Vereadora negra de Niterói é ameaçada de morte

Talíria Petrone

Publicado no Brasil de Fato

Única mulher negra e feminista na Câmara Municipal de Niterói (RJ), Talíria Petrone, 32 anos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vem sofrendo ameaças desde o início do mandato.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ela conta como a violência das redes sociais logo se transformou em ameaças reais à sua integridade. No entanto, afirma que embora tenham reforçado a sua segurança, o movimento maior não é de recuo.

A vereadora classifica a execução da também vereador e amiga Marielle Franco, ocorrida há um mês no Rio de Janeiro, como uma tentativa de amedrontamento dos ativistas dos direitos humanos. “Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Marielles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava”, disse.

Na última quarta-feira, 28 de março, a Polícia Civil identificou e interrogou um homem que ameaçava a vereadora Talíria de morte. A parlamentar havia registrado queixa em novembro na 76ª Delegacia de Polícia, em Niterói, depois de receber ligações sistemáticas do suspeito onde ele afirmava que iria explodir a sede do partido com uma bomba.

De acordo com a assessoria da vereadora, o suspeito teria admitido à polícia que fez as ameaças “por motivos políticos”.

Segundo informações divulgadas na imprensa, o suspeito prestou depoimento, mas não foi detido, pois as ameaças configuram como um crime de menor potencial.

taliria.1abConfira a entrevista com a vereadora.

Brasil de Fato: Primeiro gostaria que falasse um pouquinho como você a violência que leva a mortalidade de candidatas e candidatos sendo uma ferramenta do jogo político, que é o que os dados mostram.

Talíria Petrone: Acho que a gente chegou num patamar no Brasil que tem como culminância o assassinato da Marielle. É o ataque ao resto de democracia que não se completou no Brasil e já vem há um tempo uma polarização que cresce no setor de extrema direita, do ódio que se soma a violência na política. É uma urgência que os olhos internacionais se voltem para o Brasil para interromper esse processo de ataque a essa democracia incompleta porque é a possibilidade hoje de dizer, de denunciar a agir nos mínimos marcos da democracia burguesa.  O que eu espero neste momento é que a gente tenha cada vez mais os olhos no mundo. Entendemos que o Brasil é o país que mais assassina ativistas de direitos humanos e o quanto a liberdade de fazer denúncias têm sido interrompida.taliria.1a

 Sim, perfeito. E Talíria, há relatos inclusive de outros companheiros do PSOL que você mesmo estaria sofrendo ameaças sistemáticas de morte, você confirma?

Desde o início do mandato vimos a violência que se manifesta muito nas redes. Recebi mensagens desde “neguinha nojenta”, “volta pra senzala”, até “merece uma 9mm na nuca”, “se eu encontrar mato na paulada”, até que em novembro culminou em ligações sistemáticas para a sede do PSOL em Niterói, pedindo  telefone da “piranha que o povo elegeu”, e dizendo que iria explodir uma bomba. A gente registrou uma queixa na DP 76, agora com isso tudo nada pode ser desprezado. Estamos mais atentos. Tem uma coisa que é apurar o que aconteceu com a Mari [Marielle] mas do que quem apertou o gatilho, mas quem mandou matar e de que esfera do poder veio a ordem porque sabemos que é um crime político, precisamos saber da onde veio esse recado. Essa tentativa de silenciamento das nossas pautas.

Por último, queria que você falasse um pouco quais são as medidas que seu gabinete e o PSOL tomam para garantir sua segurança, algo mudou? 

A gente está conversando com especialistas, não tem muitos detalhes, mas o mais breve possível estaremos circulando de forma mais segura pela cidade. Já estamos tomando mais cuidado e formalizando medidas para andar mais seguro. Acho que é importante dizer que embora estejamos tomando medidas de maior precaução, a gente não está dando nenhum passo atrás. Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Meirelles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava.

Mortes de políticos

Dados compilados pelo Brasil de Fato a partir de dados públicos do TSE, o Datasus e por meio de notícias veiculadas pela imprensa revelam que cerca de 90 prefeitos e vereadores em exercício foram assassinados no Brasil entre 2008 e 2018.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/merece-uma-9-mm-na-nuca-vereadora-do-psol-amiga-de-marielle-e-ameacada-de-morte/

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A esquerda quer ignorar que Marielle era negra . Por Cidinha da Silva

Marielle Franco. Foto: Wikimedia Commons

A disputa de narrativas em torno da execução de Marielle Franco evoca atitudes e afetos diversos. Dos que compõem os grupos de pessoas e causas pelos quais lhe roubaram a vida, exige-se, sobretudo, ética. Não nos é permitido chafurdar em disputas de likes no noticiário carniceiro.

