Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições.

A utopia africana de Felwine Sarr

mídiaFelwine Sarr.© Antoine Tempé

Felwine Sarr é um intelectual africano. Economista agregado, ele ensina na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis no Senegal. Em seu último livro Afrotopia (Editions Philippe Rey), ele sonha com uma amante da África que leve a ”  humanidade para outro nível  “.

”  Responder a um pensamento sobre o continente africano é uma tarefa difícil , escreve Felwine Sarr , tão tenaz, clichês, clichês e pseudo-certezas que, como um halo de neblina, escondem sua realidade  “. Sua abordagem é, portanto, desconstruir a visão da África; uma visão livre, em particular, das idéias ocidentais para alcançar a “Afrotopia”, essa ”  utopia ativa, que se propõe a descobrir no espaço real africano os vastos espaços dos possíveis e impregná-los  “.

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Esta desconstrução, “a  exigência da soberania intelectual absoluta  “, começa com o questionamento do conceito de desenvolvimento visto em Washington nos corredores do FMI ou do Banco Mundial.

Certamente, Felwine Sarr não questiona a necessidade de desenvolver o continente que é dele, mas a maneira de fazê-lo. A África deve encontrar o caminho que é próprio e não mais ser imposto um “modelo”. ”  É preciso uma crítica filosófica, moral e política da ideologia desenvolvimentista  ” , escreve o analista rigoroso que fala de um campo que ele conhece: o dos números, das estatísticas, curvas. Neste como nos outros, “a  utopia africana consiste em gerar outras formas de viver em conjunto  “.

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições. Os africanos de hoje parecem esquecê-los pouco a pouco, ansiosos para que possam desfrutar os frutos de uma certa forma de sociedade de outros lugares.
Esta é uma tendência perigosa para Felwine Sarr. ”  O homem africano contemporâneo está dividido entre uma tradição que ele não conhece mais e uma modernidade que caiu sobre ele como uma força de destruição e desumanização  ” , ele escreve pensando em colonização.

Modernidade africana

” Quais poderiam ser os contornos e os conteúdos desta modernidade africana, se quiser evitar tornar-se uma falsa contrafacção da Europa? “Pergunta o autor. Esta é a questão central do livro.

Ao longo das páginas, Felwine Sarr envolve uma reflexão filosófica que propõe, por exemplo, a existência de vários mundos. ”  Essa África que está e está acontecendo é multifacetada  “, diz ele. Deve basear seu futuro em sua autonomia cultural e em uma noção de tempo peculiar a si mesmo. E, segundo ele, a economia deve ser considerada com uma dimensão social em particular. Aqui também é uma questão de reconectar-se com a tradição. “Nas sociedades africanas tradicionais, a economia foi incluída em um sistema social maior. Ele certamente obedeceu às suas funções clássicas (subsistência, alocação de recursos, etc.), mas foi subordinado a objetivos sociais, culturais e civilizacionais  . Portanto, é necessário, diz o autor, “ ancorar as economias africanas em seu contexto cultural  “. E morar em sua casa.

A análise de Felwine Sarr é alimentada por estudos de grandes mentes do continente; o filósofo Mamoussé Diagne e seu trabalho sobre a tradição oral para entender o conteúdo do pensamento africano ou mesmo Abdoulaye Elimane Kane, que busca a “participação africana” no pensamento do ser humano.
É um apelo aos africanos para capturar uma imagem da África que é sua, e não a imagem que o Ocidente os envia.

” Para acelerar o fim de um mundo, para se livrar do Ocidente, é necessário ganhar a batalha da representação, por uma estratégia de subversão e insurreição, levando à elaboração de seu próprio discurso. de uma representação de si mesmo  “, escreve esse homem posado, cuja ambição intelectual é ótima. E nobre.

 

http://www.rfi.fr/culture/20160324-utopie-afrique-felwine-sarr-developpement-humanite-afrotopia-modernite-tradition

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Felwine Sarr: Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios

Os africanos devem dominar a narrativa sobre si próprios e definirem os termos em que as suas instituições e economia operam. O economista senegalês vem ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, falar de Afrotopia. Nem afropessimista, nem afroeufórico: Felwine Sarr é afro-realista.

Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora

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Felwin Sarr organizou em Dacar os Ateliers de la Pensée, onde reuniu pensadores africanos da diáspora ELISE DUVAL

No ano passado, o economista senegalês Felwine Sarr (n.1972) organizou os Ateliers de La Pensée, um espaço de reflexão em forma de workshops que juntou dezenas de pensadores em Dakar e Saint-Louis. Co-criados com o filósofo e referência do pensamento pós-colonial, o camaronês Achille Mbembe, os Ateliers foram um enorme sucesso e irão repetir-se este ano, em Novembro, conta ao PÚBLICO por telefone. “Nestes últimos anos houve um renascimento dos artistas africanos. Os africanos não estão muito envolvidos na produção do discurso sobre eles próprios, com os Ateliers a ideia era reunir intelectuais africanos e da diáspora e pensar o papel de África no mundo, como olhar para o futuro”, explica.

