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O sucesso das cotas nas Universidades brasileiras

Desde implantação das cotas, mais do que dobrou o número de negros nas universidades brasileiras
A psicóloga Josilene de Oliveira Foto: Barbara Lopes / Agência O Globo
A psicóloga Josilene de Oliveira Foto: Barbara Lopes / Agência O Globo

Quando foi aprovada no vestibular de psicologia, Josilene de Oliveira pegou a bicicleta Caloi que lhe fazia companhia desde a infância e se pôs a pedalar. Com um sorriso estampado no rosto, ela cruzava as ruas de Parque Flora, bairro da Baixada Fluminense, como quem comemora uma conquista há muito esperada. A 46 quilômetros dali, em Curicica, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a dona de casa Ofélia Ventura não se preocupou em fazer surpresa e contou às duas filhas que a aprovação havia chegado. Luciene Ventura seria caloura do curso de matemática, e Luciana passaria os próximos cinco anos estudando engenharia química.

Ao serem aprovadas no vestibular, Josilene e as irmãs Ventura fariam parte dos 3.055 cotistas que há 15 anos inauguraram o sistema de cotas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a primeira instituição pública de ensino a implementar a medida. Adotadas durante o governo Lula, as ações afirmativas fizeram o percentual de universitários negros dobrar, mas o valor continua distante daquele alcançado pela população branca. Crítico à medida, Bolsonaro já a classificou de “coitadismo” e indicou que pretende extingui-la.

“Entrar na faculdade abriu minha mente, proporcionou amizades que jamais teria e melhorou minha autoestima. A universidade mudou minha vida”, definiu Josilene, que passou a almejar o diploma universitário quando uma pesquisa escolar revelou que, entre os pais de seus colegas, poucos haviam feito faculdade. “Aí eu decidi que teria nível superior. Falei que meus filhos teriam pais com nível superior.” Ao comentar sobre o objetivo, no entanto, algumas pessoas ressaltavam os percalços da prova, outras faziam questão de lembrá-la sobre o risco de ficar desempregada. E, em virtude de uma dificuldade de concentração, na escola se via tachada de “lerdinha”.

“Ouvi muitas palavras negativas. Então já fui para o vestibular achando que não ia conseguir. Quando tirei um resultado mínimo, vi que era possível e comecei a estudar.” Para se preparar, ela tinha aulas pela manhã no pré-vestibular, à noite na escola e, ao voltar para casa, continuava estudando, não raro até de madrugada. As idas à biblioteca tornaram-se parte de sua rotina. Se as dúvidas se avolumavam, não demorava a pedir ajuda aos professores. “Acham que, porque entrou por meio das ações afirmativas, a pessoa não estudou. Pelo contrário. Eu estudei muito.”

A educação sempre teve lugar cativo em sua casa. Se quisesse sair para brincar, o dever tinha de ser feito com antecedência. Quando as vagas a uma escola pública tornaram-se concorridas, a mãe passou a madrugada na fila para lhe garantir a matrícula. “Achava que tinha de melhorar. O meu pai passou fome, passou muita dificuldade. Já que não tivemos esse problema, pensei em conquistar uma outra coisa, como um carro, algo que a gente nunca teve.” O carro Oliveira já conseguiu, agora pretende ser professora universitária, quem sabe até da Uerj. Por ora, atua no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) e leciona na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec). Para ela, as ações afirmativas foram basilares para essa ascensão social. “Estou bem realizada. Ainda não cheguei aonde quero chegar, mas consegui bastante.”

A psicóloga Josilene de Oliveira, formada pela Uerj Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
A psicóloga Josilene de Oliveira, formada pela Uerj Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo

Aos olhos de Ofélia Ventura, educação também era um meio pelo qual Luciana e Luciene poderiam aspirar a uma vida melhor. Ela queria para as filhas tudo que não havia tido: uma vida profissional, acesso a educação de qualidade e, sobretudo, oportunidades. Vê-las aprovadas no vestibular foi resultado de um trabalho que incluiu cursos e horas de estudo. Apesar disso, comentários nos corredores da Uerj afirmavam não ser aquele um espaço para elas. “Ouvia o tempo inteiro que os alunos eram totalmente contra as cotas. Que era um absurdo, que eu tinha de entrar pelos méritos das notas, e não por essas vagas reservadas para negros”, afirmou Luciana. Ao entrar na faculdade de matemática, a experiência por que Luciene passou não foi diferente. “O clima era péssimo. Todo mundo achava uma injustiça o fato de as pessoas terem conseguido entrar por cota. Não respeitavam e diziam mesmo que não achavam correto, que o critério deveria ser a capacidade”, disse ela.

“A incorporação de cotas pela Uerj é uma história banhada de conflitos e desafios. Basta lembrar que vários departamentos fizeram atos contra as cotas ali ainda em 2001”, comentou Luiz Augusto Campos, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Iesp-Uerj). Para ele, o conceito de mérito que sustentou boa parte das críticas às cotas é simplista na medida em que atrela inteligência à nota no vestibular. O que a prova seria capaz de mensurar, analisou o acadêmico, é a qualidade da educação recebida pelo estudante, não o potencial cognitivo dele. “Em alguns setores da sociedade, imperava a ideia de que tem mais capacidade de aprendizado quem tem as maiores notas no vestibular. Isso é falso. Tiram as maiores notas no vestibular os alunos que tiveram acesso a uma condição privilegiada.”

Levantamento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 2016 mostrou que, entre as 150 escolas com os melhores resultados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), apenas seis eram públicas, quatro delas federais e duas estaduais. Para cursar o terceiro ano no colégio mais bem avaliado do ranking, o estudante teria de desembolsar pelo menos R$ 2.933 por mês. Já no segundo lugar, a mensalidade para o último ano do ensino médio gira em torno de R$ 3.260. O salário mínimo, no entanto, ainda não chega a mil reais. “Isso faz com que essas pessoas tenham acesso a menos conteúdo não por terem menos capacidade de aprendizado, mas por não terem tido acesso a espaços onde existe uma circulação mais efetiva desse conteúdo”, destacou Campos. Um dos grandes desafios para Luciene foi justamente se adequar ao ritmo das aulas.

Vinda de uma escola pública, ela teve de recuperar as lacunas educacionais assim que entrou na graduação, e isso incluía estudar aos finais de semana e levar um livro a tiracolo quando ia à praia. Precisava ainda se formar em menos tempo para assumir a vaga a que foi aprovada em um concurso público. Após três anos, a carioca saiu da faculdade com um diploma e uma certeza — a partir daquele momento nada a distinguia de seus colegas não cotistas. “Hoje atuo como funcionária pública. Sou competente no que faço porque tive uma boa educação na Uerj. Lá comecei a ter um ensino de qualidade. Aí, sim, consegui reconhecer que tive oportunidades iguais.”

A engenheira Luciana Ventura, formada pela UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo
A engenheira Luciana Ventura, formada pela UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo

DESIGUALDADE HISTÓRICA

Segundo dados do IBGE, o número de universitários negros saltou de 5,5% em 2005 para 12,8% em 2015, mas ainda continua longe dos 26,5% alcançados pela população branca. Para quem defende as ações afirmativas, a medida é uma forma de diminuir essa desigualdade e reparar erros históricos. Luciene partilha dessa opinião. Em suas palavras, pessoas negras ainda encontram entraves no acesso à educação de qualidade e a boas oportunidades profissionais. Muito disso, explicou ela, tem a ver com uma herança escravocrata que custa a desaparecer. “Abolir a escravidão não foi suficiente. É preciso dar condições. E, durante a escravidão, não deram condições aos negros. Isso é o retrato do passado e esse retrato ainda persiste.”

De acordo com a primeira Constituição do Brasil, promulgada em 1824, todos os cidadãos deveriam ter acesso à instrução primária gratuita. Como o conceito de cidadania não se aplicava a escravizados — vistos e tratados como mercadoria — na prática esses indivíduos estavam alijados do acesso formal à educação. A impossibilidade fica nítida em 1854, quando o Decreto Couto Ferraz foi promulgado, orientando as diretrizes educacionais na Corte Imperial. De acordo com a medida, não poderiam estudar meninos com moléstias contagiosas, crianças não vacinadas e pessoas escravizadas.

