Menu

Senegalesa quer capacitar meninas e mulheres para ciência e tecnologia

Uma das pessoas mais poderosas da África quer capacitar meninas e mulheres para a Ciência e a Tecnologia. Em entrevista exclusiva a EXAME, ela explica como

São Paulo – Ela foi abandonada pela mãe enquanto criança na zona rural do Senegal, não teve acesso à educação na infância e juventude e foi traficada para a França.

Mariéme Jamme se recusou a continuar parte das estatísticas que atormentam mulheres marginalizadas e aprendeu sozinha a ler e a escrever aos 16 anos. Dois anos depois, vivendo no Reino Unido, dominava sete linguagens diferentes de programação, uma habilidade que lhe garantiu empregos em grandes corporações.

Com a cabeça naquelas que não conseguiram deixar os ciclos de violência e exclusão que ela mesma conheceu, Mariéme virou ativista e criou projetos para inserir jovens senegalesas no mundo das Ciências Exatas. Ainda assim, sentia que suas ações não estavam criando impactos suficientes para mudar a realidade dessas pessoas. Queria mais.

Piecing-it-together.jpg

Criou, então, o iamtheCODE, que, segundo ela, é um dos maiores e “talvez o primeiro” movimento criado na África que tem impacto global. O projeto está hoje presente em 60 países e atua a partir da mobilização de governos e iniciativa privada na capacitação de meninas e mulheres para a Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. O objetivo? Ensinar um milhão delas a programar até 2030.

Our-Kano.png

“Por anos, meninas e mulheres foram deixadas para trás, especialmente em países como o Brasil, países da África e do Oriente Médio. Precisamos prestar atenção nisso”, avaliou em entrevista exclusiva a EXAME. “Quero garantir que elas tenham a capacitação e a confiança de que podem conseguir empregos em empresas desses setores”, reforçou.

Looking-on.jpg

Mariéme teve o trabalho reconhecido pela Unicef e foi eleita uma das mulheres mais poderosas da África pela revista Forbes. Por telefone, falou a EXAME sobre a chegada de iamtheCODE no Brasil, empoderamento em comunidades marginalizadas e os desafios de agir em lugares nos quais a visão tradicional dos gêneros ainda é a realidade.

Abaixo, confira a entrevista:

EXAME – Por que é importante ensinar programação?

Mariéme – O importante não é apenas aprender a programar, mas sim inserir as pessoas no mundo digital, que é a direção em que estamos caminhando. Há muitos desafios por aí, especialmente com a robótica e a automação impactando os empregos, e são muitas as tendências para os próximos dez anos. Se não capacitarmos as mulheres nessas áreas, vão ficar para trás.

Acredito que é importante trabalharmos não só a capacitação em programação, mas também a educação digital como um todo, ensinar essas mulheres a procurarem por dados e soluções para seus problemas. Nosso objetivo é o de garantir que elas estejam sempre bem-informadas para tomar as suas decisões.

Marieme-Jamme

EXAME – Essa é essa premissa por trás do movimento iamtheCODE? Pode nos contar um pouco mais sobre o projeto?

Mariéme – O iamtheCODE é um dos maiores, talvez o primeiro, movimento criado na África e que tem impacto global e foi criado por mim a partir da minha própria frustração.

Na época em que a ideia surgiu, eu estava aprendendo a ensinar meninas a programar e investigando como dar acesso à essa educação para as mulheres. No entanto, não conseguia ver os impactos das minhas ações nos governos e no setor privado. Assim, decidi criar algo holístico em que pudesse mobilizar essas pessoas a realmente investir na educação.

Educação não pode ser caridade. As meninas que cresceram em favelas, por exemplo, não deveriam estar ali, mas estão porque alguém não está fazendo o seu trabalho. Queremos transformar as meninas da favela em mulheres bem-sucedidas, dar para essas pessoas esperança e oportunidades.

m

EXAME – IamtheCODE agora está presente em 60 países. Em muitos deles, a sociedade ainda enxerga os gêneros a partir dos seus papeis tradicionais. Como convencer as pessoas da importância de ensinar programação para meninas e mulheres?

Mariéme – É muito desafiador e, ao mesmo tempo, animador, pois está claro que não podemos mais excluir as meninas e as mulheres das narrativas. Já tiramos coisas demais delas nos últimos anos.

Na semana passada, eu estava em Gana para uma palestra. Nela, um homem se levantou e perguntou por quê estávamos falando apenas sobre a capacitação de meninas e mulheres. Eu respondi que entendia que se essas medidas não impactassem os meninos, eles também ficariam para trás. E esse é também um desafio, ainda há muitas pessoas que não acreditam que as mulheres deveriam estar nessas discussões.

Mas esse é também o nosso trabalho e é por isso que iamtheCODE é tão importante: educamos, informamos e realizamos trabalhos de advocacy para conscientizar os governantes sobre importância da inclusão feminina.

mariama

EXAME – Quais os planos para iamtheCODE no Brasil?

Mariéme – Temos uma empresa britânica parceira que está presente em São Paulo e nossa intenção é a de iniciar as operações dos clubes de programação em Salvador, São Paulo e Recife ainda neste mês. A expectativa é a de que todos os clubes estejam em atividade até o fim de maio.

mariamme

EXAME – O projeto também pretende inserir essas meninas e mulheres no mercado de trabalho?

Mariéme – Estamos falando de comunidades marginalizadas, especialmente a negra, portanto, nossa prioridade é inspirá-las, mostrá-las que não é por serem negras que não podem ser bem-sucedidas no Brasil. Depois, queremos realmente ajudá-las a ter a confiança de que vão aprender e de que podem trabalhar em uma empresa de tecnologia.

Nosso objetivo é o de auxiliá-las a conseguir esse emprego no final da jornada. Até o momento, trabalhamos com meninas entre 11 e 18 anos de idade, mas já estamos olhando para a geração seguinte, jovens entre 18 e 25 anos.

Especificamente sobre o Brasil, o sistema ainda é muito racista e não acho que está pronto para contratar pessoas negras na Tecnologia e da Inovação. Não desejamos tornar isso uma questão racial, mas vejo que o maior desafio no país é o de encontrar pessoas que estejam dispostas a dar uma chance para as minorias.

Uma das coisas que queremos fazer no Brasil é convidar as mulheres que fazem parte desse mundo a terem mais compaixão e empatia. Acho que ainda não há muito interesse em ajudar as minorias, mas espero conseguir mostrar que a tecnologia não conhece barreiras, passaportes, raças.

Temos meninas programando em São Francisco (Estados Unidos) e no Quênia. Então, o problema não é conhecimento, mas sim inclusão e quero garantir as pessoas entendam e falem sobre o assunto.

trip272-marieme-header.jpgEXAME – Sua história de vida é impressionante. Quando você olha para trás, como se sente?

Mariéme – É uma lição de humildade, mas é fruto de trabalho duro. Me sinto lisonjeada de ter a atenção da imprensa, de ver as pessoas interessadas na minha história e é por isso que quero deixar meu legado no mundo e nas meninas.

Minha história não me define, sou o exemplo de pessoa que foi pobre, marginalizada e que conseguiu ser bem-sucedida. Mas, o Reino Unido me deu oportunidades: vivo em um país que reconheceu meu valor. Então, quero devolver para a sociedade, pois todos os dias milhões de meninas são traficadas, violadas, abusadas, discriminadas e ninguém faz nada.

É evidente que, se você der para uma menina habilidades e oportunidades para pensar e se educar, ela será muito bem-sucedida.

Esta senegalesa tem um plano para ensinar 1 milhão de meninas a programar

Advertisements

Agricultura em Angola é prioridade do Governo, mas não recebe dotação orçamentária

17130752_303.jpg

Em Angola a agricultura, pecuária, silvicultura e pesca no Produto Interno Bruto (PIB) entre 2001 e 2003 foi de cerca de 8,00 por cento, indicador que aumentou em 2017 para 12 por cento, devido os programas de investimento público. O governo angolano tem anunciado diversos investimentos na agricultura, pesca , nomeadamente na compra de equipamentos, valorização da mulher rural, estabelecendo parcerias com países como Itália, Espanha, Alemanha, Brasil e outros.

