Gana aos 60 anos: Lembrar Kwame Nkrumah

O Gana celebra o sexagésimo aniversário da sua independência. Cidadãos recordam o primeiro Presidente ganês, Kwame Nkrumah.

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Neste 6 de março, dia em que o Gana comemora o sexagésimo aniversário da sua independência, recordar Kwame Nkrumah é incontornável: “Atualmente, o nome de Nkrumah está envolto em mistério e controvérsia”, diz Atsu Aryee, da Universidade do Gana.

No passado, era diferente. Quando o Gana conquistou a independência da Grã-Bretanha em 1957, os apoiantes de Nkrumah aclamaram-no em massa. “Finalmente chegou ao fim a batalha! O Gana, a nossa pátria amada, será, a partir de agora, livre para sempre”, afirmou Nkrumah na altura. Em resposta, a multidão gritava “viva!”

Nos primeiros anos depois da independência, o Governo de Kwame Nkrumah colocou em prática um programa económico ambicioso, com o objetivo de colocar o país, tradicionalmente rural, no mapa dos países industrializados. As barragens hidroelétricas construídas ao longo do rio Volta ainda hoje são vistas como marcos da engenharia africana e é nelas que o Gana continua a confiar para garantir a produção energética no país de 27 milhões de habitantes. Mas nem todos os projetos de Nkrumah resultaram. As grandes empresas geridas pelo Estado foram, na maior parte dos casos, mal sucedidas, acumulando enormes dívidas ao longo dos anos, sobretudo devido à má gestão e à corrupção.

Os ganeses conheceram então um outro lado de Kwame Nkrumah. O líder político tornou-se cada vez mais autoritário, tendência que culminou na transformação do Gana num Estado de partido único, em 1964, e na auto-proclamação de Nkrumah como Presidente eterno. Milhares de cidadãos viram-se obrigados a abandonar o país. Com a economia em queda livre, a popularidade de Nkrumah também decresceu. Um golpe militar colocou um ponto final na era Nkrumah, quando o Presidente se ausentou do país para uma visita de Estado à China, em 1966.

Ghana Kwame NkrumahKwame Nkrumah é lembrado como um herói da luta contra o colonialismo

Legado cada vez mais esquecido?

Hoje a imagem de Kwame Nkrumah é mais positiva: Os observadores dizem que o líder histórico contribuiu de maneira decisiva para que o Gana goze atualmente de uma certa estabilidade política.

“O legado mais importante de Nkrumah é o patriotismo e o nacionalismo que ele incutiu no povo enquanto esteve no poder”, diz o politólogo Atsu Aryee. “É esta noção de que somos todos ganeses, que temos um país e que é preciso manter a estabilidade.”

Mas, embora muitas crianças e jovens continuem a visitar o mausoléu de Kwame Nkrumah em Accra, poucas parecem compreender o seu legado: “Nkrumah ainda é um nome importante no Gana, pois conduziu o Gana à independência. Mas muitos jovens conhecem apenas o nome e já não conhecem as suas políticas enquanto Presidente e primeiro-ministro”, afirma Burkhardt Hellemann, chefe do escritório da fundação alemã Konrad Adenauer na capital do Gana, próxima ao partido no poder na Alemanha, a CDU.

“Ainda dá para ver que o nome de Nkrumah tem alguma influência, mas as suas políticas pouco ou nada influenciam os debates políticos deste país hoje em dia”, diz. O partido criado por Nkrumah em 1949, o Partido da Convenção do Povo (CPP, na sigla em inglês) desempenha hoje um papel menor na arena política ganesa.


Ainda assim, muitos na África subsaariana continuam a lembrar o legado de Nkrumah. Em 2004, a revista “New African” pediu aos leitores para elegerem os maiores líderes africanos de todos os tempos e Nkrumah ficou em segundo lugar, atrás do ex-Presidente sul-africano e líder da luta anti-apartheid Nelson Mandela.

Nkrumah defendia uma união pan-africana para contrabalançar a influência ocidental. Ele foi um dos fundadores da Organização da Unidade Africana, predecessora da União Africana (UA).

“Ainda se fala dos conceitos de Nkrumah nos corredores da UA”, conta o historiador nigeriano Toyin Falola.

Mas, apesar de a União ter hoje mais influência no continente, a concretização da ideia de Nkrumah de criar uns “Estados Unidos de África” está muito longe, sublinha Falola.