O economista, músico, teórico, chega a Portugal na próxima semana, dia 19 de Abril, para uma conferência sobre África, capitalismo e utopias no Teatro Maria Matos, em Lisboa, integrada no Ciclo Utopias. Reclama para África, à qual se refere como uma entidade continental, uma especificidade própria. Defende que é hora de os africanos fazerem uma auto-reflexão, pensarem nas suas soluções e tornarem-se menos vulneráveis às influências exteriores veiculadas em nome de um interesse que não é necessariamente o seu. “O comércio (deportação) transatlântico e o colonialismo foram sinónimos de extracção de riquezas e de ser humanos, de desestruturação das sociedades, de distorções institucionais, de violação cultural, de alienação e de inscrição das sociedades dominadas em trajectórias pouco virtuosas”, escreve no livro. Esta é a herança com a qual os países africanos têm de viver.

Professor na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis, e director do departamento de Civilizações, Religiões, Arte e Comunicação da mesma universidade, Felwine Sarr é autor de DAHIJ (2009), 105 Rue Carnot (2011), Médiations Africaines (2012) e Afrotopia (2016). É sobre este último livro que vem falar e foi sobre ele que se debruçou a entrevista de cerca de 40 minutos.

Para contextualizar, cite-se um excerto de Afrotopias: “África é um continente que tem uma superfície de 30 milhões de quilómetros quadrados, composto por 54 Estados. Cabem nela os Estados Unidos, a China, a Índia e uma parte da Europa Ocidental. Com uma população de cerca de mais de um bilhão de indivíduos, e uma taxa de crescimento demográfico de 2,6%, daqui a meio século será o continente mais povoado, com 2,2 bilhões de habitantes, representando um quarto da população mundial. (…) Desde 2000, o seu crescimento econômico é superior a 5%. Entre as mais altas taxas de crescimento do mundo de 2008 a 2013, os países africanos estão bem representados.” Escreve ainda: “As economias africanas descolariam, se funcionassem com os seus verdadeiros motores.”

Felwine Sarr também escreve, no livro, que a “Afrotopia é uma utopia activa que procura no real africano os diversos espaços do possível e os fecunda”. Não defende nem o afro-pessimismo (que olha para o continente como estando à deriva), nem o afro-euforismo (que olha para África como o futuro económico). Qual será o lugar de um afrotópico? “O realismo”, responde.

No livro fala do fato de África estar marcada pela representação feita a partir do exterior. Como é que essa imagem foi distorcida?
Isso acontece desde os tempos do colonialismo em que é o Ocidente a definir África. África agrega essas definições que são feitas e incorpora-as, mas na verdade tem uma longa história em que pode pensar a sociedade, a vida, a história, o seu presente e decidir que tipo de futuro quer. Temos que ser nós a definir que tipo de sociedade queremos.

E nesse sentido, o que é exactamente a luta pela representação de África?
É muito importante lutar pela representação justa de África. Se em África não se acredita que é possível melhorar, e tem que se ir para o Ocidente porque aqui não há futuro, então é porque a representação é muito má. Como as pessoas se vêem a elas mesmas através desta representação? Para construir o seu presente e o seu futuro têm que ter confiança em si próprias. Mas há um preconceito em relação a África, sempre vista através da lente do conflito, do que é negativo, e não da parte positiva da resiliência dos africanos, da riqueza da sua civilização, da sua criatividade na forma de resolver os problemas.

Passados mais de 50 anos sobre a descolonização da maior parte dos países africanos (ocorridas no início dos anos 1960, não sendo o caso das colónias portuguesas), o seu livro ainda debate a necessidade de descolonização em várias áreas, incluindo das mentalidades. O que é que correu mal neste processo?
A descolonização não é apenas territorial e não acaba com as independências dos países, é um processo. O mais importante é a descolonização intelectual, psicológica, do conhecimento. Foram feitos progressos nas universidades, alguns académicos estão a pensar em como descolonizar o conhecimento e as linguagens mas isto é algo que acontece a longo prazo e para o qual se tem de olhar cuidadosamente. São precisas novas relações, mais justas e respeitadoras.

(A maioria dos) países africanos são antigas colónias, e as relações económicas, políticas e culturais continuam a existir com os países ocidentais. As ideias e decisões políticas não são tão livres como deveriam ser: são definidas pelas Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional, por políticos e por grandes empresas que têm interesse em África. Não podemos dizer que as relações são justas e simétricas, não são, há muito trabalho para fazer. Se for a algum dos países africanos, as grandes companhias que exploram os recursos naturais são internacionais. E retiram esses recursos porque têm tecnologia que nós não temos, em todas as áreas, das telecomunicações às minas, ao petróleo. Os nossos governos, por sua vez, também são influenciados pelas políticas do Banco Mundial e do FMI, pelos políticos do Norte na forma de governarem as suas sociedades.

