União Africana lamenta a morte do líder zimbabuano Robert Mugabe

UA lamenta morte de Robert Mugabe

Addis Abeba – O presidente da Comissão da União Africana (UA), Moussa Faki Mahamat, lamentou hoje (sexta-feira), em Addis Abeba, a morte hoje, em Singapura, do ex-Presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, recordando-o como “um ícone” da luta pela libertação em África.

BANDEIRA DA UNIÃO AFRICANA

“Foi com imensa tristeza que tomei conhecimento do falecimento do antigo presidente Robert Mugabe”, escreveu Moussa Faki Mahamat, numa publicação na sua conta oficial na rede social Twitter, a que a Lusa teve acesso.

O ex-presidente do Zimbabwe Robert Mugabe morreu aos 95 anos por doença, cerca de dois anos após renunciar ao cargo que ocupou durante 37 anos, anunciou o actual chefe de Estado do país, Emmerson Mnangagwa.

Na mesma publicação, o responsável da UA expressou condolências à família e ao povo do Zimbabwe pela perda de “um ícone da luta de libertação” e de um “pan-africanista defensor da libertação e integração continental”.

Mugabe morreu num hospital em Cingapura rodeado pela sua família e pela sua mulher, Grace, indicaram várias fontes aos órgãos de comunicação social locais.

O ex-presidente do Zimbabwe estava a receber tratamento médico na cidade asiática há cinco meses.

Mugabe nasceu em 21 de Fevereiro de 1924. Na década de 1970 liderou uma campanha de guerrilha contra o Governo da ex-colónia britânica.

Em 1979, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher anunciou que o Reino Unido reconheceria oficialmente a independência da Rodésia (actual  Zimbabwe). Mugabe foi eleito primeiro-ministro no ano seguinte.

Robert Mugabe esteve no poder do Zimbabwe durante 37 anos, antes de ser derrubado num golpe de Estado em Novembro de 2017.

Mugabe foi forçado a afastar-se depois de o Exército e o seu partido, a União Nacional Africana do Zimbabwe – Frente Patriótica (ZANU-PF),  retirarem-lhe o apoio.

África do Sul: ANC enaltece memória de Mugabe

Cidade de Cabo – O secretário-geral do Congresso Nacional Africano (ANC), Ace Magashule, apresentou esta sexta-feira as condolências do partido no poder na África do Sul à família do antigo Presidente zimbabweano, Robert Mugabe, que morreu aos 95 anos de idade.

 

Robert Mugabe, Ex-Presidente do Zimbabwé

FOTO: FRANCISCO MIÚDO

LOGOTIPO DO ANC

A vida de Mugabe foi um perfeito exemplo do “novo africano” que, tendo-se desembaraçado do jugo colonial, fazia todo o seu possível para se garantir que o seu país se integre no concerto das nações e seja firmemente responsável pelo seu próprio destino, indicou Magashule.

Acrescentou que o Mundo vai lembrar-se sempre do slogan do antigo herói da libertação: “África aos Africanos e Zimbabwe aos Zimbabweanos”.

“Embora o ANC e os seus responsáveis não tenham conseguido estar de acordo, as vezes de maneira virulenta, com Mugabe sobre questões de interesse nacional, enquanto organização fraternal, consideramos como sacrossanto o princípio de soberania.

“Só a história julgará se as medidas tomadas pelos dirigentes no interesse dos seus concidadãos eram correctas. Lembramos as palavras imortais de William Sheakespeare, segundo as quais , ‘o mal que os homens fazem sobrevive-lhes, o bem  é as vezes enterrado com os seus ossos”, afirmou.

Magashule endereçou as suas condolências à família de Mugabe e à ZANU-PF, o partido no poder no Zimbabwe e que ele liderou durante anos até à sua saída do poder, em 2017.

Robert Gabriel Mugabe, 1924-2019. Morre um pan-africanista

Gabreile Mugabe

Eu morri muitas vezes – foi aí que venci a Cristo. Cristo morreu uma vez e ressuscitou uma vez. ”Robert Mugabe, em seu 88º aniversário.

Quase enquanto houver um Zimbábue independente, Robert Mugabe  será lembrado. Trinta e sete anos no comando.
Não foi de todo ruim. .Ela adorava ler  livros de história.

Ele foi, desde o início, um enigma: repleto de contradições que de alguma forma o alimentaram e não o derrubaram. Ele era o anglófilo que odiava a Grã-Bretanha; o combatente da liberdade; um visionário pan-africano; um professor,  charmoso e elegante. Ele foi amado e respeitado.

Enquanto ele estivesse no poder, uma coisa nunca mudaria. L ‘état, c’est Mugabe. Mugabe era o Zimbábue. Agora ele se foi, morrendo longe de casa em um hospital em Cingapura, e o Zimbábue ainda está em busca de uma nova identidade.

ATO I: O REVOLUCIONÁRIO

“Os votos e as armas do povo são sempre gêmeos inseparáveis.” Robert Mugabe, em um discurso de 1976.

O segredo de Mugabe era que ele sempre era a pessoa mais inteligente da sala. Seu intelecto formidável o levou de um fundo modesto para algumas das melhores escolas do país – as melhores escolas negras, é claro, porque ele era um cidadão de segunda classe na Rodésia colonial – e depois para a Universidade de Fort Hare na África do Sul , que era então uma linha de produção para africanos extraordinários. Nelson Mandela estudou lá, assim como Oliver Tambo, Julius Nyerere e Kenneth Kaunda.

Em Fort Hare, os colegas de classe de Mugabe eram o fundador do Congresso Pan-Africano, Robert Sobukwe, e logo seria a União Nacional Africana do Zimbábue e o líder da União Popular Africana do Zimbábue, Leopold Takawira, e seu zelo revolucionário o conquistou. Depois, ele ensinou por alguns anos – no norte da Rodésia e depois em Gana, onde conheceu Sally, sua primeira esposa -, mas o dado já havia sido lançado. Mugabe era um combatente da liberdade e um expoente fluente da linguagem do pan-africanismo.

