Alerta: Há um ritmo desenfreado de extinções de espécies de plantas

Um estudo divulgado na segunda-feira pela revista científica “Nature” alerta para o ritmo desenfreado de extinções de espécies de plantas no planeta. O relatório, o primeiro realizado em escala global, calcula que 571 espécies tenham desaparecido desde 1750.

Cientistas que participaram do trabalho afirmam que a estimativa é assustadora e pode estar muito abaixo da realidade, já que alguns países não foram estudados minuciosamente.

Mais de 570 espécies de plantas foram extintas desde 1750.

Foto: Pixabay / Divulgação
O Brasil está entre os protagonistas do problema, causado em grande parte pela atividade humana sem metas sustentáveis. A derrubada de florestas e o uso de grandes porções de terra pelo agronegócio são apontados como as principais causas das extinções.

Os autores do trabalho compararam o quadro da crise entre diferentes locais do planeta. O Estado americano do Havaí lidera a lista mundial, com 79 espécies extintas, enquanto a África do Sul soma 37. Além do Brasil, Austrália e Índia também figuram entre as nações mais afetadas pelo fenômeno.

A velocidade do desaparecimento é 500 vezes maior do que os índices registrados durante a Revolução Industrial. Os impactos, asseguram os cientistas, serão profundos na vida do planeta.

O estudo menciona riscos aos próprios seres humanos e demais organismos, além dos ecossistemas, e é embasado por trabalhos de campo e anos de análise de revistas científicas.

AFP. Posted: Junho 12, 2019.

Botswana está em festa em defesa dos direitos humanos da população LBGT

 

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Em uma vitória para a comunidade LGBT africana, a Justiça de Botsuana descriminalizou nesta terça-feira (11) a homossexualidade, até então proibida no Código Penal do país desde 1965.

Os dispositivos do Código Penal relativos às relações entre pessoas do mesmo sexo “estão anulados”, declarou o juiz Michael Leburu, de uma corte do país ao sul da África.

A inclusão social é fundamental para acabar com a pobreza e promover a prosperidade compartilhada”, disse ele.
Nos termos da seção 164 do Código Penal de Botswana, “conhecimento carnal de qualquer pessoa contra a ordem da natureza”, foi uma ofensa que levou uma sentença máxima de sete anos de prisão. A seção 167 fez “atos de grosseria indecente” – em público ou privado – uma ofensa punível, com até dois anos de prisão.
O caso foi levado ao tribunal em março por Letsweletse Motshidiemang, um estudante de 21 anos da Universidade de Botswana, que argumentou que a sociedade havia mudado e que a homossexualidade era mais amplamente aceita, informou a mídia local .
O tribunal lotado explodiu em aplausos de alegria ao ouvir o veredicto.
Neela Ghoshal, pesquisadora sênior da Human Rights Watch, disse à CNN que a decisão estabelece um “poderoso precedente no continente, reconhecendo que a criminalização da mesma conduta sexual viola os direitos à privacidade e é descaradamente discriminatória”.
“A Suprema Corte está certa em declarar que as leis de sodomia pertencem a um museu ou aos arquivos, não à vida moderna”, disse ela.x496786.jpg.pagespeed.ic.echUytmo-o.jpg

Zona Livre- comércio entra em vigor na África

Iniciativa é voltada para a emancipação econômica do continente

ADIS ABEBA (ETIÓPIA) | AFP

A Zona de Livre-Comércio Continental (Zlec), um projeto-chave da União Africana (UA) voltado para a emancipação econômica do continente, entrou em vigor nesta quinta-feira (30), com o objetivo de aumentar o comércio interafricano em 60% até 2022, anunciou a UA.

“É uma etapa histórica! O acordo da Zlec entrou em vigor hoje”, celebrou no Twitter o comissário da UA para o Comércio e a Indústria, Albert Muchanga.

Refinaria de petróleo em Durban na África do Sul
A Zlec visa aumentar o comércio interafricano em 60% até 2022 – France Presse

“Celebramos o triunfo de um compromisso corajoso, pragmático e continental para a integração econômica”, acrescentou Muchanga .

A “fase operacional” deve ser lançada em 7 de julho, durante uma cúpula da UA em Niamey, após a finalização de instrumentos-chave como mecanismos de arbitragem, definição das regras de origem das mercadorias, ou mecanismos para a “eliminação” de obstáculos como a corrupção, ou infraestruturas ruins.

Do total de 55 membros da UA, 52 assinaram o acordo para a criação da Zlec desde março de 2018, com exceção notável da primeira economia do continente, a Nigéria. Para entrar em vigor, era necessário que 22 membros ratificassem a Zlec e notificassem oficialmente a organização continental.

Esse mínimo foi atingido em 29 de abril, abrindo caminho para uma entrada em vigor 30 dias depois, como previsto nos estatutos da Zlec.

A partir de 29 de abril, Burkina Faso e Zimbábue apresentaram instrumentos de ratificação, elevando o número de países incluídos na Zlec para 24, com pesos-pesados do continente como África do Sul, Egito, Quênia e Etiópia.

Se os 55 países-membros da UA assinarem o documento, a Zlec abrirá o acesso a um mercado de 1,2 bilhão de pessoas, para um PIB acumulado de mais de US$ 2,5 trilhões.

Religião, violência e loucura no Brasil

“A palavra ‘bolsonarismo’ é usada em todo o mundo, como sinônimo de violência irracional e destruição psicopática”

José Luís Fiori*

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Em artigo, o cientista político José Luíz Fiori aponta que "o 'bolsonarismo' está fazendo com que as pessoas reflitam, no Brasil e no mundo" - Créditos: Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Em artigo, o cientista político José Luíz Fiori aponta que “o ‘bolsonarismo’ está fazendo com que as pessoas reflitam, no Brasil e no mundo” / Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Na segunda década do século 16, o humanista cristão Erasmo de Roterdã sustentou um famoso debate teológico com Martim Lutero sobre a “regra da fé”, ou seja, sobre critério de verdade no conhecimento religioso. Essa batalha não teve um vencedor, mas ajudou a clarificar a posição revolucionária de Lutero, que rejeitou a autoridade do Papa e dos Concílios, e defendeu a tese de que todo cristão deveria julgar por si mesmo, o que fosse certo e o que fosse errado no campo da fé.

Para Lutero, como para Calvino, a evidência última da verdade religiosa era a “persuasão” de cada um dos leitores das Escrituras, e esta “persuasão” era concedida aos homens pela “revelação” do Espírito Santo. Contra este argumento de Lutero, Erasmo levantou uma aporia fundamental: se aceitássemos o argumento de Lutero, como poderíamos decidir entre duas leituras e interpretações diferentes de algumas passagens mais obscuras dos textos sagrados? Ou seja, como se poderia escapar da circularidade do raciocínio de Lutero, que considerava que o critério da verdade religiosa era a “persuasão interior” do cristão e, ao mesmo tempo, dizia que esta mesma “persuasão” só poderia ser garantida pela “revelação divina”. Uma “revelação” pessoal e intransferível, que não tem como ser confrontada com outra “revelação” igual e contrária, que não seja através do uso do poder e da força capaz de definir e impor o que seja certo e o que seja errado, o que seja a ortodoxia, e o que seja a heresia.

O primeiro cristão queimado na fogueira, acusado de heresia, foi um espanhol chamado Prisciliano, condenado e morto no ano de 385, poucos anos antes que Santo Agostinho revisasse a doutrina pacifista dos primeiros cristãos e defendesse o direito ao uso da violência e à “guerra santa”, sempre que fosse contra os infiéis. Uma tese que foi radicalizada por São Bernardo de Claraval, doutor da Igreja Católica que cunhou o neologismo “malecídio” – no ano de 1128 – para designar e justificar o assassinato cristão de hereges, pagãos e infiéis de todo tipo – doutrina aceita e praticada durante toda a Idade Média. Do lado protestante, o primeiro herege colocado na fogueira foi o cientista Miguel Servet, condenado e queimado pelos calvinistas do Conselho de Genebra no ano de 1553. Antes disso, entretanto, em 1525, Lutero já havia apoiado pessoalmente o massacre de 100 mil camponeses alemães que haviam se revoltado contra a nobreza e o clero católico, inspirados pelas próprias ideias de Lutero. A partir daí, a violência e a crueldade entre as seitas cristãs foi cada vez maior, e a divergência entre Erasmo e Lutero se transformou na força propulsora de uma guerra entre católicos e protestantes que durou mais de cem anos – de 1524 a 1648 –, a despeito de católicos e protestantes participarem igualmente do genocídio religioso dos povos indígenas da América. Só depois da Paz de Westphalia, assinada em 1648, é que essa ira santa contra os hereges foi domesticada, e a luta entre as religiões perdeu sua centralidade política dentro da Europa.