Do campo da esquerda, no qual ela buscou abrigo para vociferar que era mulher, negra e de favela, atenta ainda às questões LGBT, de religiões de matriz africana, de direitos humanos e de segurança pública, espera-se escuta ética e aquiescência para compreender que Marielle encarnava o sujeito alquímico, nominado pela antropóloga Mary Garcia Castro, nos anos 1990.

Ao mesmo tempo, uma narrativa de direita briga por espaço no imaginário dos brasileiros. Esta construção é capitaneada pela mídia golpista que busca esvaziar Marielle Franco de suas complexidades humanas e políticas, tornando-a “mártir de todos”, vítima da violência e da corrupção em espectro amplo, logo, um marionete utilizável por (e para) interesses espúrios, contrários a seu ideário e prática de vida libertários.

A dificuldade maior de combater esta investida da mídia golpista é seu largo alcance, os números massivos de pessoas atingidas pela TV e pelo rádio e que têm essa forma de veiculação filtrada de notícias como fontes prioritárias de acesso à informação e a versões do mundo.

Desde programas dominicais vistos pela maior parte das famílias brasileiras de baixa renda a instruções dadas pelos chefes da Agência Brasil (Empresa Brasileira de Comunicações – EBC) para que editores e repórteres não cubram as manifestações públicas de resistência (no Brasil e no mundo) aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, restringindo-se à cobertura das investigações.

Por outro lado, valendo-se dos próprios corpos, de cartazes e discursos que consolidam a resistência à tentativa de silenciamento da luta contra o racismo, a misoginia, a supressão de direitos, o arbítrio militar em suas várias expressões, erguem-se novos sujeitos com agência e potência para enfrentar a necropolítica. São pessoas, coletivos políticos, organizações sociais diversas que buscam produzir uma narrativa dinâmica que respeite a trajetória e a memória de Marielle Franco.

Em meio a esses extremos encontra-se o campo partidário da esquerda que deveria fechar com as pessoas e coletivos empenhados em resguardar a memória de Marielle Franco, mas não o fazem, e tentam transformá-la em grande defensora das bandeiras de um partido político.

Na real, a maioria dos políticos negros do PSOL, pelo menos aqueles articulados no movimento “Vamos de preto?”, do qual Marielle foi uma das fundadoras, tem na temática racial a centralidade de sua luta. O PSOL, esta é uma leitura pessoal, não é um excerto de fala do movimento, tem sido o abrigo possível no cenário dos coeficientes eleitorais que permitem a eleição desses políticos negros.

É óbvio que o partido e a esquerda como um todo sabem do seu lugar de guarda-chuva e se ressentem, e querem o seu quinhão, querem capitalizar a figura de Marielle Franco mesmo que desvirtuem seu legado.  Não se constrangem em passar o rodo nas questões centrais do ativismo político de Marielle, tentam transformá-las em mera figura de linguagem, em nome da suposta centralidade do socialismo ou coisa que o valha. Na prática, o fazem em nome da velha subordinação da quimera racial às questões da luta de classes e também do “agora, vocês (negros) querem protagonizar tudo”.

Há 20 anos quando Sueli Carneiro afirmou em entrevista antológica que, “entre esquerda e direita, continuava preta”, outras coisas igualmente importantes foram ditas. Uma delas que, sim, era preta entre um lado e outro, mas tinha lado e não era a direita. Outra, que a direita tinha um projeto para a população negra e ele era conhecido de todos, o projeto da esquerda, por sua vez, não era público.

Seria isso mesmo? Desde aqueles tempos já sabíamos qual o projeto da esquerda para nós e Sueli, mais do que ninguém o sabia, porém, talvez, ela estivesse dando uma chance para a esquerda se posicionar publicamente e também para se rever. Nenhuma das duas coisas aconteceu.