Sua luta começou em seu retorno ao Zimbábue em 1960, onde ele mergulhou na oposição clandestina, assumindo um papel de liderança sênior na União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu). Em 1964, ele foi preso por “discurso subversivo” e preso por uma década sem acusação – um refém  do regime brutal de Ian Smith.

Smith era tipicamente cruel, negando a permissão de Mugabe de comparecer ao enterro de seu filho de três anos em 1966. Esse detalhe é importante: mais tarde, quando os papéis foram revertidos, Mugabe permitiu que Smith servisse como membro do parlamento do Zimbábue em um poderoso gesto de perdão e reconciliação.

Na prisão, ele estudou. Através do ensino à distância, obteve primeiro uma graduação e depois um mestrado em direito pela Universidade de Londres, respectivamente seus quarto e quinto graus universitários. Ele já havia feito mais três por correspondência depois de Fort Hare, e haveria outros mestres em seu futuro. Isso o tornaria, a certa distância, o presidente mais instruído do continente e possivelmente do mundo.

Mas ele também era esperto, exibindo um traço maquiavélico implacável, do qual nenhum estava seguro. Da prisão, ele manipulou os processos partidários até ser eleito secretário-geral de Zanu em 1974, afastando rivais mais conhecidos e realizados.

Após sua libertação no final daquele ano, ele fugiu para o exílio, segurando uma máquina de escrever portátil enquanto atravessava a fronteira para Moçambique. Mesmo assim, ele sabia que as palavras eram sua arma mais potente. Enquanto a guerra do mato durava à sua volta, Mugabe travou sua própria guerra pessoal contra rivais em potencial, tanto dentro do partido quanto em um movimento de resistência mais amplo. As brigas eram violentas e às vezes mortais, mas Mugabe era bom nisso. Quando Smith foi forçado à mesa de negociações, Mugabe tinha o partido sob controle e estava perfeitamente posicionado para sucedê-lo.

ATO II: O ESTADUAL

“O críquete civiliza as pessoas e cria bons cavalheiros. Quero que todos joguem críquete no Zimbábue; Quero que a nossa seja uma nação de cavalheiros. Robert Mugabe, sem data.

Ironicamente, o moderno Zimbábue nasceu em Londres, na imponente Lancaster House. Foi lá que o Reino Unido intermediou conversações entre a Rodésia de Ian Smith e a resistência ao domínio dos brancos; lá que o roteiro para uma segunda independência foi criado. As eleições ocorreram logo depois, em fevereiro de 1980, com Zanu – que já havia se fundido com a Frente Patriótica – para criar o gigante Zanu-PF –  que venceu

Para Mugabe, esses eram dias felizes. Para um homem com tanta sede de conhecimento, que privilégio maior poderia haver do que usar esse conhecimento para criar uma nação? Ele começou a trabalhar na criação do melhor sistema educacional da África e transformou o Zimbábue na lendária “cesta de pão para o sul da África”. As coisas estavam melhorando, e ele foi comemorado por seus colegas e festejado pela comunidade internacional. Mugabe era um herói africano de boa-fé e apreciava a atenção.

Mas nem tudo era tão róseo quanto parecia na nova república. A série autoritária de Mugabe não desapareceu agora que ele estava no poder. Muito pelo contrário, de fato. Joshua Nkomo, outra lenda da libertação, foi a vítima de maior destaque da crescente megalomania do primeiro-ministro. Intimidado e temendo por sua vida, Nkomo fugiu para o exílio em 1983.

Muito pior estava por vir. Em Shona, há uma palavra para as primeiras chuvas que vêm antes da primavera, as chuvas que limpam a palha inútil e dão espaço para as plantações crescerem. Essa palavra é ‘gukurahundi’. Em uma mensagem perdida para ninguém no Zimbábue, também era o codinome da operação militar de Mugabe para antecipar a resistência da comunidade Ndebele. Os Shona eram as sementes saudáveis, para serem nutridas, enquanto os Ndebele precisavam ser lavados.

Para lavar a roupa, Mugabe implantou sua Quinta Brigada norte-coreana. Ao longo de cinco anos, entre 1983 e 1987, eles expurgaram “dissidentes” em Matabeleland e arredores. Às vezes, esses eram ex-veteranos de guerra, às vezes membros do Zanu de Nkomo. Às vezes eram civis, escolhidos sem motivo óbvio, exceto que estavam no lugar errado na hora errada e pertenciam ao grupo étnico errado. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas morreram, porque nenhum registro foi mantido. O estado não se preocupou em contar suas vítimas. Estimativas conservadoras estimam o número de mortos em 8.000 pessoas. Outros dizem que foi mais perto de 30.000.

Não que alguém fora do Zimbábue parecesse se importar. Enquanto os Ndebele estavam morrendo, Robert Mugabe estava se deleitando com sua reputação de estadista internacional. Só mais tarde, quando seu regime começou a matar fazendeiros brancos, ele começou a ser tratado como um pária pela comunidade internacional.

ATO III: O DITADOR

“Esse Hitler tem apenas um objetivo: justiça para seu povo, soberania para seu povo, reconhecimento da independência de seu povo e de seus direitos sobre seus recursos. Se é Hitler, deixe-me ser Hitler dez vezes. ” Robert Mugabe, em um discurso de 2003.

A transição de Mugabe de combatente da liberdade para déspota desprezado foi lenta e desigual. A cada um de seus próprios momentos de revelação, quando a balança caiu de seus olhos e eles perceberam que o presidente do Zimbábue havia começado, de certa forma, a se parecer com seu antecessor rodesiano.