Agostinho Neto, após ter proclamado a independência de Angola, em 1975, declarou 1979 como o “Ano da Agricultura”. Participou em campanhas durante os seus quatro “meteoritos” anos de presidência, a ramagem de milho, café e algodão são símbolos que estão no  mais alto da insígnia da nação angolana.

café.jpg
O indicador do setor agrícola tenha contribuído para uma redução da fome, o impacto foi menor na redução da pobreza”.
A maior parte do crescimento deveu-se a expansão das terras cultivadas e não a um aumento da produtividade. “Mesmo que o setor da agricultura tenha sido identificado como área prioritária na estratégia de redução da pobreza, as dotações orçamentais para o setor continuam baixas. Nos últimos anos, a fatia do Orçamento Geral do Estado (OGE) para a agricultura não chega a um por cento.

agro
Antes da Independência, Angola era autossuficiente em todos os principais gêneros alimentares, exceto na produção do trigo, e exportava vários produtos agrícolas, em particular o café e açúcar. “A guerra e a falta de investimento tiveram um forte impacto no sector agro-alimentar e, desde 1990, o país depende da importação de alimentos e da ajuda alimentar.
Hoje, apenas dez por cento das terras aráveis de Angola são cultivadas e a produtividade por área cultivada é uma das mais baixas da África Subsaariana.

café-angola.jpg

No contexto de crise, parece-me existir um desinteresse quase generalizado por parte dos angolanos na produção dos seus próprios alimentos, respeitando algumas excepções que permitem que chegue até à nossa mesa alguma produção local e que haja excedente de alguns tubérculos e banana que, regra geral, deixaram de ser importada, há tempo.

Burkina Faso, Etiópia, Guiné, Malawi, Mali, Níger, Senegal e Zimbabwe têm honrado o compromisso de dedicar 10% do orçamento para agricultura e são a prova de que este tipo de investimentos pode resultar em melhorias na vida dos seus cidadãos. Por exemplo, no Burkina Faso, o crescimento do sector agrícola tem estado acima de 6 por cento ao ano, há já algum tempo, e parece estar no bom caminho para a eliminação dos altos índices de fome e de extrema pobreza.

ananás2
De várias partes do Mundo chegam alguns exemplos e, em alguns casos, verifica-se até mesmo algum excesso de zelo. De qualquer forma, alguns exemplos ajudam a uma rápida e melhor reflexão. A Etiópia quer atingir até 2025 o estatuto de país com uma economia de rendimento médio. Para tal, foram feitas sérias apostas na agricultura e hoje o país é um dos maiores produtores do continente em gergelim (semente de sésamo) e criação de gado.bananas-angola-itália.jpg

Robert Mugabe, ex presidente  no Zimbabwe, outrora conhecido como celeiro de África, conduziu uma reforma agrária que resultou na redistribuição sem compensação aos fazendeiros brancos. Muitos estabelecem comparação do processo com o de uma mulher que dá luz a um filho, por via de uma “cesariana”.

Na África do Sul e também na vizinha Namíbia, esse tema continua a ser um assunto crítico. Em um jantar oferecido pelo presidente Mugabe, em Maio de 2017, em Harare, o Presidente Geingob, da Namíbia, referiu que o emotivo e complexo assunto sobre a reforma da terra requer conversação sincera e difícil. A terra deve ser um ativo produtivo, não apenas confinada à redistribuição.

21992_artigo_Foto_Agricultura_1
A agricultura se quer hoje e que agricultura se vai testar para as futuras gerações. Parece  sensato o investimento e apoio a agricultura  famíliar, para que possam apostar em atividades que garantam maior sustentabilidade.

Senegaleses denunciam violência policial em Florianópolis

refugiados-protestam-no-centro-de-florianopolis-contra-as-agressoes-policiais-1492125333115_615x300

Na história recente da imigração no Brasil, começamos a receber os  senegalenses ou senegaleses , que vem tentar uma vida melhor no Brasil, a principal razão da vinda é econômica. São muitas as dificuldades econômicas no Senegal, muito desemprego, e como consequências temos uma parcela da juventude que atravessa o oceano Atlântico para vir tentar arrumar trabalho.

A população brasileira não está acostumada a receber imigrantes africanos, além do estranhamento inicial, há o racismo e a xenofobia. Enfrentam muitos problemas de adaptação no Brasil que vai da língua,  religião e os costumes e os problemas começam a surgir:

A  cidade de Florianópolis  tem recebido muitos senegaleses , uma cidade onde a temos um nmenores percentuais da população negra do país, a chegada de imigrantes não é bem recebida por parte da população e a violência policial que atinge indiscrimindamente os negros do país, atinge também os senegaleses

Um grupo de senegaleses fez uma manifestação no Centro de Florianópolis na tarde da sexta-feira, dia 7 de março. Eles reclamavam de uso de violência por parte da Polícia Militar e da Guarda Municipal quando são abordados na cidade. Muitos deles são vendedores ambulantes.

“A violência começou nessas situações, quando eles vendem materiais, mas se estende para outras situações de abordagens. Eles têm sido coagidos e tem tom de ameaças para eles”, explica Janaina Santos, doutoranda de Antropologia que estuda migrações e acompanhou a manifestação. Segundo ela, muitos dos imigrantes dizem que são abordados só por estarem com uma mochila andando na rua, por exemplo.

 

O ambulante senegalês Boubacar Dieyê reclamou do tratamento policial: “A polícia está tratando mal. Está batendo. Está botando [gás] lacrimogêneo”. Ibratima Ndoye resumiu a falta de segurança: “Eu tenho medo de Floripa. Tenho muito medo de andar em Floripa”.

“Se você é preto, senegalês ou haitiano, coloca uma mochila e passa perto da polícia, eles falam ‘ei, parou. O que tem dentro da mochila'”?, relatou o ambulante Elhadji Ngom.

 

Há relatos ainda de invasão de suas casas, abordagens quando estão andando nas ruas e expulsão de lugares públicos. De acordo com um depoimento, um casal de senegaleses que estava tomando café na manhã em uma padaria foi retirado .

 

É necessário que os brasileiros manifestem sua solidariedade aos senegaleses, no mínimo pelo ideais pan africanos de entender que tem um laço histórico que nos une.

Brasil apoia Cabo Verde e Senegal na realização de censos eletrônicos

Em 2017 cerca de 50 técnicos cabo-verdianos e senegaleses participaram de atividades de capacitação voltadas para a criação de Centros de referência em coleta eletrônica de dados nesses países. Para este ano a expectativa é engajar novos parceiros e replicar a metodologia em outras partes do continente africano

Entre os dias 20 e 23 de fevereiro, a cidade de Praia, em Cabo Verde, recebe a reunião preparatória do comitê técnico e a 2ª reunião do comitê gestor do projeto Centros de Referência em Censos com Coleta Eletrônica de Dados em África. O objetivo é definir as ações do Plano de Trabalho Anual que deve contemplar, entre outros pontos, estratégia de divulgação da iniciativa, engajamento de novos parceiros e realização das replicações da metodologia a outros países africanos.

A comitiva brasileira é formada por integrantes do escritório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Cabo Verde, se juntam à comitiva representantes dos institutos de estatística do Senegal (Agence Nationale de la Statistique et de la Démographie – ANSD) e de Cabo Verde (Instituto Nacional de Estatística – INECV).

“Acreditamos que a implementação de censos eletrônicos e a coleta de dados vai contribuir para o avanço do cumprimento dos objetivos estabelecidos na agenda 2030. Além disso, essa união de esforços e conhecimento representa uma importante iniciativa para o acompanhamento e a elaboração de políticas públicas mais efetivas”, ressaltou o representante do UNFPA, Jaime Nadal.

missao cabo verdeFoto: UNFPA Brasil/Divulgação
Sobre o projeto
O projeto faz parte de uma parceria entre a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com os institutos de estatística do Senegal (Agence Nationale de la Statistique et de la Démographie – ANSD) e de Cabo Verde (Instituto Nacional de Estatística – INECV).

O objetivo é capacitar os institutos de estatísticas desses países para atuarem como Centros de Referências em Censos com Coleta Eletrônica de Dados promovendo e facilitando o uso de tecnologias de coleta eletrônica para outros países africanos que demonstrarem interesse e assim ser aplicado nos censos dos próximos anos.

A iniciativa começou em 2014 com uma missão de prospecção para mobilização de países africanos. Seguiu em 2016 com a assinatura de um protocolo de intenções que orienta o projeto no âmbito da Cooperação Sul-Sul assinado durante a Comissão de Estatísticas das Nações Unidas. E em 2017 foi dado o ponta pé mais concreto com a realização da primeira reunião do Comitê Gestor em Dakar/Senegal e as capacitações dos técnicos que atuarão como replicadores da metodologia, ocorrida nos dois países no final do ano passado.

http://www.unfpa.org.br/novo/index.php/1800-cabo-verde-e-senegal-iniciam-segunda-etapa-de-projeto-com-apoio-do-brasil

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições.

