Os direitos humanos das mulheres na Etiópia

Decorreu hoje, no Parlamento Europeu, a Conferência Women’s Inferno in Ethiopia, The Plight of Women from Ogaden, Oromo, Benishangul-Gumuz, Gambella & Sidama, evento em que a eurodeputada Liliana Rodrigues foi a anfitriã, numa organização conjunta entre o seu gabinete, a Unrepresented Nations & Peoples Organization e a People’s Alliance for Freedom and Democracy.

O principal objectivo da conferência foi contribuir para que a sistemática violação dos direitos humanos, principalmente das mulheres, que ocorre na Etiópia vai para 26 anos, continue na agenda do dia do Parlamento Europeu e dos seus Estados Membros, sensibilizando para a tomada de medidas concretas com vista à resolução desta situação.

Perante uma plateia que ultrapassou a centena de pessoas – integrando também um grupo de visitantes da Região Autónoma da Madeira -, Liliana Rodrigues, representantes de vários movimentos de oposição da Etiópia, activistas dos direitos humanos e das mulheres e também a eurodeputada Julie Ward, apresentaram relatos emotivos acerca da violência praticada pelo governo etíope. Sobressaiu o momento em que Denboba Natie, da Frente de Libertação Nacional de Sidama, discursou em pé e pediu que todos se levantassem em homenagem àqueles que sofrem e morrem na Etiópia. No decorrer dos dois painéis, fez-se não apenas o diagnóstico, mas também se apontaram caminhos a seguir no relacionamento da União Europeia com este país, nomeadamente a necessidade de repensar as ajudas ao desenvolvimento e as humanitárias, assim como a criação de um mecanismo europeu encarregue de supervisionar se esse dinheiro chega realmente onde e a quem dele necessita.

Para Liliana Rodrigues, apesar das resoluções do Parlamento Europeu e das declarações do Serviço Europeu para a Ação Externa, a resposta internacional à questão da Etiópia tem sido, de forma geral, muito discreta face à repressão nas diferentes regiões etíopes, aos desaparecimentos forçados, às violações, às detenções arbitrárias, à expropriação de terras e outros meios de subsistência ou aos continuados ataques à liberdade de expressão e de associação.”

A necessidade de uma política integrada face à Etiópia e a todos os países que falham nos seus compromissos relativos aos direitos humanos, à democracia e ao Estado de Direito deve ser uma prioridade da União Europeia, não podendo, no entender de Liliana Rodrigues, “utilizar-se a ajuda internacional como uma ferramenta política ao serviço do governo, nem permitir que o desenvolvimento esteja apenas ao alcance daqueles que são próximos do poder”. Para a eurodeputada, algumas das medidas a tomar passam por “uma monitorização mais proactiva da ajuda à Etiópia e a vinculação da nossa política comercial às suas obrigações em termos de direitos humanos, o mesmo valendo para a responsabilidade das multinacionais a operar e a lucrar em solo etíope”.

Perante os inúmeros relatos e factos apresentados, Liliana Rodrigues mostra-se especialmente preocupada com a situação das mulheres e meninas etíopes: “É impossível não ficarmos impressionados com os relatos na primeira pessoa. Com relatos de elementos do exército e das forças de segurança a violarem mulheres em público, algumas vezes na presença dos seus maridos e filhos. A crueldade com que a violência sexual é cometida desafia toda a descrição e compreensão. A violação está a ser usada como arma de guerra, como forma de subjugar a população e como vingança face a opositores políticos. Essas mulheres e meninas estão a ser atacadas não apenas para desumanizá-las, mas também para humilhar, punir, controlar e infligir medo sobre a população civil”.

No final da Conferência, houve ainda tempo para uma breve troca de impressões entre os oradores, os elementos do público e o representante da Embaixada da Etiópia.

http://www.dnoticias.pt/mundo/liliana-rodrigues-alerta-para-o-drama-das-mulheres-na-etiopia-BA1103300

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Liga dos Direitos Humanos de Guiné Bissau descreve quadro sombrio

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A cidade de Bissau acolhe nesta segunda-feira, 6, uma conferência internacional sobre direitos humanos, numa altura em que os debates no país estão a ser animados pelos crimes cometidos por parte dos agentes policiais contra civis.