Talvez tenha sido Gukurahundi. Talvez tenha sido mais cedo, quando Mugabe assassinou e traiu seus camaradas em sua tentativa calculada de avançar. Talvez tenha sido quando ele enviou soldados de infantaria do Zimbábue para lutar e morrer na República Democrática do Congo, enquanto ele e seus generais engordavam com a venda de minerais contrabandeados. Talvez tenha sido quando ele autorizou a apreensão de fazendas de propriedade branca e incentivou seus bandidos a tomar a terra à força. Talvez tenha sido quando ele imprimiu dinheiro para comprar lealdade, prejudicando a economia no processo. Talvez tenha sido quando ele roubou a eleição de 2002, ou quando derrotou e opôs a oposição a uma vitória direta na pesquisa de 2008.

Talvez fosse todas essas coisas. Ou talvez não fosse nenhum deles. Por enquanto, com tudo o que sabemos sobre o que Mugabe fez, ele pôde atrair uma multidão. Ele poderia se levantar na União Africana, com 92 anos, e lutar contra o imperialismo e a homossexualidade, e ser aplaudido de pé. Quando ele estava em forma, ele era encantador e eloqüente, um orador fascinante. Ele era um político carismático e consumado.

Essa combinação irresistível de charme, intelecto e brutalidade permitiu a Mugabe manter o poder por muito tempo, governando o Zimbábue como seu feudo pessoal, abusando do estado e de seus recursos para se manter na Casa do Estado, não importando o que custasse.

Claro, não foi o dinheiro que o motivou – sua segunda esposa, Grace, foi a grande gastadora -, mas o poder. Mas nem ele poderia aguentar para sempre. Nos últimos anos no cargo, os abutres começaram a circular, sua idade se tornou mais aparente e sua autoridade diminuiu. Ele não estava dando as ordens, não no estado ou no partido, e suas ordens não eram mais obedecidas sem questionar. Mantido em posição, enquanto facções rivais procuravam promover sua própria agenda, ele foi reduzido a uma figura de tropeço, enquanto os protestos contra seu governo se tornaram cada vez mais altos.

No final, ele não conseguiu o que queria. Em 2016, nas Nações Unidas, Mugabe disse a seus colegas líderes – todos mais jovens e menos experientes que ele – que governaria “até que Deus diga que vem”. Um ano depois, ele foi traído por um de seus aliados mais próximos e forçado a uma aposentadoria, embora muito atrasada. Talvez não seja surpresa que, uma vez que seu poder tenha evaporado, o mesmo Mugabe , passou cada vez mais tempo recebendo atendimento médico em Cingapura.

Sim, haverá luto. Robert Mugabe será lembrado como um dos últimos lideres da Libertação africana

Robert Mugabe nos deixou, aos 95 anos

Zimbabwe's President Robert Mugabe SMILE

Zimbabwe’s President Robert Mugabe SMILES during three-day summit on food security at UN Food and Agriculture Organisation (FAO) in Rome on June 3, 2008. Zimbabwe’s President Robert Mugabe accused Britain Tuesday of fomenting Western efforts to effect “illegal regime change” in his country by crippling it economically. AFP PHOTO / POOL / Alessandro Di Meo (Photo credit should read ALESSANDRO DI MEO/AFP/Getty Images)

Morreu aos 95 anos o ex-presidente do Zimbábue Robert Mugabe, que governou o país por quase quatro décadas após guerra de libertação do país, antiga colônia do Reino Unido. O anúncio foi feito hoje pelo atual chefe de estado Emmerson Mnangagwa. Mugabe foi deposto do cargo pelas forças armadas do país em 2017. A causa da morte não foi divulgada. “É com a maior tristeza que anuncio a morte do pai fundador e ex-presidente do Zimbábue, Robert Mugabe”, escreveu o presidente Mnangagwa no Twitter. “Mugabe era um ícone da libertação, um pan-africanista que dedicou sua vida à emancipação e capacitação de seu povo. Sua contribuição para a história de nossa nação e continente nunca será es… – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2019/09/06/morre-o-ex-presidente-do-zimbabue-robert-mugabe.htm?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=internacional&cmpid=copiaecola

Como o Zimbabwe enfrentou o problema de saúde mental no país

Avós voluntárias
Image captionAs avós voluntárias participam do projeto sem treinamento médico, mas conseguem bons resultados (Crédito: Cynthia R Matonhodze)

Certa noite, o psiquiatra zimbabuano Dixon Chibanda recebeu uma ligação de um médico em uma emergência. Uma mulher de 26 anos chamada Erica, que Chibanda havia tratado no passado, havia tentado suicídio. O médico disse que precisava da ajuda de Chibanda para que Erica não repetisse a tentativa.

A paciente estava em um hospital a mais de 160km de distância de Harare, no Zimbábue. Então, Chibanda e a mãe de Erica bolaram um plano por telefone. Assim que ela fosse liberada do hospital, sua mãe a levaria para ver Chibanda e reavalariar o tratamento.

Duas semanas se passaram e Chibanda não teve notícias de Erica. Até que recebeu uma ligação da mãe da paciente dizendo que ela havia se matado três dias antes.

“Por que você não veio a Harare?”, Chibanda perguntou. “Nós havíamos combinado que assim que ela fosse liberada vocês viriam até mim!”

“Nós não tínhamos os US$ 15 da tarifa de ônibus para ir a Harare”, disse a mãe.

A resposta deixou o médico sem palavras. Nos meses seguintes, ele se sentiu assombrado pelo caso. A falta de acesso à saúde de Erica devido à distância e ao custo não era uma exceção e sim a regra em muitos países.

No mundo, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A depressão é a maior causa de problemas de saúde e contribui para 800 mil suicídios por ano, a maioria em países em desenvolvimento.

zi-area“Pensar demais”

Ninguém sabe quantos habitantes do Zimbábue sofrem de “kufungisisa”, a palavra local para depressão (significa literalmente “pensar demais” em shona, a língua local). Mas Chibanda tem certeza de que o número é alto. “No Zimbábue, gostamos de dizer que temos quatro gerações de trauma psicológico”, diz ele, citando a Guerra Civil da Rodésia, o massacre de Matabeleland e outras atrocidades.