Durante os 350 anos seguintes, as religiões foram afastadas do comando dos Estados europeus e de suas decisões de guerra e paz. Nas últimas décadas, entretanto, em particular depois do fim da Guerra Fria, vem-se assistindo por todos os lados o renascimento de um fanatismo religioso associado a forças políticas de extrema-direita. Tudo indica que essa onda começou nos EUA, na década de 1980, sob a liderança de seitas evangélicas e pentecostais, mas contando também com o apoio de setores cada mais extensos da Igreja Católica. Muitos sociólogos atribuem esta ressurgência à crise ou à morte das grandes utopias europeias dos séculos XIX e XX, e ao crescimento do medo e da insegurança de sociedades ameaçadas por um futuro incerto e imprevisível. Mas seja qual for a causa, a verdade é que este fenômeno adquiriu uma nova dimensão com a eleição de Donald Trump, em 2016, apoiado por uma grande coalizão de forças religiosas e de extrema-direita que acabaram se impondo dentro Partido Republicano e vencendo as eleições. E houve um novo salto nesse processo, no momento em que essas forças religiosas assumiram o comando da política externa dos EUA, no início de 2018, com a nomeação de Mike Pompeo e John Bolton, como secretário de Estado e como conselheiro de Segurança da Presidência da República, respectivamente, colocando-se ao lado de Mike Pence, o vice-presidente, e de James Mattis, o secretário de Defesa, para formar um dos grupos mais conservadores e belicistas que já comandou a política externa dos EUA, desde a II Guerra Mundial. Todos discípulos de Dick Cheney, e todos firmemente convencidos de que os EUA foram o “povo escolhido” por Deus para salvar a civilização judaico-cristã de seu declínio no século XXI.

Logo depois da posse de M. Pompeo e J. Bolton, no início de 2018, os EUA anunciaram o início de sua “guerra comercial” com a China, e sua saída do Acordo Nuclear com o Irã, que havia sido assinado em 2015, o ICPOA. Anunciaram também, logo em seguida, uma série de sanções com o objetivo de estrangular progressivamente a economia iraniana. Hoje, os EUA bombardeiam quase diariamente a população de quatro países, pelo menos: Afeganistão, Somália, Síria e Iêmen, e sustentam, ao mesmo tempo, uma escalada global de sanções comerciais e financeiras, de ameaças e cercos militares, e de agressões retóricas contra Rússia, China, Coreia do Norte, Turquia, Venezuela, Cuba, Nicarágua, e contra a própria União Europeia – Alemanha, em particular. E agora de novo, em janeiro de 2019, os EUA anunciaram seu abandono do “Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário”, assinado com a URSS, em 2008, e depois aceleraram e multiplicaram suas intervenções ao redor do mundo.

O que mais chama a atenção nessa gigantesca demonstração de poder global é que, desde a posse dos “homens da Bíblia”, o uso agressivo de ameaças e intervenções em todas as latitudes do mundo não venha acompanhado de nenhum tipo de discurso ético ou de algum tipo de projeto comum para a humanidade. O único que se vê e se ouve são ordens, ameaças e exigências de submissão e obediência incondicional aos desígnios norte-americanos.[1] Um quadro aparente de loucura ou irracionalidade que pareceria incompatível com o que muitos analistas vêm chamando de acelerado processo de “cristianização da politica externa norte-americana”.[2] Como conciliar estas duas tendências tão contraditórias? Aparentemente, através da visão milenarista compartilhada pelos novos estrategos bíblicos da politica externa dos EUA que estão convencidos de que Donald Trump é o homem que foi enviado para comandar as forças do Bem contra o Mal, na batalha apocalíptica do Armagedon, que segundo a profecia bíblica, deverá ser vencida pelas forças do bem e portanto, pelos Estados Unidos da América.

Essa visão evangélica e pentecostal é compartilhada por setores católicos de extrema-direita, que hoje são liderados pelo cardeal norte-americano Raymond Burke, associado e financiado por Steve Bannon, o antigo assessor de Trump que hoje está envolvido na luta contra o pacifismo e o ecumenismo religioso de Jorge Bergoglio, o Papa Francisco.[3] Do ponto de vista desse crescente fanatismo e belicismo religioso, fica cada vez menos absurda a convicção de muitos analistas internacionais sérios, que hoje estão plenamente convencidos de que os atentados de 11 de setembro de 2011 teriam sido de fato um “autoatentado terceirizado” e construído com o objetivo de mobilizar as energias nacionais americanas para uma guerra religiosa secular, contra o Islã e contra todas as heresias que se anunciam no horizonte.

Sem entrar nessa discussão, a verdade é que é que, do ponto de vista funcional, os atentados de 2001 permitiram a Dick Cheney arrancar do Congresso as duas medidas que ele já vinha patrocinando desde o tempo em que comandou a Guerra do Golfo, como secretário de Defesa dos EUA: o direito de o Executivo Americano declarar guerra sem autorização do Congresso Nacional, em caso de “ameaça terrorista”; e o direito do Banco Central e do governo americano de acessarem e controlarem todas as operações financeiras mundiais que passem pelo sistema bancário americano, pelo Banco da Inglaterra e pelo próprio sistema bancário da União Europeia. Tudo isto pode ser apenas uma especulação teológica ou conspiratória, mas não há dúvida de que essas teses e interpretações religiosas conseguem dar algum sentido a esse conjunto de ataques enfurecidos dos EUA contra tudo e contra todos que ameacem sua lealdade judaica e estejam no caminho de seu projeto de poder global.

Mas existe outro lado deste assunto que não é devidamente analisado: o fato de que outros povos e culturas possam não compartilhar desses mesmos valores, nem considerar que estes mesmos textos bíblicos sejam sagrados ou que suas profecias tenham algum fundamento real – o que nos remete de volta ao debate entre Erasmo e Lutero. A diferença, neste caso, é que o “outro lado” não é um indivíduo nem é um cristão necessariamente, e pode até considerar que todas essas previsões do Apocalipse são uma rematada loucura. Além disso, no campo internacional, este “outro” é sempre um Estado nacional, e pode ser um Estado que tenha as mesmas pretensões globais dos EUA, e que luta por suas crenças e valores com a mesma intensidade que os norte-americanos. Por isso mesmo, até agora, depois de um ano e meio de “gritos e ameaças”, os “homens da Bíblia”, que estão no comando da política externa norte-americana, não tenham obtido nenhuma vitória significativa, nem mesmo alguma rendição da parte de seus concorrentes e adversários mais importantes, que vêm sendo assediados na Ásia, no Oriente Médio e na América Latina.