Antes disso, porém, a maioria das províncias já impunha barreiras legais à escolarização dos cativos, seguindo o precedente aberto por Minas Gerais, em 1835. Durante o mesmo período, na maior parte do sul dos Estados Unidos, as chamadas Anti Literacy Laws (leis anti-letramento) também proibiam a alfabetização de negros e previam duras penas a quem descumprisse a medida. Acusado de ensinar negros livres a ler e escrever, William Luke, um professor branco do Alabama, foi enforcado em 1870 pelo grupo terrorista Ku Klux Klan. Aqui no Brasil o censo de 1872, o primeiro realizado no país, revelava uma população em que 99% dos escravizados eram analfabetos. Mas havia as exceções.

Missivas, poemas, cartas de alforria. Tudo isso tem ajudado pesquisadores a redesenhar a historiografia tradicional, mostrando que a palavra escrita poderia estar presente também na senzala. “Se inicialmente se pensava o escravo como um escravo-coisa, um escravo coitadinho, com o tempo se passou a perceber que eles eram detentores de sua própria ação. Eles produziram inúmeras resistências em atos cotidianos”, explicou Marialva Barbosa, doutora em história e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um desses atos era ser letrado em um país que esperava de um negro apenas a ignorância. “O letramento tinha um simbolismo muito importante: dava a eles a percepção de que tinham capacidade. Saber ler e escrever era a possibilidade de produzir atos de simbolismo, atos de auto-reconhecimento e astúcias para viver.” Ao se apropriar de maneira informal de um saber que deveria ser exclusivo às elites brancas, esses indivíduos ocupavam simbolicamente um lugar melhor na sociedade.

Para ilustrar isso, a pesquisadora recorreu a documentos que anunciavam fuga de pessoas escravizadas e constatou que os alfabetizados não eram descritos apenas por atributos físicos. Expressões como “fala bem”, “sabe ler”, “é inteligente” sinalizavam marcas distintivas consideradas incomuns a um negro. “E tem o aspecto mais interessante, que é o simbolismo da escrita. O que concedia a liberdade a eles era um papel cheio de letras. A carta de alforria era algo escrito. Em última instância, para eles, a escrita equivalia à liberdade.”

A professora de matemática Luciene Ventura, formada na UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo
A professora de matemática Luciene Ventura, formada na UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo

ALTO DESEMPENHO

Vozes e cores misturavam-se nos corredores que levam à turma 1012. Era fim de recreio, e Luciene desviava de alunos que seguiam apressados em direção às salas. Ao entrar na turma onde daria aula de matemática, ela não tardou a pedir que abrissem o livro na página 32. Em meio ao burburinho que se seguiu, uma jovem questionou preocupada: “E quem não tem livro? Desce?”. A resposta em tom quase ofendido veio rápido: “Não, só tiro aluno que está atrapalhando a aula. Eu preciso dar aula, senão não tem por que vir”. Apesar do 1,63 metro de altura, Luciene parece ganhar alguns centímetros quando se põe a falar. A voz alterna momentos de ternura com instantes de rigidez. Caminhando entre as carteiras, ela lia o enunciado enquanto a sala se enchia aos poucos.

“Essa turma é uma turma que colabora. Nem todas são assim. Claro que existem aqueles que não fazem a parte deles como alunos. A gente tenta incentivar, mas as estrelas são para aqueles que querem atingi-las. Quem deseja atingir as estrelas, vai atrás disso.” Luciana Ventura parece fazer coro à opinião da irmã. Depois de formada, a engenheira química fez mestrado na Uerj, doutorado na PUC-Rio e trabalhou por dois anos como gerente de qualidade do ar do Rio de Janeiro. Em 2018, seguiu para os Estados Unidos, onde fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia.

“Hoje me se sinto realizada. Tudo o que queria alcançar antes dos 35 anos eu alcancei. Tenho casa própria, viajei para dentro e para fora do Brasil, tenho um carro e tudo isso graças à educação e às ações afirmativas.” Para além de garantir um futuro profissional, a dedicação à faculdade servia também como resposta àqueles que estigmatizavam quem se valeu das ações afirmativas. “A gente encarava as críticas mostrando nossos resultados. Sempre me destaquei na turma e hoje, quando retorno à universidade, os professores me reconhecem pelo nome.”

“”HOJE ME SE SINTO REALIZADA. TUDO O QUE QUERIA ALCANÇAR ANTES DOS 35 ANOS EU ALCANCEI.””

LUCIANA VENTURA
Sobre conquistas após se formar na faculdade

O bom desempenho dos cotistas não foi um caso isolado. Embora em geral tenham notas menores no vestibular, uma vez na universidade o rendimento deles se equipara ou até mesmo supera o de seus colegas. Uma pesquisa feita pela Uerj no primeiro semestre de 2003 constatou a aprovação de 49% dos cotistas, contra 47% dos não cotistas. O temor de que haveria uma evasão em massa também não se concretizou. De acordo com dados da instituição, 50,4% dos alunos que entraram por meio das ações afirmativas em 2003 concluíram o curso, enquanto esse percentual é de 40,4% para quem entrou sem a reserva de vagas.

A psicóloga Josilene de Oliveira posa na Uerj, faculdade em que se formou Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
A psicóloga Josilene de Oliveira posa na Uerj, faculdade em que se formou Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo

Em 2017, uma comissão instaurada pela Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) avaliou o sistema de cotas e concluiu que não há diferenças significativas no rendimento de cotistas e não cotistas. “A análise dos dados apresentados permite desmistificar a ideia de que a cota provocaria um decréscimo de qualidade do ensino em instituições públicas de ensino superior do Estado do Rio de Janeiro”, diz o relatório elaborado pelo órgão. O documento mostra ainda que, entre 2003 e 2016, 26% dos cotistas da Uerj abandonaram o curso, enquanto esse percentual sobe para 37% no caso dos não cotistas.

Os resultados da Uerj refletem em boa medida o que foi constatado em âmbito nacional. Jacques Wainer, professor do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Tatiana Melguizo, professora da University of Southern California, analisaram os resultados de 1 milhão de universitários no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) e constaram que cotistas tiveram rendimento semelhante àqueles que não entraram pelas ações afirmativas. “O resultado importante disso”, comentou Wainer “é a conclusão de que, pelo menos até aquele período, os alunos cotistas saíram com a mesma qualidade que seus colegas de classe, ou seja, o problema não é a universidade, e sim o resto da sociedade. No caso do cotista que se formou em odontologia, eu vou ter medo dele? Não, ele é tão bom quanto seus colegas de turma.”

“Onde está o dentista?” Essa é uma pergunta que Marina (nome fictício) está particularmente acostumada a responder. Formada pela Uerj, ela faz parte da primeira geração de cotistas e sabe bem como o preconceito costuma se manifestar. Ainda na graduação, presenciou um professor afirmar ser aquele um curso caro, e que quem não tivesse dinheiro deveria fazer outra coisa. Já foi recusada de antemão por uma empregadora que, ao perceber ser ela a candidata mais bem qualificada, se viu obrigada a contratá-la. E hoje precisa lidar com o racismo na clínica em que trabalha. “Ainda existe preconceito em relação a minha cor. Até porque é difícil encontrar um negro que seja dentista. A minha auxiliar é branca e os pacientes se reportam a ela como se fosse a dentista e, depois, percebem que a dentista sou eu. Ela fica em uma posição bastante constrangedora por precisar desfazer a confusão.”

A professora de Matemática Luciene Ventura, formada pela Uerj Foto: Emily Almeida / Agência O Globo
A professora de Matemática Luciene Ventura, formada pela Uerj Foto: Emily Almeida / Agência O Globo

Marina diz perceber desafios à inserção profissional dos negros num país onde 63,7% dessas pessoas estão desempregadas e 66,7% atuam como ambulantes. Para não fazer parte desta estatística, a dentista busca aperfeiçoamento profissional com frequência, algo que seus pais sempre lhe ensinaram. “O ensino médio completo não ia adiantar nada. A faculdade também não. A gente sempre precisa buscar algo a mais para ter uma colocação no mercado e conseguir sobreviver dentro dessas adversidades.” De acordo com ela, os clãs familiares que existem na odontologia tornam o mercado ainda mais restrito. Por essa razão, escolheu atuar no funcionalismo público, onde, em geral, a escolha não passa por critérios pessoais.

Diferentemente de muitos cotistas, que precisaram trancar a faculdade por falta de auxílio financeiro, ela encontrou na família a ajuda necessária para se manter na graduação. “Tive suporte financeiro e emocional para mostrar que era possível. Com muito esforço e abdicação deles também. Deixaram de fazer várias coisas para permitir que a gente estudasse. E, hoje em dia, graças a Deus, me considero uma pessoa estabilizada na profissão.” Seja na universidade, seja no mercado de trabalho, resistir é uma palavra que ela considera apropriada para definir a experiência do negro no Brasil.