A utopia africana de Felwine Sarr

mídiaFelwine Sarr.© Antoine Tempé

Felwine Sarr é um intelectual africano. Economista agregado, ele ensina na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis no Senegal. Em seu último livro Afrotopia (Editions Philippe Rey), ele sonha com uma amante da África que leve a ”  humanidade para outro nível  “.

”  Responder a um pensamento sobre o continente africano é uma tarefa difícil , escreve Felwine Sarr , tão tenaz, clichês, clichês e pseudo-certezas que, como um halo de neblina, escondem sua realidade  “. Sua abordagem é, portanto, desconstruir a visão da África; uma visão livre, em particular, das idéias ocidentais para alcançar a “Afrotopia”, essa ”  utopia ativa, que se propõe a descobrir no espaço real africano os vastos espaços dos possíveis e impregná-los  “.

desenvolvimento

Esta desconstrução, “a  exigência da soberania intelectual absoluta  “, começa com o questionamento do conceito de desenvolvimento visto em Washington nos corredores do FMI ou do Banco Mundial.

Certamente, Felwine Sarr não questiona a necessidade de desenvolver o continente que é dele, mas a maneira de fazê-lo. A África deve encontrar o caminho que é próprio e não mais ser imposto um “modelo”. ”  É preciso uma crítica filosófica, moral e política da ideologia desenvolvimentista  ” , escreve o analista rigoroso que fala de um campo que ele conhece: o dos números, das estatísticas, curvas. Neste como nos outros, “a  utopia africana consiste em gerar outras formas de viver em conjunto  “.

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições. Os africanos de hoje parecem esquecê-los pouco a pouco, ansiosos para que possam desfrutar os frutos de uma certa forma de sociedade de outros lugares.
Esta é uma tendência perigosa para Felwine Sarr. ”  O homem africano contemporâneo está dividido entre uma tradição que ele não conhece mais e uma modernidade que caiu sobre ele como uma força de destruição e desumanização  ” , ele escreve pensando em colonização.

Modernidade africana

” Quais poderiam ser os contornos e os conteúdos desta modernidade africana, se quiser evitar tornar-se uma falsa contrafacção da Europa? “Pergunta o autor. Esta é a questão central do livro.

Ao longo das páginas, Felwine Sarr envolve uma reflexão filosófica que propõe, por exemplo, a existência de vários mundos. ”  Essa África que está e está acontecendo é multifacetada  “, diz ele. Deve basear seu futuro em sua autonomia cultural e em uma noção de tempo peculiar a si mesmo. E, segundo ele, a economia deve ser considerada com uma dimensão social em particular. Aqui também é uma questão de reconectar-se com a tradição. “Nas sociedades africanas tradicionais, a economia foi incluída em um sistema social maior. Ele certamente obedeceu às suas funções clássicas (subsistência, alocação de recursos, etc.), mas foi subordinado a objetivos sociais, culturais e civilizacionais  . Portanto, é necessário, diz o autor, “ ancorar as economias africanas em seu contexto cultural  “. E morar em sua casa.

A análise de Felwine Sarr é alimentada por estudos de grandes mentes do continente; o filósofo Mamoussé Diagne e seu trabalho sobre a tradição oral para entender o conteúdo do pensamento africano ou mesmo Abdoulaye Elimane Kane, que busca a “participação africana” no pensamento do ser humano.
É um apelo aos africanos para capturar uma imagem da África que é sua, e não a imagem que o Ocidente os envia.

” Para acelerar o fim de um mundo, para se livrar do Ocidente, é necessário ganhar a batalha da representação, por uma estratégia de subversão e insurreição, levando à elaboração de seu próprio discurso. de uma representação de si mesmo  “, escreve esse homem posado, cuja ambição intelectual é ótima. E nobre.

 

http://www.rfi.fr/culture/20160324-utopie-afrique-felwine-sarr-developpement-humanite-afrotopia-modernite-tradition

Felwine Sarr e Achille Mbembe em entrevista ao jornal Liberation

felwine e achiles

África: “O mundo das fronteiras preguiçosas colapsa”

Por Sonya Faure e Catherine Calvet –  (atualizado para )
Trabalho de Calixte Dakpogan apresentado na Fundação Louis Vuitton, na exposição "Arte / África, a nova oficina", até 4 de setembro.
Trabalho de Calixte Dakpogan apresentado na Fundação Louis Vuitton, na exposição “Arte / África, a nova oficina”, até 4 de setembro. Foto Maurice Aeschimann Cortesia Caac A Coleção Pigozzi

O continente africano pode se tornar um laboratório para repensar o equilíbrio entre economia e ecologia, diz o economista Felwine Sarr. “Tráfego”, a marca do século 21, também é uma “característica das culturas históricas africanas”, diz o pensador Achille Mbembe.

O cientista político e historiador Achille Mbembe (foto  à direita)eo economista Felwine Sarr (esquerda) organizaram, no outono de Dakar, os Ateliers de la Pensée. Eles explicam por que “a africanização da questão global” seria um evento importante no debate das idéias vindouras.

Como explicar o aumento atual da literatura e do pensamento africano e da diáspora?

Achille Mbembe:O tempo parece estar nos acenando. No mundo de hoje, não existe mais um “centro” que legisle e impõe sua vontade sobre o resto, embora ainda haja, claro, bolsões de dominação. Um dos pontos fortes dos novos movimentos afrodiaspóricos é trabalhar nas interfaces. Porque, onde quer que estejam, esses pensadores estão dentro e fora, e pertencem a vários mundos simultaneamente, eles são capazes de articular um novo discurso. Cada um de nós, intelectuais, romancistas, artistas, tem trajetórias individuais, algumas das quais são bem-sucedidas. Mas já não é suficiente. Se queremos que nossa voz esteja no mundo, então o tempo nos convida a se tornar um. É por isso que, Felwine e eu, criamos as oficinas do pensamento de Dakar. Queríamos fornecer uma plataforma mais ampla para essas vozes e adiar para sempre a idéia de que a África é um continente fora do mundo. O contributo mais inovador para o desenvolvimento da escrita e do pensamento crítico em francês vem do mundo afrodiasporico. Basta ler Nadia Yala Kisukidi, Elsa Dorlin, Francoise Vergès, Mamadou Diouf, Hourya Benthouami, Abdourahmane Seck ou Pap Ndiaye sobre questões tão cruciais quanto o Islã, a cidadania, a raça e as situações de minoria, a diferença sexual.

Felwine Sarr: No continente africano, como na Europa, há uma expectativa de decifrar este mundo que parece ir em todas as direções. Alguns começam a entender que o pensamento que mais questiona o mundo presente, mas especialmente o mundo que vem, não vem da Europa, mas provavelmente da África. Há uma mudança no pensamento crítico.

Por que esse movimento?

AM:Porque o mundo das falsas dicotomias e das fronteiras preguiçosas está entrando em colapso e novas jornadas de pensamento emergem fora da Europa. O pensamento de tráfego é o que melhor atende aos desafios do presente. Em grande medida, nossa contribuição para a história da modernidade vem do fato de que fomos obrigados a mudar. Se é um movimento forçado através do comércio de escravos ou deslocamento voluntário. Esta circulação é também uma característica fundamental das culturas africanas históricas, em que tudo se move: os deuses, os humanos, os objetos do comércio trans-saariano, as caravanas, até os Estados são itinerantes. Em suma, a civilização se origina no tráfego. É por isso que os africanos pagaram e ainda pagam um preço colossal pela manutenção das fronteiras herdadas da colonização. O pensamento africano e diásporo sempre teve uma dimensão transnacional.

FS: África é o continente mais antigo da história e o mais jovem em termos demográficos. É o lugar onde as formas sociais mais antigas da humanidade se desenrolaram. É especialmente o único continente que ainda não conduziu a aventura industrial até o fim. É o continente “menos avançado” neste caminho, como dizem os economistas e os teóricos do “desenvolvimento”. Hoje, no momento do Antropoceno, a África pode ter uma vantagem. Pode tornar-se o grande laboratório para repensar o equilíbrio entre economia e ecologia. Os habitantes dos territórios onde o capitalismo ocidental já está plenamente realizado não estão tão conscientes da entropia atual. Essas questões enfrentam os africanos ainda mais urgentemente do que o resto do mundo.

A África é uma nova terra de utopias?

FS: No continente, os indivíduos não esperaram para experimentar, diariamente, outra relação com a realidade. Muitas experiências de economia circular levam em consideração a relação entre o meio ambiente e o indivíduo. Eles questionam a noção de propriedade, repensam o in-common, o non-closure, o que compartilhamos.