Há casos também de alegados suicídios, em circunstâncias duvidosas e mortes por tortura nas celas de esquadras policiais, assim como as péssimas condições nos centros prisionais em Bissau, concretamente, na 2a esquadra e na Polícia Judiciária.

Neste cenário, acrescenta-se ainda a violência contra as mulheres e crianças, os casamentos precoces e a mutilação genital feminina, um fenômeno que a lei ainda não consegue conter, mesmo com as medidas punitivas previstas na legislação.

O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Augusto Mário da Silva, apresentou um quadro sombrio da violação dos direitos do homem na Guiné-Bissau, e afirmou que os direitos humanos não têm sido uma das prioridades do Estado guineense.

“Depois de mais de 40 anos da independência, a problemática dos direitos humanos continua longe das prioridades dos sucessivos inquilinos do poder, fazendo da Guiné-Bissau parte integrante de uma lista restrita de países sem nenhum plano ou estratégia nacional pública de promoção e respeito pelos direitos humanos”, acusou Silva.

Participam na conferência, representantes de organizações internacionais, sobretudo da sub-região africana.

O presidente do Parlamento, Cipriano Cassamá, aproveitou a abertura do evento para deixar um apelo à classe política guineense para respeitar o Acordo de Conacri.

“Apelo à classe política, com ênfase ao Presidente da República para colocarmos os interesses dos guineenses em primeiro lugar, deixando de lado as nossas querelas, as nossas divergências pessoais e partidárias e assim implementar o acordo de Conacri”, sublinhou.

Fonte:http://www.voaportugues.com/a/direitos-humanos-debate-guine-bissau/3708102.html

Nigéria: Mil dias em cativeiro, nas mãos do Boko Haram.

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O movimento “Bring Back Our Girls” organizou uma nova marcha na capital da Nigéria para pedir ao governo ações concretas para obter a libertação das chamadas “raparigas de Chibok”, sequestradas a 14 de abril de 2014 pelo grupo extremista no Estado de Borno, no nordeste do país.

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“A resposta da administração Buhari à questão das raparigas de Chibok é representativa da forma como lida com outros assuntos, como a insegurança, os deslocados internos, o Exército, a corrupção e a fraca governação.”

O rapto de 276 estudantes do colégio feminino de Chibok representa, até à data, o maior sequestro perpetrado pelo Boko Haram.

O líder do grupo extremista, Abubakar Shekau, afirmou na época que seriam tratadas como “escravas”.

O governo do presidente Muhammadu Buhari negociou a libertação de 21, perto de seis dezenas conseguiram fugir e 195 continuam em cativeiro.

http://pt.euronews.com/2017/01/08/nigeria-raparigas-de-chibok-estao-ha-mil-dias-nas-maos-do-boko-haram

Burkina Faso a violação dos direitos humanos

É um dos maiores flagelos a nível mundial em matéria de violação de direitos humanos. Todos os anos, 15 milhões de meninas são obrigadas a tornar-se esposas, muito antes de se tornarem mulheres. As consequências podem ser desastrosas para o seu futuro
Maria tinha apenas 13 anos quando a vida e as tradições do seu país, o Burkina Faso, lhe pregaram uma partida. O pai obrigou-a a casar com um homem de 70 anos, que já tinha cinco mulheres, e não lhe deixou margem de manobra para recusar. «Ameaçou-me, e disse que se eu não me juntasse ao meu marido, me matava», contou a menina aos investigadores da Amnistia Internacional (AI). Encurralada, encheu-se de coragem e fugiu de casa. Caminhou a pé, durante vários dias, para cumprir os quase 170 quilómetros que a separavam de um abrigo para sobreviventes de casamentos forçados, em Kaya, no nordeste do país.

Maria livrou-se de um destino que tinha tudo para ser madrasto, mas nem todas as adolescentes apanhadas nas malhas dos casamentos precoces têm a mesma sorte. Por dia, cerca de 41 mil menores de 18 anos são forçadas a casar em todo o mundo, e até ao final deste ano, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estima que mais de 15 milhões de meninas sejam obrigadas a contrair matrimónio, antes de atingirem a maioridade. Se a atual tendência se mantiver, a agência da ONU prevê que, até 2030, o número de meninas e mulheres que se casaram ainda crianças chegue a um bilião.

