O papel das autoridades tradicionais em Guiné Bissau e a política


Debate sobre o papel dos régulos no país

A forte presença dos régulos nas actividades políticas e governativas na Guiné-Bissau está a promover um forte debate sobre o seu papel no país.

Reconhecidos como moralizadores das comunidades, os régulos, segundo muitas opiniões, têm envolvido muito na política, o que, de certa forma, continua a gerar algum olhar de desconfiança por parte dos seus “regulados”.

Essas autoridades tradicionais foram constituídas há séculos, com base na sucessão de hierarquia.

Régulos na Guiné-Bissau: Entre a autoridade tradicional e a política

Mas, para muitos guineenses, este poder tradicional tem-se envolvido, de forma directa, nas disputas politicas, pondo em causa o seu real papel, que é dirimir os conflitos e promover a conciliação nas sociedades comunitárias, sob as suas respectivas jurisdições.

O jurista Sileimane Cassamá, conhecedor do exercício do poder dos régulos, na Guiné-Bissau, destaca o papel reservado, pela Constituição da Republica, a essa classe do poder tradicional.

“Não é um poder político e não pode enveredar-se pela politica. A função do régulo é servir de ponte entre a estrutura administrativa do Estado e as suas respectivas comunidades”, explica Cassamá.

Por seu lado, o investigador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa e jurista Fodé Mané considera que “a legitimidade do Estado vem das leis que são montadas, de acordo com as estruturas dos órgãos do Estado, enquanto que a legitimidade do poder tradicional, vem da base, da comunidade e da tradição”.

Para ele, “quando esses dois poderes estão a misturar-se, há risco daquele que tiver mais poder engolir o outro”.

Em consequência do envolvimento dos régulos nas actividades políticas, Suleimane Cassamá alerta que “o régulo acaba por envolver-se em conflito que vai contra as regras do seu regulado”.

Neste caso, “não é só uma questão de credibilidade, mas é uma questão de manutenção do regulo, como tal, na comunidade a que pertence”, conclui o jurista.

Na actual crise política, os régulos, agrupados na Confederação Nacional dos Regulados da Guiné-Bissau, foram chamados em diferentes ocasiões para darem a sua opinião.

Fonte:https://www.voaportugues.com/a/régulos-na-guiné-bissau-entre-a-autoridade-tradicional-e-a-política/4394728.html

Advertisements

República Democrática do Congo com mais casos suspeitos de ebola, segundo a OMS

 ebola

 

Por Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil  Brasília

Desde a declaração de um novo surto de ebola na República Democrática do Congo, na semana passada, o país já registrou pelo menos mais sete casos suspeitos da doença. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, entre 4 de abril e 13 de maio, 39 casos de ebola foram reportados no Congo, incluindo 19 mortes.

Até o momento, a região de Bikoro responde pela maioria dos casos da doença no país – 29, sendo dois confirmados, 20 prováveis e sete suspeitos. Em seguida, estão as áreas de Iboko, com oito casos, sendo três prováveis e cinco suspeitos, e de Wangata, com dois casos prováveis. “Os casos serão revisados à medida em que novas informações forem chegando”, destacou a OMS.

A entidade alertou que região de Wangata é adjacente à cidade portuária provincial de Bandaka, que tem população estimada em 1,2 milhão de pessoas. “Equipes de resposta que estão no local realizam processo de verificação de informação de casos reportados”, acrescentou. A OMS já enviou 50 equipes de saúde pública ao Congo na tentativa de conter o surto.ebola3

Pior cenário

Na semana passada, a organização informou que se preparava para o pior cenário possível perante o novo surto de ebola na República Democrática do Congo. “Estamos muito preocupados porque a área onde surgiu é remota e muito pobre e com um acesso muito precário. A chegada de assistência é um desafio por si mesmo”, disse o diretor de Emergências da OMS, Peter Salama.

“Temos medo de que o surto se expanda a Bandaka, capital provincial, com 1 milhão de habitantes. Se chegar a essa cidade, teremos um surto maior e um desafio muito grande, porque o que sabemos da nossa experiência na África Ocidental é que, quando o ebola chega à grande cidade e especialmente a áreas de favelas, é muito difícil deter a doença”, concluiu.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-05/congo-tem-pelo-menos-mais-sete-casos-suspeitos-de-ebola-diz-oms

Festival Literário Luso-afro- brasileiro – FESTLAB de 15 a 18 de maio.

unnamed

Em alusão ao Dia Internacional da Língua Portuguesa, que é comemorado no início de maio, a Embaixada do Brasil em Luanda,

através do Centro Cultural Brasil-Angola (CCBA), promove o

Festival Literário Luso-afro- brasileiro –  FESTLAB

de 15 a 18 de maio.

 

Nesta segunda edição, os curadores do Festival Literário, o escritor angolano José Luís Mendonça e a Diretora do CCBA, Nidia Klein, definiram os seguintes temas para serem discutidos entre os mais de 15 convidados de seis países lusófonos:

 

15 de Maio (Terça-feira)
18h30 às 20h30

MEDIADORES DO PROCESSO DE LEITURA

1. As problemáticas do acesso ao livro – estantes materiais e virtuais; o mercado livreiro; taxação do livro importado

2. Alternativas de edição e publicação populares (livro de cordel e fanzines)

3. Tradição oral e contação de histórias (leitura dramática, teatralização e musicalização) como gatilhos para o despertar para a leitura

Moderação: Pedro Janja- Professor investigador da UNIPiaget

Debatedores: Mirna Queiroz- Brasil

António Fonseca – Angola
Domingas Monte – Angola
16 de Maio (Quarta-feira)
10h às 12h

LITERTURA INFANTIL

1. Equívocos derivados da iliteracia literária; literatura ou notícia moralista?

2. O fascínio da ilustração: técnicas, tendências, equilíbrio entre texto e imagem e convergência etária.

3. Literatura infanto-juvenil: um gênero esquecido? (Mala viajante; tradição oral)

Moderação: Teresa Mateus – Diretora do Centro Cultural Português – Instituto Camões Luanda

Debatedores: Marta Costa- Brasil

Hélder Simbad – Angola

Felipe Fortuna – Brasil

 

18h às 20h
O LIVRO COMO FERRAMENTA DIALÓGICA INTER-GERACIONAL

1. O livro como ferramenta dialógica inter-geracional

2. A função central da leitura como pressuposto da criação literária.

3. O acervo bibliográfico mundial historicamente constituído como voz viva dos seus autores: tradução como forma de diversificação de acervo.

