Brasil um país sem diplomas de ensino médio

naom_5a5f65d5dcffaBrasil é um dos países com o maior número de pessoas sem diploma do ensino médio: mais da metade dos adultos (52%) com idade entre 25 e 64 anos não atingiram esse nível de formação, segundo o estudo Um Olhar sobre a Educação, divulgado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A organização, com sede em Paris, destaca que o menor nível de escolaridade tende a ser associado com a maior desigualdade de renda.

No caso do Brasil, o país registra o segundo maior nível de desigualdade de rendaentre os 46 países do estudo, ficando atrás apenas da Costa Rica.

A informação foi publicada por BBC Brasil, 11-09-2018.

resultado-educacao-mec-160812-lute-humor-politicoO índice de pessoas que não cursaram o ensino médio no Brasil representa mais do que o dobro da média da OCDE. Na Costa Rica e no México, o percentual é ainda maior que o do Brasil: 60% e 62%, respectivamente, os mais elevados do estudo.

Outros países latino-americanos, contudo, têm melhor desempenho que o Brasil. Na Argentina, 39% dos adultos na faixa de 25 a 64 anos não concluíram o ensino médio, no Chile, o percentual é de 35% e, na Colômbia, de 46%.

O estudo abrange as 36 economias da OCDE, a maioria desenvolvidas, e dez países parceiros da organização, como África do Sul, Argentina, China, Colômbia, Índia, Rússia e Brasil.

“Na maioria dos países da OCDE, a ampla maioria dos jovens adultos, com idade entre 25 e 34, tem pelo menos a qualificação do ensino médio. Em poucas décadas, o ensino médio passou de um veículo de ascensão social ao mínimo exigido para a vida em uma sociedade moderna”, afirma o relatório.

Segundo a organização, os que deixam a escola antes de completar o ensino médioenfrentam não apenas dificuldades no mercado de trabalho, com menores salários, mas também têm competências cognitivas – memória, habilidades motoras, atenção, entre outras – bem inferiores aos das pessoas que possuem essa formação.

A organização também ressalta o número relativamente baixo de alunos com mais de 14 anos de idade inscritos em instituições de ensino no Brasil.

Apenas 69% daqueles entre 15 e 19 anos e somente 29% dos jovens de 20 a 24 anos estão matriculados, de acordo com a OCDE. A média nos países da organização é, respectivamente, de 85% e 42%.

Desigualdades regionais

Brasil enfrenta ainda “desigualdades regionais significativas” em relação ao ensino superior, diz o relatório.

No Distrito Federal, 33% dos jovens adultos chegam à universidade. No Maranhão, o Estado com o menor PIB per capita, esse número é de apenas 8%.

Essa disparidade regional entre alunos que conseguem atingir o ensino superior no Brasil “é, de longe, a maior na comparação com toda a OCDE e países parceiros”, incluindo grandes países como os Estados Unidos e a Rússia, que também possuem várias áreas de diferentes tamanhos e populações.

“Assegurar que as pessoas tenham oportunidade de atingir níveis adequados de educação é um desafio crítico. O acesso ao ensino superior vem crescendo no Brasil, mas ainda é uma das taxas mais baixas entre a OCDE e países parceiros, e está abaixo de todos os outros países da América Latina com dados disponíveis”, ressalta o estudo, citando a ArgentinaChileColômbiaCosta Rica e México.

No Brasil, 17% dos jovens adultos com idade entre 24 e 34 anos atingem o ensino superior. Em 2007, o índice era de 10%. Apesar da melhora, o desempenho ainda está cerca de 27 pontos percentuais abaixo da média da OCDE.

“Para melhorar a transição entre o ensino e o mercado de trabalho, independentemente do cenário econômico, os sistemas de educação têm de se assegurar que as pessoas tenham as competências exigidas na vida profissional”, diz a organização.

Segundo a OCDE, apesar do Brasil investir uma fatia importante de seu PIB na Educação, os gastos por aluno, sobretudo no ensino básico, são baixos.

Brasil destina cerca de 5% do PIB à rubrica (dados de 2015), acima da média de 4,5% do PIB dos países da OCDE, diz o relatório.

O governo brasileiro gasta, porém, cerca de US$ 3,8 mil por estudante no ensino fundamental e médio, menos da metade dos países da OCDE.

A despesa com os estudantes de instituições públicas de ensino superior, no entanto, é quatro vezes maior, US$ 14, 3 mil, pouco abaixo da média da OCDE, que é de US$ 15,7 mil.

A diferença de gastos por estudante entre o ensino superior e o básico no Brasil é o maior entre todos os países da OCDE e economias parceiras analisadas no estudo da organização.

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Valéria a guerreira na justiça

Valéria Lucia.jpgLuiza Souto

Da Universa

11/09/2018 18h11

Seria um dia normal de audiência para Valéria Lúcia dos Santos, mas a advogada saiu do 3º Juizado Especial Cível da Comarca de Duque de Caxias (RJ) algemada após discussão com uma juíza. As imagens logo se espalharam pelas redes. Negra, afirmou ter sentido “certo desdém” da profissional, mas durante coletiva para a imprensa, pontuou:

“Não quero colocar a questão do racismo. Quando falamos em racismo, as pessoas falam que é ‘mimimi’. Não quero isso. Sou mulher e preciso trabalhar. Não tem ninguém que me sustenta”.

 

Valéria conta que teve o pedido de acesso à contestação da cliente que representava, bem como à pauta da audiência, negado pela juíza leiga Ethel de Vasconcelos. “Eu e minha cliente recusamos acordo do réu. Queria ver a peça de defesa da outra empresa para contestar os pontos que achamos controversos”, relatou ela. Diante da negativa da juíza, a advogada saiu da sala, localizada no segundo andar, e subiu até o quarto para solicitar um delegado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Quando voltou, afirma, foi avisada de que a sessão havia terminado.

Começou, então, uma discussão. Nos vídeos divulgados na internet, a advogada aparece reclamando da atitude da juíza e se recusando a sair da sala. A juíza então chama policiais militares para retirá-la. “A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” informou o policial.

“Direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar”

Em outro momento do vídeo, Valéria aparece sentada no chão, algemada, com as mãos para trás, e um grupo de policiais tentando tirá-la. A advogada diz que não sabe informar se foi a juíza quem pediu para algemá-la.

“É meu direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar”, grita ela no vídeo. Durante a coletiva, no entanto, a defensora frisou que não queria entrar na questão racial. “Esquece isso. Esquece que sou negra. Quero trabalhar como vocês”.

Após o ato, Valéria foi à delegacia registrar queixa. “Foi muito grave o que aconteceu. Estamos perdendo totalmente a autonomia. Ali houve abuso de autoridade”, concluiu ela na coletiva.

O presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB, Luciano Bandeira, disse que iria representar uma reclamação na Corregedoria da Polícia e do Tribunal de Justiça contra a juíza. Será pedida ainda uma reparação civil pelo constrangimento. Ele defende que a magistrada seja suspensa enquanto se apura o caso.

“O advogado, no exercício da profissão, não pode ser preso. A única hipótese é se ele cometer crime inafiançável, o que não aconteceu”, explicou Bandeira.

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/09/11/sou-mulher-e-preciso-trabalhar-diz-advogada-algemada-no-rio-de-janeiro.htm

Cerimônia do Prêmio Internacional de Investigação Histórica ” Agostinho Neto”

 

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NOTA DE IMPRENSA

FESTINETO 2018

Cerimónia de Outorga do Prémio Internacional de Investigação Histórica “Agostinho Neto”

 

No âmbito das celebrações alusivas ao “Dia do Herói Nacional e do Fundador da Nação” e por ocasião da 8ª edição do FESTINETO, um evento com várias actividades sócio-culturais, científicas e desportivas a decorrer na província de Luanda, no período de 10 a 17 de Setembro, a Fundação Dr. António Agostinho Neto programou a cerimónia de Outorga do Prémio Internacional de Investigação Histórica “Agostinho Neto” para o dia 17 de Setembro no Memorial António Agostinho Neto, às 9h, após a deposição de uma coroa de flores no sarcófago do Fundador da Nação.

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O Prémio Internacional de Investigação Histórica “Agostinho Neto”, de carácter bianual, encontra-se na 2ª edição de 2017-2018 e consiste na promoção e incentivo da investigação histórica sobre Angola, África, Brasil e suas Diásporas. O Prémio é co-organizado pela Fundação Dr. António Agostinho Neto, pelo Instituto Afro-brasileiro de Ensino Superior, representado pela Faculdade Zumbi dos Palmares e conta com a participação da UNESCO no Júri, sendo os vencedores premiados com o valor de USD 50.000 e um troféu. A obra do vencedor do Prémio será lançada durante o evento, contando com a presença do autor e dos membros do Júri internacional.