Desse ponto de vista, com toda certeza, uma das poucas intervenções diretas bem sucedidas ( pelo menos no curto prazo),  desse grupo de herdeiros de Dick Cheney tenha sido mesmo a “operação Bolsonaro”, que ajudou a instalar no governo brasileiro uma coalizão política montada às pressas e liderada por um grupo de pessoas muito toscas e, ao mesmo tempo, extremamente violentas e religiosas. Uma espécie de simulacro de baixo nível de qualidade, da própria coalizão que elegeu Trump e, mais especificamente, do grupo que assumiu o comando de sua política externa e emplacou um de seus discípulos (ou seminaristas?), no Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com a função explícita e imediata de apoiar e participar da invasão militar da Venezuela já no início de 2019. Basta lembrar o papel patético e solitário do chanceler brasileiro, na fronteira com a Venezuela, ali postado como se fosse o comandante de um exército que não existia, e de uma invasão que não aconteceu. Faltou Mike Pompeo explicar ao seu pupilo que “povos escolhidos” só existem dois: Israel, que não teria maior importância se não fosse o Estado judeu por excelência, e portanto, na prática, um Estado religioso que foi transformado numa máquina militar de ocupação, com poder atômico;[4] e os Estados Unidos, que já foram “fundados“ pelos puritanos, uma seita de origem calvinista radical, e que se tornou uma grande potência, extremamente religiosa, que expandiu e projetou seu poder de forma contínua desde o século XIX, sempre orientada por seus interesses estratégicos nacionais. Além disso, Pompeo deveria ter-lhe explicado que no caso de Israel e dos Estados Unido, o discurso religioso da “salvação judaico-cristã” coincide com e instrumentaliza suas próprias estratégias de defesa e a projeção mundial de seus interesses militares, políticos e econômicos. Já no caso do Brasil, a luta pela civilização judaico-cristã não nos agrega nada, nem coincide ou ajuda a promover os interesses econômicos e estratégicos de um país que é multicultural, multirracial e extremamente heterogêneo do ponto de vista religioso, e desigual, do ponto de vista social. Por isso, essa nova submissão da política externa brasileira aos versículos da Bíblia admirados pelo presidente e seus filhos, e pelo próprio ministro, limitam inevitavelmente o escopo das alianças internacionais do país a um número muito pequeno e inexpressivo de países sem grande projeção, como é o caso, por exemplo, de Chile, Paraguai, Hungria, Polônia, ou mesmo Israe, fora do Oriente Médio..

A artificialidade do projeto americano transposto para o Brasil fica ainda mais nítida quando se analisa o papel da violência e da agressividade dos novos governantes brasileiros, que tentam imitar o modelo praticado sobretudo por Donald Trump e John Bolton. Esta violência primitiva do núcleo governante brasileiro transforma toda e qualquer divergência política e democrática numa heresia, e tenta eliminar e destruir como herege todos os seus opositores. Uma prática que já trouxe para o Brasil um tipo de divisão e enfrentamento religioso que não será fácil de superar ou esquecer por muitos e muitos anos, talvez décadas. No caso do governo Trump, a agressão internacional, generalizada e destrutiva, encontra do outro lado da fronteira sociedades, culturas e civilizações sólidas e muitas vezes indiferentes com relação às fantasias apocalípticas dos norte-americanos. Mas no caso da agressividade bolsonarista e de sua obsessão doentia pelas armas, o que existe é uma sociedade que se sente atacada e ameaçada por seus próprios governantes, que não são capazes de propor para os brasileiros nenhum tipo de horizonte futuro mais pacífico, igualitário e justo. Pelo contrário, o que este núcleo religioso e fundamentalista propõe é uma espécie de distopia da violência, o prazer da violência pela violência e o desejo psicopático doentio de destruir a tudo e a todos, sem propor nada em troca.

Hoje, a palavra “bolsonarismo” é usada em todo o mundo, como sinônimo de violência irracional e destruição psicopática, feita em nome de versículos bíblicos, mas sem nenhum sentido ético e humanitário. Já e utilizada também como um sinal vermelho de advertência sobre o limite a que pode chegar a humanidade quando perde o sentido ético da política e da história, e se joga contra tudo e contra todos, movida pelo ódio, medo e paranoia, transformando a religião num instrumento de vingança e destruição da possibilidade de convivência entre os homens.

Neste sentido, e de alguma forma, o “bolsonarismo” está fazendo com que as pessoas reflitam, no Brasil e em todo o mundo, sobre as consequências dramáticas do paradoxo de Erasmo e Lutero: perguntando-se como é que seitas e religiões que pregam a paz e o amor entre os homens podem ao mesmo tempo promover o ódio a violência e a guerra sem fim contra “hereges” e “heresias” que elas mesmas vão inventando, separando amigos e inimigos, fiéis e infiéis, com base em “revelações” e “persuasões individuais” que não se sustentam em nenhum tipo de evidência ou argumentação racional, mas que acabam reforçando a unidade e a identidade destas seitas através do próprio exercício da violência.

*José Luíz Fiori é cientista político e autor de “O Poder Global” (Boitempo, 2007).

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[1] Fiori, J.L. “Babel syndorme and the new security doctrine of the United States”, Journal of Humanitaruan Affairs, 1(1), April 2019, pp 42-45, www.manchesterophesive.com

[2] Joyce, K. “The Chistianization of the U.S, Foreign Policy:”, The New Republic, March 25, 2019

[3] Martel, F., “No Armário do Vaticano: Poder, Hipocresia e Homosexualidade”, < Porto Editora, Porto, 2019, P:57

[4] Fiori, J.L, “A visão sagrada de Israel”, Jornal Valor Econô mico, 28 de maio de 2009

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgaram carta aberta

sbpcAssinado por Ennio Candotti, Otavio Guilherme Velho, Sergio Machado Rezende e Sergio Mascarenhas, o documento é endereçado ao ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes

Quatro presidentes de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgaram carta aberta em que afirmam que “as atuais diretrizes de Governo para Ciência e Tecnologia comprometem gravemente o desenvolvimento nacional, o bem público, o progresso da ciência e a defesa da soberania nacional”.

Assinado por Ennio Candotti, Otavio Guilherme Velho, Sergio Machado Rezende e Sergio Mascarenhas, o documento é endereçado ao ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes.

Leia abaixo a carta aberta na íntegra:

 

ao Exmo.Sr. Marcos Pontes

Ministro de Ciência Tecnologia Inovação e Comunicações

Brasília 9 de maio de 2019

Exmo. Sr. Ministro,

Temos acompanhado as batalhas que V. Exa. tem travado nos últimos tempos para reverter os cortes orçamentários determinados pelo Ministério da Economia.

Parece-nos, no entanto, oportuno alertá-lo que as atuais diretrizes de Governo para C&T comprometem gravemente o desenvolvimento nacional, o bem público, o progresso da ciência e a defesa da soberania nacional. Estas diretrizes de Governo transcendem as questões orçamentárias.

O Sistema de Ciência e Tecnologia, seus institutos, universidades e agências de fomento têm contribuído nos últimos setenta anos para oferecer aos governos, ao sistema produtivo e à sociedade, conhecimentos que permitiram promover o desenvolvimento, elevar a produtividade da indústria e da agricultura, a compreensão de nossa sociedade e dos conflitos sociais que nela encontramos. Permitiram também que o Brasil ocupasse um lugar digno no quadro internacional do progresso científico.

Lembro que a concepção e redação da Constituição de ‘88 foi influenciada pelos conhecimentos e progressos científicos, alcançados até aquele momento através das pesquisas em nossos Institutos, Universidades e Centros de Pesquisa.

A SBPC teve a oportunidade e a honra de oferecer subsídios para a redação dos Artigos de Ciência e Tecnologia (Art 218), Meio Ambiente (Art. 225), Direitos humanos (Art 1 Art 4 e Art 5), dos Índios (Art 231) e da Educação (Art 205 a 214) e da Cultura (Art 215 e 216). Ciência Hoje  No 30 p. 66-70, 1987, registra estas contribuições.

Durante os debates que precederam a redação da Carta, o conceito de Soberania Nacional foi enriquecido com a incorporação do princípio que para defende-lo é necessário o domínio do conhecimento de nossos recursos naturais,  da biodiversidade, da nossa cultura, história e sociedade, e sobretudo é necessário desenvolver a capacidade de acompanhar, e mesmo produzir, conhecimentos científicos novos que contribuam não apenas para reconhecer e explorar o patrimônio social, cultural e natural, mas também para o progresso da ciência básica e aplicada. De interesse nacional ou da própria humanidade.

Foi com esse propósito que se incluíram na Constituição os Artigos acima mencionados, em que se determina ser de interesse nacional o estudo e a proteção do patrimônio genético, da Amazônia, do Pantanal, da Mata Atlântica, da Zona Costeira bem como do patrimônio cultural, arqueológico e paleontológico.

Foi por essa razão que no Art. 218 a Constituição “Facultou aos Estados e Municípios e DF vincular parcela de sua receita orçamentária a entidades públicas de fomento do ensino e à pesquisa científica e tecnológica”.

Artigo que possibilitaria em 1990 incluir nas Constituições Estaduais os recursos vinculados que financiariam as Fundações de Apoio à Pesquisa.