Fala da necessidade de os africanos adquirirem a sua autonomia e de recuperarem as suas esferas políticas. Como se consegue isto? 
As sociedades africanas têm conhecimento local em várias esferas, do social, ao psicológico, até à saúde e basearam grande parte da sua sabedoria neste tipo de conhecimento que pode ser ensinado ao mesmo nível do conhecimento ocidental, articulando-os. Na minha universidade temos exemplos disso com o departamento de Cultura Africana, Civilização e Línguas, o Departamento de História.

Também defende que o ensino deve ser feito em línguas locais e que se deve, no fundo, acabar com o domínio das línguas ocidentais. Como é que depois se asseguraria a circulação do pensamento num continente em que há tantas línguas nacionais?
Há duas mil línguas em África, mais ou menos. Pode-se trabalhar a um nível trans-regional. Mas se pensarmos, há línguas que são faladas em vários países. Podem-se escolher algumas línguas transnacionais, e trabalhar nelas. O número de línguas não é um problema, o problema é a vontade política: há muitos lugares no mundo em que é a política que decide investir na língua. Quando um africano cresce, aprende a falar numa língua nativa; quando vai para a escola, aprende noutra, é um choque.

Diz que os instrumentos para medir as performances económicas em Produto Interno Bruto (PIB coloca os países africanos em situação de desigualdade e de subalternidade. Como é que a economia informal que predomina em África pode ser incluída nesta equação? 
O problema da economia informal é que não é incluída nas estatísticas, e quando se mede o PIB perde-se esta grande parte da economia. Esta economia produz riqueza, outras formas de economia, e temos que olhá-la com outros olhos, tentando capturar indicadores que meçam este tipo. Alguns países estão a tentar ter estatísticas da economia informal, outros, como o asiático Butão encontram índices que incluem a medição do bem-estar.

Há críticas fortes no seu livro à ajuda internacional e à presença de organizações não-governamentais (ONG) em África. Em que é que são negativas?
As ajudas das ONG podem ser feitas com boa intenção, mas nem todas têm a preocupação de perceber quais as necessidades reais de África. Algumas têm ideias do que é Africa e agem de forma diferente daquela que foi acordada com os respectivos governos, seguem as suas agendas e não trazem grande coisa. São os governos que devem decidir o que é bom para eles e não as ONG’s internacionais, algumas muito poderosas. Por exemplo, no Ruanda o Governo define quais as áreas em que as ONG’s intervêm e todos os anos escrutinam-nas para saber se cumpriram o plano – se não o fizeram, saem do país. O mais importante é saber se as ONG’s são agentes de transformação. Se agirem de acordo com o interesse do país, podem ser úteis. As soluções têm que ser produzidas localmente, se não, o problema pode agravar-se. Não é preciso recusar a ajuda mas apenas organizá-la de forma a que seja útil.

Fonte:https://www.publico.pt/2017/04/16/sociedade/entrevista/felwine-sarr-na-luta-pela-representacao-de-africa-1768342

A relação entre o cinema africano e os processos de independência política

por Juliana Domingos de Lima

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Professor de história e teoria do cinema da UFBA falou ao ‘Nexo’ sobre as origens históricas e políticas dessas cinematografias   Chamada de “Decreto Laval” (em homenagem ao primeiro-ministro Pierre Laval), uma lei aprovada na França em 1934 só permitia filmagens em território colonial francês mediante uma autorização ministerial da metrópole.

 

Na prática, a determinação impossibilitava um africano de fazer cinema em seu continente, ao menos em colônias francófonas, como Guiné e Senegal. Por essas razões jurídicas, ou ainda por outras, políticas e materiais, o desenvolvimento dos cinemas africanos tem, em geral, relação direta com os processos de descolonização do continente, ocorridos sobretudo na segunda metade do século 20.

Marcelo Ribeiro, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), elaborou um mapa em que sinalizou as datas de independência de nações africanas. Seu objetivo era o de familiarizar seus alunos de “Cinema internacional: cinemas africanos”, disciplina que ministra, à geografia do continente, ao mesmo tempo em que pudessem visualizar a cronologia das independências e sua correspondência com a criação da tradição cinematográfica de cada país.

 

Ribeiro falou ao Nexo sobre a relação entre o cinema e a superação do colonialismo nesses países, por meio da construção de narrativas sobre si próprios. Menciona também, pontualmente, alguns diretores e filmes como ponto de partida para um mergulho histórico ou cinéfilo nesse universo.

Cinema e identidade na África independente Os projetos de desenvolvimento dos cinemas nacionais africanos se relacionam, principalmente no caso das colônias francesas e portuguesas, à “vontade de alguns Estados recém-independentes de se apropriarem do meio cinematográfico para a construção de uma identidade nacional, de discursos sobre essa identidade”, disse o professor.

 

Ribeiro explica que isso não ocorreu apenas em uma dimensão nacional, mas transnacional, envolvendo vários vetores de articulação. O pan-africanismo, um projeto de articulação política entre essas nações, contou portanto com a participação do cinema: a criação da Federação Pan-africana de Cineastas, na década de 1960, estava imbuída desse horizonte continental.