Pelo elevado interesse público, vimos solicitar a ampla divulgação e a cobertura do evento.

FUNDAÇÃO DR. ANTÓNIO AGOSTINHO NETO, em Luanda aos 11 de Setembro de 2018.

Advogada negra é agredida em pleno tribunal

Advogada negra é detida, algemada e arrastada durante audiência em Duque de Caxias. Por André Zanardo

Advogada é detida. Foto: Reprodução/Justificando

Publicado originalmente no site Justificando

POR ANDRÉ ZANARDO

A advogada, doutora Valéria Santos, negra, carioca, foi detida e posta algemada no exercício de sua profissão durante uma audiência no  3˚Juizado Especial Criminal em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A defensora aparece em vídeo divulgado em rede social requerendo à juiza leiga, durante audiência criminal, para que tivesse sua requisição apreciada em defesa da ré, sua cliente. Entretanto, a juíza teria dado por encerrada a audiência, sem apreciar o pedido da advogada e em seguida ordenou que ela se ausentasse da sala. Valéria teria dito que não deixaria a sala de audiência sem a presença de um representante da OAB, visto que a audiência foi encerrada sem que apreciado e consignado o seu pedido.
“Eu estou indignada de vocês como representante de Estado atropelarem a lei. Eu tenho o direito de ler a contestação e impugnar os pontos da contestação do réu. Isto está na lei, eu não estou falando nada absurdo aqui.”

Enquanto a advogada exercia seu direito de defender a ré que estava sentada ao seu lado e em frente da juíza, foi requerido aos policiais que faziam  a segurança da repartição pública que retirassem a advogada da sala de audiência.

“A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” rebate o policial não identificado.

A advogada, subjulgada pelos presentes, faz a sua defesa neste momento direcionando sua fala diretamente para o policial que alterava a sua voz dizendo que iria prendê-la. Ainda requereu a presença de um membro da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB, para que a representasse a fim de fazer valer os seus direitos enquanto patrona da ré alí presente.

“Eu não vou sair, não, eu tenho que esperar o delegado da OAB, porque eu quero fazer cumprir o meu direito. Eu não vou sair  eu estou no meu direito, eu estou trabalhando. Eu não estou roubando, não estou fazendo nada não. Estou trabalhando!”, insiste a defensora.

Alguns advogados presentes, mesmo presenciando a cena absurda não fizeram a defesa da colega. Reclamavam, entretanto, que a advogada terminasse a atuação brevemente, para que eles pudessem fazer as suas audiências e pudessem terminar logo seus trabalhos.

A altiva advogada neste momento se dirige aos advogados presentes e reclama solidariedade:

“Eles estão preocupados com audiência e (permitem) atropelar a lei, que país é esse? Depois querem reclamar de político que rouba, que faz tudo errado. Se vocês são advogados e não estão respeitando a lei.”

Neste momento, outros advogados presentes na sala de audiência diminuem o ocorrido dizendo que ela não estaria fazendo a defesa dela corretamente e a acusaram de estarem sendos desrespeitados, por estarem perdendo tempo com o episódio.

“A senhora não está respeitando a gente” afirma uma das advogadas que esperavam para a próxima audiência. Outro afirmou: “a senhora pode pleitear o seu direito da forma adequada”.

Instantes depois, em segundo vídeo é possível ver a advogada sendo presa, algemada com a mão nas costas e arrastada no chão da sala de audiência.
A advogada agredida, ainda no chão, grita insistentemente em sua defesa que está trabalhando e sinaliza indiretamente o racismo que estaria ocorrendo naquele flagrante violação de prerrogativa e abuso de autoridade:

“É meu direito enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar.”

De acordo com o Presidente da Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil, Luciano Bandeira,  foi enviado um representante da que acompanhou o caso e conseguiu ao menos que fosse retirada as algemas postas ilegalmente em Valéria.

“Nada justifica o tratamento dado à colega, que denota somente a crescente criminalização de nossa classe. Iremos atrás de todos os que perpetraram esse flagrante abuso de autoridade.” defendeu o Presidente da Comissão.

Frente de Juristas Negras e Negros do Rio de Janeiro repudiam o ocorrido e se solidarizam com a advogada agredida

A FEJUNN-RJ, vem a público repudiar veementemente o tratamento a que foi submetida a ilustríssima advogada, Dra. Valéria Santos, em pleno exercício da profissão.

Não há como não nos manifestarmos enquanto uma Frente que busca inserir no meio jurídico o recorte étnico racial necessário para pensar o Direito de forma ampla e igualitária. Deste modo, nos solidarizamos com a Dra. Valéria, compreendendo que à luz da história, negros e negras são tratados de maneira violenta pelo Estado. Não basta ser Doutora, operadora do Direito. O Estado de maneira eficaz ousa nos colocar no lugar o qual pretende que estejamos por todo o sempre.

O Supremo Tribunal Federal por meio da Sumula Vinculante n.º 11 regulou a utilização excepcional das algemas. No caso do fato ocorrido com a Dra. Valéria, ainda assim, em momento algum se enquadra na hipótese prevista no referido verbete, ainda mais sem a presença de um delegado da OAB.

Repudiamos o uso das algemas e o tratamento da Dra. Valéria Santos, em pleno exercício na profissão. O episódio de hoje mais uma vez demonstra a importância da FEJUNN – RJ existir. Demonstra a fragilidade que vivemos enquanto negros e negras, para além dos dados estatísticos do cárcere e da letalidade, também no exercício de nossa profissão, com o agravante pelo fato ter ocorrido no meio jurídico.

Queremos justiça, o exercício do Direito, a dignidade para alcançarmos uma sociedade livre, justa e verdadeiramente democrática.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/advogada-negra-e-detida-algemada-e-arrastada-durante-audiencia-em-duque-de-caxias-por-andre-zanardo/

Alemães na África discutem investimentos e a imigração ilegal

A chanceler alemã Angela Merkel tem um programa apertado no périplo que está a fazer pela África Ocidental. No Senegal, falou de investimentos e do combate à migração ilegal.

    
Senegal - Angela Merkel besucht Senegal (picture-alliance/dpa/M. Kappeler)

Angela Merkel chegou ao Senegal, na quarta-feira (30.08), com uma comitiva de empresários alemães, que também a acompanharão até ao Gana e à Nigéria.

Com este périplo, a chanceler alemã pretende, sobretudo, reforçar os laços de cooperação económica para combater a migração ilegal para a Europa. Ao desembarcar em Dakar, Merkel encontrou-se com o Presidente Macky Sall e manifestou logo o interesse da Alemanha em investir no Senegal.

“Devemos aprender a combinar de forma sensata o desenvolvimento com o investimento privado, para que o Senegal possa fazer a transição gradual para uma recuperação económica autossustentável”, afirmou a chanceler alemã. “Este é um país jovem, com 300 mil jovens a entrar no mercado de trabalho todos os anos, à procura de oportunidades. Por isso, é do nosso interesse que o desenvolvimento seja bem-sucedido.”

Senegal aberto a investimentos

O Presidente senegalês garantiu que o seu país está interessado em investimentos estrangeiros, mas não está só aberto às ofertas alemãs.

“A Alemanha é bem-vinda”, frisou Macky Sall. Mas “eu disse à chanceler que a China [também] é bem-vinda ao Senegal, tal como os Estados Unidos da América, a França e a Turquia, porque, a partir do momento em que encontrarmos uma fórmula para conseguir financiamento, transferir tecnologia, criar empregos para jovens, vamos aceitar. Não podemos rejeitar ofertas que ajudem os nossos jovens”, afirmou.

Republik Senegal - Kanzlerin Merkel besucht SenegalChanceler Angela Merkel foi recebida no Senegal pelo Presidente Macky Sall

A questão da migração

Mais de 11 mil pessoas do Senegal, Gana e Nigéria solicitaram asilo na Alemanha no ano passado. Grande parte das solicitações foi negada. Estima-se que 14 mil cidadãos destes três países africanos vivem ilegalmente na Alemanha.

Tanto no Gana como no Senegal, a Alemanha financia centros de aconselhamento para migrantes, onde os jovens retornados recebem ajuda na procura de emprego. Outro centro deste tipo deverá abrir na Nigéria até ao final do ano. Além disso, a Alemanha lançou a iniciativa “Compact with Africa” quando presidiu ao grupo das 20 maiores potências económicas mundiais, o G20. A medida prevê a transferência para as nações africanas de habilidades e tecnologias para atrair investidores ocidentais. O Gana e o Senegal já participam e a Nigéria demonstrou interesse.