4. Dilemas culturais da criação: os jovens e as minorias

Moderação: Vera Franco de Carvalho – Embaixatriz do Brasil

Debatedores: Josélia Aguiar- Brasil

José Luís Mendonça – Angola

Lopito Feijóo – Angola

 

17 de Maio ( Quinta-feira)

18h às 20h

LIVRO E TECNOLOGIA

1. Criação de uma rede de agentes culturais e recursos eletrônicos literários na CPLP

2. A tecnologia como aliada aos meios tradicionais de criação literária contemporânea – impactos e adaptações

3. Difusão literária – novas perspectivas – rádio, gadgets, aplicativos, audiolivros, etc

Moderação: Nidia Klein – Diretora Centro Cultural Brasil-Angola

Debatedores: Mbate Pedro- Moçambique

Orlando Piedade- São Tomé e Príncipe

Felipe Fortuna – Brasil

 

18 de Maio (Sexta-feira)

18h às 20h30

LITERATURA E APROXIMAÇÃO DOS POVOS

1. Existirá uma interdependência entre Literatura e Desenvolvimento Social?

2. O que nos une e o que nos separa enquanto Literatura em Língua Portuguesa

3. O papel da literatura e do escritor na construção de um diálogo transversal entre os povos falantes do português

Moderação: José Luís Mendonça – Curador II Festlab

Debatedores: Flávia Amparo – Brasil

Maria João Cantinho – Portugal

Abraão Vicente – Cabo Verde

Ondjaki – Angola

 

Todos os encontros acontecerão no Centro Cultural Brasil-Angola – entrada pela Rua Frederich Engels – Bairro Coqueiros, ao lado do Museu de Antropologia e são gratuitos ao público.

 

O II Festlab tem o apoio da TAAG Linhas Aéreas de Angola, do Hotel Presidente, do Esplanada Grill, apoio institucional da Associação de Empresários e Executivos Brasileiros em Angola (Aebran) e da Ingresso Prático.

This is the divider 

DEBATEDORES
ANGOLA

António Fonseca
Membro Fundador da Academia Angolana de Letras, de que é o Secretário-Geral, é membro da União dos Escritores Angolanos, foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura. Publicou Raízes, Sobre os Kikongos de Angola, Poemas de Raíz e Voz, Crónica dum Tempo de Silêncio, Contribuição ao Estudo da Literatura Oral Angolana, Histórias e Memórias Desancoradas ( traduzido para o espanhol), Contos de Antologia, Contos da Nossa Terra e Primo Narciso e Outras Estórias. É co-autor da Antologia de Narrativas Tradicionais. Figura em diversas antologias, que de prosa, quer de poesia, algumas das quais traduzidas. Iniciou atividade jornalística em 1976 na Emissora Católica de Angola, ingressando posteriormente na Rádio Nacional de Angola onde, desde 1978, realiza e apresenta o programa ANTOLOGIA; realizou e apresentou o programa Estórias na TV Palanca.

Dirigiu a ENDIPU – Empresa Nacional do Disco e de Publicações de 1982 a 2004 e dirigiu cumulativamente o INALD – Instituto Nacional do Livro e do Disco de 1983 a 2004 com interregno de cerca de um ano. Exerceu igualmente a função de Secretário Geral do MINCULT. Dirigiu o Gabinete Jurídico do Ministério da Cultura de 2004 a 2006 e exerceu entre 2007 e 2009 a função de Diretor Nacional dos Direitos de Autor e dos Direitos Conexos e a de Diretor Geral do Instituto Nacional do Livro e do Disco e, posteriormente, até ao final de 2013, a função de Diretor Geral do Instituto Nacional das Indústrias Culturais. É consultor do Gabinete da Ministra da Cultura. É docente na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto.

 

Domingas Monte
Autora do livro infanto-juvenil “O Gelado de Múkua da Mamita”. Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes, ramo de Estudos Comparatistas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em Portugal, é licenciada em Línguas e Literaturas Africanas, ramo de literaturas africanas, pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto em Angola é docente da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto em Luanda, no curso de línguas e literaturas africanas. Foi jornalista e administrativa na rádio LAC, tem uma obra poética publicada em conjunto com um grupo de amigos, «O Perfume», possui poemas em antologias poéticas no Brasil. Co-autora do romance interativo «O cruzeiro da morte», co-autora da colectânea «Sonhos sem Fronteiras». Possui poemas no site Paralerepensar. Criou o Blogue Mwelo Weto, do qual é administradora.

 

Hélder Simbad
Angolano, de Cabinda. Professor de Língua Portuguesa e Literatura Africana do Segundo Ciclo de Ensino. É Coordenador Geral do Movimento Litteragris. Foi o vencedor do prémio António Jacinto, edição 2017.

 

Lopito Feijóo
Membro da União de Escritores Angolanos (UEA), escreveu os seguintes livros: Entre o Écran e o Esperma (1985), Menção Honrosa no concurso De Literatura “Camarada Presidente”; Me Ditando (s/d); Doutrina (1987) edição da UEA; Rosa Cor de Rosa (1987); Corpo a Corpo (1987); Cartas deAmor (1990); Meditando. Textos de Reflexão Geral sobre Literatura (1994). Reconhecido e prestigiado poeta e ensaísta, a sua obra figura em revistas e jornais nacionais e estrangeiros: brasileiros, portugueses, galegos, norte-americanos, entre outros.

 

José Luís Mendonça
Escritor com vasta obra publicada, e cujo mérito foi-lhe reconhecido pelo Prémio Nacional de Cultura e Artes em 2015. Licenciado em Direito pela Universidade Católica de Angola, a sua participação mais visível na construção da Polis angolana tem-se cingido, até ao momento, aos andaimes do
jornalismo, paixão esta que lhe valeria a atribuição, em 2005, do Prémio Notícias da Lusofonia CNN-Multichoice de Jornalismo Africano. Presentemente é diretor e editor-chefe de Cultura – jornal angolano de Artes e Letras.