As mencionadas diretrizes de Governo, que hoje nos preocupam, indicam que as determinações constitucionais de fomentar o conhecimento e a ciência para promover o desenvolvimento e defender a Soberania Nacional, estão sendo traídas. Trata-se de diretrizes políticas que fragilizam a própria capacidade de discernimento dos grandes desafios do mundo contemporâneo e destemperam os instrumentos de defesa da Soberania Nacional.

Vejamos alguns exemplos entre tantos outros que as diferentes áreas das ciências naturais, humanas e sociais poderão trazer para o debate da política de C&T.

  1. A Amazônia dificilmente pode ser defendida com armas de ferro e fogo. As informações relevantes do patrimônio genético presente no laboratório de biodiversidade que nela encontramos estão contidas em cápsulas de dimensões microscópicas: 10-6m. Fora do alcance dos detectores de metais e instrumentos de persuasão dos guardas de fronteira.

Este patrimônio deve ser estudado e conhecido para ser protegido. Toda proteção é necessariamente seletiva e depende do conhecimento que acumulamos com nossas pesquisas.

A esse respeito devemos lembrar que na Amazônia existem apenas duas pós-graduações em botânica. Deveríamos ter pelo menos 20 para cumprir as determinações constitucionais e subsidiar programas, civis ou militares, de defesa da Soberania Nacional sobre o patrimônio botânico.

  1. Grandes investimentos vêm sendo realizados pelos países que lideram a economia mundial, em produção de alimentos através das novas descobertas da bioengenharia nas pesquisas com células tronco animais ou vegetais. Isto significa que em breve o boi perderá valor de mercado. É nosso dever alertar o ministério da Agricultura e Pecuária que é efêmera a glória dos seus atuais negócios. Uma nova agricultura deve ser pensada (o documento elaborado pela Embrapa “Visão 2030: O Futuro da Agricultura Brasileira” oferece importantes informações a respeito).

A política de Ciência e Tecnologia deveria preparar e subsidiar as diretrizes de Governo voltadas a garantir nossa soberania econômica e alimentar, além da territorial.  A Amazônia nos oferece uma rica biblioteca de códigos genéticos da biodiversidade, ela é um imenso arquivo de uma grande variedade de células tronco. Esta biblioteca deveria ser melhor estudada, suas linguagens decifradas, antes de destruí-la para engordar gado.

  1. Grandes investimentos vêm sendo realizados na área da Inteligência artificial, pelos países que lideram a economia mundial e prezam por sua Soberania Nacional, um campo de conhecimento que revoluciona o próprio sistema de defesa de terra, mar e ar, exigindo que aos três tradicionais vetores da defesa, se acrescente um quarto, o da inteligência.

Acréscimo que exige um certo entendimento e cooperação, entre o Sistema de Ciência e Tecnologia civil e os tutores militares da defesa da Nação.

Um Sistema que desde suas origens (na criação do CNPq em 1950 e da Finep-FNDCT em 1970) preocupou-se com a formação da competência científica e tecnológica, capaz de promover o desenvolvimento e defender a Soberania Nacional, em suas dimensões econômicas, sociais, militares e geopolíticas.

Há outros exemplos, que poderiam ser acrescentados, desde a computação quântica à química de produtos naturais, dos paleo estudos de nossas origens às culturas que ocuparam a Terra Brasilis desde tempos imemoriais.

Acreditamos enfim que atravessamos um momento de grandes decisões políticas, que podem vir a redefinir nosso lugar na Terra. Ocuparemos nos próximos tempos um lugar digno entre os países soberanos ou uma cela entre os subalternos? A inteligência o dirá.

É imperativo hoje denunciar que o atual Governo rompeu o pacto, registrado na Constituição de ‘88, que após vinte anos de ditadura, unia a sociedade: comunidade cientifica, política, trabalhadores, indústria, agricultura e mesmo as forças armadas, em torno de um Projeto de Desenvolvimento Nacional.

A história não perdoaria a nossa omissão neste momento e tanto menos perdoará o silêncio dos tutores da defesa da soberania de terra, mar e ar.

Assinam os Presidentes de Honra da SBPC:

Ennio Candotti,

Otavio Guilherme Velho

Sergio Machado Rezende

Sergio Mascarenhas

 

Jornal da Ciência

Fonte:http://www.jornaldaciencia.org.br/presidentes-de-honra-da-sbpc-divulgam-carta-aberta-em-defesa-de-cti/

MANIFESTAÇÃO EM PROTESTO CONTRA CORTES NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Manifestações em defesa de recursos para a educação são realizados nas capitais e nas grandes cidades de todo o país nesta quarta-feira (15).

Os protestos são uma resposta à decisão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que reduziu o orçamento das universidades federais e bloqueou bolsas de pesquisa

  • 10h3315.mai
    SÃO PAULO

    Sindicato chama de esquerdopatas dirigentes de escolas que aderiram ao protesto

    São Paulo – O Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo), que representa as escolas particulares, divulgou nota na qual afirma que os colégios particulares que aderiram à paralisação desta quarta-feira “são apenas algumas escolas dominadas por esquerdopatas que só querem o pior para o país”. Segundo a entidade, são 25 a 30 escolas em um universo de 10 mil no estado. A orientação do sindicato das escolas é descontar o dia parado do salário.

    VEJA LISTA DE ESCOLAS EM SP

    Alecrim
    Alecrim Dourado
    Anima
    Arco
    Arraial das Cores
    Bakhita
    Equipe
    Escola Livre Aretê
    Espaço Brincar
    Estilo de Aprender
    Gracinha
    Invenções
    Lycée Pasteur (no período da tarde)
    Maria Imaculada (Ipiranga)
    Marupiara
    Miguilim
    Oswald de Andrade
    Politeia
    Ponto de Partida
    Recreio (no período da tarde)
    Santa Cruz
    Santa Isabel
    Santa Maria (no período da tarde)
    Santi
    São Domingos
    Vera Cruz
    Viva
    Waldorf Francisco de Assis
    Waldorf Micael
    Waldorf São Paulo (no período da tarde)

  • 10h2715.mai
    PELO PAÍS

    Saiba como serão os atos nas capitais do Centro-Oeste e Brasília

    Veja, abaixo, onde e quando começam os atos desta quarta-feira (15) contra os cortes na educação nas capitais do Centro-Oeste, além de Brasília.

    Goiânia (GO)
    Assembleia unificada às 13h, Praça Universitária. Pela manhã, haverá um café da manhã simbólico no CEPAE (Colégio de Aplicação)

    Campo Grande (MS)
    Exposição de trabalhos acadêmicos na Praça Ary Coelho, centro da cidade

    Cuiabá (MT)
    Ato de rua em defesa das universidades públicas às 14h, na Praça Alencastro

    Brasília (DF)
    Ato às 10h em frente ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios. Os manifestantes devem marchar até o Congresso

    Ana Volpe/Agência Senado
    Vista aérea da Esplanada dos Ministérios em Brasília
    Vista aérea da Esplanada dos Ministérios em Brasília
  • 10h1815.mai
    PELO PAÍS

    Povos Indígenas puxam marcha da UFMG

    Belo Horizonte – Na marcha que saiu na manhã desta quarta-feira (15) do campus da Saúde da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), povos indígenas lideram o ato formado por professores, estudantes e comunidade universitária. A caminhada se dirige à praça da Estação para ato unificado com outras instituições federais.

    Na manifestação, gritos de “ele não” se misturaram a cantos tradicionais e cantos como “trabalhador, venha para a rua, essa luta também é sua” e “não vai ter corte”. (Fernanda Canofre)

  • 10h0815.mai
    SÃO PAULO

    Escolas particulares suspendem aulas; veja lista

    São Paulo – Algumas escolas particulares da capital paulista anunciaram que vão suspender as aulas nesta quarta-feira (15), dia de protestos organizados por entidades estudantis e de docentes.

    Colégios como o Equipe, São Domingos e Santa Cruz decidiram cancelar as atividades. A Escola da Vila disse que apoia a manifestação, mas vai manter as aulas. Já o Bandeirantes e o Dante Alighieri, por exemplo, vão funcionar normalmente.