“Depois de Mbeki e Obasanjo saírem, não há líderes africanos dinâmicos que advoguem a ideia. Os países parecem interessar-se apenas nos seus assuntos, concentrando-se na sua política interna, preocupados com o declínio das suas economias. Portanto, a ideia do pan-africanismo foi tirada de cima da mesa.”

http://www.dw.com/pt-002/gana-aos-60-anos-lembrar-kwame-nkrumah/a-37819580

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30 mil concorrentes disputam mais de 5 mil vagas nas universidades de Moçambique

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Medicina, Contabilidade e Finanças, Direito, Administração Pública e Economia entre os cursos mais concorridos
Mais de 21 mil candidatos concorrem para cinco mil vagas na Universidade Eduardo Mondlane. Os exames de admissão vão decorrer a partir de amanhã em todo o país, segundo avançou Maida Khan, directora pedagógica da maior instituição de ensino superior no país.
 
Ao todo são 30 mil candidatos que vão ser submetidos a exames de admissão pela UEM, UNIZAMBEZE e UNILÚRIO, instituições de ensino superior públicas. A directora pedagógica revelou durante conferência de imprensa realizada Sexta-feira em Maputo que as províncias de Tete e Niassa são as que têm menor número de candidatos. De acordo com a directora pedagógica os cursos mais concorridos são: Medicina, Contabilidade e Finanças, Direito, Administração Pública e Economia.
 
“Vão decorrer de 9 a 13 de Janeiro de 2017 os exames de admissão à UEM, UNIZAMBEZE e UNILÚRIO. Destes cerca de 30 mil candidatos, 21 mil concorrem aos cursos da UEM. Este ano concorrem para 5265 vagas contra as 5065 de 2016. Este ano temos 200 vagas a mais do que no ano anterior”, explicou a directora pedagógica.
 
 
Tolerância zero à fraude
Ainda durante a conferência de imprensa a directora pedagógica mostrou-se preocupada com casos de fraudes. Neste contexto, Maida Khan disse que as autoridades académicas não vão tolerar quaisquer tipos de fraude. Para combater a ocorrência de fraudes, a nossa fonte revelou que serão montadas equipa de vigilância durante o período de exames.
 
“Os examinandos devem estar munidos com os documentos válidos, lápis, caneta de tinta azul ou preta. Não devem levar consigo objectos electrónicos, como telefones celulares, máquinas calculadoras e outros dispositivos cuja utilização não é permitida. Em caso de uso desses dispositivos haverá sanções como o previsto no edital”, alertou a directora pedagógica da UEM. Os exames vão iniciar às 08:00 horas para os que serão examinados no período da manhã e às 14:00 horas para os do período da tarde. Entretanto, as autoridades académicas alertam que os candidatos devem estar nos locais dos exames trinta minutos antes.
 

Estudante moçambicano encontrado morto no Rio Grande do NOrte, Brasil

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Maputo – Um moçambicano que estava a fazer mestrado numa universidade brasileira foi encontrado morto em Mossoró, uma cidade no oeste do Estado do Rio Grande do Norte, divulgou hoje, terça-feira, a imprensa brasileira, citado pela Lusa.
 
 
De acordo com o portal de notícias brasileiro G1, o corpo de Geraldo Monteiro Silvério, de 28 anos, foi encontrado na manhã de segunda-feira, num condomínio residencial no bairro Presidente Costa e Silva, na cidade de Mossoró.
 
A polícia civil do Rio Grande do Norte ainda aguarda o resultado oficial da perícia feita no corpo do moçambicano, para definir que rumos serão dados à investigação sobre a morte do estrangeiro.
 
Geraldo Monteiro Silvério, que estava há um ano na cidade, fazia mestrado na numa Universidade brasileira a UFERSA).
 
Segundo a própria instituição, Silvério estava a especializar-se em filotecnia – técnica de estudo das plantas.
 
“Encontrámos pedras com sangue. Contudo, ainda não conseguimos saber o que causou a morte dele. Sem esta informação, não podemos adiantar nada nem nos posicionar sobre o caso”, sublinhou o delegado Rafael Arraes, da Divisão de Homicídios e Protecção à Pessoa (DHPP) de Mossoró.
 
Peritos que foram ao condomínio Portal da Resistência anteciparam que o moçambicano tinha um ferimento profundo na testa, pequenas escoriações pelo corpo, além de duas perfurações nas nádegas.
 