AM: A forma da cidade está sendo reinventada em Kinshasa, Luanda, Maputo, Abidjan … Pegue uma cidade como Lagos, que ninguém conhece exatamente o número de habitantes. Aqui, as formas convencionais de contar, calcular, produzir estatísticas são derrotadas. Outras lógicas de composição assumem o controle. Nada é perdido, tudo é reciclado, reparado, recirculado. Outro exemplo: na África, houve sociedades sem prisão. Eles tinham outros mecanismos de punição, da administração da justiça, que merecem ser analisados ​​hoje, nesta era global da inflação prisional. O que poderia ser uma sociedade sem prisão? O mesmo tipo de reflexão poderia se aplicar a outras áreas: formas de hospitalidade, a multiplicidade de associações …

E para a democracia?

FS: A crise da democracia baseia-se num problema de representação. África pré-colonial experimentou formas de participação extremamente ricas e diversas. Algumas sociedades organizaram a participação por faixa etária, categoria socioprofesional ou por rotação de poder. Como surgir uma palavra social operacional? Como envolver tantos? O mundo tem muitos exemplos mais históricos a serem considerados do que o único mito da democracia ateniense, que teve seu dia desde Pericles.

AM: Todo esforço para reinventar a democracia deve definir por si mesmo o que devemos chamar de “o comum”, um corpo que ultrapassa as fronteiras do estado-nação e os sinais para o mundo inteiro. Deve levar em conta uma nova antropologia da comunidade política que vai muito além da figura do cidadão, e que cede lugar aos migrantes, no exterior e especialmente aos transeuntes, mas também aos vivos como um todo.

O encerramento gradual da Europa diante da chegada dos migrantes é o sintoma de uma crise de civilização ?

FS: a Europa também precisa ser irrigada pelo trânsito, mas ao contrário é a barricada. Para calar a boca, ela não interessará a ninguém. Qualquer sistema que fecha eventualmente degenerar, esse princípio é válido em biologia como na sociologia. Patrick Chamoiseau descreve muito bem em seu último livro, os migrantes Frères (Seuil, 2017). Ele vê a migração como o “sangue da terra”. É a vida que lembra as sociedades que precisam ser re-irrigadas.

Você refuta qualquer idéia de “contra-discurso”: o pensamento africano não deve se registrar em oposição ao Ocidente …

FS: preferimos desviar o olhar. Uma contra-fala está sempre sufocante de um discurso dominante, é alucinada, fascinada. Não temos nada a dizer a ninguém, mas devemos ser livres e criativos. Devemos inventar as modalidades de nossa presença no mundo.

AM: Temos que sair do paradigma da refutação. A hora é uma palavra afirmativa, confiante em si mesma.

A Conferência de Bandung, em 1955, estabeleceu um princípio: “Não há centro, então não há mais periferias”. No campo das idéias, se não houver centro, Ainda existe um universal?

FS: Ao escrever África-Mundo, o filósofo Souleymane Bachir Diagne pede um “universal verdadeiramente universal”. A extensão ao resto do mundo de uma única face da experiência humana, que se considerou universal, é uma falsificação. Uma multiplicidade de centros se desenrola de sua história, sua maneira de inventar sua presença no mundo. Essa pluricidade nunca impediu o diálogo ou desafiou a singularidade da condição humana. Se pode ser articulado com o respeito pelos outros, pode chegar a um universal desta vez rico de todos os indivíduos, para citar Aimé Césaire.

Essa é a “africanização da questão planetária”?

FS: a Europa deve descer do seu pedestal falso. Ela certamente trouxe muito para o mundo, mas ela está ficando sem vapor. O fim de um mundo não significa o fim do mundo. A Europa terá que ir à escola no mundo com facilidade.

AM: Todos os desafios globais que enfrentam o planeta nunca serão resolvidos se ignorarmos a dimensão africana do mundo. Isso pode parecer bastante surpreendente, mas a África prefigura o mundo que está chegando. Há um futuro Africano de nosso planeta como o pensamento crítico do XXI th  século enfrentará como à sua própria pergunta.

 

Fonte:http://www.liberation.fr/debats/2017/07/05/afrique-le-monde-des-frontieres-paresseuses-s-effondre_1581815

Felwine Sarr: Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios

Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios e definirem os termos em que as suas instituições e economia operam. O economista senegalês vem ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, falar de Afrotopia. Nem afropessimista, nem afroeufórico: Felwine Sarr é afro-realista.

Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora

Foto
Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora ELISE DUVAL

No ano passado, o economista senegalês Felwine Sarr (n.1972) organizou os Ateliers de La Pensée, um espaço de reflexão em forma de workshops que juntou dezenas de pensadores em Dakar e Saint-Louis. Co-criados com o filósofo e referência do pensamento pós-colonial, o camaronês Achille Mbembe, os Ateliers foram um enorme sucesso e irão repetir-se este ano, em Novembro, conta ao PÚBLICO por telefone. “Nestes últimos anos houve um renascimento dos artistas africanos. Os africanos não estão muito envolvidos na produção do discurso sobre eles próprios, com os Ateliers a ideia era reunir intelectuais africanos e da diáspora e pensar o papel de África no mundo, como olhar para o futuro”, explica.

O economista, músico, teórico, chega a Portugal na próxima semana, dia 19 de Abril, para uma conferência sobre África, capitalismo e utopias no Teatro Maria Matos, em Lisboa, integrada no Ciclo Utopias. Reclama para África, à qual se refere como uma entidade continental, uma especificidade própria. Defende que é hora de os africanos fazerem uma auto-reflexão, pensarem nas suas soluções e tornarem-se menos vulneráveis às influências exteriores veiculadas em nome de um interesse que não é necessariamente o seu. “O comércio (deportação) transatlântico e o colonialismo foram sinónimos de extracção de riquezas e de ser humanos, de desestruturação das sociedades, de distorções institucionais, de violação cultural, de alienação e de inscrição das sociedades dominadas em trajectórias pouco virtuosas”, escreve no livro. Esta é a herança com a qual os países africanos têm de viver.

Professor na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis, e director do departamento de Civilizações, Religiões, Arte e Comunicação da mesma universidade, Felwine Sarr é autor de DAHIJ (2009), 105 Rue Carnot (2011), Médiations Africaines (2012) e Afrotopia (2016). É sobre este último livro que vem falar e foi sobre ele que se debruçou a entrevista de cerca de 40 minutos.

Para contextualizar, cite-se um excerto de Afrotopias: “África é um continente que tem uma superfície de 30 milhões de quilómetros quadrados, composto por 54 Estados. Cabem nela os Estados Unidos, a China, a Índia e uma parte da Europa Ocidental. Com uma população de cerca de mais de um bilhão de indivíduos, e uma taxa de crescimento demográfico de 2,6%, daqui a meio século será o continente mais povoado, com 2,2 bilhões de habitantes, representando um quarto da população mundial. (…) Desde 2000, o seu crescimento econômico é superior a 5%. Entre as mais altas taxas de crescimento do mundo de 2008 a 2013, os países africanos estão bem representados.” Escreve ainda: “As economias africanas descolariam, se funcionassem com os seus verdadeiros motores.”

Felwine Sarr também escreve, no livro, que a “Afrotopia é uma utopia activa que procura no real africano os diversos espaços do possível e os fecunda”. Não defende nem o afro-pessimismo (que olha para o continente como estando à deriva), nem o afro-euforismo (que olha para África como o futuro económico). Qual será o lugar de um afrotópico? “O realismo”, responde.

No livro fala do fato de África estar marcada pela representação feita a partir do exterior. Como é que essa imagem foi distorcida?
Isso acontece desde os tempos do colonialismo em que é o Ocidente a definir África. África agrega essas definições que são feitas e incorpora-as, mas na verdade tem uma longa história em que pode pensar a sociedade, a vida, a história, o seu presente e decidir que tipo de futuro quer. Temos que ser nós a definir que tipo de sociedade queremos.

E nesse sentido, o que é exactamente a luta pela representação de África?
É muito importante lutar pela representação justa de África. Se em África não se acredita que é possível melhorar, e tem que se ir para o Ocidente porque aqui não há futuro, então é porque a representação é muito má. Como as pessoas se vêem a elas mesmas através desta representação? Para construir o seu presente e o seu futuro têm que ter confiança em si próprias. Mas há um preconceito em relação a África, sempre vista através da lente do conflito, do que é negativo, e não da parte positiva da resiliência dos africanos, da riqueza da sua civilização, da sua criatividade na forma de resolver os problemas.