    Alberto Rocha/Folhapress
    Fachada do colégio Santa Cruz, em São Paulo
    Fachada do colégio Santa Cruz, em São Paulo

    LISTA DE ESCOLAS EM SÃO PAULO
    Em um levantamento preliminar, segundo o Sinpro-SP, cerca de 30 escolas particulares devem parar nesta quarta. Veja abaixo:

    Alecrim
    Alecrim Dourado
    Anima
    Arco
    Arraial das Cores
    Bakhita
    Equipe
    Escola Livre Aretê
    Espaço Brincar
    Estilo de Aprender
    Gracinha
    Invenções
    Lycée Pasteur (no período da tarde)
    Maria Imaculada (Ipiranga)
    Marupiara
    Miguilim
    Oswald de Andrade
    Politeia
    Ponto de Partida
    Recreio (no período da tarde)
    Santa Cruz
    Santa Isabel
    Santa Maria (no período da tarde)
    Santi
    São Domingos
    Vera Cruz
    Viva
    Waldorf Francisco de Assis
    Waldorf Micael
    Waldorf São Paulo (no período da tarde)

  • 9h5915.mai
    PELO PAÍS

    Estudantes marcham na capital mineira contra cortes na educação; veja vídeo

    Belo Horizonte – Manifestantes da UFMG saem em marcha do campus da Saúde em direção à Praça da Estação, onde ocorre o ato unificado na manhã desta quarta-feira (15).

  • 9h5715.mai
    PELO PAÍS

    Manifestação tem percussão e teatro

    Salvador – As manifestações contra os cortes no orçamento das universidades teve apresentação de grupos de percussão e teatro. Milhares de pessoas concentram-se na praça do Campo Grande, de onde sairão em passeata até a Praça Castro Alves.

    Parte dos manifestantes carregam cartazes com a expressão “balbúrdia é o governo”. Um boneco gigante caracterizado do presidente Jair Bolsonaro e com uma faixa que diz “inimigo da educação” transita entre os manifestantes. (João Pedro Pitombo)

    João Pedro Pitombo/Folhapress
    Boneco gigante de Bolsonaro é levado em protesto na capital baiana
    Boneco gigante de Bolsonaro é levado em protesto na capital baiana
  • 9h4215.mai
    PELO PAÍS

    Ato no Campus da Saúde da UFMG fala de pesquisas ameaçadas

    Belo Horizonte – Centenas de pessoas estão reunidas em frente à faculdade de Medicina da UFMG, em uma concentração para o ato unificado que acontece logo mais na praça da Estação, em Belo Horizonte.

    No microfone, professores e alunos falaram sobre os motivos dos protestos e projetos que estão ameaçados pelos cortes.

    Um dos projetos de pesquisa da universidade, exibido em cartazes no ato, produziu um kit para fazer diagnóstico de resistência da tuberculose. O trabalho contou com alunos bolsistas, em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose (Rede-Tb).

    “É uma produção nossa, que transferiu essa tecnologia para a indústria”, explica a professora da faculdade de Medicina da UFMG, Silvana Espíndola.

    Hoje, diz ela, há 34 casos de tuberculose a cada 100 mil habitantes no país. O número está estabilizado, com índice considerado moderado de carga, mas preocupa se houver congelamento em investimentos sociais.

    Dentre os beneficiários do Bolsa Família, houve aumento de 8% de cura da tuberculose, ao longo dos 13 anos de programa, segundo Isabela Neves, pós-doutoranda do grupo de pesquisa em microbacterioses. (Fernanda Canofre)

    Fernanda Canofre/Folhapress
    Alunos e professores da UFMG protestam contra cortes na educação
    Alunos e professores da UFMG protestam contra cortes na educação
  • 9h1215.mai
    PELO PAÍS

    Manifestantes protestam contra cortes na educação e reforma da previdência

    Curitiba – A garoa fina e o tempo frio em Curitiba, que marca 14 graus, não espantou os estudantes que já se reúnem em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, no centro da capital.

    O ato contra os cortes na educação superior também tem como pauta a reforma da previdência. Há dois caminhões de som no local, com bandeiras da CUT e CNTE. Já com os primeiros manifestantes no local, um grupo de padres franciscanos rezou um pai-nosso no caminhão de som. (KATNA BARAN)

    Katna Baran / Folhapress
    Alunos da UFPR e movimentos sindicais iniciam protesto em Curitiba
    Alunos da UFPR e movimentos sindicais iniciam protesto em Curitiba
  • 8h5315.mai
    PELO PAÍS

    Estudantes e professores fazem panfletagem contra cortes na educação

    Belo Horizonte – Na capital mineira, estudantes, técnicos e professores da UFMG e da rede municipal, começaram o dia fazendo panfletagem em estações de transporte público e outros pontos.

    Em alguns locais, os panfletos traziam informações sobre os cortes no orçamento das universidades, em outros, falavam sobre a reforma da previdência. A proposta que o governo Bolsonaro tenta aprovar no Congresso também está na pauta do dia de mobilizações.

    Alunos do CEFET-MG também protestaram no início da manhã, fechando uma das avenidas da capital mineira, a Amazonas. Uma das faixas usadas por eles trazia a frase “luto pela educação”. (FERNANDA CANOFRE)

    Tatiane Ferreira/Folhapress
    Alunos fazem panfletagem na estação Pampulha, na manhã de quarta (15)
    Alunos fazem panfletagem na estação Pampulha, na manhã de quarta (15)
  • 8h3915.mai
    SÃO PAULO

    Faculdade de Direito da USP adere à manifestação contra os cortes na educação

    A Faculdade de Direito da USP, no centro da capital paulista, também aderiu aos protestos desta quarta-feira (15) contra os cortes na educação. Nesta manhã, a faculdade realizará aula pública com professores da instituição, oficina de cartazes, batucada, café da manhã coletivo, além de concentração para o ato na avenida Paulista.

    Laura dos Santos/Folhapress
    Fachada da Faculdade de Direito da USP com cartaz em protesto contra os cortes na educação
    Fachada da Faculdade de Direito da USP com cartaz em protesto contra os cortes na educação

Sul Africanos votarão para presidente da República

Cerca de 28 milhões de sul-africanos vão amanhã às 23 mil urnas distribuídas pelas nove províncias do país para participar em mais umas eleições, onde o ANC surge novamente como natural favorito tendo na extrema esquerda, através dos Combatentes pela Liberdade Económica, o perigo que pode ofuscar o seu, mesmo assim, mais que esperado triunfo.

Fotografia: Dr

O Congresso Nacional Africano, liderado pelo Presidente Cyril Ramaphosa, surge nas eleições de amanhã entre os 48 partidos participantes como o grande favorito ao triunfo mas, contrariamente ao que sucedeu anteriormente, teve que radicalizar o discurso durante a campanha eleitoral para resistir às posições da extrema esquerda que lhe pretendia roubar eleitores e assim ofuscar a sua esperada vitória.
Neste momento, um dos grandes problemas da África do Sul é a existência de 27 por cento de desempregados e uma sociedade marcada por enormes disparidades e uma corrupção endémica, que Ramaphosa nunca conseguiu combater de modo suficientemente claro.
Durante o último fim-de-semana de campanha, estes problemas ficaram patentes nas intervenções de Ramaphosa e de Julius Malema, que reuniram dezenas de milhares de simpatizantes para os tentar convencer da positividade dos respectivos programas.
O perigo que Julius Malema representa para Cyril Ramaphosa radica no facto de ele estar a ter uma intervenção política que pode seduzir uma larga franja dos eleitores do ANC, beneficiando com isso a extrema-direita e assim encurtar distância em relação à Aliança Democrática, que deverá continuar a ser a segunda força política do país.
No Estádio de Ellis Park, em Joanesburgo, Cyril Ramaphosa assegurou aos seus seguidores a obtenção de uma vitória reconhecendo, contudo, os erros de governação cometidos pelo partido.
Dizendo que o país atravessa um momento histórico, em que os cidadãos devem escolher entre um passado de conflito e um futuro de paz e estabilidade, Ramaphosa pediu aos apoiantes que escolham a esperança ao invés do desespero, a renovação face à estagnação e o crescimento em detrimento do declínio.
Ramaphosa sublinhou que esta foi a mensagem de desejo transmitida pelo povo durante a campanha eleitoral em todo o país, onde disse ter-se reunido com mineiros, camponeses, artesãos, enfermeiros, estudantes, artistas e pensionistas, entre outros.
“Reunimos com pessoas cujas vidas foram transformadas nestes 25 anos de democracia, mas também com aqueles que carecem de trabalho, de casa, de ensino superior e vivem sem acesso à água potável e não contam com instalações sanitárias adequadas”, precisou.
“Cometemos erros e aceitamos as críticas sem reservas”, expressou o líder sul-africano, acrescentando estar disposto a trabalhar com cada sul-africano para construir um país no qual todos possam prosperar.
No Estádio de Orlando, a 20 quilómetros do Ellis Park, em pleno coração do Soweto, Julius Malema disse, por seu turno, aos seus seguidores da extrema-esquerda que se pretende afirmar e mostrar ao ANC que as suas políticas estão erradas e que já não consegue convencer os sul-africanos das suas intenções.
Apostando na captação do eleitorado jovem, precisamente aquele que mais tem sentido na pele os erros de governação do ANC, Malema disse claramente que apenas ele está em condições de garantir um futuro melhor para todos os sul-africanos, uma vez que “os homens do ANC estão todos demasiado comprometidos com um passado obscuro.”
Segundo a mais recente sondagem, o ANC conseguirá obter a maioria dos votos, surgindo depois a Aliança Democrática com percentagens que a lei não deixa divulgar e que neste momento não são perceptíveis devido a alguma incerteza sobre a influência que os Combatentes pela Liberdade Económica podem ter junto das bases do partido de Ramaphosa.
Ainda no passado fim-de-semana, Mmusi Maimane, líder da Aliança Democrática, apelou, tal como Julius Malema, aos desiludidos com o ANC para que tenham  coragem para votar na mudança que garantiu ser protagonizada pelo seu partido.