 

Ondjaki
É membro da União dos Escritores Angolanos, membro honorário da Associação de Poetas Húngaros e da Japan International Dark Poetry Society. Na Galiza, foi agraciado com a palavra-amuleto “angolego”. Prosador e poeta, também escreve para cinema. Está traduzido para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, croata, swahili, holandês e sueco. Escreve crónicas para jornais (Angola, Portugal, Brasil, Inglaterra) e, ocasionalmente, é (des)professor de escrita criativa .

 

BRASIL
Felipe Fortuna
Poeta, ensaísta e diplomata, é mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio de Janeiro, com tese sobre o simbolismo brasileiro.
Estreou na poesia em 1986, com o livro “Ou vice-versa” e, desde então, publicou um total de 15 livros.

 

Flávia Amparo
É Professora Associada de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense e do Colégio Pedro II (Rio de Janeiro, Brasil). Doutora em Literatura Brasileira, especialista na poesia de Machado de Assis. Publicou, As melhores crônicas de Josué Montello, os volumes Luiz Murat e Mario de Alencar, da série Essencial da Academia Brasileira de Letras, e Itinerários da palavra. Sua pesquisa atual se concentra nos estudos de Literatura – teoria e crítica literária – assim como analisa as suas contribuições para o letramento e o ensino de Língua.

 

Josélia Aguiar
É jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia (BA), mestre e doutoranda em história pela Universidade de São Paulo (USP). Na Folha de S. Paulo, foi repórter, redatora e correspondente em Londres. Editou a EntreLivros, revista mensal sobre livros entre 2005 e 2008. Foi curadora do Festival da Mantiqueira (2014) e é pelo segundo ano curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (2017-2018). Escreveu a biografia do escritor Jorge Amado, projeto iniciado em 2011, cujo lançamento ocorrerá julho deste ano.

 

Marta Morais da Costa
Graduou-se em Letras pela UFPR, fez mestrado e doutorado na USP na área de literatura brasileira, com dissertação sobre a dramaturgia de Roberto Gomes (1882-1922) e tese sobre a história do teatro em Curitiba. Tem dezenas de artigos publicados em revistas nacionais. É pesquisadora da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio. Ocupa a cadeira nº 27 de Academia Paranaense de Letras.

 

Mirna Queiroz
É jornalista e editora, com mestrado em Estudos
Culturais pela Universidade de São Paulo (USP). É fundadora e
diretora executiva da revista Pessoa (revistapessoa.com), voltada para a literatura contemporânea de língua portuguesa. É curadora da programação da Fundação Roberto Marinho/Museu da Língua Portuguesa para as edições 2017/2018 da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.

 

CABO VERDE
Abraão Vicente
Atual Ministro da Cultura de Cabo Verde. É sociólogo de formação, pintor e fotógrafo autodidata com exposições em vários países e presença em coleções privadas de renome. Foi jornalista e cronista do jornal cabo-verdiano A Nação e concebeu e apresentou programas televisivos para as televisões local e portuguesa. É natural da Ilha de Santiago, Cabo Verde, mas estudou sociologia na Universidade Nova de Lisboa. É autor do romance O Trampolim, dos livros de poesia E de Repente a Noite e Amar 100 Medo, Cartas Improváveis & Outras Letras, da coletânea de crónicas Traços Rosa Choque, e do livro de poesia em prosa 1980 Labirintos. O autor participa, também, na coletâneas de contos Dez Contos Para Ler Sentado, entre outras.

 

MOÇAMBIQUE
Mbate Pedro
É autor de vários livros de poemas, com destaque para: Minarete de Medos e Outros Poemas, Debaixo do Silêncio que Arde , Vácuos e Os Crimes Montanhosos . Com Debaixo do Silêncio que Arde foi agraciado com o Prémio BCI (para o melhor livro do ano publicado em Moçambique) e com uma menção honrosa do Prémio Glória de Sant’Anna (Portugal). Tem os seus textos (poemas e ensaios) dispersos em várias revistas literárias e jornais e tem colaboração em diversas antologias.

 

PORTUGAL
Maria João Cantinho
Doutorou-se em Filosofia Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. É professora do ensino secundário e leccionou no IADE entre 2011/2016. É investigadora do CFUL na Universidade de Lisboa e no Centre d’Études Juives da Sorbonne. Publicou 4 livros de ficção, 4 de poesia e foi finalista do Prémio Telecom em 2006, com a obra “Caligrafia da Solidão”. O seu último livro, “Do Ínfimo” conquistou o Prémio Literário Glória de Sant’Anna e foi nomeado como finalista no Prémio de Poesia do Pen Clube Português.

 

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
Orlando Piedade
É autor da obra “O Amor Proibido”, um romance baseado na história da colonização em São Tomé e Príncipe, publicado pela editora Colibri em 2011.
É ainda autor da obra “Os Meninos Judeus Desterrados” – prémio literário Francisco José Tenreiro 2015, o seu último romance, publicado em Dezembro de 2014 pela mesma editora, onde aborda a história de cerca de duas mil crianças judias enviadas, em 1493, para povoar as ilhas de São Tomé e Príncipe.

Event details

Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas

intelesemina´rio interncional.png

II CONGRESSO INTERNACIONAL, VII SEMINÁRIO INTERNACIONAL ACOLHENDO AS LÍNGUAS AFRICANAS: IV CONGRESSO NACIONAL AFRICANIDADES E BRASILIDADES: DIREITOS HUMANOS E POLÍTICAS PÚBLICAS

Início: 17/09/2018 Fim: 20/09/2018 Data de abertura: 10/05/2018 Data de encerramento: 30/07/2018 Países: Brasil

Estão abertas as inscrições para o II Congresso Internacional, VII Seminário Acolhendo as Línguas Africanas: IV Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas que ocorrerão na Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes, nos dias 17, 18, 19 e 20 de setembro de 2018.

O II CINAB, VII SIALA e IV CNAB: Direitos Humanos e Políticas Públicas são uma realização do Núcleo de Estudos e Pesquisas Africanidades e Brasilidades – NAFRICAB/Ufes em parceria com o Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros em Línguas e Culturas – GEAALC/Uneb.

O objetivo dos Núcleos de Estudos e Pesquisas envolvidos no II Congresso Internacional, VII Seminário Internacional Acolhendo as Línguas Africanas: IV Congresso Nacional Africanidades e Brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas é estabelecer um diálogo transatlântico entre o Brasil e África valorizando aspectos ligados às esferas literária, linguística, artística, histórica, filosófica e educacional.