Numa nota à imprensa, a UFERSA lamentou a morte do estudante a apresentou os pêsames e solidariedade à família
 

Gana vai transferir estátua de Gandhi, acusando-o de racismo

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Mulher passa pela frente de estátua de Mahatma Gandhi, em Acra – Christian Thompson / AP

Gana vai transferir estátua de Gandhi, acusando-o de racismo Presente da Índia, imagem do líder foi inaugurada em junho em universidade

ACRA — As autoridades de Gana pretendem transferir uma estátua de Mahatma Gandhi, que a Índia deu de presente à Universidade de Acra há alguns meses, após uma petição que denuncia o racismo do líder da independência indiana.

A estátua foi inaugurada em junho no campus universitário pelo presidente indiano, Pranab Mukherjee, como símbolo da aproximação entre os dois países.

Mas em setembro um grupo de professores lançou uma petição para solicitar sua retirada devido “ao caráter racista” de Gandhi, exigindo que a universidade dê prioridade a personalidades africanas.

 
“Mais vale se erguer por nossa dignidade que se prostrar diante da vontade de uma superpotência euroasiática”, afirma o texto da petição, que cita Gandhi dizendo que os indianos eram “infinitamente superiores” aos africanos.

O Ministério das Relações Exteriores ganense indicou que acompanha o assunto com uma profunda preocupação e destacou sua intenção de “transferir a estátua para garantir sua integridade e evitar polêmicas”.

 

“Gandhi era humano e pode ter tido seus defeitos, mas devemos lembrar que as pessoas mudam” e que Índia e Gana “foram campeões na luta pela libertação dos povos oprimidos em todo o mundo”, acrescentou o ministério.

Há vários meses surgiu em várias universidades africanas um movimento contra a presença de estátuas que façam alusão a um passado colonial.

A Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, realizou uma forte campanha para a retirada de seu campus de uma estátua de Cecil Rhodes, um magnata das minas notoriamente racista, morto em 1902.

 

Gandhi morou na África do Sul por mais de duas décadas, de 1893 a 1914, trabalhando como advogado e lutando pelos direitos dos indianos – e só dos indianos. Como ele expressava abertamente, os sul-africanos negros praticamente não eram humanospara ele. Gandhi se referia a eles usando a expressão depreciativa kaffir.

Ele lamentava que os indianos fossem considerados “um pouco melhores que os selvagens ou os nativos da África”. Em 1903, ele declarou que a “raça branca na África do Sul deveria ser a raça predominante”. Quando foi mandado para a cadeia em 1908, ele detestou o fato de que os indianos eram colocados com os prisioneiros negros, não os brancos. Alguns ativistas sul-africanos têm colocado essa parte da história de Gandhi sob os holofotes novamente, assim como um livro publicado em setembro passado por dois acadêmicos sul-africanos, embora isso sequer tenha gerado arranhões na consciência cultural ocidental além dos círculos concêntricos do Tumblr.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/gana-vai-transferir-estatua-de-gandhi-acusando-de-racismo-20246632#ixzz4NN4rSxE0

Segregação vertical impacta trajetória das mulheres cientistas, apontam especialistas

 

Scientist examining laboratory samples

Scientist examining laboratory samples

A discriminação contra a mulher na universidade e na ciência é um triste denominador comum entre todos os países do planeta. Esta foi a afirmação da presidente da Rede Francófona de Mulheres Responsáveis pelo Ensino Superior e Pesquisa (Resuff, na sigla em francês), Leila Saadé, que discutiu o assunto nesta quinta-feira, 15, no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), em São Paulo.

Saadé conta que pediu para incluir a universidade no título de sua apresentação porque, segundo ela, um problema muito grande da mulher cientista é a questão do poder dentro da universidade. Um problema histórico, que depende de transformações em sistemas culturais e sociais. “A mulher não é aceita no domínio do poder”, disse.

Segundo dados que ela apresentou, 58% dos mestrandos na França hoje são mulheres. Mas, à medida que se progride, a participação feminina diminui: elas contam 48% dos doutorandos; 23% dos professores titulares e apenas 10,5% dos presidentes das universidades francesas – número que caiu vertiginosamente desde 2008, quando 20% das universidades eram presididas por mulheres.

Mulheres na Ciência: novos olhares !

Créditos: Lugar de Mulher
Na Europa, os dados confirmam a tendência: apenas 11% dos altos cargos acadêmicos são ocupados por mulheres. “É como um tubo furado, que vai provocando perdas no percurso”, resume.

A pesquisadora, que é jurista por formação, aponta que a descriminação generalizada na universidade impacta na trajetória acadêmica das mulheres. E um fator que alimenta esse comportamento são os estereótipos que são inculcados nas pessoas desde a mais tenra infância.

