Tanzânia vai exigir à Alemanha indenizações por crimes da era colonial

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O Governo da Tanzânia vai interpor uma ação judicial para obrigar a Alemanha, antiga potência colonial, a pagar indemnizações por alegadas atrocidades cometidas há mais de um século, anunciou hoje o ministro da Defesa.

O Executivo tanzaniano vai tentar obter compensações por dezenas de milhares de pessoas que passaram fome, foram torturadas e mortas pelas forças alemãs que tentavam dominar tribos rebeldes, disse o ministro, Hussein Mwinyi, no parlamento.

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“Vamos analisar os passos dados pelos Governos do Quénia e da Namíbia para obterem reparações dos Governos do Reino Unido e da Alemanha, respetivamente”, declarou.

A embaixada alemã em Dodoma não emitiu ainda qualquer reação a este anúncio.

A Alemanha governou a Tanzânia, então conhecida como Tanganica, de 1890 a 1919, e enfrenta pedidos de indemnização de outra antiga colónia africana, a Namíbia.

Em janeiro, a Alemanha disse que poderá fazer pagamentos à Namíbia pelo assassínio de 65.000 pessoas durante a sua ocupação colonial, um episódio que é considerado por alguns o primeiro genocídio do século XX.

Estão ainda em curso negociações com o Governo namibiano sobre esta questão.

Na Tanzânia, as forças alemãs foram acusadas de diversos crimes, entre os quais de fazer a população passar fome, após a revolta tribal conhecida como Maji Maji.

Ao exigir indemnizações, o país da África Oriental está a seguir o recente exemplo do vizinho Quénia, onde um grupo de cidadãos idosos foi indemnizado pelo Governo britânico por atos de tortura perpetrados pelas autoridades coloniais britânicas.

Em 2013, o Executivo do Reino Unido disse “lamentar sinceramente” os atos de tortura levados a cabo contra os quenianos que combatiam pela libertação do jugo colonial nas décadas de 1950 e 1960. Pagou também cerca de 21,5 milhões de dólares (20 milhões de euros) aos 5.200 quenianos que se provou terem sido torturados, ou cerca de 4.100 dólares por vítima queniana.

https://www.noticiasaominuto.com/mundo/738172/tanzania-vai-exigir-a-alemanha-indemnizacoes-por-crimes-da-era-colonial

 

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Liga dos Direitos Humanos de Guiné Bissau descreve quadro sombrio

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A cidade de Bissau acolhe nesta segunda-feira, 6, uma conferência internacional sobre direitos humanos, numa altura em que os debates no país estão a ser animados pelos crimes cometidos por parte dos agentes policiais contra civis.

Há casos também de alegados suicídios, em circunstâncias duvidosas e mortes por tortura nas celas de esquadras policiais, assim como as péssimas condições nos centros prisionais em Bissau, concretamente, na 2a esquadra e na Polícia Judiciária.

Neste cenário, acrescenta-se ainda a violência contra as mulheres e crianças, os casamentos precoces e a mutilação genital feminina, um fenômeno que a lei ainda não consegue conter, mesmo com as medidas punitivas previstas na legislação.

O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Augusto Mário da Silva, apresentou um quadro sombrio da violação dos direitos do homem na Guiné-Bissau, e afirmou que os direitos humanos não têm sido uma das prioridades do Estado guineense.

“Depois de mais de 40 anos da independência, a problemática dos direitos humanos continua longe das prioridades dos sucessivos inquilinos do poder, fazendo da Guiné-Bissau parte integrante de uma lista restrita de países sem nenhum plano ou estratégia nacional pública de promoção e respeito pelos direitos humanos”, acusou Silva.

Participam na conferência, representantes de organizações internacionais, sobretudo da sub-região africana.

O presidente do Parlamento, Cipriano Cassamá, aproveitou a abertura do evento para deixar um apelo à classe política guineense para respeitar o Acordo de Conacri.

“Apelo à classe política, com ênfase ao Presidente da República para colocarmos os interesses dos guineenses em primeiro lugar, deixando de lado as nossas querelas, as nossas divergências pessoais e partidárias e assim implementar o acordo de Conacri”, sublinhou.