Entre os efeitos dessa correlação entre o cinema e o período pós-colonial estão preocupações temáticas que atravessam a produção de muitas nações africanas nesse período: a abordagem das lutas pela independência e o questionamento do colonialismo são recorrentes. Há ainda, de acordo com Ribeiro, um “olhar para dentro”: o interesse, o registro e a reinvenção de tradições africanas, de elementos culturais considerados autênticos e importantes para a reconstrução dessas nações após a independência. “Essa relação entre o cinema e as independências políticas não significa que ele tenha se desenvolvido plenamente, logo após a independência.

 

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O cinema é parte de uma luta pela construção desses projetos de identidade nacionais e transnacionais, em que há interesse pela ‘descolonização da mente’, conceito de [escritor queniano] Ngugi Wa Thiong’O”, disse Ribeiro. “O que a independência realiza em termos políticos formais, o cinema vai estar engajado em tentar produzir no contexto mental, das representações.” Fogem à regra Egito e África do Sul, antigas colônias britânicas, são exceções a essa relação entre o desenvolvimento de uma tradição cinematográfica e a descolonização.

No caso do primeiro, o surgimento dessa tradição é anterior à independência, que se concretizou totalmente em 1936. Já no segundo caso, o apartheid, regime sul-africano que segregou os grupos raciais do país e cerceou direitos de todos, com exceção da minoria branca entre 1948 e 1991, foi responsável por retardar a construção de um cinema independente. “[O apartheid] define a existência, na África do Sul já independente, de um cinema basicamente colonialista, ainda racista.

É só com o fim do apartheid que isso vai se transformar de uma maneira mais ampla”, disse Ribeiro. Diretores e filmes para se iniciar na pesquisa O CURTA “ÁFRICA SOBRE O SENA” (1955) Feito na França pelos senegaleses Paulin Vieyra e Mamadou Sarr, trata-se de um dos filmes considerados inaugurais do cinema africano. O curta documental foi produzido ainda sob o Decreto Laval, antes da independência senegalesa, em 1960. Trata do desenraizamento e da solidão dos africanos em Paris.

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A OBRA DO CINEASTA OUSMANE SEMBÈNE Sembène é um grande cineasta do Senegal e da África Ocidental. “Na obra, ele demonstra preocupação muito nítida, de maneira recorrente, com questões sociais e com a historia da colonização”, disse o professor. Ribeiro menciona um filme inicial da trajetória do cineasta, “A Garota Negra” (1966), que aborda a relação entre uma senegalesa e os patrões franceses para quem trabalha.

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Por meio desse enredo, trata e critica a situação colonial, em um momento quase imediatamente posterior à independência. “Xala” (1975), por sua vez, já apresenta uma crítica à elite africana que assume o controle do país logo após o fim da colonização francesa.

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O LONGA-METRAGEM “Ó, SOL” (1967) Dirigido pelo mauritano Med Hondo, aborda “de maneira frontal toda a herança do colonialismo e a luta pela descolonização”. Como em “A Garota Negra”, o enredo também se baseia na experiência de um cidadão da Mauritânia, ex-colônia da França, no país europeu. A OBRA DE FLORA GOMES A trajetória do cineasta pioneiro da Guiné-Bissau também se iniciou sob o signo da independência, embora seus  filmes mais conhecidos, como a comédia “Nha Fala” (2002), sejam posteriores. Seu primeiro longa, “Mortu Nega” (1988), narra a busca de uma mulher por seu marido, um membro da resistência, durante a guerra de independência do país.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/17/A-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-o-cinema-africano-e-os-processos-de-independ%C3%AAncia-pol%C3%ADtica

Gana aos 60 anos: Lembrar Kwame Nkrumah

O Gana celebra o sexagésimo aniversário da sua independência. Cidadãos recordam o primeiro Presidente ganês, Kwame Nkrumah.

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Neste 6 de março, dia em que o Gana comemora o sexagésimo aniversário da sua independência, recordar Kwame Nkrumah é incontornável: “Atualmente, o nome de Nkrumah está envolto em mistério e controvérsia”, diz Atsu Aryee, da Universidade do Gana.

No passado, era diferente. Quando o Gana conquistou a independência da Grã-Bretanha em 1957, os apoiantes de Nkrumah aclamaram-no em massa. “Finalmente chegou ao fim a batalha! O Gana, a nossa pátria amada, será, a partir de agora, livre para sempre”, afirmou Nkrumah na altura. Em resposta, a multidão gritava “viva!”

Nos primeiros anos depois da independência, o Governo de Kwame Nkrumah colocou em prática um programa económico ambicioso, com o objetivo de colocar o país, tradicionalmente rural, no mapa dos países industrializados. As barragens hidroelétricas construídas ao longo do rio Volta ainda hoje são vistas como marcos da engenharia africana e é nelas que o Gana continua a confiar para garantir a produção energética no país de 27 milhões de habitantes. Mas nem todos os projetos de Nkrumah resultaram. As grandes empresas geridas pelo Estado foram, na maior parte dos casos, mal sucedidas, acumulando enormes dívidas ao longo dos anos, sobretudo devido à má gestão e à corrupção.