Mesmo assim, os que sofrem de depressão têm poucas opções em razão da escassez de profissionais da saúde mental. Chibanda, diretor da Iniciativa Africana de Pesquisa dobre Saúde Mental e professor de psiquiatria da Universidade do Zimbábue e da London School of Hygiene and Tropical Medicine, é um dos apenas 12 psiquiatras trabalhando no país. A população do Zimbábue é de 16 milhões de pessoas.

Essas estatísticas desanimadoras são comuns na África subsaariana, onde a proporção de psiquiatras e psicólogos para cada cidadão é um a cada 1,5 milhão.

Image captionDesde 2006, Chibanda e sua equipe ensinaram a mais de 400 avós técnicas de terapia com evidências científicas (Crédito: Cynthia R Matonhodze)

Ao quebrar a cabeça sobre possíveis soluções para o problema, o médico chegou a uma solução peculiar: vovós. Desde 2006, Chibanda e sua equipe ensinaram a mais de 400 avós técnicas de terapia com evidências científicas que elas praticam gratuitamente em mais de 70 comunidades no Zimbábue.

Somente em 2017, o Banco da Amizade, como é chamado o programa, ajudou mais de 30 mil pessoas. O método foi avaliado empiricamente e expandido para outros países, incluindo os Estados Unidos.

Chibanda acredita que o programa pode servir como modelo para qualquer comunidade, cidade ou país interessado em oferecer serviços de saúde mental acessíveis e altamente eficazes para seus habitantes. “Imagine se pudéssemos criar uma rede global de avós em toda grande cidade do mundo.”

Ele sempre soube que queria se tornar médico, mas a dermatologia e a pediatria eram seus interesses iniciais. Foi uma tragédia que o levou à psiquiatria. Enquanto estudava medicina na República Tcheca, um colega de classe se matou. “Era um cara muito alegre, ninguém esperava que ele pudesse acabar com a própria vida”, diz ele. “Mas, aparentemente, estava depressivo e nenhum de nós percebeu.”

Chibanda se tornou psiquiatra, mas só percebeu o tamanho do problema no Zimbábue com a Operação Murambatsvina (“limpe a sujeira”), campanha do governo em 2005 de limpeza forçada de favelas que deixou 700 mil pessoas sem lar. Quando visitou as comunidades após a campanha, ele encontrou taxas extremamente altas de estresse pós-traumático e outros problemas de saúde mental.

Image captionCaixa com a pergunta ‘como você está se sentindo?’, uma estratégia para começar conversas sobre saúde mental no Zimbábue (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

Em meio a esse trabalho, Erica se suicidou, o que deu ainda mais urgência à busca de Chibanda por uma solução para os habitantes de seu país.

Ele era o único psiquiatra no Zimbábue trabalhando no setor público de saúde, mas seus supervisores lhe disseram que não tinham recursos. Todas as enfermeiras estavam ocupadas com problemas de HIV e cuidados maternais e infantis, e todos os quartos do hospital estavam cheios. Eles poderiam, porém, emprestar 14 avós e dar acesso ao espaço externo do hospital.

Em vez de jogar tudo para o alto, Chibanda teve a ideia do Banco da Amizade. “Muitas pessoas acham que sou um gênio por ter tido essa ideia, mas não é verdade. Eu só tive de trabalhar com o que tinha”.

Isso não significa que inicialmente ele achasse que a ideia fosse funcionar. As avós, voluntárias da comunidade, não tinham experiência com terapia de saúde mental e a maioria tinha pouca educação formal. “Eu estava cético quanto a usar mulheres idosas”, ele admite. E não era o único a pensar assim. “Muitas pessoas acharam a ideia ridícula”, diz ele. “Meus colegas me disseram que não fazia sentido”.

Sem qualquer outra opção, Chibanda começou a treinar as avós da melhor maneira que podia. Primeiro, ele tentou aderir à terminologia desenvolvida no Ocidente, usando palavras como “depressão” e “ideação suicida”. Mas as avós lhe disseram que isso não iria funcionar. Para atingir as pessoas, elas insistiram, era preciso se comunicar por meio de conceitos culturalmente enraizados com os quais as pessoas poderiam se identificar.

Em outras palavras, elas precisavam falar a língua dos pacientes. Então, além do treinamento formal que receberam, elas trabalharam juntas para incorporar conceitos da cultura shona sobre abrir a mente, fortalecer e animar o espírito.

“O treinamento em si tem base em terapia fundamentada mas também em conceitos indígenas”, diz Chibanda. “Eu acho que essa é uma das razões do sucesso, porque realmente conseguiu montar esse quebra-cabeça usando conhecimento e sabedoria.”

Eficaz e replicável

A Vó Chinhoyi, como é conhecida por aqui, está no programa Banco da Amizade desde o início. “Eu entrei no programa porque queria ajudar as pessoas na comunidade”, diz. “Era demais, as pessoas depressivas. Havia tantas e eu queria diminuir o número.”

“Eu sempre fui assim, de querer ajudar os outros”, diz ela, com um sorriso e encolhendo os ombros. “Eu valorizo tanto os seres humanos.”

Image captionA avó Rudo Chinhoyi, de camiseta azul, cercada por alguns de seus três filhos, nove netos e oito bisnetos (Crédito: Rachel Nuwer)

Chinhoyi, que tem 72 anos, perdeu a conta do número de pessoas que ela tratou diariamente durante os últimos dez anos ou mais. Ela encontra pessoas com HIV, viciadas em drogas, pessoas que sofrem pobreza e fome, casais infelizes, idosos solitários e mulheres jovens, solteiras e grávidas.

Independentemente da história ou das circunstâncias, ela começa suas sessões sempre do mesmo jeito: “eu me apresento e digo ‘qual é o seu problema? Me conte tudo e eu vou lhe ajudar com as minhas palavras'”.

Após ouvir a história da pessoa, Chinhoyi guia o paciente até que ele ou ela chegue sozinho à conclusão. Então, até que o problema seja completamente resolvido, ela acompanha a pessoa de tempos em tempos para garantir que ela esteja seguindo o plano.