Fonte:http://www.voaportugues.com/a/direitos-humanos-debate-guine-bissau/3708102.html

Violações de direitos humanos no Congo

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Brazzaville, Congo (PANA) – A Ação Cristã para a Abolição da Tortura (ACAT) e a Associação para os Direitos Humanos e o Universo Prisional (ADHUC), ambas Organizações Não Governamentais (ONG) dos direitos humanos, denunciaram terça-feira em Brazzaville, perto de 250 casos de violações dos direitos humanos, nomeadamente torturas perpetradas entre outubro de 2015 e até agora, por elementos da força pública.

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‘As organizações receberam, desde 2015 até agora, perto de 250 casos de violações dos direitos humanos, mas o maior número dos lesados vivem na clandestinidade como o receio de represálias », deplorou Louamba Moke, presidente da ADHUC durante uma conferência de imprensa.

Segundo ele, « depois do referendo de 25 de outubro de 2015, as eleições presidenciais de 20 de março de 2016 e os eventos de 4 de abril último nos bairros do sul de Brazzaville alastram-se para a região de Pool, no sul.

Não passam dias sem que sejamos informados sobre casos de detenções e de detenção arbitrárias, de tortura e de tratamentos cruéis, desumanos e desagradáveis, indignou-se.

As duas ONG deploraram ainda a atitude do Governo congolês que não se preocupa, banalizando estas diferentes violações dos direitos humanos observadas.

Por conseguinte, a ADHUC e ACAT pedem ao Governo para identificar os torcionários do « esquadrão da morte », provavelmente a Guarda Republicana (GR), e a detenção dos autores assim identificados, e que circulam a bordo dum veículo V8.

Elas apelam às autoridades congolesas para agilizarem os processos de queixas penais e sanções contra os autores de atos de tortura.

-0- PANA MB/IS/IBA/MAR/DD 1dez2016

Comitê Contra Discriminação Racial da ONU insta Burundi a proteger os seus civis

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O Comité para a Eliminação da Discriminação Racial (CEDR) da ONU instou hoje o Burundi a atuar de forma a proteger a sua população civil e a permitir a entrada de um contingente da organização para verificar a situação.

Os representantes do CERD sustentam num comunicado que “o facto de milícias armadas intimidarem a população abertamente mostra a incapacidade ou falta de vontade do governo de proteger os civis”.

O comité expressa “grande preocupação” com o número de assassínios, execuções sumárias, desaparecidos e torturados, com o facto de “muitos dos casos terem uma motivação étnica” e com “a utilização do discurso do ódio” por parte de representantes do executivo, bem como com o crescente número de cidadãos do Burundi exilados.

O Burundi está imerso numa grave crise desde abril de 2015, quando o seu presidente Pierre Nkurunziza se candidatou a um terceiro mandato, contrariando, do ponto de vista da oposição, a Constituição.

Desde então morreram centenas de pessoas e cerca de meio milhão abandonaram as suas casas, segundo a ONU, que alertou para um possível genocídio e acusou o governo de crimes contra a humanidade.

O Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação para determinar a possível responsabilidade do governo de Nkurunziza, que reagiu proibindo a entrada dos investigadores da ONU e pedindo a sua saída do TPI.

Até agora, as autoridades do Burundi recusaram a entrada de um contingente de 228 polícias aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU para estabilizar o país e suspenderam as relações com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

O comité expressa “grande preocupação” com o número de assassínios, execuções sumárias, desaparecidos e torturados, com o facto de “muitos dos casos terem uma motivação étnica” e com “a utilização do discurso do ódio” por parte de representantes do executivo, bem como com o crescente número de cidadãos do Burundi exilados.

O Burundi está imerso numa grave crise desde abril de 2015, quando o seu presidente Pierre Nkurunziza se candidatou a um terceiro mandato, contrariando, do ponto de vista da oposição, a Constituição.

Desde então morreram centenas de pessoas e cerca de meio milhão abandonaram as suas casas, segundo a ONU, que alertou para um possível genocídio e acusou o governo de crimes contra a humanidade.

O Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação para determinar a possível responsabilidade do governo de Nkurunziza, que reagiu proibindo a entrada dos investigadores da ONU e pedindo a sua saída do TPI.

Até agora, as autoridades do Burundi recusaram a entrada de um contingente de 228 polícias aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU para estabilizar o país e suspenderam as relações com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

https://www.noticiasaominuto.com/mundo/696986/comite-contra-discriminacao-da-onu-insta-burundi-a-proteger-os-seus-civis

Tortura, execuções e violência no Burundi denunciada pela ONU

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As Nações Unidas apresentaram hoje um relatório demolidor sobre centenas de execuções e casos de tortura e violações cometidos no Burundi, dando um prazo de dois meses ao governo local para responder às acusações.