Os ganeses conheceram então um outro lado de Kwame Nkrumah. O líder político tornou-se cada vez mais autoritário, tendência que culminou na transformação do Gana num Estado de partido único, em 1964, e na auto-proclamação de Nkrumah como Presidente eterno. Milhares de cidadãos viram-se obrigados a abandonar o país. Com a economia em queda livre, a popularidade de Nkrumah também decresceu. Um golpe militar colocou um ponto final na era Nkrumah, quando o Presidente se ausentou do país para uma visita de Estado à China, em 1966.

Ghana Kwame NkrumahKwame Nkrumah é lembrado como um herói da luta contra o colonialismo

Legado cada vez mais esquecido?

Hoje a imagem de Kwame Nkrumah é mais positiva: Os observadores dizem que o líder histórico contribuiu de maneira decisiva para que o Gana goze atualmente de uma certa estabilidade política.

“O legado mais importante de Nkrumah é o patriotismo e o nacionalismo que ele incutiu no povo enquanto esteve no poder”, diz o politólogo Atsu Aryee. “É esta noção de que somos todos ganeses, que temos um país e que é preciso manter a estabilidade.”

Mas, embora muitas crianças e jovens continuem a visitar o mausoléu de Kwame Nkrumah em Accra, poucas parecem compreender o seu legado: “Nkrumah ainda é um nome importante no Gana, pois conduziu o Gana à independência. Mas muitos jovens conhecem apenas o nome e já não conhecem as suas políticas enquanto Presidente e primeiro-ministro”, afirma Burkhardt Hellemann, chefe do escritório da fundação alemã Konrad Adenauer na capital do Gana, próxima ao partido no poder na Alemanha, a CDU.

“Ainda dá para ver que o nome de Nkrumah tem alguma influência, mas as suas políticas pouco ou nada influenciam os debates políticos deste país hoje em dia”, diz. O partido criado por Nkrumah em 1949, o Partido da Convenção do Povo (CPP, na sigla em inglês) desempenha hoje um papel menor na arena política ganesa.


Ainda assim, muitos na África subsaariana continuam a lembrar o legado de Nkrumah. Em 2004, a revista “New African” pediu aos leitores para elegerem os maiores líderes africanos de todos os tempos e Nkrumah ficou em segundo lugar, atrás do ex-Presidente sul-africano e líder da luta anti-apartheid Nelson Mandela.

Nkrumah defendia uma união pan-africana para contrabalançar a influência ocidental. Ele foi um dos fundadores da Organização da Unidade Africana, predecessora da União Africana (UA).

“Ainda se fala dos conceitos de Nkrumah nos corredores da UA”, conta o historiador nigeriano Toyin Falola.

Mas, apesar de a União ter hoje mais influência no continente, a concretização da ideia de Nkrumah de criar uns “Estados Unidos de África” está muito longe, sublinha Falola.

“Depois de Mbeki e Obasanjo saírem, não há líderes africanos dinâmicos que advoguem a ideia. Os países parecem interessar-se apenas nos seus assuntos, concentrando-se na sua política interna, preocupados com o declínio das suas economias. Portanto, a ideia do pan-africanismo foi tirada de cima da mesa.”

http://www.dw.com/pt-002/gana-aos-60-anos-lembrar-kwame-nkrumah/a-37819580

30 mil concorrentes disputam mais de 5 mil vagas nas universidades de Moçambique

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Medicina, Contabilidade e Finanças, Direito, Administração Pública e Economia entre os cursos mais concorridos
Mais de 21 mil candidatos concorrem para cinco mil vagas na Universidade Eduardo Mondlane. Os exames de admissão vão decorrer a partir de amanhã em todo o país, segundo avançou Maida Khan, directora pedagógica da maior instituição de ensino superior no país.
 
Ao todo são 30 mil candidatos que vão ser submetidos a exames de admissão pela UEM, UNIZAMBEZE e UNILÚRIO, instituições de ensino superior públicas. A directora pedagógica revelou durante conferência de imprensa realizada Sexta-feira em Maputo que as províncias de Tete e Niassa são as que têm menor número de candidatos. De acordo com a directora pedagógica os cursos mais concorridos são: Medicina, Contabilidade e Finanças, Direito, Administração Pública e Economia.
 
“Vão decorrer de 9 a 13 de Janeiro de 2017 os exames de admissão à UEM, UNIZAMBEZE e UNILÚRIO. Destes cerca de 30 mil candidatos, 21 mil concorrem aos cursos da UEM. Este ano concorrem para 5265 vagas contra as 5065 de 2016. Este ano temos 200 vagas a mais do que no ano anterior”, explicou a directora pedagógica.
 
 
Tolerância zero à fraude
Ainda durante a conferência de imprensa a directora pedagógica mostrou-se preocupada com casos de fraudes. Neste contexto, Maida Khan disse que as autoridades académicas não vão tolerar quaisquer tipos de fraude. Para combater a ocorrência de fraudes, a nossa fonte revelou que serão montadas equipa de vigilância durante o período de exames.
 