“Você está na contramão de tudo. Precisa ter força para ultrapassar todas as barreiras que te colocam e, ainda assim, é pisado por ser negro.” A necessidade de empreender grandes esforços para driblar obstáculos pôde ser observada com frequência na fala da primeira geração de cotistas. Ora é preciso estudar até nas horas de lazer para preencher lacunas educacionais, ora tem-se de lidar com a hostilidade de colegas e professores. De acordo com a socióloga Vânia Penha-Lopes, professora da Bloomfield College e membro do seminário para assuntos brasileiros da Universidade Columbia, essa realidade não é restrita a algumas pessoas.

“Nós vivemos em uma sociedade racista. Para o negro ser considerado bom, ele tem de ser excelente, porque se ele for bom, será visto pelas pessoas como medíocre. Em 2006, participei de um encontro de mulheres afro-latinas de muitos países e todas ouvimos o mesmo discurso dos pais: “Você tem de ser a melhor, senão ninguém vai te levar a sério”. De acordo com a pesquisadora, essa lógica pode trazer prejuízos psicológicos na medida em que o esforço empreendido muitas vezes esbarra nos limites impostos pelo racismo. “De um lado está o indivíduo se esforçando, de outro está a sociedade dizendo que ele é uma porcaria. Então a pessoa tem de ter o apoio muito grande da família e dos amigos para não pirar.”

Penha-Lopes explicou que toda essa dedicação de negras e negros para obter ensino formal se justifica porque eles enxergam no diploma um caminho em direção ao progresso financeiro. “Para quem veio da escravatura, a educação era o único meio. As escolas públicas do sul dos Estados Unidos foram fundadas por ex-escravos, porque os libertos viam a educação como uma forma de ascensão. Imagina o esforço de pessoas iletradas para construir escolas, para contratar professores.” Apesar disso, ela destacou que muitos fazendeiros retiravam crianças das carteiras escolares para que elas ocupassem lugar na colheita de algodão. “Era um esforço muito grande, mas era a única maneira, porque o governo não deu nada a ninguém.”

Para a advogada Clarissa França, mais que uma forma de ascender socialmente, a educação foi também um instrumento de sobrevivência. Filha de médicos, ela cresceu em um mundo de escolas particulares, onde destoava em uma paisagem pouco diversa. “Minha infância foi perpassada pelo racismo. Você é sempre o feio, sempre aquele que está fora do padrão. Como pessoa, você vai traçando suas estratégias para sobreviver. A minha estratégia foi estudar. Sempre fui uma das melhores alunas porque essa era a minha estratégia de destaque já que eu era o diferente. Eu não me via entre iguais.” Em 2003, ao entrar na faculdade de Direito da Uerj, França passou a ver outro cenário. Naquele ano, começou a estar com pessoas que, como ela, tinham a pele preta e o cabelo crespo. Naquele ano, afirmou, começou a se enxergar como negra.

“”NÓS VIVEMOS EM UMA SOCIEDADE RACISTA. PARA O NEGRO SER CONSIDERADO BOM, ELE TEM DE SER EXCELENTE, PORQUE SE ELE FOR BOM, SERÁ VISTO PELAS PESSOAS COMO MEDÍOCRE.” ”

VÂNIA PENHA-LOPES, PROFESSORA DA BLOOMFIELD COLLEGE

Desigualdade racial no Brasil

Durante a graduação, França fez parte do primeiro coletivo de alunos cotistas da Uerj. O grupo se organizou para pleitear melhorias na infraestrutura universitária, que estava longe de conseguir suprir a demanda do novo público. De acordo com a advogada, não havia alojamento para aqueles que moravam em outro município, bandejão para quem não conseguia pagar pela comida, nem mesmo bibliotecas que emprestassem livro. Após meses sem bolsa-auxílio, os alunos em vulnerabilidade social receberam uma ajuda financeira insuficiente para quem fazia uso de múltiplos meios de transporte. “As cotas foram impostas, mas não houve uma lei para implementar a política de assistência. As cotas foram estabelecidas, mas ninguém pensou na permanência.”

RESISTENCIA INTERNA

Em 28 de dezembro de 2000, o então o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, sancionou a lei 3.524 reservando 50% das vagas das universidades estaduais para todos aqueles que tivessem cursado o ensino médio e fundamental na rede pública. Em 9 de novembro do ano seguinte, foi a vez da lei 3.708 ser aprovada, determinando que 40% das vagas deveriam ser ocupadas por alunos negros e pardos. A Uerj foi pega de surpresa pelas decisões e não teve qualquer papel na formulação de ambas as medidas, cabendo a ela apenas executá-las. “Nós não estávamos prevenidos, avisados pelo governador sobre essa propositura. E, na verdade, o projeto de lei que ele encaminhou para a Assembleia Legislativa era curto e sem nenhum tipo de explicação”, lembrou Nilcea Freire, reitora da instituição durante o período.

Essa ausência de detalhes explica em parte por que alunos e professores não viram as determinações com bons olhos. Em 2002, uma pesquisa realizada pela instituição mostrou que as cotas raciais eram reprovadas por 57,4% dos alunos e por 39,5% dos professores. No caso das vagas destinadas a estudantes de escolas públicas, a reprovação aumentava, chegando a 65,7% para alunos e a 50,6% para professores. À época, muitas eram as dúvidas. Como a universidade deveria implementar a medida? Haveria bolsa-auxílio para estudantes em vulnerabilidade social? Os alunos vindos de escolas públicas teriam alguma ajuda para driblar eventuais defasagens educacionais? Em meio a tantas perguntas e nenhum diálogo, o incômodo com o governo estadual foi inevitável.

“Existiu ressentimento pela ausência de discussão com a universidade, que tem a sua autonomia. Foi um processo que não primou pela discussão democrática”, definiu a ex-reitora. Além de questões de ordem prática, havia o temor de que as cotas pudessem precipitar uma guerra racial entre brancos e negros. Tida como elitizada, a faculdade de medicina gerava especial apreensão. Para saber se haveria algum conflito, Freire decidiu assistir à recepção dos calouros da faculdade e o que viu não poderia ser mais diferente do esperado.

“Quando os estudantes chegaram ao auditório principal, percebia-se claramente quem eram os cotistas e os não cotistas não pela cor da pele, não por qualquer outro elemento que não fosse o brilho nos olhos deles. Aquela cara de ‘eu conquistei este lugar’. Enquanto os alunos de classe média estavam de bermuda, com uma postura de ‘este lugar já estava destinado a mim’, os cotistas estavam ali orgulhosos. Eles colocaram as melhores roupas que tinham. Havia uma postura muito respeitosa em relação à universidade.” Freire comentou ainda que a implantação das cotas descortinou de uma só vez a baixíssima presença de universitários negros e o reduzido número de docentes que não fossem brancos. “Parei um dia e consegui contar em duas mãos quantos professores negros conhecia na universidade.” Em 2003, havia 1.970 docentes na Uerj.

Embora não tenha ocorrido uma guerra racial, França percebeu uma nítida cisão entre cotistas e não cotistas. Era possível notar visualmente a divisão, com cotistas sentados em um lado da sala e não cotistas em outro. Havia inclusive uma espécie de porta-voz de cada um dos segmentos para representá-los durante os acalorados debates que aconteciam em sala de aula. Mas lidar com os professores poderia ser ainda mais desafiador. Para ela, os docentes tinham uma expectativa sobre os alunos da instituição que já não correspondia à realidade. “Eles partiam de uma ideia de que aluno Uerj tinha de terminar o curso em cinco anos, não trabalhava e não fazia algumas coisas que, para esse novo público, não era o que acontecia, e a universidade não tinha sensibilidade para entender isso.”

Um episódio em especial a marcou. A advogada tinha aula com um professor cujo escritório oferecia a determinados alunos estágios remunerados, mas dentre os escolhidos a ausência de negros saltava aos olhos. França e outros cotistas decidiram então questionar a postura do docente. “Mas é que, em meu escritório, só entra gente que tem média acima de 9.5.”, ele justificou. “Existem três negros com média acima de 9.5 falando com o senhor.” A resposta não deixou alternativa. Ainda que contrariado, ele contratou um dos alunos. Se na sala de aula a relação com os professores era delicada, nos corredores o contato com os seguranças gerava semelhante hostilidade.