O Comité Contra a Tortura, reunido em Genebra, na Suíça, para a 58.ª sessão, emitiu um comunicado no qual informa ter examinado um relatório que contém “informações alarmantes dando conta de possíveis casos de tortura com motivações políticas ou étnicas” no Burundi.

O documento, de 12 páginas, exige às autoridades do país africano que abram “inquéritos independentes e imparciais” sobre 348 execuções extrajudiciais e 651 casos de tortura, registados entre abril de 2015 e abril deste ano, atribuídos maioritariamente às forças da ordem e segurança.

O Comité denuncia igualmente “desaparecimentos forçados de opositores políticos”, citando 36 casos no mesmo período de tempo, e “violências sexuais cometidas pelas forças de segurança e jovens imbonerakure [milicianos]”, bem como uma “retórica de genocídio” contra a minoria tutsi.

A violência assolou o Burundi depois de o presidente cessante, Pierre Nkurunziza, ter decidido, em abril de 2015, apresentar-se a um terceiro mandato, para o qual foi reeleito em julho de 2015.

Os seus opositores consideram um terceiro mandato inconstitucional e contrário aos acordos de Arusha, que abriram caminho ao fim da longa guerra civil no Burundi (1993-2006).

Em dezembro de 2015, o Comité Contra a Tortura tomou a iniciativa de exigir ao Burundi um relatório sobre as medidas adotadas face às “informações credíveis e numerosas dando conta de execuções sumárias, incluindo assassinatos políticos, prisões arbitrárias, torturas e maus tratos contra membros da oposição, jornalistas e defensores dos direitos humanos, e suas famílias”, lê-se na página oficial do organismo das Nações Unidas, composto por dez peritos independentes, que supervisiona o respeito pela Convenção Contra a Tortura, que o Burundi ratificou em 1993.

O Burundi enviou uma delegação para se reunir com o Comité Contra a Tortura no dia 28 de julho, mas anulou a sua participação na 58.ª sessão do organismo, em protesto contra a apresentação de um outro relatório, elaborado por representantes da sociedade civil do Burundi, denunciando torturas e desaparecimentos.

O procurador do Burundi exigiu, de imediato, que os quatro advogados que integram o painel desse segundo relatório fossem banidos da Ordem, alegando “participação em movimento insurgente e tentativa de golpe de Estado”.

As Nações Unidas criticaram as represálias e instaram o Burundi a “proteger os elementos da sociedade civil que cooperam com o Comité”.

O Comité deu ao Burundi um prazo até 12 de outubro para responder ao relatório hoje divulgado, resposta que deve incluir “as medidas a tomar para aplicar o conjunto das recomendações” que figuram no documento.

http://observador.pt/2016/08/12/nacoes-unidas-denunciam-execucoes-tortura-e-violacoes-no-burundi/

Governo burundês nega acusações de violações dos direitos humanos

 

Fotografia: Afp

Governo do Burundi rejeita as acusações de violação dos direitos humanos e fez chegar o seu descontentamento ao Comité das Nações Unidas contra a Tortura pelo facto de este órgão ter baseado as suas inquietações num “relatório sombra” de ONG e seus parceiros que actuam no país.