São cifras demasiado altas e preocupantes, tendo em conta que o casamento infantil é uma violação dos direitos das mulheres. «Meninas que se casam ainda crianças estão mais propensas a abandonarem a escola, a serem vítimas de violência doméstica, a contraírem Sida e a morrerem vítimas de complicações durante a gravidez ou o parto, pois o seu corpo normalmente não está pronto para dar à luz. Além disso, este tipo de união é danosa para a economia e fomenta ciclos inter-geracionais de pobreza», alertam os responsáveis da UNICEF.

O caso do Burkina Faso, retratado no mais recente relatório da AI sobre casamentos forçados, é paradigmático. Em algumas regiões, mais de metade das raparigas casam antes de fazerem 18 anos. «São demasiadas raparigas que não têm controlo sobre as suas próprias vidas, a quem é negado o direito de escolha, de quando e com quem casar. Isto tem de acabar. Nem familiares nem a comunidade em geral devem poder tomar decisões sobre o corpo de uma rapariga, nem negar-lhe a oportunidade de cumprir os sonhos e esperanças que tem para o seu futuro», destaca o diretor regional da organização para a África Ocidental e Central, Alioune Tine.

Ao abrigo da lei do Burkina Faso, as raparigas devem ter pelo menos 17 anos para poder contrair matrimónio. Porém, mais de metade – cerca de 51,3 por cento – das jovens entre os 15 e os 17 anos, que vivem da região de Sahel, no norte do país, já estão casadas. Com estas uniões, as famílias das raparigas, por norma, procuram consolidar alianças familiares, adquirir estatuto social, ou receber em troca alguns bens, dinheiro, ou prestação de serviços. Segundo a AI, em algumas regiões é comum ainda a prática da «mulher bónus», em que a noiva leva com ela uma sobrinha para integrar a família do marido, na qualidade de «rapariga adicional» para ser casada.

Isso mesmo testemunhou Céline, de 15 anos, outra das adolescentes que conseguiu fugir a um futuro que não tinha escolhido, no dia da boda em que deveria casar com um familiar do marido da tia. «Eu não queria casar com aquele homem. A minha tia disse-me que se eu fugisse me destruiria. Fugi, mas quando cheguei à aldeia a minha própria família recusou receber-me», conta a adolescente.

Na Índia, o cenário é ainda mais chocante. É ali que se realiza um terço dos casamentos de menores, a nível mundial. Recentemente foi posto a circular na internet um vídeo, feito às escondidas, que documenta a prática dos matrimónios precoces em Chittorgarh, na província de Rajasthan, no norte do país. As imagens rapidamente se tornaram virais. Mostram os rituais de um festival hindu, onde meninas de 10 anos, ou menos, são repreendidas pelos ministros da celebração, por estarem a chorar. É visível ainda uma pequena ‘esposa’, de apenas cinco anos, vestida de noiva, a dar as sete voltas da praxe a uma fogueira, ao lado do seu futuro marido, de 11 anos.

Mudança geográfica
Babatunde Osotimehin, diretor-executivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês), é perentório, quando chamado a pronunciar-se sobre o tema: «Escolher quando e com quem casar é uma das decisões mais importantes da vida. O casamento infantil nega essa escolha a milhões de meninas, todos os anos». E os progressos alcançados até agora no combate ao matrimónio forçado também não se revelam muito animadores. Se os índices atuais perdurarem, o número total de meninas noivas em África pode aumentar de 125 milhões para 310 milhões, até 2050. Ou seja, o continente africano arrisca-se a ultrapassar o sul da Ásia como a região com o número mais elevado de mulheres entre os 20 e os 24 anos de idade que terão casado na infância. E manter-se-á a probabilidade de uma rapariga proveniente do quinto mais pobre da sociedade vir a casar na infância ser tão forte hoje como o era há 25 anos.

Ainda assim, há organizações que não desistem de combater o casamento infantil, quer a nível global, quer local. No último Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de março, os especialistas do UNFPA e da UNICEF anunciaram a criação de um novo programa de ação, a desenvolver em 12 países da África, Ásia e Médio Oriente. A campanha conta com o apoio do Canadá, Itália, Holanda, Reino Unido e União Europeia, e foi apresentada como fazendo parte de um amplo esforço para evitar que meninas se casem muito novas e apoiar as que já se casaram.