Três dias, três países: Merkel faz périplo africano

Oportunidades

A chanceler alemã está no Gana esta quinta-feira e, na sexta, vai até à Nigéria, onde se encontrará com o líder da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Jean-Claude Kassi Brou, e com o Presidente Muhammadu Buhari, para discutir questões económicas.

Além disso, Angela Merkel também se encontrará com a sociedade civil. Moses Siasia, do Fórum de Jovens Profissionais da Nigéria, tem grandes expetativas quanto à visita: “Penso que esta é uma das formas mais diretas de se fazer parcerias comerciais. Além disso, os governos da Nigéria e da Alemanha podem criar um ambiente de relações comerciais para as empresas dos dois países e também oportunidades para beneficiar do conhecimento”, afirma.

Em média, a economia do Senegal cresce a um ritmo de 7% ao ano, enquanto o Gana é visto como um refúgio de estabilidade na região. A Nigéria, apesar de ser vítima da insurgência do grupo radical Boko Haram e da volatilidade do preço do petróleo, continua a ser o segundo maior parceiro comercial da Alemanha na África subsaariana.

Os humanos estão à beira da extinção?

 

Douglas Rushkoff, um dos grandes teóricos do mundo digital, adverte: redes sociais mobilizam nosso lado réptil- primitivopara que troquemos a política pelo consumo

Entrevista a Juan Iñigo Ibánez | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Steve Cutts

“Para o Facebook somos o produto, não o cliente”, repete o teórico da mídia estadunidense Douglas Rushkoff desde 2011. Embora o episódio Cambridge Analytica e o comparecimento de Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano tenham abalado a opinião pública, o que realmente chamou a atenção deste escritor e documentarista de 57 anos foi “como as pessoas ficaram surpresas”. “O plano de negócios do Facebook – assegura ele, falando do subúrbio novaiorquinho de Hastings-on-Hudson, onde reside – sempre foi extrair dados da atividade das pessoas, para vendê-los em seguida”.

As críticas do professor de Teoria dos Meios e Economia Digital da Universidade do Estado de Nova York à empresa de Mark Zuckerberg podem ser estendidas também à maioria das grandes companhias fundadas em tempos de economia digital. Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity [Atirando pedras no ônibus do Google: como o crescimento converteu-se no inimigo da prosperidade], editado pela Penguin Books nos Estados Unidos, o teórico de meios argumenta que empresas como Amazon, Netflix ou iTunes acabando utilizando a rede – que a seu ver prometia ser mais uma ferramenta de utilidade pública que uma plataforma comercial – para reviver as piores práticas do capitalismo industrial — agora, porém, “funcionando com esteroides digitais”.

Pioneiro e entusiasta da cibercultura, participante do movimento Occupy Wall Street e ativista da democracia de código aberto, Rshkoff é doutor em Novos Meios e Cultura Digital pela Universidade de Utrecht (Holanda).

Em 2013, o MIT – Massachusetts Institute of Tecnology, o incluiu – junto com Niall Ferguson e Steven Pinker – entre os dez intelectuais mais influentes do mundo. Considerado por muitos o mais fiel herdeiro das ideias de Marshall McLuhan e Neil Postman, é o responsável por cunhar termos como “nativos digitais”, “meios virais” e “moeda social”. Eis sua entrevista.

Como se explica o mea-culpa realizado por Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano, ao assumir a falta de maior responsabilidade sobre o modelo de negócios do Facebook?

Os jovens desenvolvedores abandonam a escola para iniciar suas empresas, com pouco ou nenhum conhecimento dos impactos políticos e sociais dos produtos que querem construir. Zuckerberg afirmou que não tinha ideia de que sua plataforma afetaria nossa sociedade e nossas eleições da maneira como fizeram. Se ele conhecesse algo sobre a economia política dos meios, não seria tão ignorante. Mas o Facebook é dirigido por alguém que só se formou na escola secundária.

No ano passado, o Facebook revelou os países que mais usaram sua nova modalidade de “interações” e o México se encontrava em primeiro lugar, em nível mundial. Como se relacionam as “interações” e as “curtidas” com o uso que a empresa poderia estar fazendo de nossos dados?

O Facebook usa a “aprendizagem automática” para determinar o que funciona e o que não funciona com você. Quanto mais informação tenham sobre você, maior a precisão com que poderão prever e manipular seu comportamento. Os botões de interação são como um dispositivo de votação instantâneo. São como um “grupo focal” mecânico. Estão fazendo as perguntas que lhe faria um psicólogo que tentasse hipnotizá-la.

No início de 2014 ficamos sabendo que o Facebook havia comprado a patente para desenvolver as lentes de realidade virutal Oculus VR. Em 2016, a empresa lançou seu primeiro protótipo. Qual sua opinião sobre uma empresa acusada de negociar com os dados dos usuários excursionar pelo campo da realidade virtual?

O Facebook quase perdeu a plataforma de telefones inteligentes. Chegaram aos telefones muito tarde, e muitos temiam que a companhia não os alcançasse. Ao comprar a Oculus Rift, asseguram-se de que, se a realidade virtual converter-se num grande negócio (embora eu creia que isso não ocorrerá), então estarão participando da corrida.

Mas eles ainda não sabem o que fazer com isso. Talvez jogos. O que é certo é que criarão um entorno muito mais controlado para manipular as pessoas, e poderão observar muitas dessas decisões insignificantes que tomamos costumeiramente. Obterão muita informação sobre nossas formas de movimentar-nos através desses entornos.

Que tipos de medida os governos devem tomar para controlar o que empresas como o Facebook poderiam fazer, através da realidade virtual, com nossos dados? Ainda dá tempo de regular isso?

A Europa é melhor nisso do que a América do Norte. Nos Estados Unidos acredita-se que impedir uma corporação de fazer algo é como dizer a Deus que se cale. O mercado é a sabedoria do universo, que se expressa nos assuntos humanos. Controlar uma empresa é considerado uma afronta à natureza.

O problema com a regulação é que as empresas que supostamente estão reguladas são com frequência as que terminam escrevendo as regras. E as escrevem de modo a garantir seus próprios monopólios. Creio que o mais fácil é converter as plataformas tecnológicas mais gigantescas – as que todos usam – em bens públicos.

Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus, você afirma que a Amazon proporciona o exemplo mais claro de como – contrariamente ao sonho da economia colaborativa que muitos imaginaram ser possível no início da internet – os velhos valores corporativos foram amplificados graças à rede. Que tipos de prática as grandes empresas surgidas em tempos de economia digital, como a Amazon, executaram?

Elas destroem as empresas com que trabalham. Exploram seus trabalhadores, conhecidos como os “turcos mecânicos” da Amazon. Pagam uma ninharia para que façam o trabalho com os computadores, inclusive porque não têm como denunciar, se quem os contrata decide não pagar. Exercem o controle do monopsônio [também chamado “monopólio do comprador”] para pagar menos e exigir mais. Não ajudam as pequenas empresas a intercambiar valor entre elas. Convertem-se na única plataforma e aproveitam seu monopólio para expulsar as pequenas empresas do negócio. É uma má estratégia a longo prazo, porque se ninguém tem dinheiro, não podem gastá-lo na Amazon.

Como a Amazon afetou a indústria do livro?

O que a Amazon fez de mais notável foi prejudicar editores e autores. Pagam por livro menos que as livrarias normais. Preferem perder dinheiro com a venda de livros para que as outras livrarias se arruinem. É um conceito difícil de entender: venderão livros abaixo do custo com o objetivo de fazer com que outras livrarias fechem. Não lhes importa o ganho de seus livros. Querem ser um monopólio. E assim, quando forem os livreiros mais importantes do mundo, poderão finalmente impor suas condições aos editores. Podem estabelecer preços, controlar a distribuição e cortar da lista de livros os que não estejam de acordo com eles. É muito assustador, na verdade. O plano, a longo prazo, é que todos os autores trabalhem diretamente para a Amazon. É o que já propõem, de fato, a alguns escritores.

Você mencionou numa entrevista anterior que empresas como a Uber estão realmente usando seus motoristas como “pesquisadores de desenvolvimento”, e assim preparam o terreno para o negócio real: treinar o algoritmo para as viagens que os veículos automatizados farão no futuro…

Ao longo da história da humanidade, e certamente desde a era industrial, as novas tecnologias fazem com que certas habilidades humanas tornem-se obsoletas. Então, as pessoas procuram outro trabalho. Agora mesmo está ocorrendo em múltiplos setores: alimentos, medicamentos, educação, transportes, recursos, energia e inclusive entretenimento e arte.