Segundo fontes próximas do Governo do Burundi, a sua delegação afirmou, numa nota dirigida ao comité, que as alegações contidas nos documentos reunidos para a audiência estão longe de ser imparciais e procuram criar um forte clima de conspiração às acções das autoridades do país.
O Comité das Nações Unidas contra a Tortura fez saber que a atitude do Burundi não tem precedentes na sua história. “Por isso, o Burundi tem agora 48 horas para apresentar mais informações por escrito ao grupo de peritos. Se isso não ocorrer, devem começar a ser escritas as suas observações finais com as informações recebidas pelas ONG e parceiros”, indica uma nota do comité.
Para a delegação burundesa,  o que chamam de “relatório sombra” devia ter-lhes sido comunicado antecipadamente para que avaliassem as alegações. O país pediu tempo suficiente para preparar respostas detalhadas aos argumentos expostos pelas organizações e outros parceiros.
Para a sessão de respostas, a delegação  burundesa enviou uma nota verbal ao secretariado do comité em que fazia menção a um “relatório especial” e que esperava que o organismo falasse sobre o informe, mas o órgão não emitiu qualquer parecer sobre o mesmo.
Nas alegações, os parceiros questionam o sistema legal e informes do cometimento de crimes internacionais no país.
O Governo do Burundi encerra a sua nota dirigida ao Comité das Nações Unidas contra a Tortura reiterando o seu compromisso de cooperar com organismos de direitos humanos. A comissão das Nações Unidas convocou a sessão para 28 e 29 de Julho, para abordar informações recebidas dando conta da deterioração da situação dos direitos humanos no Burundi.
A agenda incluía uma abordagem às medidas tomadas para investigar as execuções sumárias, detenções arbitrárias, tortura e maus-tratos de membros da oposição, jornalistas, defensores dos direitos humanos e presumíveis opositores em 2015. As autoridades rejeitam todas as acusações e falam em perseguição e que está em curso, nos organismos internacionais, uma estratégia para derrubar  o Estado de Direito e complicar a vida a instituições políticas e jurídicas do país, que tudo fazem para criar um clima são entre o governo e a oposição.

Força policial

Pelos menos, duas mil pessoas manifestaram-se sábado nas ruas de Bujumbura, capital burundesa, contra o envio de uma força policial de 228 elementos armados à luz de uma resolução das Nações Unidas inspirada pela França, em resposta à crise política e dos direitos humanos que dura há mais de um ano no Burundi.
O governador da cidade de Bujumbura, Freddy Mbonimpa, liderou a marcha que contou com a presença de altos quadros do Estado e também de simples cidadãos, como os condutores de moto-táxis, numa atmosfera calma com canções patrióticas, incluindo o hino nacional. Durante discussões diplomáticas antes da votação, quinta-feira, da resolução do Conselho de Segurança, o Governo burundês aceitou o princípio do desdobramento de 50 polícias desarmados.
As Nações Unidas, há pouco tempo, encaravam a possibilidade de desdobramento de, pelo menos, três mil capacetes azuis face ao risco de genocídio no Burundi, antes de recuar, depois de uma séria oposição das autoridades.
O Conselho de Segurança decidiu finalmente o desdobramento de um pouco mais de 200 polícias, depois de uma ofensiva diplomática da França. Daí a exibição pelos manifestantes, sábado, de bandeirolas hostis diante da Embaixada da França, em Bujumbura. Do lado da oposição, algumas vozes ergueram-se igualmente para dizer que 228 polícias eram bem-vindos, mesmo se não forem suficientes para conter a violência no Burundi.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/africa/governo_burundes_nega_acusacoes_de_violacoes_dos_direitos_humanos

Prêmio Nobel Malala expressa choque com relato de meninas do Burundi violentadas na guerra

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Por Katy Migiro
 
MAHAMA, Ruanda (Reuters) – Mais de uma dezena de alunas rompeu em lágrimas enquanto uma delas relatava a Malala Yousafzai os estupros que sofreram e testemunharam enquanto fugiam para Ruanda em 2015 para escapar dos combates no Burundi.
 
A ativista paquistanesa de 19 anos, que advoga em defesa da educação feminina, se mostrou visivelmente comovida com as refugiadas burundienses, o que levou seu pai, Ziauddin Yousafzai, a interferir e responder em seu nome.
 
“É extremamente chocante”, disse a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel, que sobreviveu a um ataque quase fatal do Taliban, à Thomson Reuters Foundation no campo de refugiados de Mahama, em Ruanda, na quinta-feira.
“Suas histórias são muito trágicas, muito tocantes e emocionantes.”
 
O Burundi está mergulhado em uma crise que já dura um ano, causou a morte de 450 pessoas e obrigou 270 mil a fugirem desde que o presidente do país, Pierre Nkurunziza, decidiu, com sucesso, buscar um terceiro mandato. Opositores dizem que sua decisão violou a Constituição e um acordo que pôs fim a uma guerra civil em 2005.
 
Ange-Mireille Ndikumwenayo relatou que estava em um ônibus a caminho de Ruanda em 2015 quando viu duas meninas sendo estupradas por um grupo ao lado da estrada.
 