No essencial, as duas agências da Nações Unidas esperam explorar estratégias já testadas e comprovadas, como o aumento do acesso das adolescentes à educação e a serviços de saúde, a consciencialização dos pais e das comunidades para os perigos do casamento precoce, o aumento do apoio económico às famílias e o fortalecimento e cumprimento de leis que estabeleçam 18 anos como idade mínima para o casamento.

«Vamos trabalhar com os governos dos países com alta prevalência de casamento infantil para defender os direitos das adolescentes, de modo que elas possam alcançar o seu potencial e os países possam atingir as suas metas de desenvolvimento social e económico», promete o diretor-executivo do Fundo de População das Nações Unidas.

ONU cobra mais esforços da Costa do Marfim no combate a estupro e violência de gênero

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Novo relatório do Escritório de Direitos Humanos da ONU e da Operação das Nações Unidas no país revela que, de 2012 a 2015, mais de 1,1 mil casos de estupro foram registrados. Desses episódios, 66% envolviam vítimas crianças. Apenas 20% dos incidentes resultaram em condenação.
 
Anos de conflito favoreceram desenvolvimento de uma cultura de violência e impunidade para crimes de de abuso sexual, apontam organismos da ONU. Foto: UNOCI / Basil Zoma
Anos de conflito favoreceram desenvolvimento de uma cultura de violência e impunidade para crimes de abuso sexual, apontam organismos da ONU. Foto: UNOCI / Basil Zoma
 
De janeiro de 2012 a dezembro de 2015, 1.129 casos de estupro foram registrados na Costa do Marfim. Desses episódios, 66% envolviam vítimas crianças. Embora 90% dos incidentes tenham sido investigados, menos de 20% resultaram em condenação.
 
Os números alarmantes são de um novo relatório divulgado na terça-feira (12) pela Operação da ONU na Costa do Marfim (UNOCI) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).
 
Os dois organismos pediram mais esforços das autoridades nacionais para combater e prevenir a violência sexual e pôr fim a impunidade de criminosos envolvidos.
 
“Apesar do fim das hostilidades desde 2011 e do alívio trazido pela estabilização gradual, os casos de estupro, cometidos principalmente por indivíduos, continuam”, observaram as agências da ONU.
 
“A predominância do estupro foi provavelmente agravada em consequência dos anos de conflito ocorridos no país, que fomentaram uma cultura de violência devido ao clima geral de insegurança e foram marcados pela impunidade por conta da falta de repressão sistemática.”
 
De acordo com o documento, todos os 203 casos que terminaram em condenação foram “reclassificados” – uma prática comum de julgar o estupro como um crime menor e que recebe uma condenação menos grave.
 
Outros pontos levantados pelo relatório como os principais obstáculos na luta contra o abuso sexual são as decisões e os procedimento judiciais demorados, bem como as várias deficiências na condução das investigações. A estigmatização das vítimas, que dificulta a denúncia dos casos, é também outro empecilho.
 
“A Costa do Marfim tem registrado nos últimos anos progressos significativos em termos de direitos humanos, mas a persistência do estupro e da impunidade em relação aos criminosos continua sendo preocupante e precisa de uma ação urgente”, disse o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein.
 
“Através dos esforços já implementados, as instituições da Costa do Marfim têm demonstrado que estão plenamente conscientes da dimensão do problema. No entanto, devem fortalecer ainda mais os seus esforços para lutar contra a violência sexual, particularmente através da implementação da Estratégia Nacional contra a Violência de Gênero e do apoio de agências da ONU “, explicou o chefe da UNOCI, Aïchatou Mindaoudou.
 
Como parte de suas conclusões, o documento dos organismos da ONU pede ações específicas e urgentes para a prevenção do abuso de crianças e recomenda que as autoridades da Costa do Marfim “garantam que todas as vítimas de violência sexual tenham acesso à justiça através de assistência gratuita”.
 
Governo também deve considerar a realização de sessões especiais nos tribunais penais para os casos de estupro, a fim de tornar a lutar contra esse crime mais eficaz e ágil.
 

Criação do cargo de perito independente da ONU sobre a proteção contra a violência baseada na orientação sexual

Nota  238 do Itamaraty


O governo brasileiro acolhe com satisfação a adoção, em 30 de junho, em Genebra, pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, de resolução que cria o cargo de perito independente da ONU com vistas à proteção contra a violência e a discriminação baseadas em orientação sexual e identidade de gênero. O texto, de iniciativa do Brasil, contou também com o apoio de Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, México e Uruguai.