O importante a ser lembrado, ao analisar esses problemas, é enxergar o que as empresas de fato pretendem ao excluir o trabalho humano. É realmente mais barato? É melhor? Não. Simplesmente elimina os humanos da equação. A longo prazo, a consequência disso é que não sobrarão seres humanos para comprar os bens e serviços.

Em 1988, Isaac Asimov previu, numa entrevista à BBC, que graças aos computadores, em poucos anos, cada pessoa seria capaz de aprender em seu próprio ritmo, de forma autodidata e durante toda a vida. Você crê que, em certa medida, isso se cumpriu?

Sim e não. A rede oferece enormes possibilidades educativas, desde a Wikipedia até o aprendizado a distância. Mas elas certamente não representam a cultura em rede dominante hoje em dia. E em muitos casos está sendo utilizada para minar o impacto mais subversivo e verdadeiramente humano da educação. Uma aula ou uma biblioteca digital online oferece uma grande oportunidade a quem não as teve antes, mas também prescinde do fator humano: o intercâmbio vivo de ideias e valores. Um bibliotecário humano é muito mais que uma base de dados.

Todos tinham os mesmos pensamentos otimistas sobre a televisão logo que ela apareceu. Ia ser a grande educadora. Supunha-se que em particular a televisão a cabo desencadearia uma nova revolução na educação. Contudo, nada disso aconteceu. Nenhuma mídia promoverá valores por si mesma. Ela só pode expressar os valores daqueles que a estão desenvolvendo. Neste momento, esses são os valores dos especuladores, razão pela qual as soluções educativas que vemos se desenvolvendo são as que têm modelos de negócios ampliáveis.

Há alguns dias, o New York Times voltou a publicar um artigo sobre a tendência, entre os executivos do Google, de inscrever seus filhos em escolas Waldorf. Parece que ali aprendem a tecer, interagem com a natureza, mas sobretudo não é permitido que se exponham a monitores e são proibidos de usar gadgets. O que isso revela a você?

Escrevi sobre isso há anos, quando as pessoas sequer acreditavam que fosse verdade. Para mim, significa que são hipócritas. Como os executivos de televisão e publicidade dos anos 1980, que não deixavam seus filhos ver televisão. É porque sabem que esses meios foram intencionalmente desenhados para frustrar a cognição, fazer com que as pessoas tenham medo, sejam burras e sintam-se sós e desesperadas. Isso não é teoria da conspiração. Os designers de interfaces das principais empresas tecnológicas do Vale do Silício estudam “captologia” em Stanford. Leem livros sobre o funcionamento das máquinas caça níqueis de Las Vegas para desenhar algoritmos que viciem.

As tecnologias digitais estão desenhadas especificamente para viciar, criar comportamentos obsessivos e fazer com que as pessoas prefiram as experiências digitais às reais. Os que fazem esse trabalho sabem que muito ruim e insano, e com razão querem proteger suas famílias dos possíveis danos.

Algumas pessoas apontam a simplicidade moralista, a agressividade e a irritação diante de opiniões contrárias que as pessoas demonstram na internet. Há alguma relação entre a forma como essas plataformas foram configuradas e a ascensão online, nos últimos anos, de grupos como ultra-direita [alt-right] nos Estados Unidos?

Essas plataformas foram concebidas para provocar respostas simplistas, impulsivas e primitivas — subreptícias. Estas são menos reflexivas que as reações dos mamíferos, e muito menos que as das comunidades de humanos.

Nossas emoções e condutas mais humanas provêm de uma parte do cérebro chamada neocortex. É a parte que as plataformas digitais tratam de evitar a todo custo. A captologia é a ciência de driblar o neocórtex e chegar diretamente no tronco do encéfalo. Essa é a parte que diz “matar ou morrer”. Se essa é a parte do cérebro que está ativa online, ela fomentará esse tipo de comportamento primitivo.

Você incluiu os efeitos das tecnologias digitais no conceito de “choque de presente”. Como se poderia vincular essa ideia a nossa propensão a crer em fake news e pós-verdade?

Minha ideia de “choque do presente” se referia à ênfase que as tecnologias digitais aplicam ao momento presente. Mas não ao presente real, e sim a uma instantaneidade e avalanche de dados e escolhas que fazem com que pareça que temos de estar alertas o tempo inteiro. É muito desorientador. Isso nos leva a desejar algo familiar. Qualquer coisa com uma forma familiar, seja ou não verdadeira. Odiamos o caos. Preferiríamos que uma pessoa malvada governasse o mundo a que ninguém o governasse. Isso é mais familiar e seguro.

No ano passado, veio a público a notícia de que o governo mexicano estava usando o software Pegasus para espionar jornalistas através de seus telefones celulares. Que potencial têm esses aparatos para intrometer-se em nossa privacidade?

Nossos dispositivos têm capacidade de conseguir acesso total a nossas vidas. Tudo. E não somente as coisas que você sabe sobre si mesmo, que tipo de sexo gosta, como se masturba, que drogas usa, mas também as coisas que não sabe sobre si. Essa é a parte mais perigosa. Podem usar macrodados (Big Data) para saber o que provavelmente fará no futuro. Eles sabem, antes de você, se ficará doente, se se divorciará, se mudará de sexo… qualquer coisa.

A única coisa que impede as empresas de explorar essa capacidade é o medo da lei ou seu sentido ético. Mas até o momento não as vejo preocupadas com nenhum desse aspectos.

Frequentemente nos chegam notícias de novos protótipos robóticos que fazem piruetas e se movem com incrível agilidade por terrenos acidentados. Qual é, na sua opinião, a característica humana que os robôs nunca poderão adquirir ou imitar?

É precisamente esse o tema de dois dos meus livros, de modo que talvez possa responder um pouco mais brevemente. Que significa ser humano? Podemos ver isso da perspectiva da consciência, da inteligência, da biologia, da espiritualidade, da arte ou do amor? Em que diferem os humanos dos animais em cada um desses aspectos, como diferem dos computadores? Como você pode ver, é um grande conjunto de problemas.

Penso haver uma diferença entre informática e pensamento. Creio que os computadores podem resolver muitos dos problemas que um cérebro humano pode resolver, mas não creio que sejam conscientes de que estão resolvendo os problemas, do mesmo modo que uma pá não sabe que está cavando. Então, quando decidimos substituir a humanidade por computadores, temos que perguntar: por que se incomodar, se as máquinas nem sabem que estão lá?

No início dos anos 1990, em São Francisco, você foi testemunha de como surgiu a cultura rave, junto com o otimismo tecno e a espiritualidade psicodélica. A promessa parecia ser de que a tecnologia e os valores do humanismo se uniriam, numa simbiose promissora. Como crê que poderíamos voltar ao ethos original desse renascimento digital, sem que ele implique um retiro perpétuo nas montanhas ou o ingresso numa espécie de idade pré-digital?

O mais provável é que façamos isso por necessidade. Simplesmente seremos pobres demais para participar desta sociedade industrial digital. Precisaremos de casa e comida, e para isso teremos de voltar a aprender os conceitos básicos. Isso nos fará trabalhar com nossas mãos e com as outras pessoas. Aprenderemos a trabalhar juntos. Olharmo-nos nos olhos, tomar decisões juntos e colaborar.

A outra possibilidade é que a geração que cresce agora simplesmente compreenda que os humanos estão à beira da extinção, e que a sobrevivência requer desconectar-se dessas máquinas, acabar com a escravidão adotada para fabricá-las e romper com o controle mental que nos liga a elas.

Que papel teriam os artistas e os humanistas nesse renascimento digital?

Os artistas rompem mitos. Ao admitir que o que fazem é artifício, revelam o artifício à sua volta. Seu papel sempre foi explorar o significado de nossa existência: romper as ilusões que se colocam no caminho, sejam elas o medo, o mercado, a dominação ou as leis. A arte pode ajudar a nos demonstrar que os humanos são especiais, inexplicáveis e dignos de existir. Que há neste mundo algo além do valor utilitário. Que o mundo é mais complexo do que aquilo que nossos cálculos algum dia resolverão. Penso que os humanistas são os que tentam convencer-nos de que nossa arte realmente possui essa capacidade. Essa arte verdadeira é mais que entretenimento ou cuidados paliativos. Essa arte é o caminho a seguir.

Fonte:https://outraspalavras.net/capa/maquinas-digitais-hora-de-desconectar/

Discurso inédito escrito por Marielle Frando

A psolista discursaria hoje na votação do Plano Municipal de Educação do Rio de Janeiro e, antes de ser executada, já estava com o texto pronto. Seu correligionário, vereador Tarcísio Motta, levou o discurso ao plenário. Confira

Foto: Reprodução/Instagram

A voz de Marielle Franco continua ecoando na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Nesta terça-feira (27), treze dias após seu assassinato, um discurso que havia preparado para ser lido na votação do Plano Municipal de Educação do Rio foi reproduzido no plenário pelo vereador Tarcísio Motta (PSOL).