E a disputa protagonizada pela esquerda sobre a narrativa da execução de Marielle Franco, demonstra, cabalmente, que seu projeto para os negros dentro dos partidos é de inclusão subordinada. Tomara que eu esteja errada, que as vozes do PSOL se levantem e expliquem as coisas e que os negros e negras de partidos de esquerda contra-argumentem.

Enquanto isso, que a esquerda compreenda que a força política das mulheres negras representada e robustecida por Marielle Franco é incontornável. O Brasil, pós-genocídio, como Ruanda, será refundado pelas mulheres negras que proporão um novo pacto civilizatório.

Que compreenda também que Marielle Franco e outras parlamentes, a exemplo de Áurea Carolina, em Belo Horizonte, e Talíria Petrone, em Niterói, não por coincidência, mulheres negras eleitas com expressivas votações no pleito municipal de 2016, são sujeitos alquímicos. Em outras palavras, são seres políticos capazes de defender e coordenar diferentes causas e pautas sem hierarquizá-las, fazendo alquimia, tirando leite de pedra, transformando chumbo em ouro a partir da ancestralidade que as sustenta.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-esquerda-quer-ignorar-que-marielle-era-negra-por-cidinha-da-silva/

Senegaleses denunciam violência policial em Florianópolis

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Na história recente da imigração no Brasil, começamos a receber os  senegalenses ou senegaleses , que vem tentar uma vida melhor no Brasil, a principal razão da vinda é econômica. São muitas as dificuldades econômicas no Senegal, muito desemprego, e como consequências temos uma parcela da juventude que atravessa o oceano Atlântico para vir tentar arrumar trabalho.

A população brasileira não está acostumada a receber imigrantes africanos, além do estranhamento inicial, há o racismo e a xenofobia. Enfrentam muitos problemas de adaptação no Brasil que vai da língua,  religião e os costumes e os problemas começam a surgir:

A  cidade de Florianópolis  tem recebido muitos senegaleses , uma cidade onde a temos um nmenores percentuais da população negra do país, a chegada de imigrantes não é bem recebida por parte da população e a violência policial que atinge indiscrimindamente os negros do país, atinge também os senegaleses

Um grupo de senegaleses fez uma manifestação no Centro de Florianópolis na tarde da sexta-feira, dia 7 de março. Eles reclamavam de uso de violência por parte da Polícia Militar e da Guarda Municipal quando são abordados na cidade. Muitos deles são vendedores ambulantes.

“A violência começou nessas situações, quando eles vendem materiais, mas se estende para outras situações de abordagens. Eles têm sido coagidos e tem tom de ameaças para eles”, explica Janaina Santos, doutoranda de Antropologia que estuda migrações e acompanhou a manifestação. Segundo ela, muitos dos imigrantes dizem que são abordados só por estarem com uma mochila andando na rua, por exemplo.

 

O ambulante senegalês Boubacar Dieyê reclamou do tratamento policial: “A polícia está tratando mal. Está batendo. Está botando [gás] lacrimogêneo”. Ibratima Ndoye resumiu a falta de segurança: “Eu tenho medo de Floripa. Tenho muito medo de andar em Floripa”.

“Se você é preto, senegalês ou haitiano, coloca uma mochila e passa perto da polícia, eles falam ‘ei, parou. O que tem dentro da mochila'”?, relatou o ambulante Elhadji Ngom.

 

Há relatos ainda de invasão de suas casas, abordagens quando estão andando nas ruas e expulsão de lugares públicos. De acordo com um depoimento, um casal de senegaleses que estava tomando café na manhã em uma padaria foi retirado .

 

É necessário que os brasileiros manifestem sua solidariedade aos senegaleses, no mínimo pelo ideais pan africanos de entender que tem um laço histórico que nos une.

“O Caso do Homem Errado”, de Camila de Moraes

Documentário “O Caso do Homem Errado”, de Camila de Moraes, é segundo longa-metragem dirigido por uma mulher negra exibido comercialmente no país. Filme aborda violência policial contra negros.

Camila Moraes segura cartaz de seu filme em manifestação contra violência policial contra negros, em Porto AlegreCamila de Moraes segura cartaz de seu filme em manifestação contra violência policial contra negros, em Porto Alegre

Pela segunda vez na história do cinema brasileiro, um longa-metragem dirigido exclusivamente por uma mulher negra chega ao circuito comercial. O Caso do Homem Errado, da diretora Camila de Moraes, entra em cartaz no dia 22 de março em Porto Alegre.csm_18122017NR2028_e43ede1f4e

O longa documentário aborda a violência policial contra a juventude negra. Ele foi selecionado em 2017 para o Festival de Cinema de Gramado e ganhou o prêmio de melhor longa-metragem no 9º Festival Internacional de Cine Latino – Latinuy.