Certa vez, por exemplo, Chinhoyi encontrou um homem cuja esposa havia fugido com o dono da casa que alugavam. “O marido queria uma faca para atacar o casal, mas eu o convenci a não fazê-lo”, diz Chinhoyi. “Eu disse a ele, ‘se você for preso, suas crianças vão ficar sozinhas, não vale a pena'”. Em vez de apelar para a violência, o homem se divorciou e agora está feliz e casado de novo.

Por ter vindo das mesmas comunidades que seus pacientes, ela e as outras avós muitas vezes passaram pelos mesmos traumas sociais. Ainda assim, Chibanda e seus colegas ficaram surpresos com as baixas taxas de estresse pós-traumático e outros males de saúde mental entre as senhoras. “O que vemos nelas é essa incrível resiliência diante da adversidade”, diz ele.

Image captionUm Banco da Amizade em Malawi (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

As avós também não parecem ficar exaustas apesar de ouvirem, dia após dia, pessoas à beira de uma crise . “Nós estamos explorando os motivos para isso, mas o que parece estar emergindo é esse conceito de altruísmo, em que as avós realmente sentem que estão ganhando algo ou fazendo a diferença na vida dos outros”, diz Chibanda.

Comprovação científica

Em 2009, Chibanda já tinha certeza de que o programa estava funcionando, tanto em termos de melhorar a qualidade de vida dos participantes quanto de diminuir os índices de suicídio. O departamento de saúde da cidade de Harare, que paga pela iniciativa, estava completamente de acordo e os pacientes eram regularmente indicados a partir de hospitais, escolas, delegacias, entre outros.

Mas para que o Banco da Amizade fosse reconhecido e replicado ao redor do mundo, Chibanda precisava primeiro comprovar cientificamente que funciona.

Em 2016, Chibanda – em colaboração com colegas do Zimbábue e do Reino Unido – publicaram os resultados de um teste de controle sobre a eficiência do programa no periódico da Associação Médica Americana.

Os pesquisadores dividiram 600 pessoas com sintomas de depressão em dois grupos diferentes. Eles perceberam que, após seis meses, o grupo que tinha visto as avós tinham sintomas significativamente baixos de depressão comparados ao grupo que passou por um tratamento convencional.

“Nós ficamos maravilhados com os resultados, que apontaram que a intervenção tem um grande efeito sobre a vida diária das pessoas e habilidade para funcionar”, diz Victoria Simms, epidemiologista da London School of Hygiene and Tropical Medicine e co-autora do estudo. “É sobre dar às pessoas as ferramentas que precisam para resolver seus próprios problemas.”

Outros dois testes científicos estão sendo feitos agora, diz ela, incluindo um examinando um programa jovem do Banco da Amizade em Harare e outro que é especialmente para pessoas jovens com HIV.

O programa também expandiu para vários outros países e, ao fazê-lo, Chibanda e seus colegas descobriram não apenas que ele é bem adaptável a outras culturas mas que as avós não são as únicas capazes de oferecer terapia com eficiência. Em Malawi, o Banco da Amizade usa terapeutas idosos homens e mulheres, enquanto Zanzibar usa homens e mulheres mais jovens.

Os terapeutas da cidade de Nova York são os mais diversos, com pessoas de todas as idades e raças, alguns da comunidade LGBTQ. “Nós trabalhamos em todas as pontas”, diz Takeesha White, diretora-executiva do Escritório de Planejamento Estratégico e Comunicações do Departamento de Saúde de Nova York do Centro para Igualdade de Saúde. “A população de Nova York é muito ampla.”

Image captionO programa, afirma Chibanda, pode servir de modelo para qualquer comunidade (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

Muitos dos terapeutas de Nova York já foram viciados ou passaram por outros desafios de vida. “Nós estamos comprometidos a ter pessoas com experiência de vida que conseguem falar a linguagem da recuperação e sobre lidar com vício”, diz White. “Quando vê, você não está em um banco, mas dentro de uma conversa calorosa com alguém que se importa e entende.”

Os bancos de Nova York, que são pintados de um laranja brilhante, iniciaram seus pilotos em 2016 e foram lançados em meados de 2017 atraindo 30 mil pessoas durante seu primeiro ano. A cidade até agora tem três bancos permanentes nos bairros de Bronx, Brooklyn e Harlem e o programa organiza bancos móveis em festivais, igrejas, parques, feiras de comida e outros eventos.

Os terapeutas do Banco da Amizade também se disponibilizam logo após tragédias comunitárias, incluindo um recente suicídio em público no leste de Harlem.

“Quando eu visitei Nova York, eu fiquei surpreendido ao descobrir que os problemas que os nova-iorquinos passam são muito parecidos com os daqui de Zimbábue”, diz Chibanda. “São assuntos relacionados a solidão, acesso a saúde e sobre saber que o que você está passando é tratável.”

Enquanto há muito mais psiquiatras que trabalham em Nova York do que no Zimbábue em termos de proporção de médicos para habitantes – um para cada 6.000 pessoas em Nova York – o acesso à saúde ainda é problemático na cidade, especialmente para os menos privilegiados. O mesmo acontece em outros lugares do mundo. “Essa não é uma solução para países de baixa renda”, diz Simms. “Isso pode ser uma solução que qualquer país do mundo pode se beneficiar”.

Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-46283465?ocid=socialflow_facebook

A frágil democracia do Zimbabwe

Presidente do Zimbábue pede solução pacífica para crise eleitoral no país

Na quarta-feira, opositores foram às ruas protestar contra o atraso no anúncio dos resultados das eleições realizadas na segunda-feira

O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2018 | 07h42

HARARE – O presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, pediu nesta quinta-feira, 2, uma solução pacífica para as divergências com a oposição, um dia depois da repressão de um protesto que terminou com pelo menos três mortos.