A resolução representa passo concreto no reconhecimento pelas Nações Unidas da vulnerabilidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais à violência e à discriminação, em razão de sua orientação sexual e identidade de gênero.

O futuro perito independente deverá trabalhar juntamente com os governos e agências das Nações Unidas para promover medidas de proteção, examinar formas de violência e discriminação existentes e oferecer aconselhamento, assistência técnica, formação e cooperação internacional.

Aside

Violência sexual vitima homens e mulheres que fogem da crise no Burundi, alerta ACNUR

Crise política já levou mais de 256 mil burundianos a deixar o país. Muitos que tentam fugir ou que se opõem às milícias armadas são vítimas de diversas violações, como abusos sexuais, estupros coletivos e execuções. Nicole e Davide foram alguns dos refugiados que contaram suas histórias trágicas para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Além da violência, população passa fome dentro e fora do Burundi. No país, 4,6 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar.

Mulheres não são as únicas vítimas de violência sexual no Burundi. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Mesmo antes de contar sua história, a violência que Nicole* enfrentou no Burundi já é visível em sua pele. A marca da facada na barriga, o corte do tamanho de um dedo em seu pescoço e a cicatriz em seu couro cabeludo causada por outros golpes de faca. Queimaduras marcam seus braços e pernas, e alguns de seus dentes foram arrancados a socos.

Nicole foi vítima da milícia burundiana “Imbonerakure”. Quando o dono das terras onde ela trabalhava não conseguiu pagar os 10 mil francos burundenses — cerca de 6,50 dólares — exigidos pelos criminosos, a moça percebeu que sua história teria um destino trágico.

“No dia seguinte, fomos levados para o rio para encontrá-lo”, explicou. “Ele havia sido esfaqueado na cabeça e nas laterais de sua barriga. Sua esposa tivera os seios arrancados e estava aberta por um corte que ia desde seus órgãos genitais até a cabeça”, acrescentou ofegante. “As crianças simplesmente tiveram suas gargantas cortadas.”

Naquele momento, Nicole* soube que tinha que reunir seus três filhos e fugir. Eles já estavam quase chegando na fronteira com a Tanzânia quando um grupo de policiais e integrantes da mesma milícia os abordaram.

As ordens eram claras: “matar ou bater em qualquer pessoa que tentasse cruzar a fronteira”.

Com a prisão local estava cheia, ela e cerca de outras 60 pessoas foram levadas para um centro de detenção nas proximidades. Lá, o procedimento era ser severamente espancado por ter tentado deixar o Burundi. “Havia até uma mulher que estava carregando um bebê de colo e bateram tanto nele que ele morreu”, lembrou, com um olhar baixo e distante.

Nicole carrega cicatrizes da violência das milícias burundianas em seu corpo. Na Tanzânia, a refugiada tenta lidar com a dor e o sofrimento por que passou em seu país de origem. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Nicole foi levada para a cela sozinha. Ela desmaiou e acordou mais tarde sendo estuprada por um policial. “Eu gritava e lutava, mas ele fez o que queria”, contou. Ela lembra que outros policiais passavam ao lado, olhavam e iam embora. “Ele só me estuprou uma vez, porque desde então tenho tido secreções de sangue e urina.”

Em meio a uma confusão, Nicole foi empurrada para fora da delegacia. Ela não viu mais seus filhos desde então.

A burundiana está entre os 137 mil nacionais que fugiram do Burundi para a Tanzânia desde que o presidente Pierre Nkurunziza decidiu, há um ano, que iria concorrer por um terceiro mandato. O anúncio desencadeou uma onda de protestos, repressão e violência por parte das milícias do país.

No final do mês passado (30), o Programa Mundial de Alimentos da ONU estimou que a população de refugiados do Burundi já havia chegado a mais de 256 mil, tendo esse contingente se dispersado entre outras nações além da Tanzânia, como a República Democrática do Congo, Ruanda, Uganda e até mesmo a Zâmbia. Países vizinhos têm recebido em média mil novos burundianos por semana.

Estupro é usado como forma de punição para os que tentam fugir do Burundi

De todos os relatos angustiantes — sobre os massacres, torturas e prisões no Burundi — contados por aqueles que fugiram, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem identificado um padrão preocupante de estupros e violência sexual.

