Crianças da Etiópia não poderão ser adotadas por estrangeiros

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O Parlamento da Etiópia aprovou uma lei que proíbe a adopção internacional, deixando agora ao Governo a tarefa de resolver as que estão em curso, disse ontem à agência de notícias EFE fonte oficial do executivo etíope.

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“Agora que aprovamos a lei que proíbe a estrangeiros adotar crianças etíopes, falta tratar da regulação e das diretivas para definir o que se passará com os casos que estão em curso”, explicou o diretor das Relações Públicas do Ministério da Mulher e da Infância, Alemayehu Mammo, admitindo que estas regras estão ainda “pouco claras”. Apesar de não existirem dados oficiais sobre o número de adoções internacionais no país, os casos anuais passaram de milhares para 400 em 2017, indicou Mammo. A nova política nacional infantil da Etiópia diz que órfãos devem crescer na sua terra natal, honrando assim as suas tradições e cultura. As adoções de crianças etíopes por cidadãos estrangeiros estavam suspensas desde Abril de 2017, face a informações de casos de abusos de pais adotivos, tendo o Parlamento em Addis Abeba aprovado na terça-feira a proibição definitiva.

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Um dos casos de abusos citado pela EFE dá conta de um casal norte-americano que foi condenado a 37 anos de prisão (a mulher) e a 28 (o marido) por terem deixado a criança adotada na Etiópia em 2008 morrer de fome e de frio. A Etiópia, salienta a EFE, é um dos países africanos preferidos por famílias norte-americanas para adotar crianças, sendo um dos casos mais conhecidos o da atriz Angelina Jolie.

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Mammo explicou que as razões pelas quais a lei foi aprovada no Parlamento passam pela intenção de “prevenir os abusos e as crises de identidade” que acabam por sofrer muitas das crianças adotadas. Segundo Mammo, as autoridades não dispunham de mecanismos para identificar os antecedentes e a personalidade das famílias adotivas , para poder acompanhar as crianças nos países de acolhimento.

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‘Escravos dos Tempos Modernos’ que Mário Cruz não nos deixa esquecer

FOTO MÁRIO CRUZ – “TALIBÉS, ESCRAVOS DOS TEMPOS MODERNOS”

Mais de 50 mil meninos e adolescentes vivem aprisionados nas malhas das supostas escolas corânicas do Senegal. Têm entre os 5 e os 15 anos de idade, são forçados a mendigar oito horas por dia e são punidos severamente sempre que não conseguem atingir os valores desejados. Chicoteados e acorrentados, são vítimas de um sistema de tortura e escravatura dentro das próprias paredes das escolas que os deveriam acolher, educar e dar-lhes melhores perspetivas de vida, para além da pobreza que tinham nos sítios onde nasceram. As autoridades conhecem esta realidade dantesca, mas fecham os olhos. Boa parte da sociedade senegalesa diz não acreditar. Para que não sobrem dúvidas sobre o martírio que diariamente esta crianças enfrentam, Mário Cruz entrou no mundo proibido dos talibés e o registo que trouxe com ele em fotografias é a maior prova que o mundo poderia ter.

A reportagem “Talibés, Escravos dos Tempos Modernos valeu ao fotojornalistas português a distinção do World Press Photo, na categoria Assuntos Contemporâneos. Pouco tempo depois recebeu também o Prémio Estação Imagem e, agora, as suas imagens chegam também às páginas da conceituada revista NewsWeek. Mas não chega. Já há uns dias citava aqui Gloria Steinem, que numa entrevista sobre a série documental Womanexplicava que é preciso tornar o mundo – pessoa a pessoa – testemunha de alguma realidade dantesca quando queremos que ela mude. E é precisamente isso que Mário Cruz pretende fazer com esta sua tremenda investigação.

Depois dos prémios e das publicações em revista, Mário Cruz quer também publicar o seu trabalho em livro. Um livro que funcione como “prova física do sofrimento de mais de 50 mil crianças que hoje se encontram aprisionadas no Senegal”. Um “testemunho do sofrimento daqueles que são o futuro de um país”. E todos nós podemos fazer parte deste processo. Até quinta-feira está a decorrer, em formato online, uma recolha de fundos e pré-venda que permite a publicação desta prova brutal. Convido-vos a todos a fazerem parte dela. Não pelo ego do Mário – que há muito que já provou que não é isso que o move, por mais prémios que receba – mas sim pelos miúdos que precisam que a sua história corra o mundo. Uma história que todos nós hoje podemos ver porque houve um homem com coragem suficiente para a tornar pública. E ninguém melhor do que ele para nos explicar como é tudo isto foi possível.