A última vez que um longa dirigido por uma negra chegou ao circuito comercial foi em 1984, com o filme de ficção Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra do Brasil.

De acordo com levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (GEMAA-UERJ), a participação das mulheres em cargos de direção em filmes brasileiros aumentou nas últimas décadas, passando de 3% nos anos 1980 para 10% em 2016. Mas isso não inclui mulheres negras.

Segundo dados da Ancine, dos 142 longas-metragens brasileiros lançados nos cinemas em 2016, 75,4% dos diretores são homens brancos, e 19,7%, mulheres brancas, enquanto homens negros representam apenas 2,1%, e mulheres negras não assinaram nenhuma produção.

Essa ausência nas salas de cinema, no entanto, não condiz com o atual cenário de profissionais e cineastas negros no Brasil. Exemplo disso é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe, que em 2017 chegou à sua décima edição contando com 66 produções nacionais.

Para Renato Cândido, vice-presidente da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), a ausência de diretoras negras em cartaz ao longo de 34 anos mostra uma estrutura racista institucionalizada.

“Se os cargos de decisão estão nas mãos de homens brancos. as narrativas dessa branquitude também serão preponderantes”, afirma ele.

O Caso do Homem Errado conta a história de Júlio Cesar de Melo Pinto, homem negro que foi executado pela polícia de Porto Alegre em 1987.

Detido como sendo um dos assaltantes de um supermercado, o operário tinha saído de casa sem RG e sofreu um ataque epilético antes de ser preso erroneamente pela Brigada Militar. Júlio César foi fotografado sendo colocado com vida na viatura, mas meia hora depois chegou ao pronto socorro morto, baleado por dois tiros.

Embora tenha acontecido há mais de 30 anos, o episódio continua atual. Segundo o Mapa da Violência divulgado em 2017 pelo escritório brasileiro da ONU, a cada dez pessoas assassinadas no Brasil, sete são negras. Negros têm 12 vezes mais chances de serem assassinados no Brasil do que não negros. E, dos jovens de 15 a 29 anos, um negro é morto a cada 23 minutos.

Gravação de O Caso do Homem Errado, de Camila MoraesLonga conta a história do operário negro Júlio Cesar de Melo Pinto, que foi executado pela polícia de Porto Alegre em 1987

Os percalços até a sala de cinema

Entre os entraves para chegar à exibição comercial, Moraes aponta tanto a dificuldade para obter financiamento quanto o racismo institucional.

Ela conta que o processo para viabilizar O Caso do Homem Errado começou em 2010 e, apesar da parceria com uma produtora de cinema, só se concretizou a partir do apoio financeiro da comunidade negra de Porto Alegre.

A cineasta conta emocionada que está desde maio procurando uma distribuidora, mas nenhuma se interessou. Para Moraes, isso acontece porque muitos não consideram o tema do racismo relevante.

“Em uma delas, a pessoa me falou que o nosso filme não tinha o perfil. Mas não é a família dela que está sendo morta. Enquanto a sociedade brasileira não entender que a população negra está sendo morta, nosso filme nunca vai ter o perfil”, afirma.

Sem distribuidora, o trabalho de regulamentar o filme e de negociar com as salas de exibição está sendo feito por ela e por Mariani Ferreira, que também é negra e assina a produção executiva do filme.

“Estamos negociando com salas de outras cinco capitais [além de Porto Alegre], é um processo de formiguinha”, explica Moraes.

Segundo Cândido, parte dos filmes produzidos por cineastas negros tem melhor repercussão no exterior do que nacionalmente. “É difícil dialogar com o mercado. Ele quase nunca nos enxerga como consumidor, como narrativa que possa vender, temos que criar nossas distribuidoras e parques de exibição. Mas ao mesmo tempo estamos tentando construir diálogos.”

Enquanto isso, apesar de o documentário de Moraes alcançar o feito de ser o segundo longa-metragem de uma diretora negra a ser exibido comercialmente no Brasil, Adélia Sampaio continua sendo a última e única a ocupar o posto quando se trata de um longa de ficção, com seu filme de 1984.