O problema do xenofobismo
Na recta final da campanha, o Governo foi fortemente pressionado por diversas organizações nacionais para processar os responsáveis pela mais recente onda de ataques xenófobos.
Diversas organizações de defesa dos direitos humanos desafiaram o Governo a encetar investigações “sérias e profundas” para processar criminalmente os responsáveis pelos ataques a cidadãos estrangeiros no país que ocorreram entre os dias 25 de Março e 2 de Abril.
Para as mesmas organizações, o Governo tem que “fazer muito mais do que simplesmente condenar o que se passou”, pelo que defendem que deve ser criada uma equipa especial de investigação para conduzir ao apuramento dos responsáveis e para evitar que situações do tipo se voltem a repetir.
O Presidente Cyril Ramaphosa, numa declaração feita no início do mês, condenou os ataque e disse que a Polícia estava no encalço dos responsáveis, mas a verdade é que até agora não foram efectuadas detenções relacionadas com o caso, nem as autoridades forneceram informações oficiais sobre o número de vítimas desses ataques xenófobos.

OEA recebe movimentos negros do Brasil

Essa será a primeira vez desde a Conferência de Durban, na África do Sul, em 2001, que missão oficial brasileira composta exclusivamente por movimentos negros participa de um encontro para fazer denúncia internacional

OEA recebe 14 membros de movimentos negros em maio | Foto: Rosa Caldeira/Ponte Jornalismo

A CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) da OEA (Organização dos Estados Americanos) vai receber 14 ativistas e militantes dos movimentos negros brasileiros para falar sobre o pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que pretende modificar o sistema penal e denunciar violações dos direitos da população negra no Brasil. A comitiva será composta por 10 mulheres e 4 homens de 7 estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Goiás, Pará e Maranhão.

Sediado na Universidade de West Indies, em Kingston, Jamaica o evento celebra o marco do 172º Período de Sessões e a participação do grupo brasileiro será em 9 de maio. A última participação em missão oficial brasileira exclusiva dos movimentos negros em fóruns de denúncia internacional aconteceu em 2001, na África do Sul, durante a Conferência de Durban – um movimento protagonizado por mulheres negras latino americanas, que, na época, teve como uma das líderes Sueli Carneiro.

Em entrevista à Ponte, Iêda Leal de Souza, coordenadora nacional do MNU (Movimento Negro Unificado), que participará da audiência pública, enfatiza a importância dos movimentos negros se unirem e construírem debates internacionais como este da OEA. “A luta contra o racismo não está sendo fácil no nosso país. Esse conjunto de mulheres e homens indo para essa reunião importante, não só fazer as denúncias da forma que o negro vem sendo tratado nesse país, mas, também para gente reunir forças para continuar lutando e decidir os caminhos que vamos traçar daqui pra frente”, defende Iêda.

Para ela, o caminho está na reorganização do movimento e na vigilância contínua. “Vamos redobrar a nossa vigilância, vamos continuar lutando, mas temos a necessidade de incluir novas parcerias e espaços pra gente denunciar e tirar situações bastantes positivas para ter um diálogo com o governo brasileiro e continuar reafirmando que o negro nesse país vai ter que ter muito respeito de quem dirige e a compreensão de que nós somos uma nação grandiosa, somos 60% dessa população, por isso a necessidade da nossa reorganização e desses diálogos internacionais”, argumenta a coordenadora do MNU.

Iêda explica também o que o pacote anticrime representa para o Movimento Negro Unificado. “De fato, ele representa a criminalização do povo. Não se apresentou nada de novo, não se tem nada pedagógico. O que tem, na verdade, é uma coisa punitiva. E esse punitivismo dá crédito para quem poderia ajudar na segurança das pessoas, mas na verdade diz para elas que elas estão autorizadas a continuar exterminando o povo negro. Nós não podemos concordar com isso”, critica Souza.

O documento protocolado à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), em fevereiro de 2019, teve assinatura de 39 entidades da sociedade civil organizada e representantes de movimentos negros e periféricos. O ofício pede um posicionamento do órgão sobre as medidas e que seja disponibilizado um observador internacional para acompanhar o caso no Brasil. Entre os pontos do projeto que mais colocam em risco a população negra, as entidades destacam a proposta de prisão em segunda instância, que aumentará o número de presos no país, e o menor rigor na punição e apuração de casos de homicídio cometidos por agentes de segurança do Estado.

“O conjunto de propostas, que visa alterar leis federais na área penal, processual penal e de combate à violência, tem gerado, desde sua apresentação pública em 4 de fevereiro de 2019, amplo debate e muitas críticas por parte de juristas, acadêmicos, especialistas e sobretudo das organizações da sociedade civil. A gravidade que tais modificações podem representar à segurança pública e à vida de milhares de cidadãos e cidadãs brasileiras, sobretudo da população negra e pobre, nos motiva a apresentar este documento a esta Comissão”, explica o texto do ofício, que começa com uma frase do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de incentivo à violência de Estado: “Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim! O policial que não atira em ninguém e atiram nele não é policial.”

Mia Couto; “A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

O escritor moçambicano conversa com o EL PAÍS sobre escrita, política e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros

Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. “Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida”, conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.

Mia Couto descobriu-se poeta aos 14 anos — o primeiro poema foi feito para o pai e publicado sem a autorização do jovem escritor no Diário da Beira, algo que, à época, lhe fez querer “morrer de vergonha”. A prosa chegou anos mais tarde, quando começou a trabalhar como repórter em um jornal, como infiltrado da luta clandestina pela independência de Moçambique. “Aí comecei a ter a tentação de escrever, de inventar mundos paralelos”, lembra. Quando conheceu a lírica de João Guimarães Rosa, soube que ia por bom caminho. O escritor moçambicano visitou recentemente diversas capitais do Brasil para falar sobre a obra-prima do brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956), que acaba de ganhar uma nova edição da Companhia das Letras. Numa dessas vindas, conversou com o EL PAÍS, em São Paulo, sobre a influência desse livro em sua escrita, sexismo na literatura e sobre como as palavras reinventam-se e seguem vivas, firmes, mesmo quando tudo ao redor se destrói.

Pergunta. Quando você conheceu a literatura de Guimarães Rosa?

Resposta.  Ele chegou a mim através de Luandino Vieira, um escritor angolano que me influenciou muito. Meu primeiro livro de contos foi muito marcado pela escrita do Luandino, que deixava que as vozes da rua entrassem na história e fossem elas próprias personagens. E um dia ele falou comigo e disse: “Vai até a fonte, que está no Brasil. Eu mesmo fui influenciado pelo Guimarães Rosa”. Em 1985, quando Moçambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu não conseguia ter ligação com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotocópia d’A terceira margem do rio. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a própria vocação de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimarães. Depois fiquei anos tentando voltar e encontrá-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a Grande Sertão: Veredas. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro não foi fácil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. É como se de repente houvesse uma revelação, não sobre o que ele estava contando, mas sobre mim próprio.

