Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições.

A utopia africana de Felwine Sarr

mídiaFelwine Sarr.© Antoine Tempé

Felwine Sarr é um intelectual africano. Economista agregado, ele ensina na Universidade Gaston Berger de Saint-Louis no Senegal. Em seu último livro Afrotopia (Editions Philippe Rey), ele sonha com uma amante da África que leve a ”  humanidade para outro nível  “.

”  Responder a um pensamento sobre o continente africano é uma tarefa difícil , escreve Felwine Sarr , tão tenaz, clichês, clichês e pseudo-certezas que, como um halo de neblina, escondem sua realidade  “. Sua abordagem é, portanto, desconstruir a visão da África; uma visão livre, em particular, das idéias ocidentais para alcançar a “Afrotopia”, essa ”  utopia ativa, que se propõe a descobrir no espaço real africano os vastos espaços dos possíveis e impregná-los  “.

desenvolvimento

Esta desconstrução, “a  exigência da soberania intelectual absoluta  “, começa com o questionamento do conceito de desenvolvimento visto em Washington nos corredores do FMI ou do Banco Mundial.

Certamente, Felwine Sarr não questiona a necessidade de desenvolver o continente que é dele, mas a maneira de fazê-lo. A África deve encontrar o caminho que é próprio e não mais ser imposto um “modelo”. ”  É preciso uma crítica filosófica, moral e política da ideologia desenvolvimentista  ” , escreve o analista rigoroso que fala de um campo que ele conhece: o dos números, das estatísticas, curvas. Neste como nos outros, “a  utopia africana consiste em gerar outras formas de viver em conjunto  “.

Para se reinventar, a África também deve redescobrir suas raízes, suas tradições. Os africanos de hoje parecem esquecê-los pouco a pouco, ansiosos para que possam desfrutar os frutos de uma certa forma de sociedade de outros lugares.
Esta é uma tendência perigosa para Felwine Sarr. ”  O homem africano contemporâneo está dividido entre uma tradição que ele não conhece mais e uma modernidade que caiu sobre ele como uma força de destruição e desumanização  ” , ele escreve pensando em colonização.

Modernidade africana

” Quais poderiam ser os contornos e os conteúdos desta modernidade africana, se quiser evitar tornar-se uma falsa contrafacção da Europa? “Pergunta o autor. Esta é a questão central do livro.

Ao longo das páginas, Felwine Sarr envolve uma reflexão filosófica que propõe, por exemplo, a existência de vários mundos. ”  Essa África que está e está acontecendo é multifacetada  “, diz ele. Deve basear seu futuro em sua autonomia cultural e em uma noção de tempo peculiar a si mesmo. E, segundo ele, a economia deve ser considerada com uma dimensão social em particular. Aqui também é uma questão de reconectar-se com a tradição. “Nas sociedades africanas tradicionais, a economia foi incluída em um sistema social maior. Ele certamente obedeceu às suas funções clássicas (subsistência, alocação de recursos, etc.), mas foi subordinado a objetivos sociais, culturais e civilizacionais  . Portanto, é necessário, diz o autor, “ ancorar as economias africanas em seu contexto cultural  “. E morar em sua casa.

A análise de Felwine Sarr é alimentada por estudos de grandes mentes do continente; o filósofo Mamoussé Diagne e seu trabalho sobre a tradição oral para entender o conteúdo do pensamento africano ou mesmo Abdoulaye Elimane Kane, que busca a “participação africana” no pensamento do ser humano.
É um apelo aos africanos para capturar uma imagem da África que é sua, e não a imagem que o Ocidente os envia.

” Para acelerar o fim de um mundo, para se livrar do Ocidente, é necessário ganhar a batalha da representação, por uma estratégia de subversão e insurreição, levando à elaboração de seu próprio discurso. de uma representação de si mesmo  “, escreve esse homem posado, cuja ambição intelectual é ótima. E nobre.