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http://www.dw.com/pt-br/após-34-anos-brasil-volta-a-ter-diretora-negra-em-cartaz/a-42959768

Dezenas de milhares de pessoas protestam pelo Brasil e na Europa

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O deputado estadual Marcelo Freixo discursou em frente à Assembleia, no Rio de Janeiro

Milhares protestam no Rio e em SP contra assassinato de Marielle – Rio de Janeiro

No começo da noite, uma multidão em frente à Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) pedia por justiça numa das maiores manifestações de grupos de esquerda desde os protestos de junho de 2013.

A Polícia Militar do Rio não divulga estimativas de público.Em São Paulo, o ato no vão livre do Masp chegou a bloquear a avenida Paulista também no começo da noite.

O protesto conseguiu unir sob uma mesma pauta as diversas correntes do pensamento de esquerda do Rio. Em razão da proximidade das eleições, os grupos estavam divididos, com parte apoiando o nome de Lula e parte de um possível candidato do PSOL a Presidência. A candidatura de Guilherme Boulos, por exemplo, pelo PSOL e com a bênção de Lula, gerou um racha interno do partido.

Leia também: ‘Foi um ato covarde’, diz irmã de vereadora assassinada no Rio

Na manifestação desta quinta, as diferenças eleitorais foram postas de lado, explicou o militante do PCB Vinícius Brandão, 18. “A luta da Marielle era pelos trabalhadores. Então, as diferenças estão de lado nessa marcha em memória dela.”Em coro, as pessoas pediam justiça e o fim da Polícia Militar. Eles entoavam cânticos como “Sem hipocrisia, a PM mata gente todo dia” e “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem mexeu com a Marielle atiçou o formigueiro”.

Na escadaria da Assembleia, carregavam faixas que diziam “Quem matou Marielle Franco?” e “Não Recuaremos, Marielle vive”.

O deputado estadual Marcelo Freixo discursou em frente à Assembleia.

“Nem que seja a última coisa que eu faça na vida, vou descobrir quem fez essa covardia”, disse.

Por volta das 18h30, manifestantes saíram em direção à Candelária, enquanto outro grupo seguiu para a Cinelândia, local de início do ato no começo da tarde, em frente à Câmara do Rio, onde foram velados os corpos de Marielle e do motorista Anderson Gomes. Uma multidão de manifestantes levou flores e cartazes contra a intervenção federal na cidade. Eles também fizeram coro contra a Polícia Militar.

Políticos e colegas da Câmara também estiveram no local. Uma das principais lideranças do PSOL, o deputado federal Chico Alencar fez um discurso na escadaria do Palácio e disse que as famílias pediram uma cerimônia reservada.

Ele disse que há “opressão” e pediu uma vigília em memória à vereadora, com “serenidade”. Os organizadores do ato se revezaram em discursos na frente da Câmara, nos quais repetiram o lema “Marielle, presente”, e na leitura de notas de pesar de movimentos de todo o país.

A cantora Zelia Duncan esteve no ato e disse que o momento é de luto e pediu mobilizações de rua. Manifestantes colaram cartazes em memória à vereadora e jogaram tinta vermelha em um monumento e na fachada do prédio da Câmara.Líderes religiosos participaram do ato e pediram orações. Roberto Cavalcanti, da Assembleia de Deus, disse que o crime representa a morte “da esperança”. Com informações da Folhapress.

Marielle e Movimento negro estão no centro das preocupações do Planalto

As manifestações de protesto contra a intervenção federal no RJ e a policia militar estiveram  no centro das preocupações do Governo Federal

Manifestação na Câmara dos Deputados. JOÉDSON ALVES (EFE) / VÍDEO: REUTERS-QUALITY

Os brutais assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes e a comoção e mobilização provocadas pelo episódio emparedaram o Palácio do Planalto empenhado em transformar eventuais resultados em segurança pública em uma bandeira eleitoral do Governo. A investigação dos crimes está em vias de ser oficialmente federalizada a pedido do Ministério Público. Se o for, pode ser uma nova dor de cabeça para o presidente Michel Temer (MDB), o responsável por decretar a intervenção na área de segurança do Estado. O planejamento do interventor, o general do Exército Walter Souza Braga Netto, nem foi apresentado e ele já terá de lidar com uma delicada apuração que pode envolver policiais e/ou milicianos que atuam nas comunidades onde Marielle transitava.faixa