O II CINAB, VII SIALA e IV CNAB: Direitos Humanos e Políticas Públicas contarão com palestras, mesas-redondas, Grupos de trabalho, oficinas, minicursos, atividades culturais, exposição, lançamento de livros e conversas com escritores.

Grupos de trabalho

  • Africanidades e Brasilidades em Literaturas e Linguística
    Profa Dra. Michele Silva Schiffer (FAPES/Ufes), Profa. Dra. Lise Arruda (Geaalc/Uneb), Prof. Dr. Amarino Queiroz (UFRN/Nafricab)
  • Africanidades e Brasilidades em Educação e Relações Ético-raciais
    Profa. Dra. Kiusam de Oliveira (Ufes), Profa. Dra. Candida Soares Costa (UFMT), Prof. Dr. Gustavo Forde (Ufes)
  • Africanidades e Brasilidades em Direitos Humanos e Políticas Públicas
    Prof. Dr. Ivan Costa Lima, Profa. Dra. Ana Lucia Borges de Carvalho (Geaalc/Uneb), Profa. Dra. Joselina da Silva (UFRRJ)
  • Africanidades e Brasilidades em Teatro Negro e Africano
    Prof. Hamilton Celestino da Paixão (Sedu/Geaalc/Uneb), Prof. Dr. Ivo Ferreira de Jesus (Geaalc/Uneb)

Cada Grupo de Trabalho receberá até 60 trabalhos para apresentação em 15 minutos cada, sendo assim, serão selecionados respeitando a data de envio do resumo: 30 de julho.

Minicursos

  1. Línguas africanas no Brasil
    Profª Drª. Lise Arruda (Geaalc/Uneb) e Profª. Drª. Yeda Pessoa (Geaalc/UFBA)
  2. Bairros negros: corporativismo e autonomia das populações negras
    Dr. Henrique Cunha Junior (UFC)
  3. Diálogos ibero-afro- americanos em literatura e cultura
    Dr. Amarino Queiroz (UFRN/Nafricab)
  4. Teatro negro e africano
    Hamilton Celestino da Paixão (Sedu/Geaalc/Uneb) e Prof. Dr. Ivo Ferreira de Jesus (Geaalc/Uneb)
  5. A Educação em Direitos Humanos e o Enfrentamento às Violências na Escola
    Profª. Heloisa Ivone da Silva de Carvalho (Coordenadora da Comissão de Educação em Direitos Humanos/ GFDE/SEME)

Mais informações e inscrições: http://www.eventos.ufes.br/CNAB/CINAB2018.

 

IV GRIOTS | CONGRESSO INTERNACIONAL DE LITERATURAS E CULTURAS AFRICANAS

Início: 19/11/2018 Fim: 21/11/2018 Data de abertura: 10/05/2018 Data de encerramento: 30/09/2018 Países: Brasil

IV Congresso Griots
Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas
Literaturas e Direitos Humanos
19-21 de novembro, 2018
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Lagoa Nova, Natal – RN

O IV Congresso Internacional de Literaturas e Culturas Africanas, GRIOTS, a se realizar nos dias 19, 20, 21 de novembro de 2018, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Campus Salgado Filho, Natal, Nordeste do Brasil, afirma lugares de fala, de perspectiva, e de diversidades temáticas que atravessam a reflexão sobre a Literatura, os direitos humanos, a violência contra as mulheres negras e a comunidade afrodescendente mundo afora.

Submissão de propostas dos GTs

Cada GT comportará até 02 (dois) coordenadores de instituições distintas e com título de doutorado. A data limite para o envio de proposta será até 15 de maio de 2018. Em seguida, serão abertas as inscrições de comunicações orais em grupos de trabalho.

As propostas de trabalho serão avaliadas pela comissão organizadora do Griots 2018. Após o encerramento do período para a submissão das propostas de grupos de trabalho, será divulgada no dia 25 de maio de 2018 a relação dos aprovados no site do evento.

​O período de inscrição em propostas dos GTs será de 01/junho/2018 a 30/setembro/2018.

Eixos temáticos para propostas de Gts

  1. Literatura e filosofia
  2. Literatura, racismo e etnicidade
  3. Literatura e direitos humanos
  4. Literatura, sexualidade e feminismo negro
  5. Literatura, descolonização, guerras e diáspora
  6. Literatura afrobrasileira e latinoamericana
  7. História, ancestralidade, mitos, memória, religiosidade e oralidade
  8. Áfricas, cinema, artes plásticas
  9. Literatura, música e cultura popular
  10. Literaturas e ensino
  11. Literaturas em língua portuguesa
  12. Linguagem, tradução, práticas discursivas
  13. Literaturas indígenas e caribenhas

Mais informações no site do IV Congresso Griots.

Novas faces da negritude – Jornal Valor Econômico

 

arte11cul-603-capa-d10 valor economico

Desde já, uma advertência: esta reportagem contém pequenos testes.

Mas não se assuste. Eles são de simples solução, ainda que tragam

conclusões complexas. Eis o primeiro. Em um ambiente de caráter mais

elitista, olhe ao redor. Conte quantos negros o espaço acomoda. A

resposta será alguma coisa entre zero e pouquíssimos. Não estranhe,

porém. No Brasil, tal vazio é, por assim dizer, comum. Aliás, os

afrodescendentes, que compõem a maioria da população brasileira e são

55% do total, fazem o mesmo exame. Eles o chamam de “teste do

pescoço”, em referência à parte do corpo que gira para os lados, como

um periscópio, durante esse tipo de inspeção. O resultado, todos sabem,

é invariável e historicamente o mesmo.

Levantamentos de toda sorte confirmam a prevalência de brancos nesses

locais no Brasil. Uma pesquisa do Instituto Ethos, só a título de exemplo, mostra que os negros ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% dos postos de gerência nas 500 maiores empresas do Brasil.

 

No caso das mulheres negras, tal presença é ainda mais rarefeita. Os números

são, respectivamente, 0,4% e 1,6%. Tudo isso é inegável. Mas a chamada “questão racial” apresenta, hoje, nuanças intrigantes. Embora incipientes, elas estão nas ruas, agindo em conjunto. Eis a lista. Está saindo das universidades a primeira grande leva de negros formados dentro do sistema de cotas. Em paralelo, grupos de afrodescendentes apoderaram-se dos espaços digitais, dando novo alcance ao debate e às denúncias sobre o racismo. Políticas de gestão de diversidade, que resultam na inclusão de negros em postos qualificados de trabalho, também ganham tração em companhias instaladas no Brasil. Por fim, empresas, agências de publicidade e institutos de pesquisa começam a se interessar pelos afro-brasileiros sob um aspecto até aqui pouco usual – como consumidores.