Ao circular juntos, os alunos negros não raro eram seguidos por vigias enquanto estudantes brancos cutucavam uns aos outros como que para alertar sobre um perigo iminente. Aqueles que entraram pela reserva de vagas não escaparam nem mesmo da preocupação do reitor. Clarissa lembra que ela e alguns alunos negros foram chamados na reitoria só para ouvir que a chapa que formavam para concorrer ao diretório estudantil estava tirando a paz da universidade. Para explicar essas situações, a advogada especula que ver negros unidos é uma imagem que ainda gera apreensão e desconforto. “O racismo enfraquece. Se uma pessoa negra não se enxerga enquanto tal, não tem por que ela se unir aos seus. E essa tomada de consciência racial gera medo porque ela é capaz de promover mudanças estruturais.”

Fora dos muros da universidade o ambiente não era menos desafiador. Por ocasião dos Jogos Jurídicos, competição esportiva que reúne as principais faculdades de direito do estado, as torcidas da PUC-Rio e da UFRJ gritavam como demérito para os alunos da Uerj que na instituição havia apenas negros, que o reitor da universidade seria o sul-africano Nelson Mandela. “Foi algo muito agressivo e, como mulher negra, era muito importante estar com outros negros ali. Quando em grupo, a gente se blinda mais, a gente consegue se proteger”, comentou. Em junho de 2017, os Jogos Jurídicos voltaram a ser palco de episódios de racismo, quando torcedores da PUC-Rio imitaram macacos para ofender estudantes negros da Uerj.

Apesar do clima de tensão dentro e fora da universidade, França não esconde o orgulho de ter feito parte da primeira geração de cotistas. Para ela, que atualmente é diretora jurídica e administrativa de uma empresa, a universidade representa a reconexão com suas raízes. “A Uerj foi o lugar em que me descobri enquanto uma pessoa com uma história, que pertence a um grupo, que merece estar naquele espaço. Estar na Uerj e ser uma cotista mudou minha vida.” Quando fala sobre os estudos, a advogada faz lembrar aquela menina aplicada que costumava ser a primeira da classe. “O que sou hoje é graças à educação. Se minha mãe e meu pai tinham alguma condição, era para a gente estudar. Não somos herdeiros de nada. Não temos indicação nem nome. A educação é tudo.

 

Fonte: https://epoca.globo.com/primeiros-cotistas-da-uerj-refletem-sucesso-do-programa-15-anos-depois-23595995

UFMG veta a matrículas de 346 candidatos que se autodeclararam negros

Raul Mariano

Mais de um terço dos candidatos autodeclarados negros e aprovados no primeiro semestre da UFMG foram barrados pela banca de heteroidentificação racial, grupo que analisa as características físicas dos cotistas. Ao todo, dos 885 que tiveram aspectos como cor de pele e textura do cabelo analisadas, 346 não conseguiram o aval para ingressar na universidade por meio do benefício. Os números englobam alunos de BH e Montes Claros, no Norte de Minas.

É a primeira vez que uma junta formada por professores, funcionários e alunos da Federal avaliam objetivamente critérios fenotípicos de postulantes às vagas reservadas. Os reprovados podem entrar com recurso. Nesse caso, uma segunda equipe faz a reavaliação que prevalece e é definitiva.

O grupo que verifica os estudantes é formado por pessoas ligadas aos debates raciais. Todas passam por treinamento específico antes da realização da banca, diz o professor Rodrigo Ednilson, presidente da Comissão Permanente de Ações Afirmativas e Inclusão da UFMG. “Nos baseamos em um conjunto de fatores e não em uma tabela cromática. É uma abordagem social para verificar se aquele candidato, no cotidiano, é ‘lido’ como um negro”, explica.

personagem cota racial ufmg

“É algo com o qual não estávamos acostumados, mas com certeza veio em boa hora”, diz Isadora Pacífico de Souza

Merecedores

A proposta da nova etapa para admissão de universitários é garantir que as reservas sejam ocupadas por alunos merecedores das vagas, evitando que episódios de fraudes se repitam. Em setembro de 2017, graduandos brancos que tinham ingressado na universidade por meio de cotas geraram polêmica em todo o país.

No ano passado, vários casos semelhantes vieram à tona e um dossiê com outras suspeitas de burlar o sistema chegou a ser entregue à reitoria. Até o momento, ninguém foi punido. “As denúncias estão em sindicância ou processo administrativo, em fase de finalização”, comentou Ednilson.

Para calouros que foram aprovados na banca de heteroidentificação e iniciam, hoje, a jornada acadêmica, a única certeza é de que o procedimento torna o preenchimento das vagas mais justo. “É algo com o qual não estávamos acostumados, mas com certeza veio em boa hora”, avalia Isadora Pacífico de Souza, de 23 anos, aluna do curso de ciências do estado na UFMG.

Também é esse o pensamento de Raquel Zeferino da Silva, de 19, da mesma turma. “Muitos colegas estranharam inicialmente, mas todo mundo concorda ser mais um excelente recurso para garantir que o propósito das cotas seja cumprido”, opina.

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“Muitos colegas estranharam inicialmente, mas todo mundo concorda ser mais um recurso para garantir que o propósito das cotas seja cumprido”, conta Raquel Zeferino da Silva

Benefícios

Professora de direito constitucional da PUC Minas, Nádia de Castro Alves garante que o trabalho realizado pela banca trará ganhos não apenas para os alunos, mas para toda a sociedade. “Os resultados positivos das ações afirmativas já são importantes no curto prazo”, afirma. “E a ideia é que, no futuro, elas não sejam mais necessárias”, acrescenta a docente, que também leciona direitos humanos.

Para o presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Alexandre Braga, que também é membro da Comissão de Heteroidentificação Racial da UFMG, os avanços já são nítidos. “O número de reprovados chama a atenção, mas pelo menos o perfil do fraudador típico (um branco que tenta o benefício) não foi visto nas bancas”, relata.

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Racismo na UFSCAR

Polícia foi acionada e investigará o caso. Estudante de engenharia florestal e integrante do centro acadêmico, a vítima está assustada, segundo colegas

José Maria Tomaz
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Uma aluna negra de 22 anos foi alvo de mensagens racistas gravadas nas portas de banheiros femininos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, interior de São Paulo. Ao lado de duas suásticas, símbolo do nazismo, foram grafados o nome da estudante e os termos “preta imunda” e “vai morrer”.

Foto: Divulgação

Estudantes que se depararam com o ataque, nesta quarta-feira, 7, comunicaram o fato à direção da escola. A universidade levou o caso à Polícia Civil, que já abriu uma investigação.

Peritos foram à universidade e colheram amostras da tinta usada pelo autor da mensagem. Os prédios não são monitorados por câmeras, mas imagens de outros pontos serão analisadas. Conforme a Polícia Civil, serão investigados possíveis crimes de dano ao patrimônio, injúria e ameaça.

A estudante é aluna do segundo ano do curso de engenharia florestal da universidade. Conforme informações de colegas, ela integra o centro acadêmico, participa de movimentos estudantis e se valeu do sistema de cotas para ingressar no curso. Segundo eles, a estudante está assustada com as intimidações.

A UFSCar informou em nota que repudia qualquer forma de discriminação ou violência e tomará as medidas cabíveis diante do fato. “A UFSCar defende, com veemência, a democracia, a tolerância e o convívio harmonioso entre pessoas com culturas, ideologias ou crenças diferentes.”

A nota faz referência a recentes episódios de intolerância, envolvendo cartazes e bilhetes com ameaças, postagens agressivas, notícias falsas e discriminatórias envolvendo a universidade, que seriam “reflexos” do que ocorre na sociedade, “evidenciando dificuldade para um convívio harmonioso entre pessoas com visões de mundo distintas”.

 

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/policia/aluna-negra-e-alvo-de-pichacoes-racistas-em-banheiro-da-ufscar,969d0c397aae12f8a14cba57449c43b75e7y1aro.html

Protesto contra o racismo na Universidade do Mackenzie

download30.out.2018 às 15h09

Fernanda Canofre

SÃO PAULO

Na manhã desta terça-feira (30), centenas de estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, protestaram em repúdio às falas de um aluno da instituição que aparece em vídeos ameaçando matar “negraiada” e “vagabundo com camiseta vermelha”.

Segundo um aluno do 9º semestre, que pediu para não ser identificado, o ato não pretendia “fazer justiça com as próprias mãos” ou transformar a vida do aluno “em um inferno”, mas sim cobrar uma posição da universidade.

“O protesto foi apartidário, pessoas de direita e esquerda estavam lá. Ele serviu para dizer que tem negros no Mackenzie, que essas vidas importam, que a gente não pode criar um ambiente acadêmico onde a pessoa se sinta confortável para fazer um vídeo ameaçando de morte minorias”, explica ele.