Passados mais de 50 anos sobre a descolonização da maior parte dos países africanos (ocorridas no início dos anos 1960, não sendo o caso das colónias portuguesas), o seu livro ainda debate a necessidade de descolonização em várias áreas, incluindo das mentalidades. O que é que correu mal neste processo?
A descolonização não é apenas territorial e não acaba com as independências dos países, é um processo. O mais importante é a descolonização intelectual, psicológica, do conhecimento. Foram feitos progressos nas universidades, alguns académicos estão a pensar em como descolonizar o conhecimento e as linguagens mas isto é algo que acontece a longo prazo e para o qual se tem de olhar cuidadosamente. São precisas novas relações, mais justas e respeitadoras.

(A maioria dos) países africanos são antigas colónias, e as relações económicas, políticas e culturais continuam a existir com os países ocidentais. As ideias e decisões políticas não são tão livres como deveriam ser: são definidas pelas Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional, por políticos e por grandes empresas que têm interesse em África. Não podemos dizer que as relações são justas e simétricas, não são, há muito trabalho para fazer. Se for a algum dos países africanos, as grandes companhias que exploram os recursos naturais são internacionais. E retiram esses recursos porque têm tecnologia que nós não temos, em todas as áreas, das telecomunicações às minas, ao petróleo. Os nossos governos, por sua vez, também são influenciados pelas políticas do Banco Mundial e do FMI, pelos políticos do Norte na forma de governarem as suas sociedades.

Fala da necessidade de os africanos adquirirem a sua autonomia e de recuperarem as suas esferas políticas. Como se consegue isto? 
As sociedades africanas têm conhecimento local em várias esferas, do social, ao psicológico, até à saúde e basearam grande parte da sua sabedoria neste tipo de conhecimento que pode ser ensinado ao mesmo nível do conhecimento ocidental, articulando-os. Na minha universidade temos exemplos disso com o departamento de Cultura Africana, Civilização e Línguas, o Departamento de História.

Também defende que o ensino deve ser feito em línguas locais e que se deve, no fundo, acabar com o domínio das línguas ocidentais. Como é que depois se asseguraria a circulação do pensamento num continente em que há tantas línguas nacionais?
Há duas mil línguas em África, mais ou menos. Pode-se trabalhar a um nível trans-regional. Mas se pensarmos, há línguas que são faladas em vários países. Podem-se escolher algumas línguas transnacionais, e trabalhar nelas. O número de línguas não é um problema, o problema é a vontade política: há muitos lugares no mundo em que é a política que decide investir na língua. Quando um africano cresce, aprende a falar numa língua nativa; quando vai para a escola, aprende noutra, é um choque.

Diz que os instrumentos para medir as performances económicas em Produto Interno Bruto (PIB coloca os países africanos em situação de desigualdade e de subalternidade. Como é que a economia informal que predomina em África pode ser incluída nesta equação? 
O problema da economia informal é que não é incluída nas estatísticas, e quando se mede o PIB perde-se esta grande parte da economia. Esta economia produz riqueza, outras formas de economia, e temos que olhá-la com outros olhos, tentando capturar indicadores que meçam este tipo. Alguns países estão a tentar ter estatísticas da economia informal, outros, como o asiático Butão encontram índices que incluem a medição do bem-estar.

Há críticas fortes no seu livro à ajuda internacional e à presença de organizações não-governamentais (ONG) em África. Em que é que são negativas?
As ajudas das ONG podem ser feitas com boa intenção, mas nem todas têm a preocupação de perceber quais as necessidades reais de África. Algumas têm ideias do que é Africa e agem de forma diferente daquela que foi acordada com os respectivos governos, seguem as suas agendas e não trazem grande coisa. São os governos que devem decidir o que é bom para eles e não as ONG’s internacionais, algumas muito poderosas. Por exemplo, no Ruanda o Governo define quais as áreas em que as ONG’s intervêm e todos os anos escrutinam-nas para saber se cumpriram o plano – se não o fizeram, saem do país. O mais importante é saber se as ONG’s são agentes de transformação. Se agirem de acordo com o interesse do país, podem ser úteis. As soluções têm que ser produzidas localmente, se não, o problema pode agravar-se. Não é preciso recusar a ajuda mas apenas organizá-la de forma a que seja útil.

Fonte:https://www.publico.pt/2017/04/16/sociedade/entrevista/felwine-sarr-na-luta-pela-representacao-de-africa-1768342

Felwine Sarr: África pode reinventar-se

João BiscaiaDAVIDE PINHEIRO

Economista e artista senegalês, Felwine Sarr escreveu “Afrotopia” sobre a descolonização e o sonho africano

África, o continente das feridas do séc. xx por sarar ou o lugar onde a utopia é real no séc. xxi? O pensador, economista e artista senegalês Felwine Sarr escreveu “Afrotopia” sobre o processo adiado de descolonização. O livro é um apelo a uma visão inclusiva e contemporânea. De África para o mundo e o inverso. Às 18h30 conversa com os artistas alemães Monika Gintersdorfer e Knut Klaßen, em Lisboa, para apresentar “Diálogo Direto Kinshasa Lisboa” no Teatro Maria Matos. O espetáculo pode ser visto de quinta a sábado, sempre às 21h30.

afroutopiaNo livro “Afrotopia” defende que o processo de descolonização ainda não terminou. O que falta fazer?

A descolonização é um processo muito longo. No final dos anos 60, os países africanos tornaram-se independentes, mas para se ter independência não basta um território e uma bandeira. A questão racial e a relação com os países colonizadores não terminou aí. As ligações políticas e culturais continuam a ser assimétricas porque foram construídas dessa forma. Não é em dez ou 20 anos que se reconstrói uma relação. Reconquistar a liberdade e a autonomia leva tempo. É preciso desarticular estas ligações, negociar uma relação mais justa e horizontal. A descolonização está na forma como se organiza a sociedade para que se possa decidir o futuro e atingir objetivos.

É um problema africano e europeu?

Sim, de ambos. A Europa decidiu pela descolonização porque tinha os turistas e era muito caro manter as colónias. Foi o contexto histórico, e não uma questão de arrependimento moral ao não contribuir para um mundo mais igualitário e aproveitar-se dos recursos existentes em África. A Europa não vai querer perder o acesso às matérias-primas e, se puder continuar a defender uma relação injusta do ponto de vista económico, vai continuar a fazê-lo. E também os líderes dos países africanos na altura recém-independentes não cortaram essa relação umbilical. Pensaram que imitar a Europa na organização social e política seria uma boa forma de desenvolvimento. Não rearticularam a História. Veja-se o caso da França, que continuou a intervir militarmente nas ex-colónias. Não se pode dizer que as coisas não tenham mudado. Há países que conseguiram ter bastante autonomia, mas outros, como a África do Sul, têm muito trabalho pela frente.Felwine_Sarr_IMG_2388

África precisa de reencontrar um caminho próprio?

Repare, África é o continente mais ancestral do mundo. As primeiras formas de organização social foram em África. Há uma história muito longa do que significa a vida e viver em sociedade. Toda a experiência humana passou por África. O colonialismo foi apenas um período curto na História, apesar de muito significativo. Alterou a trajetória dos países africanos. Não é possível reescrever a História, mas África pode reinventar-se desde que rearticule os legados históricos – incluindo o passado colonial – e escolha o seu caminho. Não me parece que isso esteja a acontecer. Não estamos a decidir que sociedade queremos. Para mim, essa é a questão central. Que tipo de equilíbrio pretendemos entre economia, ecologia e espiritualidade? Que tipo de ser humano queremos? Se respondermos a estas questões, podemos construir um modelo de sociedade centrado na nossa visão da História.

As gerações pós-raciais podem desempenhar um papel decisivo?

Sem dúvida. Está na hora de nos reinventarmos com novas ideias e um olhar progressista, em vez de estarmos sempre presos ao lado negro da nossa história recente.

É muito crítico das ONG. Boas intenções não são suficientes?

Não são. Não todas, mas uma parte delas julgam saber o que é bom para as pessoas. É quase um pensamento colonialista. Quererem ajudar não significa que saibam o que é melhor para as pessoas. Ajudar significa dar às pessoas o poder de decisão sobre as suas vidas. Quando não se tem essa capacidade, quer dizer que a relação é de dependência. Algumas ONG contribuem para esse vínculo. Quando abandonam os programas humanitários, as pessoas ficam pior do que estavam. Este é o meu primeiro problema. O segundo é que a ajuda, a curto prazo, pode ser boa, mas inibe as pessoas de procurarem soluções próprias. É preciso tentar e falhar até encontrar as respostas necessárias. A longo prazo, vai ser prejudicial. A solidariedade deve ser repensada e envolver todos os agentes envolvidos neste processo. As pessoas devem poder escolher a forma de ser ajudadas.