 

Considere, agora, uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, em 2017. Ela constatou que o tempo médio de estudo dos negros passou de 5,9 anos, em 2002, para 8,6 anos, em 2015. Foi um salto de 35%. Entre os não negros, houve elevação, mas foi inferior: 22%. Além do mais, o percentual de pretos e pardos – como o IBGE

define o grupo de negros – com diploma de graduação dobrou entre 2007 e 2015. Além do mais, 75% das pessoas que ascenderam à classe média na última década eram afro-brasileiros, ainda que parte dessa escalada tenha sido comprometida nos anos bicudos da recessão. Estima-se, por fim, que os negros movimentaram R$

1,6 trilhão no ano passado.

 

O mercado de trabalho é um aspecto importante nessa transformação, ainda que lenta. O antropólogo Pedro Jaime, autor de “Executivos Negros, Racismo e Diversidade no Mundo Empresarial” (Edusp), identificou uma alteração singular na forma como duas gerações de afrodescendentes alcançaram cargos de direção ou gerência nas empresas nacionais.

 

“Um grupo ascendeu nos anos 70 como resultado de iniciativas individuais”, afirma Jaime. “O outro começa a ocupar postos semelhantes, mas sua trajetória é fruto de uma ação diferente, pois é coletiva.” Para o acadêmico, a guinada do individual para o coletivo foi resultado de dois fatores. Houve, por um lado, uma maior politização dos debates sobre racismo, em grande medida, intensificados pelas discussões sobre cotas. O outro componente foi a adoção por parte de empresas de políticas de diversidade. Esse tipo de técnica de gestão parte do princípio segundo o qual equipes heterogêneas de trabalhadores, e isso vale para etnia, gênero, credo, orientação sexual e idade, trazem benefícios para os negócios: diminuem a rotatividade de funcionários, atraem e retêm talentos e, entre outras vantagens, criam times mais propensos a inovador. De quebra, observa Jaime, a diversidade atenua tensões sociais como a demanda pela presença de “minorias” no ambiente empresarial.

 

A pesquisa do Instituto Ethos, cuja última edição é de 2016, constatou que somente 3,4% das 500 maiores companhias brasileiras têm metas e ações planejadas para ampliar a presença de negros em cargos executivos. O percentual é pequeno, mas essas firmas são gigantes em seus setores. A lista inclui grandes nomes como

Bayer, Basf, IBM, Google, Microsoft, Avon, Dow.

 

Acrescente-se que, em algumas delas, está em curso uma ruptura cultural, com a formação de núcleos de funcionários encarregados de discutir e encaminhar a questão do racismo dentro das quatro paredes da empresa.

 

Ricardo Gonçalves, executivo-sênior de TI na Bayer; Raphaella Martins, gerente de contas da agência de publicidade J. Walter Thompson; e Leila Luz, da área de comunicação para a América Latina da Basf, integram grupos desse tipo. Gonçalves conta que só tomou consciência do problema racial dentro do ambiente

corporativo.

 

“Como ralei muito durante toda a vida, sempre achei que a ascensão no

mercado de trabalho dependia apenas do esforço pessoal”, afirma. Mas,

à medida que ele participava das discussões sobre diversidade na

empresa, mudou de opinião. “Comecei a fazer o teste do pescoço nos

lugares onde frequentava e a questionar: realmente, onde estão os

negros?”

Raphaella, por sua vez, havia trabalhado 15 anos em agências de publicidade e estava “cheia” de ser a única negra em um cargo executivo nesses locais. Ao entrar na J. Walter Thompson, em 2014, decidiu incluir afrodescendentes em sua equipe. Essa disposição encontrou ressonância na cúpula da companhia. Nessa época, Ricardo John, vicepresidente de criação da agência, tateava o tema diversidade. Não foi difícil que o interesse de ambos convergisse.

 

Como resultado, os negros em postos estratégicos da empresa passaram de 2, em 2014, para 30 (20% dos funcionários) atualmente. “Mas a experiência não se resumiu aos números”, diz Raphaella. “Ela desencadeou um processo de conscientização que atingiu todos na agência.”

 

Em tais debates, porém, muitas vezes emergem rusgas – e não consensos. “Mas algum tipo de desconforto também pode ser útil”, afirma Leila Luz, da Basf. Em uma ocasião, ela contratou um funcionário negro. Uma colega lhe indagou se a cor da pele do candidato havia influenciado na decisão. “Ora, pessoas brancas contratam brancos o tempo todo, e ninguém faz esse tipo de questionamento”, diz Leila.

“Nesse caso, expus o meu ponto de vista e foi bom. Isso ajudou a superar o problema.” Ela observa, contudo, que o resultado líquido da atuação

desses grupos nem sempre é animador. “Fico na expectativa de ouvir um diálogo transformador, mas, na prática, as pessoas tendem a reproduzir o senso comum.”

Por isso, se há uma discussão que os jovens negros consideram totalmente inócua é se existe racismo no Brasil. E o motivo é simples: eles são alvos permanentes de preconceitos. O consultor de comunicação Rodrigo Fernandes, por exemplo, estava em pé na frente de um restaurante de alto padrão nos Jardins, em São Paulo,

onde almoçaria com um amigo. Um homem desceu de uma Mercedes e lhe entregou a chave do carro. “Fui confundido com o manobrista”, afirma Fernandes.

Outro ponto de transformação é a tecnologia, que, como em tudo mais na atualidade, abre espaço para outras mudanças.

“Até agora, as revoluções na mídia, com o rádio, a TV e a primeira fase da internet, foram brancas”, diz Adilson dos Santos Júnior, conhecido como AD Júnior, um expoente entre os influenciadores negros nas redes sociais. “A diferença é que, agora, temos isto”, acrescenta, apontando para um smartphone.

 

“Somos mais de 110 milhões de pretos e pardos no Brasil e ganhamos voz no mundo digital.” É longa a lista de afrodescendentes em alta nas redes sociais.