No texto, Marielle atentou para a importância do debate sobre igualdade de gênero nas escolas. “Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjulgadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!”, escreveu.

Confira a íntegra do texto abaixo e, na sequência, o vídeo que registrou Tarcísio Motta reproduzindo o discurso escrito por Marielle.

Boa tarde à todas e todos,

O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.

Os números são assustadores: em 2016, foi registrada uma violência contra mulher a cada 5 horas no Estado do Rio de Janeiro.

Mas também sabemos que estes números são apenas de parte das mulheres que conseguiram, de algum modo, buscar auxílio e denunciar.

E eu pergunto à vocês: seguiremos nos recusando a falar sobre igualdade de gênero? Até quando?

O debate sobre a nossa igualdade é urgente no mundo, no Brasil e no município do Rio de Janeiro!

Enfrentar este debate é nos comprometermos com a democracia e com nosso avanço civilizatório.

Falar de igualdade entre mulheres e homens, meninas e meninos, é falar pela vida daquelas que não puderam ainda se defender da violência. E são muito mais das 50.377 registradas em 2016, aqui, no Rio.

Diferente do que se fala ou, infelizmente, do que se acostuma ver em Casas Legislativas, como esta, não somos a minoria. Somos a maior parte da população, ainda que sejamos pouco representadas na política.

Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjulgadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!

No Brasil, segundo o IPEA (2016). As mulheres negras brasileiras ainda não conseguiram alcançar nem 40% do rendimento total recebido por homens brancos. E somos nós, mulheres negras, que mais sofremos violências diariamente.

Só quem acha que isso é normal é quem não sofreu no corpo o machismo e o racismo estrutural. Quem acha que isso não merece ser debatido na nossa educação é porque se benefecia das desigualdades.

Por isso, quero deixar registrado que essa Casa, ao retirar os termos “gênero”, “sexualidade” e “geração”, fortalece a continuidade de desigualdades e violências dos mais diversos tipos.

Hoje falamos do principal plano para desenvolvimento social do nosso município: o Plano Municipal de Educação. Este plano merece que tenhamos compromisso e responsabilidade.

O termo “gênero” começou a ser utilizado como categoria de análise a partir de 1970 com o objetivo de dar visibilidade às desigualdades entre homens e mulheres. Logo, tanto na origem da sua criação, quanto no uso corrente em debates sobre a superação das desigualdades, falar de “gênero” tem como finalidade promover a devida atenção e crítica das discriminações sofridas pelas mulheres, e tentar achar meios para que todas e todos possamos juntos enfrentar este cenário.

Desde quando falar sobre uma opressão, que gera tantas mortes, é falar sobre alguma doutrinação?

Se dizem tanto a favor da vida, então deveriam ser a favor da igualdade de gênero. E só se promove igualdade através de uma educação consciente e do debate com nossas crianças, para que se tornem adultos melhores.

Por isso, como parlamentares responsáveis pelas cidadãs e cidadãos dessa cidade, devemos defender o debate na educação!

Se é da escola que nasce o espaço público que queremos, é indispensável que se fale de igualdade de gênero sim! Que se fale de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar sobre estes temas é se comprometer com a vida, em suas múltiplas manifestações. É se comprometer com o combate à violência e a desigualdade!

É mais do que urgente que esta casa não se cale sobre as vidas que são interrompidas dia-a-dia neste Município.

Falar de igualdade de gênero é defender a vida!”

Fonte: https://www.revistaforum.com.br/discurso-inedito-escrito-por-marielle-franco-e-lido-na-camara-dos-vereadores-do-rio/

Entrevista de Nancy Fraser

nancy-fraser-pulDiante do crescimento do populismo de direita em todo o mundo, Nancy Fraser sustenta: há revolta positiva no ar; é preciso dar-lhe sentido.

A entrevista é de Shray Mehta, publicada por Outras Palavras, 19-08-2018. A tradução é de Inês Castilho.

Esta entrevista foi realizada em março de 2018, quando Nancy Fraser foi convidada pelo Departamento de Sociologia da Universidade do Sul Asiático para fazer uma palestra sobre “Raça, Império, Capitalismo: teorizando os nexos”.

Quando emergem na cena política personagens como Jair Bolsonaro, parte da esquerda tende a uma atitude defensiva. Em face de um perigo corretamente associado ao fascismo e à violência, seria o caso de preservar a normalidade do sistema institucional, e mesmo de convocar alianças em seu favor. A repercussão que o discurso de ódio encontra entre parcelas amplas da sociedade indicaria que é hora de refrear o passo, até que a onda regressiva se esvazie.

Associada a um marxismo heterodoxo, a filósofa e feminista norte-americana Nancy Fraser julga que esta atitude não afastará o perigo — e pode, ao contrário, torná-lo maior. Uma visão particular sobre o chamado “populismo de direita” a faz pensar assim. As maiorias, crê Fraser, têm boas razões para se revoltar contra a ordem. Ao longo das três últimas décadas, elas foram castigadas, na maior parte dos países, pelo desmonte dos direitos sociais. Em muitos casos, partidos associados à esquerda envolveram-se ativamente neste processo (no Brasil, vale lembrar a adesão do segundo governo Dilma ao “ajuste fiscal” proposto pela direita). Agora, há raiva e rancor. Enxergar os que nutrem estes sentimentos como “fascistas” só agravará o cenário.

feminismo é, para Fraser, uma chave para encontrar outro tipo de resposta. A crise global da esquerda está associada à transição do capitalismo industrial ao financeirizado— e, portanto, à ineficácia das antigas estratégias de resistência, que se baseavam na ação dos trabalhadores organizados. Agora, o centro de geração de valor e acumulação de riqueza do próprio sistema deslocou-se: já não é a fábrica, mas a produção imaterial, que se espraia por toda a sociedade. Não bastaria isso para enxergar a relevância (e a potência transformadora) de formas de trabalho não-reconhecidas e não-remuneradas, secularmente associadas às mulheres?

Como fazê-lo? Na entrevista a seguir, concedida em março deste ano ao jornalista indiano Shray MehtaFraser oferece algumas pistas. “O que necessitamos”, diz “é o que André Gorz chamou de ‘reformas não-reformistas’. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital”. Porém, estas reformas, prossegue a filósofa, “não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educaçãomoradiasaúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos”.

Esta estratégia dá resultados concretos, mostra Fraser. A Inglaterra é o exemplo eloquente. Lá, boa parte dos votos de rancor dados ao Brexit, há dois anos, tem sido recuperada por Jeremy Corbyn, líder rebelde do Partido Trabalhista, que propõe precisamente um programa radical de recuperação e ampliação dos serviços públicos. Foi esta postura, aliás, que desarmou o partido xenófobo (UKIP) — líder do voto contra a União Europeia, mas hoje esvaziado e dividido.

E no Brasil: qual o melhor antídoto contra os Bolsonaro e os Alckmin? A equação deFraser sugere que talvez não seja uma esquerda defensora da ordem — mas, ao contrário, capaz de desafiá-la por meio de medidas distributivas e anti-sistêmicas bem mais profundas que as praticadas pelo lulismo, em sua primeira experiência de governo. (A.M.).

Eis a entrevista.

Muito obrigado pela oportunidade desta conversa. O mundo está assistindo a uma aumento alarmante de líderes populistas e o padrão parece repetir-se com frequência em todo o espectro político, não restrito apenas ao Norte ou ao Sul globais. Como se pode contextualizar essa expansão do populismo como um momento histórico mundial? Ele teria uma dinâmica sistêmica que vai além das nações e está localizado na economia internacional e crise do capitalismo?

populismo está situado numa dinâmica histórica mundial. Ele sinaliza uma crise hegemônica do capitalismo – ou melhor, uma crise hegemônica de uma forma específica de capitalismo que temos hoje: globalizado, neoliberal e financeirizado. Esse regime suplantou a variedade anterior, do capitalismo gerido pelo Estado, e dizimou todos os ganhos que as classes trabalhadoras haviam conquistado no período prévio. O populismo é, em grande medida, uma revolta dessas classes contra o capitalismo financeiro e as forças políticas que o impõem. Para entender a revolta, é preciso entender o bloco hegemônico anterior que está sendo rejeitado. Eu chamei esse bloco de “neoliberalismo progressista”. Como formação dominante, o neoliberalismo progressista estava centrado nos Estados mais poderosos do Norte global, mas tinha também postos avançados em outros lugares. Exemplos incluem o “Novo Trabalhismo” de Tony Blair, na Inglaterra, o “novo” Partido Democrático de Bill Clinton, nos EUA, o Partido Socialista na França, e os últimos governos do Partido do Congresso, da Índia.