Estamos a passar por um período de grande turbulência política em que algumas questões parecem ser opacas. O racismo tem diferentes camadas?

Absolutamente. Um amigo meu usou no novo livro que escreveu o conceito de “racismo menor”. É um tipo de racismo do dia-a-dia, das conversas… É muito difícil combatê-lo porque não está na lei. É mais informal. O problema do racismo é a definição através do outro. O outro define-te e cataloga-te sem te conhecer por haver uma série de características que um determinado grupo, que se julga superior, tem. E o racismo não se define apenas nas relações. Pode ser institucional e instalar-se nas relações políticas, quando uma cultura se julga superior à outra

Teve uma banda quando era estudante. A arte pode desempenhar um papel decisivo nestes processos?

As manifestações artísticas podem ser uma forma de combater o racismo. A literatura, a música e o discurso associado são muito importantes. Sobretudo a música é um bom exemplo. É uma arte participativa e de comunhão. É possível transmitir uma mensagem sem compreender uma palavra da letra, graças à vibração. A música é também um lugar de encontro sem hegemonias. A relação constrói-se apenas através da beleza ou das harmonias. Uma canção pode falar para toda a gente, mas o único critério de apreciação é a sensibilidade. E, além disso, é uma forma de lidar com a cultura do próximo. Mas pode também envolver riscos se a música africana for entendida de forma folclórica. Os ritmos são muito complexos na forma de tocar djembê ou bateria. Até na música, a abordagem é importante.felwine-sarr-151681-250-400

É possível pensar em África como um todo ou a dimensão não o permite?

O sonho de unificar o continente existe desde o séc. xix, mas é um projeto muito complicado devido à diversidade e às identidades locais. É complicado para os políticos abandonar a sua visão territorial e transpô-la para uma dimensão mais vasta. Era preciso partir de baixo e construir uma consciência pan-africana. Nada está feito para se construir um pensamento de pertença a uma comunidade maior. Há muito trabalho a fazer. Em 2050 seremos 2,5 mil milhões de pessoas. Não sei como será possível administrar tantas pessoas. É preciso repensar a formar de olhar para estas questões. Construir, e não apenas sonhar.

691b9e4_22266-px0jr7

Vê-se como um afro-sonhador? Afro-realista?

(risos) Não, estou apenas a tentar ser afro-lúcido. Olhar para a realidade sem óculos de euforia ou desespero. Por vezes é difícil compreender a realidade, por ser muito opaca, mas acredito que estão a acontecer boas dinâmicas a nível econômico e demográfico. Nas novas gerações há vontade de construir uma África nova. Estamos a viver uma crise que não é apenas económica. É filosófica, ética e moral. Temos uma ordem, mas não sabemos para onde estamos a ir. O neoliberalismo não deixou lugar para o ser humano. Provavelmente, todas as sociedades se estão a interrogar sobre a forma de escapar. Em África, as questões são mais urgentes. Por isso é que a questão da utopia é tão importante. É necessário um espaço na sociedade para a utopia. Deve haver lugar na mente para a imaginação. Para que o sonho seja ativo e possa ser real.

Acredita que as novas gerações veem África de uma forma inclusiva e articulada com o resto do mundo?

É interessante essa questão porque ainda esta manhã estive a trabalhar no título de um livro sobre a relação de África com o mundo. África como parte do mundo, e não isolada. As novas gerações africanas estão no centro do mundo e a forma como se relacionam com África é sentirem-se cidadãos do mundo. A dinâmica não é separada. A questão mais importante neste século passa por africanizar globalmente e vice-versa.

 

Fonte: https://ionline.sapo.pt/559090

 

A maioria dos africanos não emigra para onde você (possivelmente) pensa

Sai o primeiro atlas que analisa os complexos fluxos populacionais da África Subsaariana, com especial atenção ao âmbito rural

Amostras de mapas do atlas ‘África em Movimento’.
Amostras de mapas do atlas ‘África em Movimento’. FAO / CIRAD

Dizer que a África se movimenta seria pouco. O continente na verdade está em ebulição: 36 milhões de africanos migraram em 2017, ou seja, 14% dos 258 milhões de deslocamentos registrados no ano passado em todo mundo, segundo o relatório de migrações de 2017 das Nações Unidas. Mas não migram como costumamos acreditar. Geralmente se imagina que os fluxos entre a África e a Europa e a América do Norte são os únicos, ou os de maior volume, mas 75% dos indivíduos que mudaram de ares na África Subsaariana permaneceram dentro do continente, segundo o estudo África em Movimento: Dinâmica e Motores da Migração ao Sul do Saara, publicado em novembro pela FAO (agência da ONU para alimentação e agricultura) e o Centro de Pesquisas Agrícolas para o Desenvolvimento (CIRAD). Trata-se do primeiro atlas a analisar a inter-relação dos fatores que levam os habitantes do continente africano a abandonar seus lares.

Através de vários mapas e do estudo aprofundado de quatro exemplos (Senegal, Madagascar, África do Sul e Zâmbia), a publicação visa a facilitar a compreensão das dinâmicas e tendências dos fluxos migratórios. Os migrantes deram forma ao mundo no qual vivemos hoje, impulsionaram o progresso, e os movimentos humanos não irão parar. Por isso, é preferível promover ações que aumentem seu potencial e diminuam os possíveis efeitos nocivos. Esse atlas tenta encontrar padrões que sirvam para desenvolver políticas mais eficientes. “Os migrantes podem ser agentes de desenvolvimento, então é de suma importância aproveitar isso”, afirma o estudo. A seguir, algumas das suas principais conclusões:

Mais população rural, e o emprego como grande desafio

Gráficos que descrevem a densidade da população rural em 2015 e a estimada para 2050. Abaixo, o número de pessoas que entraram para a população economicamente ativa desde 1950 e o estimado até 2050, as mudanças demográficas previstas para os países e regiões analisados e uma comparação da evolução da população rural em vários países.ampliar foto
Gráficos que descrevem a densidade da população rural em 2015 e a estimada para 2050. Abaixo, o número de pessoas que entraram para a população economicamente ativa desde 1950 e o estimado até 2050, as mudanças demográficas previstas para os países e regiões analisados e uma comparação da evolução da população rural em vários países. FAO/CIRAD

A população na África Subsaariana continua crescendo numa escala sem precedentes. Até 2050, aumentará em 208 milhões de pessoas, chegando a 2,2 bilhões. Essa expansão representa uma mudança maior que a experimentada pela China e a Índia no passado. A região continuará sendo principalmente rural, já que o crescimento das cidades é relativamente recente: em 2015, 62% dos africanos (602 milhões) ainda viviam no campo. Até 2050, a cifra chegará a 980 milhões, ou um terço dos camponeses do mundo. Como consequência, a mão de obra aumentará em 813 milhões até o ano 2050. Quase 35% serão de origem rural, com 220 milhões de trabalhadores.

Também aumenta a faixa etária economicamente ativa (de 15 a 64 anos), algo que representa uma grande vantagem para o crescimento econômico. Mas, sem um ambiente econômico e institucional favorável, esse possível benefício poderia se tornar um ônus demográfico (muitos desempregados), gerando tensões sociais e políticas. O maior desafio para a África Subsaariana é criar empregos suficientes para absorver sua força de trabalho em expansão. A evolução do setor agrário dependerá da pressão sobre os recursos e sua gestão.

Migra-se mais dentro da África

Gráfico que mostra o volume de migrações rurais e urbanas por destino e as migrações dentro e fora da África.ampliar foto
Gráfico que mostra o volume de migrações rurais e urbanas por destino e as migrações dentro e fora da África. FAO/CIRAD

Em 2015, cerca de 33 milhões de africanos viviam fora de seus países de origem, embora os que se deslocam dentro do próprio continente respondam por quase 75% desse total. A porosidade das fronteiras e as regras regionais destinadas a facilitar a livre circulação de pessoas favorecem esse movimento. Os padrões de migração rural e urbana apresentam características muito diferentes. Os migrantes rurais costumam se mudar para cidades quando permanecem no seu próprio país. Já os migrantes urbanos em geral partem para outros continentes e zonas urbanas. A migração entre zonas rurais surge quando é possível o acesso à terra e quando se desenvolvem novas atividades, como na mineração artesanal. Entretanto, na maioria das vezes decorre da falta de empregos nas cidades e da maior oferta em zonas de produção de cultivos comerciais como algodão, amendoim, cacau, café e arroz.