“Elas tentaram correr e pediram ajuda, mas ninguém conseguiu ajudá-las porque eles tinham armas”, contou a jovem de 20 anos referindo-se à Imbonerakure, a ala jovem do partido governista, que grupos de direitos humanos afirmam terem atacado e torturado adversários do governo, acusações que esta nega.
“Aquilo partiu meu coração”, lembrou.
 

Human Rights Watch: Inteligência do Burundi tortura opositores

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Os serviços de inteligência do Burundi teriam torturado, dentro de suas próprias instalações e também em prisões secretas, vários suspeitos de fazerem oposição ao governo dentro, segundo informações da Human Rights Watch.

Em relatório publicado nesta quinta-feira, a organização de defesa dos direitos humanos acusa as autoridades de cometer inúmeros abusos com a ajuda de um grupo paramilitar juvenil conhecido como Imbonerakure.

 

O Burundi está mergulhado em caos desde abril do ano passado, quando o presidente Pierre Nkurunziza anunciou seus planos de tentar um terceiro mandato, provocando intensos protestos, reprimidos com extrema violência pelas forças de segurança. De acordo com o relatório, agentes da inteligência nacional teriam agredido os opositores detidos com martelo, cravado hastes de aço em suas pernas e jogado plástico derretido em seus corpos.

A Human Rights Watch pediu que o Conselho de Segurança da ONU providencie uma força policial internacional e monte um comitê de investigação no país.

http://br.sputniknews.com/mundo/20160707/5500001/Human-Rights-Watch-Inteligencia-Burundi-tortura-opositores.html

‘Escravos dos Tempos Modernos’ que Mário Cruz não nos deixa esquecer

FOTO MÁRIO CRUZ – “TALIBÉS, ESCRAVOS DOS TEMPOS MODERNOS”

Mais de 50 mil meninos e adolescentes vivem aprisionados nas malhas das supostas escolas corânicas do Senegal. Têm entre os 5 e os 15 anos de idade, são forçados a mendigar oito horas por dia e são punidos severamente sempre que não conseguem atingir os valores desejados. Chicoteados e acorrentados, são vítimas de um sistema de tortura e escravatura dentro das próprias paredes das escolas que os deveriam acolher, educar e dar-lhes melhores perspetivas de vida, para além da pobreza que tinham nos sítios onde nasceram. As autoridades conhecem esta realidade dantesca, mas fecham os olhos. Boa parte da sociedade senegalesa diz não acreditar. Para que não sobrem dúvidas sobre o martírio que diariamente esta crianças enfrentam, Mário Cruz entrou no mundo proibido dos talibés e o registo que trouxe com ele em fotografias é a maior prova que o mundo poderia ter.

A reportagem “Talibés, Escravos dos Tempos Modernos valeu ao fotojornalistas português a distinção do World Press Photo, na categoria Assuntos Contemporâneos. Pouco tempo depois recebeu também o Prémio Estação Imagem e, agora, as suas imagens chegam também às páginas da conceituada revista NewsWeek. Mas não chega. Já há uns dias citava aqui Gloria Steinem, que numa entrevista sobre a série documental Womanexplicava que é preciso tornar o mundo – pessoa a pessoa – testemunha de alguma realidade dantesca quando queremos que ela mude. E é precisamente isso que Mário Cruz pretende fazer com esta sua tremenda investigação.

Depois dos prémios e das publicações em revista, Mário Cruz quer também publicar o seu trabalho em livro. Um livro que funcione como “prova física do sofrimento de mais de 50 mil crianças que hoje se encontram aprisionadas no Senegal”. Um “testemunho do sofrimento daqueles que são o futuro de um país”. E todos nós podemos fazer parte deste processo. Até quinta-feira está a decorrer, em formato online, uma recolha de fundos e pré-venda que permite a publicação desta prova brutal. Convido-vos a todos a fazerem parte dela. Não pelo ego do Mário – que há muito que já provou que não é isso que o move, por mais prémios que receba – mas sim pelos miúdos que precisam que a sua história corra o mundo. Uma história que todos nós hoje podemos ver porque houve um homem com coragem suficiente para a tornar pública. E ninguém melhor do que ele para nos explicar como é tudo isto foi possível.

FOTO MÁRIO CRUZ – “TALIBÉS, ESCRAVOS DOS TEMPOS MODERNOS”

Troquei mensagens com o Mário e aqui ficam as respostas dele a algumas perguntas que eu tinha na qualidade de leitora. Leiam, vejam as imagens e tornem-se testemunhas também.