O que é específico do “neoliberalismo progressista” é que ele combina políticas econômicas regressivas, liberalizantes, com políticas de reconhecimento aparentemente progressistas. Sua economia política baseia-se em “livre comércio” (que em realidade significa livre movimentação do capital) e desregulamentação das finanças (que empodera investidores, bancos centrais e instituições financeiras globais para ditar políticas de “austeridade” para o Estado por meio de decretos e da chantagem da dívida). Entretanto, seu lado de reconhecimento centra-se na compreensão liberal do multiculturalismo, do ambientalismo e dos direitos das mulheres e LGBTQ[lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer]. Inteiramente compatível com o neoliberalismo financeiro, essa compreensão é meritocrática, oposta ao igualitarismo. Focados na “discriminação”, eles buscam assegurar-se de que uns poucos indivíduos “talentosos” de “grupos sub-representados” possam ascender ao topo da hierarquia corporativa e alcançar posições e remuneração paritárias com os homens heterossexuais brancos de sua própria classe.

O que não é mencionado, contudo, é que enquanto esses poucos “quebram o teto de vidro”, todo o resto continua preso no porão. De fato, o neoliberalismo progressistaarticulou uma política econômica regressiva com uma aparente política progressistade reconhecimento. O lado progressista de reconhecimento serviu como um álibi ao lado econômico regressivo. Isso possibilitou ao neoliberalismo apresentar-se como cosmopolita, emancipatório, inovador e moralmente avançado – em contraste com as classes trabalhadoras aparentemente paroquiais, atrasadas e incultas.

neoliberalismo progressista foi hegemônico por umas duas décadas. Encabeçando vastos aumentos da desigualdade, foi uma grande bonança para o 1% global, mas também para o estrato gerencial profissional. Foram atropeladas as classes trabalhadoras do norte, que haviam se beneficiado da social democracia; os camponeses do sul, que sofreram desapropriação renovada por dívida, em escala maciça; e um vasto precariado urbano no mundo inteiro. O que se vem denominando populismo é uma revolta desses estratos contra o neoliberalismo progressista. Ao votar em Trump, no Brexit, em Modi (Índia) e no Movimento Cinco Estrelas na Itália, as maiorias declararam que se recusam a continuar desempenhando o papel que lhes foi atribuído, de cordeiros de sacrifício, num regime que não tem nada a lhes oferecer.

Os movimentos populistas são frequentemente apresentados como “fascistas”, assim que começam a articular suas demandas. Contudo, quando vistos como uma articulação das preocupações populares contra a apatia sistêmica, surge um cenário mais complexo. Por exemplo, a ascensão de Trump está baseada até certo ponto no apoio de uma base eleitoral que é apressadamente descartada como “homens brancos racistas”, embora possam ter votado em Obama nas duas últimas eleições. Num outro contexto, na Índia, a ascensão do nacionalismo hindu é taxada de fascista sem vê-la na perspectiva histórica, de reação às políticas neoliberais dos governos anteriores, do Partido do Congresso. Como perceber essa rejeição completa das preocupações populares no discurso público, por um lado, e a rotulagem da reação popular como fascista?

Concordo com sua visão nesse assunto. O liberalismo tem uma longa história de tentar deslegitimar a oposição a ele – estigmatizando seus opositores como, por exemplo, “stalinistas”, “fascistas”, o que seja. Isso é certamente o que está acontecendo agora com relação ao termo “populismo”. Essa palavra é hoje amplamente usada pelos liberais para desqualificar como ilegítimas as forças populares que estão se rebelando contra seu domínio. Mas você está certo, é uma tática defensiva por parte dos defensores do “neoliberalismo progressista”. Ao estigmatizar a oposição, eles esperam ressuscitar seu projeto. Nos Estados Unidos, estão procurando desesperadamente um novo líder, com mais apelo que Hillary Clinton, sob o qual possam restaurar uma nova versão do neoliberalismo progressista. Essa é a agenda de uma grande parcela da “resistência” anti-Trump. Não conheço o suficiente da política indiana para ter certeza, mas imagino que o Partido do Congresso está usando tática semelhante na esperança de retomar o poder.

Eu certamente jamais endossaria Trump ou Modi [o presidente da Índia] – isso é óbvio. Todavia, não estou infeliz com o fato de que quem foi massacrado pelo “neoliberalismo progressista” levante-se contra ele. Em alguns casos, é claro, a forma que esta rebelião assume é problemática. As populações frequentemente equivocam-se quanto à verdadeira causa de seus problemas, e fazem de bode expiatório os imigrantesmuçulmanosnegrosjudeus e outros. Mas é contraprodutivo simplesmente desqualificá-los como racistas e islamofóbicos irredimíveis. É tolo assumir, de saída, que não há qualquer possibilidade de ganhá-los para a esquerda, seja para o populismo de esquerda ou para o socialismo democrático.

Além disso, a ideia de que todos esses eleitores não passam de racistas de carteirinha não bate com os dados. Nos EUA, como você disse, 8,5 milhões de pessoas que votaram para Obama em 2012 mudaram de posição e votaram em Trump em 2016. Muitos deles eram pessoas da classe trabalhadora em comunidades do “cinturão de ferrugem”, que sofreram maciçamente com a desindustrialização, precarização e uma grande epidemia de adição a opiáceos, orquestrada pela indústria farmacêutica. Foram eles que entregaram a presidência para Trump. Em ambas as eleições, 2012 e 2016, votaram contra a economia neoliberal – primeiro para Obama, que fez campanha à esquerda, adotando a retórica do “Ocuppy Wall Street”, e depois para Trump, cuja campanha baseou-se não somente no reconhecimento excludente, mas também na economia populista. O que isso mostra é que as questões identitárias não estavam, na mente desses eleitores, acima de tudo. Nessas questões, eles foram bastante volúveis, agindo de diferentes maneiras, conforme as opções oferecidas. Ao contrário, foram consistentes na rejeição da terceirização, “livre comércio” e financeirização; no apoio à proteção social, pleno emprego e salários dignos. O mesmo é verdade, aliás, no Reino Unido. Muita gente da classe trabalhadora do norte da Inglaterra que votou a favor do Brexit apoia agora, fortemente, Jeremy Corbyn. Na França também, houve grande troca de votos, de um lado pro outro, entre a Frente Nacional [de ultra-direita] e o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon.

Meu ponto é que todos esses eleitores (e outros!) têm queixas legítimas contra o neoliberalismo progressista. Ao invés de desqualificá-los como racistas, a esquerda deve validar suas críticas. Ao invés de assumir que eles não têm jeito, devemos partir da premissa de que muitos eleitores populistas à direita podem ser, em princípio, conquistados pela esquerda. Precisamos atraí-los, validando suas queixas e oferecendo-lhes uma análise alternativa da verdadeira causa de seus problemas e uma proposta alternativa para resolvê-los.

Sobre oferecer uma explicação e uma visão alternativas, não é a primeira vez que ocorre essa troca de eleitores entre a esquerda e a direita. Sabemos que há precedentes históricos. A direita é capaz de estabelecer nexos casuais entre os problemas sistêmicos e grupos sociais tais como judeus, muçulmanos ou imigrantes, para sugerir que transformá-los em alvos pode resolver os problemas de emprego – isso tem apelo para as pessoas. Ainda que a esquerda tente intervir, a visão alternativa parece muito utópica para as pessoas. Você sente que ainda há uma lacuna crucial, na esquerda, com relação a isso?

Sim, eu concordo. Há com certeza uma lacuna programática na esquerda. Isso se deve em parte ao fim do comunismo soviético, que teve o infeliz efeito de deslegitimar não apenas aquele regime esclerosado, mas também ideias de socialismo e igualitarismo social em geral. A atmosfera resultante beneficiou grandemente os neoliberais, enquanto intimidava e desmoralizava a esquerda.

Mas isso não é toda a história. Nesse clima, uma parte significativa do que poderia ter sido uma opinião à esquerda foi direcionada para o liberalismo. Pense por exemplo no feminismo liberal, no anti-racismo liberal, no multiculturalismo liberal, no “capitalismo verde” etc. Essas são as correntes dominantes, hoje, de parte dos novos movimentos sociais, cujas origens foram, se não diretamente à esquerda, ao menos esquerdizantes ou proto-esquerdistas. Hoje, porém, falta-lhes até mesmo a mais pálida ideia de uma transformação estrutural ou uma economia política alternativa. Longe de buscar a abolição da hierarquia social, sua mentalidade está voltada a atrair mais mulheres, gays e não-brancos para os altos escalões. Certamente, nos EUA mas também em outros países, a esquerda foi colonizada pelo liberalismo.