“Uma pesquisa realizada pela Fundação L’Oréal sobre a percepção pública das mulheres na ciência mostrou que para 67% dos europeus, a mulher não está qualificada para ocupar cargos de alta função na ciência. E as explicações foram as mais ‘poéticas’ possíveis: as mulheres não tinham espírito prático, racional ou analítico. O que é mais grave é que mulheres compartilham a mesma percepção”, contou Saadé. O mesmo estudo foi feito na China, e os resultados foram semelhantes, segundo ela. “Os estereótipos impactam essa visão. O que nos ensinam, desde bebês, é isso”.

Teto de vidro

Para se conseguir reverter esse quadro, a jurista acredita que é preciso formar uma rede de ações para ajudar as mulheres a “quebrarem o teto de vidro”. Criar frentes que valorizem e incentivem o avanço da mulher cientista, que promovam um olhar para a trajetória de vida da mulher – que inclui a maternidade -, além de romper o círculo vicioso de projetos feitos por homens serem avaliados por homens e aceitos por homens. “Quanto mais houver uma rede feminina se espalhando por todas as esferas, mais avançaremos”, disse.

Saadé criticou ainda a falta de dados consistentes sobre a real situação da mulher na ciência e nas universidades. “Os indicadores ainda são muito imprecisos. É necessário elaborar índices que apresentem uma visão mais detalhada das mulheres para podermos desenhar estratégias mais precisas”, comentou, acrescentando que este é um dos pedidos da Unesco que a Resuff pretende desenvolver.

Observatório de Gênero na Universidade

Desde sua criação, em 2014, a Resuff, rede criada pela Agência Universitária da Francofonia (AUF), desenvolveu módulos de ensino a distância sobre gênero, oferecendo a mulheres ferramentas para capacitá-las em estratégias profissionais e institucionais. Além disso, a rede abriu uma chamada de propostas para a criação de um “Observatório de Gênero na Universidade”, que tem por objetivo justamente identificar os fatores que dificultam a ascensão de mulheres na universidade e oferecer instrumentos metodológicos de monitoramento e medição da evolução de suas carreiras. A ideia é que cada universidade participante tenha ao menos um representante da rede responsável por esse levantamento.

Saadé ressaltou que todo esse empenho deve ir na direção de fazer com que a questão da igualdade se torne um indicador de qualidade das universidades. “A primeira missão da universidade deveria ser formar cidadãos, dentro de uma política de igualdade. Depois se pensaria em formar bons médicos, bons físicos, bons juristas, bons matemáticos. Abrir mão da presença feminina é abrir mão de grandes potenciais “, concluiu.

Efeito tesoura

Carolina Brito, física e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi a debatedora da discussão. Para ela, a falta de bons indicadores é, de fato, um problema que atrapalha ter a real dimensão da situação das mulheres nas universidades e na ciência. Mas, a partir de dados espalhados, uma história vai sendo construída. E essa história é que, apesar de as mulheres serem a maioria entre os que concluem o ensino fundamental e médio, e a maioria nos cursos de graduação, quando se analisa a distribuição desses números, observam-se sérias discrepâncias.

“Quando olhamos a distribuição das mulheres por áreas, vemos que estamos segregadas”, afirma. Uma área crítica é a das engenharias: de 100 pessoas que concluem a graduação no Brasil, 15 se formam em alguma engenharia e apenas 5 são mulheres.

A segregação vertical é ainda mais notável. Na física, área que Brito estuda com mais profundidade, 30% dos alunos de iniciação científica são do sexo feminino. No mestrado, esse percentual cai para 20%; doutorado, 15%; até que apenas 5% das bolsas de pesquisa nível 1A são de mulheres. “É o chamado efeito tesoura. Ao subir na carreira, o percentual de mulheres cai”, comenta, corroborando os dados apresentados por Saadé.

Além do preconceito implícito, da questão família e carreira, e da falta de modelos femininos na alta hierarquia acadêmica, um fator de alto impacto, que precisa ser analisado são os comitês científicos, que avaliam projetos e pesquisadores. “No comitê de física do CNPq, apenas 10% dos membros são mulheres. Na farmácia, área tradicionalmente dominada pelas mulheres, 100% do comitê é masculino”, destacou a pesquisadora.

Brito é coordenadora do projeto Meninas na Ciência, ação de extensão do Instituto de Física da UFRGS desde o final de 2013, e, segundo ela, o efeito tesoura traz um desafio ainda maior para se compreender e promover a equiparação de gêneros na academia. “O efeito tesoura é muito dramático porque a gente poderia pensar que a entrada na ciência é uma solução. Mas esse fenômeno mostra que despertar esse desejo não é suficiente”, analisou.