Tais dinâmicas demonstram que os vínculos entre o rural e o urbano são cada vez menos estáticos. A migração favorece a diversificação dos meios de subsistência das famílias e o acesso a oportunidades de emprego. Fortalece o papel das cidades pequenas e médias, bem como as dinâmicas locais e regionais. Essa nova realidade territorial, moldada pela migração, deveria facilitar uma melhor coincidência das ações políticas com as necessidades locais.

Perfil dos migrantes africanos

Infográfico que mostra os motivos principais para migrar no caso dos migrantes rurais de alguns países selecionados, as características dos migrantes internacionais por país em 2015 e as dos migrantes rurais e de seus lares.ampliar foto
Infográfico que mostra os motivos principais para migrar no caso dos migrantes rurais de alguns países selecionados, as características dos migrantes internacionais por país em 2015 e as dos migrantes rurais e de seus lares. FAO/CIRAD

Em 2015, a África apresentou a maior proporção de jovens migrantes internacionais (de 15 a 24 anos) com 34% do total. A média de idade foi de 29 anos. Observando mais de perto um grupo de países (Senegal, Burkina Faso, Uganda e Quênia), encontram-se semelhanças: os jovens se movem dentro de seu país e são o grosso dos migrantes rurais. Por volta de 60% tem entre 15 e 34 anos e as mulheres são geralmente mais jovens, mas eles são maioria: entre 60% e 80%. A região também se caracteriza por ter famílias muito numerosas (frequentemente sete ou mais membros) que geralmente são mais propensas a ter migrantes. Isso se reflete nas dificuldades dos jovens para ter acesso e herdar terras agrícolas, o que é um incentivo para ir embora.

Os camponeses têm desenvolvimento escolar mais baixo do que os seus homólogos urbanos, e os que decidem deixar o campo não são uma exceção. Os migrantes tendem, entretanto, a passar mais anos na escola, e a maioria dos rurais vêm de lares que têm membros melhor educados. Ao se observar o emprego, a maioria dos que tem educação formal limitada ou nula terminam em trabalhos por conta própria, enquanto aqueles que obtiveram o nível de educação básica têm mais probabilidades de conseguir um emprego assalariado.

Importância das remessas

Infográfico sobre o envio e recepção de remessas: principais países que as recebem, quantidade em bilhões de dólares recebidos em vários países africanos, e envios em espécie.
Infográfico sobre o envio e recepção de remessas: principais países que as recebem, quantidade em bilhões de dólares recebidos em vários países africanos, e envios em espécie. FAO/CIRAD

O motor de desenvolvimento mais tangível da migração é o dinheiro que os migrantes enviam à casa. A África Subsaariana recebeu aproximadamente 32 bilhões de dólares (103 bilhões de reais) dos 580 bilhões (1,86 trilhão de reais) enviados ao redor do mundo. Os números reais, entretanto, devem ser superiores porque muitos enviam informalmente e porque outros o fazem em forma de bens, em espécie, e isso não se reflete nas estatísticas.

O envio de remessas transforma a vida das famílias no país, aliviando a pobreza e melhorando o consumo dos lares, mas pode gerar problemas se chega a perturbar as instituições e sistemas tradicionais ou provoca a dependência da família que recebe da pessoa que envia. Ainda assim ajuda a melhorar os meios de vida para muitos. De acordo com os autores, a África deveria priorizar a redução dos custos de envio e promover a concorrência, a eficiência e a transparência. “Os Estados africanos também deveriam reformar seu sistema bancário e financeiro para facilitar a capacidade dos migrantes de enviar dinheiro através de instituições financeiras”, recomendam.

A importância da mudança climática

Infográfico em inglês sobre o impacto da mudança climática na África. Mostra as inter-relações entre as zonas de aridez e os níveis de degradação do solo, densidade populacional, níveis de vulnerabilidade, população trabalhadora dedicada à agricultura e níveis de pobreza.ampliar foto
Infográfico em inglês sobre o impacto da mudança climática na África. Mostra as inter-relações entre as zonas de aridez e os níveis de degradação do solo, densidade populacional, níveis de vulnerabilidade, população trabalhadora dedicada à agricultura e níveis de pobreza. FAO/CIRAD

mudança climática é um fenômeno global cada vez mais prejudicial aos humanos. As temperaturas e as mudanças nas chuvas podem ter graves repercussões nos meios de subsistência. A estimativa das perdas nas colheitas de grãos chega a 20% e a região subsaariana será uma das mais atingidas, com cenários que projetam um aumento de 20% da desnutrição em 2050 se medidas não forem tomadas.

Em países de alto risco e com mecanismos de mitigação, as pessoas podem sobreviver melhor a esse fenômeno. A capacidade dos Governos para responder às necessidades básicas após os desastres naturais pode, por exemplo, permitir às pessoas reconstruírem seus meios de vida sem a necessidade de migrar. Na maioria dos países da África Subsaariana, problemas como a instabilidade política, governança ruim, falta de capacidades e os recursos financeiros limitados impedem o uso efetivo e a boa implementação de mecanismos de prevenção e adaptação. Para consegui-los devem ser criadas estratégias de desenvolvimento fundamentadas em um olhar a longo prazo dos possíveis cenários para se conseguir um modelo adequado e eficiente das políticas públicas.

 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/11/internacional/1515674435_555866.html

Jovens africanos estudaram a cadeia produtiva da mandioca no Brasil

Benin, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Malaui, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Uganda, Senegal, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

Embrapa treina jovens de 14 países africanos na Bahia

Imagem: Embrapa

Embrapa - O pesquisador Joselito Motta com os jovens em comércio de Vitória da Conquista

O pesquisador Joselito Motta com os jovens em comércio de Vitória da Conquista

Até o dia 17 de novembro, 28 jovens de 14 países africanos participam do “Treinamento em propagação, produção e processamento da mandioca para jovens africanos”, ministrado na Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas, BA).

A iniciativa faz parte do Youth Technical Training Program – YTTP (Programa de Capacitação Técnica Juvenil), realizado pelo Instituto Brasil África (Ibraf), organização sem fins lucrativos voltada para projetos de cooperação sul-sul com ênfase nas relações Brasil-África. Os países representados são: Benin, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Malaui, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Senegal, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

Desde o dia 23 de outubro, o grupo recebe informações sobre a cadeia produtiva da mandioca por meio de aulas teóricas e práticas em laboratórios e campos experimentais da UD e em áreas de parceiros de pesquisa e transferência de tecnologia. No último dia, o grupo também vai receber informações sobre outras culturas pesquisadas pela Embrapa.

O programa inclui visitas técnicas à Cooperativa dos Produtores de Amido de Mandioca do Estado da Bahia – Coopamido (Laje), à Cooperativa dos Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves – Coopatan (Presidente Tancredo Neves), ao Instituto Biofábrica de Cacau (Ilhéus) e à Cooperativa Mista Agropecuária dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia – Coopasub (Vitória da Conquista).

A escolha da agricultura como primeiro tema do YTTP faz parte da estratégia Feeding Africa, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), apoiador da primeira desta primeira etapa do programa, que busca a transformação da agricultura no continente africano. “A agricultura é uma matriz comum ao continente africano e ao Brasil, e entendo isso de forma muito clara: para desenvolver um país como um todo ou o continente como um todo, primeiramente, tem que ser através do desenvolvimento da agricultura”, declarou João Bosco Monte, presidente do Ibraf.

Com o objetivo de definir a programação do treinamento, Monte já tinha estado na Unidade em março e julho. “Para o Ibraf, a Embrapa é uma parceira fundamental e imperativa. O programa tem três pilares: a faixa etária, porque queríamos jovens; o gênero, porque queríamos equidade; e a continentalidade. Por isso, temos representantes de 14 países da África, que é formada por 54 países”, disse.

Entre os alunos, compostos por produtores e técnicos, a expectativa é grande. Beckie Nakabugo, de Uganda, é uma delas. “Aprender sobre mandioca vai beneficiar meu país, porque o povo está desanimado. Lá tem o Cassava Brown Streak Virus, e muitos produtores desistem de plantar. Minhas expectativas com o curso são grandes, porque a Embrapa é uma empresa grande e nós estamos recebendo o melhor tratamento, com os melhores professores”, afirmou.

Ernest Lifu Atem, de Camarões, está gostando da experiência. “Alguns dos temas a gente precisaria de, no mínimo, seis meses para realmente entender, mas estamos aprendendo bastante. Espero transformação de mente, de conhecimento. Espero ver mais métodos do que resultados dos trabalhos feitos aqui no Brasil. Claro que os resultados também são importantes para comparar as análises, mas o que mais importa é aprender métodos para aplicar no meu local de trabalho”, salientou.