Sabendo do potencial explosivo desta crise, Temer convocou uma reunião de emergência para a manhã desta quinta-feira, menos de 12 horas após o duplo homicídio. Sem detalhes das apurações policiais, pouco podia ser feito. Ao seu lado na hora de tomar decisão, dois generais(Sergio Etchegoyen, do GSI, e Carlos Alberto Santos Cruz, secretário-executivo do ministério da Segurança), além de dois ministros sem know-how na área de segurança (Eliseu Padilha, da Casa Civil, e Moreira Franco, da Secretaria-Geral). Os resultados do encontro: 1) colocar a Polícia Federal à disposição do Estado para as investigações e; 2) enviar o diretor-geral da PF, Rogério Galloro, e ministro extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, imediatamente para o Rio. Ambos estavam em uma solenidade em Fortaleza, no Ceará, e participariam de um encontro com secretários estaduais de segurança em Brasília. Suspenderam o segundo compromisso para sinalizar aos cariocas a preocupação da gestão federal com o caso. Nas suas redes sociais, Temer ainda disse que o crime era um atentado à democracia. “Não destruirão o nosso futuro. Nós destruiremos o banditismo antes”.são paulo1

Já no Rio, Jungmann disse que o crime já estava federalizado e comentou o pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, para que ele seja investigado pela Polícia Federal. “A rigor, esta investigação já está federalizada, porque temos uma intervenção federal no Estado. Estamos todos trabalhando juntos, mas se ela entende que há necessidade de deslocamento de competência, se ela entende a necessidade de participação maior do que já vem acontecendo, da Polícia Federal, obviamente que nada temos a obstaculizar”, disse, acrescentando que há “confiança no trabalho que está sendo desenvolvido pela Polícia Civil”.são paulo1a.jpg

Tentando mostrar compromisso com o Rio, mais uma autoridade tratou do assunto em nome do Palácio do Planalto, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun. Ele defendeu a intervenção federal e disse que, por causa dela, os assassinos de Marielle e Anderson serão encontrados. “A morte da vereadora é só mais uma evidência de que estamos no caminho certo ao decretarmos a intervenção no Rio de Janeiro. (…) Temos certeza que, em função da intervenção, em breve teremos esse crime esclarecido”, disse.

Combustível para militância

Quatro dias antes de ser morta, a vereadora Marielle criticou a atuação policial na comunidade de Acari. “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a população! CHEGA de matarem nossos jovens!”, afirmou em seu Twitter.

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Conhecida por ser corajosa, ela não media suas palavras ao reclamar do que considerava uma injustiça. Sua família temia que, ao se tornar vereadora, ela poderia amplificar essa indignação, mas também se transformar em uma vítima. O deputado federal Chico Alencar, colega de partido de Marielle, relatou que a mãe da vereadora temia seu assassinato por ela ser muito “briguenta”. Mas desconhece se ela havia sofrido alguma ameaça. “Ela incomodava pequenas e grandes máfias”, relatou, sem denominar quem seriam os incomodados.

Na Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira, foi possível aferir a dimensão de como o duplo homicídio pode ter reacendido a chama dos movimentos sociais. Um ato convocado para ocorrer em um anexo do Legislativo foi transformado em sessão solene no plenário da Casa. A sala, que comporta cerca de 600 pessoas sentadas, estava lotada. Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara e conhecido opositor do PSOL, autorizou a sessão e a presidiu do início ao fim. Assim como Miro Teixeira (REDE-RJ), Maia chamado de golpistas, porque ambos votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016.

Os ânimos estavam exaltados. Dezenas de pessoas choravam. Outras faziam gritos de guerra. Manifestantes, carregando girassóis, empunhando bandeiras de movimentos negro e LGBT, pediram o fim da Polícia Militar e o impeachment de Temer. Quando questionado ao fim do ato o que sentiu ao ser hostilizado, Maia disse que esse era um protesto natural da democracia. E que o atual momento da vida política brasileira exige equilíbrio. Os próximos dias serão fundamentais para saber a dimensão dessa crise

 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/politica/1521148883_128688.html