Eleições no Zimbábue
Centenas de seguidores do opositor Movimento pela Mudança Democrática tomaram as ruas do centro de Harare para protestar contra o atraso no anúncio dos resultados das eleições presidenciais Foto: Aaron Ufumeli / EFE

“É mais importante do que nunca que demonstremos união e nos comprometamos a solucionar nossas diferenças pacificamente e dentro da lei”, afirmou Mnangagwa. “Estamos em contato com Nelson Chamisa (o líder da oposição) para debater como resolver a situação”, completou ele em sua conta no Twitter.

President of Zimbabwe

@edmnangagwa

It is also more important than ever that we are united, and commit to settling our differences peacefully and respectfully, and within the confines of the law.

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President of Zimbabwe

@edmnangagwa

We have been in communication with Nelson Chamisa to discuss how to immediately diffuse the situation, and we must maintain this dialogue in order to protect the peace we hold dear.

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Centenas de seguidores do opositor Movimento pela Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês) tomaram na véspera as ruas do centro de Harare para protestar contra o atraso no anúncio dos resultados das eleições presidenciais realizadas na segunda-feira. Eles denunciaram fraude contra Chamisa, que consideram o autêntico vencedor.

Eleições no Zimbábue
Os protestos foram reprimidos pela polícia e também pelo Exército Foto: Aaron Ufumeli / EFE

Os protestos foram reprimidos pela polícia e também pelo Exército, com canhões de água, gás lacrimogêneo e munição real. Como resultado, a emissora estatal ZBC confirmou a morte de pelo menos três pessoas.

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Protesto da oposição no Zimbábue após vitória parlamentar de partido governista acaba em confrontos com a polícia

O presidente do Zimbábue expressou suas condolências às famílias das “vítimas da violência de ontem”, considerando que “toda vida é sagrada e suas mortes são uma tragédia, independentemente das circunstâncias”.

President of Zimbabwe

@edmnangagwa

I wish to extend my sincere condolences to the families of the victims of yesterday’s violence. All human life is sacred, and their deaths are a tragedy, irrespective of the circumstances. I would also like to wish a speedy recovery to all those injured in yesterday’s events

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Ele também disse que pedirá “uma investigação independente” do que aconteceu em Harare para que os responsáveis respondam na Justiça, em prol da “transparência e prestação de contas”.

Dia seguinte

As ruas de Harare amanheceram tranquilas, com a população esperando que a Comissão Eleitoral (ZEC, sigla em inglês) anuncie os dados referentes às eleições presidenciais.

Eleições no Zimbábue
Emmerson Mnangagwa disse que pedirá “uma investigação independente” do que aconteceu em Harare para que os responsáveis respondam na Justiça Foto: Yeshiel Panchia / EFE

A ZEC garantiu que eles serão publicados nesta quinta-feira, e culpa pelo atraso o fato de que os representantes dos 23 candidatos que foram apresentados ainda não verificaram todos os resultados, um requisito legal anterior à sua publicação. / AFP e EFE

Eleito o presidente do Zimbabwe, com protestos da oposição

Emmerson Mnangagwa é eleito presidente do Zimbábue; oposição fala em ‘fraude’

Ex-vice de Robert Mugabe venceu as eleições de segunda-feira. Oposição, que liderou protestos durante a semana, contestou o resultado.


Por G1

 

Emmerson Mnangagwa, presidente do Zimbábue, durante evento em Mutare  (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)Emmerson Mnangagwa, presidente do Zimbábue, durante evento em Mutare  (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

Emmerson Mnangagwa, presidente do Zimbábue, durante evento em Mutare (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

O atual presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, foi eleito para mais cinco anos de mandato, segundo resultado proclamado pela Comissão Eleitoral do Zimbábue (ZEC, na sigla em inglês) nesta quinta-feira (2). Ele venceu o candidato da oposição, Nelson Chamisa, no pleito que ocorreu na segunda-feira.

Veja o resultado:

  • Emmerson Mnangagwa (Zanu-PF): 2.460.463 votos (50,8%);
  • Nelson Chamisa (MDC): 2.147.436 votos (44,3%);
  • Somados, os outros 21 candidatos obtiveram menos de 5%.

Os resultados de cada uma das 10 províncias do pequeno país de cerca 16 milhões de habitantes foram lidos pela ZEC, com transmissão ao vivo. O comitê atrasou a proclamação do resultado oficial em mais de uma hora porque faltava contabilizar os votos da província Mashonaland Oeste.

Após o anúncio do resultado, Mnangagwa postou uma mensagem de agradecimento aos eleitores no Twitter, onde falou em “um novo começo” e afirmou que “embora possamos ter estado divididos nas eleições, estamos unidos em nossos sonhos”.

President of Zimbabwe

@edmnangagwa

Thank you Zimbabwe!

I am humbled to be elected President of the Second Republic of Zimbabwe.

Though we may have been divided at the polls, we are united in our dreams.

This is a new beginning. Let us join hands, in peace, unity & love, & together build a new Zimbabwe for all!

Momentos antes do anúncio da província que faltava, o líder do partido de oposição Movimento pela Mudança Democrática (MDC), Morgen Komichi, tomou o microfone da comissão eleitoral para dizer que os resultados da votação “eram falsos”.

A atitude deve acirrar a crise eleitoral no Zimbábue (veja mais abaixo). Na quarta-feira, o candidato derrotado Nelson Chamisa havia declarado a vitória unilateralmente.

Chamisa venceu em seis províncias, inclusive na região da capital Harare. Lá, ele conquistou uma larga vantagem em relação a Mnangagwa: candidato opositor obteve cerca de 548 mil votos, bem mais do que os 204 mil obtidos pelo atual presidente.

Presidente do Zimbábue, Mnangagwa, deixa local de votação nas eleições desta segunda-feira (30) em Kwekwe (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)Presidente do Zimbábue, Mnangagwa, deixa local de votação nas eleições desta segunda-feira (30) em Kwekwe (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

Presidente do Zimbábue, Mnangagwa, deixa local de votação nas eleições desta segunda-feira (30) em Kwekwe (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

Foi a primeira eleição desde que Robert Mugabe saiu do poder, em novembro de 2017, depois de passar 37 anos no comando do país. Mnangagwa, inclusive, era vice do antigo presidente, e uma crise entre os dois políticos levou à articulação que forçou a renúncia de Mugabe.

