrumentos para medir as performances económicas em Produto Interno Bruto (PIB coloca os países africanos em situação de desigualdade e de subalternidade. Como é que a economia informal que predomina em África pode ser incluída nesta equação? 
O problema da economia informal é que não é incluída nas estatísticas, e quando se mede o PIB perde-se esta grande parte da economia. Esta economia produz riqueza, outras formas de economia, e temos que olhá-la com outros olhos, tentando capturar indicadores que meçam este tipo. Alguns países estão a tentar ter estatísticas da economia informal, outros, como o asiático Butão encontram índices que incluem a medição do bem-estar.

Há críticas fortes no seu livro à ajuda internacional e à presença de organizações não-governamentais (ONG) em África. Em que é que são negativas?
As ajudas das ONG podem ser feitas com boa intenção, mas nem todas têm a preocupação de perceber quais as necessidades reais de África. Algumas têm ideias do que é Africa e agem de forma diferente daquela que foi acordada com os respectivos governos, seguem as suas agendas e não trazem grande coisa. São os governos que devem decidir o que é bom para eles e não as ONG’s internacionais, algumas muito poderosas. Por exemplo, no Ruanda o Governo define quais as áreas em que as ONG’s intervêm e todos os anos escrutinam-nas para saber se cumpriram o plano – se não o fizeram, saem do país. O mais importante é saber se as ONG’s são agentes de transformação. Se agirem de acordo com o interesse do país, podem ser úteis. As soluções têm que ser produzidas localmente, se não, o problema pode agravar-se. Não é preciso recusar a ajuda mas apenas organizá-la de forma a que seja útil.

Fonte:https://www.publico.pt/2017/04/16/sociedade/entrevista/felwine-sarr-na-luta-pela-representacao-de-africa-1768342