Sobreviventes, como Nicole, explicam que o estupro tem sido usado como punição em pontos de verificação dentro do país e nas fronteiras. Segundo relatos, agressores alegavam que as vítimas estavam associadas a partidos políticos da oposição, além de serem julgadas por seu passado ou por seus lugares de origem.

Estupro tem sido usado como forma de punição para mulheres e homens que tentam fugir do Burundi, segundo relatos recebidos pelo ACNUR. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Entre as nove mulheres entrevistadas pelo ACNUR, uma afirmou ter recebido um ultimato em um ponto de vistoria, ao lado de uma pilha de corpos: “ser estuprada ou morrer”. Felizmente, ela não foi abusada e teve apenas os seus pertences roubados.

Outras três mulheres relataram terem sofrido estupro coletivo após terem sido forçadas a assistir a seus maridos ou pais — todos coronéis do exército — serem mortos.

Sobreviventes na Tanzânia ainda estão lidando com as sérias consequências dos assédios. Algumas mulheres no campo de refugiados estão dando à luz bebês que são fruto de estupros. Outras foram rejeitadas por seus maridos, que as acusam de infidelidade ou que têm medo de serem infectados pelo HIV.

Homens também estão entre as vítimas de violência sexual

O ACNUR também conheceu a história de Davide*, um jovem que foi violentado por três homens enquanto outros assistiam ao abuso. O burundiano foi escolhido como vítima por não concordar em se juntar aos “Imbonerakure”.

“Eles diziam: Você não se juntará a nós, então não te perdoaremos”, lembra. Agora na Tanzânia, o rapaz teme que as pessoas descubram o que ele passou, apesar de considerar que aqueles que os violaram são “menos que humanos”.

Enquanto isso, ele espera reencontrar sua namorada no país para onde fugiu, e tem esperanças de que ela será compreensiva. “Eu a amo, então eu posso contar tudo para ela”, disse, com um sorriso tímido.

Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Para o oficial sênior de Proteção do ACNUR, Renate Frech, “nós temos que quebrar o silêncio a respeito dos homens sobreviventes de violência sexual”. “Considerando que dificilmente recebemos relatos, estamos preocupados que homens também possam ser alvos, principalmente quando são detidos”, alertou.

Desde abril de 2015, o Comitê Internacional de Resgate nos campos da Tanzânia ofereceu serviços a 1.759 sobreviventes, homens e mulheres, de violência sexual e de gênero, mas o ACNUR acredita que esse número pode ser bem maior, pois muitas vítimas não reportam os casos, nem procuram ajuda.

Com apenas 30% dos fundos necessários para atender às necessidades dos deslocados burundianos, a agência da ONU e seus parceiros estão enfrentando dificuldades para levar a todos serviços vitais como comida, água e abrigo.

Programas a longo prazo como assistência psicológica especializada, educação e oficinas de treinamento, que são cruciais para a prevenção e para o tratamento da violência sexual, caíram no esquecimento.

“Para onde quer que você peça ajuda, existe o impacto da falta de fundos”, lamentou Frech.

Além da violência, burundianos passam fome

Em avaliação publicada nesta semana (1), o PMA calcula que 4,6 milhões de pessoas no Burundi enfrentam insegurança alimentar. Desse contingente, cerca de 590 mil precisariam de assistência emergencial para suprir suas necessidades.

Refugiados do Burundi recebem voucher de alimentos em campo na República Democrática do Congo. Foto: PMA / Leonora Baumann

A escassez de alimentos no país está associada principalmente ao contexto socioeconômico já frágil e que foi agravado pela crise política. Outros fatores por trás da falta de comida incluem enchentes, chuvas e deslizamentos de terra associados ao El Niño e que destruíram safras do Burundi.

A adoção de estratégias extremas para lidar com a pobreza, como a redução dos gastos em insumos da agricultura, e a desestabilização dos mercados também estão entre as causas do atual cenário.

Para atender às necessidades de novos refugiados e os já existentes pelos próximos seis meses, particularmente em Ruanda e Uganda, o PMA requer 57 milhões de dólares.

*Nomes alterados por questões de segurança

Violência sexual vitima homens e mulheres que fogem da crise no Burundi, alerta ACNUR