P. Qual foi essa revelação?

R.  O que o Guimarães fez foi uma abertura de caminho, uma espécie de luz verde, uma autorização, dizendo “você pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim”, deixando que as vozes chamadas não cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na história e no próprio narrador. Quando cheguei a Grande Sertão, eu já estava embriagado dessa literatura.

P. Dar esse protagonismo às vozes das personagens, como se brotassem sozinhas das páginas do livro, é a grande contribuição de Guimarães Rosa à literatura lusófona?

R. Eu acho que tudo o que ele faz é quase um milagre, principalmente tendo o pé em uma coisa muito perigosa, que é o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debruçando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interrogações da humanidade. Do ponto de vista da literatura lusófona africana, foi uma contribuição mais ao nível do tratamento linguístico, ver como ele contava aquilo por meio de uma linguagem poética.

P.  Qual seu trecho favorito de Grande Sertão?

R. É o momento em que o Riobaldo sobe numa grande pedra, olha para o vão abaixo e diz que parece que é como se a gente tivesse um brinquedo, que é o mundo. Essa coisa de transformar o mundo em uma coisa com a qual podemos brincar é uma espécie de revolução de uma infância que foi tolhida. Isso me tocou.

P. Vê similaridades entre sua obra e a de Guimarães Rosa?

“Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor”

R.  Acho que não tem muita coisa. Só isso que eu, agora já menos, mas em um certo momento deixei-me encantar por essa brincriação, que era jogar com as palavras, reinventá-las, muito motivado por uma coisa que vem de dentro. Isto é, os moçambicanos têm vivas e falam em seu cotidiano outras línguas que não o português, e há um momento muito feliz para um escritor, que é perceber que sua língua não está acabada, não está feita. Por exemplo, eu todo dia recolho palavras novas na rua, palavras que não são criações literárias. Isso é um alimento muito grande. Por exemplo, as pessoas dizem arrumário para dizer armário. A palavra arrumário tem muito mais sentido, não só porque é o lugar onde arrumamos as coisas, mas porque, se revisitarmos a história, o armário era o lugar onde se guardavam as armas. Essa relação da língua com uma coisa que é nossa, mas não é, que tem profundidade e história, é muito salutar para nos reportarmos ao que Guimarães Rosa dizia sobre o malefício de uma linguagem funcional, uma linguagem que serve só para uma comunicação imediata.

P. O contato com a literatura brasileira tem ampliado seu vocabulário de brincriação?

R. Sim, porque o Brasil tem esse desafio de dizer sua cultura em uma língua que era a língua do outro. O país teve que encontrar isso, então há uma relação muito mais criativa, de fruição da língua portuguesa, mais do que existe em Portugal, onde o idioma é tão próprio que é difícil brincar com ele.

P. Quais são os brasileiros e brasileiras que você mais lê?

R. Eu sou da poesia e fico estagnado no tempo, então sou muito ligado também ao Carlos Drummond de Andrade, ao João Cabral de Melo Neto mais ainda, à Hilda Hilst, Manoel de Barros…

P. Do que escreveria se fosse brasileiro?

R. Não sei. Vejo, sobretudo aqui em São Paulo, uma nova geração que vive um lado da escrita muito curioso, uma escrita sem lugar, que fala sobre o próprio drama do escritor, que não precisa tanto de uma história. Eu não seria capaz de fazer isso, porque eu teria que viver em uma grande cidade como esta, o que me arrancaria da relação com a terra, a terra como se fosse uma criatura viva. Eu teria que escrever sobre o sertão, como o Guimarães (risos), porque ele conseguiu essa relação com um lugar que não é lugar nenhum, que ele inventou a partir de vozes que dizem coisas poderosas.

P. Você já disse que na África não há realismo mágico, mas sim um “realismo real”. Acredita que acontece o mesmo no Brasil?

R.  Vejo muito a África nas pessoas daqui, mesmo naquelas que, aparentemente, não têm relação histórica com o continente. A África impregnou muito o Brasil, desde a relação com o tempo, com o corpo, essa fronteira muito fluída entre a rua e a casa, o íntimo e o público, não é? A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam.

Podemos escrever uns sobre os outros. Antes, havia uma interdição: os africanos que escrevessem sobre Europa ou América não eram considerados, porque existia aquela obrigação de o africano ser “autêntico”. Não sabemos o que é isso de ser “autêntico”, mas, para atender aos critérios de aceitação da crítica, pediam uma “África tradicional”, tinha que ter uma fogueira, uma feiticeira e esse tipo de estereótipo que identifica uma “África autêntica”. A nova geração de escritores africanos libertou-se dessa africanidade imposta desde fora e hoje há muitos escrevendo sobre o mundo inteiro.

Mia Coutoampliar foto
Mia Couto, durante a entrevista. CAMILA SVENSON

Um africano pode escrever sobre o Brasil, mas não é o meu caso. Porque eu transportaria tanto a minha infância para qualquer lugar que eu fosse, que estaria sempre escrevendo num mesmo lugar, que é minha cidade. Agora que aconteceu o ciclone, percebi como isso tudo que era um chão que parecia estável, que parecia definitivo, de repente pode fazer-se frágil. Entrei em pânico, porque pensei que tinha perdido meu lugar de infância, mas quando visitei a Beira, percebi que uma cidade é feita, sobretudo, de pessoas. E as pessoas estavam ali, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar histórias. Ali eu percebi que não, não acabou.

P. Uma parte de seu futuro romance se passa em uma igreja de Beira, que foi destruída pelo ciclone Idai. De que modo isso lhe afetou?

R. Agora que tive tempo de pensar minha relação com a escrita do Guimarães Rosa, vi que, no fundo, o que ele entrega é essa possibilidade nossa de fazermos de um lugar uma coisa sonhada, alguma coisa que é mítica, que não faz parte da geografia. Percebi que essa minha cidade é uma cidade que inventei. Aliás, isso é muito concreto, porque quando estou a falar com meus irmãos com muito entusiasmo sobre coisas que se passaram na nossa infância, eles me dizem “não foi assim, nunca aconteceu isso”. Eu ignoro, porque, para mim, aconteceu.

P. Você pensou em contar as histórias de sobrevivência de Beira, tanto das pessoas quanto de sua cultura, depois do ciclone?

R. De repente, tenho que repensar o romance que já comecei, e tenho um certo pudor em me aproveitar da circunstância dramática. Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor. Se eu faço qualquer coisa em relação a esse tema, será como cidadão, ajudando os outros, sem interesse literário. Pensei, sim, em fazer um registro daquelas pessoas foram heróis, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca terão protagonismo. Penso em fazer isso de maneira prática e didática para contar aos jovens que há gente que não tem rosto nem nome, mas que é capaz de gestos como esses. Eu e minha família [por meio da Fundação Mia Couto] faremos um livrinho com o depoimento dessas pessoas.

P. O romance, então, está provisoriamente suspenso?

R. Tenho que repensá-lo. E eu cheguei a um momento que é muito triste para mim, que é quando já sei o que vai acontecer, então adio o máximo possível. Como ter vontade de escrever se eu já sei o que é a história?

P. A nova obra já tem nome?

R.   Eu vou dando nome aos livros à medida que eles vão se revelando. O nome que estava vivo, que me guiava, era um nome quase premonitório em relação a essa situação, porque era algo como Antes de nascer, vi rios e mares. E, de fato, foram rios e mares que engoliram aquela cidade.

P. Você diz-se surpreso com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro à Moçambique depois da tragédia, considerando os laços culturais e históricos entre ambos países. Considerou-a pequena. [Além da ajuda financeira, o Governo enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho, e decidiu manter a equipe de salvamento no país depois que o ciclone Kenneth, o segundo desde março, atingiu o norte de Moçambique nas últimas semanas].

R.  Sim, mas gostaria de dizer uma coisa também para me defender, porque parece que é pouco polido da minha parte, estando Moçambique a receber e eu a dizer que é pouco. Mas realmente esperávamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fração dessa gente que telefonou e escreveu já cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro.