A meu ver, o melhor caminho para reconstruir a esquerda é ressuscitar a velha ideia de um “programa socialista de transição” e dar a ele um novo conteúdo, apropriado ao século 21. Hoje, não podemos começar dizendo às pessoas que vamos socializar os meios de produção e em seguida elas terão empregos seguros e bem pagos. Essa retórica está vencida. O que necessitamos, ao contrário, é o que André Gorz chamou de “reformas não-reformistas”. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital. Além disso, essas reformas não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Elas precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educação, moradia, saúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos.

Embora longe da perfeição, a campanha de Bernie Sanders nos EUA teve algumas ideias que apontavam nessa direção. Acima e além do aumento do salário mínimo para 15 dólares a hora, Sanders fez campanha pelo “Medicare para todos”, ensino universitário gratuito, reforma da justiça criminal, liberdade reprodutiva e a quebra dos grandes bancos – tudo isso ligado ao emprego. Suas ideias não foram inteiramente desenvolvidas, é certo. E elas são possivelmente mais social democratas do que democráticas socialistas. Mas representam a primeira inspiração de uma alternativa populista à esquerda, nos EUA.

A esquerda precisa também pensar sobre finanças e bancos. Um dos pesadores mais interessantes nesse assunto é Robin Blackburn, que defende que as finanças deveriam tornar-se um bem público, como costumava ser a eletricidade — o que significa que devia pertencer a todos e ser alocada publicamente. Decisões sobre crédito, onde investir e quais projetos financiar deveriam ser tomadas com base não na taxa de retorno, mas no valor e utilidade social. E deveriam ser tomadas democraticamente – por meio de conselhos eleitos, encarregados de representar as comunidades e outras partes interessadas. Essa é uma ideia muito interessante, porque precisamos, é claro, de um sistema de crédito. Abolir os bancos e instituições financeiras globais não é a resposta. O que é necessário, ao invés disso, é socializar as finanças.

Aliás, esses são tempos perfeitos para desenvolver um programa de esquerda para as finanças. Muita gente está agora aberta para esse problema. Afinal, era exatamente este o ponto do Occupy Wall Street. Todo mundo sabe que os circuitos de investimento que causaram a crise estão de volta a seus velhos truques e que nada foi feito no sentido de uma reforma estrutural para prevenir um derretimento global, no futuro próximo. Os norte-americanos estão bem conscientes de que Obama usou os impostos para socorrer os bancos, cujos esquemas predatórios quase derrubaram a economia global — mas não fez nada para ajudar as 10 milhões de pessoas que perderam sua casa na crise de execução das hipotecas. Não há dúvidas de que muitos estão abertos a repensar esse sistema. Nessa questão, nem a direita nem o centro têm nada a oferecer, de modo que é uma grande oportunidade para a esquerda.

Gostaria agora de debater algumas preocupações teóricas. No seu artigo “A morada escondida de Marx” (“Marx’s HIdden Abode”), na New Left Review, você argumentou longamente sobre como o valor é produzido não apenas pelo trabalho produtivo, mas também pelo trabalho não remunerado. Este último seria o que, na verdade, suporta e sustenta o primeiro. A certa altura você sugere que uma parte da expansão do capitalismo é o “potencial emancipatório do capitalismo”. Esse “potencial emancipatório” é um tema muito debatido no pensamento marxista. Argumenta-se que frequentemente o trabalho não livre é ainda mais aprisionado, na dialética da “dupla liberdade” do capitalismo. Nesse contexto, como se pode entender o potencial emancipatório do capitalismo no que diz respeito ao trabalho não livre?

A expressão “dupla liberdade” é irônica. O lado positivo tem a ver com o fato de podermos circular e termos o direito de aceitar “voluntariamente” um contrato de trabalho. Mas, como você sabe, ela carrega um outro lado. Ao tornar-se livre para vender sua força de trabalho, uma pessoa também livrou-se de – quer dizer, foi privada de – ter acesso aos meios de sub-existência e aos meios de produção. Marx ressaltava que os proletários haviam sido “libertos” do acesso à terra, ferramentas, matérias primas e outros bens de que necessitariam para organizar seu próprio trabalho e satisfazer suas necessidades. Em consequência, não têm escolha senão aceitar um contrato de trabalho com um capitalista. O lado bom da liberdade está severamente comprometido, quando não é simplesmente ilusório.

liberdade no capitalismo é de fato uma faca de dois gumes. Se alguém é escravo ou servo, a possibilidade de tornar-se um trabalhador remunerado é certamente um passo adiante, como o próprio Marx frequentemente ressaltava. Mas isso não significa que essa pessoa se torne livre num sentido completo e robusto. Ao contrário, o proletariado torna-se sujeito de dominação. De modo que eu não superestimaria o potencial emancipatório do capitalismo, mas também não o ignoraria.

O ponto focal, contudo, é outro: o capitalismo não é um sistema uniforme. Ele não trata todo mundo do mesmo modo ao mesmo tempo. Mesmo quando “emancipa” alguns da dependência e trabalho forçado, transformando-os em proletários duplamente livres, ele deixa outros – muitos outros, de fato – em contextos e formas de dominação tradicionais. Ou, ainda, transforma aquelas formas e contextos tradicionais em formas novas, frequentemente muito opressivas.

De fato, argumentei recentemente, na palestra Contribuições ao Conhecimento Contemporâneo, que a exploração de “trabalhadores livres” está intimamente ligada — depende, na verdade — da expropriação de “outros” dependentes. O que quero dizer com expropriação é o sequestro de bens de pessoas subjugadas (seu trabalho, terra, animais, ferramentas, crianças e corpos) e o afunilamento desses bens sequestrados em circuitos de acumulação de capital. Compreendida dessa maneira, a expropriação difere nitidamente da exploração. A exploração é mediada por um contrato salarial: o trabalhador explorado troca “livremente” sua força de trabalho por salários que supostamente cobrem os custos sociais médios necessários a sua reprodução. A expropriação, ao contrário, dispensa a folha de parreira do consentimento e toma brutalmente propriedade e pessoas, sem contrapartida – seja por força militar ou por dívida. Minha visão é como a de Rosa Luxemburgo e David Harvey: a exploração por si só não poderia sustentar a acumulação de capital ao longo do tempo. Esta depende, antes, de contínuos movimentos de expropriação. Então, os dois “ex” estão interligados. E é o processo combinado de exploração e expropriação que cria o valor excedente.

Essa ideia é lindamente ilustrada numa frase de Jason Moore, relativa ao início da industrialização. Ele diz, “Atrás de Manchester fica Mississippi”. Isso significa que a indústria têxtil altamente rentável de Manchester, sobre a qual Engels escreveu, não seria rentável sem o algodão barato fornecido por meio do trabalho escravo das Américas. Sou tentada, por sinal, a acrescentar um terceiro M — para Mumbai, para assinalar o importante papel desempenhado no crescimento de Manchester pelo destruição calculada da manufatura têxtil da Índia pelos britânicos. Este é um caso em que a expropriação é condição para a possibilidade de exploração lucrativa. O capitalismo joga um jogo duplo com as pessoas, encaminhando alguns à “mera” exploração e condenando outros à brutal expropriação — uma diferença que historicamente tem sido associada com império e raça. De modo que eu rejeito a alegação, com frequência atribuída a Marx, de que o valor é produzido apenas pelo trabalho assalariado. Há muitos outros fatores não assalariados no processo, inclusive o trabalho social-reprodutivo das mulheres, sem o qual o trabalho assalariado não seria possível.

Para aprofundar isso, você poderia por favor explicar essa dinâmica do potencial emancipatório do capitalismo tendo em mente as economias “periféricas”? Você acha que pode-se continuar a pensar nelas como periféricas, num contexto do neoliberalismo que parece prover liberdade completa ao capital, ao restringir o trabalho em bases nacionais?

O conceito de “centro e periferia” faz menos sentido agora do que fez em períodos anteriores, mas estamos ainda lutando para encontrar uma alternativa satisfatória. Defensores da teoria de sistema-mundo falam de países semi-periféricos com estratégias para subir os degraus da escada de valor agregado baseados na produção de commodities. Mas mesmo isso não é inteiramente adequado para uma situação em que a indústria está sendo realocada em escala maciça. Dado o peso das economias de países como os membros do BRICS, é difícil chamá-los de “semi-periféricos”, quanto mais de periféricos. O que complica a situação ainda mais é que, a despeito de seu peso econômico, os países dos BRICS não estão (ainda?) em posição de afirmar-se como potências globais no cenário mundial. Ao contrário, uma potência econômica decadente (os EUA) ainda desempenha o papel de hegemonia global, a despeito de sua credibilidade moral que desaba e a mudança em seu status para uma nação devedora.