Durante a crise, o atual presidente fugiu para a África do Sul, mas voltou para assumir a presidência temporariamente assim que conseguiu fazer com que Mugabe renunciasse e convocasse eleições. Por isso, o ex-líder do Zimbábue chegou a declarar voto em Chamisa.

Credibilidade eleitoral em crise

Partidários da oposição fazem piquete em manifestação em Harare, no Zimbábue (Foto: AP Photo)Partidários da oposição fazem piquete em manifestação em Harare, no Zimbábue (Foto: AP Photo)

Partidários da oposição fazem piquete em manifestação em Harare, no Zimbábue (Foto: AP Photo)

O atraso em mais de uma hora para o anúncio e o protesto do MDC na cerimônia desta quinta tornam a crise de credibilidade da eleição no Zimbábue ainda mais delicada. Isso porque aliados de Chamisa se revoltaram com os três dias de demora do ZEC em anunciar o resultado da eleição presidencial, e acusam “fraude”.

Os opositores, então, lideraram protestos que tomaram Harare na quarta-feira (1). A manifestação foi violentamente reprimida. Policiais e soldados armados entraram em confronto com os manifestantes. Ao menos seis pessoas morreram.

Soldado armado patrulha ruas de Harare enquanto mulher passa carregando sacolas; Zimbábue tem dia de protestos e repressão violenta após eleições no país (Foto: AP Photo/Mujahid Safodien)Soldado armado patrulha ruas de Harare enquanto mulher passa carregando sacolas; Zimbábue tem dia de protestos e repressão violenta após eleições no país (Foto: AP Photo/Mujahid Safodien)

Soldado armado patrulha ruas de Harare enquanto mulher passa carregando sacolas; Zimbábue tem dia de protestos e repressão violenta após eleições no país (Foto: AP Photo/Mujahid Safodien)

Por causa dos conflitos, o presidente Mnangagwa pediu “solução pacífica” para o impasse, usando as redes sociais. Ele também disse que vai solicitar uma “investigação independente” sobre a violência nos protestos.

E como o impasse começou?

Candidato presidencial opositor Nelson Chamisa vota nesta segunda-feira (30) nas eleições do Zimbábue (Foto: Mike Hutchings/Reuters)Candidato presidencial opositor Nelson Chamisa vota nesta segunda-feira (30) nas eleições do Zimbábue (Foto: Mike Hutchings/Reuters)

Candidato presidencial opositor Nelson Chamisa vota nesta segunda-feira (30) nas eleições do Zimbábue (Foto: Mike Hutchings/Reuters)

O ZEC anunciou, na quarta-feira, o partido de Mnangagwa como vencedor da maioria das cadeiras no Parlamento. Os opositores, então, cobraram também o resultado da votação para presidente — as duas eleições ocorreram na mesma segunda-feira.

Assim, o MDC chegou a reivindicar a vitória presidencial nas urnas, mesmo sem o resultado oficial ter saído.

“Recebemos os resultados de nossos colaboradores (…). Os resultados mostram, para além de qualquer dúvida razoável, que ganhamos as eleições e que o próximo presidente do Zimbábue será Nelson Chamisa”, afirmou um dos principais líderes do MDC, Tendai Biti, que citou o candidato do partido.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/08/02/emmerson-mnangagwa-e-eleito-presidente-do-zimbabue-oposicao-fala-em-fraude.ghtml

Eleições no Zimbabwe depois do afastamento de Mugabe

zi-area.gifpor Clovis Rossi

 

Já seria histórico o simples fato de que, pela primeira vez desde a independência, em 1980, uma eleição no Zimbábue não terá entre os candidatos Robert Mugabe, o mais velho revolucionário africano e presidente-ditador nos 37 anos seguintes.

Mas há mais do que esse registro para dar, eventualmente, caráter histórico ao pleito desta segunda (30): o que está em jogo, segundo análise de Piers Pigou, consultor-sênior para o Sul da África do Crisis Group, é “uma oportunidade sem precedentes para os eleitores do país escolherem quem eles acreditam que pode entregar a recuperação econômica depois de décadas de um domínio violento, predatório e autoritário por Mugabe e pelo Zanu-PF (siglas em inglês para União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica)”.

Confirma essa avaliação otimista uma pesquisa da firma Emergent Research: se houver um vencedor claro e o resultado for aceito, o crescimento da economia poderá ser de 6,5% em 2018 e saltar para 15% em 2019.

A partir dessas avaliações, nascem duas perguntas óbvias: haverá um vencedor claro? O resultado será aceito pelos perdedores?

Para a primeira pergunta, a resposta é não. A mais recente pesquisa, do respeitado Afrobarometer, dá 40% das intenções para o atual presidenteEmmerson Mnangagwa, 75, o candidato do Zanu-PF; e 37% para o principal de seus 22 adversários, Nelson Chamisa, 40, do MDC (Movimento para a Mudança Democrática).

Um empate técnico que a totalidade dos analistas africanos entende que permanecerá até a votação.

Para a segunda pergunta, a resposta dependerá, é claro, do resultado, mas não há muita margem para otimismo: o partido governista ganhou todas as seis eleições disputadas desde a independência.

 

Se for dado como vencedor, Chamisa muito provavelmente gritará fraude. Já ameaçou boicotar o voto, alegando irregularidades no processo eleitoral. Desistiu depois, com o argumento propagandístico de que “o vencedor não boicota eleições”. É o mesmo que dizer que rejeitará qualquer outro resultado.

Que há irregularidades, parece evidente. A começar pelo registro biométrico, introduzido para a votação deste ano, pelo qual todos os votantes têm que se inscrever com fotografia e impressão digital.