Nota do Managing EditorEsta matéria é de autoria de Daniela Klebis para o Jornal da Ciência foi veiculada em 16 de setembro de 2016. A ilustração apresentada não consta da matéria original e foi introduzida pela Editoria do Boletim.

Estudantes querem a descolonização das universidades na África do Sul

mediaBloqueio hoje junto da universidade de Witwatersrand, Joanesburgo.Reuters/ Siphiwe Sibeko

Entrou hoje na sua quarta semana o movimento estudantil contra a decisão governamental anunciada há cerca de um mês de aumentar em 8% do valor das propinas universitárias na África do Sul. Este movimento cujo epicentro se encontra na prestigiosa universidade de Witwatersrand em Joanesburgo tem sido igualmente activo em outras cidades do país, designadamente Pretoria, a Cidade do Cabo ou ainda na universidade de Free State, no centro da África do Sul.

Este movimento que tem sido marcado por vezes por alguma violência, confrontos com a polícia tendo eclodido ainda hoje junto da universidade de Witwatersrand, não fraquejou apesar de certas universidades terem decidido reabrir as suas portas depois de dias de bloqueio e apesar também do executivo de Jacob Zuma ter decidido ontem formar uma comissão específica para estudar meios de estancar a crise.

Na base do protesto que já tinha ocorrido no ano passado até ao governo ter que recuar no seu intuito de aumentar o valor das propinas, está a promessa feita há décadas pelo ANC no poder de oferecer uma educação gratuita para todos. Contudo, mais de vinte anos depois do fim do apartheid, as desigualdades sociais continuam bem patentes: dados oficiais datando de 2014 indicam que 27,5% de estudantes brancos obtiveram o seu diploma contra pouco mais de 5% de estudantes negros.

Neste contexto em que diferenças de tratamento continuam a ser sentidas pela parte mais desfavorecida da população sul-africana, as reivindicações dos estudantes vão para além da exigência da gratuidade dos estudos universitários e passam pelo que chamam de “descolonização” da faculdade, o que do ponto de vista de Thomas Hausen, professor universitário em Pretoria, dá um cariz político a este movimento.

 

http://pt.rfi.fr/africa/20161012-protesto-estudantil-na-africa-do-sul-entra-na-quarta-semana

África do Sul regista nova onda de confrontos em universidades entre polícias e estudantes

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No “campus” de Witwatersrand, em Joanesburgo, um grupo de estudantes atacou com pedras seguranças privados e polícias que proibiam o acesso a um edifício da universidade e que responderam com gás lacrimogéneo, balas de borracha e canhões de água.

Uma representante do conselho de estudantes diz que “se houver alguma perda no programa académico, não será culpa dos alunos, mas do governo e do Estado, que falham em dar resposta a uma crise nacional, que não emergiu ontem, mas que cresce há muitos anos e que resultou no que vemos agora”.

Na Universidade de Stellenbosch, no sudoeste do país, um grupo de estudantes decidiu avançar com uma greve de fome, depois de se terem visto suspenso por participarem nos protestos.

Universidade de Stellenbosch.jpg

Um dos contestatários explica que decidiram iniciar a greve de fome porque foram “suspensos pela universidade de forma ilegal, sem que lhes fossem dadas quaisquer razões legais para a suspensão, […] para silenciar o movimento estudantil”.

Os protestos tiveram início no meio de setembro, depois do governo ter autorizado um aumento de até 8 por cento nas propinas universitárias para 2017. A grande maioria dos estudantes reclama um ensino gratuito e o movimento de contestação já degenerou em várias ocasiões em violência.

Fonte: Euronews/LD

Direitos Humanos no ensino superior em Angola

mapa de Angola

O ensino dos direitos humanos nas universidades propicia mudanças de atitudes que favorecem relações calorosas e respeitosas, afirmou ontem o secretário de Estado dos Direitos Humanos, António Bento Bembe.

 

Ao discursar na abertura das primeiras jornadas científicas de direitos humanos, organizadas pela Universidade Óscar Ribas, em parceria com o Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, Bento Bembe defendeu o início da implementação dos Direitos Humanos nos planos curriculares das universidades angolanas.
Acrescentou que a educação em direitos humanos faz parte da formação integral dos estudantes do ensino superior, pois a mesma permite-lhes alcançar um equilíbrio entre o desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento moral. “A reflexão, diálogo e debate colaboram na formação integral dos estudantes”, afirmou o secretário de Estado, apontando como acções a empreender, a promoção de pesquisas, a nível nacional e local, com o envolvimento de instituições de ensino superior públicas e privadas.
Bento Bembe defendeu ensinar e projectar os valores universais para a sociedade, para que as pessoas sejam capazes de analisar e criticar os comportamentos que não promovem a dignidade humana.