Como é que conseguiste entrar neste universo? Foram necessários seis meses de investigação durante os quais acabei por criar uma rede de contatos que garantiu a minha entrada em algumas das falsas escolas corânicas que existem no Senegal. Durante o processo de pesquisa percebi o quanto a ausência de provas tinha contribuído para a subversão de um método de ensino e isso foi o que me levou a entrar neste universo. Senti que o fotojornalismo seria urgentemente necessário na criação de diálogo e consciencialização. Nunca tive autorização para fotografar as crianças e muito menos os abusos que sofrem, mas poderia fotografar os locais. Entrar numa daara (suposta escola corânica) é entrar num mundo perturbador em que só a violência e o medo têm lugar.

Foi perigoso? Foi. Como não poderia deixar de ser. É difícil ter acesso a uma rede criminosa como esta. A minha presença seria sempre estranha, mas com uma máquina fotográfica ainda mais estranha fica. Não há como não correr o risco que normalmente está associado a este tipo de realidades. Mas nunca poderei ter medo do que a minha consciência diz ser correto. Eu tinha de estar ali, eu tinha de ter a prova. É, absolutamente, necessário ter uma postura muito própria. Eu estava presente e ausente em cada momento e em todos os momentos. Este equilíbrio é difícil de atingir mas essencial para o trabalho que faço.

De todos os momentos que presenciaste, qual é que mais te marcou? É difícil para mim eleger um momento particular quando convivi durante um mês com crianças entre os 5 e os 15 anos de idade que sofrem abusos físicos constantes. Nunca pensei ver crianças a serem chicoteadas à minha frente. Nunca pensei ver crianças acorrentadas perante os meus olhos. Tive uma conversa com um talibé que tinha fugido da sua suposta escola em Saint Louis, no norte do Senegal. Ele disse-me que depois de tantos anos a sofrer agressões diárias já não tinha medo da morte. O Amadou não sabe quem são os seus pais, nem qual é o seu país de origem, mas sabe que aos 15 anos já não tem medo da morte.

Esta é uma realidade conhecida no Senegal ou é mantida em segredo? É uma realidade bem conhecida mas ignorada no Senegal. O que era um método de ensino respeitável é, hoje, um sistema de exploração infantil. O que era uma escola é agora um espaço de tortura. Na última década estes falsos marabouts (professores corânicos) viram nas crianças talibés (estudantes) uma fonte de rendimento. Neste momento, os talibés são forçados a mendigar 8h por dia para os seus guardiões e sofrem punições (agressões e violações) por falharem os montantes impostos. A maior dos talibés são de origem senegalesa mas o tráfico de crianças contribui significativamente para os números que hoje são apontados. Só na região de Dakar são mais de 30 mil crianças sujeitas a esta forma de escravatura contemporânea.

Que respostas as autoridades te deram? O sistema legal senegalês não funciona. Não funciona na proteção dos direitos humanos. Estabeleci contactos com o Ministério da Justiça do Senegal e com a Unidade Anti-Tráfico e percebi que a resolução deste problema não é uma prioridade. Não existe a vontade e por isso não existem os meios. Recentemente, o governo realizou um census para apurar quantas escolas existem no Senegal. Apontou 1000 e desistiu. É um fenômeno descontrolado e sem fronteiras. A lei que, supostamente, serviria para regular as daaras está ainda por ser aprovada no Parlamento.

Por que é que publicar este livro é importante? O livro será a prova física do sofrimento de mais de 50 mil crianças que hoje se encontram aprisionadas no Senegal. O acesso à informação é essencial para mudar esta realidade. O livro estará presente em escolas, bibliotecas e associações locais no Senegal e na Guiné-Bissau, um dos países que mais sofre com o tráfico de crianças. A verdade é que uma parte considerável da sociedade senegalesa não acredita nas mudanças graves que o sistema talibé sofreu. Muitos dos pais que hoje entregam as crianças sob a falsa promessa de uma boa educação ainda acreditam que está a fazer o melhor pelos seus filhos. A desculpa era a falta de provas dos abusos e do que se passa no interior destas escolas de tortura. Agora há, temos de as usar da melhor forma possível. O livro será a voz e o testemunho do sofrimento daqueles que são o futuro de um país.

FOTO MÁRIO CRUZ – “TALIBÉS, ESCRAVOS DOS TEMPOS MODERNOS”

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