Nesse caso, chama atenção a presença de mulheres como a arquiteta Stephanie

Ribeiro e Djamila Ribeiro, ex-secretária adjunta de Direitos Humanos em São Paulo. Os coletivos da web, como Blogueiras Negras e Levante Negro, também compõem essa tribuna digital. O Levante, por exemplo, foi criado em 2015. Ele divulga trabalhos de negros em áreas como comunicação, educação ou gastronomia.

 

“A ideia é levar para a audiência uma representatividade concreta, que sirva de inspiração para jovens em início de carreira”, afirma o escritor Oswaldo Faustino, autor de “A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932” (Selo Negro). “Mas, por uma ironia cruel, o grupo tem sido alvo de ataques frequentes. As acusações como de ‘vitimismo’ se tornam rotina na vida de seus integrantes, que trabalham com a curadoria e produção de conteúdo educativo de alta qualidade.”

 

AD Júnior é especialista em marketing digital formado pela Universidade da Califórnia, em Irvine (EUA). Hoje, vive na Alemanha. Em 2012, criou um canal sobre viagens no Facebook. Assustou-se com os comentários

.

“Algumas pessoas perguntavam como um ‘macaco’ podia falar inglês”, afirma. As ofensas amontoaram-se até que AD resolveu transformar o canal em uma plataforma antirracista.

 

Djamila Ribeiro, destaque entre as atuais blogueiras negras, conta em um de seus textos que, na infância, uma amiga lhe convidou para ir a uma festa. Chegando lá, ela e seus irmãos não entraram na casa, pois um tio da garota não gostava de negros. Djamila e os irmãos foram servidos na calçada. Isso até que, indignados,

debandaram dali. É Djamila quem faz a pergunta que compõe o segundo teste desta reportagem: “Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?”.

 

Não raramente, situações dessa intensidade levam à resignação. Em outros casos, produzem um reforço identitário.

Patrícia Santos, especialista em RH, perdeu um emprego por ter feito trancinhas nos cabelos. “Minha chefe disse que eu não estava de acordo com o ‘dress

code’ da empresa”, afirma. Em resposta, e com o tempo, ela fundou a

Empregue Afro, consultoria de RH especializada na colocação de negros

no mercado de trabalho. Fernando Montenegro, por sua vez, não se conformou com o fato de pretos e pardos serem invisíveis para muitos setores do mercado. Ele criou um instituto de pesquisas focado na análise do comportamento de consumo de afro-brasileiros. Trata-se do Think Etnus.

 

Cansada de papéis secundários e estereotipados, a atriz Maria Gal também reagiu. Ela começou a produzir, e vai protagonizar, um filme sobre Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Negra, favelada, semianalfabeta, Carolina registrava seu cotidiano em papéis colhidos no lixo. Transformou-se em escritora, traduzida em vários idiomas,

autora de livros de como “Quarto de Despejo” (1960).

 

“Só 4,4% dos filmes produzidos no Brasil têm atrizes negras no seu elenco principal”, afirma Maria Gal,justificando sua decisão de empreender. “E já desisti de um teste, porque o diretor achava a pele branca mais comercial do que a minha.”

O debate sobre o racismo no Brasil sempre se deu no campo do interdito, patinando entre falsas premissas, ambivalências e tabus.

 

No fim do século XIX, a ciência construiu a ideia de que as raças eram biologicamente determinadas. Por aqui, tal lógica, o racialismo, encontrou guarida no médico Nina Rodrigues (1862-1906), de origem negra. Tal corrente considerava os negros inferiores. Assim, difundiu-se a tese de que era preciso branquear a população no país. Algo que de fato foi tentado por meio, por exemplo, da política de atração de imigrantes europeus.

 

A partir da segunda metade do século XX, essa teoria desmoronou. Com os avanços da ciência, as categorias raciais passaram a ser vistas como socialmente construídas, e não inatas. Mas o desmanche do racialismo não teve grande utilidade prática.

 

Como diz Kwame Appiah, professor de filosofia da Universidade de Nova York

(autor de “Lines of Descent: W.E.B. Du Bois and the Emergence of Identity”), continuamos a nos classificar por raças, apesar do que nos diz a genética.

 

Queiramos ou não, como afirma a antropóloga brasileira Lilia Moritz

Schwarcz, na prática, raça ainda é um conceito poderoso e persiste como marcador social.

 

Já durante boa parte do século XX, os brasileiros viveram sob o doce

mito da democracia racial. Grosso modo, ele propagava ao mundo que o

Brasil escapara do preconceito e da discriminação. À primeira vista, esse

conceito pode parecer um produto genuinamente nacional. Mas não é.

Deborah Yashar, professora de política na Universidade Princeton,

apontou em um artigo publicado na revista “Foreign Affairs” (“Does

Race Matter in Latin America?”) que a mesma fábula seduziu diversos

países latino-americanos. Eles difundiram mitos gêmeos de unidade

nacional e homogeneidade étnica como parte do processo de construção da identidade nacional.

 

Em 1925, por exemplo, o filósofo mexicano José Vasconcelos cunhou o termo “raça cósmica” para glorificar o caráter inter-racial daquele país. Os venezuelanos usavam a expressão “cafe con leche” para celebrar o amálgama entre africanos, europeus e índios. Disse o general equatoriano Guillermo Rodríguez Lara, após

assumir o poder em 1972: “Não há mais um problema indígena. Todos nos tornamos homens brancos quando aceitamos os objetivos da cultura nacional”.

 

No Peru, o general e ex-presidente Juan Velasco Alvarado (1968 a 1975) foi mais longe. Proibiu o termo “índio” nos discursos oficiais. Em 1969, alterou o nome do Dia do Índio para Dia do Camponês.

 

Por aqui, coube a Gilberto Freyre, o autor de “Casa-Grande & Senzala”, interpretar o Brasil como um país mestiço e o brasileiro, como uma metarraça. O paraíso racial erguido por Freyre começou a desabar nos anos 50, com os sociólogos Roger Bastide e Florestan Fernandes (este autor do clássico “A Integração do Negro na

Sociedade de Classes”).

Na mesma toada desmistificadora, seguiram Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni. FHC, aliás, foi o primeiro presidente brasileiro a admitir a existência do racismo no país.