“Os examinandos devem estar munidos com os documentos válidos, lápis, caneta de tinta azul ou preta. Não devem levar consigo objectos electrónicos, como telefones celulares, máquinas calculadoras e outros dispositivos cuja utilização não é permitida. Em caso de uso desses dispositivos haverá sanções como o previsto no edital”, alertou a directora pedagógica da UEM. Os exames vão iniciar às 08:00 horas para os que serão examinados no período da manhã e às 14:00 horas para os do período da tarde. Entretanto, as autoridades académicas alertam que os candidatos devem estar nos locais dos exames trinta minutos antes.
 

Estudante moçambicano encontrado morto no Rio Grande do NOrte, Brasil

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Maputo – Um moçambicano que estava a fazer mestrado numa universidade brasileira foi encontrado morto em Mossoró, uma cidade no oeste do Estado do Rio Grande do Norte, divulgou hoje, terça-feira, a imprensa brasileira, citado pela Lusa.
 
 
De acordo com o portal de notícias brasileiro G1, o corpo de Geraldo Monteiro Silvério, de 28 anos, foi encontrado na manhã de segunda-feira, num condomínio residencial no bairro Presidente Costa e Silva, na cidade de Mossoró.
 
A polícia civil do Rio Grande do Norte ainda aguarda o resultado oficial da perícia feita no corpo do moçambicano, para definir que rumos serão dados à investigação sobre a morte do estrangeiro.
 
Geraldo Monteiro Silvério, que estava há um ano na cidade, fazia mestrado na numa Universidade brasileira a UFERSA).
 
Segundo a própria instituição, Silvério estava a especializar-se em filotecnia – técnica de estudo das plantas.
 
“Encontrámos pedras com sangue. Contudo, ainda não conseguimos saber o que causou a morte dele. Sem esta informação, não podemos adiantar nada nem nos posicionar sobre o caso”, sublinhou o delegado Rafael Arraes, da Divisão de Homicídios e Protecção à Pessoa (DHPP) de Mossoró.
 
Peritos que foram ao condomínio Portal da Resistência anteciparam que o moçambicano tinha um ferimento profundo na testa, pequenas escoriações pelo corpo, além de duas perfurações nas nádegas.
 
Numa nota à imprensa, a UFERSA lamentou a morte do estudante a apresentou os pêsames e solidariedade à família
 

Gana vai transferir estátua de Gandhi, acusando-o de racismo

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Mulher passa pela frente de estátua de Mahatma Gandhi, em Acra – Christian Thompson / AP

Gana vai transferir estátua de Gandhi, acusando-o de racismo Presente da Índia, imagem do líder foi inaugurada em junho em universidade

ACRA — As autoridades de Gana pretendem transferir uma estátua de Mahatma Gandhi, que a Índia deu de presente à Universidade de Acra há alguns meses, após uma petição que denuncia o racismo do líder da independência indiana.

A estátua foi inaugurada em junho no campus universitário pelo presidente indiano, Pranab Mukherjee, como símbolo da aproximação entre os dois países.

Mas em setembro um grupo de professores lançou uma petição para solicitar sua retirada devido “ao caráter racista” de Gandhi, exigindo que a universidade dê prioridade a personalidades africanas.

 
“Mais vale se erguer por nossa dignidade que se prostrar diante da vontade de uma superpotência euroasiática”, afirma o texto da petição, que cita Gandhi dizendo que os indianos eram “infinitamente superiores” aos africanos.

O Ministério das Relações Exteriores ganense indicou que acompanha o assunto com uma profunda preocupação e destacou sua intenção de “transferir a estátua para garantir sua integridade e evitar polêmicas”.

 

“Gandhi era humano e pode ter tido seus defeitos, mas devemos lembrar que as pessoas mudam” e que Índia e Gana “foram campeões na luta pela libertação dos povos oprimidos em todo o mundo”, acrescentou o ministério.

Há vários meses surgiu em várias universidades africanas um movimento contra a presença de estátuas que façam alusão a um passado colonial.

A Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, realizou uma forte campanha para a retirada de seu campus de uma estátua de Cecil Rhodes, um magnata das minas notoriamente racista, morto em 1902.

 

Gandhi morou na África do Sul por mais de duas décadas, de 1893 a 1914, trabalhando como advogado e lutando pelos direitos dos indianos – e só dos indianos. Como ele expressava abertamente, os sul-africanos negros praticamente não eram humanospara ele. Gandhi se referia a eles usando a expressão depreciativa kaffir.