“A formação ocorre bem, os palestrantes explicam bem os cursos e as matérias. Uma coisa muito interessante é a associação da teoria com a prática. É muito interessante ver o que eles falam e as provas reais do que aconteceu. Eu espero que a formação continue assim até o final. Nós fomos bem acolhidos, e a Embrapa é um lugar bem calmo, ideal para aprender”, destacou Guelord Nsuanda, da República Democrática do Congo.

“Como responsáveis pelo treinamento, esperamos que os alunos repassem esse conhecimento porque ele realmente tem que chegar ao produtor”, disse o pesquisador Marcio Porto, do Núcleo de Relações Internacionais, um dos organizadores do curso, ao lado de Alfredo Alves.

jovens

 

Encerramento do curso

“Meu sonho para os jovens africanos é que se tornem milionários. A pergunta é: como isso vai acontecer? A resposta: só vai acontecer quando a juventude africana praticar agricultura como negócio. E esse é o propósito de estarmos aqui. Garanto ao Instituto Brasil África e à Embrapa que daqui a cinco anos os participantes que estão aqui vão se tornar milionários. Iremos fazer uso do que aprendemos. Não somente iremos nos tornar milionários, mas iremos criar empregos para outros jovens africanos, que vão ter um trabalho digno.” Com esse depoimento, o jovem Obinna Atu, da Nigéria, encerrou sua participação no curso sobre propagação, produção e processamento da mandioca, que treinou, durante um mês, 28 jovens de 14 países africanos na Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas, BA).

No workshop de encerramento, que contou com a presença do presidente do Instituto Brasil África, João Bosco Monte, do chefe-geral Alberto Vilarinhos e de integrantes da equipe técnica de mandioca, um jovem representante de cada país resumiu o que significou o curso e como pretende aplicar os novos conhecimentos (veja cinco depoimentos abaixo). Os países representados foram: Benin, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Malaui, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Uganda, Senegal, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

“Depois de 30 dias de intensas atividades, o resumo é muito valioso. O que imaginamos há mais de um ano, quando idealizamos esse programa, era trazer jovens africanos para receber treinamento no Brasil em instituições campeãs que pudessem agregar valor a eles. A ideia, então, era trazê-los para aprender no melhor lugar. Quando ouço os depoimentos e olho nos olhos deles, vejo que valeu a pena o investimento para que esses 28 jovens pudessem receber esse conhecimento aqui, que pode se transformar em algo muito maior. Essa é a beleza de um treinamento como esse. Os jovens saem com o conhecimento adquirido, mas podem ser multiplicadores disso em seus lugares de origem”, avaliou Bosco.

A iniciativa faz parte do Youth Technical Training Program – YTTP (Programa de Capacitação Técnica Juvenil), realizado pelo Instituto Brasil África, organização sem fins lucrativos voltada para projetos de cooperação sul-sul com ênfase nas relações Brasil-África sediada em Fortaleza (CE). A escolha pela agricultura como primeiro tema faz parte da estratégia Feeding Africa, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), apoiador da desta primeira etapa do programa.

O grupo recebeu informações sobre toda a cadeia produtiva da mandioca por meio de aulas teóricas e práticas em laboratórios, campos experimentais da Unidade e áreas de parceiros de pesquisa e transferência de tecnologia. No último dia, também foram repassadas informações sobre outras culturas pesquisadas pela Embrapa. A programação incluiu visitas técnicas à Cooperativa dos Produtores de Amido de Mandioca do Estado da Bahia – Coopamido (Laje), à Cooperativa dos Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves – Coopatan (Presidente Tancredo Neves), ao Instituto Biofábrica de Cacau (Ilhéus) e à Cooperativa Mista Agropecuária dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia – Coopasub (Vitória da Conquista).

“Não é fácil reunir pessoas de 14 países, falando dois idiomas (inglês e francês) e muitos outros, seus idiomas nativos. Uma verdadeira torre de babel. Mas deu tudo certo. O curso foi produtivo, e a avaliação dos participantes em relação à Embrapa foi muito positiva, elogios grandes à equipe técnica que compartilhou conhecimento. Agora a intenção é irmos além da mandioca. Vejo a banana, por exemplo, como uma cultura de especial interesse pelos africanos”, resumiu o pesquisador Marcio Porto, um dos organizadores do curso, ao lado do pesquisador Alfredo Alves, que está na África, em missão com Joselito Motta, que acompanhou o grupo durante boa parte do curso e foi citado por muitos participantes no encerramento. Nesta semana, Marcio se juntou a eles, na África, em missão que passa por Gana e Nigéria.

Na primeira semana, Alfredo e Joselito visitaram comunidades produtoras e processadoras de mandioca de Techiman, em Gana, onde as mulheres fabricam o gari – farinha fermentada e amarelada com azeite de dendê. Na zona rural de Abeokuta, na Nigéria, os pesquisadores estiveram em uma comunidade onde as mulheres viram pela primeira vez a tapioca brasileira. “Apesar das dificuldades, o semblante delas era de alegria e esperança”, relatou Joselito.

A Embrapa participou também do evento CassavaTech 2017, que ocorreu de 21 a 23 em Lagos, na Nigéria.

Depoimentos

Gana – Valaria Adzo Adzatia
“Agora sei que não sabia muito sobre mandioca. Nunca vou esquecer as aulas, as visitas a campo, as casas de produção e tudo mais. Eu não sabia que a gente poderia utilizar a mandioca para fazer muitas coisas. Em Gana percebi que a gente desperdiça muito a mandioca. Um produto que aprendi aqui e não estava muito confiante em fazer era o amido. Sempre vi como um processo muito longo, mas foi simplificado aqui para mim. É um dos produtos que estou pensando em trabalhar porque vou me concentrar mais na parte de processamento.”

Malaui – Maness Nkhata
“A parte sobre as pragas foi muito importante porque vi algumas coisas que são novas para mim, especialmente o manejo integrado. O treinamento me proporcionou também conhecimento para produção e processamento da mandioca. Isso vai me ajudar no desenvolvimento de outros produtos que não fazemos nos nossos países. Outra área muito interessante foi a cultura de tecidos. Espero também construir um laboratório para cultura de tecidos e outros processos, além de treinar outros jovens para plantar e manejar as plantações de mandioca. O treinamento foi um sucesso. Meus planos futuros com o conhecimento obtido nas aulas, nas visitas a campo e outras áreas são contribuir para o sucesso da produção de mandioca no meu país.”

Nigéria – Obinna Atu
“Percebi que na África acontece como aqui no Brasil: a maioria dos agricultores não tem acesso aos materiais de plantios melhorados. Por anos o IITA (Instituto Internacional de Agricultura Tropical) tem lutado para alcançar esses objetivos. A mandioca é um dos alimentos mais importantes da base alimentar na Nigéria. Mais de 60% das famílias dependem da mandioca para viver. Vi o processo de multiplicação como uma boa maneira de começar um negócio para os jovens, para investir nosso dinheiro e nossa energia. Aqui vimos também muitos produtos que podemos fazer utilizando a mandioca. Vamos experimentar na Nigéria para ver as oportunidades de negócios lá. Descobrimos que o processamento pode criar milhares de trabalhos para os jovens e gerar muito lucro.”

Senegal – Dieynaba Badiane
“O Senegal tem 14 regiões, e em cada uma há uma plataforma de produção. A gente pode transformar todos esses conhecimentos adquiridos aqui. O que me marcou nessa formação é o fato de trabalhar na prática, nos laboratórios. Temos necessidades agrícolas no Senegal e não conhecemos a cultura in vitro. Com essa técnica que aprendi aqui, quero fazer a micropropagação e trabalhar em parceria com vocês. Temos o hábito de inovar e de criar novas coisas na fabricação, mas ainda não tínhamos conhecido o potencial da mandioca. Com tudo que eu aprendi aqui nessa formação, vou levar muito para lá.”

Serra Leoa – Alie Kamara
“Falando sobre produção de alimentos, fomos capazes de observar e fazer alguns processos, como a produção de chips de mandioca, de mandioca palito. Também aprendemos sobre o programa de melhoramento, que é uma coisa do meu interesse. Na viagem que fizemos, aprendemos muito sobre as etapas. No laboratório, vimos como fazer a multiplicação, identificando o material antes de cortar, como levamos a mandioca para o laboratório, a limpeza do material. Outra parte que aprendemos foi sobre ciência e empreendedorismo. Tenho muita coisa para levar para casa. Vou fazer uma apresentação sobre o que aprendi aqui para outros jovens do meu país.”