Os vídeos que geraram a reação foram postados no perfil pessoal do próprio estudante, que está no 10º semestre do curso de Direito. Na segunda-feira (29), eles começaram a circular entre outros alunos e ganharam repercussão nacional. O jovem foi identificado pelos colegas.

Em um deles, ele aparece dentro de um carro, vestindo uma camiseta com a foto do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e diz que vai “estar armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vagabundo com camiseta vermelha para matar logo”. Ele segue dizendo que “essa negraiada, vai morrer” e grita “é capitão, caralho”. No segundo vídeo, o estudante segura um revólver e canta “capitão, levanta-te”.

Integrante do Coletivo Negro Mack, que reúne estudantes negros do Mackenzie, Lucas, 23, aluno do 7º semestre de direito, conta que alguns alunos negros faltaram a aulas desde a divulgação dos vídeos por medo.

“É uma coisa que a gente está vendo crescer no país. A eleição do Bolsonaro legitimou esse discurso, como se não tivesse mais barreiras, nem ética, nem moral, só uma desumanização e um ódio muito grandes. A gente tem que mostrar que isso tem que ser combatido”, diz.

Em nota enviada à Folha, o reitor da universidade, Benedito Aguiar Neto, afirma que as opiniões e atitudes expressas no discurso do aluno “são veementemente repudiadas” pela instituição.

Ele diz ainda que foi instaurado um processo disciplinar “aplicando preventivamente a suspensão” do aluno e aberta “sindicância para apuração e aplicação das sanções cabíveis, conforme dispõe o Código de Decoro Acadêmico da Universidade”.

 

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Protesto contra racismo no Mackenzie /Coletivo Afro

O ato desta terça iniciou por volta das 8h e se dissipou perto das 10h. Convocado de forma espontânea por alunos da Faculdade de Direito, também reuniu alunos dos cursos de Engenharia, Comunicação Social e Arquitetura. Um segundo protesto está marcado para às 19h desta terça.

Nas eleições deste ano, o Diretório Central de Estudantes (DCE) e o Centro Acadêmico João Mendes Jr., da Faculdade de Direito, haviam se manifestado oficialmente contra a candidatura de Jair Bolsonaro e a favor de Fernando Haddad (PT). O Mackenzie, porém, se manteve neutro.

Em um texto postado nas redes sociais, o Centro Acadêmico diz que a posição é “um mea culpa” para reparar o apoio de alunos à ditadura militar em 1968. No dia 3 de outubro daquele ano, estudantes do Mackenzie entraram em confronto com alunos da Universidade de São Paulo, contrários ao regime, no episódio que ficou conhecido como“batalha da Maria Antônia”.

Um estudante secundarista, José Guimarães, 20 anos, quatro pessoas foram baleadas e dezenas ficaram feridas. O episódio também serviu como justificativa para a implementação do Ato Institucional Nº 5.

Veja a nota na íntegra:

A Universidade Presbiteriana Mackenzie tomou conhecimento de vídeos produzidos por um discente, fora do ambiente da Universidade, e divulgados nas redes sociais, onde ele faz discurso incitando a violência, com ameaças, e manifestação racista.

Tais opiniões e atitudes são veementemente repudiadas por nossa Instituição que, de imediato, instaurou processo disciplinar, aplicando preventivamente a suspensão do discente das atividades acadêmicas. Iniciou, paralelamente, sindicância para apuração e aplicação das sanções cabíveis, conforme dispõe o Código de Decoro Acadêmico da Universidade.

Benedito G. Aguiar Neto
Reitor

fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/10/alunos-protestam-e-mackenzie-suspende-estudante-que-falou-em-negraiada.shtml?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=noticias

Universidade Agostinho Neto em Angola pode vir a cobrar mensalidades.

A Universidade Agostinho Neto (UAN) vai apresentar à Assembleia Nacional uma proposta para regular a cobrança de propinas aos estudantes das unidades orgânicas como forma de garantir melhor qualidade ao ensino e à gestão, anunciou ontem, em Luanda, o vice-reitor da universidade pública para a Área de Gestão, Pepe de Gove.

Deputados da comissão de especialidade reuniram ontem com os responsáveis da UAN
Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

O académico, que apresentou a proposta durante um encontro com os deputados da VI Comissão de trabalhos da Assembleia Nacional, garantiu que a UAN tem já elaborada a proposta para apresentar ao Parlamento.
“Não há nenhuma legislação que diz que o ensino superior é gratuito. Falta vontade política para inverter o quadro” , disse o académico, acrescentando que a UAN não pode continuar a depender do Orçamento Geral do Estado. Pepe de Gove lembrou que não há no mundo ensino superior gratuito. O docente universitário afirmou que em universidades modernas o orçamento é feito à base do custo do estudante.
O vice-reitor da UAN para Área  de Gestão falou das várias dificuldades vivida pela instituição e destacou que a conclusão das obras no Campus Universitário está atrasada devido a dívidas com empreiteiros.
Pepe de Gove pediu a intervenção dos deputados para ultrapassar os vários problemas sentidos na Universidade Agostinho Neto.
O reitor da UAN, Pedro Magalhães, reforçou, na ocasião, que a Lei de Base do Ensino Superior estabelece que a gratuidade de ensino vai até à nona classe, mas não regulamenta como se pode praticar a questão das propinas no Ensino Superior. “Seria bom que isso estivesse estabelecido para termos um suporte legal”, disse.

Novos docentes
A UAN quer urgência na admissão e promoção dos docentes. Segundo informações dada aos parlamentares, o processo para a admissão de docentes encontra-se, há mais de oito meses, no Tribunal de Contas sem resposta.
Os docentes pediram um concurso especial para Universidade Agostinho Neto que carece de docentes em todas unidades orgânicas.  A universidade remeteu ao Executivo a proposta de um total de 827/ano. O reitor falou de problemas relacionados com os cursos de licenciaturas, bacharelatos e pós-graduação, que contam com escassez de recursos humanos, que, na sua opinião, está a afectar a qualidade dos serviços prestados à população.
“Há faculdades que se encontram numa situação mais difícil em termos de recursos humanos, há aquelas que já funcionaram há dois ou três anos e, neste momento, estão com uma grande escassez de recursos humanos”, afirmou o reitor.
A UAN tem actualmente um total de sete faculdades e conta com 27.824 estudantes, divididos em estudantes de graduação, num total de 80 por cento, e 1.833 estudantes de pós-graduação. A universidade conta com um total de 53 cursos, dos quais 45 de licenciatura e oito de pós-graduação.
Pedro Magalhães disse que, dos projectos que a universidade, tem, num total de 155, grande parte deles definidos 2016, estão condicionados devido à falta de recursos financeiros.
A vice-reitora para Área de Investigação Científica e Pós-Graduação, Maria Antonieta Baptista, adiantou que a UAN, devido à falta de laboratórios, tem como estratégia estimular parcerias com instituições do Ensino Superior, públicas e privadas.

Posição dos deputados
O presidente da Comissão de Saúde, Educação, Ensino Superior, Ciência e Tecnologia da Assembleia Nacional, Manuel da Cruz Neto, reconheceu as dificuldades da universidade e, por isso, os trabalhos universitários ficam “altamente comprometidos”. Quanto ao pagamento de propinas, o parlamentar concorda que nenhuma legislação proíbe a cobrança de propinas. “É preciso começar por aí. Nada nos impede de assumir-mos um compromisso de melhoria do ensino”, disse.

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/universidade_publica__pode_cobrar_propinas

Brasil oferece 158 Bolsas de Mestrado e Doutorado para professores moçambicanos

Cento e cinquenta e oito professores moçambicanos poderão beneficiar de bolsas de estudo no Brasil, para frequentar cursos de mestrado e pós-graduação.

África 21 Digital


As bolsas são atribuídas no âmbito da ProAfri 2018, numa iniciativa levada a cabo pelo grupo Coimbra, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional, com apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Neste ano inaugural, o Proafi vai disponibilizar 158 bolsas de estudo, em 29 universidades brasileiras, sendo 117 de mestrado e 41 de doutorado, em todas as áreas do conhecimento.

Segundo o representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional, Octávio de Jesus, Moçambique conta, atualmente, com mais de cinco mil professores em tempo integral nas universidades públicas, dos quais 58% são licenciados e apenas 541 são doutores.

Fonte:

https://africa21digital.com/2018/06/06/universidades-brasileiras-vao-receber-professores-mocambicanos/

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”
25-03-2018 | Fonte: DW
O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) está a atravessar mais uma fase crítica da sua história, marcada por um complexo período de transição, após as últimas eleições gerais de 2017. A direção do partido no poder confronta-se com a questão da bicefalia na sua liderança, sendo clara a disputa entre o ex-Presidente José Eduardo dos Santos e o atual chefe de Estado, João Lourenço.

O historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, professor convidado da Universidade de Howard, nos Estados Unidos, afirma que nas atuais condições do país este é um problema “muito delicado”. “Tudo dependerá como o MPLA vai gerir a crise”, diz, em entrevista à DW, no dia em que apresentou em Lisboa, Portugal, a versão mais aprofundada do seu livro “Guerrilhas e Lutas Sociais – O MPLA perante Si Próprio (1960-1977)”.
O livro de Jean-Michel Mabeko Tali, apresentado esta sexta-feira (23.03) na Fundação Cidade de Lisboa pelo professor Alberto Oliveira Pinto, é uma nova edição da obra lançada em 2001, que tinha como título “Descendência e Poder do Estado – O MPLA Perante si Próprio”.
A atual versão, mais alargada, reúne novos elementos de análise sobre o contexto político angolano desde a luta armada até a data de realização do congresso do MPLA, em dezembro de 1977.hist
“Tentei trabalhar, sobretudo, sobre o discurso político da elite angolana, a importância desse discurso, bem como sobre todas as jogadas à volta da questão das datas da fundação dos movimentos de libertação e porque é que há tanta polémica à volta disso”, explica o autor, que procurou ir para além da simples cronologia dos factos.
Uma questão de “legitimação”
Na obra, lançada sob a chancela da editora Mercado de Letras, o historiador nascido na República do Congo Brazaville “enfatiza a questão da legitimação de cada um dos atores nesse processo (…) para se poder valorizar nesse mercado político angolano”, procurando legitimar-se a si próprio como grupo. Este é um dos aspetos do debate acalorado sobre a fundação dos movimentos de libertação e que acabou por marcar a vida política em Angola, destacando-se o papel chave da elite que dirige o país desde a independência a 11 de novembro de 1975.
Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, é uma figura de destaque nesse processo, que a dada altura tomou as rédeas do movimento de libertação e marcou com a sua personalidade o seu percurso. Mas, antes dele, lembra Jean-Michel Tali, “temos todo o processo que levou ao surgimento do MPLA”, com figuras também relevantes, como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, entre outros, no “grupo que realmente lançou o movimento”.
No livro, o historiador amigo de Paulo Lara – filho de Lúcio Lara – trata de rever os grandes acontecimentos que marcaram o período da sua investigação, entre os anos 60 e 70. E ressalta os acontecimentos que levaram ao 27 de maio de 1977, “evento que, de certa maneira, mudou a vida política em Angola, de forma terrível”. O académico congolês da geração dos anos de 70, que leciona sobre História Política na Universidade Howard, acha que até hoje ainda se vive as consequências desse período conturbado da História do país.
Tentativa de tomada do poder
Os massacres, as torturas, as prisões e perseguições ou as purgas são temas fraturantes da sociedade angolana, que eram e ainda são tratados como tabu. “Voltei ao tema porque no momento em que comecei a trabalhar sobre esta temática ninguém queria falar”, explica.
“Hoje as memórias se abrem, as pessoas falam um pouco mais, há algumas publicações sobre isso”, adianta. Foi assim que buscou, por exemplo, os arquivos soviéticos, cuja documentação permite entender a extensão e a complexidade da relação do Estado angolano com a União Soviética, mas também, voltando atrás, da relação do MPLA com os soviéticos.
Sobre a alegada tentativa falhada de golpe de Estado ou não, ou sobre a ação do movimento fracionista nitista dentro do MPLA, tem havido muita discussão, reconhece o historiador: “Tento relançar o debate”.
Na sua leitura dos factos, defende que se tratou, sem dúvidas, de “uma tentativa de tomada de poder mal organizada, um pouco caótica e improvisada, mas com consequências gravíssimas”. Sobretudo porque levou ao desaparecimento, não só físico, de uma geração política. “Depois, o partido tentou recuperar alguns deles, mas isto foi uma tragédia que ainda está latente; vive-se ainda hoje”, avalia. Ainda sobre aquele período da história angolana, o investigador concorda, de certa maneira, com aqueles que afirmam que o 27 de maio “foi um grande ajuste de contas” político.
Conflitos internos
A história do MPLA, desde o início da luta armada de libertação, é marcada por conflitos internos. “Esses conflitos internos justificam os vários assassinatos que houve desde os anos 60, quer nas cidades quer nas matas”, explica o académico. No livro, ele tenta explicar também numa longa análise por que razão o movimento não conseguiu sanar tais conflitos internos.
O 1º congresso do MPLA, em dezembro de 1977, acontece numa situação quase que de emergência, depois da violência que rodeou os acontecimentos do 27 de maio.  Mas, o resultado do referido evento não foi o que se esperava. “O próprio [Agostinho] Neto não estava contente com o resultado, dada a situação do movimento, do partido-Estado, que tinha que gerir uma crise interna”, diz Jean-Michel Tali.
Naquela época, Angola havia optado por seguir a via socialista. A surpresa, segundo o autor congolês, é que os soviéticos não terão influenciado esta decisão, tanto é que, para os serviços secretos (KGB), Agostinho Neto era visto como uma ovelha ranhosa, teimosa, mas necessária. “Não foram os soviéticos que disseram a Neto para optar pela via socialista. Ao contrário do que se pensava antes, hoje os documentos provam que os soviéticos estavam com um pé atrás”, revela.
Dessacralizar o relato histórico
Na conversa com a DW, o investigador exorta o partido no poder em Angola a reconciliar-se com a sua própria história, deixando de fazer dela um tabu. “As feridas ainda são muito recentes, mas, de certa maneira, é preciso dessacralizar o relato da gesta nacionalista de forma a deixar as pessoas se expressarem”, apela o académico que integra uma comissão científica da UNESCO encarregue pela produção da história contemporânea de África.
“Lembro que quando comecei o inquérito havia quem não queria falar porque tinha medo de responder as perguntas. Isso resultava de ressentimentos antigos dos que vinham da guerrilha, que achavam que estavam a ser discriminados”, explica.
No entanto, o diferendo ainda não foi sanado. Jean-Michel Mabeko Tali recorda, por exemplo, a velha disputa entre a FNLA e o MPLA sobre a verdadeira data do início da luta armada: a 4 de fevereiro de 1961 ou a 15 de março do mesmo ano. O historiador critica, por outro lado, a geografia de escolha ou definição do mártir, que não pode ser apenas de um dos movimentos que lutaram pela independência de Angola.
Contra a discriminação, dá outro exemplo: “ando à procura de uma Rua Viriato da Cruz e não encontro”. Lamenta ser este mais um problema, porque “ele foi um dos membros fundadores do MPLA, uma figura chave e incontornável” na história de Angola. E diz mais. “É difícil para um professor dar aulas sobre aquele período sabendo do papel de Viriato da Cruz e não falar disso porque tem medo. Reconciliação também é isso”.
Por isso, adverte, “a reconciliação nunca será completa se não dermos valor àquilo que os outros fizeram”. Para Jean-Michel Tali, o relato histórico tem de deixar de ser uma espécie de tabu, para que a nova geração possa perceber e saber o que se passou. “Se não se fizer isso, na minha opinião, vai ser difícil ir mais além”.
O historiador concorda com uma frase do nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade, quando afirmou que “ninguém pode negar a história, mas tem de se falar com realismo”.

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições.

A utopia africana de Felwine Sarr

mídiaFelwine Sarr.© Antoine Tempé

Felwine Sarr é um intelectual africano. Economista agregado, ele ensina na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis no Senegal. Em seu último livro Afrotopia (Editions Philippe Rey), ele sonha com uma amante da África que leve a ”  humanidade para outro nível  “.

”  Responder a um pensamento sobre o continente africano é uma tarefa difícil , escreve Felwine Sarr , tão tenaz, clichês, clichês e pseudo-certezas que, como um halo de neblina, escondem sua realidade  “. Sua abordagem é, portanto, desconstruir a visão da África; uma visão livre, em particular, das idéias ocidentais para alcançar a “Afrotopia”, essa ”  utopia ativa, que se propõe a descobrir no espaço real africano os vastos espaços dos possíveis e impregná-los  “.

desenvolvimento

Esta desconstrução, “a  exigência da soberania intelectual absoluta  “, começa com o questionamento do conceito de desenvolvimento visto em Washington nos corredores do FMI ou do Banco Mundial.