Ele lamentava que os indianos fossem considerados “um pouco melhores que os selvagens ou os nativos da África”. Em 1903, ele declarou que a “raça branca na África do Sul deveria ser a raça predominante”. Quando foi mandado para a cadeia em 1908, ele detestou o fato de que os indianos eram colocados com os prisioneiros negros, não os brancos. Alguns ativistas sul-africanos têm colocado essa parte da história de Gandhi sob os holofotes novamente, assim como um livro publicado em setembro passado por dois acadêmicos sul-africanos, embora isso sequer tenha gerado arranhões na consciência cultural ocidental além dos círculos concêntricos do Tumblr.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/gana-vai-transferir-estatua-de-gandhi-acusando-de-racismo-20246632#ixzz4NN4rSxE0

Segregação vertical impacta trajetória das mulheres cientistas, apontam especialistas

 

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A discriminação contra a mulher na universidade e na ciência é um triste denominador comum entre todos os países do planeta. Esta foi a afirmação da presidente da Rede Francófona de Mulheres Responsáveis pelo Ensino Superior e Pesquisa (Resuff, na sigla em francês), Leila Saadé, que discutiu o assunto nesta quinta-feira, 15, no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), em São Paulo.

Saadé conta que pediu para incluir a universidade no título de sua apresentação porque, segundo ela, um problema muito grande da mulher cientista é a questão do poder dentro da universidade. Um problema histórico, que depende de transformações em sistemas culturais e sociais. “A mulher não é aceita no domínio do poder”, disse.

Segundo dados que ela apresentou, 58% dos mestrandos na França hoje são mulheres. Mas, à medida que se progride, a participação feminina diminui: elas contam 48% dos doutorandos; 23% dos professores titulares e apenas 10,5% dos presidentes das universidades francesas – número que caiu vertiginosamente desde 2008, quando 20% das universidades eram presididas por mulheres.

Mulheres na Ciência: novos olhares !

Créditos: Lugar de Mulher
Na Europa, os dados confirmam a tendência: apenas 11% dos altos cargos acadêmicos são ocupados por mulheres. “É como um tubo furado, que vai provocando perdas no percurso”, resume.

A pesquisadora, que é jurista por formação, aponta que a descriminação generalizada na universidade impacta na trajetória acadêmica das mulheres. E um fator que alimenta esse comportamento são os estereótipos que são inculcados nas pessoas desde a mais tenra infância.

“Uma pesquisa realizada pela Fundação L’Oréal sobre a percepção pública das mulheres na ciência mostrou que para 67% dos europeus, a mulher não está qualificada para ocupar cargos de alta função na ciência. E as explicações foram as mais ‘poéticas’ possíveis: as mulheres não tinham espírito prático, racional ou analítico. O que é mais grave é que mulheres compartilham a mesma percepção”, contou Saadé. O mesmo estudo foi feito na China, e os resultados foram semelhantes, segundo ela. “Os estereótipos impactam essa visão. O que nos ensinam, desde bebês, é isso”.

Teto de vidro

Para se conseguir reverter esse quadro, a jurista acredita que é preciso formar uma rede de ações para ajudar as mulheres a “quebrarem o teto de vidro”. Criar frentes que valorizem e incentivem o avanço da mulher cientista, que promovam um olhar para a trajetória de vida da mulher – que inclui a maternidade -, além de romper o círculo vicioso de projetos feitos por homens serem avaliados por homens e aceitos por homens. “Quanto mais houver uma rede feminina se espalhando por todas as esferas, mais avançaremos”, disse.

Saadé criticou ainda a falta de dados consistentes sobre a real situação da mulher na ciência e nas universidades. “Os indicadores ainda são muito imprecisos. É necessário elaborar índices que apresentem uma visão mais detalhada das mulheres para podermos desenhar estratégias mais precisas”, comentou, acrescentando que este é um dos pedidos da Unesco que a Resuff pretende desenvolver.

Observatório de Gênero na Universidade

Desde sua criação, em 2014, a Resuff, rede criada pela Agência Universitária da Francofonia (AUF), desenvolveu módulos de ensino a distância sobre gênero, oferecendo a mulheres ferramentas para capacitá-las em estratégias profissionais e institucionais. Além disso, a rede abriu uma chamada de propostas para a criação de um “Observatório de Gênero na Universidade”, que tem por objetivo justamente identificar os fatores que dificultam a ascensão de mulheres na universidade e oferecer instrumentos metodológicos de monitoramento e medição da evolução de suas carreiras. A ideia é que cada universidade participante tenha ao menos um representante da rede responsável por esse levantamento.

Saadé ressaltou que todo esse empenho deve ir na direção de fazer com que a questão da igualdade se torne um indicador de qualidade das universidades. “A primeira missão da universidade deveria ser formar cidadãos, dentro de uma política de igualdade. Depois se pensaria em formar bons médicos, bons físicos, bons juristas, bons matemáticos. Abrir mão da presença feminina é abrir mão de grandes potenciais “, concluiu.

Efeito tesoura

Carolina Brito, física e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi a debatedora da discussão. Para ela, a falta de bons indicadores é, de fato, um problema que atrapalha ter a real dimensão da situação das mulheres nas universidades e na ciência. Mas, a partir de dados espalhados, uma história vai sendo construída. E essa história é que, apesar de as mulheres serem a maioria entre os que concluem o ensino fundamental e médio, e a maioria nos cursos de graduação, quando se analisa a distribuição desses números, observam-se sérias discrepâncias.