 

http://www.rfi.fr/culture/20160324-utopie-afrique-felwine-sarr-developpement-humanite-afrotopia-modernite-tradition

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Cimeira da CPLP em Brasília discute nova visão estratégica

João Dias | Brasília

Fotografia: João Gomes

O Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, está desde ontem em Brasília, onde em representação do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, participa na XI Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que começa hoje no Palácio do Itamaraty.

 

Nos últimos quatro dias, foram realizadas reuniões sobre os pontos focais, que antecederam a dos embaixadores, que por seu turno, preparou a reunião de ontem dos ministros das Relações Exteriores. O ministro Georges Chikoty participou no encontro que antecede a Cimeira dos Chefes de Estado.
Na agenda está a aprovação de algumas resoluções e a Declaração de Brasília, bem como a construção de uma nova visão estratégica da organização para os próximos dez anos. O grande foco dos documentos a serem analisados e aprovados pelo Chefes de Estado e de Governo está enquadrado nos três pilares da organização: concertação política e diplomática, cooperação no espaço comunitário e fora dele e a velha discussão em torno da Língua Portuguesa. Os Chefes de Estado vão também analisar aspectos relacionados com o futuro da organização e o que se pretende dela no plano comunitário e internacional.
“Há muitos progressos do ponto de vista da concertação política entre os Estados-membros, pois têm vindo a concentrar-se naquilo que é a agenda política internacional. Há casos bem conhecidos que vão ser abordados ao longo da Cimeira”, disse o director do gabinete das Relações Exteriores para a CPLP e PALOP, Oliveira Encoge, que fala numa possível reestruturação dos estatutos.
A Cimeira de Brasília marca o fim do mandato do secretário executivo Murargy, agora substituído pela são-tomense Maria do Carmo Silveira,  de acordo com o princípio da rotatividade alfabética que caracteriza a organização. O diplomata disse que, após dois anos da presidência de Timor-Leste, espera que o Brasil faça, nos próximos dois anos, cumprir os objectivos da organização.  “Deu-se um passo muito grande com a presidência de Timor-Leste, uma vez que se estendeu para o continente asiático e teve um desempenho extraordinário do ponto de vista da cooperação”, sublinhou.
Oliveira Encoge destacou o papel de Timor-Leste que, além de dar um cunho económico e empresarial à organização, determinou um maior envolvimento da sociedade civil. Sobre o acordo ortográfico, disse ser um ponto com o qual os países vão ter de lidar. Mas, o necessário é que alguns países, tal como Angola, se revejam no acordo. É o que está a acontecer de forma tranquila e harmoniosa, referiu, afirmando não existirem Estados-membros contra o acordo. “A língua é de todos e, por isso, entendemos que temos de ter voz.”

A Comunidade cresceu

O ministro das Relações Exteriores, George Chikoty, disse que a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP que começa hoje vai debruçar-se sobre a apresentação de alguns aspectos novos da nova visão estratégica da CPLP e uma resolução sobre a equitatividade dos funcionários do secretariado e aceitar os novos membros observadores da organização.
Esta Cimeira, disse, vai eleger o novo secretário executivo da organização e a nova presidência, que passa a ser o Brasil. “A Cimeira estava para Julho, mas só hoje é realizada por causa da situação do Brasil. Agora, esperamos que a CPLP continue a crescer na cooperação entre os países de língua portuguesa e vamos apoiar a presidência para que a organização cresça”, disse.
Georges Chikoty afirmou que a CPLP cresceu bastante ao longo dos seus 20 anos de existência em termos de visibilidade junto da comunidade internacional e um dos aspectos dignos de nota foi a organização ter contribuído para a eleição de António Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas.
Mas, disse, querem-se melhorias na evolução política dos países-membros e a grande preocupação incide na situação política da Guiné-Bissau. “Os esforços vão na direcção da restauração da estabilidade naquele país.” A visão estratégica já tem sido discutida e ela vai continuar a ser analisada embora não existam ainda consensos a respeito para que a organização seja vista como verdadeiramente internacional.
Em face disso, Angola propôs uma resolução relativamente à equidade no secretariado da CPLP que pretende uma nova forma na indicação dos funcionários, disse Georges Chikoty, que falou também da questão da mobilidade na CPLP e o acordo ortográfico.  Neste sentido, o ministro sublinhou que existem nos países diferentes políticas migratórias e que não há ainda uma discussão sobre livre circulação, pois as pessoas devem preencher determinados requisitos.
Além disso, explicou, é preciso ver que alguns países estão no continente africano e outros na América e ainda no continente europeu. E neste último, existem regras em relação à migração, mas pode haver medidas que facilitem a livre circulação dentro do espaço comunitário.
Quanto ao acordo ortográfico, o ministro Georges Chikoty disse que é opção de Angola e Moçambique continuarem a trabalhar nesta questão, na medida em que acham que existem aspectos que devem ser tidos em conta, como a dimensão histórica e cultural.  Trabalhar no interesse dos Estados-membros é o que Georges Chikoty espera da nova secretária executiva da CPLP.