Certamente, Felwine Sarr não questiona a necessidade de desenvolver o continente que é dele, mas a maneira de fazê-lo. A África deve encontrar o caminho que é próprio e não mais ser imposto um “modelo”. ”  É preciso uma crítica filosófica, moral e política da ideologia desenvolvimentista  ” , escreve o analista rigoroso que fala de um campo que ele conhece: o dos números, das estatísticas, curvas. Neste como nos outros, “a  utopia africana consiste em gerar outras formas de viver em conjunto  “.

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições. Os africanos de hoje parecem esquecê-los pouco a pouco, ansiosos para que possam desfrutar os frutos de uma certa forma de sociedade de outros lugares.
Esta é uma tendência perigosa para Felwine Sarr. ”  O homem africano contemporâneo está dividido entre uma tradição que ele não conhece mais e uma modernidade que caiu sobre ele como uma força de destruição e desumanização  ” , ele escreve pensando em colonização.

Modernidade africana

” Quais poderiam ser os contornos e os conteúdos desta modernidade africana, se quiser evitar tornar-se uma falsa contrafacção da Europa? “Pergunta o autor. Esta é a questão central do livro.

Ao longo das páginas, Felwine Sarr envolve uma reflexão filosófica que propõe, por exemplo, a existência de vários mundos. ”  Essa África que está e está acontecendo é multifacetada  “, diz ele. Deve basear seu futuro em sua autonomia cultural e em uma noção de tempo peculiar a si mesmo. E, segundo ele, a economia deve ser considerada com uma dimensão social em particular. Aqui também é uma questão de reconectar-se com a tradição. “Nas sociedades africanas tradicionais, a economia foi incluída em um sistema social maior. Ele certamente obedeceu às suas funções clássicas (subsistência, alocação de recursos, etc.), mas foi subordinado a objetivos sociais, culturais e civilizacionais  . Portanto, é necessário, diz o autor, “ ancorar as economias africanas em seu contexto cultural  “. E morar em sua casa.

A análise de Felwine Sarr é alimentada por estudos de grandes mentes do continente; o filósofo Mamoussé Diagne e seu trabalho sobre a tradição oral para entender o conteúdo do pensamento africano ou mesmo Abdoulaye Elimane Kane, que busca a “participação africana” no pensamento do ser humano.
É um apelo aos africanos para capturar uma imagem da África que é sua, e não a imagem que o Ocidente os envia.

” Para acelerar o fim de um mundo, para se livrar do Ocidente, é necessário ganhar a batalha da representação, por uma estratégia de subversão e insurreição, levando à elaboração de seu próprio discurso. de uma representação de si mesmo  “, escreve esse homem posado, cuja ambição intelectual é ótima. E nobre.

 

http://www.rfi.fr/culture/20160324-utopie-afrique-felwine-sarr-developpement-humanite-afrotopia-modernite-tradition

Felwine Sarr: Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios

Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios e definirem os termos em que as suas instituições e economia operam. O economista senegalês vem ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, falar de Afrotopia. Nem afropessimista, nem afroeufórico: Felwine Sarr é afro-realista.

Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora

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Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora ELISE DUVAL

No ano passado, o economista senegalês Felwine Sarr (n.1972) organizou os Ateliers de La Pensée, um espaço de reflexão em forma de workshops que juntou dezenas de pensadores em Dakar e Saint-Louis. Co-criados com o filósofo e referência do pensamento pós-colonial, o camaronês Achille Mbembe, os Ateliers foram um enorme sucesso e irão repetir-se este ano, em Novembro, conta ao PÚBLICO por telefone. “Nestes últimos anos houve um renascimento dos artistas africanos. Os africanos não estão muito envolvidos na produção do discurso sobre eles próprios, com os Ateliers a ideia era reunir intelectuais africanos e da diáspora e pensar o papel de África no mundo, como olhar para o futuro”, explica.

O economista, músico, teórico, chega a Portugal na próxima semana, dia 19 de Abril, para uma conferência sobre África, capitalismo e utopias no Teatro Maria Matos, em Lisboa, integrada no Ciclo Utopias. Reclama para África, à qual se refere como uma entidade continental, uma especificidade própria. Defende que é hora de os africanos fazerem uma auto-reflexão, pensarem nas suas soluções e tornarem-se menos vulneráveis às influências exteriores veiculadas em nome de um interesse que não é necessariamente o seu. “O comércio (deportação) transatlântico e o colonialismo foram sinónimos de extracção de riquezas e de ser humanos, de desestruturação das sociedades, de distorções institucionais, de violação cultural, de alienação e de inscrição das sociedades dominadas em trajectórias pouco virtuosas”, escreve no livro. Esta é a herança com a qual os países africanos têm de viver.

Professor na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis, e director do departamento de Civilizações, Religiões, Arte e Comunicação da mesma universidade, Felwine Sarr é autor de DAHIJ (2009), 105 Rue Carnot (2011), Médiations Africaines (2012) e Afrotopia (2016). É sobre este último livro que vem falar e foi sobre ele que se debruçou a entrevista de cerca de 40 minutos.

Para contextualizar, cite-se um excerto de Afrotopias: “África é um continente que tem uma superfície de 30 milhões de quilómetros quadrados, composto por 54 Estados. Cabem nela os Estados Unidos, a China, a Índia e uma parte da Europa Ocidental. Com uma população de cerca de mais de um bilhão de indivíduos, e uma taxa de crescimento demográfico de 2,6%, daqui a meio século será o continente mais povoado, com 2,2 bilhões de habitantes, representando um quarto da população mundial. (…) Desde 2000, o seu crescimento econômico é superior a 5%. Entre as mais altas taxas de crescimento do mundo de 2008 a 2013, os países africanos estão bem representados.” Escreve ainda: “As economias africanas descolariam, se funcionassem com os seus verdadeiros motores.”

Felwine Sarr também escreve, no livro, que a “Afrotopia é uma utopia activa que procura no real africano os diversos espaços do possível e os fecunda”. Não defende nem o afro-pessimismo (que olha para o continente como estando à deriva), nem o afro-euforismo (que olha para África como o futuro económico). Qual será o lugar de um afrotópico? “O realismo”, responde.

No livro fala do fato de África estar marcada pela representação feita a partir do exterior. Como é que essa imagem foi distorcida?
Isso acontece desde os tempos do colonialismo em que é o Ocidente a definir África. África agrega essas definições que são feitas e incorpora-as, mas na verdade tem uma longa história em que pode pensar a sociedade, a vida, a história, o seu presente e decidir que tipo de futuro quer. Temos que ser nós a definir que tipo de sociedade queremos.

E nesse sentido, o que é exactamente a luta pela representação de África?
É muito importante lutar pela representação justa de África. Se em África não se acredita que é possível melhorar, e tem que se ir para o Ocidente porque aqui não há futuro, então é porque a representação é muito má. Como as pessoas se vêem a elas mesmas através desta representação? Para construir o seu presente e o seu futuro têm que ter confiança em si próprias. Mas há um preconceito em relação a África, sempre vista através da lente do conflito, do que é negativo, e não da parte positiva da resiliência dos africanos, da riqueza da sua civilização, da sua criatividade na forma de resolver os problemas.

Passados mais de 50 anos sobre a descolonização da maior parte dos países africanos (ocorridas no início dos anos 1960, não sendo o caso das colónias portuguesas), o seu livro ainda debate a necessidade de descolonização em várias áreas, incluindo das mentalidades. O que é que correu mal neste processo?
A descolonização não é apenas territorial e não acaba com as independências dos países, é um processo. O mais importante é a descolonização intelectual, psicológica, do conhecimento. Foram feitos progressos nas universidades, alguns académicos estão a pensar em como descolonizar o conhecimento e as linguagens mas isto é algo que acontece a longo prazo e para o qual se tem de olhar cuidadosamente. São precisas novas relações, mais justas e respeitadoras.

(A maioria dos) países africanos são antigas colónias, e as relações económicas, políticas e culturais continuam a existir com os países ocidentais. As ideias e decisões políticas não são tão livres como deveriam ser: são definidas pelas Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional, por políticos e por grandes empresas que têm interesse em África. Não podemos dizer que as relações são justas e simétricas, não são, há muito trabalho para fazer. Se for a algum dos países africanos, as grandes companhias que exploram os recursos naturais são internacionais. E retiram esses recursos porque têm tecnologia que nós não temos, em todas as áreas, das telecomunicações às minas, ao petróleo. Os nossos governos, por sua vez, também são influenciados pelas políticas do Banco Mundial e do FMI, pelos políticos do Norte na forma de governarem as suas sociedades.