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/direitos_humanos_no_ensino_superior_1

Lições na aprovação das cotas raciais na pós-graduação da Unicamp

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Não podemos nos isolar. Nossas conquistas sempre serão fruto da organização coletiva. A vitoriosa luta de negros e negras no Brasil só confirma isso
por Djamila Ribeiro — publicado 21/07/2016 09h33

Na Unicamp, as cotas já valerão na seleção de 2017 para os cursos de mestrado e doutorado

Doutorandas no programa de pós-graduação em Educação da Unicamp, Carolina Pinho e Katia Norões são também membros da Frente Pró-Cotas da universidade. Nesta semana, abro o espaço para que elas escrevam sobre a aprovação do programa de cotas étnico-racial e para pessoas com deficiências da Unicamp e a importância dessa medida como um modo de diminuir os abismos sociais. Segue o texto delas sobre esse fundamental avanço:

Por Carolina Pinho e Katia Norões

No dia 26 de junho de 2016, a Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aprovou o Programa de Cotas Étnico-raciais e para Pessoas com Deficiências, que será implementado já na seleção para 2017 para os cursos de mestrado e doutorado.

Na Unicamp, os primeiros a aprovarem cotas foram os do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, em 2014, sendo que a proposta foi elaborada por estudantes organizados em dois coletivos: Frente Pró-Cotas e Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Consideramos esta uma vitória tanto para as políticas sociais quanto para as lutas de grupos sub-representados no Ensino Superior, para os quais tal política se faz fundamental para pleitearem acesso, formação e contribuírem para produção científica no país.

Vitória porque não podemos nos esquecer de que São Paulo, apesar de concentrar riquezas, expressa profundas desigualdades sociais, em que as violências têm cor, raça, classe, idade, gênero e origem social.

O estado é governado há mais de 20 anos por um partido, o PSDB, que foi contra a implementação de ações afirmativas a nível nacional. Um reflexo disso é a inexistência de cotas etnico-raciais na graduação nas universidades estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp).

Os considerados “centros de excelência” vão na direção oposta ao que ocorre nas universidades federais, que apresentam ótimos resultados a partir dos programas de ações afirmativas. Entre eles, a criação de grupos e núcleo de pesquisas sobre temáticas inexistentes ou pouco exploradas na produção científica brasileira, muitas vezes exploradas apenas por universidades estrangeiras.

As ações afirmativas no Ensino Superior vêm sendo implementadas desde a década de 1940 em vários países. Nos EUA, por exemplo, onde menos de 15% da população é composta por negros e negras, o que balizou a implementação das ações afirmativas foi o argumento de garantia dos fundamentos da democracia: como o mérito individual e a igualdade de oportunidades.

O pressuposto é se há grupos que têm oportunidades desiguais, eles devem ter tratamento desigual nas políticas públicas. Entretanto, no Brasil o debate sobre ações afirmativas ganhou outras interpretações.

O mito da democracia racial reforça a ideia de que somos todos iguais e que a implementação das ações afirmativas seriam desnecessárias. Além disso, a estrutura escravocrata ainda é base das relações sociais no nosso país: a subalternidade é quase como uma instituição a ser zelada por quem detêm privilégios. Isso não seria diferente nas universidades.

A discussão sobre a implementação das ações afirmativas nas universidades públicas revela os abismos sociais entre grupos, o racismo e o machismo que se traduzem em estratégias de conservadorismos nessas estruturas sociais.

Como isso ocorre?

Muitos professores simplesmente desconhecem a história, filosofia, tecnologias, saúde, alimentação e as reais necessidades dos povos que compõem essa sociedade.

Estes mesmos recusam as ações afirmativas em nome da defesa irrestrita da “qualidade acadêmica”, supostamente ameaçada por pessoas supostamente “incapazes”.

Ou seja, a implementação das ações afirmativas traz algo muito além da conquista de espaços e conhecimentos que sempre nos foram negados: traz também o dedo na ferida.

As tensões na universidade, que pareciam superadas, se revelam ainda mais fortes quando se propõem ações que podem modificar verdadeiramente a estrutura de um dos pilares do privilégio da elite brasileira: a universidade pública.

Mas, resistimos. As políticas afirmativas no Ensino Superior vêm sendo defendidas pelos movimentos sociais negros, com outras nomenclaturas e conceitos, desde o final do século XIX.