“A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

Mas acho que mais grave até do que o Governo dar pouco, foi como a notícia chegou tão tardiamente aqui. Falei com amigos brasileiros que só uma semana depois da tragédia acordaram para uma coisa que, em outros países, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, já contavam. Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distantes, já estivemos mais próximos.

Quando eu cheguei aqui há 15 anos, a África ainda era muito mistificada, mas isso mudou com políticas de aproximação do Governo Lula, por exemplo. Por outro lado, o próprio Brasil é muito grande para perceber o que está a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que é difícil olhar para fora, e esse fora tem um critério, obviamente: estar mais próximo dos Estados Unidos e da Europa. O país não se reconhece nem na chamada América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente.

P. Qual o papel da literatura para o país reconhecer a si mesmo?

R. Em Moçambique, como a África como “grande mãe” está sempre tão presente, tivemos que desmistificá-la e perceber que há várias Áfricas, várias nações, e contar essa diversidade.

P.  Em Terra Sonâmbula, você conta a guerra civil moçambicana e defende que a literatura tem a missão de revisitar o passado, mas sem a tentação de atribuir culpas. De que maneira política e literatura relacionam-se e como a primeira deve refletir a atualidade?

R. Tanto a política quanto a literatura são construções narrativas. Mas a construção da narrativa literária é uma mentira que não mente, enquanto a política faz o inverso. É discutir a verdade, pensar como hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio. A literatura pode mostrar esses que são chamados “os outros” —essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos. A literatura lembra a importância do diálogo. Nós chegamos a essa conclusão em Moçambique depois de uma guerra civil que começou com a diabolização do outro, até o ponto em que eu não falava com determinada pessoa só porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milhão de mortos depois, a gente viu que teríamos que conversar.

P. É possível escrever sobre o passado sem apontar culpas mesmo revisitando episódios como, por exemplo, uma ditadura militar?

R. O que a literatura pode fazer é mostrar que aquele que estava do outro lado, apesar de tudo, mesmo que fosse um torturador, por exemplo, tinha conflitos internos. Que ele não era assim porque tinha um demônio dentro de si. Mas isso não tem a ver com o que podemos ajuizar como justificável. A literatura não pode atenuar o peso que as vítimas têm. O sangue que essa gente derramou não pode ser lavado por meio da literatura.

P. Aos 17 anos, você abandonou a faculdade de Medicina para alistar-se à luta clandestina pela independência de Moçambique. De que maneira a militância política influenciou seu trabalho? Quando escreve, você ainda é aquele rapaz de 17 anos?

R.  Eu acho que sou sempre, mesmo quando não estou escrevendo. Aquela entrega a uma causa me marcou muito, porque eu tinha a crença absoluta de que estava fazendo uma coisa que não era por mim, mas pelos outros, para mudar o mundo, mesmo que uma parte desse mundo tombasse em cima de mim, porque eu fazia parte de uma minoria privilegiada e eu queria derrubar o sistema que sustentava esse privilégio. Era uma coisa que, para mim, não sendo eu religioso e tendo uma formação como ateu, não tenha escapado a essa ideia cristã de me redimir com qualquer coisa que traga como pecado original, não sei. Eu me alistei porque havia também uma razão moral. Nosso lema era “somos os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios”. Isso foi verdade nos primeiros anos. Quando chegou a guerra civil, não havia o que comer. Eu estava na fila, esperando horas para uma pequena loja abrir e, muitas vezes, não havia nada dentro. Não quero nunca mais passar por essa experiência. Eu saía de casa todos os dias sem saber o que ia trazer de comer para os meus filhos, e isso durou não um dia ou um mês, mas anos. Só suportamos isso porque sabíamos que estávamos juntos.

P. Por falar em privilégios, quando se fala hoje em literatura africana, temos autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, mas os nomes mais venerados ainda são aqueles como Mia Couto, José Eduardo Agualusa ou J. M. Coetzee. É preciso ser um homem branco para ser considerado escritor na África?

R.  Isso vai acabar rapidamente. É uma herança histórica que a atual geração de escritores africanos vai enterrar. Eu e Agualusa somos resultados desse mundo em que nós [homens brancos] éramos os educados, os que recebíamos formação, mas isso já está mudando. Todos os escritores moçambicanos que eu conheço são negros. Alguns deles têm, realmente, grande mérito. Está a surgir em Moçambique e Angola uma educação para que as pessoas dominem a literatura e os instrumentos para escrever, então não é tanto uma questão política, nesse sentido.

Acredito que talvez haja, sim, a percepção de que eu e Agualusa, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha família criamos uma Fundação para promover a literatura entre jovens moçambicanos —e quando digo moçambicanos, automaticamente estou a dizer negros— e ajudá-los a publicar seus livros e construir espaços de debate literário.

Em relação ao sexismo, aí sim a luta é mais complicada. Estão vivos ainda preceitos e preconceitos que realmente afastam a mulher desse reconhecimento. Temos a Paulina Chiziane, que, felizmente, já está lançada no mundo e é bem aceita. Mas, no início, por ser mulher e por acreditar que uma mulher possa contar histórias e que possa falar de coisas da intimidade, da sexualidade, ela sofreu muito e quase fez um auto-exílio.

P. Seu nome é um dos mais celebrados quando se fala em literatura lusófona. Em 2013, você ganhou o Prêmio Camões, assim como José Saramago. Você sonha com honrarias maiores? O Nobel, talvez?

R. Não penso nisso, não. E, quando penso, penso que é impossível.

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/cultura/1555598858_754829.html

A mulher negra é quem paga mais imposto no Brasil

Mulher negra e pobre é quem mais paga imposto no Brasil

A violência e a corrupção são terríveis, mas seríamos uma nação melhor se nossa sociedade repudiasse da mesma maneira a desigualdade

Ao contrário de Estados Unidos, França e Inglaterra, no Brasil tributa-se mais o consumo do que a renda e o patrimônio. Com tantos impostos em cima de impostos, a população não faz ideia do quanto deixa para o fisco sobre qualquer coisa que venha a comprar.Por exemplo, segundo o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação), para cada 1 real de cachaça são 82 centavos só de imposto. Se for carne, ficam 29 centavos para o governo. Açúcar, 31 centavos. Arroz, feijão ou farinha, 17 centavos.

É um sistema perverso. Como quem tem menos consome tudo que recebe, são os mais pobres que acabam pagando mais em proporção aos ganhos. Já os mais ricos podem poupar e ainda fazer o dinheiro render nos bancos, sobretudo em épocas de juros altos.

Não bastasse isso, a distorção aumenta com a isenção sobre lucros e dividendos, algo que só existe na Estônia e aqui. Foi implantada por FHC em 1995, passando incólume pelos governos Lula e Dilma, o que ajuda a nos manter como mais um paraíso dos milionários.

Estudo do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) vai além, destrinchando essas injustiças fiscais também por raça/cor e gênero.

Participação (%) por decis de renda, por raça/cor e sexo:

Na base da pirâmide, dos 10% mais pobres (onde 68,06% são negros), a carga tributária é de 32%. Nessa faixa, as mulheres negras são o maior grupo contribuinte, 35,59%. Já no topo, dos 10% mais ricos (83,72% são brancos), a carga é de 21%. Nessa faixa, são os homens brancos que predominam, 49%.

Conclusão: no Brasil, a mulher negra e pobre é quem mais paga impostos.

A violência e a corrupção são terríveis, importante que estejam na agenda da hora, mas certamente seríamos uma nação melhor se nossa sociedade que forma opinião repudiasse da mesma maneira a desigualdade, este sim nosso maior desafio. Aliás, não seria leviano dizer que se vê menos violência onde se tem mais oportunidades de subir na vida, assim como menos corrupção quando se tem mais controle social.

Se são tempos de patriotismo, nosso o orgulho de nação entre as dez maiores economias jamais pode ser maior do que nossa vergonha como o 10º país mais desigual do mundo, empatado nas métricas de concentração de renda com o Reino de Essuatíni, pequeno país da África austral.

Fonte:https://www.cartacapital.com.br/opiniao/mulher-negra-e-pobre-e-quem-mais-paga-imposto-no-brasil/?utm_campaign=newsletter_rd_-_30042019&utm_medium=email&utm_source=RD+Station