“Quando olhamos a distribuição das mulheres por áreas, vemos que estamos segregadas”, afirma. Uma área crítica é a das engenharias: de 100 pessoas que concluem a graduação no Brasil, 15 se formam em alguma engenharia e apenas 5 são mulheres.

A segregação vertical é ainda mais notável. Na física, área que Brito estuda com mais profundidade, 30% dos alunos de iniciação científica são do sexo feminino. No mestrado, esse percentual cai para 20%; doutorado, 15%; até que apenas 5% das bolsas de pesquisa nível 1A são de mulheres. “É o chamado efeito tesoura. Ao subir na carreira, o percentual de mulheres cai”, comenta, corroborando os dados apresentados por Saadé.

Além do preconceito implícito, da questão família e carreira, e da falta de modelos femininos na alta hierarquia acadêmica, um fator de alto impacto, que precisa ser analisado são os comitês científicos, que avaliam projetos e pesquisadores. “No comitê de física do CNPq, apenas 10% dos membros são mulheres. Na farmácia, área tradicionalmente dominada pelas mulheres, 100% do comitê é masculino”, destacou a pesquisadora.

Brito é coordenadora do projeto Meninas na Ciência, ação de extensão do Instituto de Física da UFRGS desde o final de 2013, e, segundo ela, o efeito tesoura traz um desafio ainda maior para se compreender e promover a equiparação de gêneros na academia. “O efeito tesoura é muito dramático porque a gente poderia pensar que a entrada na ciência é uma solução. Mas esse fenômeno mostra que despertar esse desejo não é suficiente”, analisou.

Nota do Managing EditorEsta matéria é de autoria de Daniela Klebis para o Jornal da Ciência foi veiculada em 16 de setembro de 2016. A ilustração apresentada não consta da matéria original e foi introduzida pela Editoria do Boletim.

Estudantes querem a descolonização das universidades na África do Sul

mediaBloqueio hoje junto da universidade de Witwatersrand, Joanesburgo.Reuters/ Siphiwe Sibeko

Entrou hoje na sua quarta semana o movimento estudantil contra a decisão governamental anunciada há cerca de um mês de aumentar em 8% do valor das propinas universitárias na África do Sul. Este movimento cujo epicentro se encontra na prestigiosa universidade de Witwatersrand em Joanesburgo tem sido igualmente activo em outras cidades do país, designadamente Pretoria, a Cidade do Cabo ou ainda na universidade de Free State, no centro da África do Sul.

Este movimento que tem sido marcado por vezes por alguma violência, confrontos com a polícia tendo eclodido ainda hoje junto da universidade de Witwatersrand, não fraquejou apesar de certas universidades terem decidido reabrir as suas portas depois de dias de bloqueio e apesar também do executivo de Jacob Zuma ter decidido ontem formar uma comissão específica para estudar meios de estancar a crise.

Na base do protesto que já tinha ocorrido no ano passado até ao governo ter que recuar no seu intuito de aumentar o valor das propinas, está a promessa feita há décadas pelo ANC no poder de oferecer uma educação gratuita para todos. Contudo, mais de vinte anos depois do fim do apartheid, as desigualdades sociais continuam bem patentes: dados oficiais datando de 2014 indicam que 27,5% de estudantes brancos obtiveram o seu diploma contra pouco mais de 5% de estudantes negros.

Neste contexto em que diferenças de tratamento continuam a ser sentidas pela parte mais desfavorecida da população sul-africana, as reivindicações dos estudantes vão para além da exigência da gratuidade dos estudos universitários e passam pelo que chamam de “descolonização” da faculdade, o que do ponto de vista de Thomas Hausen, professor universitário em Pretoria, dá um cariz político a este movimento.

 

http://pt.rfi.fr/africa/20161012-protesto-estudantil-na-africa-do-sul-entra-na-quarta-semana

África do Sul regista nova onda de confrontos em universidades entre polícias e estudantes

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No “campus” de Witwatersrand, em Joanesburgo, um grupo de estudantes atacou com pedras seguranças privados e polícias que proibiam o acesso a um edifício da universidade e que responderam com gás lacrimogéneo, balas de borracha e canhões de água.

Uma representante do conselho de estudantes diz que “se houver alguma perda no programa académico, não será culpa dos alunos, mas do governo e do Estado, que falham em dar resposta a uma crise nacional, que não emergiu ontem, mas que cresce há muitos anos e que resultou no que vemos agora”.

Na Universidade de Stellenbosch, no sudoeste do país, um grupo de estudantes decidiu avançar com uma greve de fome, depois de se terem visto suspenso por participarem nos protestos.

Universidade de Stellenbosch.jpg

Um dos contestatários explica que decidiram iniciar a greve de fome porque foram “suspensos pela universidade de forma ilegal, sem que lhes fossem dadas quaisquer razões legais para a suspensão, […] para silenciar o movimento estudantil”.

Os protestos tiveram início no meio de setembro, depois do governo ter autorizado um aumento de até 8 por cento nas propinas universitárias para 2017. A grande maioria dos estudantes reclama um ensino gratuito e o movimento de contestação já degenerou em várias ocasiões em violência.

Fonte: Euronews/LD