Na década de 1940, intelectuais negros como Guerreiro Ramos e Abdias do Nascimento estruturavam propostas como essas que temos a oportunidade de vivenciar em todo o país. O resultado, ainda que tardio, é vitorioso e contradiz todos os argumentos contrários, invalidados após 10 anos de implementação das políticas de ações afirmativas.

A lição que fica de mais uma vitória dos movimentos é: não podemos nos isolar. Nossas conquistas sempre serão fruto de nossa organização coletiva. A vitoriosa luta de negros e negras no Brasil só confirma isso.

A aprovação de cotas raciais em diversos programas de pós-graduação no Brasil devem ser pontos de apoio para mudanças que transformem concretamente a realidade de negros, negras, povos indígenas, junto a demais grupos sub-representados e finalmente tenhamos acesso ao patrimônio material e imaterial que ajudamos a produzir neste país.

* Carolina Pinho é doutoranda no Programa de Pós Graduação em Educação da Unicamp. Katia Norões é doutoranda no mesmo programa e membro da Frente Pró-Cotas da Unicamp

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/licoes-na-aprovacao-das-cotas-raciais-na-pos-graduacao

Apesar de insatisfações, CPLP é projeto bem-sucedido, diz presidente de Portugal

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, discursa durante a sessão solene de comemoração do 20 aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) (Agência Lusa/Direitos Reservados)
O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, discursa durante a sessão solene de comemoração do 20º aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)Agência Lusa/Tiago Petinga/Direitos Reservados

Criada em 17 de julho de 1996, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) completou 20 anos neste domingo (17). Na manhã de hoje (18), houve uma cerimônia solene de comemoração no Palácio Conde de Penafiel, sede da CPLP, em Lisboa.

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou no evento que a CPLP é um projeto bem-sucedido, embora haja algumas “insatisfações, angústias e expectativas não cumpridas”. Apesar das dificuldades que a jovem comunidade enfrenta, Rebelo de Sousa afirmou acreditar que os objetivos principais foram mantidos e ressaltou a importância dos objetivos no âmbito econômico, energético, ambiental e de segurança alimentar.

“A CPLP é um projeto bem-sucedido, mas é um projeto de futuro. Podemos e devemos acreditar no futuro da CPLP, na sua vocação universal”, disse o presidente português.

O secretário executivo da CPLP, Murade Muragy, afirmou durante a cerimônia que é preciso trabalhar para uma agenda comum, “na identificação de áreas prioritárias de intervenção, na adequação dos recursos humanos, técnicos e financeiros para a CPLP ser mais útil, mais eficiente”.

“A CPLP não pode ficar alheia às tendências estratégicas mundiais, regionais e sub-regionais que caminham para aceleradas integrações políticas e econômicas. Não deve ficar refém da nostalgia da língua portuguesa e deixar de aproveitar as oportunidades que o mundo multipolar contemporâneo nos oferece, tanto em conexões como em oportunidades de criar cadeias de valor”, afirmou Muragy.

A comunidade é o foro multilateral para o aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Tem personalidade jurídica, é dotada de autonomia financeira e conta com seis Estados com a categoria de Observador Associado (Geórgia, Japão, Maurícia, Namíbia, Senegal e Turquia) e com 64 instituições como observadores consultivos.

Objetivos

Os três objetivos centrais da comunidade são a concertação político-diplomática; a cooperação em todos os domínios; e a promoção e difusão da língua portuguesa.

Para o conselheiro Paulo André Moraes de Lima, chefe da Coordenação-Geral da CPLP, do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o fato de o Brasil ser o Estado-Membro com maiores território, população e Produto Interno Bruto (PIB) dá ao país a oportunidade de projetar interesses e posições. “Nos dá uma possibilidade de projeção em outros fóruns internacionais, por exemplo, na ONU [Organização das Nações Unidas], quando a gente chega como um bloco. Acontece também na Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], na ONU em Genebra, em questões como trabalho, saúde. O apoio da CPLP foi muito importante em certas candidaturas brasileiras em foros internacionais estratégicos para o Brasil, como a do José Graziano, na FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura], e do Roberto Azevêdo, na OMC [Organização Mundial do Comércio]. Esses apoios mútuos são muito importantes.”