Hoje, por mais que despontem ações individuais, o que se chama de movimento negro é um conjunto de grupos que atuam em áreas diversas. Eles se articulam em situações pontuais e mantêm entre si uma espécie de comunhão de princípios. “Ainda assim, resta o desafio de construção de uma síntese”, diz Douglas Belchior, da Uneafro, entidade que prepara jovens negros para vestibulares e concursos públicos.

 

Nesse sentido, cogita-se da formação da Frente Alternativa Preta, o esboço para a formação de um partido de base étnica. A pauta de boa parte desses grupos inclui reivindicações por avanços tanto nas ações afirmativas como em políticas de reparação histórica. As primeiras são pontuais e transitórias, como as cotas, as outras visam atacar desigualdades estruturais, com iniciativas de longo prazo e investimentos permanentes em áreas específicas.

 

Políticas de ação afirmativa, embora tenham nascido nos Estados Unidos, nos anos 60, são um fenômeno global. Foram largamente usadas na Malásia, por exemplo, no fim do século passado. Hoje, o tema atravessa o mundo, atingindo inclusive a Europa, palco de permanentes fluxos migratórios. Como diz o filósofo indiano Kenan Malik, ali, tal debate é fruto do “fiasco do multiculturalismo”, em que estão atolados os países europeus.

 

 

Para Graham K. Brown, da Universidade da Austrália Ocidental, e Arnim Langer, da Universidade de Leuven, na Bélgica, autores do livro “Building Sustainable Peace”, tais programas de ação afirmativa tiveram sucessos semelhantes e foram vítimas de fracassos similares. A maioria reduziu disparidades econômicas, ainda que com frequência menor do que seus formuladores gostariam. As ações, observa a dupla, tendem a realçar divisões étnicas, embora a inquietação racial possa ceder à medida que a desigualdade diminui.

 

No Brasil, seis anos depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter confirmado constitucionalidade da lei de cotas, em 2012, os balanços da maior ação afirmativa já adotada no país têm sido positivos. Os dados indicam que, entre 2012 e 2015, o número de estudantes pretos ou pardos passou de 933 mil para 2,1 milhões nas

universidades federais. Foi um salto de 132%. Diversas pesquisas afastaram temores segundo os quais os cotistas teriam um desempenho acadêmico pífio ou engrossariam as estatísticas de evasão.

A maior dificuldade do sistema diz respeito à definição de quem é negro, uma tarefa árdua em um país de “quase pretos”. Para escapar dessa sinuca, as universidades recorrem a entrevistas para avaliar o fenótipo dos estudantes (como nariz, cabelos), uma análise sujeita a imprecisões ou a autodeclaração do candidato, que dá

margem a fraudes. Mas problemas desse tipo, afirmam especialistas, não comprometeram até aqui a tentativa de equalizar, ainda que minimamente, as oportunidades de educação no Brasil.

 

Mas um alerta indigesto sobre a questão racial soou no mês passado, em um artigo do economista Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel, em 2001, com o título “Quando vamos superar o racismo?”. No texto, ele indica que, em 50 anos de combate a discriminações nos Estados Unidos, houve avanços em alguns setores (caso da

política, com a eleição de Barack Obama), em muitas áreas o quadro permaneceu o mesmo (disparidades na educação e no emprego) e, em outras, a situação agravou-se (desigualdade de renda e riqueza).

 

Esse balanço é detalhado no livro “Healing our Divided Society”, organizado Fred Harris, ex-senador e professor da Universidade do Novo México, e Alan Curtis, o CEO da Fundação Eisenhower. Stiglitz, que colaborou com o projeto, define a leitura do texto como “sombria”.

 

Quanto às aspirações dos afrodescendentes, eles parecem ter sido captados recentemente por uma fonte insólita: Hollywood. Considerando o efeito produzido nas plateias, “Pantera Negra” consolida uma espécie de “utopia da negritude”. No filme, um super-herói assume o trono de Wakanda, um pequeno país africano. Ele se faz passar por pobre e rural, mas detém uma tecnologia tão evoluída quanto poderosa. O protagonista vive um dilema. Deve guardar o segredo dessa riqueza, e com isso garantir a prosperidade e a segurança de seu povo, ou precisa compartilhar esse conhecimento com o mundo, notadamente com comunidades negras massacradas planeta afora. Mais do que um delírio de poder pan-africano, a história atrai pela forma como apresenta homens e mulheres negros. Eles surgem na tela como orgulhosos protagonistas de seus destinos. Não parece ser

outro o anseio na vida real._

Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5517555/novas-faces-da-negritude

A realidade do privilégio

 realidade-privilegio-1.png

Perspectivas do real e privilégios: a necessidade de questionar a razão! É comum que os privilégios não sejam percebidos por quem os usufrui

Um post nas redes sociais discute a importância do cuidado com as demandas psicológicas e emocionais da população negra no Brasil ante o sofrimento psíquico advindo do racismo e que, diante de tantas outras demandas da vida, ficam em segundo plano. Composta por um texto e vídeo, o intuito da discussão era o de chamar a atenção da população negra para o cuidado com seu emocional e psiquismo. No entanto, o vídeo (no qual Djamila Ribeiro é entrevistada) publicado com o texto chama a atenção de uma maioria para questões outras, que sequer foram propostas. Djamila se propõe a elucidar a impossibilidade de se realizar qualquer discussão no Brasil, sem levar em consideração questões como raça, gênero e classe.

A sessão de comentários do post passa a receber uma gama de opiniões e críticas sobre o quanto as pessoas negras são racistas consigo mesmas, o quanto as cotas são um desserviço, como os negros se vitimizam. Outros comentários destacam aquele amigo negro bem-sucedido, que tal pessoa conhece. Se ele conseguiu concluir o doutorado, todos os outros negros também podem, basta que eles se esforcem.

Embora a discussão gerada nos comentários fuja da proposta planejada para a postagem, as manifestações nos comentários valem a discussão! A discussão que esses comentários nos propõem é a falta de percepção dos privilégios que muitos de nós possuímos.

Talvez, o que os autores dos comentários não tenham notado seja, justamente, sua posição social, a mesma posição social que Djamila Ribeiro discutia no vídeo, ou seja: raça, gênero e classe.