FOTO MÁRIO CRUZ – “TALIBÉS, ESCRAVOS DOS TEMPOS MODERNOS”

Troquei mensagens com o Mário e aqui ficam as respostas dele a algumas perguntas que eu tinha na qualidade de leitora. Leiam, vejam as imagens e tornem-se testemunhas também.

Como é que conseguiste entrar neste universo? Foram necessários seis meses de investigação durante os quais acabei por criar uma rede de contatos que garantiu a minha entrada em algumas das falsas escolas corânicas que existem no Senegal. Durante o processo de pesquisa percebi o quanto a ausência de provas tinha contribuído para a subversão de um método de ensino e isso foi o que me levou a entrar neste universo. Senti que o fotojornalismo seria urgentemente necessário na criação de diálogo e consciencialização. Nunca tive autorização para fotografar as crianças e muito menos os abusos que sofrem, mas poderia fotografar os locais. Entrar numa daara (suposta escola corânica) é entrar num mundo perturbador em que só a violência e o medo têm lugar.

Foi perigoso? Foi. Como não poderia deixar de ser. É difícil ter acesso a uma rede criminosa como esta. A minha presença seria sempre estranha, mas com uma máquina fotográfica ainda mais estranha fica. Não há como não correr o risco que normalmente está associado a este tipo de realidades. Mas nunca poderei ter medo do que a minha consciência diz ser correto. Eu tinha de estar ali, eu tinha de ter a prova. É, absolutamente, necessário ter uma postura muito própria. Eu estava presente e ausente em cada momento e em todos os momentos. Este equilíbrio é difícil de atingir mas essencial para o trabalho que faço.

De todos os momentos que presenciaste, qual é que mais te marcou? É difícil para mim eleger um momento particular quando convivi durante um mês com crianças entre os 5 e os 15 anos de idade que sofrem abusos físicos constantes. Nunca pensei ver crianças a serem chicoteadas à minha frente. Nunca pensei ver crianças acorrentadas perante os meus olhos. Tive uma conversa com um talibé que tinha fugido da sua suposta escola em Saint Louis, no norte do Senegal. Ele disse-me que depois de tantos anos a sofrer agressões diárias já não tinha medo da morte. O Amadou não sabe quem são os seus pais, nem qual é o seu país de origem, mas sabe que aos 15 anos já não tem medo da morte.

Esta é uma realidade conhecida no Senegal ou é mantida em segredo? É uma realidade bem conhecida mas ignorada no Senegal. O que era um método de ensino respeitável é, hoje, um sistema de exploração infantil. O que era uma escola é agora um espaço de tortura. Na última década estes falsos marabouts (professores corânicos) viram nas crianças talibés (estudantes) uma fonte de rendimento. Neste momento, os talibés são forçados a mendigar 8h por dia para os seus guardiões e sofrem punições (agressões e violações) por falharem os montantes impostos. A maior dos talibés são de origem senegalesa mas o tráfico de crianças contribui significativamente para os números que hoje são apontados. Só na região de Dakar são mais de 30 mil crianças sujeitas a esta forma de escravatura contemporânea.

Que respostas as autoridades te deram? O sistema legal senegalês não funciona. Não funciona na proteção dos direitos humanos. Estabeleci contactos com o Ministério da Justiça do Senegal e com a Unidade Anti-Tráfico e percebi que a resolução deste problema não é uma prioridade. Não existe a vontade e por isso não existem os meios. Recentemente, o governo realizou um census para apurar quantas escolas existem no Senegal. Apontou 1000 e desistiu. É um fenômeno descontrolado e sem fronteiras. A lei que, supostamente, serviria para regular as daaras está ainda por ser aprovada no Parlamento.

Por que é que publicar este livro é importante? O livro será a prova física do sofrimento de mais de 50 mil crianças que hoje se encontram aprisionadas no Senegal. O acesso à informação é essencial para mudar esta realidade. O livro estará presente em escolas, bibliotecas e associações locais no Senegal e na Guiné-Bissau, um dos países que mais sofre com o tráfico de crianças. A verdade é que uma parte considerável da sociedade senegalesa não acredita nas mudanças graves que o sistema talibé sofreu. Muitos dos pais que hoje entregam as crianças sob a falsa promessa de uma boa educação ainda acreditam que está a fazer o melhor pelos seus filhos. A desculpa era a falta de provas dos abusos e do que se passa no interior destas escolas de tortura. Agora há, temos de as usar da melhor forma possível. O livro será a voz e o testemunho do sofrimento daqueles que são o futuro de um país.

FOTO MÁRIO CRUZ – “TALIBÉS, ESCRAVOS DOS TEMPOS MODERNOS”

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