Assim como o presidente de Portugal, o diplomata Morais de Lima acredita que a CPLP vem colhendo frutos bem-sucedidos durante o processo de amadurecimento. “Ela [a CPLP] ainda está em fase de consolidação e ainda tem desafios pela frente. Na área de concertação política, por exemplo, a CPLP desempenhou papel muito importante no acompanhamento de algumas crises nos Estados-Membros, como no processo de emancipação do Timor-Leste – que nem era Estado-Membro porque não era um Estado mas, assim que se tornou independente, passou a integrar a CPLP imediatamente. Acompanha a Guiné-Bissau permanentemente, que é um país que ainda apresenta alguma instabilidade institucional”, disse.

“A CPLP organiza missões de observação eleitoral aos Estados-Membros que pedem, e foi importante para o fortalecimento institucional de países que se constituíram como Estado mais recentemente. Na área da cooperação, há um potencial que ainda não foi totalmente explorado e, para o Brasil, é um lugar em que a gente consegue desenvolver nossa política de cooperação Sul-Sul. Em relação à língua, talvez seja o ponto onde tenhamos avançado menos. O Instituto Internacional da Língua Portuguesa tem desenvolvido um importante trabalho. Ainda há um imenso potencial não explorado”, completou.

Por outro lado, para Enilde Faulstich, professora e pesquisadora de Políticas Línguísticas da Universidade de Brasília, os objetivos de promoção e difusão da língua portuguesa vêm sendo alcançados.

“Um caso exemplar é o do Timor-Leste, que, na Oceania e cercado de línguas distintas, esforça-se na coordenação estratégica de difundir a língua portuguesa no Estado. Então, a promoção e difusão vão muito bem, se considerarmos como ponto de partida onde estou, no Brasil. Ilustramos com o grande número de professores brasileiros que ministram aulas de português em universidades estrangeiras e com obras escritas por brasileiros que estão no mercado livreiro internacional. É preciso destacar, por sua vez, que escritores moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos estão no mercado editorial brasileiro, como vi, há duas semanas, diversos livros de literatura escritos por africanos, à venda por livreiros em um Encontro Nacional de que participei em São Paulo”, afirmou Enilde.

Para o diplomata Morais de Lima, um dos principais desafios da CPLP atualmente é o de não duplicar as agendas. “Como todo organismo internacional, a comunidade tende a duplicar agendas no sentido de que temas que são tratados no âmbito das Nações Unidas ou da Unesco naturalmente acabam sendo replicados, o que não é uma coisa negativa em si. A questão é quando acaba desenvolvendo iniciativas paralelas e duplicadas em determinados assuntos. A CPLP precisa aprimorar qual é o seu nicho de atuação. Um desafio é como a gente vai se integrar à agenda global sem duplicar esforços”, disse.

O diplomata afirmou ainda que as crises econômicas acabam por vezes dificultando a participação dos países na comunidade. “Isso tem um impacto negativo no sentido de que a capacidade dos países de dar contribuições fica reduzida, mas é algo conjuntural, e a gente espera que essa situação seja superada. Quando o país está numa crise política, ele tende a se fechar mais em si mesmo, e a participação nos fóruns internacionais fica prejudicada porque a prioridade é interna.”

Para a professora Enilde, uma comunidade que pretende viver em comunhão não pode ser discutida por grupos que não interferem nos grandes negócios. “ A língua tem valor econômico que precisa ser considerado no âmbito do Produto Interno Bruto de cada país. A CPLP precisa enxergar que valor econômico e PIB seguem uma geografia, a geografia do dinheiro, que é um dos fundamentos da riqueza dos povos. O outro fundamento é a língua. Nenhuma comunidade mundial é capaz de se desenvolver sem esse fundamento cultural, sem se comunicar, sem interagir. Assim sendo, no desenvolvimento dessa geografia e no desempenho do PIB linguístico e cultural, quem interfere é a sociedade civil, aquela que está nas escolas, nas universidades, nos institutos de pesquisa. Nesses lugares, a língua é objeto de fala, de escrita e de produção escolar, literária, intelectual.”

Sobre as políticas brasileiras de promoção e difusão da língua portuguesa, a professora ressalta a importância da Missão do Brasil Junto à CPLP, com sede em Lisboa, que dispõe de dados relevantes sobre a língua portuguesa como “materna multinacional”. Ela afirma ainda que a preservação da regra do consenso na comunidade é um êxito, pois não há predominância de nenhum Estado-Membro sobre outro.

Em novembro, o Brasil deverá assumir a presidência rotativa da comunidade pelos próximos dois anos, ocupada atualmente pelo Timor-Leste.

*Colaborou Ana Cristina Campos, de Brasília

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-07/cplp-e-projeto-bem-sucedido-apesar-de-insatisfacoes-diz-presidente-de