Fala da necessidade de os africanos adquirirem a sua autonomia e de recuperarem as suas esferas políticas. Como se consegue isto? 
As sociedades africanas têm conhecimento local em várias esferas, do social, ao psicológico, até à saúde e basearam grande parte da sua sabedoria neste tipo de conhecimento que pode ser ensinado ao mesmo nível do conhecimento ocidental, articulando-os. Na minha universidade temos exemplos disso com o departamento de Cultura Africana, Civilização e Línguas, o Departamento de História.

Também defende que o ensino deve ser feito em línguas locais e que se deve, no fundo, acabar com o domínio das línguas ocidentais. Como é que depois se asseguraria a circulação do pensamento num continente em que há tantas línguas nacionais?
Há duas mil línguas em África, mais ou menos. Pode-se trabalhar a um nível trans-regional. Mas se pensarmos, há línguas que são faladas em vários países. Podem-se escolher algumas línguas transnacionais, e trabalhar nelas. O número de línguas não é um problema, o problema é a vontade política: há muitos lugares no mundo em que é a política que decide investir na língua. Quando um africano cresce, aprende a falar numa língua nativa; quando vai para a escola, aprende noutra, é um choque.

Diz que os instrumentos para medir as performances económicas em Produto Interno Bruto (PIB coloca os países africanos em situação de desigualdade e de subalternidade. Como é que a economia informal que predomina em África pode ser incluída nesta equação? 
O problema da economia informal é que não é incluída nas estatísticas, e quando se mede o PIB perde-se esta grande parte da economia. Esta economia produz riqueza, outras formas de economia, e temos que olhá-la com outros olhos, tentando capturar indicadores que meçam este tipo. Alguns países estão a tentar ter estatísticas da economia informal, outros, como o asiático Butão encontram índices que incluem a medição do bem-estar.

Há críticas fortes no seu livro à ajuda internacional e à presença de organizações não-governamentais (ONG) em África. Em que é que são negativas?
As ajudas das ONG podem ser feitas com boa intenção, mas nem todas têm a preocupação de perceber quais as necessidades reais de África. Algumas têm ideias do que é Africa e agem de forma diferente daquela que foi acordada com os respectivos governos, seguem as suas agendas e não trazem grande coisa. São os governos que devem decidir o que é bom para eles e não as ONG’s internacionais, algumas muito poderosas. Por exemplo, no Ruanda o Governo define quais as áreas em que as ONG’s intervêm e todos os anos escrutinam-nas para saber se cumpriram o plano – se não o fizeram, saem do país. O mais importante é saber se as ONG’s são agentes de transformação. Se agirem de acordo com o interesse do país, podem ser úteis. As soluções têm que ser produzidas localmente, se não, o problema pode agravar-se. Não é preciso recusar a ajuda mas apenas organizá-la de forma a que seja útil.

Fonte:https://www.publico.pt/2017/04/16/sociedade/entrevista/felwine-sarr-na-luta-pela-representacao-de-africa-1768342

A relação entre o cinema africano e os processos de independência política

por Juliana Domingos de Lima

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Professor de história e teoria do cinema da UFBA falou ao ‘Nexo’ sobre as origens históricas e políticas dessas cinematografias   Chamada de “Decreto Laval” (em homenagem ao primeiro-ministro Pierre Laval), uma lei aprovada na França em 1934 só permitia filmagens em território colonial francês mediante uma autorização ministerial da metrópole.

 

Na prática, a determinação impossibilitava um africano de fazer cinema em seu continente, ao menos em colônias francófonas, como Guiné e Senegal. Por essas razões jurídicas, ou ainda por outras, políticas e materiais, o desenvolvimento dos cinemas africanos tem, em geral, relação direta com os processos de descolonização do continente, ocorridos sobretudo na segunda metade do século 20.

Marcelo Ribeiro, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), elaborou um mapa em que sinalizou as datas de independência de nações africanas. Seu objetivo era o de familiarizar seus alunos de “Cinema internacional: cinemas africanos”, disciplina que ministra, à geografia do continente, ao mesmo tempo em que pudessem visualizar a cronologia das independências e sua correspondência com a criação da tradição cinematográfica de cada país.

 

Ribeiro falou ao Nexo sobre a relação entre o cinema e a superação do colonialismo nesses países, por meio da construção de narrativas sobre si próprios. Menciona também, pontualmente, alguns diretores e filmes como ponto de partida para um mergulho histórico ou cinéfilo nesse universo.

Cinema e identidade na África independente Os projetos de desenvolvimento dos cinemas nacionais africanos se relacionam, principalmente no caso das colônias francesas e portuguesas, à “vontade de alguns Estados recém-independentes de se apropriarem do meio cinematográfico para a construção de uma identidade nacional, de discursos sobre essa identidade”, disse o professor.

 

Ribeiro explica que isso não ocorreu apenas em uma dimensão nacional, mas transnacional, envolvendo vários vetores de articulação. O pan-africanismo, um projeto de articulação política entre essas nações, contou portanto com a participação do cinema: a criação da Federação Pan-africana de Cineastas, na década de 1960, estava imbuída desse horizonte continental.

Entre os efeitos dessa correlação entre o cinema e o período pós-colonial estão preocupações temáticas que atravessam a produção de muitas nações africanas nesse período: a abordagem das lutas pela independência e o questionamento do colonialismo são recorrentes. Há ainda, de acordo com Ribeiro, um “olhar para dentro”: o interesse, o registro e a reinvenção de tradições africanas, de elementos culturais considerados autênticos e importantes para a reconstrução dessas nações após a independência. “Essa relação entre o cinema e as independências políticas não significa que ele tenha se desenvolvido plenamente, logo após a independência.

 

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O cinema é parte de uma luta pela construção desses projetos de identidade nacionais e transnacionais, em que há interesse pela ‘descolonização da mente’, conceito de [escritor queniano] Ngugi Wa Thiong’O”, disse Ribeiro. “O que a independência realiza em termos políticos formais, o cinema vai estar engajado em tentar produzir no contexto mental, das representações.” Fogem à regra Egito e África do Sul, antigas colônias britânicas, são exceções a essa relação entre o desenvolvimento de uma tradição cinematográfica e a descolonização.

No caso do primeiro, o surgimento dessa tradição é anterior à independência, que se concretizou totalmente em 1936. Já no segundo caso, o apartheid, regime sul-africano que segregou os grupos raciais do país e cerceou direitos de todos, com exceção da minoria branca entre 1948 e 1991, foi responsável por retardar a construção de um cinema independente. “[O apartheid] define a existência, na África do Sul já independente, de um cinema basicamente colonialista, ainda racista.

É só com o fim do apartheid que isso vai se transformar de uma maneira mais ampla”, disse Ribeiro. Diretores e filmes para se iniciar na pesquisa O CURTA “ÁFRICA SOBRE O SENA” (1955) Feito na França pelos senegaleses Paulin Vieyra e Mamadou Sarr, trata-se de um dos filmes considerados inaugurais do cinema africano. O curta documental foi produzido ainda sob o Decreto Laval, antes da independência senegalesa, em 1960. Trata do desenraizamento e da solidão dos africanos em Paris.

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A OBRA DO CINEASTA OUSMANE SEMBÈNE Sembène é um grande cineasta do Senegal e da África Ocidental. “Na obra, ele demonstra preocupação muito nítida, de maneira recorrente, com questões sociais e com a historia da colonização”, disse o professor. Ribeiro menciona um filme inicial da trajetória do cineasta, “A Garota Negra” (1966), que aborda a relação entre uma senegalesa e os patrões franceses para quem trabalha.

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Por meio desse enredo, trata e critica a situação colonial, em um momento quase imediatamente posterior à independência. “Xala” (1975), por sua vez, já apresenta uma crítica à elite africana que assume o controle do país logo após o fim da colonização francesa.

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O LONGA-METRAGEM “Ó, SOL” (1967) Dirigido pelo mauritano Med Hondo, aborda “de maneira frontal toda a herança do colonialismo e a luta pela descolonização”. Como em “A Garota Negra”, o enredo também se baseia na experiência de um cidadão da Mauritânia, ex-colônia da França, no país europeu. A OBRA DE FLORA GOMES A trajetória do cineasta pioneiro da Guiné-Bissau também se iniciou sob o signo da independência, embora seus  filmes mais conhecidos, como a comédia “Nha Fala” (2002), sejam posteriores. Seu primeiro longa, “Mortu Nega” (1988), narra a busca de uma mulher por seu marido, um membro da resistência, durante a guerra de independência do país.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/17/A-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-o-cinema-africano-e-os-processos-de-independ%C3%AAncia-pol%C3%ADtica