Se você for um homem branco de classe média, certamente seu acesso a uma escola de boa qualidade, cuidados com a saúde (tanto física como mental) e outros cuidados que podem parecer básicos ou primordiais, foi assegurado com uma maior facilidade, se compararmos ao mesmo acesso por pessoas em outra posição social, como a de homens negros periféricos. Esses acessos ficam mais restritos de acordo com a posição social de cada indivíduo, o que por sua vez, coloca esses indivíduos em situações menos privilegiadas.

É comum que esses privilégios não sejam percebidos por quem os usufrui, o que, por sua vez, leva muitas pessoas a terem opiniões próximas as dos comentários do post que deu início a esse texto. O fato de estarmos habituados a viver numa realidade onde um contexto específico garante o acesso a bens, serviços e lugares, nos dá uma perspectiva de mundo que, por vezes, pode parecer única. Porém, é necessário perceber que nossa perspectiva é apenas mais uma entre muitos pontos de vista sobre o mundo e a realidade que conhecemos. Quando essa percepção se perde, passamos a nos relacionar com as pessoas e com o mundo apenas de acordo com nossas vivencias, julgando o outro com base naquilo que acreditamos ser a verdade. Uma visão empática deveria considerar as experiências do outro, e que o levaram a tomar determinadas atitudes ou a chegar em determinados espaços.

Funciona como se enxergássemos o mundo através de uma lente. Imagine que essa lente esteja suja, isso fará com que nossa perspectiva sobre aquilo que olhamos se altere. Sendo assim, para conseguir se relacionar melhor com aquilo que está diante de nós, é necessário limpar um pouco a lente. Nessa situação hipotética, a lente é o nosso crivo moral. A sujeira que vai se acumulando diante dela, nossas crenças. Aquilo que vemos e nos relacionamos, a realidade. Nós não conseguimos nos desvencilhar de nosso crivo moral, mas à medida que nos despimos de nossas crenças na relação com o outro, vamos nos aproximando da realidade do outro e construindo uma relação mais saudável.

Não há problemas em ser, de alguma maneira, privilegiado, já que, em geral, sempre possuímos um ou outro privilégio. O problema é não reconhecer os privilégios que você possui. Nem sempre se pode escolher uma condição privilegiada, como ser uma pessoa branca, heterossexual, que em nossa configuração e estrutura social, são condições que concedem privilégios aos indivíduos (por não sofrerem preconceito com sua sexualidade ou racismo). Por outro lado, quando o grupo usado como exemplo não reconhece seus privilégios, muito provavelmente irá se relacionar, com pessoas que não fazem parte desse grupo, de maneira hostil e até mesmo opressiva.

Essa é uma questão que surge com frequência na clínica psicológica de base psicanalítica. Muitas pessoas com dificuldades de relacionamento não conseguem perceber a necessidade de limpar as lentes do crivo moral para melhorar a maneira como se relacionam. Essa capacidade empática de tentar se despir de suas crenças para tentar entender a vivência do outro, é um exercício que precisa ser treinado!

Outro dia, participando de um congresso, ouvi da palestrante que, quando criança, num momento de embate, a mãe mostrava o dedo indicador e perguntava a ela: “esse dedo tem unha ou não?”. Ao responder que sim, a mãe dizia: “do meu ponto de vista não tem”. Em seguida a mãe perguntava: “quem tem razão?”. Seus privilégios servem para te dar a razão? Então é melhor questioná-los!

Diogo Salviano é psicólogo clínico e destina parte de seus estudos e produção a forma como o processo psicoterápico é realizado na abordagem psicanalítica, atendendo em psicodiagnóstico e psicoterapia individual (crianças, adolescentes e adultos) com base em psicanálise. É também interessado em pautas e movimentos sociais, mais especificamente relacionadas as questões raciais e LGBT.


https://www.bayerjovens.com.br/pt/materia/?materia=a-realidade-do-privilegio

Bancário, com estresse depois de assalto, recebe indenização

estresse2O Banco Itaú deve pagar indenização por danos materiais e morais de R$ 300 mil a empregado que teve estresse pós-traumático, consequência de um assalto sofrido na agência bancária em que trabalhava. Segundo consta no processo, após o fato o trabalhador desenvolveu alterações de personalidade permanentes, causa que o afastou do trabalho. Além disso, constam outras doenças desenvolvidas durante o tempo de serviço na agência como problemas no cotovelo, nos ombros e nos punhos. O banco recorreu da sentença, buscando ser absolvido do pagamento das indenizações, decorrentes das moléstias psiquiátricas e ortopédicas que acometeram o trabalhador. Porém, no entendimento da 11ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS), por unanimidade de votos, não houve apresentação de provas suficientes que sustentassem o pedido de absolvição da pena. Ainda cabe recurso junto ao TST.
estress
O empregado trabalhava na instituição bancária desde 1985, quando foi admitido exercendo as funções de gerente operacional. Em 2013, foi vítima de assalto enquanto prestava serviços em favor do banco. Os criminosos anunciaram o assalto, rendendo o funcionário e ameaçando não apenas ele, mas também membros de sua família, alegando que sua vida estava sendo monitorada há meses. Os assaltantes deixaram a agência após a retirada do dinheiro dos caixas eletrônicos. Após dar seu depoimento, no mesmo dia do crime, o servidor retornou ao banco para contabilizar o prejuízo do assalto. No seu testemunho consta ainda uma intimação do seu chefe para retornar ao trabalho dois dias após o fato. Segundo o gerente, ele ficou dias em serviço sem ter condições de concentração nas suas tarefas.. Depois de uma semana do ocorrido, o bancário afastou-se do serviço e não pôde mais retornar.estress4

Em relação ao seu quadro de saúde, o perito médico psiquiátrico concluiu que o funcionário apresenta desde 2013 sintomas decorrentes do fato do qual foi vítima, sendo considerado portador de uma alteração permanente de personalidade após uma experiência catastrófica. A perícia técnica constatou ainda que as doenças ortopédicas desenvolvidas tiveram como causa as atividades exercidas pelo gerente operacional durante todo o período em que esteve no cargo.

stress

Para a relatora do recurso na 11ª Turma, desembargadora Maria Helena Lisot, ficou demonstrado o nexo de causalidade entre o assalto sofrido pelo gerente e o estresse pós-traumático. Contudo, a magistrada optou pela redução do valor da indenização de danos materiais em 20% em relação ao valor arbitrado em primeira instância. O bancário deve receber o montante em parcela única.

Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região