São 5,6 milhões os eleitores registrados, e uma abrangente análise dos registros, feita pelo chamado Team Pachedu, da sociedade civil, mostra que há 250 mil casos que despertam sérias dúvidas.

Entre eles, um eleitor de 140 anos, Phidas Ndlovu, e Sihle Mpofu, aparentemente nascida em 1884, o que a tornaria a mulher mais velha no mundo.

Em uma eleição que se imagina apertada, “um quarto de milhão de potenciais votantes fantasmas pode ser estatisticamente significativo e mesmo definir a corrida”, escreve Simon Allison, editor de assuntos africanos do jornal sul-africano Mail & Guardian.

Dois ex-altos funcionários norte-americanos, pesquisadores em centros privados, visitaram há pouco o Zimbábue para avaliar o cenário pós-derrubada de Mugabe, ocorrida em novembro de 2017.

Michelle Gavin (serviu com Barack Obama e hoje está no Council on Foreign Relations) e Todd Moss (trabalhou com George W. Bush e hoje é pesquisador do Centro para o Desenvolvimento Global) são pessimistas sobre o teor democrático do novo Zimbábue: “Infelizmente, voltamos convencidos de que testemunhamos mais teatro político do que boa-fé”.

É uma pena porque os dois analistas concordam com o Crisis Group em que uma votação “livre, justa e crível” seria um primeiro passo para que o país se recuperasse de uma ditadura abominável, cujas consequências assim descrevem: “Nas últimas duas décadas, milhões fugiram. A vasta maioria dos que permaneceram viu seu padrão de vida declinar dramaticamente, e, hoje, mais de 70% vivem na pobreza. O país tornou-se um pária internacional”.

É justamente essa situação de pária que pode forçar o presidente a ser eleito —mesmo que seja Mnangagwa, fiel servidor da ditadura— a aumentar o teor de democracia: ele está prometendo atrair US$ 5 bilhões por ano (R$ 18,5 bilhões) em investimento externo direto. Seu principal rival, Chamisa dá mais ênfase ao investimento doméstico, em infraestruturas e habitações, além sistemas sociais.

Qualquer que seja o vencedor, precisa de um ambiente democrático mais sólido; do contrário, “frustraria as perspectivas de reforma da governança, reengajamento internacional e a tão necessária revitalização econômica”, diz a análise do Crisis Group.

Um desfecho positivo do processo eleitoral ajudaria não só o Zimbábue, mas toda a África, continente em que democracias sólidas são raras: a Freedom House, instituição que avalia o teor democrático de 195 países do mundo, diz que, dos 49 países da África subsaariana, apenas 18% são livres. O dobro (37%) cai na categoria não livre e 43% são parcialmente livres.

Para comparação: no ranking dos 195 países do mundo, só 25% são rotulados como não livres mais 30% parcialmente livres.

PRINCIPAIS CANDIDATOS

Emmerson Mnangagwa, 75
Veterano da luta pela independência, é o atual presidente, tendo assumido após a queda de Robert Mugabe no fim de 2017

Nelson Chamisa, 40
Advogado, o ex-ministro e atual deputado conquistou o comando da oposição em fevereiro, após morte do antigo líder Morgan Tsvangirai

Zimbabwe suspende programas milagreiros

zimbabwe-1Emissoras de Zimbábwe suspendem programas de pastores milagreiros

A ZBC (Zimbabwe Broadcasting Corporation) suspendeu em suas quatro emissoras de rádio e uma de TV os programas de pastores milagreiros e os da teologia da prosperidade.

A direção da corporação informou que tomou a decisão diante das reclamações de ouvintes e telespectadores sobre o excesso desses programas.

A ZBC é uma emissora pública, mas vende horários de sua programação. 

Albert Chekayi, diretor das emissoras de rádio da ZBC, disse que a empresa não visa só o lucro, mas também a diversidade religiosa da população.

Informou que os programas suspensos serão analisados para verificar quais poderão voltar à programação.

A Universal tem pelo menos sete templos no país, mas não se sabe a igreja tinha programa na ZBC.

O embaixador Philippe Van Damme, da delegação da União Europeia no Zimbábue, comentou que nem na Bíblia há mais profetas do que nesse país.

No Brasil, também há abuso de compra de horário para proselitismo religioso

O Brasil deveria seguir o exemplo de Zimbábue.

Zimbabwe proíbe pregação na TV que mostrava “prosperidade”, “profecias” e “exibição de milagres

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A rede pública Zimbabwe Broadcasting Corporation (ZBC), constituída de quatro estações de rádio e uma de televisão suspendeu toda programação que mostrava “prosperidade”, “profecias” e “exibição de milagres”.

A decisão foi uma resposta à indignação pública com as denúncias constantes de enriquecimento por parte de pastores que pedem dinheiro. O presidente da ZBC, Albert Chekayi, confirmou à emissora que está avaliando se os líderes religiosos não estavam “infringindo os direitos” do público.

“Esta decisão foi tomada por que somos responsáveis ​​perante a população. Lembre-se, uma    empresa de radiodifusão não pode visar apenas os lucros, mas levar em conta os interesses daqueles que pagam impostos.  O Zimbábue é um país que defende a liberdade de religião, mas é guiado pela Lei de Direitos e nossa Constituição. Precisamos garantir que nenhuma parte dos moradores do país sintam-se ofendidos pelo conteúdo que transmitimos”, acrescentou.

Em meio a um processo de reestruturação política, Philippe Van Damme, um representante da União Europeia, visitou o Zimbábue disse que ficou “surpreso” com a quantidade de profetas no país.

“Na tradição bíblica do Antigo Testamento você tem alguns profetas, mas nunca vi tantos usando esse título como neste país”, disse ele. “Observo esse fenômeno sociológico e concluo que, assim como temos notícias falsas, temos falsos profetas, impulsionados por interesses comerciais”. Com informações de BBC

https://noticias.gospelprime.com.br/zimbabue-proibe-pregacao-da-prosperidade-na-tv/