Ainda não sabemos aonde tudo isso leva — e depende muito da China. Mas embora as coisas funcionem assim, precisaremos desenvolver um novo vocabulário e enquadramento para apreender a nova situação histórica.

Ainda assim, uma coisa já está clara: tem havido uma tremenda mudança no relacionamento entre exploração e expropriação no capitalismo financeiro. Isso ocorre em grande parte graças à realocação da indústria para longe de seu centro histórico e à universalização da expropriação pela dívida. Este último fator é óbvio no caso da desapropriação de terras e dos programas de ajuste estrutural, que impõem condicionalidades de empréstimo aos países do Sul global. Governos de todo lugar, da América Latina à África e à Grécia tiveram de cortar gastos sociais e abrir seus mercados ao capital estrangeiro, vampirizando seu povo para o benefício do capital. Nesses casos, a dívida é um veículo de expropriação na (ex) periferia e semiperiferia, mesmo que essas regiões também estejam se tornando locais primários de exploração.

Ao mesmo tempo, a expropriação está aumentando no “centro” histórico. À medida em que o trabalho precarizado e de baixos salários nos serviços ultrapassa o trabalho industrial sindicalizado, o capital paga seus trabalhadores menos do que o custo socialmente necessário para sua reprodução. No entanto, ainda precisa que esses trabalhadores cumpram o duplo dever como consumidores. Então, o que fazer? A solução é aumentar a dívida dos consumidores, que permite às pessoas comprar coisas baratas produzidas em outros lugares. Aqui, também, a expropriação alimenta aqueles que também são explorados em “McEmpregos”.

Ou seja, estamos diante de uma nova constelação, que mistura a velha divisão exploração/expropriação. A maior exploração costumava ocorrer no centro histórico, enquanto a maior parte das expropriações era feita na ex-periferia. Não é mais o caso. Agora os dois ex não formam um ou/ou, mas um ambos/e. Não mais alternativas mutuamente excludentes, eles encontram-se em grande proximidade; frequentemente as mesmas pessoas são submetidas a ambas.

Você perguntou sobre as implicações disso para a emancipação. Essa é, a meu ver, a questão chave para a esquerda em nossos tempos. O que se segue, politicamente, ao fato de que o capitalismo não mais atribui a exploração a um grupo social ou região e a expropriação a outro grupo ou região? Quanto era assim, os cidadãos-trabalhadores “livremente” explorados do centro podiam dissociar facilmente seus objetivos e lutas daqueles sujeitos subjugados, racialmente expropriados da periferia. E isso enfraquecia as forças da emancipação, pois permitiam o dividir-para-governar. Agora, contudo, quase todo mundo está sendo simultaneamente explorado e expropriado. Então, parece que a base material para aquelas divisões políticas intra-classe-trabalhadora está desaparecendo. Em teoria, isso poderia abrir perspectivas para alianças novas e ampliadas. Se aqueles que sofrem podem agora entender que exploração e expropriação são elementos — analiticamente distintos, mas praticamente enlaçados — de um único sistema capitalista, o qual é a própria causa raiz da maioria de seus sofrimentos, então podem concluir que compartilham um inimigo comum e deveriam unir forças. Mas esse resultado não é nem automático, nem assegurado. Por ora, ao menos, as mudanças associadas ao capitalismo financeiro estão gerando paranoia e ansiedade, que conduzem a formas exacerbadas de chauvinismo, inclusive nos populismos de direitaque discutimos no início.

Na verdade, fechamos agora um círculo completo nesta conversa. Mas devo ressaltar novamente agora o que disse antes. Ainda que solidariedades ampliadas não sejam geradas automaticamente, pelo simples fato de que ocorreu uma mudança estrutural, elas ainda podem ser criadas politicamente, através de intervenções políticas de esquerda. Estas, como disse antes, precisam rejeitar firmemente os jogos táticos-assustadores que o liberalismo desempenha com a palavra “populismo”. Sem medo dessa palavra, e determinados a conquistar aqueles que estão agora atraídos por suas variantes de direita, devemos montar nossa própria crítica de esquerda estrutural-sistêmica do neoliberalismo progressista e nossa própria visão transformadora de uma alternativa emancipatória. Rompendo definitivamente tanto com a economia neoliberal quanto com as várias políticas de reconhecimento que ultimamente lhe deram suporte, devemos abandonar não apenas o etnonacionalismo excludente, mas também o individualismo liberal-meritocrático. Somente unindo uma política de distribuição fortemente igualitária a uma política de reconhecimento substancialmente inclusiva, sensível à classe, podemos construir um bloco contra-hegemônico capaz de nos levar além da crise atual, em direção a um mundo melhor.

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/581999-uma-feminista-propoe-repensar-a-esquerda

O nepotismo no Ministério das Relações Exteriores de Angola

O Ministério das Relações Exteriores (MIREX) desmentiu ontem informações postas a circular nas redes sociais segundo as quais altos membros da Direcção do Ministério das Relações Exteriores estariam a admitir familiares e amigos para o quadro daquele  Departamento Ministerial.

Um pormenor da 7ª reunião de embaixadores realizada este ano em Luanda
Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro

Segundo uma nota do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa, a abertura de novas vagas no MIREX, como em qualquer outra instituição pública, tem como pressupostos fundamentais a disponibilidade de dotação financeira por parte do Ministério das Finanças e ao processo de funcionários que passarão à condição de reforma, abrindo, assim, novas vagas internamente. O MIREX esclarece que está a levar a cabo o processo de reforma e de redimensionamento do pessoal interno e das Missões Diplomáticas e Consulares, tendo sido regularizados, junto do Tribunal de Contas, processos de 54 funcionários que se encontravam em regime de Contrato a trabalhar no Mirex desde 2014.
Os referidos funcionários, acrescenta a nota, foram admitidos, nessa condição de vínculo precário, pelas anteriores direcções do MIREX.
A nota explica que recentemente, pela primeira vez no MIREX, foi realizado um concurso interno, com a participação de 180 funcionários, para a rotação dos quadros diplomáticos e administrativos, cujos resultados são de conhecimento de todos os funcionários.
Desse processo, acrescenta, alguns funcionários, com mais de 20 anos de serviço, tiveram ajuste na categoria, de modo a adequar as funções que exercem nas Missões Diplomáticas e Consulares, assim se fazendo justiça.
O Ministério das Relações Exteriores informa que dará continuidade ao processo de reforma, quer nos Serviços Executivo Internos, quer nos Serviços Executivo Externos, aplicando as medidas anunciadas e aprovadas em assembleia de trabalhadores, realizada no dia 15 de Março deste ano.
A nota alerta que o processo de re-forma em curso  tem vindo a “inquietar” alguns funcionários que,  descontentes, resistem à mudança e, sob forma de anonimato, usam as redes sociais tentando pôr em causa o trabalho que está a ser realizado.
Em Maio deste ano, o Presidente João Lourenço avisou que não vai tolerar o nepotismo praticado por quadros responsáveis do Ministério das Relações Exteriores ou chefes das missões diplomáticas e orientou o ministro a afastar “funcionários sem qualificações, nomeados apenas por serem familiares ou protegidos deste ou daquele político”.
A medida, disse o Presidente da Re-pública ao discursar na abertura da oi-tava reunião anual de embaixadores, a primeira do mandato do actual Executivo, deve-se à necessidade de inaugurar uma nova era no sector, marcada com a redução das missões diplomáticas e consulares e a consequente diminuição do pessoal.
João Lourenço afirmou na altura que a escolha dos que vão regressar ao país e os que ficam nas Embaixadas depende do mérito. “Queremos inaugurar uma era de maior responsabilização, onde não toleraremos a má gestão financeira e patrimonial ou ainda o nepotismo”, disse o Presidente, sublinhando que são “medidas corajosas, mas necessárias”.
“Esta é uma oportunidade que o senhor ministro, com certeza, não perderá para mexer naqueles funcionários sem qualificações, que foram nomeados apenas por serem familiares ou de alguma forma protegidos deste ou daquele político”, acrescentou o Presidente, que pediu a todos os que trabalham directamente com os fundos do Ministério, uma “gestão parcimoniosa e exemplar dos fundos e do património da instituição”.
“Pretendemos ver um Ministério das Relações Exteriores organizado e funcional, onde se respeite a carreira diplomática”, sublinhou.