Consolidação do projecto

Com mais de 270 milhões de falantes, espalhados num espaço geograficamente descontínuo, nove países distribuídos em quatro continentes e um instituto internacional para difusão da Língua Portuguesa, a CPLP consolidou-se como projecto político cujo fundamento é o português, enquanto vínculo histórico e património comum.
A institucionalização da organização teve como escopo a projecção e consolidação no plano externo dos laços fraternais e de amizade entre os países de Língua Portuguesa. Mas para lá disso, o grande interesse comum passa pela defesa dos seus interesses e valores compaginados, sobretudo, na defesa da democracia, promoção do desenvolvimento e na criação de um ambiente internacional mais equilibrado e pacífico, além de favorecer a concertação de posições políticas e diplomáticas com vista ao seu fortalecimento.
Em declarações ao Jornal de Angola, o embaixador e representante permanente de Angola junto da CPLP, Luís de Almeida, disse que falar do futuro da organização é também recorrer à história. A ideia da sua criação passou por muitas individualidades, tal como Jaime Gama, então ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, e o processo ganhou impulso nos anos 90 com José Aparecido de Oliveira.
O primeiro passo concreto no processo de criação da CPLP foi dado em São Luís do Maranhão, em Novembro de 1989, no primeiro encontro dos Chefes de Estado e de Governo dos países de Língua Portuguesa, a convite do Presidente José Sarney.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/cimeira_da_cplp_em_brasilia_discute_nova_visao_estrategica

João Doria, prefeito eleito de São Paulo, e a sua visão sobre a África

joao-doria

João Dória  foi eleito, em primeiro turno, nas eleições municipais,  a prefeito na maior cidade da América Latina, São Paulo. Em um entrevista  a uma uma radio, ele faz um breve comentário, e deixa registrado seu olhar sobre a Africa, um comentário “inocente”, ignorante que traduz como os empresários brasileiros e a classe dirigente enxerga o continente africano: um exemplo do extremo da corrupção.

A seguir reproduzo o comentário, que traduz a carga de estereótipo sobre Africa que não muda ao longo do tempo.

Em entrevista à rádio Bandeirantes, Dória disse que não fará velha política e que esse discurso o ajudou a ser eleito. “Muitos dos votos também foram pelo desencanto com a política. O recado das pessoas foi que querem um gestor.” Segundo ele, Haddad foi vítima do sentimento antipetista. “O PT desencantou primeiro na gestão, depois na ética. Nunca se roubou tanto. O assalto à Petrobras não tem equivalente em lugar algum, nem nas repúblicas africanas.”

Esse olhar não é isolado, faz parte da cultura do país, negar qualquer valor ético às Republicas  Africanas, todos os 54 países são vistos como uma coisa só. Uma massa de pessoas que vivem no extremo da corrupção. Com esse olhar não basta uma lei 10639 que incentiva a história sobre Africa. É preciso muito mais.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1819308-vamos-conceder-a-manutencao-das-ciclovias-ao-setor-privado-afirma-doria-na-tv.shtml